sábado, 30 de junho de 2012

Tomem lá!

É só para dizer que, várias horas depois, venci os dois sacanas da quixotada anterior.

Eu: 1
Totós-Pastel: 0

Muahahahahahahaha!

Nota: Não preciso do Messenger neste computador para nada, mas uma pessoa tem orgulho, pá! Não se pode deixar vencer por um estrumpfe e um extraterrestre com excesso de peso.

Já estive mais longe


Palavra que já estive mais longe de enfiar um murro nestes dois! Estou há horas à bulha com o Messenger num dos meus computadores e não há maneira de solucionar o problema. Aliás, devo dizer que estou a amar de paixão a forma democrática como sou obrigada a arranjar uma versão mais recente da coisa. Vou eu iniciar sessão e aparece-me uma caixa muito fofinha a dizer que existe uma versão mais novita e tal, perguntando-me se estou disponível para a instalar agora. Depois, como num pedido de namoro típico da extinta escola primária, manda-me pôr uma cruzinha no "sim" ou no "não". Pus neste último, deixando para depois a despedida de uma versão que nunca me deu chatices. Mas qual?! Aqui não há espaço para livre-arbítrio, já que logo de seguida volta a aparecer a mesma caixa com a mesma pergunta e esta só desaparece quando eu bufo e me dou por vencida, colocando a excomungada cruz no "sim". Vai daí, instala-se a versão nova e no fim o que sucede? Não dá. Pois volto a desinstalar tudo e a pô-la novamente e... nada! O meu Messenger não canta, não assobia, nada! Arranjo a versão que tinha antes de ser carinhosamente obrigada a instalar a nova e regresso às origens. A janela do Messenger abre-se e eu penso "Eureka! Fico com a versão antiga já que isto até funcionou.". Pois sim... Vou eu a iniciar a sessão e abre-se a malfadada janela que me obriga a instalar a versão recente. Penso que se calhar desta vez vai funcionar, já que instalando a antiga correu tudo bem, agora era só mesmo actualizar. O cacete! Terminada a actualização continuo a não conseguir abrir o programa porque, novamente, a não sei o quê "lado-a-lado" (foi só o que decorei da mensagem de erro que me apareceu) não está bem de saúde. Cabra.

Eu sei que já não uso este computador, mas agora é uma questão de honra! Estes dois bonecos gordos em tons pastel não me hão-de vencer. Estou pelos cabelos com eles e estou a pontos de pôr o computador à venda no ebay só por estar a marrar comigo, mas vou continuar a tentar. Lá para 2015 devo ter obtido resultados... Ou então não.

Os senhores que se seguem


Ao Cien Años de Soledad, cuja leitura, já aqui disse, me parece que se prolongará pelo Verão fora, juntam-se agora estes dois. Um deles é nitidamente leitura de praia. O Coração do Rei é, como a indicação na capa esclarece, um romance histórico sobre aquele que deu o «grito do Ipiranga» e, assim, a independência ao Brasil. D. Pedro, imperador daquele novo país, foi um homem que se soube dividir de forma admirável por dois países (e pelo meio por muitas mulheres...), sendo que ambas as nações lhe devem bastante. Assim, lá vou eu aprender mais umas coisitas sobre ele.

O outro, intitulado A Cultura-Mundo, da autoria de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, constitui uma reflexão por parte de dois estudiosos sobre a globalização cultural e sobre a desorientação que todos experimentamos um pouco devido a essa mundialização daquilo que, outrora, foi tão particular. Resta dizer que Gilles Lipovetsky é um conhecido sociólogo e filósofo francês e que Jean Serroy é um professor universitário especialista em literatura do século XVIII e em cinema.

