quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Um barrete (muito) mal enfiado

Comprámos um barretinho de Natal para colocar na Gatica e tirar uma foto engraçada. Contudo, ao chegarmos a casa, percebemos que a bichana é mais cabeçuda do que parecia. Resolvi, então, colocar o barretito num boneco artesanal que representa a conhecida personagem literária do livro homónimo Principezinho. Mas, como bem sabemos, o Principezinho é um rapaz com um penteado muito aéreo e isso levou-me a fazer um pouco mais de força para «enfiar-lhe o barrete».

Lamento informar que o resultado deste meu estúpido esforço foi a decapitação do Principezinho. A cabeça do pobrezito rolou pelo chão. Corri para ir buscar um tubo de cola de forma a devolver a cabeça ao simpático menino que dizia que «o essencial é invisível aos olhos» (e que esteve momentaneamente sem eles, desgraçado). Lá resolvi a coisa sem grandes danos visíveis e o barretito acabou pendurado na árvore de Natal.

Agora imaginem o que terá passado pela cabeça da Gatica ao ver o que provocou no Principezinho o barrete que a ela se destinava. Aposto que respirou de alívio.

Chora, Camões, chora... XVII

No que à redundância diz respeito, hoje a capa do DN está muito bem. Tentem ler sob o sublinhado.



Ah, já para não falar de “secretária” escrito com minúscula...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Ah, a árvore!





Se o Senhor Gato ainda estuda a árvore de modo a delinear o melhor plano de ataque, Lady Gatica, destemida como só ela, já fez a sua investida e eis que, subitamente, a minha árvore de Natal passa a exibir uma imponente cauda...

domingo, 10 de dezembro de 2017

Dom Quixote entra no espírito


Por aqui, Dom Quixote entrou hoje no espírito natalício e, sem pousar a sua eterna leitura, assistiu à realização da árvore de Natal. Também ele celebra a quadra e usará um barretinho de Pai Natal até aos “Reyes” ou até que um dos gatos lho roube. Aceitam-se apostas. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Incompatibilidade de horários

Os meus felinos abrem para brincadeira por volta das quatro e meia da manhã. A essa hora eu ainda estou completamente encerrada para balanço. 

Resultado: está gerada uma incompatibilidade de horários que pode degenerar em guerra muito facilmente. O pior é que eles são uns estrategas natos que conhecem tácticas de guerrilha capazes de fazer levantar o mais dorminhoco dos humanos. Temo o pior. Bandidos. 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

«Caça aos gordos»


Na edição deste mês do Courrier Internacional surge um artigo publicado pelo londrino The Observer que é absolutamente desconcertante. A capa refere-se a ele como «Caça aos gordos», situando essa mesma caçada em França. Ler o texto é entrar num mundo horrível que tendemos a esquecer que existe, mas onde se ostraciza gente que parece cometer o gigantesco pecado de... ter peso a mais.

O texto nasce a propósito de um livro publicado por uma professora francesa de educação especial que desde cedo na vida começou a ter excesso de peso. Até que, com 1,53 m se viu a pesar 150 quilos num país onde a magreza é celebrada e, aparentemente, lei a ser seguida por todos sob pena de se acabar como Gabrielle Deydier: ostracizada por uma sociedade que não quer ter lugar para gordos. 

Uma das experiências terríveis relatadas por Gabrielle Deydier prende-se com a sobrevalorização do seu aspecto físico em relação às inegáveis qualidades académicas e profissionais que evidenciava: numa entrevista de emprego, foi admitida com distinção, já que era detentora de duas licenciaturas e parecia ter o perfil adequado para o cargo a desempenhar. Porém, já depois de admitida, foi avisada de que trabalharia com uma outra pessoa que teria um temperamento difícil. Feliz pelo novo emprego como docente de educação especial, minimizou este aviso até que conheceu a colega. Foi por ela recebida com um simpático «Gabrielle Deydier, é a senhora? Não trabalho com gente gorda.». Primeiro pensou que a colega estaria a brincar, mas rapidamente percebeu que não. Aliás, o modo como foi por ela apresentada à turma de meninos autistas com que Gabrielle iria trabalhar é também digno de nota: «Aqui está o sétimo deficiente da sala.». 

