quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Uma tarde de compras

A tarde de hoje foi dedicada ao consumo. Sim, porque uma menina não pode gostar só de livros: também lhe faz bem gostar de tardes de compras, de sapatos e afins, de esmiuçar as prateleiras das lojas para ver o que por lá há. É uma actividade bastante cansativa, como qualquer mulher bem saberá, mas que faz milagres por nós. Uma tarde sem pensar em trabalho, em alunos e em leituras por fazer é verdadeiramente terapêutica!

Assim sendo, como resolvi oferecer à minha pessoa um miminho consumista, a tarde resultou em mais dois pares de botas, uma saia, duas camisolas, uma blusa, umas meias todas fixes, um par de luvas e um conjunto de pulseiras. Ainda fui à Sephora buscar o presente de aniversário que me ofereceram: um leite hidratante para o corpo. Muchas gracias!


Nota da autora: Quando o meu moço vir as botas peludas, aparentadas com pantufas, dá-lhe um fanico. Desculpa, amor, mas foi mais forte do que eu...

Coisas preferidas VII

Estou apaixonada pelos anúncios da promoção de Natal deste ano da Vodafone. Aquele perú a debicar bolo rei ou a vestir uma camisola tem-me arrancado umas saborosas gargalhadas. Contudo, há um que prefiro de entre os outros: aquele em que o bichinho oferece ao senhor rouco uma meia das suas. Na televisão só ainda o vi uma vez, por isso deixo-o aqui que eu não quero que saiam deste blogue pouco esclarecidos.


Para mim não, obrigada...

Tenho para mim que antes preferia ser submetida a uma sessão de chapadas do que vestir algumas das peças de roupa que me dizem que são fantásticas e muito na moda.


(Jumpsuit à venda na H&M)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Coisas preferidas VI


Não pretendo fazer publicidade, mas uma das minhas coisas favoritas neste mundinho de Deus vem da pastelaria que tem este logotipo. Se há coisa que me faz emitir jactos de baba (bela imagem) são os palmiers cobertos desta pastelaria na Estrada de Benfica. E só para que vejam como estes bolitos são bons, vou confidenciar-vos um pormenorzito sobre mim: não gosto de palmiers. Ou não gostava, até conhecer estes.

São enormes, cobertos com uma camada fininha de creme de ovos que por sua vez é coberto com aquela calda de açucar (suponho que seja isso) típica dos palmiers cobertos. E como não são nada forretas, os senhores pasteleiros também colocam caldinha do outro lado do bolo (o que é raro). É bom, mas bom, mas bom!

Aconselho todos os que possam a darem um pulinho à Estrada de Benfica para provarem esta iguaria maravilhosa. Gosto tanto deles que este ano quase levei o pessoal cá de casa à loucura nos meus anos. É que entendi que não queria encomendar o típico bolo de aniversário, com creme de ovos e massapão. Qual era a minha brilhante e peregrina ideia? Empilhar uma quantidade generosa destes palmiers e espetar-lhes as velas em cima: em vez de fatias, cada pessoa tinha um ou mais palmiers por sua conta. Genial! Uma doideira, mas das boas! Contudo, fui delicadamente convidada a abdicar desta minha ideia por «não ter jeito nenhum». Pois aviso aqui que ninguém ma tira da cabeça e que na véspera de Natal irei à Nilo comprar uns vinte palmiers e empilhá-los. E só não faço deles árvore de Natal porque chegava ao dia 25 de Dezembro com ela no estômago!

Não compreendo

Em França, morreu uma criança de três anos porque o pai a castigou. Aparentemente, o miúdo rasgou um desenho que fez na escola e o pai achou que essa era razão suficiente para colocar o filho na máquina de lavar e ligar o programa de secagem. Já não seria a primeira vez que o fazia e, segundo consta, também tinha o costume de fechar o filho em armários, para o punir.

Não sei comentar uma coisa destas. Não consigo compreender que caminhada fez o ser humano para chegar até aqui. Só consigo pensar que toda a nossa admirável evolução foi tempo perdido.

Fotografias

Por causa de toda esta azáfama arrumadora que me deu nos últimos dias (e que hoje, apesar de as estantes já estarem compostas, continuou), deparei-me com álbuns de fotografias tiradas quando eu era uma teenager maluca e não pude deixar de sentir um sabor muito agridoce (mais "agri" do que doce) ao folheá-los.

Para quem segue o blogue e me conhece, reencontrei fotos da visita de estudo que eu e os meus colegas do secundário fizemos, no ano 2000, à Herdade das Parchanas, em Alcácer do Sal (se não me engano), da visita de estudo às ruínas romanas em Santiago do Cacém, da visita de estudo ao Palácio Nacional de Mafra, da visita de estudo à zona mais antiga de Lisboa (Panteão Nacional, Mosteiro de São Vicente de Fora, Sé e Castelo de São Jorge) e do jantar no final do 12.º ano, onde também estiveram algumas professoras. Revi fotos de idas à praia com companhias de outros tempos. Vi-me escarranchada em cima de motas que já quase esqueci.

Reencontrei fotos das férias em Lagos com um grupo de amigas que se foi separando até não restar muito mais do que uma, dos passeios que demos juntas ainda durante os tempos do curso, dos almoços e jantares de aniversário... Enfim: imensas memórias guardadas em caixas e para ali esquecidas até que três estantes as fizeram aparecer e ser olhadas.

Ali estavam tantas caras que nunca mais vi, outras que se fazem lembrar pelas piores razões, muitas de que gostava de saber o rumo, algumas que me fizeram feliz, umas quantas que me desapontaram, tantas de quem tenho saudades. Naqueles tempos, não tinha a noção de que viria a ter vinte e seis anos, de que já não iria ser aquela miúda estouvada com talento para dizer coisas bonitas, mas com muito pouco jeito para se libertar do que a prendia. Não imaginava que um dia fosse ser adulta e que já não me fosse permitido andar pela rua a berrar o «I'll survive» com as minhas amigas. Não fazia a menor ideia de que deixaria de ter aquele corpo franzino e de que o trocaria por outras curvas. Não podia supor que aqueles amigos que aparecem ao meu lado nas fotos iriam às suas vidas, esquecendo o meu nome, o meu rosto e tudo o que me dissesse respeito. Não acreditava que tantas dessas pessoas, apanhadas por um flash em momentos divertidos, me diriam coisas tão feias, como veio a acontecer. Na realidade, achando que já sabia tudo, aquela miúda loira das fotos não sabia nada. Era uma tonta meio perdida, de mão dada com muitas coisas e pessoas que não valiam a pena.

Percebi que aquela que está nas fotos não sou eu. Se hoje aquela rapariga voltasse, não me conheceria e muito menos gostaria de mim. Sou tudo o que ela não queria de ser, porque ela queria divertir-se sempre, ela não pensava nas consequências, ela ria-se até lhe doer o rosto, ela chorava até desidratar, ela vivia tudo muito intensamente (e tinha motivos de sobra para isso), ela queria o que e quem não podia ter, ela estava condenada. Eu sou, no fundo, o que ela pôde ser. Sou os cacos colados depois de tudo se ter partido.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um mal comum

Eu nem sou nada dorminhoca, mas quando penso que amanhã tenho de me levantar cedo, apetece-me esconder-me debaixo da cama e ficar por lá. E esta tendência piora em proporção à descida da temperatura. Quanto mais frio faz, mais me apetece transformar-me num urso gordo para hibernar durante uns bons meses. Note-se, repito, que não sou dorminhoca e que o Outono e o Inverno são as minhas estações favoritas, mas o frio é bom para estar enroscadinha a beber chá e a ler clássicos, não para acordar cedo e ir logo para a rua apanhar com o orvalho matinal.

Mas, afinal, não será este um mal comum?


Venham mais estantes

E pronto: arrumações feitas. Sobraram livros pelo chão e uma brutal dor de costas. Acho que nunca vou conseguir ter todos os livros desta casa arrumadinhos em prateleiras, mas pelo menos consegui tirar umas centenas do meio do caminho.

Apesar de ser extenuante, gosto de arrumar estantes. Revejo livros que já nem lembrava que tinha e acabo sempre a pensar que ainda me falta ler muitas coisas. No fim fico a olhar para as estantes cheias com um sorriso estúpido: se há imagem de que gosto, é a de uma estante com prateleiras a abarrotar.

E como sei de mais alguém que também gosta dessa imagem, deixo aqui as fotos do resultado de dois dias de arrumações.






E para terminar, uma foto de um senhor muito especial:


(Percebem por que razão estou estourada?...)