Vamos lá ver como correm estas leituras. Depois conto como foi.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Este já está


Hoje acabei este enquanto estava esparramada na minha vistosa toalhinha de praia, sob um sol delicioso e após uma bola de berlim docinha, docinha... O contexto adequou-se à obra, já que este romance de Érico Veríssimo é verdadeiramente uma ternura. É, no fundo, um romance sobre uma adolescente que é um sol na vida e na realidade dos que a rodeiam. Clarissa, a adolescente que dá nome ao livro, tem catorze anos e vive durante um ano na pensão da tia Zina. Veio para a cidade estudar, deixando pai, mãe e infância no campo, numa vida muito diferente da que será sua durante aquele ano de estudos. Ao longo das suas duzentas e dezoito páginas vamos voltando atrás no tempo, já que nos são apresentados os pensamentos da personagem tal como ela é: uma adolescente em fase de transição para uma outra vida, uma outra idade e, talvez infelizmente, um outro modo de ser. Clarissa é alegre, inocente, livre, e contrasta bastante com as personagens que interagem com ela, especialmente com Amaro, um pianista em potência que a admira secretamente, sempre de forma distante. Demasiado distante para o gosto da menina...

No final fiquei a pensar que ser bom escritor é conseguir fazer o que Érico Veríssimo aqui faz de forma irrepreensível: conseguiu, já homem adulto, recriar os pensamentos por vezes tão inocentemente tontos de uma menina de catorze anos e conseguiu apanhar-lhes tão bem o âmago que no final temos pena de a ver partir. Aliás, de a ver partir a ela e aos outros, mesmo aos moradores da pensão ou ao preguiçoso tio Couto.  Ficamos com saudades de todos, até do ruivo gato Micefufe (amei o nome do bichano).

Já tinha gostado do Olhai os Lírios do Campo e agora gostei muito deste romance (de que a Alice Vieira falou muito bem numa relativamente recente edição do programa Câmara Clara, da RTP2). Aconselho vivamente a sua leitura, especialmente aos que já se esqueceram do que é ter treze ou catorze anos e de como se pensa nessa altura. Vai saber bem recordar.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quixote, tem lá paciência

Hoje estou a torcer pela Itália e, meu querido e espanholíssimo Quixote, espero mesmo que a selecção italiana ganhe o Euro. Tem lá paciência, mas é que as palavras do Sr. Platini e o resultado tão injusto de ontem caíram-me mal.


Prioridades

Gostei bastante deste texto publicado no blogue «Horas Extraordinárias». Haverá a hipótese de alguém que adora os livros e a leitura ter livros a mais? Frequentemente ouvimos as censuras dos outros que dizem «Mais livros?», «Já tens tantos, mas ainda queres mais?» ou ainda «Para que compras mais livros?», no entanto continuamos a arranjar mais e mais e mais e mais. São muitos os que param na estante sem terem sido lidos e aos poucos sobe também o número de volumes que já lemos. O tempo que levamos a comprar é muito inferior ao que levamos a ler e, por isso, é muito normal que a pilha de volumes não lidos cresça até ao tecto. Mas o que fazer? Todos os dias saem novos títulos, mensalmente as editoras publicam ou reeditam textos de autores de que gostamos muito, sejam eles clássicos ou não, e portanto, para quem leva isto da leitura a sério e pode gastar uns tostões em livros, é natural que o número de volumes seja cada vez maior, e, consequentemente, que aumente também a quantidade de livros que temos por ler. E é este número que geralmente salta à vista dos outros.

Felizmente, quem gosta efectivamente de ler e de ter novos livros não liga um chavo ao que os outros dizem. E ainda bem porque se o mercado livreiro já não está famoso, ficaria certamente muito pior se fizéssemos o que os outros apregoam. Gasto dinheiro em livros, que gasto, mas não compro biquínis de sessenta euros. Afinal, isto vai sendo sempre uma questão de prioridades...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

«Quási»

O que se passou hoje com a Selecção Nacional, que jogou melhor do que a Espanha e merecia mesmo ganhar, fez-me lembrar um poema de Mário Sá-Carneiro: o famoso «Quási». Estivemos, como sempre, quase lá. A sensação que tenho é a de que Portugal, Selecção e país, anda sempre quase a conseguir qualquer coisa. Falta, como se costuma dizer, o «quase». E hoje foi mesmo uma pena e uma enorme injustiça. Eles não mereciam, se só pudessemos olhar para o jogo. Mas os penaltis são uma lotaria e aí, sem grande mérito, eles chegaram lá e nós não. Foi quase. Fica, por isso, o poema.