Gabrielle está, presentemente, a viver num quarto de uma Pousada da Juventude francesa porque não tem rendimentos para poder ter um lugar seu. A obesidade prejudica a sua vida, mas talvez prejudique menos do que o preconceito dos outros em relação a ela. Acabou por ser dispensada da escola onde fora admitida porque a professora de temperamento difícil começou a fazer queixas sobre ela: que suava demasiado, que já a tinha visto em dificuldades para subir uma escada até ao terceiro piso... A direcção do estabelecimento de ensino, perante estes relatos, colocou-se do lado da professora mais antiga e decidiu dar a Gabrielle tempo para perceberem se estava motivada para continuar o seu trabalho. Agora reparem: esta motivação que procuravam não se prendia com a forma como ela desenvolvia as suas tarefas como professora, mas sim com a sua motivação para perder peso. Colocaram-na numa situação em que ou emagrecia e trabalhava ou permanecia como estava e ia para a rua. Gabrielle acabou por sair e quando questionada sobre a razão pela qual não recorreu à justiça, diz que todos, incluindo as autoridades, lhe disseram que nenhum tribunal lhe daria razão. 

Depois de muito sofrimento e de considerar, inclusivamente, pôr termo à própria vida, Gabrielle conheceu, por acaso, dois escritores e, por conselho deles, passou para livro estas suas tenebrosas experiências. On ne naît pas grosse, o livro que daí nasceu, ainda não existe em português, mas é um sucesso no mercado francês e já tem os direitos vendidos para outros países. Desde a sua publicação, a autora tem recebido muitas cartas de pessoas que admitem sempre ter humilhado aqueles que têm excesso de peso e que, depois de lerem o seu livro, percebem que o que fizeram era errado, pedindo-lhe desculpa por isso. É assustador que existam pessoas que precisam de um livro para perceberem que gozar com alguém devido à sua forma física é uma atitude asquerosa e absolutamente reprovável.

Visitas ao ginecologista com comentários nojentos por parte do médico, colegas que negaram tê-la assediado puxando do argumento «Por que haveria de violar uma gorda?»... Gabrielle viveu de tudo um pouco e essas vivências transformaram-se num livro que, aparentemente, está a pôr muitos franceses a pensar sobre o preconceito que têm relativamente ao excesso de peso. Aliás, a autora do artigo refere mesmo que Gabrielle viveu uns tempos em Espanha enquanto estudava e que nunca sentiu por lá o mesmo preconceito. Todavia, refere que em França uma conversa rapidamente deriva para o seu peso. É como se as pessoas mais pesadas estivessem constantemente a serem lembradas de que o são e a serem culpabilizadas por não se porem rapidamente de acordo com os padrões de magreza que a sociedade estabeleceu. O excesso de peso, segundo o artigo, afecta não só a saúde, como já bem se sabe, mas toda a sua vida pessoal e profissional, como se fosse impossível encontrar a pessoa que existe sob a gordura corporal. 

É um artigo chocante e nem consigo imaginar como será o livro de Gabrielle Deydier, uma pessoa academicamente muito qualificada, mas que vai sempre ficando na prateleira devido a uma imagem idealizada pela sociedade e à qual ela não corresponde. Sempre soube que o excesso de peso é, com frequência, alvo de chacota, mas não a este nível. Sempre tive consciência de que as pessoas são estúpidas e falam do que não interessa (teria eu uns dezasseis anos e uns cinquenta e cinco quilos quando fui chamada de gorda pela primeira vez... e tomara eu ter hoje o aspecto que tinha naquela altura!). Mas desconhecia esta fobia à gordura alheia ao ponto de arruinarem a vida de uma pessoa que podia estar a dar tanto à sociedade.

Infelizmente, no ano passado engordei um pouco de mais. Depois de vir para casa após despedir-me, comecei a acumular mais uns quilinhos. Fui a um casamento no Verão e uma tia «emprestada» sentou-se ao meu lado em determinado momento e, sem querer saber mais sobre mim, disse-me rindo que no dia seguinte íamos as duas para o ginásio. Mandei-a mentalmente para um sítio muito feio e respondi de facto tocando onde dói mais: perguntei-lhe pelo curso superior do filho. Note-se que o meu primo desistiu muito prematuramente de estudar e anda a servir às mesas (nada contra: mas combati o fogo com fogo, pois naquela altura foi o que me ocorreu). Hoje esses quilinhos já fazem parte do passado e outros continuam a desaparecer, mas não me esqueço da sensação de ter as pessoas a olharem e a comentarem como se fosse minha obrigação aparecer alta (que não sou) e esbelta (que já não sou desde a adolescência). Todavia, que eu saiba, nunca a minha figura me prejudicou na vida profissional, pelo que nem imagino o que Gabrielle Deydier e tantos outros como ela possam ter já sofrido nesse domínio.

