quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Tubo José e o asseio

O meu periquito mais velho, Tubo José de seu nome, é um bicho estranho. No Verão foge da água como o Diabo da cruz, mas no Inverno (principalmente neste) entendeu que deve tentar enfiar-se dentro do bebedouro e tomar uma banhoca de água fria. Ora, o Tubo é um periquito de ossos largos (leia-se "gordo"), por isso a tarefa não é fácil. Mas ele lá consegue e quando vou dar por ele, está encharcado até às orelhas que não tem e a sacudir-se. Não percebo de onde vem o hábito no Inverno mais frio dos últimos anos, mas ele lá faz a sua higiene religiosamente ao final de cada manhã. O senhor Tubo é um periquito muito asseado!

Descontos em livros

Minha gente, hoje, por ser uma data que só acontece de quatro em quatro anos, a Wook está a fazer uma promoção: 20% de desconto em cada livro e, se levarem mais um, 25%. Aproveitai!

Nova figura de estilo

Na aula com o 9.º ano, pergunto que figura de estilo está no verso do episódio de Inês de Castro (n'Os Lusíadas) que diz «Tu, só tu, puro Amor, com força crua». Não percebem. Reformulo a pergunta: que figura de estilo é constituída por estas invocações a uma entidade que pode ser humana ou não e que, neste caso, é o "Amor"?

Ainda sem resposta para me dar, lá há um que, a medo, atira uma hipótese:

- Carinhosas?

Conhecem esta figura de estilo? Eu não. Mas temo-a.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

(Pseudo) hiperactivo

A mãe de um aluno irrequieto e que adora chamar as atenções sobre si próprio apregoava que o filho era hiperactivo, que tinha um défice de atenção (nem sei se é assim que se chama) e mais o diabo a sete. No fundo, cada vez que o filho passava das marcas e a mãe era chamada a intervir, lá vinha a ladaínha: coitadinho do menino que é isto e aquilo e mais um par de botas. Contactaram-se psicólogos que trabalharam com o miúdo e concluíram que ele não tem rigorosamente nada daquilo que a mãezinha dizia que tinha. Nada. Nem hiperactividade, nem nenhuma dislexia, nem transtorno nenhum que explicassem o seu comportamento deseducado, impertinente e chato.

Ora, tudo isto fez-me concluir duas coisas. A primeira é que os problemas como a hiperactividade e os défices de atenção têm as costas largas e agora servem como desculpa para todos os comportamentos desadequados, existam efectivamente ou não. Um miúdo insulta a colega e atira-lhe com um lápis para o olho? Tenham paciência que é hiperactivo: pelo menos lá em casa não pára quieto. Esta é a teoria dos paizinhos. Pois lamento informar, mas coisas não são assim tão lineares... A segunda conclusão que retirei foi que afinal o que ele tem e a mãe não sabe é uma enorme falta de educação e umas boas toneladas de mimo a mais.

Prémios SPA

E o senhor Mário Cláudio, com o seu gigantesco livro intitulado Tiago Veiga - Uma Biografia, lá ganhou o prémio de Melhor Ficção Narrativa, entregue pela Sociedade Portuguesa de Autores. Foi um dos livrinhos que namorei (ver «A Menina Quer Isto V») e que depois não resisti e comprei (ver «Livrinhos Novos»), por isso agora ainda espero mais ter feito uma boa compra. Aliás, ainda não li o livro, mas só a confusão que ele lançou em muitas cabeças devido à dúvida com que se ficou relativamente à real existência do suposto biografado, já fazem com que a obra seja uma boa compra.

A Menina Sugere Isto I

As minhas sugestões valem o que valem (ou seja, nada), mas resolvi, a partir de hoje, dar início a uma porção de quixotadas em que sugiro coisinhas de que gosto porque já li ou já experimentei ou já provei... Se em «A Menina Quer Isto» pedincho descaradamente aquilo que parece ir ao encontro dos meus gostos (ainda que depois me possa desiludir), aqui partilho com os meus caríssimos e muy estimados quixoteiros as coisas que considero demasiado boas para ficar com elas só para mim.

Assim sendo, a menina hoje sugere um dos livros que mais gostou de ler nos últimos anos. O Cónego, de A. M. Pires Cabral é um romance para o qual encontro apenas uma palavra: delicioso. Devora-se como devoramos o nosso gelado favorito e ficamos com a sensação de que acabou num instante. A história é narrada por um padre jovem que é destacado para uma paróquia do norte de Portugal. Lá chegado, apercebe-se de que em tempos viveu ali um cónego muito pouco vulgar que havia feito vibrar de alto a baixo a vida daquele lugar. Como um detective de batina, o novo padre, Salviano Taveira, procurará conhecer o melhor possível a vida do anterior cónego, procurando todos aqueles que o possam esclarecer e ficando cada vez mais absorvido pela sua curiosidade. A dada altura as próprias gentes desconfiam do seu interesse naquela figura, porém continuam a partilhar com ele o que sabem, ao mesmo tempo que nos mostram a vida no interior norte do país.

O livro está escrito com um apontamento de humor que é ma-ra-vi-lho-so. Faz, em muitos momentos, recordar Eça de Queirós quando, nos seus romances, descreve os homens do clero como sendo glutões e muito dados àquilo que lhes estava, por regra, vedado. Encontramos, então, eclesiásticos que caçam, que jogam a dinheiro, que deixam filhos e abandonam mulheres e um padre mais jovem que despacha as missas para poder dedicar-se à sua investigação sobre a figura daquele cónego tão misterioso. Damos por nós a ter a mesma sensação que teríamos se lêssemos um policial da Agatha Christie. Queremos saber mais sobre aquela personagem que dá título ao livro. No final, quem foi aquele cónego? Será que o padre Salviano Taveira o consegue descobrir? Leiam!


Deixo-vos as primeiras linhas deste livro:

«O meu nome é Salviano Taveira. Salviano de Jesus Pinto Taveira, para ser mais preciso e completo. Tenho vinte e seis anos. Sou sacerdote.
Realizei há menos de um ano esse sonho de meus pais - ter um filho padre -, sonho que provavelmente os acompanhou desde o dia em que se casaram com o piedoso intuito de contribuirem para a multiplicação da espécie determinada por Deus no quinto dia da Criação, ou talvez antes ainda, e se fortaleceu no momento em que, no dia 13 de Fevereiro de 1923, pelas sete horas da manhã, a velha entendida que fazia as vezes de parteira de quanta criança nascia na nossa aldeia me aparou e, após um sumaríssimo exame, disse "é um rapaz".»

Cabral, A. M. Pires (2007). O Cónego. Lisboa: Cotovia.

Orações

Estou prestes a pôr os meninos do 12.º a fazer teste sobre Os Lusíadas. Serão duas horas a assistir ao mais puro desespero por parte dos meninos. E nem posso dizer que eles sejam uns grandes calões, que de uma forma geral até nem são. São, isso sim, muito insensíveis para interpretar um texto, quase incapazes de ver para lá da mancha gráfica na página, mesmo que o exercício se vá repetindo ao longo do ano vezes e vezes sem conta. Mas, note-se, o problema não é apenas daqueles alunos especificamente: vai sendo, infelizmente, de boa parte dos discentes. O que vou dizer é apenas uma teoria que coloco, mas pergunto-me se esta convivência tão próxima com máquinas (computadores, ipads, playstations e afins) não está a fechar os miúdos para aspectos que exigem o uso de uma certa sensibilidade e espírito crítico. É que, perdoem-me, mas às vezes parecem-me paredes a olhar para mim!

Portanto aí vou eu com Os Lusíadas e todas as orações existentes na boa da Língua Portuguesa. E também levo «credo» na boca, só para ver se este teste leva benção divina...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Menina Quer Isto VII

Hoje descobri que quero muuuuuuuuuuuuuuuito este livro. Só não veio comigo porque o achei caro, mas não sei se a editora Cavalo de Ferro passará sem uma visita minha na Feira do Livro de Lisboa. Isto, claro, se ninguém quiser colocá-lo antecipadamente no meu sapatinho natalício. Eu depois escrevo um cartão de agradecimento muito catita e desenho um pónei.


Boa memória

Esta coisa do curso superior do Eng.º José Sócrates faz-me espécie. Ele diz que não se lembra do trabalho que teve de fazer. E, pela importância dada à notícia, o trabalho devia realmente ser daqueles inesquecíveis. Ora, eu lembro-me de todos, TODOS, os trabalhos que tive de fazer durante o meu percurso no ensino superior por uma razão muito simples: a de me terem dado realmente trabalho. Então no que respeita ao relatório final, jesus!, por mil anos que eu viva, parece-me que nunca esquecerei a trabalheira que me deu, mas também o muito gozo que me proporcionou.

Enfim, eu tenho boa memória e ele, aparentemente, não. São idiossincrasias.