Quási

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
                             

                                          

                                                    Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Nova tentativa de assalto

Hoje fui ao cabeleireiro onde a minha antiga cabeleireira está a trabalhar (deixou temporariamente o seu próprio salão para ser, durante uns tempos, trabalhadora por conta de outrem) para marcar a realização das minhas madeixas. Normalmente já achava que no cabeleireiro dela os preços eram elevadotes, mas o patrão da senhora pura e simplesmente passou-se da cabeça. Para dar um banho de cor no meu cabelo, seguido de madeixas e brushing, pediu-me uns módicos noventa e quatro euros, acrescentando:

- Conforme leve creme ou não, faça mais isto ou mais aquilo, pode ser mais uns dois, três euros...

E eu de boca escancarada com o disparate do preço que ele fazia e que, coisa normalíssima, ainda podia subir até chegar à centena de euros. A cena que se seguiu foi semelhante à do biquíni: fugi a sete pés. Felizmente a minha antiga e preferida cabeleireira ligou-me mais tarde e disse-me que daí a duas semanas reabriria o seu salão e que se eu pudesse esperar, me faria o trabalho pelo preço do costume. Portanto, parecerei um bicho durante mais umas semanas, mas pelo menos não serei roubada por um tipo de secador em punho.

E ainda...

Hoje percebi que devido ao que gastei ontem em protectores solares, teria um belo desconto numa água termal. Voltei à farmácia, a senhora foi simpática e, por isso, cá está ela (a água, não a senhora).


A menina também sugere isto.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Agora à cabeceira

Ando a ler isto. O Cien Años de Soledad vai render o Verão inteiro, aposto. É boooooom mas bom! É daqueles que se saboreiam devagar porque só se lê pela primeira vez uma vez. Importa aproveitar.

O Clarissa (o ar envelhecido da capa deve-se ao facto de este exemplar ser fruto das minhas muitas passagens pelo alfarrabista) vai, até agora, parecendo uma ternura, bem à maneira do Érico Veríssimo. Depois conto como correu.



Silêncio de ouro

Fazendo a ronda pelos blogues que costumo seguir, vejo que o «Blogtailors» nos remete para a lista dos dez melhores livros com as piores críticas de leitores no Amazon. E eis que o meu Quixote é um dos mais malhados pelos leitores que o acham entediante, repetitivo e francamente mau. Conseguem, até, de repente, lembrar cinco ou seis melhores. Outros como o Ulisses, a LolitaO Grande Gatsby e o 1984 recebem críticas igualmente más (como podem confirmar aqui).

Há coisas que a minha mediana inteligência não apreende. Por exemplo, não consegui achar grande graça ao livro Os Cadernos de Pickwick, mas percebo que o autor procurou apanhar ali, tal como noutros livros seus, uma realidade britânica altamente criticável e, sob esse ponto de vista, o livro é bom. Quanto ao humor, tirando meia dúzia de páginas, não lhe encontrei muito. Agora: não me verão a malhar nele no Amazon porque, a meu ver, isso está ao nível do génio que me gritou no metro que o Quixote não presta e que O Conde de Monte Cristo é mil vezes melhor, sem que alguma vez tenha lido o livro de Cervantes. Há livros que valem pelo todo que são, pela história que os envolve, pelo que representam para cada um de nós e para todos nós. Mas há cérebros que não atingem isso e que não sabem que por vezes o silêncio (ou, neste caso, a ausência de palavra escrita nos comentários de uma página da internet) vale ouro.

A Menina Sugere Isto VI

Depois de ter poupado bastantes euros ao deixar na loja o biquíni catita pelo qual tive uma efémera paixão, calhou-me a ida à farmácia para me munir dos protectores solares fundamentais para sobreviver à praia. Portanto, em bom vocabulário popular: puxei o lençol para tapar a cabeça e destapei os pés. Poupei de um lado e gastei de outro. Mas esta despesa é inevitável já que o meu tom de pele de açúcar mais do que refinado não me permite grandes aventuras.