Escrever isto no século XXI parece-me ridículo. Nunca tivemos tanta gente com excesso de peso e nunca lidámos tão mal com isso. Em algumas épocas da nossa história, ser «gordinho» era até o ideal. Hoje e em alguns lugares é o suficiente para eliminar todas as possibilidades da vida de um ser humano. E noutros lugares onde não se é tão drástico, é razão para dizer piadolas e fazer comentários absolutamente desnecessários. A mente humana, capaz das coisas mais brilhantes e admiráveis, é também responsável por momentos em que estar calado seria uma benção. Conseguimos ser muito maus uns para os outros, esquecendo-nos de que devemos sempre tentar colocar-nos no lugar do outro e imaginar o que sentiríamos se fôssemos ele. Chama-se a isso empatia e parece-me hoje que deve ter sido a primeira coisa a escapar da mítica caixa de Pandora, de tal modo se vai vendo cada vez menos. Nunca a gordura de alguém devia ser tema de conversa; nunca o seu peso devia prejudicar aspectos determinantes da sua vida como a carreira profissional; nunca o resultado de uma balança devia abrir as portas da humilhação e criar vítimas da sobranceria dos que não padecem do mesmo; nunca os quilos extra deviam definir um ser humano. Magros ou gordos somos mais do que o que aparentamos. Mal de nós se o nosso aspecto fosse tudo o que somos. Bem sei que para muitos é praticamente só isso que importa, mas depois, felizmente, há os outros e são esses que ainda trazem alguma esperança ao mundo.

Excessos do amor felino

A madeira da estrutura lateral da minha cama, junto à minha cabeceira, está toda marcada por unhas de gato. Do lado do moço não. E porquê?

Pooooorque o amor felino leva a minha Gatica a ir com frequência empinar-se na trave da cama para ver se eu estou acordada para lhe fazer umas festinhas. Resultado: muitas marquinhas que provam um excesso de amor felino e a existência cá em casa de uma mariquinhas peluda que tem de estar sempre a ver se a sua mamã está ali para ela. É uma peste, mas ao mesmo tempo é tão querida!

domingo, 26 de novembro de 2017

Em busca de lugar na estante X

Com o vale FNAC recebido no aniversário, pude aproveitar os descontos da Black Friday e trouxe, finalmente, o Best Of da Ana Moura (já estava a ficar em desespero por não o ter) e dois livros que estavam na lista dos desejados. E se mais vales houvera, de mais prateleiras precisara. 



Nota à fotografia: É muito difícil fotografar objectos cá em casa sem que se dê a intromissão de umas orelhas, umas patas ou uns bigodes felinos. Senhor Gato estava interessado no Roth e a sua orelha foi apanhada. Lamentamos esta situação fofinha. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O festival da mantinha

Quando chegamos a esta altura do ano em que a temperatura desce e o corpo pede mais um agasalho, dá-se início cá em casa ao “Festival da Mantinha”. É ver mantinhas polares a saltarem de tudo quanto é armário, baú e gaveta para irem para sofás ou qualquer outro lugar passível de servir de assento a humanos e felinos. O moço dizia que tínhamos mantinhas a mais, mas agora vejo que nem me chegam! Ora, tirando as três mini-mantas dos gatinhos que já estão a forrar sofás, as mantas de tamanho normal já andam também todas num virote entre as necessidades de humanos e felinos. 

Vejamos: além de ter mantinhas onde nós paramos, também ando atenta aos novos lugares predilectos dos gatinhos para pôr lá uma manta. Embora eles sejam bastante peludos, o aconchego de uma mantinha cai sempre bem e gatinhos felizes fazem donos felizes (até porque gatos danados são do piorio). Com o Senhor Gato, então, é infalível: durante o tempo mais frio, ele estará onde estiver uma mantinha. Por exemplo, apercebi-me de que ele andava a dormir em cima do tapete da bicicleta estática e por isso pumbas: hoje já lá tem uma mantinha. Neste momento, está a ressonar aqui ao meu lado, deitado nas costas do sofá sobre uma das suas mantinhas privativas (cortesia da sua clínica veterinária). 

