quinta-feira, 17 de agosto de 2017

É mesmo isso

A The New Yorker continua a acertar em cheio nas capas. Infelizmente. 


In Memoriam

Todos sabemos o que foi o 11 de Setembro. Todos nos lembramos do que aconteceu a 11 de Março. Todos recordamos as Torres Gémeas e Atocha pelo que de pior ali aconteceu. 

Mas muito mal vai o mundo quando já não há memória suficiente para tantas datas, para tantos lugares, para um tão grande número de vítimas. O terrorismo tomou conta da nossa realidade e está por isso mesmo a adormecer-nos a memória. Quando Nice já se confunde com Londres, quando Barcelona se confunde com a Suécia, quando Boston e Paris não se distinguem, muito estranho e horrendo está este nosso mundo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando penso que já vi de tudo...

... apercebo-me de que ainda sou um bambi muito pequenito e com muito para me surpreender. O que se segue existe e peço-vos que, além de todo o evidente disparate, reparem bem no nome da editora que publica o livro. Isto já não é novo, mas só hoje dei de caras com tal coisa. 


Já agora apreciem também a entrevista à autora por alturas da publicação disto


Nota: Desculpem-me a falta de formatação desta quixotada, mas escrevi-a na aplicação do Blogger no telemóvel e não dá para mais. Logo que possa, dou-lhe um jeito. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os pastores do «shopping»

Se há coisa que me deixa à beira da loucura é ir ao centro comercial e ter pela frente aquilo que chamo um «pastor do shopping». E o que é isso? São pessoas que andam tão lentamente, mas tão lentamente que nos colocam a dúvida de estarmos no Colombo ou na procissão do Senhor dos Passos. Há pessoas que vão para o centro comercial ver as vistas como fariam numa caminhada à beira-mar. E os desgraçados que vão atrás e que sabem bem para onde querem ir têm de abrandar a marcha para não varrer estes pastores desprovidos de gado.

O problema aumenta quando acontece em lugares estreitos ou com muita gente e onde não podemos desviar-nos destes caracóis do comércio. Imaginem: saem do cinema, querem ir jantar e levam mais de meia hora para chegar ao restaurante porque ali na zona há gente que anda tão devagar que têm de olhar com muita atenção para ver se estão realmente a mexer-se. 

Por isso, pastores do shopping, deixo a seguinte sugestão: se, qual Caeiro ou Cesário, aquilo de que gostam mesmo é de deambulações, façam como os poetas e vão até ao campo (ignorem a veia citadina do Cesário, que era muito dada à fealdade), arranjem um rebanho a sério e ponham-no a pastar. Aproveitem e caminhem atrás da ovelha mais velha e manca que tiverem, olhando à esquerda e à direita, olhando as árvores e as ervinhas, desfrutando da paisagem bucólica que vos rodeia. Se quiserem, podem imaginar que estão diante da Zara a olhar para a última sandaloca feia da moda ou que estão diante da loja da Apple a namorar iPhones e iPads, não me interessa, o rebanho é vosso. Mas deixem os caminhos dos centros comerciais desimpedidos para quem não tem como objectivo de vida a deambulação em catedrais do consumo.

A chegada à idade adulta

E pronto. A praticamente três meses de chegar aos 32 anos, atingi a idade adulta: comprei uma capa discreta (tanto que não se vê) para o telemóvel e dei a reforma ao unicórnio cujo corno o Senhor Gato tentou comer. 

Ontem fui à farmácia e ao mostrar à farmacêutica a mensagem com o código para dispensa de medicamentos ela pediu para ver a minha capa. Hoje, o grande unicórnio entregou a alma ao criador e eu fiquei logo mais velha. Que pena: dava uma eterna teenager tão porreira. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Eu é mais Continente"

Mas quantas mensagens ou e-mails consegue o Pingo Doce enviar aos clientes numa única semana?! Acho que não existe dia em que não receba qualquer coisa vinda de tal cadeia de supermercados. Algo que, diga-se, chega a ser irónico uma vez que decidi não voltar lá mais, especialmente depois de ter visto várias situações que me deixaram profundamente descontente com a loja onde costumava ir. Entretanto, vou aturando os muitos contactos do Pingo Doce. Além de serem demasiados e maçadores, conseguem o efeito oposto: tirar-me ainda qualquer resquício (inexistente, julgo) de voltar às suas lojas. 

