sábado, 21 de abril de 2018

Que caneco!

E agora que o resto vai sossegando e que também já estou a trabalhar (sem ter voltado ao ensino, felizmente), vejo-me fortemente constipada e com uma crise de sinusite. E ainda por cima parece que apagaram as luzes do céu e nem dá para ler em condições. Que caneco!


Nota: A imagem saiu daqui.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Chora, Camões, chora... XXIV

Este print screen é de uma notícia que está hoje na aplicação do Notícias ao Minuto. A notícia em questão é sobre a subida das temperaturas prevista para esta semana. 

Parece que afinal a culpa é de um “anticiclope”. Eu até percebo que os ciclopes sejam gajos chatos e que seja bom ter uma coisa “anti-eles”. Vejam com o Ulisses. Os ciclopes deram luta, foram mauzinhos. Por isso, tudo o que espante esses seres míticos é bom para nós, dá-nos mais tranquilidade. A mim, por exemplo, revolta-me que não existam mais “antilobisomens” ou “antiunicórniosraivosos”. Ou mesmo “antivampiros”. Há para aí tanta bicharada mítica que precisava de ser afastada e posta no seu devido lugar! Agora, a única coisa que não compreendo é mesmo em que é que isso faz subir a temperatura. Alguém me explica?




segunda-feira, 16 de abril de 2018

88.ª Feira do Livro de Lisboa: as datas

Pois é, o tempo voa e estamos quase lá: no dia 25 de Maio abre a Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII. Estará aberta até ao feriado da cidade a 13 de Junho. Portanto, meus caros, é altura de começar a fazer as listas e a prepararem as carteiras porque quando derem conta já estarão a percorrer os pavilhões cheios de livros e a desejarem ser milionários. 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Depois de um mês e dez dias de internamento, o meu pai regressou hoje a casa. Ainda está fraquinho e o corpo ainda pede um considerável caminho de recuperação, mas pelo menos já o pode fazer junto da família num ambiente mais acolhedor do que o de um hospital.

Foram tempos difíceis estes. Foram avanços e muitos recuos, com cada dia a ser uma surpresa, sendo alguns um enorme pesadelo. Foram várias estadias nos Cuidados Intensivos, foram reveses de mais para quem já tinha sofrido tanto. Foram muitos dias em que o caminho para casa depois da visita foi feito em silêncio porque já nem se sabia o que dizer em cima de tudo o que os olhos tinham visto. Foram tempos de muito cansaço, mas também de muita esperança. De muita Fé. Descobre-se neste momentos duros que, de facto, a mesma Fé que nunca se entende nos outros é a que nos ajuda quando o temor aperta. É preciso acreditar que vai correr tudo bem, mesmo quando parece correr tudo mal e a Fé ajuda-nos muito nessas alturas.

O beijo que no Dia do Pai ficou adiado foi dado hoje. Com uma máscara pelo meio, é certo, mas que mais posso pedir? Tenho o meu pai comigo, a melhorar, e com perspectivas de uma vida nova. Não posso pedir mais nada. Um dia poderei tirar a máscara, mas até lá continuaremos juntos a percorrer o caminho que falta até ao momento em que a doença e o medo do fim sejam só uma má e longínqua lembrança.

***

Neste que é o primeiro dia das nossas vidas, quero agradecer de coração à Unidade de Cuidados Intensivos e à Unidade de Transplantes do Hospital Curry Cabral. Aos médicos que cuidaram do meu pai, àquele que o operou e de quem desconheço o nome, aos enfermeiros que estiveram disponíveis sempre que solicitados e aos auxiliares que fazem trabalhos tão difíceis com um sorriso na cara e uma palavra amiga. Agradeço também às meninas da copa, que cantavam e animavam os doentes no momento da distribuição das refeições. Agradeço de coração a todos os que de alguma forma me ajudaram a ter o meu pai em casa hoje. Todos foram importantes e todos serão guardados no meu coração para sempre. 