Ora, dizia eu, lá fui e voltei para casa quase quarenta euros mais pobre, mas mais protegidinha. Desde há uns quantos anos que uso os protectores solares da Avène e adoro. Não digo que as outras marcas não sejam também fabulosas, mas dou-me mesmo bem com estes. Espalham-se bem, não nos deixam com a pele branca, protegem-nos ao ponto de eu já não saber o que é um escaldão há uns dez anos e cheiram lindamente. Este ano comprei o spray de factor 30 (sou mesmo branca, ok?!) e o creme de factor 50 para o rosto. Ainda falta comprar o belo do batom porque sou de beiça escaldadiça e com o sol não dá para facilitar isto (gesto em que aponto para a cabeça do meu dedo indicador). Recebi como oferta a bolsinha que aparece na foto e um saco de praia a condizer (e que não me apeteceu fotografar). A menina adora estes presentinhos. A menina é verdadeiramente totó. A menina sugere isto.

Jorge Amado na BN

A boa da nossa Biblioteca Nacional inaugura esta quinta-feira uma exposição sobre o impacto da obra de Jorge Amado no nosso singelo jardim à beira-mar plantado, como noticia o Público. Gosto muito deste escritor, já me diverti imenso com os livros dele e ultimamente ando a babar-me pela recente reedição do Gabriela, Cravo e Canela (Natal, estou à tua espera!). O Farda, Fardão, Camisola de Dormir foi dos livros mais divertidos e interessantes pelos quais já tive a honra de passar os olhos. Por isso aconselho a todos, se não a visita à BN, pelo menos a leitura de um dos seus livros. Por exemplo o romance Tieta ou o Dona Flor e os Seus Dois Maridos. Verão que os cenários da bela Baía encherão de uma deliciosa cor local o nosso Verão português.

O biquíni

Nos dias que correm, podemos ser assaltados na rua, numa esquina mais escura, na nossa casa, no nosso carro ou, até, numa loja. Creio que no outro dia quase fui roubada num estabelecimento comercial.

Ia eu fresca e fofa por uma das mais conhecidas ruas de Lisboa quando vejo uma loja cheia de biquínis lindos, daqueles de cair para o lado espumando da boca. Entrei e fui muitíssimo bem atendida por uma bastante solícita funcionária que me foi ajudando a escolher os modelitos que havia de experimentar de modo a escolher o ou os melhores. Lá vou eu com uns cinco biquínis para o provador. Experimento o primeiro e não fico fã. Experimento o segundo e também não acho muita graça. Visto o terceiro e, subitamente, começo a ouvir um coro de anjos a lançar uma melodia docemente acompanhada pelo dedilhar de uma harpa celestial. Vi-me rodeada por uma aura de luz e, de repente, até me senti outra vez uma gaja boa.

Pensei que estava feito um casamento para a vida, até que alguma coisa me começou a picar insistentemente. Incomodada pela interrupção do meu idílio, vou verificar o que é e, horror, deparo-me com a etiqueta com o preço da parte de cima do biquíni. Dizer que os anjos se calaram, que as harpas se partiram todas pelo chão e que voltei de súbito a ser uma gaja muito pouco boa é minimizar o que sucedeu naquele provador. Quando vi que me pediam uns módicos quarenta euros pelo pedaço de tecido onde as minhas duas mais fiéis amigas haviam de encaixar nos soalheiros dias de praia, apeteceu-me gritar impropérios. Quero acreditar que me segurei bem, mas não posso jurar...

Apressei-me a ver o preço da parte de baixo do biquíni. Vinte euritos. Em conjunto a coisa ficava em sessenta euros. Dois minúsculos pedaços de pano para esconder as vergonhas custavam aquilo que muita gente não ganha numa semana. Eu ia constatando esse facto enquanto a solícita funcionária perguntava, do lado de fora, se ficava bem. Respondo que sim e ela diz «Sabe que os nossos biquínis duram bastante tempo!». Admito que me segurei para não lhe dizer que, por aquele preço, tal biquíni devia passar a ser um tesouro de família, passado de geração em geração até que, por qualquer razão científica, o planeta Terra deixe de existir. E mesmo assim, por sessenta euros, o biquíni tinha a obrigação de se aguentar e de sobreviver a uma implosão solar ou a algo do género.