A traição dos sapatos

Estão a ver aqueles sapatos, ténis, sandálias, o que seja, que nunca vos magoaram? Preparem-se, pois um dia tudo mudará e eles comerão os vossos pés. É sempre assim: é a traição dos sapatos.

Há umas duas semanas saímos para uma caminhada com corridinha incluída. Calcei uns ténis Nike que SEMPRE foram confortáveis e que nunca me magoaram. Pois não é que ao fim de uns dez minutos de caminhada já tinha uma bolha no calcanhar? Note-se que tenho aqueles ténis há uns oito anos, que são daqueles que durarão uma vida inteira e que estão em excelente estado.

Na semana passada fomos ao Colombo comprar qualquer coisa e levei umas sandálias que são muito confortáveis. Ou eram. Eis que, pela primeira vez, me magoaram os pés. Eu bem os tentava ajeitar lá dentro, mas o mal estava feito. Ontem calcei outras, até as usava para dar aulas de tão confortáveis que eram, mesmo sendo altas. Pois... Esqueçam. Tenho bolhas em três sítios dos pés. Uma desgraça.

Há uns anos tudo me magoava. Tudo. Não fazem ideia de quão frustrante era ter sapatos e sandálias lindíssimos e todos me aleijarem os pés. Perdi a conta às vezes em que um dia ficou completamente arruinado com feridas monumentais nos pés. Cheguei a pesquisar sobre o assunto e parece que há quem tenha pés hipersensíveis, não adiantando de nada serem sabrinas ou sapatos de salto alto: tudo vai magoar os pés e era precisamente isso o que me acontecia. Repentinamente, isso acabou e só de quando em quando ficava com os pés magoados por algum tipo de calçado. Receio, portanto, que aqueles tempos de má memória estejam a regressar e que os muitos pares de sapatos que tenho fiquem para ali, postos perenemente em descanso. Mesmo os ténis, o que é verdadeiramente incrível (os Adidas ainda se vão safando). Pelos vistos, estou condenada a botas rasteiras no Inverno e sandálias Havaianas no tempo quente. Logo eu que adoro sapatos...

domingo, 13 de agosto de 2017

A Vida Secreta dos Livros - o balanço


De vez em quando, pelo meio de tantos livros bons com que nos cruzamos, lá aparece um que é completamente «meh». E este é assim, muito «meh». Meeeesmo «meh». E só não digo que é «meh meh» para não soar a «ovelhês».

É um livro sobre livros, é um facto. Conta algumas histórias sobre autores e sobre obras conhecidas, como a recusa de várias editoras ao primeiro livro da saga Harry Potter ou a morte e ressurreição de Sherlock Holmes por pedido dos leitores. O problema é que tirando uma ou outra, são todas mais do que conhecidas. A sensação com que fiquei foi que, sem pesquisa, até eu podia escrever este livro e atrevo-me a dizer que ele sairia melhor. E não sou eu que estou a ser convencida: é o tom que o autor usa que é francamente mau. Vejamos: todos os leitores gostam de saber cusquices em torno das obras conhecidas que já leram ou que ainda querem ler, mas nenhum leitor gostará lá muito que esses episódios sejam contados recriando conversas que ninguém estava lá para ver, estados de espírito que são fruto da imaginação do autor e não factuais. Eu quero que me contem o que sabem da história e não que tentem recriar personagens e ambientes porque isso dá ao texto um carácter ficcional que lhe tira a verosimilhança que, neste caso, faz falta por serem precisamente acontecimentos reais. Se tudo aquilo fosse imaginação, se a recusa do primeiro romance de Jane Austen fosse ficção e parte da acção de um livro, claro que as conversas teriam de ser recriadas, claro que os buracos teriam de ser preenchidos. Se se tratasse de um romance histórico, esse tom teria de existir. Todavia, este livro apresenta-se como pretendendo contar histórias peculiares sobre livros, autores e personagens que se tornaram conhecidos. Não como uma série de ficções em torno desses três aspectos. Até admito que os diálogos pudessem existir se fossem feitos a partir de cartas ou de diários conhecidos, mas não assim. Porém, para perceberem melhor o que quero dizer, deixo-vos um exemplo retirado da história relacionada com o Lazarilho de Tormes:

     «D. Diego voltou a ler aquela missiva do rei. Não havia dúvidas. Não importava o ter acabado de regressar do seu posto de embaixador de Roma: o imperador instava-o a aceitar um novo cargo, e com urgência. D. Diego pousou a carta em cima da secretária e ficou a meditar em silêncio. Por fim, tomou uma decisão. Abriu uma gaveta, tirou de lá um monte de folhas escritas, envolveu-as com cuidado numa pele de couro para as proteger da chuva... e dos olhares indiscretos.
      Levantou-se e chamou um dos criados da casa.
      - A minha capa - pediu. Quando lha trouxeram, D. Diego Hurtado de Mendonza embuçou-se nela e saiu para a rua.
      Estava frio e uma chuva fina caía insistentemente, embora o pior fosse o vento. D. Diego ia armado e era um homem decidido, pelo que não se preocupava com o facto de a noite ter já tomado conta da cidade. [...]» (sublinhados meus nos excertos em que me parece que a imaginação do autor dá completamente cabo do texto)

Isto é o início do texto dedicado ao que se presume ser a história do surgimento de Lazarilho de Tormes, famosa novela pícara espanhola de autor anónimo (editada por cá pela Sistema Solar, podem ver a edição aqui). Se o autor se limitasse a contar-me o que se sabe sobre a obra e aquilo que as investigações têm revelado, ainda entendia. Até podia ter um tom divertido que não me importava. Agora, imaginar dias de chuva e secretárias e gavetas e atitudes que são pura imaginação distrai do que importa e até lhe retira interesse.

Há livros sobre livros e sobre leitura que são muito, muito bons. Este parece ter sido escrito para quem não sabe nada de nada ou então para ser lido em duas horas de almoço para empurrar um hamburguer ou outra fast food qualquer. Porque, para mim, este A Vida Secreta dos Livros é fast food e nem sequer é da que sabe bem. Não recomendo nem um pouco, mas se quiserem ver como é um livro «meh», espreitem-no.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor X


Um leitor que tenha já uma biblioteca considerável acabará um dia por viver o mesmo problema que eu experimento desde ontem: o de um livro desaparecido. E sabe que é um pesadelo!

Tenho por aqui uma lista de livros em que há precisamente um livro no centro da acção. É difícil ser-se mais rato de biblioteca do que isto, mas je m’accuse: eu sou um grande, um enorme, um descomunal «fuçador«» de livros. Nada a fazer. Então ontem, um bocadinho farta de ler no Kindle, resolvi ir aos livros do moço e retirar de lá O Livro das Ilusões, do Paul Auster, um dos que consta da tal lista. Contudo, corri a prateleira de ponta a ponta mais de dez vezes e do livro nem sinal. Depois fui à antiga lista de livros do moço (ando a juntar os dele à minha para a coisa ser mais fácil) e ele constava da mesma, ou seja, o livro já existiu cá em casa e por cá deveria estar. Considerando que todos os livros desse autor estão juntos, que não havia motivo para separá-lo dos outros e que não foi emprestado, a questão que se coloca é: onde anda o danado do livro???

Estou farta de tentar puxar pela cabeça para reconstituir o rasto ao bicho, mas não há rasto possível: o livro devia estar na prateleira a menos que andasse a ser lido, coisa que não está a acontecer. E eu, como qualquer ratinho de biblioteca, já desejei que os livros tivessem microchip, que gritassem, que respondessem pelo nome, que se atirassem aos nossos pés... Enfim, já desejei uma série de situações muito «potterianas» e, portanto, impossíveis. Mas lá está: isto só acontece aos leitores. A angústia do livro sumido só apoquenta essa minoria da população que venera o deus Gutemberg e o cheiro a papel. Não conheço muita gente que queimasse os seus neurónios por desconhecer o paradeiro de um livro que tem de estar cá em casa (o moço gosta de Paul Auster e tem os livros todos, por isso é que a falta se tornou ainda mais evidente). Conheço até muita gente que se perguntaria como raio alguém perde tempo à procura de um livro em particular se tem tantos. Simples: para um leitor amante dos seus livros, eles não são todos iguais nem cada um é apenas mais um entre tantos. Um livro é um livro e há alguns que podem fazer-nos mais falta do que outros, mas todos têm de estar por perto, de preferência onde sabemos que os deixámos. Um pastor não gosta de perder uma ovelha e um leitor não gosta de livros tresmalhados. Principalmente quando são os que compõem as suas prateleiras. Por isso, esta é talvez uma das nossas maiores peculiaridades. Uns sofrerão porque não sabem de uns brincos ou de uma mala; nós sofremos por esses desaparecimentos e também pelo dos livros que ganham perninhas e vão fazer vida para longe da nossa vista.