Infelizmente, as mantinhas polares agarram bem o pêlo dos miaus e nem com mil lavagens elas voltam ao estado inicial. Assim, os gatos vão ganhando cada vez mais mantas para si e os donos vão ficando com cada vez menos para eles, já que os felinos se apropriam até das que são usadas pelos humanos (basta um descuido e
lá temos um gordito peludo deitado numa manta que não lhe pertence). 

Ora, colocado este problema, penso que posso pedir ao Pai Natal mais umas mantinhas polares cá para casa. Não somos esquisitos quanto a cores e padrões: elas têm é de ser quentinhas. Pode ser, Pai Natal?

Ps.: Senhor Gato deve estar a sonhar. Está a dormir e a mexer as patinhas. Que coisa ternurenta!

Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças - o balanço


Já acabei de ler este livro há uns dias, mas depois destas quatro peças de Tennessee Williams fiquei com a sensação de que é um autor que, além de se ler com muitíssimo gosto, deixa tanto em que pensar que são precisos alguns dias para digerir o que lemos.

Falei-vos, há algum tempo, da primeira peça deste volume: Gata em Telhado de Zinco Quente. Essa foi, provavelmente, a peça que mais me tocou. Nunca vi uma encenação deste texto, mas achei tudo tão plausível, tão verdadeiro. Há ali situações que facilmente encontramos na vida de todos os dias: a entrega a vícios como forma de desistência; os abutres que só esperam a hora de poderem apropriar-se do que a outros pertence e que usam a bajulação como forma de conseguir o que querem; aqueles que se tentam ajustar à realidade, nem que isso os mantenha num equilíbrio tão instável e desagradável como será o zinco quente sob as patas de uma gata. 

Ainda que as duas peças que se lhe seguem também sejam muito boas, não me senti tão tocada por elas. Subitamente, no Verão Passado é, ainda assim, um texto em que há uma linha muito fina entre a loucura e a sanidade. Tão ténue é a linha que chegamos ao fim do texto sem saber quem diz a verdade, pois o que nos é contado é demasiado bizarro para que nisso acreditemos sem antes nos questionarmos. A morte de um filho, aquilo que se descreve como a dor maior, é o ponto de partida para um texto em que as personagens têm de confrontar-se com a verdade, com aquilo que pode ser a verdade e com o que não querem que seja a verdade. Também aqui encontramos os tais abutres que desejam subir na vida à custa de perdas alheias, algo que me pareceu ser recorrente nas quatro peças que compõem este volume. 

Verão e Fumo é um texto que nos apresenta uma personagem com uma sexualidade florescente que parece aperceber-se demasiado tarde dessa mudança, deixando passar aquilo que gostaria de ter e que esteve sempre ao seu alcance. Parece ser a história de alguém que assume tais responsabilidades ao longo da vida e desde uma idade tão precoce que depois deixa pelo caminho uma parte de si, perdendo um comboio que não poderá voltar a apanhar.