Angela Merkel ensopada

Vi na televisão que um empregado de mesa entornou uns quatro copos de cerveja em cima do «dinossauro excelentíssimo» (obrigada pela expressão, José Cardoso Pires) que dá por nome de Angela Merkel. O coitado ia com a bandeja carregadinha de copos cheios, desequilibrou-se e foram os copos cair todos em cheio pelas costas da dita senhora abaixo. Podia jurar, pelo movimento dos lábios da boa da chanceler, que soltou um palavrão em Português, mas se calhar enganei-me... Enfim, tenho muita pena daquele funcionário que deve ter (digo-o como probabilidade, sem qualquer grau de certeza) sido despedido na hora, pois de toda a gente no mundo sobre a qual podia ter entornado cerveja (e muita gente agradeceria que lhe dessem um banho dessa bebida), fê-lo precisamente sobre a nova dona do velho continente. É preciso ter azar, caramba!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A saga "Twilight" e os penhascos deste mundo

Há alguns dias uma ilustre seguidora deste blogue propos-me que fizesse uma quixotada sobre a saga Twilight. Na altura expliquei à dita seguidora que não poderia falar muito sobre o assunto, uma vez que não li os livros que compõem essa colecção. Ou melhor: nunca li mais do que as dez primeiras páginas do primeiro volume (e só as li porque uma familiar o tinha). Devo, no entanto, admitir que considerei aquelas páginas do mais desinteressante que já me passou diante dos olhos e que nem me passou pela cabeça continuar a leitura. Ainda assim, não me posso manifestar mais em concreto sobre o texto porque, efectivamente, não o li todo.

Sei, contudo, que os miúdos deliram com essa saga e com outras parecidas. Alunos que até afirmam não gostar muito de ler, devoram aqueles calhamaços cheios de vampiros enamorados. Pelo caminho ficam os textos com qualidade reconhecida, mas que são preconceituosamente tidos como aborrecidos, demasiado extensos, desactualizados, entre outras características nada elogiosas. Sei do que falo porque fiz o meu mestrado sobre este tema e concluí que o panorama no que respeita às leituras feitas pelos adolescentes é deprimente e que não mudará enquanto as escolas não mudarem também. Os miúdos lêem certos lixos porque são fáceis de ler, porque são fáceis de perceber, porque traduzem realidades próximas deles. Mas valia a pena, e enriquecer-se-iam muito mais do ponto de vista cultural, que lessem os clássicos que são, nada mais nada menos, do que os textos que o tempo e as sucessivas leituras consagraram. Contudo, por desânimo, por preconceitos vários, por uma profunda desmotivação, passam pelos bancos da escola lendo apenas os clássicos que os programas prevêem como leituras obrigatórias.

Há uns anos assisti a uma emissão do programa da RTP2, Câmara Clara, em que a, na altura, comissária do Plano Nacional de Leitura, Isabel Alçada, defendia que o importante é pôr os jovens a ler, não interessa o quê. Já Francisco José Viegas, actual Secretário de Estado da Cultura, defendia o contrário: devemos fomentar a leitura junto dos mais novos, mas também devemos levá-los aos textos com qualidade porque, no fundo, há certas leituras que de tão pouca qualidade chegam a prejudicar mais do que aquilo que ajudam. Além disso, a essas eles chegam bem sozinhos. Não precisam da escola nem do PNL para nada. Sigo esta opinião: a máxima de que os miúdos lêem tão pouco e tão mal que importa é que leiam, ainda que sejam só os jornais desportivos e as revistas rosadas não me convence. Importa que leiam, sim, mas que leiam o que vale a pena. Até podem ler o lixo da literatura light desde que também leiam os clássicos e os livros que, não o sendo ainda, são tidos como bons do ponto de vista da qualidade literária. E quem diz que são bons? Os professores, os meios de comunicação que procuram ver o que é efectivamente bom e o que "é mais do mesmo", os bibliotecários, os animadores, os educadores, os pais, enfim, todos os que tenham alguma influência sobre as crianças e os adolescentes e que, no fundo, possam dar o exemplo.

Há uns tempos largos assisti a uma apresentação de uma colecção de livros de aventuras escritos para um público infanto-juvenil. O público desse evento era constituído por pais, professores, crianças e adolescentes. Enquanto falava da colecção, a autora disse que quando era miúda não gostava nada daqueles livros grandes, chatos, que eram «grande seca» e que por isso escrevera aquela colecção para os que eram como ela. Ao ouvi-la tive uma espécie de apoplexia: então aquela tipa vai a uma escola cascar nos clássicos (sim, porque quem lesse nas entrelinhas chegava lá) para elogiar aqueles livros que, como ela dizia, falam na vida e nos problemas dos adolescentes, ou seja, os livros que ela própria escrevia? Que queira vender, todos compreendemos, mas ajudar a que os miúdos criem preconceitos relativamente aos livros de outros tempos, mas que a passagem desse mesmo tempo consagrou, é vergonhoso e só lhe fica mal. Mas, enfim, tanto a posição defendida pela Isabel Alçada no Câmara Clara quanto as frases tontas proferidas pela escritora são bem sintoma do que sucede relativamente aos jovens e à leitura. É tudo muito nivelado por baixo, entre o nada e o mau, venha o mau, tudo muito apoucado, sem ambição e sem qualquer mostra de vontade em mudar o paradigma. No meu entender, esta ideia de só dar aos jovens o que é fácil e imediato é uma violência que lhes fazemos, nós que temos a obrigação de lhes dar mais e melhor.

Portanto, e mesmo sem ter lido mais do que dez páginas da muito afamada saga Twilight, posso, ainda assim e com segurança, afirmar o seguinte: nunca, mas nunca, mas nunca esse texto enriquecerá tanto um miúdo (ou adulto) quanto a leitura de um clássico para adultos ou infanto-juvenil. E agora que ninguém nos ouve (cheguem-se mais para eu poder sussurrar), aquelas dez páginas eram paupérrimas, mas o que me contam que aparece nas outras mil do resto da saga é o suficiente para pôr uma alma a atirar-se de um penhasco depois de ter batido incessantemente com uma garrafa na cabeça. Voltem, Les Misérables, estão perdoados!

Leitura com boas vistas e insectos

Hoje comecei a ler o primeiro volume de Manuscrito Encontrado em Saragoça, enquanto era trincada por todo o tipo de formigas e aranhiços que se passeavam pela relva à beira-rio. Estou a pontos de me untar com quilos de Fenistil Gel. Sorte macaca... Enfim, superando isso, o livro parece bom, as vistas estavam lindas, o céu estava azulíssimo (já faz falta uma chuvada) e a companhia era fantástica. Foi um belo Domingo!



Óscares


Esta noite entregam-se os Óscares. Eu, que nunca ligo a isso, torço este ano pelo filme «A Invenção de Hugo» que, realmente, me parece admirável. Aliás, creio que foi um dos poucos filmes que, até hoje, me deixou a ronronar de satisfação perante a qualidade de tudo o que por lá aparecia. Mas e vocês? Também têm preferidos? Contem-me, contem-me...

Bucólica


Sente-se o cheiro a Primavera quando se vai à varanda e se dá de caras com este panorama. E o bem que estas flores cheiram? E o bucólica que estou hoje?

Bom Domingo, caros quixoteiros!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Telegráfica

Sábado à noite. Muita gente a divertir-se. Uma temperatura agradável para a época. Fechada em casa a corrigir testes. Cada um tem o que merece. Snif snif.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Farrapo de gente

Estou tão cansada. Hoje estou verdadeiramente estourada, o que me assusta, tendo em conta que só ontem regressei efectivamente ao trabalho. Ainda assim, neste momento sinto que preciso de umas férias gigantes, o que não acontentecerá tão cedo, principalmente agora que têm surgido novas propostas de trabalho. Há dias em que me apetece agarrar nos ignorantes que dizem que os professores não fazem nenhum e esfregar-lhes a cara nas aulas, reuniões, burocracias, correcções, preparações de aulas e todas as coisas que conseguimos fazer em vinte e quatro horas. E a seguir queria bater-lhes, só mesmo porque sim.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O não

Hoje vi, na televisão, falarem das mulheres paquistanesas queimadas com ácido por homens ressabiados que desconhecem o significado da palavra «não». Contava uma dessas mulheres que o seu professor queria ter relações sexuais com ela, mas que ela não consentiu. Agastado por ter recebido aquela resposta e por não conseguir o que queria, seguiu a máxima que muitos primatas (com o perdão dos macacos) seguem que é mais ou menos «se não é para mim, não é para mais ninguém» e atirou-lhe um qualquer ácido à cara. O resultado pode imaginar-se: uma mulher desfigurada, marcada por dentro e por fora por ter, tão simplesmente, mandado no seu corpo e ter dito que não.

Cada vez mais me parece que o «não» é uma palavra gloriosa que move o mundo e que devia haver um particular cuidado a educar as pessoas, desde pequenas, para receberem essa resposta e saberem, depois, lidar com ela.

Seja bem-vinda, sua majestade

Vamos todos ser muitíssimo educados e dar as boas-vindas a sua majestade, el-rei D. Pedro V, que chegou hoje e que irá directamente para o humilde espaço que reservei para ele na prateleira.


Nota muito fofinha: Este rei já foi o que foi, mas com uma biografia escrita pela fantástica da Maria Filomena Mónica, o livro promete!

Tipo isso

Hoje, perto de um colégio muito conhecido, dei por mim com um ouvido numa conversa entre três alunos do ensino secundário. Falavam sobre um colega de turma que, a julgar pelos atributos, devia ser um pouco extravagante. Mas mais extravagante do que ele, que infelizmente não se encontrava presente para eu poder conhecer a peça, foi a frase proferida por uma das colegas que participava na conversa. Ora, descrevendo o tal amigo, disse:

- Ele diz bué tipo frases que tipo não fazem sentido. 