Mas o maior agradecimento vai para a Doutora Mariana Cardoso, médica de Gastro no Hospital Fernando Fonseca. Por nunca ter desistido, por ter persistido e remado contra a corrente, por ter acelerado o processo todo, por estar um passo à frente do que ainda estava por chegar, por ter sempre as palavras certas para com um doente já esgotado e para com uma esposa devastada. A ela devemos-lhe tudo. Mesmo tudo. E talvez muito que nem sequer chegámos a saber. É muito bom encontrar tanta humanidade, tanta empatia numa médica tão jovem e que ainda tem tanto para dar à sua profissão. Vi-a duas vezes apenas, mas sei que fez tudo pelo meu pai e a minha gratidão por isso é imensa e eterna. 

No fundo, embora muito ainda esteja por vir, por agora respira-se de alívio e sente-se uma gratidão enorme por tudo o que foi feito por uma só pessoa. Diariamente, os hospitais fazem outro tanto por outros doentes. Cada vez que se cortam as verbas para a Saúde, crianças, mulheres e homens como o meu pai ficam um bocadinho mais longe de regressarem a casa. O nosso SNS, que tanto nos põe os cabelos em pé, tem a trabalhar nele gente muito, mas muito competente, que merece ser bem recompensada pelo trabalho difícil que desempenha. Para que um doente possa encontrar uma nova vida no final de um internamento, uma enorme máquina tem de trabalhar e todos têm estar em sintonia. Médicos, enfermeiros, auxiliares e muitos outros funcionários têm de cooperar para chegar a bom porto. Não é fácil, há dias muito duros, mas acredito que a grande maioria dá o seu melhor para que todos os pacientes tenham um dia que possa ser chamado de «o primeiro dia do resto das suas vidas».

Obrigada, de coração, a todos.




segunda-feira, 19 de março de 2018

Um beijo adiado

Acreditamos nos beijos como garantidos. Até ao dia em que percebemos pela dura realidade que nem sempre os beijos são assim tão possíveis e garantidos como pensávamos. Depois apetecem-nos, mas não podemos dá-los e isso dói. É tão simples, tão pequeno, mas dói.

Passei as últimas semanas a pensar nesta «quixotada». Entendam-me: pensava pouco nela, porque havia (e há) muito mais a encher-me a cabeça e os dias, mas mesmo assim pensava. Quem tem um blogue como este, pequenino e onde parece que já nos conhecemos todos, acaba por sentir uma certa obrigação para com quem simpaticamente o segue. Desaparecer de repente é feio, mas, acreditem, não me foi possível agir de outra forma nos últimos tempos. De um dia para o outro - literalmente - a vida mudou e ainda estou no meio dessa mudança a tentar perceber qual é o rumo das coisas. Contudo, mesmo achando que só escreveria este texto daqui a umas semanas, hoje é Dia do Pai e acho que é a melhor data para deixar aqui um pedaço de uma história que é muito maior do que a que escreverei. Acreditem: há turbilhões que não cabem em palavras nenhumas. E, sobretudo, há sentimentos que são intraduzíveis, incapazes de se verem vertidos em frases, por bonitas que sejam. 

Hoje, o meu beijo ao meu pai ficou adiado porque há duas semanas recebi, no mesmo dia e com seis horas de diferença entre um e outro, dois telefonemas inesquecíveis. Acho que nunca o disse aqui, mas o meu pai estava doente há cerca de um ano e vinha a piorar consideravelmente desde Novembro de 2017. Uma patologia no fígado trazia a certeza de que só um transplante poderia resolver a situação. Mas desengane-se quem pensa que a entrada na lista de espera de um órgão é coisa rápida. São precisos muitos exames, muitas consultas, é tudo muito difícil e demorado, especialmente quando vemos o nosso familiar enfraquecer de dia para dia, desaparecer aos poucos à nossa frente. Eu via o meu pai sofrer cada vez mais de dia para dia. Via-o a emagrecer, a não conseguir comer, sabia que durante a noite mal dormia... Enfim, sabia que era preciso um milagre ou acabaria por correr tudo muito mal. Como devem imaginar, isto é muito doloroso. Assistir à fragilização de um familiar tão próximo é um constante murro no estômago. A dor é mesmo essa: um nó no estômago que não sai. Senti-a várias vezes, particularmente quando chegavam más notícias, e foram várias.

Há duas semanas recebi, como dizia, um telefonema a informar-me de que o meu pai entrara finalmente na lista de espera para um transplante hepático. Forneci todos os números de telefone da família para garantir que alguém ouviria o telefone quando fosse mesmo preciso. Ficámos todos muito felizes porque, finalmente, o tempo ia passar com um sentido: a espera pela mudança. Até então os dias passavam só para o vermos piorar. Daí em diante, cada hora passada seria menos uma até à chegada de um fígado compatível.