Em arrumações

Minha gente, as quixotadas andam meio paradas porque esta casa anda em «mudanças» e quanto mais arrumo e encaixo, mais encontro para arrumar e encaixar. É uma doideira! Acho que vou começar a vender alguns livros que andam tristonhamente cá por casa sem serem lidos ou sequer abertos, só para não ter de encontrar lugar para eles.

domingo, 27 de novembro de 2011

Podia ser milionária se...

...por cada livro que arrumei hoje e que terei de arrumar amanhã tivesse uma nota de cinco euros.

Resolvi abrir os cordões à bolsa e comprar mais três estantes cá para casa. Hoje só consegui encher a primeira, por isso amanhã há mais. O problema é que acho que a trabalheira que esta estante me deu vai garantir-me dores musculares para o resto da semana. Vamos lá ver se amanhã me levanto da cama ou se, pelo contrário, vos escrevo umas quixotadas em directo do vale de lençóis.


Um bom Domingo

Isto hoje foi assim...








... E soube mesmo bem.

sábado, 26 de novembro de 2011

Poetas e ferraduras


Num teste do 12.º ano, uma menina disse que Fernando Pessoa era «ferreiro de profissão». Das duas uma: ou eu ando a falar chinês e ainda não dei conta, ou os auxiliares de estudo já não são o que eram no meu tempo...



Dor


Hoje o Expresso traz esta notícia. Apenas li o que está na capa e que aqui reproduzo porque não comprei ainda o jornal, mas estas oito curtas linhas são suficientes para me deixar bastante triste. Já sabia que isto acontecia, já não é novidade para mim que alunos do ensino superior tenham de escolher entre pagar fotocópias e comer, mas não deixa de me entristecer o facto de isso acontecer num país europeu e no século XXI.

Todos sabemos que ir para a universidade vai sendo cada vez mais um luxo. As propinas são ridiculamente caras, os materiais também, os transportes só aumentam e a alimentação, despesa de que não se consegue fugir, consome boa parte do orçamento dos estudantes. Aliás, devia consumir, mas parece que não. Compreendo que os alunos deslocados passem por dificuldades acrescidas, mas acho inaceitável que jovens nas universidades tenham de escolher entre comer e fazer fotocópias ou imprimir os trabalhos. Percebo que atravessamos uma crise (aliás, quando é que não atravessámos uma crise?), que não há dinheiro, que as coisas não estão fáceis em nenhuma área, mas custa-me a compreender o que se passa com a educação. Estes jovens, que estão a fazer um investimento no seu futuro (a quem depois o país fará um manguito e mandará para o estrangeiro), merecem ser bem tratados. Ninguém merece ter de escolher entre o jantar e um livro.

Parte-me ainda mais o coração ver que, juntamente com estes estudantes que passam por tal situação, frequentam o ensino superior aberrações que vão para a faculdade para estarem no bar desde que abre até que fecha, que levam (eu já vi isto) as suas PSP e ficam na esplanada a jogar, que só querem saber de praxes e de borgas, que não passam cartão nenhum às aulas e para quem ter um dez de nota final é o mesmo que ganhar o euromilhões. E mais: muitas vezes estes desperdícios de oxigénio recebem bolsas de estudo para o fazerem. No meu tempo havia uma aluna que recebia mais de trezentos euros de bolsa e que depois fumava que nem um cavalo e passava doze horas no bar da faculdade (juro!) a jogar às cartas.

Há dinheiro mal distribuído e há pouca fiscalização no emprego do dinheiro. As faculdades estão com as finanças cada vez mais apertadas e de pouco podem valer aos seus alunos. O Governo também já acha que faz o suficiente e que mais não pode. E no meio deste «eu não posso fazer nada e tu também não» há gente de carne e osso a fazer sacrifícios que, muito sinceramente, não sei para que servirão, num país onde quem tem cérebro tem de ir para fora. Dói ver isto a acontecer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Mais coisitas novas

Hoje a menina teve de ir tratar de uma burocraciazita. Ora, como até é pecado entrar e sair da estação de metro do Colégio Militar sem um airoso pulito ao Colombo, lá fui eu procrastinar durante mais umas horas e fugindo assim da pilha de testes que ainda me espera.

Antes de mostrar as minhas coisinhas novas, deixem-me partilhar convosco um facto que me perturbou. Tendo corrido todas as lojas de roupa da praxe e saindo sempre de mãos a abanar, fiquei enojada com o tamanho da cintura de umas calças 38 que vi na Zara. As ditas calças não teriam mais de vinte centimetros de largura na cintura e eram, repito, um 38. Como raio é possível que isto seja permitido? Isso e a mania de fazer calças de ganga que até têm cinturas normais mas cujo segmento que vai do joelho para baixo é tão estreito que não há perna humana com chichinha à volta do osso que caiba naquilo. Mas estas lojas esperam o quê? Que venhamos todas para casa vomitar o almoço para conseguirmos caber naquilo? O problema é que eu, com vinte e seis anos, vejo que tais peças de roupa não são anatomicamente usáveis, mas não sei se uma miúda de catorze chega à mesma conclusão. Enfim... Hoje em dia já não querem que sejamos mulheres: querem que sejamos caniços.

Pronto. Manifestada que está a minha indignação, já posso mostrar os novos habitantes desta casa. Não é roupinha porque não gostei de nada do que experimentei. Também não são sapatitos porque nada me fez lançar faíscas de alegria pelos olhos (juro que às vezes, quando vejo uns sapatos bonitos, chego a parecer aqueles foguetes que se usam para pedir auxílio em alto mar). E apesar de ter visto umas pulseiras de que gostei (coisa raríssima, minha gente, raríssima), também não as comprei porque a fila era enorme e não me apetecia esperar.

Resultado: mais livros. Que eu sou assim: dez horas para comprar uma peça de roupa que ame e minuto e meio para arranjar dois livros novos. Cá estão eles:


Ora, aí está o belo do José e Pilar: Conversas Inéditas, um livro que reproduz algumas das conversas que não foram incluídas no documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes (e que todos torcemos para que venha a ser nomeado para um Óscar da Academia) sobre José Saramago e a mulher, Pilar del Rio. Ouvi dizer que ele fala, a dada altura, de D. Quixote. Alegria! Júbilo! Histeria!

Mudam-se para esta casa, também, os dois volumes de Os Pilares da Terra, de Ken Follet, que vêm numa caixa catita e que estavam a um preço mesmo deslumbrante (ao qual ainda se acrescentaram outros dois descontos inesperadamente avantajados, devo dizer).

E pronto: estantes desta casa, amanhem-se, desenrasquem-se, façam o que quiserem, mas arrumem-se de modo a receberem com dignidade estes senhores!

Ricardo Reis, um ordinário?


Segundo os meus alunos, a relação do heterónimo Ricardo Reis com a sua Lídia é tão desprendida que é mais uma curte do que um namoro, já que ele não quer nada sério. A isto respondi aos meninos que então, seguindo o seu raciocínio, se Ricardo Reis tivesse Facebook, na parte do estado civil teria de colocar «É complicado».

E eis como, de repente, transformámos um pacato heterónimo num tipo mais ou menos promíscuo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Calor


Minha gente, já viram aquela que vai ser a capa da GQ de Dezembro? Eu já e admito que fico aflita sempre que olho para ela. A foto da Iva Domingues ao colo do namorado está poderosa, sensual, gira e mais uma série de adjectivos bastante positivos. Uma pessoa bem quer desviar os olhinhos, mas tem tantas dificuldades. Enfim... Está um certo calor aqui, não está?...

Pedido desesperado da autora às divindades: Na próxima vida também quero ser assim jeitosa! 

«E agora, José?»


Estou a ver na televisão imagens dos jovens que se encontram à porta da Assembleia da República e devo dizer que, estando aqui, estou com eles. Não defendo a violência, não acho que seja por aí que se chega a algum lado, mas percebo que ela surja. A raiva, a impotência e a incapacidade de ver para além do momento em que vivemos fervilham já há muito tempo, sem que isso se tenha ainda concretizado em qualquer acto menos pensado. Mas creio que todos nós, mesmo que não o admitamos para os outros, acreditamos que ela chegará, fruto de uma revolta com que nem todos conseguirão lidar.

Entrei no ensino superior em 2003, sabendo que as perspectivas de futuro já não eram brilhantes (especialmente para mim, que queria pertencer àquela classe profissional que todos alardeavam que estava muito mal), mas pensando que o diploma não perde a validade e que um dia a oportunidade havia de chegar. Pois bem, fiz vinte e seis anos há uma semana e já não sei o que diga. Vejo que agora já não se fala só na situação dos professores porque nos dias que correm todas as profissões experimentam grandes dificuldades. Já ninguém me diz com asco «Ah, coitadinha, vais ser professora?» pela simples razão de que no campo profissional já todos somos coitadinhos.