Agora ando aqui em modo «Sherlock Books» (é primo afastado do «Holmes»). Vou olhando para as estantes todas (embora saiba que não pode estar em mais nenhuma porque sou eu que as organizo e  ainda não estou louca para separar um volume de todos os outros do mesmo autor), cirando pela casa a ver se o moço lhe pegou e o deixou por aí, esforço a memória visual para tentar recordar onde o vi pela última vez, procuro perceber por que razão nem o seu espaço vazio está na estante (o que explica que até ontem não tivesse dado pela sua falta), enfim, investigo, quase de lupa em punho. Para o que um leitor está guardado!

Notita: A imagem saiu daqui

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chora, Camões, chora... XII

Ora apreciem lá a "beleza" do seguinte parágrafo sobre a vitória de um atleta norueguês nos Mundiais do Atletismo. Foi retirado de uma notícia do Observador. Observem, portanto. Podem fazer uma caça ao disparate. Não ficarão de mãos a abanar. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As Coisas que Ele Diz III

O meu moço gosta muito de ver a série Flash e deu em cantar o genérico do famoso filme: «Flash, oooh oooh». Eu resolvi fazer uma variante do mesmo e deu algo como «Flash, oooink oooink». Perante este meu belo refrão, o moço afirma:

- Esse é Flash, o porco que rapidamente se transforma em bacon!

Viagens com o Charley - o balanço


Terminei ontem a minha primeira leitura de um livro de Steinbeck. Neste caso, a narrativa de uma longa viagem que o autor fez pela América na companhia de Charlie, um Cão de Água de doze anos.

Steinbeck, autor já reconhecidíssimo no momento em que resolve escrever este livro, percebe que passou a vida a escrever sobre a América sem que, na realidade, a conhecesse assim tão bem. Por isso mesmo, decide arranjar um veículo grande que lhe permitisse dormir e cozinhar lá dentro e partir para um périplo que lhe permitisse chegar ao fim conhecendo melhor o seu país e as suas gentes.

O objectivo da viagem é nobre e admirável: depois de uma vida a escrever sobre um país, Steinbeck decide ir tomar o pulso às diferenças entre estados, paisagens, povos americanos. Contudo, fica sempre a dúvida: será que no final da viagem conhece melhor os americanos e o próprio país do que ao partir da sua casa em Nova Iorque? É que, se por um lado, esteve em lugares por onde nunca havia passado e falou com gentes com quem nunca tinha trocado duas palavras, o que viu na viagem foi apenas uma amostra. E assim, seguindo este raciocínio, uma viagem nunca está verdadeiramente terminada nem um país fica completamente esgotado. Mais ainda um país tão grande e variado quanto aquele. 

Mais: o autor-narrador conseguiu traduzir nas suas palavras a ideia de que podemos viajar sem ficar a conhecer rigorosamente nada dos lugares por onde passamos e onde paramos. Um dos exemplos que ilustram tal ideia prende-se com as vias rápidas, no sentido em que passamos por elas em direcção a um destino e sem nada para ver à volta. A velocidade é maior do que nas estradas mais pequenas, mas a paisagem é outra assim como é outra a atenção prestada. As estações de serviço são iguais e por muito que converse com quem lá pára, tal não chega para perceber como é aquele país, qual a realidade norte-americana. Como disse anteriormente, o autor admite ter chegado ao fim com a sensação de que não respondeu a todas as perguntas que tinha quando partira e que regressa a casa com ainda mais questões.