No mesmo dia, seis horas depois, recebi uma chamada da médica do meu pai a dizer que havia um fígado compatível. Aceitámos imediatamente o órgão (sim, é possível rejeitar) e ficámos a aguardar a chamada do hospital para levarmos o meu pai. No dia seguinte, às seis e meia da tarde, levámo-no para ser internado e às nove e cinquenta da noite desceu para o bloco operatório. 

Na manhã seguinte, contactei o hospital e soube que a cirurgia tinha corrido bem e que ele estava estável. Pudemos visitá-lo nos Cuidados Intensivos nessa mesma tarde. Não consigo explicar-vos a mudança transformada nele apenas umas horas depois da operação. O meu pai estava de volta. Inchado, ainda baralhado pela anestesia, conseguia mesmo assim parecer-se mais com o meu pai antes de adoecer do que com a pessoa doente que deixáramos no hospital no dia anterior.

Depois a recuperação foi decorrendo lentamente. Tenho ido vê-lo todos os dias e é extraordinário perceber o que a mudança de um órgão traz à vida de uma pessoa. Já o vi andar, que era coisa que já praticamente não fazia antes do transplante. É uma alegria indescritível ver voltar à vida uma pessoa que nos é tão querida e que esteve tão doente. Mas, claro, não podia ser tudo assim tão simples e, no início da semana passada, o meu pai voltou aos Cuidados Intensivos devido a uma infecção. Como sabem, a imunidade de um transplantado é muito baixa e uma infecção é um pesadelo para o próprio e para a família. Voltou o murro no estômago, o nó na garganta, o pânico. Nem sei como explicar tudo. Entre a Fé de que tudo vai correr bem, aparece o medo de que tudo corra mal. Não é medo: é um terror contra o qual nada mais podemos fazer a não ser fingir perante ele que está tudo bem. Chora-se depois, chora-se em casa, chora-se longe dele porque enquanto estamos ao seu lado temos de sorrir. É difícil, custa mesmo muito, mas, acreditem, há muita, muita gente a passar por isto. No hospital, cruzam-se as mesmas caras diariamente. Já perguntamos uns pelos outros e é uma espécie de microcosmos triste que encontra assim uma pequenina forma de aparentar normalidade. Aliás, para a minha família e a dos outros doentes, aquela é a normalidade possível. É e será a nossa vida durante algum tempo.

Neste momento ele está estável, mas o beijo do Dia do Pai e todos os outros estão adiados. Não podemos arriscar mais infecções e, presentemente, todos somos um perigo para pacientes como o meu pai. Por muito que desinfectemos as mãos e que usemos máscara, quem vive um transplante tem de viver uma fase em que a imunidade quase não existe e isso significa que todo o cuidado é pouco. Por isso, para o bem dele, o beijo ficou por dar. Afinal, parece que há momentos em que não dar um beijo é um enorme acto de amor. Todavia, agora há a esperança de que pela frente existam muitos mais Dias do Pai, muitos mais dias de tudo e de nada para poder tê-lo por perto. Tempos houve em que temi que o tempo estivesse a esgotar-se. Agora sei que, sendo ainda tudo muito incerto, pelo menos há já uma esperança mais evidente de que tudo corra bem. O beijo pode esperar. Estará guardado para ele. Estará SEMPRE à espera dele.

Nota: Desculpem-me todos os que se preocuparam com o meu silêncio, mas não conseguia escrever-vos. O tempo é pouco e era ainda tudo muito incerto. Não é que tudo esteja já ultrapassado, mas pelo menos as coisas estão a correr bem e esta data é tão simbólica que acabou por ser o dia certo para partilhar isto convosco. Ficam muitos pormenores de fora, mas com o tempo, quando tudo passar e ele estiver bem e em casa, poderei respirar de alívio e escrever mais sobre isto. Também me fará bem.


sábado, 17 de março de 2018

Queridos leitores do “Quixotadas”

Passo rapidamente por aqui hoje para dizer-vos que o blogue não terminou e que ainda está para durar. Está, sim, a fazer uma pausa por motivos que brevemente vos explicarei. Não tenho vindo cá, mas não é por não ter o que partilhar convosco. Pelo contrário: tenho bastante para dizer-vos, no entanto têm-me faltado o tempo e a cabeça para alinhar ideias e frases com jeito. 