Não vejo futuro. Não estou na «minha cadeira de sonho», nem lá perto. Mas também, se aos vinte e seis anos já lá estivesse, que objectivos poderia eu ter para o resto da vida? Percebo que a vida profissional é uma espécie de monte a escalar. O problema actual é que parece que cortaram o monte e que nós, geração dos vinte e trinta, andamos ali às voltas a olhar para o chão e a pensar onde raio nos havemos de agarrar. E os nossos pais, geração que lutou para nos dar condições, põem-nos a mão no ombro e levam-nos de volta para a casa deles, de onde parece que não sairemos tão cedo.

Por isso, embora ache que o dia de hoje não vai mudar nada (uma vez que há um caminho de sacrifício a percorrer, não havendo quaisquer atalhos à vista), compreendo a luta, compreendo a perda de paciência, percebo o surgimento de actos irreflectidos. Espero, contudo, que saibamos todos manter a calma e continuar a luta de forma pacífica. Também me custa ter esperança, mas por enquanto resta-nos pouco mais do que isso.

Deixo-vos um poema de Carlos Drummond de Andrade que repete a pergunta que me faço todos os dias quando me percebo no fundo de um buraco que não abri. Creio que todos os jovens se perguntam quase diariamente «E agora?» e o que entristece é que não sei quando saberão, nem quando eu própria saberei responder a esta pergunta...

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

                    Carlos Drummond de Andrade

Pensamento desnecessário do dia

Por causa do texto de há umas horas sobre o Dia de Acção de Graças pus-me a pensar no medo que os perús devem ter desse dia e, como pensamento parvo puxa pensamento parvo, cheguei à seguinte ideia: vocês já imaginaram o pânico que um bacalhau deve sentir quando vê um português?...

Dia de Acção de Graças versus Greve Geral


Diz que hoje é Dia de Acção de Graças nos Estados Unidos e eu pus-me para aqui a pensar que seria muito lindo se essa tradição norte-americana fosse copiada aqui pelo nosso país. Calma, que a menina justifica! Ora, se se copiou uma coisa como o Halloween, com o seu camadão de bruxas e de doces ou travessuras, não era muito mais catita importar esta mesa farta, cheia de coisinhas apetitosas e que só de serem vistas deixam uma pessoa aflita?

É que, vejamos, nós não somos lá muito bons nisso do Halloween. Parece que o nosso Dia das Bruxas é um parente pobre e muitíssimo esfarrapado do original americano. Aliás, vendo algumas reportagens sobre as festas que se fazem na noite de 31 de Outubro, cheira-me tudo bastante àquele acontecimento pretensamente exotérico que se realiza em Vilar de Perdizes todos os anos. Não temos talento para esses terrores, não adianta. Deixemos, pois, o Halloween para os americanos que sabem bem o que fazem e que têm toda a indústria do cinema de Hollywood a dar-lhes ideias para fatos e para personagens a reproduzir.

Contudo, o Dia de Acção de Graças é daqueles feriados que se eu não soubesse que é de origem americana, diria que poderia perfeitamente ter raízes lusitanas. É que encher uma mesa de comida e juntar toda a gente à sua volta a enfardar como se no dia seguinte fosse chegar o apocalipse parece-me bem uma coisa que nós, portugueses, faríamos. E note-se que não o digo com qualquer sentido pejorativo, mas sim precisamente com o sentido oposto. É que se há gente boa a organizar festas que envolvem toneladas de paparoca boa e de depois passar dias a comer os restos, esses somos nós.

Além disso, o Dia de Acção de Graças (ou o Dia-Fujam-Perús-Que-Eles-Vêm-Aí) decorre praticamente a um mês do Natal e eu acho que a nós caía-nos bem uma festarola dessas por estes dias, como que para inaugurar o marcador das festas de final de ano. Desde a Páscoa, que já foi há demasiado tempo para eu me lembrar do mês, que não temos uma comezaina das boas, daquelas em que a maior parte do país pára para enfardar e isso entristece uma pessoa.

Por isso gostava muito que este dia 24 de Novembro de 2011 fosse, em vez de dia de Greve Geral, Dia de Acção de Graças. Sempre era mais giro parar Portugal para comer uma suculenta coxa de perú do que para isto... que no fundo é nada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Memórias a mudar

Sei perfeitamente como foi o dia 23 de Novembro de 2000 e provavelmente nunca me esquecerei de nenhum dos seus minutos até ao fim dos meus dias. É isso uma coisa boa? Não sei. Sei que estive aqui e que gostava de voltar, agora com outra companhia e fazendo uma nova memória.

Procrastinando que nem uma maluca


Já imprimi grelhas de avaliação, já furei as folhas para pôr no dossiê, já arrumei a pasta, já fui ao Facebook (cerca de doze vezes), já li as minhas últimas publicações no blogue, já li as de outros blogues, já fiz um chá, já bebi o chá, já arrumei o ambiente de trabalho, já fui vestir um casaco, já procurei a minha caneta preferida, já fiz uns rascunhos para ver se escrevia, já vi o início dos noticiários, já empilhei os livros de que precisarei amanhã, já li mais umas páginas do Expresso, já vi o episódio de Downton Abbey que tinha gravado, já tomei uma aspirina, já arrumei a roupa que tinha espalhada, já fui procurar as pantufas, já as calcei, já pus creme nas mãos, já me sentei no sofá, já escrevi este texto.

Estou cansadíssima e ainda nem comecei a corrigir os testes!

Manifestai-vos!



Não, amiguitos, não vem aí um incentivo à greve de amanhã. Vem aí, sim, o apelo que nasce de uma curiosodade que tenho. Segundo consta, desde o início do blogue «As Minhas Quixotadas», já alguém me leu na Rússia, na Alemanha, em Espanha, na Holanda, no Reino Unido, no Brasil, nos Estados Unidos da América e em Angola. Nenhum de vocês se quer manifestar e apresentar a sua opinião relativamente às quixotadas que por aqui vão saindo? Quem são vocês, minha gente?!

Ainda o Auto da Barca do Inferno



Sabem quantos tipos de cómico existem no Auto da Barca do Inferno? Se me vão responder que são três, fiquem sabendo que, de acordo com os meus alunos, estão errados. No seu entender são quatro:

- cómico de linguagem;
- cómico de situação;
- cómico de carácter;
- cómico de estupidez.

Ah, e já agora: o Diabo, apelidado de «cornudo» por algumas personagens, só tem um «corno» e, por isso, é aparentado com os unicórnios. Se não sabiam, ficam também a saber.

É tão bom prestar um serviço didáctico neste blogue!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os meus queridos «cromos»

Estava para aqui a pensar no tema que havia de escolher para brindar os meus catorze leitores (sim, minha gente, o ritmo tem abrandado) e dei por mim a pensar no programa diário do Nuno Markl na Comercial, a «Caderneta de Cromos». Para quem vive noutro planeta, informo que o que o Nuno Markl faz é dedicar alguns minutos diários a coisas que a nossa memória deixou pelo caminho, mas que fizeram parte da nossa vida nas décadas de 70 e 80 do século XX. No meu caso, nascidinha em 1985, constato que  muitos dos temas de que ele fala fizeram parte da minha infância. De alguns já não me lembrava, de outros tinha saudades e pensava ser a única a recordá-los. Com o seu programa fiquei a saber que o que não falta é gente nostálgica que recorda com saudade brinquedos, desenhos animados, alimentos, séries, canções, anúncios, personagens e tantas outras coisas que estiveram na ribalta há mais de vinte anos.

Ao pensar nisto, decidi que hoje iria recordar aqui no blogue algumas coisitas das quais tenho saudades e que fizeram parte da minha meninice e talvez da vossa, meus queridos catorze leitores. Ora então vamos a isso?

Comecemos pelo saudoso amigo peludo Alf, um extraterrestre que caiu em cima da garagem de uma típica família americana e que por lá ficou a viver, a devorar tudo o que apanhava pela frente (o gato dos Tanner escapou por um triz, diga-se), a fazer astronómicas contas telefónicas e a causar estragos irreparáveis na casa onde vivia. Acho que na altura em que a série passou (finais da década de 80) desejei, com todas as forças do meu ser, que um Alf peludinho como aquele caisse no telhado cá de casa. Mas também, quem não quereria aquele extraterrestre ternurento e destravado a dar sonoras gargalhadas diariamente no seu lar? Eu sei que queria, mas nunca nenhum se despenhou no meu prédio. Pouca sorte.