O conteúdo da frase vem mesmo a calhar porque se ele diz muitas frases que não fazem sentido para esta excelente falante do Português, então fico mesmo curiosa para conhecer as produções orais do moço. É que se uma aluna que diz uma barbaridade destas se dá ao luxo de criticar as frases do outro, das duas uma: ou ele é um ogre e só ruge, ou é um excelente falante da língua e ela é que não tem capacidades suficientes para o compreender.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Estreia



Amanhã estreia por cá este filme e eu estou ansiosa para vê-lo. Parece ser fenomenal!

Os lambedores de botas

Eles são burros, mas safam-se; eles são incultos, mas acabam por ter lugar em conferências enquanto oradores; eles bajulam até à exaustão mas nunca levam o merecido par de estalos; eles passam por cima de quem, efectivamente, tem mérito... Eles são os lambe-botas.

Ao longo do meu percurso académico conheci uns quantos desta espécie não tão rara quanto eu gostaria que fosse. Sempre me pareceram pouco mais do que ratos desprezíveis e sempre me mereceram pouquíssima consideração. Por lá andavam a distribuir elogios eloquentes pelos professores que, apaixonados por uma boa engraxadela, lhes distribuíam a sua benção e protecção. E assim vi os maiores cretinos deste mundo ascenderem a lugares que foram vedados a gente com muito mais talento do que eles. E vi-os olharem os outros com um indiscutível ar de superioridade, até ao ponto em que já nem os olhavam, de tão inchados e de tão cheios de si próprios que se encontravam. Vi estes mesmos idiotas lutarem para ter pelo menos um dez num teste, enquanto numa outra disciplina se perdiam em verborreias pretensamente intelectuais que enojavam qualquer alma que percebesse do assunto. Só mesmo o professor é que não via o bajulanço e a ignorância que o discurso escondia. Vi-os chegarem a patamares onde outros, os realmente bons (mas que não lambiam botas a ninguém), dificilmente chegarão. Vi-os tornarem-se seres repugnantes por quem me recuso a ter respeito e com quem dispenso trocar uma palavra que seja.

Ao longo dos vários anos que passei na faculdade, conheci gente muito talentosa. Com melhores ou piores notas, fui-me apercebendo de que existiam pessoas talhadas para prosseguir na área da investigação e que, pelo trabalho e pelo mérito, acabariam por lá chegar. Esses, pensava eu, sair-se-iam bem, teriam sucesso. Enganei-me em alguns dos casos. E porquê? Porque em vez desses, que liam, que estudavam, que se dedicavam, que se esforçavam, que procuravam diariamente ser melhores eram ultrapassados pelos lambedores de botas que se iam aproximando dos professores, desfazendo-se sempre em elogios, até que lhes era dada uma oportunidade para fazerem isto ou aquilo. Uma participação num colóquio, algumas palavrinhas numa conferência, meia dúzia de linhas num artigo, uma série de lugares-comuns para lá de desinteressantes na maioria das vezes. Na assistência, os que percebem efectivamente do assunto chocam-se com as enormidades que vão sendo proferidas pelos lambedores de botas, mas a verdade é que são esses asquerosos que estão no lugar que deveria ser para aqueles que têm o talento. Os professores, ceguinhos com tanta adulação, nada vêem e continuam abençoando os seus discípulos burros e relegando os outros, os verdadeiramente bons, para um segundo plano que dificilmente chega a primeiro.

Eu nunca soube dar graxa a ninguém, nunca lambi botas e portanto nunca tive mais oportunidades do que aquelas que eram naturais. Vi muitos colegas colarem-se aos professores, mudarem-se quase de armas e bagagens para os departamentos à espera do dia em que venceriam os docentes pelo cansaço e que chegaria a primeira oportunidade; vi colegas irem à biblioteca requisitar livros que fariam falta a outros, só mesmo para mostrarem ao professor que foram muito expeditos e diligentes ao prepararem-se para a disciplina (ainda que depois não os lessem...). E os docentes, gente que eu até tinha em alta conta, derretiam-se com aqueles paspalhos sentados no lugar mais colado ao professor.

Um dia, um desses lambe botas disse-me uma frase fabulosa, pronunciada aos berros, como se eu tivesse problemas auditivos graves (que não tenho, felizmente). A diarreia verbal que pronunciou envolvia o facto de um livro de que ele gostava ser infinitamente melhor do que o Quixote (não revelo o texto que evocou). Note-se que ele nunca havia lido o livro que, com tanta sabedoria oca, minorizava. Portanto, ainda que o outro fosse efectivamente melhor, a sua opinião nunca mereceria qualquer atenção da minha parte, que, diga-se, havia lido ambos os textos. Não lhe respondi, limitei-me a olhar para ele e a sentir pena pelo tamanho engano em que vivia ao achar-se genial e ao não passar de um pobre coitado incapaz de distinguir uma águia de uma galinha.

Sempre disse, e mantenho a afirmação, que se algum dia um aluno me tentar lamber as botas, terá problemas comigo porque não tolero gente que se mostra dócil, afectuosa e interessada apenas com o fito no que pode vir a obter da minha parte. Recuso-me a ser uma professora ceguinha, como eram as professoras universitárias que tinham um séquito destes abutres atrás de si e que nunca os enxotavam como eles mereciam. Talvez elas achem que ter um lambe botas privativo seja sinal de estatuto social e eu ainda não me tenha apercebido. Se assim for, quero dois para embrulhar, por favor!

Vira o disco e toca o mesmo

A sério, se continuo a ouvir falar na tolerância de ponto no dia de Carnaval acho que me atiro de uma janela. Tem mesmo de ser? Temos mesmo de continuar a carpir por uma coisa que, admitam, tem lógica? Não se pode tirar quatro feriados ao calendário, dois deles HISTÓRICOS*, e depois dar tolerância a um país inteiro só porque alguns municípios têm tradição carnavalesca. Que essas autarquias dessem tolerância, muito bem. Mas por que raio teriam os outros de ajudar a parar o país? Isto parece-me aquele disparate que dizem que acontece nuns programas de televisão medonhos em que as pessoas agradecem às câmaras municipais por terem disponibilizado os autocarros que os levaram até ao estúdio, onde ganharão prémios para SI próprios. Resta lembrar que o transporte da câmara é pago por todos e que a mim ninguém me vem cá dar uma parte do prémio. Agora sim parece-me que podemos falar em pieguice!

* O pessoal que anda para aí a berrar que o Governo é tirano por não ter dado tolerância de ponto no Carnaval já se apercebeu de que o 1.º de Dezembro, feriado com os dias contados, comemora o facto de termos voltado a ser independentes e de, no fundo, hoje não sermos espanhóis? Mas, enfim, é melhor ir para a rua vestido de baiana peluda do que recordar e celebrar um episódio importantíssimo da História de Portugal não é? Credo...

Cinema de entretenimento para cabeças cansadas

As pessoas estão tão habituadas a ver filmes cansativamente transbordantes de acção que depois, quando vêem um filme bom, com conteúdo e que nos põe a pensar sobre uma série de coisas dizem «esperava mais acção, achei um pouco parado». Já vi quem dissesse isto sobre «A Invenção de Hugo» e não percebo o comentário. Queriam que o senhor Scorsese pusesse o Hugo, uma personagem nascida num livro, a galgar a Torre Eiffel até ao topo e, lá chegado, acenasse com os calções de rabinho ao léu? Ou que, de repente, aparecesse o Vin Diesel montado num carro estiloso e veloz a atropelar o cão Maximilien e respectivo dono? Ou que viesse de lá o Chuck Norris para partir os ossinhos todos ao livreiro só por ter a mania que sabe das coisas? Ou então, já sei, esperavam que entrasse a equipa do C.S.I. Miami com o senhor Horácio Caine a sacar dos malditos óculos de sol a cada cinco segundos como se tivesse as lentes sempre sujas e a precisarem de uma limpeza definitiva... Por amor da santa, mais acção? Mas somos alguns bebés que só aguentamos duas horas de filme se houver distribuição de murros e correrias esfalfantes? Já agora a «Dama de Ferro» também tem falta de acção, não? Deviam ter posto a senhora Thatcher a fazer rafting pelo rio Tamisa abaixo! Como não puseram, dirão estas pessoas, achamos a senhora ex-primeira ministra demasiado parada para que o filme seja bom.

A sério????!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Bom Carnaval


Pois é minha gente, chegou o Carnaval! Ainda ontem começou o ano e já anda gente quase nua a tentar sambar algures num destes nouveau carnavais portugueses. Enfim, há quem ame este dia em que pode usar uma fatiota mais extravagante (perdoem-me a má língua, mas conheço gente que anda "mascarada" todo o ano... Hihi!), em que pode lançar confetis até o vizinho do lado começar a sentir que já os tem nos pulmões, em que pode mudar de sexo e passar a ser a mais jeitosa das matrafonas, em que pode dançar no meio da rua sem que julguem que não tem os sete alqueires bem medidos. Eu, que sou um "Velho do Restelo", nunca gostei do Carnaval e portanto não me mascaro, mas tenho pena de não ter umas serpentinas e uns confetis porque é coisa a que acho muita graça. Do que não gosto mesmo é das partidas idiotas que envolvem ovos, balões de água, bombinhas de mau cheiro e todo um conjunto de inutilidades com que qualquer professor se depara por esta altura. Aquela coisa do «é Carnaval, ninguém leva a mal» tem limites e é óbvio que um ovo é limite suficiente para qualquer alminha.