Deixei o biquíni nas mãos da funcionária que me olhava com um ar desolado. Inventei uma desculpa qualquer para não o levar (que nem era tão desculpa quanto isso, mas enfim) e saí da loja. Ainda andei uns dois dias a pensar na porcaria do biquíni, porém a coisa acabou por passar. Quando pensei que vivemos uma crise e que há muita gente que adorava ter sessenta euros para poder comprar comida, deixei de choramingar por aquele meio metro de pano para enrolar mamas e rabo. Fui à gaveta, vi com o que contava para os dias de praia e calei-me.

Hoje passei em frente a uma loja do chinês que abriu aqui na zona há pouco tempo. Tinha na montra um dos biquínis mais giros que já vi. Segui em frente, tratei do que tinha a tratar e, no regresso a casa, entrei na loja para espreitar o biquíni. Ficava-me bem, experimentei em três cores e depois percebi que ainda não sabia quanto custava. O coro de anjos regressou pela voz da senhora chinesa que disse «nove e meio». Júbilo: agarrei no azul e no rosa e paguei ali dezanove poupadinhos euros por dois biquínis bem fofinhos que hão-de bombar o Verão inteiro, já que sou cuidadosa e nunca na vida dei cabo de um biquíni (ainda tenho em muito bom estado aquele que usava aos quinze anos... o problema é que já não entro nele...).

Moral da história? Podemos ser assaltados em muitos sítios. A diferença é que nuns casos vale a pena resistir e noutros é melhor entregar o ouro e fugir. Cada um compra o que quer e gasta onde quer. Poderão dizer que não lamento o meu dinheiro quando compro tantos livros. É verdade. Mas não me sinto fútil e a desperdiçar euros que me deram trabalho a ganhar quando compro um bom livro, que me vai entreter e ensinar alguma coisa, que me acompanhará, que me enriquecerá. Por outro lado, um biquíni é um biquíni: são duas pequenas peças feitas de um tecido que seca rapidamente e que não custam assim tanto a fazer, já que cada vez são mais pequenos e com menos costuras. Durante um Verão usamos vários porque, após uma ida à praia, acabam inevitavelmente a ser lavados e, por isso, precisamos de ter alguns. Se todos custarem sessenta euros, acabamos por ter uma pequena fortuna em peças de licra. Que o faça quem quiser e se sinta à vontade para dar tanto dinheiro a uma marca apenas para pagar a sua etiqueta. Eu não o fiz e acho que mesmo que me saia o Euromilhões não o farei. Vivemos numa crise onde há cada vez mais gente sem ter o que comer. Pedirem-me sessenta euros por um biquíni pode ter lógica para a loja que o vende, que é um negócio e precisa de sobreviver, mas para mim não tem. Definitivamente, não dou para esse peditório.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pensamento desnecessário

De hoje a seis meses é Natal. E pronto, é isto...

Sem palavras

Enquanto tomava o pequeno-almoço, fiz uma viagenzita pelos canais de televisão (cruzes!) e na RTP1 emudeci. Pois que a Ana Malhoa, vestida com a roupa mais estranha e florescente que o mundo já viu, cantava uma música da qual não se percebia quase nada e que se chamava nada mais nada menos que «Colesterol de Amor».

Estou sem palavras.

sábado, 23 de junho de 2012

Um presente inesperado

Hoje o meu moço deu-me um presente e soube mesmo bem recebê-lo. Muchas gracias, amorzito, gosto muito!


(Um querubim sobre um lenço de Viana: uma ternura!)

Um desejo satisfeito... falta o outro

Ontem renhonhei que queria o livro A Informação, do Martin Amis. Pois o problema foi resolvido com a ajuda do dinheiro acumulado no cartão da Bertrand. Abençoada ideia que a livraria teve. Agarrados a esse vieram mais dois que serão puro entretenimento de praia. De vez em quando também sabe bem aliviar a cabeça.


Adenda: Mas o Gabriela, Cravo e Canela ainda por lá ficou. Ai Euromilhões, que nunca mais me sais!

Bizarro

Ontem, conversando com professoras sobre esta polémica em torno do exame nacional de Português do 12.º ano, lembrei-me de uma aluna que, na manhã da prova, me perguntou o seguinte:

- Stôra, se sair que tenho de escrever entre oitenta a cento e vinte palavras, quantas palavras escrevo?