De vez em quando recordo-me de uma revista que recebi na escola e que tenho muita pena de não ter guardado. Lembro-me de que tinha umas bonecas destacáveis em papel e roupinhas, também de papel, que aplicávamos na frente da boneca e, assim, iamos mudando o seu visual. A figurinha era muito rústica e com roupas já na altura muito diferentes das que usávamos em 1990. Não guardei a revista mas retive o nome da bonequita: Holly Hobbie. Creio que os textos estavam todos em inglês e, portanto, nunca cheguei a perceber o que lá estava escrito, já que quando aprendi as primeiras palavras nessa língua, a revista já tinha desaparecido havia muito. Contudo, diverti-me durante horas com aquela figurinha de papel que tinha tantas roupinhas diferentes. Pela sua aparência arcaica (a anos luz das exageradamente sexys bonecas de hoje), criávamos um mundo perfeitinho de meninas que tomavam chá e regavam flores. Uma seca para as miúdas de hoje, mas um gozo enorme para nós. Aí fica a Holly Hobbie, para quem não se lembra. Ah, a cara via-se-lhe poucas vezes, parece-me.


E no que à paparoca diz respeito, durante os primeiros dois anos e meio de escola primária (na qual entrei em 1991) a minha mãe ia levar-me o lanche ao recreio. Aqui o, na altura, pisco não conseguia comer durante o intervalo o lanche que a escola já na altura fornecia a toda a gente. Então ela levava-me um bolinho, ou um donut, ou um bollycao (tudo coisas docinhas e deliciosas!), dos quais eu comia aproximadamente 1/5. Era realmente um pisco, ainda que amasse aqueles lanches memoráveis. Recordo-me do dia em que a surpresa consistia numa caixa de donnettes, da qual não devo ter comido mais do que dois. Mas não interessa.  Hoje lembro-me com saudade desses tempos em que o intervalo era tempo de brincadeira e de doces. Ah, e note-se o seguinte: como eu comia sempre pouco, a minha mãe partilhava o restante com um menino da minha sala que não podia receber miminhos destes. Boa, mãe!


Alguém se recorda do Spirograph? Era um jogo que nos punha a desenhar espirais em cima de espirais e a fazer aquilo que na altura seria uma obra de arte às voltinhas. Basicamente consistia numa série de encaixes em plástico onde colocávamos uma folha de papel. Depois, fazíamos uma roda dentada com furinhos (onde enfiávamos o bico da caneta) girar dentro de uma armação circular também ela dentada. O resultado eram desenhos deste tipo:


Fiz várias deste género e mais elaboradas, mas nunca fui grande coisa a desenhar espirais. Às tantas o braço descarrilava, os dentinhos da roda deixavam de encaixar na armação onde deviam girar e pimbas: um desenho que prometia ser qualquer coisa acabava feito em coisa nenhuma. Devo dizer que guardo e guardarei para sempre o meu Spirograph, oferecido pelo meu pai num qualquer aniversário. Pode ser que os meus filhos venham a ser melhores do que eu na nobre arte de desenhar espirais.

Durante anos, para aí desde 1990, o meu brinquedo preferido foram as pecinhas da Lego e as possibilidades infinitas de entretenimento que garantiam. E, com alguma nostalgia, lembro-me perfeitamente de que foram estes bloquinho os últimos brinquedos com que brinquei, antes de decidir que já era crescida demais para isso. Quando teria uns cinco anos, o meu pai (ele dava-me os brinquedos e a minha mãe dava-me a roupa) ofereceu-me uma caixa da Lego que eu ainda hoje guardo e de que não me desfarei nunca. Era uma caixa fabulosa já que as suas duas tampas amarelas serviam de base às construções que podíamos fazer. Para além dos blocos normais em vários comprimentos, a caixa continha portas e janelas, um menino (com o qual comparo ainda hoje muita gente que conheço...), uma hélice, peças com olhinhos, uma árvore e mais uma série de coisinhas fixes. Muitas vezes pedi eu à minha mãe que recriasse as casinhas que vinham reproduzidas na caixa de cartão que servia de embalagem à caixa de plástico. E quantas vezes lhe pedi eu que contasse as peças para ver se não tinha perdido nenhuma. Foram horas e horas de brincadeira. Foi com as peças da Lego que comecei a dar aulas: reproduzia uma sala de aulas, ia buscar os coelhinhos e gatinhos que me saíam nos Kinder Surpresa e eis os professores e os alunos daquela escola em miniatura. Foi o brinquedo que mais feliz me fez.

(A caixa era exactamente igual a esta.)

E antes que vocês me mandem calar, digo eu que hoje fico por aqui nas memórias de infância. É incrível como o tempo remete estas pérolas para o fundo da nossa memória, mas ainda é mais fabuloso o facto de bastar apenas um esforço para recordarmos quase tudo aquilo que tão feliz nos fez. Estes são os meus «cromos», os que eu gostaria de colar numa caderneta para evitar um esquecimento definitivo. Vocês terão os vossos e se pararem para pensar um pouco nos brinquedos ou nas bolachas que vos fizeram felizes quando eram pequenos, vão ver que passarão uns momentos tão agradáveis como os que eu vivi ao recordar todas estas coisas.


Coisas preferidas V


Faço uma profunda vénia a esta senhora. Na verdade é quase uma menina, mas canta como uma verdadeira senhora do Fado. Arrepio-me cada vez que a ouço cantar este tema, tanto pela letra quanto pelo sentimento que ela coloca em cada verso da canção. Creio que será uma das músicas da minha vida, e isso ganha significado por tratar-se de um Fado: a música mais portuguesa de todas e da qual nos devíamos orgulhar muito. Esta semana mais do que nunca, torço pelo Fado a Património Mundial da UNESCO.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Listinha para o Natal III



Ando a namorar estes dois meninos e folgava muito em descobri-los sob a árvore de Natal este ano. Não sei se o «Orçamento Pai Natal 2011», apresentado e aprovado por maioria em assembleia de duendes e renas, pode custear estes meus pedidos, mas espero que sim. Tenho sido uma boa menina, porto-me bem e sou simpática, portanto espero ser ressarcida por todo esse esforço.

Sobre o primeiro livro nem é preciso dizer nada porque o nome do autor é mais do que suficiente para atestar a qualidade dos contos. Sobre o segundo posso apenas dizer que o enredo decorre num hotel decadente no período que se seguiu à I Guerra Mundial. Alguns hóspedes habitam aquele difício em risco de desmoronamento, entretendo-se com boatos e partidinhas de whist. Pelo meio envolve gatos e leitões à solta. Promete, portanto. Resta, ainda, dizer que este livro ganhou, quarenta anos depois, o Lost Man Booker Prize. Em 1970 nenhum volume ganhou o Man Booker Prize devido a alterações no regulamento da entrega do prémio. Em 2008, foi escolhido um conjunto de pessoas cuja missão era colmatar essa falha, apontando uma curta lista de romances de 1970 que merecessem o galardão. Este senhor, J. G. Farrel, acabou por ser o escolhido e o volume foi publicado em português há uns meses pela Porto Editora.

Como vês, Pai Natal, estou mesmo interessada e até andei a pesquisar umas coisas. Agora faz o teu trabalho que eu já fiz o meu.

Nota da autora: As imagens foram retiradas da página da livraria online WOOK.


Desaires femininos e cães de água

Quem me conhece sabe que o meu cabelo sofreu uma profunda transformação nos últimos dois anos. De algo longo e semelhante a um fardo de palha seco e amarelo, passou a uma entidade com vida e com uma cor mais próxima daquela com que fui dotada à nascença. A cabeleireira que se mudou ali para o fundo da rua há uns três anos, quando me viu a primeira vez, de melenas longas e amarelas, quase foi buscar uma cruz e água benta para correr comigo do estabelecimento dela para fora. Os seus olhos espelhavam um medo que eu julgo ser aquele que sentimos quando vemos um espírito ou o próprio diabo. Ainda hoje ela me recorda do dia em que «ao lavar a cabeça, o cabelo saía para fora do lavatório de tão longo que era!». Eu, embaraçada, como e calo porque é verdade. Ninguém me mandava andar com aquele espalhafato em cima da cabeça, mas a paciência para tratar do assunto era pouca.