Mas fora isso, divirtam-se, mascarados ou não!

A Fundação José Saramago


A Fundação José Saramago já se encontra na Casa dos Bicos. Consta que por estes dias os livros de Saramago estão a ser transportados para aquele espaço bem bonito da cidade de Lisboa. Segundo a página da Fundação, mantém-se o objectivo de abrir as portas ao público na próxima Primavera. Nessa altura gostaria de ir até lá para ver a oliveira ribatejana sob a qual sepultaram as cinzas do meu escritor português favorito e de ver eternizada numa placa a frase que já deixara em papel, no livro que o consagrou como o grande e único escritor que era: Memorial do Convento. Saramago, tal como Baltazar Sete-Sóis, «não subiu para as estrelas, se à terra pertencia». E a nós, atrevo-me a acrescentar, Saramago pertence a todos nós.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa e as criancinhas

Lembro-me sempre de Fernando Pessoa quando vejo crianças a serem absolutamente idiotas. Melhor: lembro-me do verso em que dizia que «o melhor do mundo são as crianças» e pergunto-me que mistura explosiva de ópio e absinto teria ele feito naquele dia para proferir tamanho disparate. Bem sei que vivemos numa sociedade que, ao contrário do que durante séculos aconteceu, coloca os miúdos num pedestal onde se tornam perfeitos e intocáveis. Ouço parvoíces como «as crianças não mentem» ou «as crianças não têm maldade» e benzo-me dez vezes perante a ingenuidade dos adultos face aos mais novos.

Digo isto porque hoje assisti a uma cena em que uma menina de uns dez anos demonstrava ser muitíssimo maldosa, sob o olhar orgulhoso dos pais que deviam ser tão estúpidos como ela. Imagino que neste momento haja gente horrorizada com a minha insensibilidade, mas para esses há uma solução: fechar a janela do blogue. Se, por outro lado, quiserem confiar em mim e verificar que não estou a sofrer um ataque de raiva, prossigam com a leitura.

Ora, em Sintra, junto ao parque de estacionamento mais próximo do Palácio da Pena, andam por lá uns quantos gatinhos. Muito dóceis, aproximam-se das pessoas, deixam-se tocar, enfim, não fazem mal a ninguém. Um dos gatos aproximou-se da miúda que já referi. Naquele momento a miúda estava junto ao carro dos pais que, perto dela, conversavam com outros adultos. O gatinho lá se ia chegando para ao pé dela, ou por querer festinhas ou para ver se lhe calhava alguma parte da sandes que ela devorava. E agora querem saber qual foi a reacção da criança, do melhor do mundo, do ser sem maldade? Foi nada mais nada menos do que correr o gato a pontapé... E a atitude dos pais? Nenhuma.

O gato acabou por aproximar-se de mim e deixou-se acariciar. Era muito meiguinho e apetecia mesmo trazê-lo para casa. Já à miúda não vos digo o que me apetecia fazer porque parece mal.

Problemas técnicos

 
 
Minha gente, diz que não está fácil comentar as minhas quixotadas. Algo se passa com os comentários que, talvez por vergonha, medo ou frio, não querem entrar em alguns dos posts. Peço-vos, encarecidamente, que continuem a tentar comentar o blogue e que, caso detectem algum problema, apitem para o endereço asminhasquixotadas@gmail.com. Creio que o problema só está a suceder relativamente a alguns dos textos publicados, portanto há muitos posts que podem ser comentados, haja saúde e vontade para isso. Portanto, meus amigos e minhas amigas, mi casa su casa, comentai à vontade que eu cá estarei para vos ler. Se o computador não deixar comentar ponham-no de castigo que mando eu.

Palácio da Pena


Hoje foi dia de Parque e Palácio da Pena. Nunca lá tinha ido e sentia-me envergonhada por isso, mas finalmente o problema resolveu-se. Admito que julgava que o palácio fosse maior. A parte da visita ao interior acabou num instante, contudo achei estes quartos e salas mais interessantes do que os de outros monumentos. E porquê? Porque me pareceram muito mais acolhedores e muito mais reais na medida em que alguém podia mesmo viver naquele sítio. Eu explico: consigo imaginar alguém a dormir ali, a sentar-se à secretária para escrever uma carta, a estender-se no cadeirão para ler um livro ou a sentar-se para tocar piano. Por exemplo no Convento de Mafra, as divisões são tão grandes e frias que me custa a imaginar alguém a passar ali uma noite de Inverno. Não me admira que a Rainha Maria Ana (esposa do nosso D. João V, ora ide lá ver ao Memorial do Convento), ao pernoitar no Palácio Nacional de Mafra,  preferisse dormir numa cama cheia de percevejos em vez de se livrar do vasto e pesado cobertor de penas que trouxera da Áustria...

Domingo bom

Ontem esteve um dia lindo: quentinho, soalheiro, um céu azul fantástico a dar uma ajudinha ao Carnaval. E ontem foi dia de passeio bom, de almoçarada ainda melhor e de companhia deliciosa! Como se pode ver, Dia dos Namorados é quando se quer e não quando o calendário manda. E assim sabe muito melhor!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Stalking

Soube, há uns meses, através de uma revista o que era o stalking. Hoje vi na SIC uma reportagem sobre o mesmo tema e fiquei a saber mais uma série de coisas sobre esse comportamento. Percebi que é movida uma perseguição asfixiante à vida da vítima, que a sua intimidade é invadida, que as suas relações de amizade e familiares são atacadas pelos perseguidores e que, no fim, ficam marcas interiores difíceis de sarar. Percebi, ainda, que a lei não protege as vítimas e que, por isso, o ataque continua e continua e continua e continua até que o perseguidor se farte ou até que uma atitude mais drástica, como a morte, lhe ponha fim.

Um dos magistrados que participou na reportagem, indicou que, à semelhança do que sucede com ex-combatentes, vítimas de violência doméstica e de crianças abusadas, as pessoas que passam pelo stalking apresentam sintomas de stress pós-traumático. Enquanto a perseguição dura, sente-se a humilhação, a falta de protecção, a inexistência de privacidade, a incapacidade de defesa, os muitos nervos provindos da impotência que se sente perante o ataque, enfim... Cavam-se sulcos profundos dentro da vítima que, não sendo físicos, doem bastante na mesma. Não há um penso rápido que esconda a ferida, nem um saquinho de gelo que alivie, muito menos um analgésico que faça a dor desaparecer, por um instante que seja.

Conseguirão as pessoas que nunca passaram por esta experiência imaginar o que é ter alguém que nos cerca a vida? Conseguirão conceber o que é um telemóvel vigiado? A família acossada a qualquer hora? Os amigos a serem informados pelo perseguidor de que a vítima é isto e aquilo (sendo que os maus amigos acreditam sempre mais nele do que na amiga)? As horas do dia contadas ao minuto por alguém que se julga dono de cada segundo da nossa existência, saberão as pessoas o que isso é? E saberá a justiça que dores, que desesperos, que raivas vive alguém que passa por isto, sabendo que nem a polícia pode ajudar? E saberão os que conhecem alguém que o viveu quais as cicatrizes que ficaram, que medos sobraram, que pesadelos permanecem?

Só quem o viveu e quem passou por isso sabe realmente o que é o stalking e por mais que uma reportagem tente ilustrar a ideia para que outros o entendam, jamais conseguirá. É impossível traçar com exactidão o que se sente e o que se vive. O stalking vai além da perseguição movida por alguém com problemas: a dada altura mistura-se com as reacções dos outros que, muitas vezes, se sentem no direito de opinar e de apontar o dedo à vítima como se esta fosse a maior das culpadas pelo que lhe acontece. Quem vive um episódio de stalking começa, a dada altura, a ver quem é realmente amigo e quem é, apenas, um espectador que assite na primeira fila ao desfazer de uma existência, desejoso de que chegue o pior dos desenlaces para poder aplaudir e ter tema de conversa para o dia seguinte.

O Carnaval e a bancarrota

Há pouco ouvia uma senhora, na televisão, berrar a vergonha que era o Carnaval deixar de ser feriado. Ou a dita senhora estava louca ou então nunca se apercebeu de que o Carnaval jamais foi feriado. O Governo dava tolerância de ponto porque queria, mas nunca este dia foi considerado efectivamente um feriado nacional. Este ano, como é sabido, o nosso Primeiro Ministro não deu a boa da tolerância de ponto e meio país veio abaixo com nervos. O que chega a ter mais piada é que vieram as pessoas dos municípios com tradições carnavalescas, mas também as dos outros, que não passam cartão nenhum a esta festa.

Muito sinceramente, não percebi por que razão houve tanto barulho por isto. Acredito que os lugares que organizam grandes festas para estes dias e que com elas arrecadam receitas substanciais tivessem todas as razões para não achar piada à decisão. Mas e os outros? Preferiam que o Governo cortasse quatro feriados e depois desse tolerância de ponto na Terça-Feira de Carnaval (proporcionando, assim, a muita gente uma bela de uma ponte)? Isso teria alguma lógica? Mais: os que reclamaram já se aperceberam de que o país está SEM DINHEIRO para poder dar-se ao luxo de continuar na real farra em que sempre tem andado?