Espero regressar brevemente e retomar o ritmo. Mas, até lá, fica a garantia: o blogue “As Minhas Quixotadas” vive e está para durar. Só precisou mesmo de parar e de respirar fundo. Às vezes tem mesmo de ser, mas depois a força com que se volta é renovada. Contar-vos-ei tudo muito em breve. E espero ter-vos ainda desse lado nessa altura. 

Obrigada pela vossa paciência. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Prémio Livro do Ano Bertrand 2017


Vem aí a segunda edição do Prémio Livro do Ano Bertrand, na qual os livreiros e os leitores Bertrand serão convidados a votar naquele que considerarem o melhor livro de 2017 em cada uma das três categorias em concurso: Melhor Livro de Ficção Lusófona; Melhor Livro de Ficção de Autores Estrangeiros e, por último, Melhor Reedição de Obras Essenciais da Literatura Lusófona ou Universal. 

Sendo tantos os livros publicados todos os anos, foi preciso reduzir aqui a lista de opções, e, portanto, foi já feita uma pré-selecção que resultou na escolha de 119 livros. Em meados do próximo mês estarão disponíveis os cinco finalistas de cada categoria e só os mais votados de cada uma vencerão o prémio. Este não tem valor pecuniário, mas permite uma maior divulgação e destaque dos livros vencedores.

Resta-me dizer-vos que poderão votar depois de receberem, enquanto livreiros ou leitores Bertrand (detentores do cartão gratuito de fidelização), um convite por e-mail, enviado pela Livraria Bertrand. E, embora apeteça muito, só podemos votar uma vez por categoria, por isso convém fazê-lo com consciência. Caso queiram, podem consultar aqui o regulamento. 

Até lá, leiam muito que só faz bem à saúde.

Nota: Quixotada escrita a partir da nota de imprensa feita chegar pela área de Comunicação das Livrarias Bertrand.

Oportunidade na BD da Gradiva


Calculo que a imagem se veja um bocadinho mal, mas fica a dica: até ao dia 15 de Março, a banda desenhada do catálogo da Gradiva está com uns fantásticos 40% de desconto. Noto que é na Gradiva que são publicados os magníficos álbuns de Calvin & Hobbes e os de Fox Trot. Porém, além destes, são muitos os livros de banda desenhada a beneficiarem deste desconto apetitoso e podem consultá-los aqui. Aproveitem a oportunidade e vivam boas leituras aos quadradinhos. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Vestígios felinos

Há dias em que saio de casa, olho para a minha roupa e pergunto-me se ela sai sozinha do armário para “espolinhar-se” em pelo de gato. Vesti hoje um casaco que, com a luz artificial, parecia porreirito. Porém, à luz do sol, está quase mais peludo do que o Senhor Gato! E eu sem nenhum rolo para tirar pelo da roupa. Bonito. 

Já inventaram tinta que repele a urina. Para quando a invenção de qualquer coisa que, aplicada nos tecidos, não deixe agarrar-se o pelo dos bichanos? O povo aguarda com expectativa. Ou então sou só eu. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Chora, Camões, chora... XXIII

É importante uma pessoa assegurar-se da ortografia correcta de uma palavra antes de a bordar, diria eu. 


Quem comprar isto pode depois bordar as correcções por cima a vermelho. 

Eu até comentava, mas...

Acabei de ler na página de Facebook da SIC Notícias que uma das ideias do Senhor Trump para travar os ataques armados em escolas consiste em... armar os professores e dar-lhes formação para defenderem os alunos em caso de ataque. 

A ir para a frente, é a medida que faz com que os professores batam no findo do fundo. Serão uma espécie de mártires-seguranças. Uma coisa destas não cabe na cabeça de ninguém que não esteja enlouquecido. Como professora, só posso suspirar e revirar os olhos por alguém ter sequer uma ideia assim. É mesmo não compreender a profissão, as escolas, o ensino, e ver a questão da segurança completamente pelo lado errado. 