A dada altura ela lá me convenceu a chegar uma foice àquele fardo de palha de raízes escuras. Cortou o suficiente para ficar bem, pintou-o da minha cor natural (vieram-me lágrimas aos olhos, dá para acreditar?) e pespegou-lhe umas madeiras loiríssimas em cima. O processo levou ao todo mais de quatro horas. Andei dias e dias com dores no pescoço por ter estado muito tempo encostada àquela espécie de lavatório onde nos lavam o cabelo, senti dores no sim-senhor quase até ao final da semana porque, a brincar a brincar, estive lá sentada desde as 9:30 até às 13:45. Ainda assim, acabei por gostar do resultado, depois de um período de habituação.

Contudo, como sou uma miséria para estas coisas que tornam as meninas giras, andei quase um ano sem ir lá. Quando a cebeleireira me viu outra vez, percebi que não tinha vontade de ir buscar água benta nenhuma, mas sim um sarrafo para me dar com ele no lombo: a tinta amarela tinha, com o tempo, voltado a aparecer e a ofuscar as madeixas; as raízes estavam gigantescas novamente e das pontas é melhor nem falar, já que cada cabelo parecia um daqueles paus de dois bicos com que se procura água. Repetiu-se o trabalho todo novamente e saí de lá catitinha de todo, mas intimada a regressar de três em três meses para manutenção da coisa.

Tenho cumprido. Lá vou eu de três em três meses. Vinte centímetros ou mais de cabelo saltaram fora desde que lá fui a primeira vez. Agora é muito mais curto do que era nessa época, quando parecia que levava um yorkshire terrier morto no topo da cabeça. Vou lá e as pontas são sempre aparadas, as madeixas retocadas, o cabelinho hidratado. Saio uma brasa, modéstia à parte (deixem-me ter esse prazer, uma vez que sofro tanto com puxões, calor do secador, "golpes de coelho" aplicados pelo lavatório e críticas da profissional que acha sempre que eu não cuido lá muito da melena). Tenho sido feliz com aquelas mãos abençoadas que fizeram com que eu deixasse de me assemelhar a uma parente paupérrima da Shakira.

O problema surgiu na última vez que lá fui, há quase dois meses. A ideia era cortar as pontas espigadas e fazer madeixas. Pedi-lhe para escadear o suficiente para que não conseguisse prender o cabelo da frente atrás das orelhas. Ou seja: ia manter o corte que ela vinha fazendo desde que lá ia. Só que a senhora empolgou-se e cortou desmesuradamente. Como no fim esticou aquela bagunça toda, fiquei jeitosinha e lá fui para o casamento (onde, note-se, contraí varicela, para que se veja a minha sorte) contentinha da vida. Mas quando lavei o cabelo e a ondulação natural reapareceu... Foi como voltar a ver o Paranormal Activity I (o único de jeito). O meu pensamento foi, acreditem ou não, «Ok, minha menina, pagaste um balúrdio e agora pareces-te com um cão de água. E agora?». Isto acompanhado, claro, pelo meu orgulhosamente vasto repertório de palavrões. Resultado: há quase dois meses que parece que regressei ao ensino primário, usando fitinhas no cabelo de modo a tentar prender os cabelos da frente (aqueles que eu não queria que se prendessem atrás das orelhas...) o suficiente para enxergar onde ponho os pés.

Portanto é isto. Não só não tenho talento para ter unhas bonitas como consegui ficar, às mãos de uma excelente profissional, a parecer-me com um cão de água. Na próxima vez que lá for (e nas próximas quarenta e sete, provavelmente) fugirei das tesouras e limitar-me-ei a fazer a manutenção das madeixas. É que estou fartinha de me ver ao espelho e de só me apetecer ganir.


Luzes apagadas

Pois parece que este ano haverá menos luzes de Natal nas ruas de Portugal (excepção feita às da nossa bela ilha da Madeira, cujo presidente ainda não percebeu muito bem que o país está em crise...). Tenho pena porque uma das partes bonitas do Natal consiste em ver as iluminações das principais ruas de cada município. Para quem mora em Lisboa, faz parte da festa ir até à Baixa para ver os arcos, as bolas e os anjos de cores variadas que decoram a cidade por essa altura.

Mas este ano é diferente de todos, infelizmente. Não podemos queimar dinheiro dos municípios em electricidade (cujo I.V.A., este ano, aumentou bastante), quando é cada vez menor a ajuda que se consegue dar a quem passa fome, a quem não tem dinheiro para a medicação, a quem não tem emprego.

Claro que isto, como tudo na vida, tem o outro lado da questão. As iluminações natalícias nas ruas não existiam apenas como deleite para a vista. Eram, também, um chamariz para o comércio tradicional. Íamos até à Baixa (para dar um exemplo lisboeta), víamos as luzes e, inevitavelmente, as montras. Ainda que não fosse muito, as pequenas lojas sempre vendiam qualquer coisa. Ora, se as iluminações deixam de ser um chamariz, como conseguirão as lojas tradicionais salvar o seu próprio Natal?

Contudo, na Madeira gastar-se-ão 3 milhões de euros nas iluminações e no fogo de artifício de final de ano. E, ao que parece, esse dinheiro será retirado do orçamento para o ano que vem. Temos, portanto, mais um mau exemplo a vir de cima: gastar-se-á mal um dinheiro que ainda não se tem. Foi ou não foi a fazer isto que chegámos onde chegámos?

Portanto este Natal será menos luminoso, mas não é por isso que tem de ser mais triste. Menos luzes, menos cor, menos símbolos pelas nossas ruas talvez nos levem a procurar o verdadeiro significado do Natal e a perceber que era antes, quando a crise ainda não nos fazia cortar em nada, que andávamos a fazer tudo errado.

domingo, 20 de novembro de 2011

Coisas que odeio IV

Esta aura de fascínio em torno da maternidade que teve início com as "famosas", mas que já alastrou a muitas mulheres tão pouco conhecidas como eu é coisa que não compreendo. Não tenho filhos e isso é argumento que algumas mulheres poderão usar contra esta minha falta de sensibilidade para o entender. Até admito que um dia possa vir a mudar ligeiramente de opinião. Contudo, não acredito que venha a passar vinte e quatro horas do meu dia a falar do meu rebento, das estrias que ele me rendeu, do regresso à minha «antiga forma física», e das reais borradas que ele faz.

Minha gente, admito que um rebento nos mude a vida, a torne mais rica e nos faça aprender coisas que nunca julgámos vir a saber. Ainda assim, custa-me a perceber esta "moda" (porque me parece que é mesmo de uma moda que se trata) que faz as "famosas" passarem as entrevistas a falar sobre o modo como a gravidez está a ser vivida ou sobre as riquezas da maternidade ou, melhor ainda, sobre como os seus principezinhos são melhores do que os das outras. E os senhores que entrevistam adoram e exploram o assunto até ao enjoo. Correm atrás das figurinhas que estão grávidas para saberem como está a correr a coisa. Elas, babadas, derretem-se todas «Está a ser uma gravidez muito calma e vivida intensamente» (enjoo). Sabem que elas deram à luz e lá vão eles verificar se já estão boazonas outra vez. Caso estejam, pedem o segredo para tal feito, vindo de lá vem o invejável «Como de tudo: amamentar fez-me perder peso». Mas se, por outro lado, continuarem gordas que nem ursos antes do Inverno, logo vem a manchete «Não sei quantas está triste por ainda não ter voltado à antiga forma física» ou «Fulana, mais feliz do que nunca, luta para perder o peso da gravidez". Se já não lhes interessam as banhas da tipa, então voltam-se para as mudanças sentimentais que o rebento provocou, acabando por obter as lindas respostas «Ser mãe mudou a minha vida. Agora sou uma mulher completa. O meu filho ensina-me muitas coisas.» (vómito).

Mas o pior, o que é terrivelmente exasperante, é que há quem beba estas notícias e adore estes lugares-comuns sobre uma coisa que, ao fim e ao cabo, nos toca a todas mais ou menos do mesmo modo. Ou seja: ainda que o meu filho venha a ser único para mim, a experiência pela qual eu passarei será, no fundo, a mesma pela qual a senhora dona apresentadora, actriz ou manequim passaram. Contudo, não tenho de encher o saco dos outros com isso. O problema é que isto se alastrou e nos dias que correm vamo-nos apercebendo de que muitas mulheres desconhecidas adquirem este tipo de discurso e resumem a sua vida às "profundas mudanças espirituais" que o filho lhes trouxe. E acrescentam que nós, as pobrezinhas que nunca o viveram, não sabemos o que isso é e que, portanto, temos mais é que estar caladinhas.

Pois eu cá fico caladinha no meu canto desde que não me enfiem gravidezes felizes, partos idílicos, bebés de sonho e crianças perfeitas pelos olhos dentro quase diariamente. É que já não chegavam as senhoras que aparecem na televisão, para agora ter de comer esta papinha até nos transportes públicos. É dose!