A escrita é bonita e oscila de forma interessante entre o humor, o sarcasmo e as descrições mais poéticas de paisagens, lugares e maneiras de existir com as quais o narrador se cruzou. Não aborrece: é cativante. Por isso mesmo, enquanto a viagem prossegue, nós viajamos também e qualquer livro de viagens que o consiga é um bom livro. Quilómetros percorridos, páginas viradas e a viagem continua.

Podia falar-vos de vários momentos do livro, mas vou escolher aquele que me pareceu mais significativo e talvez a parte da viagem que mais terá mostrado ao autor que por muito que percorra milhas e milhas de chão, nunca conhecerá verdadeiramente nem a terra nem as pessoas. Aliás, creio que será o episódio mais tocante de toda a obra. No sul, e tratando-se de uma viagem feita na década de sessenta do século XX, o autor toma conhecimento de umas mulheres a quem chamavam as «Chefes de Claque» e que mais não eram do que pessoas desprezivelmente racistas que diariamente se plantavam à porta de uma escola onde tinha sido aceite a matrícula de dois meninos negros. Assim, o que faziam era esperar a chegada das duas crianças e dos adultos que as acompanhavam para soltarem a língua e insultarem-nos odiosamente. O insulto estendia-se aos poucos pais de crianças brancas que insistiam em ter os seus filhos na mesma escola que as outras duas crianças. A actividade matinal daquelas mulheres já era uma espécie de atracção local que conseguia até ser espalhada pelos jornais, atraindo os olhares de todos os que não queriam perder tal espectáculo. 

O autor assistiu, então, à tal degradação da humanidade, mas pôde ainda conhecer o medo que os negros sentiam, o terror em que viviam. Mesmo quando conheciam alguém que não os via como diferentes, era praticamente palpável o pânico sedimentado por anos de racismo, de segregação. Pôde ainda falar com alguns daqueles racistas e num dos casos não conseguiu esconder a sua revolta, o que culminou num confronto que não acabou pior porque aconteceu em terreno dominado por si. 

Quando o assunto é uma viagem, nem sempre o que há para mostrar é bom ou completamente bom. Infelizmente, quando se conhece uma determinada realidade existe por vezes um choque. Perante isso, há duas opções: guardar essa má experiência para si mesmo ou contá-la ao mundo. Steinbeck, que afirma peremptoriamente o desejo de conhecer melhor o seu país, revelou mesmo no final do seu livro uma das facetas mais cruéis e desprezíveis daquele lugar. O facto de não se limitar a falar da paisagem outonal, da beleza dos lugares visitados, das peculiaridades deste ou daquele estado confere verosimilhança à narração, já que uma viagem é isso mesmo: uma porção de experiências que podem ser melhores ou piores, mas que olharemos de fora até nos deixarmos apanhar por elas. O olhar do autor-narrador foi, por isso, um olhar estrangeiro até certo ponto. Mesmo sendo um americano a conhecer terras americanas, adoptou um olhar distanciado, crítico. Tentou conhecer as gentes tão americanas como ele, mas de outros pontos do país, com outras vivências, maneiras de estar, crenças e, por isso mesmo, diferentes. Um outro episódio curioso que mostra este afastamento do estranho que chega relativamente a quem está é visível quando o autor visita a zona onde cresceu e se cruza com alguém com quem manteve amizade noutra fase da vida. Instado a regressar ao lugar que já foi o seu, tentou simpaticamente explicar que nem ele nem o amigo de infância eram as mesmas pessoas que haviam sido, que muito já tinha sido vivido e que agora os separava. Tentou explicar que não se regressa ao lar precisamente porque não voltamos os mesmos. Todavia, não foi entendido e esta sua forma de perceber a mudança que o tempo provoca em nós foi entendida como soberba, como mania de grandeza e desprezo pelos que outrora foram os seus amigos. E eis que assim a viagem até um lugar que foi o seu mostrou ao autor como os lugares acabam e nos expulsam tal como certos bivalves cospem o que não lhes interessa reter.