Haveria muito para dizer sobre o facto de alguém poder achar que os professores devam/queiram andar armados nos seus locais de trabalho, mas além de estar com pressa acho isto tudo tão estúpido que deixemos o assunto por aqui. 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

História da Vida Privada em Portugal: A Época Contemporânea - o balanço


Nem sempre a História olhou para a privacidade dos lares por isso habituámo-nos a entender o estudo do passado como algo que olhava para a economia e para os movimentos sociais, esquecendo que dentro destes existiam indivíduos e que a sua vida ia muito além da sua integração numa economia e numa sociedade. Felizmente, isso acabou por mudar e alguns historiadores começaram a compreender que o estudo das diferentes épocas ficava definitivamente incompleto se não se olhasse para aspectos tão privados como a moda, os sonhos e ambições da população, a alimentação, as crenças religiosas, a vida em família, as ocupações lúdicas, a estrutura das habitações, entre outros muitos aspectos.

Esta História da Vida Privada é composta por quatro volumes que, receio, já não sejam assim tão fáceis de encontrar. Podem ser utilizados como livros de consulta, mas resulta muito bem ler cada volume de uma ponta a outra. A visão que assim formamos de uma determinada época torna-se mais completa e consistente, o que me parece importante.

O terceiro volume, aquele que escolhi ler em primeiro lugar por tratar de uma época (de 1820 a 1950) que figura nos romances camilianos e queirosianos, apanhando ainda a I República e os primeiros tempos do Estado Novo, permite-nos ficar com uma ideia muito concreta do que eram as vivências mais íntimas da população durante aqueles cento e trinta anos. Uma coisa interessante que retive foi a grande evolução das liberdades individuais até à década de 30 do século XX. A República prometia mudar a sociedade e começou mesmo a fazê-lo, alterando medidas relativas ao divórcio, à participação das mulheres na sociedade, entre outros aspectos. Contudo, a chegada do Estado Novo fez com que o relógio português andasse irremediavelmente para trás e com que o papel de dona de casa fosse o único aceite pelo regime para as mulheres. 

Ter uma noção do que aconteceu durante a época abordada em cada volume é importante porque nenhum indivíduo age fora do período histórico em que lhe coube viver. Não esperem, contudo, ser situados historicamente nestes livros, pois para isso existem os outros, os que se dedicam à História económica, política e social. No entanto, é mesmo importante ter uma noção básica de quais os grandes marcos destes cento e trinta anos analisados neste volume de modo a percebermos que o que era constante na vida privada de 1820 poderia já não o ser em 1950, precisamente porque muito mudou entre uma baliza temporal e a outra. 

O único aspecto menos positivo que verifiquei neste livro prende-se com algumas expressões que não são muito claras e que não são alvo de nota de rodapé. Não sei se será por se tratar de conhecimento pressuposto (como a referência aos «cabelos à Joãozinho»), mas senti a falta de algumas notas de rodapé que, mais do que indicarem as fontes, explicitassem melhor alguns aspectos referidos. Também senti que poderia haver mais ilustrações. Nestes volumes, elas são de dois tipos: a preto e branco nas páginas de texto e a cores nas páginas destinadas à exibição de imagens capazes de ilustrar o assunto abordado. Ora, as imagens coloridas, agrupadas em páginas em diferentes secções do livro, mais não são do que a repetição a cores e com melhor resolução daquelas que já havíamos visto a preto e branco com legendas nas páginas de texto. Creio que, em vez da redundância de fotografias, seria mais enriquecedor a inclusão de novas imagens, diferentes das que já haviam sido vistas no momento da leitura do texto.

Excluindo estes dois aspectos, asseguro-vos de que é um livro extraordinariamente interessante. Aborda muitas áreas da vida dos portugueses de oitocentos e da primeira metade de novecentos e permite-nos ver o quanto a vida mudou não só durante aquele período, mas também de meados do século XX até agora. Para quem, como eu, tem família noutros pontos do pais, o livro torna-se ainda mais interessante por revelar pormenores relativos às diferentes regiões, como, por exemplo, que pão se comia no Minho, como se realizavam casamentos na Beira Alta, por que motivo o catolicismo teve mais dificuldade em chegar às gentes do Alentejo, entre outros aspectos. Gostarei de ler o resto da colecção, embora não já de imediato, porque ainda se trataram de quase quinhentas páginas de informação interessante para digerir. Mas não deixo de vos sugerir estes volumes.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Do ridículo