Trincam-se velas e...?

Hoje apaguei, finalmente, as velinhas dos vinte e seis anos e, terminada a festa, ponho-me a pensar no que desejo para esta idade. Acho que, como toda a gente  nos dias que correm (e mais ainda por estarmos em crise), espero conseguir uma situação profissional estável e de que me possa orgulhar. Sou professora, formei-me para ser professora e gosto de ser professora, mas não gosto do tratamento dado a muitos professores em Portugal. Gostava, por isso, de poder fazer aquilo que sei fazer, embora noutras condições.

Há outras áreas de que gosto muito e nas quais me poderia sair bem. Amo o mundo dos livros e, consequentemente, o mundo editorial. Já fiz revisão de texto e gostei. Adorava experimentar trabalhar numa biblioteca e sentir de perto o ambiente criado pelos livros e pelos leitores. Também já fui livreira e foi uma das coisas que mais adorei fazer na vida. Em tempos sonhei ter uma escola minha, hoje sonho em ter a minha livraria. É um daqueles desejos que gostava de concretizar um dia, mas sabe-se lá...

Ao soprar as vinte e seis velas sei o que desejar, mas não sei o que virá. Ultimamente o campo profissional não me tem feito feliz. Oxalá tudo mude e para melhor. Sei que sou capaz de grandes coisas. Só faltam as oportunidades.

Talvez venha a hibernar



Não sei como raio consigo fazer isto, mas é um vício que pelos vistos não passa com a idade. De vez em quando (leia-se "frequentemente") consigo amontoar uma pilha assustadoramente alta de coisas que quero ler. Mas assim tão idiotamente gigastesca que só consegue aumentar e nunca diminuir. Neste momento, a pilha é composta pelos dois livros que permanecem à cabeceira (David Copperfield e D. Quixote); a revista Os Meus Livros deste mês; a revista Ler deste mês; a revista Sábado desta semana; a última edição do Jornal de Letras; o suplemento "Atual" do Expresso da semana passada e todo o Expresso desta semana.

Portanto é isto. Sinto-me tentada a hibernar, como o amiguito da foto. Aposto que ele não tem leituras em atraso...

sábado, 19 de novembro de 2011

A encher a piñata


Hoje prepara-se, cá em casa, uma festa de anos para duas pessoas. Portanto, amanhã a coisa promete ser estupidamente calórica. Mas vá, fazer anos é sempre razão para comemorar, ainda que a balança acuse o estrago uns dias depois (qualquer dia faço-a desaparecer....).

Portanto, caros espreitadores-do-blogue-mais-cool-de-todos-os-tempos, hoje estarei muito ocupada a tentar não me queimar em panela nenhuma (pois, pois), a provar as massas dos bolos e os doces enquanto ainda fervilham, a decorar (ou a destruir) as coisinhas que amanhã paparemos todos. O talento não é nenhum, note-se, mas valem a intenção e a diversão.

E depois desta azáfama culinária cá por casa, venha o ansiado jantar de aniversário, que a menina também merece.

Por isso, tenham um bom Sábado e aproveitem o sol que ainda vai aparecendo, não vá ele ser de pouca dura.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Coisas que odeio III


Chamem-me insensível, mas tenho problemas em aguentar aquilo que apelido de "ternurices" (eu sei que a palavra não existe, acalmem-se!). E o que é isso, perguntam vocês? Eu explico com todo o gosto. As "ternurices" são aquelas coisas que nasceram há uns anos entre amigas e que consistem em coisas mais doces que o gelado de stracciatella que tenho ali no congelador.

A "ternurice" mais óbvia, e que até os homens já devem ter percebido que existe, manifesta-se pela repetição do adjectivo "linda" durante um diálogo entre amigas, sendo utilizado com as mais variadas funções sintácticas: desde vocativo até predicativo do sujeito, serve para tudo. Essa "ternurice" é mãe de frases cheias de significado como «Ai linda, esse vestido faz-te tão linda! Aliás, tu és linda sempre.». Uma pérola, portanto.

Depois também temos a "ternurice" que faz com que o vocabulário português tenha sido enriquecido com mais uma palavra: 'miga. Desenganem-se os homens que visitam este blogue e que podem estar a pensar que me refiro a um acompanhamento preparado com pão e muito apreciado no Alentejo. Não. 'Miga é uma forma fofinha (porque o objectivo de tudo isto é ser-se o mais fofinha possível) de dizer "amiga". Ou seja, como se a palavra "amiga" não fosse já ela cheio de significado, inventa-se uma mais curtinha, porque toda a gente sabe que o que é mais pequeno é mais querido e pronto. Então podemos ficar com frases como: «Ai linda, esse vestido faz-te tão linda, 'miga. Aliás, 'miga, tu és linda sempre.». Uma frase destas é, sem dúvida, um banho de amor.

Outra "ternurice" que vale a pena evocar consiste na praga dos beijinhos. Os beijinhos são uma coisa que algumas raparigas ou, pasmem-se, mulheres acham que são como os vírus: para espalhar o mais possível. Então imaginem a seguinte troca de mensagens escritas entre duas amigas:

A.: «Oi linda, está tudo bem contigo? Tenho-te achado triste e não te quero assim, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Oi linda, tudo bem? Sim, linda, tenho andado chateada com umas coisas. Mas não te preocupes, 'miga. Beijinhos.»
A.: «Linda, não fiques assim porque tens um sorriso lindo e eu gosto de te ver sorrir, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Tens razão, linda, mas isto nem sempre corre como queremos, não é, 'miga? Beijinhos.»
A.: «Pois é, linda. Olha, queres ir tomar um café, linda? Tenho saudades tuas, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Olha, pode ser, linda. És tão querida. Hoje às três dá para ti, 'miga? Beijinhos.»
A.: «Querida és tu, linda. às três não me dá, 'miga. Pode ser às seis, linda? Beijinhos.»
B.: «Oh linda... :( Às seis tenho ginecologista, 'miga. Podes noutra hora, linda? Beijinhos.»
A.: «Depois de jantar, linda. Beijinhos, 'miga
B.: «Por mim pode ser, 'miga. Onde, linda? Beijinhos.»
A.: «Linda, no café do costume. Beijinhos.»
B.: «Combinado, 'miga. Estou lá às nove, linda. Beijinhos.»
A.: «Está bem, linda. Beijinhos.»
B.: «Beijinhos, linda.»

E é isto. Nada mais a acrescentar.

Para finalizar a lista de ternurices (acreditem que são muitas) temos os inúmeros elogios. Esta classe de amigas acha que deve elogiar as amigas mais vezes por dia do que aquelas em que eu penso em sapatos. Uma doçura! Desde o simples «És linda, 'miga.» até ao mais elaborado «És uma amiga linda, 'miga.» (aparentemente são coisas diferentes...).

Juro que não compreendo isto. Tenho amigas e não faço isto. Acho desgastante e enervante que alguém me apelide de "linda", mesmo quando pareço um parente do Alf acabado de acordar. Aliás, estas manifestações tão exacerbadas de ternura normalmente fazem-me desconfiar das pessoas que as proferem pelo simples facto de que nem sempre podemos estar de acordo com os nossos amigos, nem sempre achamos que merecem elogios (e quem acha que merecem é porque não é um bom amigo), nem sempre lhes podemos dizer o que eles querem ouvir porque isso muitas vezes não corresponde à verdade. Mas infelizmente há quem ache que ser amigo é espalhar açucar e doçuras afins em cima do outro, e dizer-lhe para ir em frente mesmo que isso seja uma descomunal asneira ou uma queda certa num daqueles abismos que nos vão surgindo. Há pessoas que acham que ser amigo é apoiar incondicionalmente, contudo esquecem-se que o bom amigo é o que nos abana quando precisamos de ser chamados à razão. Não quero amigos que me digam que faço sempre tudo bem. Não quero amigos que me digam a toda a hora que estou linda ou que sou linda, mesmo quando eu sei que fiz uma coisa errada ou que estou tudo menos linda. Quero quem me diga a verdade. Esse sim é o bom amigo, ainda que menos doce. Mas eu, quando quiser uma overdose de doçura, vou à Haagen Dazs e encho-me daquelas maravilhosas panquecas da semana passada.  

Nota da autora: Já que estou numa de odiar coisas, também odeio discursos muito lindos e cheios de lugares-comuns sobre a amizade. Poupem-me a isso!

Vamos?