Nem queria acreditar na questão, mas lá lhe respondi que escreveria um qualquer número de palavras desde que esse número se situasse entre oitenta e cento e vinte.

Pensei que não haveria dúvidas, embora soubesse que esta menina é dada a ultrapassar à grande e à francesa os limites de palavras impostos pelo enunciado. Contudo, antes do final da aula de revisões, lá voltou à carga:

- Stôra, mas se puserem entre oitenta e cento e vinte palavras, escrevo quantas palavras?

A minha alma estava parva. Disse-lhe:

- Escreves oitenta, oitenta e uma, oitenta e duas, oitenta e três, oitenta e quatro, oitenta e cinco, oitenta e seis, oitenta e sete, oitenta e oito, oitenta e nove... Qualquer número desde oitenta até cento e vinte.

Já a arrumar pergunta-me o mesmo e foram as colegas que a levaram dali porque acharam também aquilo tão bizarro que resolveram calar-lhe o pio. Honestamente, já me perguntaram coisas tolas, mas aquela na manhã de um exame bateu tudo. Se me pergunta isto para o exame de Português, imagino como terá feito o de Matemática. Caramba, vê-se cada coisa...

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Menina Quer Isto XVI

Sou um perigo quando entro em livrarias ou quando saltito pela página da Wook. Assim sendo, aqui fica mais uma ambiçãozita literária. Já li este autor e gostei. Quem se chega à frente?...

A Menina Quer Isto XV

A menina viu esta caneca na loja onde comprou o lápis que mostrou há pouco (na «Lisbon Lovers»). A menina gostou. A menina pergunta quando é o Natal...

A Menina Quer Isto XIV

A menina gosta muito de Jorge Amado e tem muitos livros dele. Mas, vá-se lá perceber porquê, falta-lhe o mítico Gabriela, Cravo e Canela que foi agora reeditado pela Dom Quixote. Portanto a menina quer. É o costume.

Ai a FNAC...

Palavras para quê? Hoje foi isto:



(Ando numa de livros do Tom Sharpe. E comprei um CD! Há cento e cinquenta anos
que não comprava um CD! Este é da fadista Cuca Roseta. Me encanta!)

Uma tarde de passeio

Depois de cumprir o dever terrivelmente chato de passar no exame de condução, achei por bem oferecer-me a tarde. Como tinha de ir à Loja do Cidadão dos Restauradores, aproveitei para dar um pulo à Fundação José Saramago. Estive, finalmente, junto à oliveira sob a qual repousam as cinzas do nosso Nobel e pude fotografar o seu epitáfio. A frase que o compõe é, no fundo, aquela com que termina um dos seus maiores romances: o Memorial do Convento, de 1982. Devo, contudo, afirmar que tal tarefa fotográfica não foi isenta de perigos, já que sentada no banco que foi colocado ao pé da árvore estava uma moça que devia ter uma concentração de drogas no sangue bem maior do que a que eu agora tenho de gelado «Dulce de Leche» no meu próprio sangue. Fui brindada com uma série de impropérios, uma vez que a madame achava que eu a estava a fotografar a ela e que nem tinha pedido licença. Graças a Deus sou boa fotógrafa o suficiente para não a ter apanhado, mas a doutora não chegou a essa parte.

Enfim, lá entrei na famosíssima «Casa dos Bicos» e entrei ao mesmo tempo que a não menos famosa Pilar del Rio, esposa do Saramago. Até lhe disse boa tarde e tudo! Sou um primor de boa educação, sem dúvida. Vi a exposição que é, no fundo, uma versão bastante pequenina daquela que há uns anos se fez no Palácio da Ajuda e a que se deu o nome «José Saramago - A Consistência dos Sonhos». Claro que essa, realizada ainda em vida do autor, foi muito mais gira e interessante, mas também não podíamos esperar uma repetição à mesma escala. O que encontramos na Fundação José Saramago é interessante para nos levar a compreender o muitíssimo admirável percurso efectuado pelo seu patrono e para concebermos o trabalho que envolvia a escrita de cada livro, de cada texto, de cada história. Vemos os seus objectos pessoais, como as agendas, e observamos os originais de alguns dos livros, ainda com as suas correcções à margem. Vemos textos que não estão publicados (mas que não devem tardar a estar, parece-me...) e ficamos desejosos de conhecer a amplitude do baú de Saramago. Oxalá fosse tão grande quanto o de Pessoa!