Acho muito bem que certos municípios tenham dado a tal tolerância de ponto aos funcionários para que, assim, possam realizar-se as festas que há tantos meses se andam a preparar. Contudo, não vejo por que razão todo o país (leia-se «toda a função pública», porque os privados nunca entram nas contas...) deva parar por causa de uma coisa que nem feriado é. Minha gente, há luxos que têm de acabar e o Carnaval, por enquanto, é um deles. Goste-se ou odeie-se a medida, não poderia ser de outra forma e o único erro foi a decisão do Governo ter sido divulgada tão em cima da hora. Aliás, o anúncio foi tão em cima do acontecimento que até as escolas ficaram sem saber o que fazer.

Às vezes parece-me que ainda não nos apercebemos bem da nossa situação. A grande maioria dos portugueses (na qual me incluo) não percebe nada de finanças e de economia e, portanto, vai entendendo pouco do que acontece. Ainda hoje ouvia uma senhora dizer que estando os concertos musicais sempre cheios, nunca o país poderia estar tão mal como se anuncia. Ora, tudo isto, mais as greves, mais a raiva pela tolerância de ponto desaparecida, mais a falta de empregos, mais toda a porcaria em que estamos atolados até ao pescoço faz-me lembrar uma passagem d'Os Maias, do nosso caro Eça de Queirós. Fala-se de finanças durante um jantar, um dos muitos encontros sociais por onde passam as personagens do romance e, a dada altura, podemos ler o seguinte: «Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota». Como vemos, de 1888, ano da publicação d'Os Maias, até 2012 parece não ter mudado assim tanta coisa. Continuamos a não perceber de finanças e a caminhar com muita alegria para onde não devíamos ir...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!


Eu, que até nem morro de amores por cinema, tenho visto alguns dos filmes nomeados para os Óscares. Hoje vi «A Invenção de Hugo», realizado pelo Martin Scorsese, e acho que acabei de descobrir o meu filme preferido de sempre. As imagens são lindas, do início até ao fim; a história (baseada no livro de Brian Selznick) é comovente e muito doce; os actores são maravilhosos (o inesperado guarda da estação é hilariante, na companhia do cão "Maximilien"); os olhos azuis do "Hugo" são uma ternura e o gosto que a rapariga que o acompanha demonstra ter pelos livros é uma lição para todos nós. No final do filme já me apetecia vê-lo novamente. Aliás, creio que não demorarei muito tempo a ter o livro que originou o filme numa prateleira cá de casa. A história do rapaz que vive nos labirintos da estação ferroviária e que faz a manutenção dos relógios que guiam todos os passageiros que por ela passam é apaixonante, não porque possua um daqueles enredos misteriosos que nos colam à cadeira, mas sim porque há ali uma busca pelos passados e pelas memórias que é tocante. A história do antipático dono da loja de brinquedos fez-me lembrar o Todos os Nomes, de José Saramago, ao recordar que nunca poderemos saber se o que fomos, somos, fazemos e fizémos foi realmente esquecido, já que pode sempre existir alguém que nos procure, que queira saber mais sobre nós, que lamente a nossa ausência.

Se ainda não viram, vejam. Eu, que normalmente não ligo aos Óscares, fico a torcer para que «A Invenção de Hugo» arrecade todos e mais alguns. Aliás, acho que deviam mesmo criar a categoria «Filme Muito Maravilhoso» e, sem grandes reflexões, atribuir logo a estatueta a esta história maravilhosa. A propósito: uma vez que o filme veio de um livro, faço uma vénia ao autor, Brian Selznick, que escreveu uma obra tão admirável.

As cabras e o AO


Segundo o jornal Público, alguns investigadores britânicos descobriram que as cabras têm sotaques diferentes. Não sei muito bem como isto se concretiza, mas na minha imaginação observo já um desses bichos com um sotaque britânico muito armado, pedindo uma chávena de chá.  E se olhar com atenção, vejo ainda uma cabra cigana a arrastar as vogais e a tentar ler-nos a sina. Mas se me esforçar mais um pouco ainda consigo imaginar uma cabra lisboeta com aquele sotaque próprio da capital a dizer que dá «laite» em vez de «leite». Sim, porque quem acha que os lisboetas não têm sotaque está redondamente enganado. Temos e não é pouco (e já que estamos numa de sotaques, permitam-me a confidência: o meu sonho é um dia adquirir um sotaque nortenho. Do Porto ou de Viana do Castelo, não sou esquisita. Mas que lá para cima a nossa língua se torna mais bonita e mais musical, disso não tenho dúvidas.).

Mas como se não bastasse esta fabulosa e importante descoberta, parece que já há uns anos um outro investigador londrino (os ingleses devem ter uma secreta fixação pelos sotaques do gado) descobriu que «as vacas aprendem sotaques regionais diferentes ao mugirem». Grande coisa! A essa conclusão já todos nós tínhamos chegado! Ouça-se uma vaca açoreana. Alguém percebe alguma coisa daquele «muuuu»? Nada. Deve-se ao sotaque, claro, porque o mugido de uma vaca aqui do continente é muito mais compreensível. Atrevo-me, ainda, a dizer que o estudo está incompleto, já que não parece ter tido em consideração o estatuto social das vacas. Claro que uma vaca ali de Cascais vai ter um sotaque muito mais afectado do que uma da Amadora. Óbvio. E na Índia, onde as ditas bovinas são sagradas, ninguém percebe nada do que mugem, de tão armadas que são.

Parecem-me, pois, dois estudos fundamentais e que tanto as cabras como as vacas devem estar a aplaudir com os seus cascos catitas. Oxalá não venha de lá um Acordo Ortográfico, baseado no critério do som (como um que já tivémos o desprazer de conhecer...), que procure com afinco uniformizar a língua das bichas. Seria muito estranho as cabras começarem a berrar todas do mesmo modo. E a escrever, porque é certamente a última actividade secreta das ditas que falta descobrir, depois disto dos sotaques. Já quase imagino os volumes de literatura caprina nos escaparates das livrarias... Um luxo!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lamentável

Já todos percebemos que a coisa na Grécia não está fácil e que é necessária, para breve, uma solução que comece a endireitar as coisas. Há ali problemas graves, muito parecidos com aqueles que nós próprios vivemos, e uma incapacidade de remar para o mesmo lado, com os olhos num objectivo comum. Por cá já chegámos ao ponto de olhar para as inúmeras greves e desacatos com o ar chocado de quem sabe partilhar os mesmos males, embora seja incapaz de tais reacções. Todos nós já teremos dito, num momento ou noutro, que os gregos, tal como os romanos de Asterix, «devem estar loucos», ao ver a tamanha discórdia que por lá vai. Contudo, também sentimos para com aquela nação a empatia que nos merece um dos nossos berços e um país irmão em desgraça. Agora, minha gente, santa paciência: isto de os museus gregos andarem a ser assaltados por pura falta de segurança é coisa que ninguém consegue compreender. Há bem pouco tempo, foi roubado da Galeria Nacional de Arte em Atenas um quadro de Picasso, um de Mondrian e um desenho de Gugliemo Caccia. Hoje foram roubadas quase setenta peças em bronze do Museu dos Jogos Olímpicos, também em Atenas. O museu tinha uma única segurança, de quarenta e oito anos, que foi ameaçada com bastões de basebol, embora cada um levasse também uma Kalashnikov. Não havendo ouro, metal procurado pelos ladrões, roubaram as referidas peças em bronze. O valor das estatuetas é incalculável. Como é fácil de imaginar, falamos de artefactos com muitos séculos e importantíssimos para a nossa História.

Quando soube do assalto, depois de já ter conhecimento daquele em que o quadro de Picasso foi roubado, o primeiro pensamento que me ocorreu foi muito radical: se não têm condições para tomar conta do recheio dos museus, encaixotem tudo e despachem para outros países europeus que tenham, neste momento, condições para cuidar de tais tesouros. Claro que isto não é assim tão fácil, já que nenhum país, por muio má que seja a sua situação, aceitaria tal coisa. Sobra, portanto, a solução que envolve reforçar a segurança dos museus porque já se percebeu que são fáceis de assaltar e que não é uma única segurança que impede um assalto levado a cabo por dois tipos encapuzados e armados até aos dentes. Todos sabemos que a Grécia está sem dinheiro, mas que se saiba ainda mantém os museus de portas abertas e, assim sendo, deve proteger o melhor possível o seu conteúdo. Assaltos, até o Louvre já teve. Mas dois roubos desta dimensão em tão pouco tempo?! O Ministro da Cultura já se demitiu, e ainda bem. Agora resta saber o que vai ser feito e o que pode ser feito num país que está como a Grécia agora se encontra. Uma coisa é certa: esta facilidade que parece existir em chegar às peças museológicas, agarrar nelas e fugir tem de ser resolvida, senão começava realmente a aplaudir que as encaixotassem e as levassem para outros países mais capazes de tomarem bem conta delas.