Se há instituição que respeito e pela qual tenho a maior admiração ela é o Banco Alimentar contra a fome. Sempre que há uma campanha de recolha de alimentos, e mesmo que não esteja nos meus planos ir às compras nesse fim-de-semana, arranjo uma forma de ir a um hipermercado e de contribuir com um saco cheio de arroz, massa, feijão, salsichas e atum. Sei que aqueles dois ou três euros que gasto não me vão fazer falta, mas que farão a diferença sobre a mesa de quem precisa. Não me interessa, como muita gente teima em lembrar de forma mesquinha, se há gente a receber ajuda sem que precise realmente dela. Não quero saber disso: sei que há muitas pessoas que precisam daquela comida e conto com o bom discernimento de quem faz a divisão e distribuição dos bens.

Por isso parte-me o coração a notícia que li no Expresso deste Sábado. O que o Banco Alimentar tem em armazém, neste momento, é muito pouco e por isso este mês a presidente, Isabel Jonet, «teve de decretar um corte nos cabazes de bens essenciais que distribui a cada instituição de solidariedade social e que estas entregam às famílias carenciadas.»*. Prevê-se um enorme corte naquilo que o Banco Alimentar poderá dar até Maio de 2012: «[...] serão dados menos 30 mil litros de leite, duas toneladas de bolachas e 25 toneladas de arroz». Esta realidade parece-me assustadora, tanto mais porque as dificuldades com que o Banco Alimentar se depara não ficam por aqui. Para conseguirem poupar, as empresas diminuiram a produção, uma vez que a procura também desceu. Como tal, as sobras são cada vez menos e, assim sendo, o que as empresas entregam ao Banco Alimentar chega em menor quantidade do que noutros anos. Também os produtos frescos (que todos nós sabemos que são usados nas cantinas sociais que diariamente preparam refeições para quem não tem o que comer) estão a escassear, já que os próprios vendedores destes produtos estão a reduzir as encomendas, sobrando menos alimentos para entrega ao Banco.

Contudo, a mais chocante machadada no trabalho do Banco Alimentar tem que ver com a verba que o Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados (PCAAC) da União Europeia vai entregar aos países membros. Se até aqui «Portugal recebia 40 milhões em leite, arroz, massa, bolachas, cereais, queijo, leite, manteiga, açucar e farinha», nos próximo dois anos passará por um inacreditável corte de 76%, ou seja, «passa a receber 4,5 milhões». De 40 milhões para 4,5 milhões. E sabem porquê? Porque seis países (Alemanha, Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Holanda e República Checa) «bloquearam a distribuição da verba». Isabel Jonet explica: «É uma decisão política, inconsciente, de países de indústria onde a agricultura não tem importância e a quem não interessa contribuir para um fundo que não lhes anima a economia». E, com muita razão,  opina: «É incrível fazerem braço de ferro com a comida que alimenta 18 milhões na Europa».

Portanto, minha gente, o Banco Alimentar, que sempre tentou não faltar a ninguém, vê-se agora em risco de chegar a cada vez menos mesas e precisa de nós. É verdade que nunca conseguiremos suprir o enorme corte de 76% do PCAAC, mas podemos dar o nosso melhor e ajudar esta instituição que nos enche de orgulho e que tem feito um trabalho tão admirável. Nos próximos dias 26 e 27 de Novembro decorrerá a próxima campanha de angariação de alimentos e eu faço o apelo a todos os que por aqui passam diariamente, a todos os que já têm vindo aqui rir comigo: desta vez o assunto é de poucos sorrisos, mas pede grandes acções. No fim-de-semana de 26 e 27 de Novembro vamos todos ao supermercado mais próximo e vamos encher os sacos que nos for possível encher. Vamos ajudar o Banco Alimentar e quem dele depende. Vamos fazer a diferença e mostrar que, mesmo no meio da crise em que vivemos, conseguimos olhar para o lado e ver que existe quem precise da nossa ajuda. Vamos contribuir. Vamos encher o Banco Alimentar e ajudá-lo a fazer aquilo que até hoje tem feito tão bem: lutar contra a fome.

Conto convosco.

* Citações retiradas da notícia «Menos arroz, leite e bolachas nos cabazes do Banco Alimentar», publicada na edição do Expresso de 12 de Novembro de 2011 e escrita pela jornalista Raquel Moleiro.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Listinha para o Natal II

Querido Pai Natal,

Fiz anos ontem por isso este ano já só posso pedinchar prendas de Natal. Sei que segues o meu blogue e que até o tens nos Favoritos, por isso deixo-te aqui os presentes que quero ver no meu sapatinho deste ano. E como sou uma chalaceira não posso impedir-me de fazer o trocadilho: este Natal, para além do resto que já pedi e que ainda vou pedir, quero que o meu sapatinho tenha... sapatinhos. Aliás, sendo rigorosa, umas botinhas.

Sabes, Pai Natal, estava a fazer umas pesquisas na internet e descobri um parzinho amoroso a pedir uns pés que o calcem e o honrem. Como gastar mais dinheiro em sapatos vai começando a estar fora de questão, recorro à tua benevolência e ao facto de, por inerência da profissão, estares obrigado a satisfazer caprichos. Assim, agradecia que estas botitas viessem cá parar a casa.

Aguardarei com expectativa o tinir dos sininhos do trenó em que te fazes transportar. Queres que te deixe leite e biscoitos ou preferes um pão com marmelada e um copo de vinho tinto?

Cumprimentos para ti e para a Mãe Natal. Um abraço às renas.

PS. Segue a foto das botas. São da Bershka. Se fores ao Colombo dá lá um pulo e vê se estão disponíveis. Ah, calço o 37. Muito agradecida.


Uma excelente ideia


Pois que alguém teve esta ideia genial: abrir uma linha para as pessoas poderem refilar. E o mais engraçado é que ao que parece se pode refilar sobre tudo. T-U-D-O! Ou seja, não apenas sobre a crise, não apenas sobre os cada vez piores cuidados de saúde prestados neste país, mas sobre todo e qualquer assunto que nos mereça um ralhete.
Ora, parece-me que assim os senhores que abriram a linha correm o risco de ouvir muitas coisas interessantes e sobretudo importantes para a nossa vidinha. Pus-me a imaginar algumas temáticas sobre as quais alguém poderá querer refilar e que, no fundo, são coisinhas que podem irritar qualquer um de nós, mais cedo ou mais tarde. Veja-se a listinha que compus de motivos pertinentes que podem levar uma pessoa a refilar como se não houvesse amanhã e o respectivo comentário:

1. Não encontrei um par de sapatos que me servisse!
Comentário: Motivo perfeitamente válido para uma mulher sentir a necessidade de mandar dois berros, um por cada pé descalço.

2. As costuras das minhas camisolas levam muito tempo a secar e eu já não sei o que vestir!
Comentário: Também passo por isso e, portanto, acho o ralhete merecido. É fazer roupa sem costuras, senhores!

3. Tenho saudades da música do Pingo Doce que já não passa na televisão!
Comentário: Se este é o motivo pelo qual acha que deve pegar no telefone e reclamar, enfie, por favor, a cabeça no forno e ligue-o.

4. Tenho duas ovelhas que não se dão e isso traz mau ambiente a todo o rebanho.
Comentário: Deixe lá que na Casa dos Segredos passa-se o mesmo e ninguém refila. Filme isso que se calhar ainda cria um reality show novo.

5. O meu filho anda na Universidade e não sabe quem pintou a Mona Lisa!
Comentário: Mas pergunte-lhe quem pintou a cara daquela caloira gira cujas formas ele aprecia que vai ver que ele sabe de certeza. Depois pare de lhe pagar as propinas.

É, portanto, todo um mundo de motivos para refilar, minha gente! E agora com licença: vou só até ali mandar vir com o telefone porque não há maneira de se me aquecerem os pés.

Coisas que odeio II

Há uma atitude humana que me deixa furiosa: o plágio. O roubo de propriedade intelectual, seja uma reles ideia (coisa de que já fui vítima) ou seja já um trabalho completo é uma atitude execrável e que diz muito sobre a personalidade de quem rouba.

Já vi as ideias de muita gente serem roubadas com um sorriso por parte do ladrãozeco que via assim a forma de salvar o couro. Assisti a isto tanto no mundo universitário quanto no dos alunos do ensino secundário. De ambas as vezes fiquei agoniada e a pensar nas diferenças entre roubar um fio de ouro ou uma ideia de outra pessoa. Se a comparação vos parecer descabida, imaginem o trabalho que dá escrever um texto, conseguir fazer um bom trabalho académico ou ter uma ideia diferente das dos outros e depois vir alguém que, com a maior das latas, se assume como autor daquilo que tanto trabalho vos deu a conseguir.