Por fim, importa-me dizer-vos que há momentos em que a gargalhada sai de cá do fundo. Certas aventuras do Charlie, o modo como o narrador descreve alguns episódios, o sarcasmo com que encara aquele cão que por vezes parece ter comportamentos humanos são muito divertidos. Por isso disse anteriormente que a escrita oscila deliciosamente entre o humor e a seriedade com que certas coisas são descritas e narradas. É curioso o modo como pelo menos uma vez o autor se serve do cão para conhecer as gentes de um determinado lugar por onde passa, como o Charlie cumpre precisamente a sua missão. Estão bem um para o outro podemos dizer. Aliás, toda esta viagem mostra uma sintonia tocante entre cão e dono e uma amizade bonita, mesmo que o dono por vezes se refira ao Charlie com muito sarcasmo. A verdade é que se o cão não tivesse tido um papel importante neste périplo, o seu nome nem figuraria no título. 

Viagens com o Charley abriu-me as portas para um autor de quem nunca tinha lido nada, mesmo tendo vários livros seus. Gostei tanto que sei que vou continuar a querer conhecer esta obra que foi galardoada com um Prémio Nobel da Literatura. Serão textos de outro tipo nos quais a viagem não será propriamente o tema principal, mas quero lê-los mesmo assim. Assim, se para iniciar uma viagem só é preciso dar o primeiro passo, também para chegar a um autor só é preciso ler um livro seu. Depois virão outros passos e outros livros até chegarmos gloriosamente ao final do caminho.

«Sou eu!»

Quando alguém toca à porta de alguém que conhece, à pergunta «Quem é?» responde normalmente com um muito elucidativo «Sou eu!». Ora, o problema é que «eu» somos todos e, portanto, a boa da resposta que abre tantas portas, na realidade, não devia servir para abrir porta nenhuma. Mas embora já todos tenhamos pensado nisto alguma vez na vida, a verdade é que quando tocamos à porta dos nossos pais ou dos nossos irmãos não respondemos com o nosso nome, nem com o nosso número de informação fiscal, nem com uma senha previamente combinada por motivos de segurança. Nada disso. Vem sempre de lá o pronome pessoal tónico de nominativo na primeira pessoa. Uma seca!

Hoje fui a casa dos meus pais e pus-me a pensar nisto. Cheguei à conclusão de que realmente o que nos abre a porta é o nosso tom de voz, reconhecido através do intercomunicador. Portanto, em vez de dizer «Sou eu!», poderia cantarolar uma música do Quim Barreiros ou dizer uma oração que a porta deveria abrir-se na mesma. Se a coisa funciona verdadeiramente por comando de voz, então até podia ler um poema ou o rótulo da caixa dos cereais, que a minha mãe abrir-me-ia a porta na mesma. Ou então não e eu ficaria na rua porque ela consideraria que a doida a cantar o «Vira Minhoto» junto à porta do prédio nunca poderia ser a sua respeitável filha. Mas ela que fique sabendo que sempre é mais seguro descobrir que sou eu assim, do que através de um mísero pronome que, ao fim e ao cabo, se aplica a todos os seres humanos do planeta Terra. E convenhamos que também tinha muito mais graça.

Abusos felinos

Passam vinte minutos da uma da manhã e concluo que a Miss Gatica é abusada, pois:

1. Esqueceu-se de que estamos no Verão e de que tem muito pêlo, o que faz com que dormir encostada a mim não seja espectacular. Para mim. Ela está a adorar. 

2. Esqueceu-se de que, a adormecer na cama, deve ao menos não se esticar na diagonal como se isto fosse tudo dela. 

3. Esqueceu-se de que é uma menina e está a dormir em modo "frango assado", ocupando ainda mais espaço. E está a sorrir e a mexer as patas. Provavelmente sonha que corre atrás de uma lata de atum. 

Posto isto, acho que vou dormir para o sofá. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Desenferrujando

Estou a tentar desenferrujar o meu francês, que ficou algures perdido nos bancos do ensino secundário. Para me ajudar na tarefa, trouxe ontem da FNAC um livro que me pareceu suficientemente simples para dar início à tarefa (e barato: estava em promoção e veio por 3,98€). Vamos lá ver no que dá. Depois começo a desenferrujar o inglês.

Isto das línguas tem que se lhe diga: passamos anos na escola a estudá-las e até sabemos umas coisas, depois saímos de lá, pômo-las de lado se o nosso trabalho não exigir o seu uso e quando damos conta temos apenas uma pálida ideia do que em tempos soubemos de uma língua. Não pode ser. Comecemos pelo francês e pela leitura, então. E, para desenferrujar em grande, começo com um Nobel.