Sandaluchas novas

Bem sei que ainda estamos no Inverno, mas já se começa a avistar a Primavera ao longe. E, como tal, começo a farejar sandálias novas para ostentar os meus curtos pezinhos quando o calor apertar. Não sei se já tinham percebido, mas aqui a menina, para além do grave problema que tem com livros, sofre de um sério vício por tudo o que sirva para calçar. Chinelos, sabrinas, sandálias, botas, sapatos: tudo! T-U-D-O! Tudinho! Direi mesmo que faço colecção, embora depois acabe a usar quase sempre os mesmos pares. Mas vá, quando é preciso estar em grande, lá vou eu buscar as preciosidades e até fico com bom aspecto. Ora, hoje, estas ganharam uma viagem até ao meu «móvel dos sapatos». Oxalá amanhã estejam quarenta graus para as poder estrear!


Livrinhos novos

Ora aqui estão os dois novos livrinhos que procuram uma nesga nas estantes cá de casa. Qualquer dia monto uma tenda na FNAC e mudo-me para lá.


Merecido descanso


Interrupção lectiva para o Carnaval. Yeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeey!!! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Frases muito boas

E sobre o malfadado Acordo Ortográfico li estas frases fantásticas de duas pessoas bem nossas conhecidas e que encontrei na revista Os Meus Livros deste mês. Desfrutem!

«Nem Angola nem Moçambique estão interessados em professores que se ponham a ensinar criancinhas e adultos analfabetos a escrever grafias suculentas como "perceção", "receção", "espetador", "precetor", e mais coisas assim, porque nos seus territórios nacionais está oficialmente adoptada a ortografia portuguesa e não um reles enxovalho para a língua comum.»

Vasco Graça Moura in Diário de Notícias, 28-12-2011


«Pequeninos geograficamente, teimamos em ser pequeninos patrioticamente. Dizia sabiamente Fernando Pessoa: "A palavra escrita é um elemento cultural, a falada apenas social." Adivinham o que se quer dizer com "não me pelo pelo pelo de quem para para desistir"? Na rejeitada e antiga grafia escreve-se: "não me pélo pelo pêlo de quem pára para desistir".»

António Bagão Félix, in Jornal de Negócios, 10-01-2012

Doideiras

Hoje soube de uma professora que foi dispensada porque, entre outras coisas, achava que dar aulas consistia em chegar à sala, ligar o computador, abrir o seu Facebook e chamar os alunos para verem as fotos que tirara com as filhas durante as férias. Esta docente já tinha muitos anos de ensino e tinha até um cargo importante na escola em causa.

Enfim, todas as profissões têm gente muito boa e gente muito má a desempenhá-las. Contudo não deixa de chocar o ridículo da situação em que uma professora entretém os alunos com a sua vida privada, delegando completamente para segundo plano aquilo que efectivamente devia estar a fazer: ensiná-los. Ele há cada uma...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Internacionalizações

Fico sempre espantadíssima quando vejo que alguém de um país diferente visitou este blogue. Nos últimos dias cheguei à Grécia, à Bélgica e à Suiça. Já antes tinha chegado à Rússia, Ucrânia, Alemanha, Brasil, França, Angola, Timor, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Gosto. Sinto-me viajada e nem saí do mesmo sítio!

Parece mentira

O que vos vou contar parece mentira, mas infelizmente não é. Hoje dei teste a duas turmas. Se a primeira teve, parece-me, um desempenho medíocre fruto da falta de responsabilidade que ostenta orgulhosamente, na segunda, "os meus mais novos", ouvi as coisas mais extraordinárias que um docente de Português pode ouvir. Num dos exercícios, os alunos deviam identificar a subclasse dos verbos e, quando encontrassem um verbo copulativo, deviam transcrever o respectivo predicativo do sujeito para umas linhas que lá coloquei precisamente para esse efeito. Bom, a questão não levantou problemas a ninguém, a não ser a um menino que tem o costume de achar que as aulas são todas dele, que ele é que manda nelas e que pode e deve ser o mais palhaço que conseguir. Hoje, visivelmente aflito com o teste, repetia sem cessar que estava "com uma branca" e chamava-me a cada cinco minutos para me perguntar alguma coisa. A dada altura disse-me que não tínhamos dado uma coisa que estava no teste e imediatamente caem em cima dele duas alunas que diziam que sim, que tínhamos visto e revisto aquilo. Ele lá continuou, sem saber o que havia de fazer à vidinha. A dada altura, encalhadíssimo nessa questão da subclasse dos verbos, põe a mão no ar e pergunta-me:

- «Está» pertence ao verbo «ter», não é?

Engulo em seco, rezo meio acto de contrição, e respondo:

- Não, é do verbo «estar».

Uns minutos depois volta à carga e, com um olhar aflitíssimo, pergunta:

- E «permanecer» é verbo «ser» e «haver», não é?

A minha boca escancarou-se, as das colegas também e só lhe consegui dizer:

- Eu nem te vou dizer nada que é para ver se tu cais em ti e percebes a asneirada que acabaste de dizer.

Até tremo só de pensar que ele possa ainda não a ter percebido...

A Menina Quer Isto VI

Tanto o Natal quanto o meu aniversário estão a anos luz de distância deste gelado mês de Fevereiro, mas dar a conhecer os meus desejos não custa, não é? Ora bem, assim sendo, e no seguimento da última «quixotada», a menina quer uma série de coisinhas Não se assustem com a quantidade: provavelmente tratarei do assunto quando chegar a Feira do Livro (abençoada!).





Não tem muito que ver com o resto, mas ando também com uma certa curiosidade sobre o nosso D. Pedro V, fundador do Curso Superior de Letras que veio, depois, a dar na minha caríssima Faculdade de Letras de Lisboa.


E pronto, é isto. A menina quer tudo.

Livros de cabeceira III


Depois da apresentação da semana passada, ando a dar-lhe uma oportunidade. Por agora, com quase duzentas páginas lidas, parece-me um bom entretenimento, embora do ponto de vista da qualidade literária não seja brilhante. Está bem escrito, mas cai aqui e ali em imagens que já vimos em livros do mesmo género. Parece-me perfeito para ocupar o tempo e para ficar a conhecer em traços largos a vida da Marquesa de Alorna. Aliás, parece-me óptimo para nos espicaçar a curiosidade sobre uma época e sobre algumas figuras históricas de quem por vezes achamos que sabemos muito sem que, na realidade, saibamos o que quer que seja. Refiro-me, por exemplo, aos Távoras e ao Marquês de Pombal, sobre quem me apetece agora conhecer mais. Assim sendo, parece-me um bom ponto de partida para levantar algumas questões que depois podemos ir esclarecer a outros sítios. E recordem o que acabei de dizer porque justifica a «quixotada» que se segue...

Comer e calar

Chego à escola onde vou dar teste a uma turma e encontro um dos alunos à porta. Ele viu-me e eu vi-o. Chego à sala e tenho uma única aluna pronta para fazer o teste. Entretanto vão chegando mais e começam a chover as faltas de atraso. Meia hora depois do início da aula, chega à sala o aluno que encontrara à entrada. Perguntei-lhe onde tinha andado, já que estava à porta da escola quando eu cheguei e só me aparecia àquelas horas. Respondeu-me com um tom muito desafiante: «Fui para o café.». Disse-lhe: «Então a tua falta já nem vai ser de atraso, vai ser falta de presença.». O tom de voz muda e de forma muito mais educada do que até aí pergunta se ainda pode fazer o teste. Dei-lhe o enunciado e, pelo que fui vendo enquanto vigiava a prova, aquilo nem a cinco valores chega, quanto mais a dez. É uma pena que os bolos de arroz ainda não venham com conteúdos gramaticais no papelinho que os rodeia.

Este é o prato do dia que os professores vão comendo e calando.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cheirinho bom

As fotos ainda não têm o poder de transmitir cheiros, mas é pena. A julgar pelas de alguns pratinhos papados na Feira do Fumeiro de Vinhais, este blogue só ganhava se tivesse cheiro. E se oferecesse uma rodelita de chouriço a cada visitante, upa upa, passava a ser o estaminé mais visitado da blogosfera. Todavia, tal ciência ainda não foi inventada por isso governem-se com as duas fotos (sugeridas por uma visitante do «As Minhas Quixotadas» que terá passado pelo certame). Quanto a mim, devo dizer-vos que é de lágrimas nos olhos que pespego aqui estas imagens: bate em mim uma nostalgia pelo chouriço assado que não provei, que me sinto descoroçoada e meio babosa...




Adendazita: Mais fotos aqui, a página sugerida pela nossa visitante. Os meus parabéns ao fotógrafo que tirou fotos capazes de pôr um vegetariano a salivar!

Contos

Ando tentada a lançar-me nas lides dos contos. Não tenho grande talento para enredos, mas a caneta anda a exercer um fascínio quase inédito sobre mim. Já há muito tempo que não tinha estas comichões nas cabecinhas dos dedos, por isso é melhor aproveitar a maré e tentar a ver no que dá. Nunca tive qualquer talento para ficções, escrever um livro é coisa que nunca vai acontecer, por isso resta-me ir fazendo umas tentativas de qualquer coisa. Parece-me que escrever contos, pelo seu tamanho reduzido, não é tarefa nada fácil. É preciso concentrar muito em pouco espaço e para isso é preciso saber-se muito bem o que se vai dizer. Ora, eu não sei se tenho muita certeza do que tenho para contar, embora saiba que é pouco para alguma coisa maior do que um conto. Uma confusão, portanto. Depois conto-vos como correu.