Acho extraordinário que alguém pondere seguir os «três mandamentos» ditados pelo presidente do Sporting. Já acho inqualificável o facto de alguém, em pleno século XXI, propor tais disparates, mas que haja quem faça deles lei é ainda mais chocante. É a prova de que o espírito crítico e a capacidade de análise estão desaparecidos de muitas cabeças. É ainda indicativo de que sensatez que leva a colocar as coisas em perspectiva e a vê-las na medida correcta estão, também, pela hora da morte. A forma como alguns adeptos saíram da Assembleia Geral atirando palavras e gestos pouco simpáticos à comunicação social mostra-nos que, infelizmente, ainda há quem alinhe cegamente pela batuta alheia.

Quanto às três «regras» impostas pelo controverso presidente... O meu comentário logo que vi as imagens em directo foi «recorda-me a imagem de um ditador a falar às massas». Mantenho a interpretação. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Diário de Um Zé Ninguém - o balanço


Ora, depois de um livro muito mau, nada sabe tão bem como ler um livro muito bom. E este livro é muito bom. 

O “Zé Ninguém” do título em português mostra bem quem é o autor deste diário: um homem perfeitamente comum, com um dia-a-dia absolutamente normal e, portanto, sem nada de muito relevante a registar num diário. Porém, é precisamente a mediocridade da existência deste autor que confere tanto humor a este livro. É que se, por um lado, ele não é ninguém que mereça ter, por tratar-se de vida ou obra de relevo, o seu diário publicado, por outro ele valoriza tanto o seu diário e os acontecimentos  irrelevantes que nele relata que o confronto destes dois aspectos fazem com que o leitor ache ainda mais graça ao livro. Mas ele é mesmo o único que vê alguma importância neste registos quase diários. Em determinada altura alguém chega a arrancar algumas páginas deste seu caderno para atear o lume ou para embrulhar restos de comida...

O protagonista, o “eu” deste livro, é um homem de meia-idade que tem a vida mais normal e aborrecida que se possa imaginar. De vez em quando acontecem-lhe algumas situações que perturbam a sua existência perfeitamente comum de funcionário “lambe botas”, mas mesmo esses são pouco dignos de nota. O que quero dizer é que o humor deste livro está em todos estes aspectos: no facto de o próprio título revelar que este diário pertence a alguém pouco digno de destaque, mas tratar-se ainda assim de um tipo de escrita (a diarística) que geralmente só se publica quando a vida do autor pode interessar ao leitor ou quando, pelas reflexões feitas, a obra pode ser relevante para o público; o humor também é visível na ingenuidade do próprio protagonista/autor do diário, recordando o adolescente Adrian Mole cujos diários fizeram furor vários anos depois da publicação desta obra; o facto de este homem tão desinteressante ter sobre si (e sobre o seu diário) uma ideia completamente diferente da que os outros parecem ter também provoca o riso, pois ele é o único que não percebe que os trocadilhos que faz não têm graça nenhuma e que o que escreve não interessa a ninguém porque, bom, escrever uma carta à lavadeira sobre uns lenços que perderam a cor não é coisa digna de figurar num diário que interesse ao público; o humor está também nas personagens que rodeiam o narrador, como o amigo que deixa de ser visto por estar doente e que não avisa ninguém de que o está, censurando depois os amigos por não o terem visitado (e, quando eles dizem que nem sabiam que estava doente, ele responde que a notícia saíra na Gazeta do Ciclista, como se toda a população tivesse a obrigação de ler tal coisa)... Poderia, acreditem, continuar a enumerar elementos que conferem humor a este texto, mas teria de ser ainda mais reveladora do que nele acontece e acho que vocês não querem isso. Basta-me dizer que vale mesmo a pena lê-lo e que com ele garantirão umas horas bem passadas e muito divertidas. É humor simples, sem recurso a grandes enredos e confusões. O risível está precisamente nisso: na simplicidade de tudo, no facto de ser tudo tão prosaico que nem parece ser digno de nota. É um livro que se lê em poucas horas e que só queremos continuar para ver o que tem para nos contar este autor do diário no dia seguinte. Mas porquê se é tudo tão normal como a vida de qualquer um de nós? Precisamente por isso.  Leiam que vão perceber o que quero dizer.