A última peça deste livro tem um título para lá de conhecido: Um Eléctrico Chamado Desejo. Muitos já a terão visto no teatro ou mesmo alguma das suas adaptações cinematográficas (e algumas meninas recordarão o Marlon Brando em t-shirt branca). A peça coloca em rota de colisão duas realidades muito distintas: o fim de uma sociedade aristocrática e a emergência da modernidade, daquilo que substituiria o estado de coisas anterior. A realidade em que as grandes famílias e as suas fortunas moviam a América é representada por Blanche DuBois; aquela em que a força alcança aquilo a que antes se chegava pelo dinheiro surge-nos com Stanley, o cunhado de Blanche. Estas duas forças antagónicas vão, desde o início do texto, enfrentar-se, medindo forças num crescendo de tensão que culmina num final terrível em que um aniquila o outro física e psicologicamente. No fundo, o que ali está são duas versões do mundo: a que foi ficando no passado e a que o futuro fez presente. Temos de um lado a «princesinha» que se viu desapossada de tudo e o bruto que tem perspectivas de futuro naquela nova América da primeira metade do século XX. É um combate que só um pode vencer e não é difícil imaginar quem será, já que o tempo não pode voltar para trás e regressar a uma ordem que já estava praticamente ultrapassada. Aliás, o «sonho americano» nem existiria se essa tal realidade aristocrática, a das grandes famílias com grandes plantações e muitos seres humanos a servi-la, não tivesse desaparecido. O problema (e é o que nem sempre percebíamos nas aulas de História) é que as transições não costumam ser fáceis e se tudo sabe bem a quem sobe na vida, tudo sabe muito mal a quem desce e se vê perder uma série de coisas que dava como certas. Blanche perdeu tudo, mas não sabe viver sem nada e por isso cola-se como uma lapa a todos os que possam ajudá-la a continuar a viver. Além disso, pretende continuar a viver numa fantasia muito desajustada ao meio onde tentou inserir-se. Os vestidos demasiado pomposos, as tiaras e outras jóias, o modo como esconde sempre a sua idade para poder continuar a viver presa ao passado não se enquadram na nova América e Stanley faz questão de a confrontar com a falta de lugar para ela nesse novo mundo em formação. É, por tudo isto, uma peça marcante. Tal como todas as outras referidas, lê-se muitíssimo bem, mas precisa de ser trabalhada dentro de nós porque somos confrontados com aspectos em que poderíamos nunca ter pensado antes. Como disse atrás, as aulas de História sempre nos mostraram um mundo em mudança, mas tendemos a esquecer-nos de que na voragem da mudança estão seres humanos que com ela sofrem ou que dela tiram dividendos.

Tennessee Williams foi uma das melhores surpresas que os livros me reservaram este ano. Não lia textos dramáticos há bastante tempo (excepção feita aos que fazem parte do Programa de Português do Básico e Secundário) e já quase nem me lembrava do modo fabuloso como os dramaturgos talentosos conseguem destacar tantos aspectos importantes da nossa existência e deixar-nos incomodados com eles. Senti com Tennessee Williams aquilo que em 2003 senti quando li Shakespeare pela primeira vez: que estava perante alguém que conhecia os problemas humanos e que sabia mostrá-los com uma mestria difícil de suplantar. Embora um tenha escrito nos séculos XVI/XVII e outro no século XX, ambos conseguiram olhar para a realidade, olhar para o ser humano, ver o que o move, o que o comove e o que o destrói, fazendo disso um espectáculo que deixa o leitor/espectador com a obrigação de analisar tudo profundamente. Não se fica indiferente perante as suas histórias mais poderosas. Há autores assim, capazes de ver dentro daquilo que somos, dos defeitos e virtudes que temos em comum e que, seja em que século for, interferem profundamente na nossa vida. Assim são os bons escritores.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

À pequena «Corujinha»

Há cinco anos tornei-me tia. E nunca me vou esquecer do bebé mais pequenino em que peguei nem do amor tão grande que nasceu ali mesmo na maternidade. Também não me vou esquecer de que em tempos difíceis e de perda, ela foi a alegria e o sorriso de toda uma família. Recordarei para sempre o muito que saltou e riu ao meu colo ao som da música que aqui vos deixo e que, por alguma razão, a deixava sempre contente. 

Por isso, hoje, para a pequena «Corujinha», a tia aproveita o blogue As Minhas Quixotadas para dizer-lhe que gosta muito dela e que com ela o mundo é claramente um lugar mais ternurento. 

Parabéns, L.!


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Chora, Camões, chora... XVI

Acabei de ver no Facebook a pseudo-palavra “incensia” em vez de “essência”. Camões, grita, filho!

Peculiaridades de um leitor XIV

Nos dias em que estive em repouso devido à pomposa cólica renal que se fez sentir no final da semana passada, caiu-me no colo um tema curioso que tem que ver com hábitos de leitura, particularmente aqueles que temos quando ficamos doentes. 

Este blogue nasceu em 2011, mesmo no final de um período em que estive em casa devido à varicela que apanhei num casamento (sim, uma mãe genial achou que levar o filho em fase de contágio para um casamento era o melhor a fazer, mas enfim). Nesses dez dias em que estive trancada em casa para não contagiar mais ninguém (embora a minha irmã não tenha escapado), li muito. A leitura de que me recordo imediatamente é Atribulações de um Chinês na China, de Júlio Verne. Foram horas e horas de leitura para despachar numa noite ou duas aquelas aventuras tão típicas na escrita do autor. Era, ao mesmo tempo, um livro divertido, leve e envolvente, muito apropriado para uma altura em que ora se lê, ora se dorme e em que a concentração pode não estar no seu melhor. Por isso mesmo, perto do final da minha querida varicela, peguei num portento que se tornou num dos meus livros favoritos: David Copperfield. Aliás, uma das primeiras quixotadas que escrevi foi, precisamente, sobre esse romance de Dickens. Já estava melhor, mais concentrada, mais capaz de me lançar a largos voos e aquelas centenas de páginas foram percorridas a grande velocidade.