A «Biblioburro»


Na Colômbia é assim que os livros chegam às mãos das crianças das aldeias mais remotas. A ideia foi de um professor que se lembrou de fazer uma espécie de biblioteca itinerante nos alforges dos jumentos. Adoro o conceito e a tentativa de superação de uma dificuldade que poderia significar a falta de acesso aos livros por muitos meninos que têm o azar de morar longe do lugar onde estes se encontram. O professor que se lembrou desta «Biblioburro» não só demonstrou que a leitura é importante ao ponto de justificar o atravessamento de montes e vales, como também deixou bem implícita nos nomes dos asnitos a missão que eles desempenham: a burra chama-se «Alfa» e o burro chama-se «Beto». Brilhante.

Notinha: Ai o que eu gostava de ir a uma biblioteca assim! Creio que mandava os livros para o brejo e ficava-me pelos abracinhos aos burritos. Adoro burros! Quando começar a faltar dinheiro para manter a Biblioteca Nacional, espero que o governo se lembre dos muitos jumentinhos que não têm o que fazer neste país. Seria bastante engraçado ver o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende passear-se no lombo de um asno...

Dia de S. Valentim

Hoje anda este mundo e o outro a balir sobre o amor e os namorados e a perfeição da cara-metade e a oferecer ursinhos brancos que seguram corações carmesim e a marcar jantares românticos e a preparar um encontro sexy e... Uma rambóia, portanto. Acho muito bem que o façam. Contudo eu não o farei. Já passei, há uns quantos anos, por essa fase em que esperava pelo dia 14 de Fevereiro para ter um dia especial com o moço. Depois começámos a perceber que a data não nos dizia nada e preferíamos comemorar datas nossas, que evocassem algum acontecimento importante da nossa vida. Não o verei hoje, mas não me aborrecerei mais com isso só por ser Dia de S. Valentim. Aborreço-me tanto quanto se fosse dia 12 de Janeiro, dia 21 de Março, dia 18 de Junho ou dia 21 de Dezembro. Ou seja, um dia como outro qualquer. Dias para presentes, dias para jantares românticos, dias para evocar as mil qualidades que lhe encontro, dias para saídas especiais são todos e se assim não for, se for mesmo necessário um dia marcado em todas as agendas deste mundo para dedicar a quem connosco partilha a vida, então que se lixe o namoro que a coisa vai muito mal.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Menina Quer Isto V

O esmiuçar de livrarias de hoje fez-me folhear este volume gigantesco e ganhar por ele uma empatia que terá de dar, em breve, em mais qualquer coisa. Veremos por quanto templo manterei este amor em potência longe de mim.


Notinha sempre a propósito: A imagem da capa saiu da página da Wook.

Inquilinos novos

Hoje estes dois meninos mudaram-se cá para casa. Sejam bem-vindos, pequenotes!



Enamorada


Estou tão apaixonada por este quadro. A tela foi trazida de Madrid e as molduras foram feitas na loja Moldura na Hora (que faz sempre, deixem-me que vos diga, um trabalho excepcional e muito rápido). É mais um D. Quixote a viver comigo no meu quarto e a animar-me os inícios dos dias. Gostava muito que um dia este pintor de rua viesse a ser um novo Picasso, de modo a passar a ter uma fortuna pregada na parede. Contudo, ainda que tal não suceda e que jamais venha a valer mais do que os quinze euros que me custou, acreditem que o quadro vale muito para mim.

Alunos chocados

Hoje os meus alunos mais novos ficaram muito chocados quando à pergunta por eles colocada («A professora fica triste se tivermos negativas?») respondi que não. Disseram logo que a professora de Matemática ficava triste quando se saíam mal nos testes e eu expliquei-lhes que não me sentia na obrigação de perder um minuto de vida a sentir-me mal por uma coisa que, na maioria das vezes, só reflectia falta de responsabilidade e de estudo da parte deles. Mais: expliquei-lhes que o meu trabalho foi feito ao dar as aulas, mandar trabalhos para casa, fazer a sua correcção, rever a matéria para o teste e repetir a mesma coisa três ou quatro vezes. Se ainda assim houver negativas, o problema não é, de modo algum, da minha parte e, portanto, não devo ser eu a ficar triste. Claro que como estão habituados a verem os docentes martirizarem-se porque os meninos não estudam e não querem saber, ficaram chocadíssimos com a minha sinceridade. Pois temos pena: não estudam e não se ralam quase na véspera do teste e enquanto eu faço revisões da matéria? O problema é apenas deles e acho que  devem perceber isso. Faz falta aos miúdos compreenderem que para cada acção (ou falta de acção, neste caso, falta de estudo...) existe uma consequência. Normalmente, vêem as consequências da falta de estudo nos professores: eles, alunos, têm negativas e são os professores que têm de ficar tristes, são os professores que têm de dar testes de recuperação, são os professores que têm de repetir tudo novamente até ao enjoo. Não embarco nisso e portanto recuso-me a perder um segundo da minha existência a lamentar as horas de estudo que, da parte deles, nunca tiveram lugar.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Whitney Houston

Goste-se ou odeie-se, a verdade é que a voz da Whitney Houston era admirável. O género pode não ser o preferido de muitos, contudo é inegável que interpretava as suas músicas de forma absolutamente avassaladora. Ao que parece, ontem juntou-se à galeria dos já muitos que morrem numa idade em que ainda têm bastante para dar. Foi encontrada morta num hotel de Los Angeles, depois de uma vida plena de sucessos, mas também, e infelizmente, muito cheia de fracassos.

Aqui fica aquela que era a minha música preferida de todas as que interpretou («I Learned From The Best»). E repito: goste-se ou odeie-se, ninguém pode negar o talento que tinha.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um presente

Hoje o meu fofo surpreendeu-me com um livrinho. Fico duplamente contente: primeiro pela surpresa e depois porque assim vejo que ele também lê o «As Minhas Quixotadas». Obrigada!


Coisas que odeio XII

E o que eu odeio expressões como «és simplesmente linda», ou «és simplesmente fantástica», ou ainda «esse livro é simplesmente maravilhoso». A sério, o advérbio está lá a fazer o quê? Basicamente estão a dizer «és de modo simples linda», «és de modo simples fantástica» e «este livro é de modo simples maravilhoso». O «simplesmente» faz falta à frase? Não, não faz. Mas ainda me irrita mais quando dizem porcarias doces como «és uma amiga simplesmente especial», que leva a pensar, devido ao advérbio, que nada mais se dirá sobre a amiga, e depois continuam em divagações sobre o quão fantástica é a dita. Então se era para dissertar sobre a fofa, o redutor «simplesmente» foi para a frase fazer o quê? O mesmo se aplica aos livros, filmes, músicas, entre outras coisas, que muitos tendem a classificar como «simplesmente» não sei quê, embora depois continuem animadamente a falar sobre eles. Credo! Usar o raio do advérbio antes de um adjectivo muito elogioso já é tão batido, tão batido, mas tão batido que vai consumindo tanto o sistema nervoso como a boa da expressão «certas e determinadas coisas». Mas «certas» não vai dar ao mesmo que «determinadas»? Enfim, isso daria outro texto e agora tenho as mãos frias.

Feira do Fumeiro em Vinhais

Vêm-me as lágrimas aos olhos de cada vez que penso que, nesta gelada «ocidental praia lusitana», decorre desde ontem a Feira do Fumeiro de Vinhais. Diz que já é a trigésima segunda, mas eu ainda nem a primeira experimentei e sou sincera: custa-me a imaginar que neste vale de lágrimas em que vivemos exista algo tão paradisíaco como um pavilhão invadido pelo cheiro a chouriços, farinheiras e afins. Aliás, se eu chego a saber que por lá se assam linguiças a rodos, sou menina para me meter no comboio (diz que de avião por estes dias não pode ser) e assentar arraiais até o colestrol começar a apitar sonoramente. Ah gente, ninguém desse lado sonha o quanto esta «quixoteira» gosta de fumeiro. Atrevo-me a dizer que os porcos, quando me vêem, correm a arrecadar-se com medo que eu antecipe o processo e os pendure ao fumeiro ainda com eles vivinhos da silva. Bom, o meu apetite não chega a tanto (cerditos, sosseguem!), mas que é extraordinário, lá isso é. A todos os que têm a oportunidade de visitar a feira fica a mensagem: enfardem por vós e por mim.


Notinha: E aos que vão mesmo (que sei que vão), peço que fotografem aí umas bancadas bem fartas e que mandem as imagens para asminhasquixotadas@gmail.com, que o blogue terá todo o gosto em exibi-las. Temo que a minha baba estrague o computador, mas eu ponho um plástico sobre o teclado e deixa de haver problema...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Menina Quer Isto IV


Diz que o filme é muito bom, mas eu gosto sempre mais dos livros. Venha ele!

Marquesa de Alorna

Hoje estive numa sessão em que a escritora Maria João Lopo de Carvalho apresentou a pais, alunos e professores alguns dos livros que já publicou, desde os virados para os mais pequeninos até à biografia romanceada da Marquesa de Alorna.