Pois existe gente assim e é desprezível. Não podemos achar que temos de conseguir tudo a todo o custo. Se não temos capacidade para produzir a nossa própria obra, devemos mudar de vida e não insistir numa área em que não temos sucesso. Mas enfim, a consciência disto é fruto de valores que apreendemos com o crescimento e infelizmente há quem seja como o Peter Pan: sempre criança.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

1000


Um número redondinho de prenda de anos. Obrigada a todos os que já por cá passaram. É uma honra.

Mãos de escritor


José Saramago faria, neste dia, oitenta e nove anos. Para recordar a data, e porque hoje Pilar del Rio recebeu as chaves da Casa dos Bicos onde se instalará a Fundação José Saramago, o Jornal de Letras dedicou parte da sua edição ao Nobel Português. Assim, nela encontramos uma entrevista com a presidenta (ai de quem lhe chame presidente!) da fundação, Pilar, e uma leitura do romance Claraboia por Maria Alzira Seixo, entre outros textos interessantes.

Como já devem ter percebido, gosto muito de José Saramago e acho que todos os dias são bons para se evocar este escritor brilhante. Polémicas à parte, importa admitir que ele foi a cereja no topo do bolo que foi o ano de 1998. Levou a nossa literatura até outras paragens e isso é sempre motivo de orgulho, principalmente porque a sua qualidade tem sido sempre reconhecida.

Embora nem sempre tenha concordado com as suas opiniões (aquela ideia da "Ibéria" era assustadora...), não raras vezes me revi em frases suas e me senti tocada por elas, pela sua agudeza. Sempre achei piada ao facto de fazermos anos no mesmo dia e perguntava-me se tamanha identificação não passaria por uma qualquer conjunção astral... Enfim, maluqueiras.

No dia em que morreu, vivi uma história que foi das mais estranhas que já experimentei. Soubera da morte dele um par de horas antes enquanto trabalhava numa livraria. Por volta das cinco da tarde entra na loja um senhor idoso que de tão parecido com o Saramago me fez dar um salto na cadeira onde estava sentada. Queria alguns títulos relacionados com Galileu Galilei, não me recordo de quais, mas sei que não os tinha por serem edições muito antigas. Enfim, começámos a conversar e eu devia estar de boca escancarada a olhar para ele, uma vez que as parecenças eram absolutamente inacreditáveis. Falou-me sobre o seu interesse na obra de Galileu e sobre o facto de muitos livros sobre os seus trabalhos estarem esgotados. Depois falou no facto de as pessoas não apreciarem a obra de alguns autores que deviam ser adorados e, nesse momento, falei-lhe de José Saramago, falecido naquele dia, que deixara Portugal devido à tacanhice e sacanice de uns tipos do Governo. Respondeu-me:

- Ah, o Saramago... Sabe, já me disseram muitas vezes que sou muito parecido com ele.

Desmancho-me:

- Olhe, eu não queria dizer nada... Mas o senhor é igualzinho a ele!

E eis que ele me conta esta história deliciosa para quem conhece a obra de Saramago:

- Sabe, menina? Eu conheci-o. Trabalhei muitos anos na embaixada de Espanha e por vezes faziam lá recepções em que ele era convidado. Um dia ele chegou e ao entrar passou por mim. Voltou atrás, parou, olhou-me de alto a baixo, mas não disse nada. Depois seguiu e foi à vida dele.

Não pude deixar de rir e de partilhar com o senhor o meu pensamento louco:

- Sabe que ele escreveu um livro chamado O Homem Duplicado. Sabe-se lá se...

Sabe-se lá e nunca o saberei, mas gostei de imaginar que tinha na minha frente a inspiração para um dos livros do meu autor português preferido. Ainda hoje acho que foi uma coincidência incrível ter tido na minha frente, no dia da sua morte, um homem que era na altura, na magreza, nas marcas de velhice, na voz, na calma com que falava e nos traços do rosto, quase idêntico a Saramago. Digo quase porque o reconheci diferente do escritor numa coisa, num pormenor a que prestei atenção: nas mãos. As deste homem eram de pele branca, pouco maltratadas pelo tempo, ainda que ele passasse já dos oitenta anos. Todavia, as de Saramago eram velhas, enrugadas e com manchas. Sei disso porque lhe vi de perto as mãos algumas vezes, enquanto me autografava os livros. Eram, agora que recordo toda a história e que penso nisso, as mãos de quem escreveu tudo o que pôde; mãos cansadas de quem, através delas, contou universos inteiros.

Falta de jeito para ser gira

Tristeza. Uma menina faz anos e pensa assim «Que vais oferecer a ti própria hoje?». Responde-se: «Um livro.», mas não lhe apetece arrastar-se até à livraria. Propõe-se uma segunda opção: «Umas botas novas!», contudo corre as sapatarias todas desde o trabalho até casa e não experimenta nenhum coup de foudre por qualquer parzinho. Então decide: «Vais arranjar as unhas que essas mãos fariam uma camponesa farta de apanhar batatas dizer que não tens brio nenhum!». Então a menina lá vai, lá se assusta com o alicate de tirar cutículas e tal, mas no fim gosta do resultado. Da esteticista a casa são dois minutos a pé, mas pelos vistos esta pouca distância é a suficiente para se conseguir dar cabo de três unhas e o facto de se tocar à campainha também chega para lixar uma quarta.

Resultado ou fim da tentativa de parecer bem: a criatura aniversariante chega a casa, agarra na acetona e mata de vez o bom trabalho feito nas ditas unhas (que entretanto já eram cinco, CINCO, reparem bem!) destruídas. Depois pinta com um verniz idêntico ao usado pela profissional, mais uma camadinha de brilho e voilá: uma javardice tal que faria a mesma camponesa deixar de lhe falar por vergonha de ser vista na companhia de tal labrega. E mais triste ainda é que até esse trabalho rupestre feito pela própria já está destruído!

Agora com licença, vou só ali escrever cento e cinquenta vezes numa folha «Não voltarás a mexer as mãos enquanto o verniz não secar, sua jumenta!».

Vinte e seis anos


E pronto: estou oficialmente com vinte e seis anos. Eu, que adoro fazer anos, fico meio almareada ao ver este número tão redondinho. É que, acreditem ou não, não sinto que tenha esta idade. Sinto-me como se ainda tivesse dezassete. Se isso é bom ou mau, não sei. Só sei que entrar na estrada que conduz aos trinta e ainda sentir que circulo na que leva aos vinte é uma maluqueira.

Contudo, eles cá estão. Vinte e seis anitos passados com uma família maravilhosa e os últimos seis passados com um namorado perfeito. Vinte e seis anos com poucos amigos (o que não lamento porque os poucos que tenho são bons e isso é que importa). Vinte e seis anos com algumas histórias para contar: umas melhores que outras, mas todas minhas. Vinte e seis anos com muitos livros lidos: bons e maus, que o nosso percurso faz-se de erros e acertos. Vinte e seis anos com muitos pares de sapatos e a desejar sempre mais. Vinte e seis anos com muitas edições do Quixote (tantas que não sei quantas são: sou uma péssima coleccionadora) e a amar cada vez mais a história do Cavaleiro da Triste Figura. Vinte e seis anos com um carinho muito grande por Viana do Castelo, a cidade onde ainda gostava de viver e que me acolhe muito bem todos os anos. Vinte e seis anos de cadernos, canetas e coisas afins porque uma menina de Letras nunca deixa de ser uma menina de Letras. Vinte e seis anos de canecas de todos os lugares por onde passo e por onde os outros passam (já sabem, se viajarem tragam-me uma caneca!): e já são tantas que não cabem no armário! Vinte e seis anos de panquecas e waffles na Haagen Dazs, um sítio onde a minha irmã me levou algumas vezes em pequena e onde só vou com as pessoas de quem gosto mesmo. Vinte e seis anos de baldas às aulas à hora de almoço para ir à muito pouco gourmet cantina universitária: nunca foi pelos fantásticos almoços, foi sempre pela companhia das minhas miúdas, hoje cada uma para seu lado, mas ainda assim únicas. Vinte e seis anos de gente que me traíu, desiludiu, que me acusou: serviu para aprender. Vinte e seis anos de textos escritos e fechados na gaveta. Vinte e seis anos com uma tese de Mestrado que foi talvez o que de melhor já fiz na vida: voltarei algum dia a fazer outra coisa assim? Vinte e seis anos com alguns alunos já na universidade. Vinte e seis anos de puzzles. Vinte e seis anos.

Podia continuar, mas entretanto chegaria aos vinte e sete. Apesar de não sentir que tenho esta idade, tenho cada minuto dela gravado na memória. Por isso é bem-vinda e há-de ela própria criar memórias.