Mas desta vez, com as dores da cólica renal e, sobretudo, as imensas náuseas que ela causava, a vontade de ler foi-se. Consegui ver séries e outros programas, mas não consegui ler grande coisa. Mesmo andando com o Tennessee Williams debaixo do braço (já agora, uma vénia para ele que é absolutamente brilhante e, talvez, a minha melhor descoberta de 2017), só pensar em ler era causa de enjoo. E foi assim que me caiu no colo o tal tema desta quixotada e que é mais uma peculiaridade dos leitores.

Falando com uma Professora universitária de quem gosto muito e perguntando-me ela como estava a minha saúde, disse-lhe como me sentia e, inclusivamente, que não conseguia ler nada há vários dias, mesmo passando o tempo aninhada no sofá ou na cama. Disse-lhe que não querer ler era muito invulgar em mim, mas que mostrava bem o estado em que estava. A isto ela respondeu com alguma graça que sempre que sentia que vinha lá uma gripe, pegava invariavelmente num Eça que a acompanhava até ao final da doença. Na última vez que tal aconteceu leu A Capital.

Fiquei a pensar nisso, naquilo que entendi como «leituras de conforto»: naqueles livros que sabemos que não nos vão falhar, que não vamos ficar desapontados com eles. Para esta Professora, a leitura que nunca a deixa mal e que pode acompanhá-la num período de maior fragilidade passa pelos vários livros de Eça de Queirós. Já eu não tenho uma leitura de conforto propriamente dita, embora tenha percebido, depois de pensar no assunto, que normalmente escolho livros infanto-juvenis ou livros mais humorísticos. Não foi afinal à toa que, no segundo ou terceiro dia de dores, peguei no quinto volume do Manolito Gafotas. Para a Professora, Eça tem aquilo de que precisa quando se sente pior; para mim o que me importa é que o texto seja leve, engraçado e que não exija muito de mim. Ainda que as peças de Tennessee Williams se leiam muito bem e sejam muito fluídas, os temas sérios nelas abordados eram demasiado para um cérebro mais concentrado nas dores e na falta de posição para estar do que propriamente naquilo que estava a ler. 

Portanto, acredito que cada leitor tenha as suas preferências quando está doente. Talvez uns prefiram abandonar os livros e optar pelos periódicos; outros largam todo o material de leitura e entregam-se à televisão e às séries e filmes; outros ainda optam por um determinado autor ou género; alguns pegarão em BD e infanto-juvenil e outros poderão manter-se como sempre e ler o que apetecer sem pensar mais no assunto. A verdade, é que mesmo sem darmos muita conta disso, os livros que nos acompanham combinam muitas vezes com o modo como nos sentimos: se mais tristes, tendemos a fugir de dramas; se estamos felizes, já podemos ler um dramalhão; se aborrecidos, venham as aventuras; se cansados, a leveza de alguns livros infanto-juvenis ou de algumas bandas desenhadas ajuda imenso. Cada leitor é um mundo e agirá de acordo com o que sente. Chegados à décima quarta «Peculiaridades de um leitor» creio que já ficou bem claro isso mesmo: que são peculiaridades e não regras. Alguns de nós temos uma ou outra esquisitice, outros temos muitas das que já referi nesta onda de quixotadas. Com isto dos «livros de conforto» passa-se o mesmo, mas uma coisa é certa: só os leitores, só os amantes dos livros param para pensar nisto. E isso torna-nos peculiares e peculiarmente felizes.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Chora, Camões, chora... XV

Agora, até a pontuação deve saltar para fora das mensagens escritas porque parece que há um estudo que indica que ela tem “significado”. (Meu Deus, quão estúpido é isto?!) Podem ler hoje a “notícia” completa no Notícias ao Minuto.




Aniversário

ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino. 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho...) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
15-10-1929

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
  
E assim cheguei aos 32 anos.