A apresentação que fez dos livros para crianças e para adolescentes não me convenceu muito. O defeito não foi dela, que apresentou as suas histórias com muita energia e empenho. É mesmo meu, que não gosto destas colecções infanto-juvenis cheias de namoros e chatices com os pais, que existem para que não se diga que os miúdos não lêem. Prefiro os clássicos e há muitos para os mais novos. Peter Pan, Winnie The Pooh, O Vento nos Salgueiros, Robinson Crusoe, A Ilha do Tesouro, O Feiticeiro de Oz (o meu preferido!), As Aventuras de Pinóquio... Tantos livros que o tempo consagrou, que são tão maravilhosos e que são tantas vezes catalogados, apenas por serem clássicos, como chatos, aborrecidos e complicados. Enfim, não digo que não deixe os meus filhos lerem colecções como aquela que a Maria João Lopo de Carvalho apresentou, mas não deixarei de lhes dar a conhecer as histórias dos grandes mestres da literatura e aquelas com que tropeçarão pela vida fora porque os clássicos estão em todo o lado, felizmente.

A autora apresentou, também, a biografia romanceada da Marquesa de Alorna, publicada no ano passado e admito que fiquei curiosa. Tanto que comprei o livro à saída, com direito a autógrafo e tudo. Explicou ela que passou um ano fechada a documentar-se com toda a informação necessária para a realização do livro. Leu sobre os séculos XVIII e XIX em Portugal e no mundo, leu a obra da Marquesa de Alorna, leu a muita documentação que sobre ela existe na Torre do Tombo e depois lançou-se à escrita. Achei a descrição interessante porque me fez lembrar o percurso feito por um investigador quando trabalha na sua tese. A diferença é que, no fim, um resultou numa biografia romanceada, sem a necessidade de muitas notas de rodapé que justifiquem tudo o que é dito, e o outro daria uma tese onde tudo está muito bem sustentado com os estudos dos que anteriormente se ocuparam do assunto. Achei, também, muito interessante a ligação da autora à própria Marquesa de Alorna, já que a casa onde esta viveu é hoje pertença da família da Maria João Lopo de Carvalho. Parece ter havido ali aquele fascínio que certos espaços ou objectos antigos exercem sobre nós. Fiquei, portanto, com uma certa vontade de ler aquele livro e fá-lo-ei em breve. Depois conto-vos o que me pareceu.


Notinha: Como bem vêem, a imagem foi retirada da página da Wook.

Blogues

Para que é que se cria um blogue? No meu caso pela vontade de voltar à escrita. Se nada tenho para dizer que tenha qualidade suficiente para se apresentar noutro formato, nada me impede de usar um blogue para despejar os disparates todos que me passam pela cabeça. São assim muitos blogues que conheço e que leio todos os dias. Uns partilham receitas, outros mostram fotos de viagens que não sei se algum dia farei, outros relatam experiências profissionais, muitos dedicam-se a mostrar as tendências da moda, alguns apresentam as novidades editoriais, outros a vida familiar... Enfim, cada um é diferente do outro (embora os de moda a dada altura pareçam quase todos iguais...).

Depois há aqueles que, supostamente pela qualidade, se destacam e são reconhecidíssimos. Têm milhares de visitas diárias e um séquito de gente que defende tudo o que o responsável pelo blogue publica, mesmo quando está a dizer a maior idiotice do mundo. Todos sabemos que nem toda a gente tem espírito crítico que permita pôr em questão muito do que ouve ou lê, mas há quem abuse e defenda os seus bloggers favoritos como se fossem da família, o que é, desculpem-me, bastante ridículo.

Existem blogues escritos por gente com muito talento para as palavras e cuja leitura é um prazer diário. Contudo, é com algum desânimo que vamos verificando como alguns destes espaços de escrita vão virando montras publicitárias que realizam passatempos atrás de passatempos, como se a única forma de garantir visitas diárias consistisse na oferta de produtos. Escreve-se uma frase linda sobre o blogue, afaga-se o ego de quem o escreve e pronto: vem de lá um presentinho que na maior parte das vezes não faz falta nenhuma, mas pronto...

Claro que digo isto, mas todos os dias faço um pequeno passeio por vários blogues. Não deixo de ir ver o que por lá se diz. Todavia, em alguns casos, acabo desiludida com a muita publicidade que encontro (não só na página, mas também nos próprios textos), com a infinidade de passatempos que se fazem e com o chorrilho de lambe-botice que verifico nas caixas de comentários. Cada um tem o blogue que quer e publica nele o que bem entende, é verdade, no entanto é pena que às vezes se desperdice um certo talento com as palavras em prol de uma fama que, parece-me, vale muito pouco.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos maus nomes

A Fnac está com uma promoção em que se compram packs de dois livros mais ou menos pelo preço de um. O que me espantou foi o nome dado aos vários conjuntos. A bem dizer, pensando bem nisso, conheço duas ou três meninas que já devem estar malucas com a vontade de comprar o «Pack Sensual e Ousada», o  «Pack Sonhadora e Destemida», ou mesmo, quem sabe, o «Pack Aventureira e Atrevida», cada um deles com um livro mais aliciante do que o outro (note-se que estou a ser irónica). Mas se não gostarem destes, poderão sempre optar pelo «Pack Amor Sentimental», pelo «Pack Amor Perfeito» ou ainda, por que não, o «Pack Amor Doce». Delícia, han?

Ai o que eu gostava que fizessem o «Pack Gajas Adúlteras», que incluiria a Madame Bovary e a bela da Anna Karenina; o «Pack Sou Meio Apanhado», onde entraria o Quixote e o Moby Dick; o «Pack Padres Badalhocos», com um volume de O Crime do Padre Amaro e um de O Crime do Abade Moret; o «Pack Sou Mau Como As Cobras», que incluiria um exemplar de Tom Sawyer e um de História de um Rapaz Mau; o «Pack Sou Uma Grande Pêga», de onde retiraríamos o Nana, de Zola, e O Livro de Alda; o «Pack Bando de Desgraçados», no qual encontraríamos o bom do Oliver Twist e Os Miseráveis; o «Pack Só Quero Saber de Arranjar Marido», com Orgulho e Preconceito e Mulherzinhas; o «Pack Mortos Lixados», que incluiria as Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo (com um brinde que consistiria num exemplar de Dona Flor e os Seus Dois Maridos); o «Pack Tenho Um Nariz Feio» com Um, Ninguém e Cem Mil, do senhor Pirandello, e O Nariz, do russo Gogol; o «Pack Falo Pelos Cotovelos», que teria um exemplar de As Mil e Uma Noites e outro de O Manuscrito Encontrado em Saragoça e, por fim, o «Pack Não Gosto de Livros Por Isso Chego-lhes o Fogo», que incluiria o Fahrenheit 451 e O Nome da Rosa, do senhor Umberto Eco. Mas é que gostava mesmo: é que apesar dos péssimos nomes, os livros seriam óptimos e eu compraria os packs todos!

A lição n.º 100

Uma das partes engraçadas da profissão de professor é que aquelas coisas engraçadas que experienciávamos quando éramos alunos e que, para a maioria dos mortais, ficam apenas como memória dos tempos de escola, para nós nunca acabam verdadeiramente. Apenas muda o ponto de vista através do qual as vivemos. Por exemplo, hoje comemorámos a centésima lição numa das turmas e houve festa de arromba. Desde teatro, a coreografias, passando pela boa da paparoca, houve de tudo (inclusivamente uma sala de aula a precisar urgentemente de água e esfregona...). Enquanto escrevia o sumário no livro de ponto não pude deixar de pensar na mudança de perspectiva: tantas «lições cem» comemoradas como aluna, e agora eis-me aqui a presidir à minha própria festa. Enchi balões, pus mesas, comandei o ensaio geral da peça, ajudei à caracterização das personagens, ajudei a arrumar a sala... Tive um trabalho dos diabos! Contudo, também me ri com a representação, apresentei os actores, comi bolo brigadeiro (bem bom, por sinal!), aplaudi e participei como se aquela festa também fosse minha. E na realidade também era.

Detesto discursos dulcíssimos sobre a profissão docente, como aqueles que envolvem o quanto os alunos nos ensinam e a importância dos seus sorrisos. Tanta mariquice rebenta-me com os nervos. Prefiro evocar a profissão de professor como fantástica na medida em que nos permite nunca perder totalmente o contacto com uma realidade que, parecendo que não, ocupa muitos anos da nossa existência. Gostava da escola enquanto aluna e agora gosto dela enquanto professora. Posso passear pelo pátio, tal como naquela altura; posso ir ao bar, tal como naquela altura; posso escrever no quadro, tal como naquela altura. No fundo, muita coisa manteve-se... Mas claro que outras coisas mudaram e sendo verdade que hoje posso entrar em salas que antes me estavam vedadas, também é verdade que os decotes da aluna tiveram, na professora, de reduzir drasticamente de tamanho...

La Aventura de la Historia


Hoje comprei esta revista pela primeira vez e parece-me que será para continuar. É mais uma publicação mensal cuja leitura vai andar em atraso, mas vá... Tarde ou cedo o que importa é ler!

Aos homens constipados

Há uns tempos, cirandando por entre os blogues que gosto de bisbilhotar, deparei-me com um poema do António Lobo Antunes que não conhecia, mas que fiquei a adorar. Eu, que nem sabia que ele escrevia poesia, fiquei abismada com o talento do romancista para espelhar num poema a atitude masculina durante uma simples gripe. Ora, aqui vos deixo o «Poema aos Homens Constipados», cortesia do nosso grande António Lobo Antunes.

«Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes, que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças,
Tigres sem listras, bodes sem tranças,
Choros de coruja, risos de grilo,
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo.
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes, que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.»


(Que tal? É brilhante, senhores, brilhante...)