Quanto ao resto do edifício, fica a sensação de que há muuuuuito por fazer. No segundo piso o visitante não percebe bem para onde há-de ir nem o que deve ver e, no último, apenas funciona a loja, onde só comprei um lápis para aumentar a colecção.

E foi isto. Ficam as fotos.



(O epitáfio à sombra dos ramos da oliveira que veio da Azinhaga do Ribatejo
para sob ela descansarem as cinzas do escritor.)


(A fachada da «Casa dos Bicos» onde agora funciona a Fundação.
A magra figura de camisa branca perto da entrada é a boa da Pilar del Rio,
 só que quando tirei a foto ainda não me tinha apercebido disso...)



(Dois pequenos espaços em duas paredes forradas com as diferentes edições das
 obras de José Saramago, incluindo as traduções que fez numa fase inicial
do seu percurso.)


(O belo do lápis da Fundação e um que se juntou a ele quando
 passei pela loja «Lisbon Lovers», onde havia umas canecas com sardinhas
 muito giras, mas para as quais o meu bolso não se quis abrir...)

Alvíssaras

Depois de um período para lá de entediante, é com uma enorme sensação de alívio que comunico que a totó-mor (eu) lá passou no exame de condução. Está tirada a carta. Parem de me chatear!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Hoje fui um cacto

Ao vigiar um exame nacional sinto-me assim para o parecida com o cacto que tenho na varanda. A seca é imensa e fico tão aborrecida que o mau humor (espinhos) não tardam a aparecer. É uma festa. E os alunos, entretidinhos a fazer as provas, nem dão conta da estopada que aquilo é para os professores.

Mas hoje a melhor foi estar a passarinhar pela sala, como mandam as boas das regras, enquanto os miúdos do 12.º ano faziam a prova de Matemática A (a mais temida pela maioria das almas) e ver uma aluna (que por acaso foi minha na disciplina de Português) a encher com lápis de carvão umas letras gordas na folha de rascunho. Ao aproximar-me verifiquei, e peço desde já desculpa pelo que vou dizer, que pintava com afinco a palavra «MERDA», em maiúsculas e tudo. Devia, por isso, estar a correr-lhe mesmo bem o exame.

Outro dos alunos, vinte minutos depois do início da prova, começa a fazer na folha de rascunho aquilo que eu acreditei ser um gráfico. Não era. Ao fim de uma hora aqueles primeiros traços tinham-se tornado num jogador da seleccão nacional com um invejável bigode, no símbolo do Benfica, num guarda-redes em voo para defender uma bola, numa caricatura do Cristiano Ronaldo e na nossa bandeira nacional. Em suma: o tipo era muito mais dado ao futebol do que à Matemática, já que o exame ficou quase em branco.

Vi o enunciado da prova e, honestamente, para mim aquilo era pior que chinês. Mas, segundo o professor da disciplina que ficou como coadjuvante, o exame era para lá de difícil. Esperam-se resultados maus. Vamos lá ver o que aí vem...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Novo livro de cabeceira


Ando a ler isto. Ainda não percebi se gosto ou não, mas curiosamente estou a devorá-lo a bom ritmo (o que em mim não é normal: sou deveras lenta). É super americano e nem procura disfarçar, mas apesar da estranheza que é a vida da personagem principal, nascida e criada no oeste americano, parece-me difícil não criarmos com ela uma certa empatia. A mesma que temos por todos os que não se enquadram no mundo de loucos que os cerca e que vivem à deriva tentando encontrar o seu próprio lugar e meio. No fim acabam por parecer tão doidos como os que primeiramente rejeitaram.

Além disso, encontrei neste livro uma das melhores expressões de sempre. A personagem principal, um rapaz que durante os calores adolescentes gosta de se esfregar com todas as colegas da escola, denomina esse tipo de actuação como o acto de «polinizar as raparigas». De génio!

Notita da autora: A imagem da capa foi retirada da página da Wook porque sou demasiado calona para fotografar o meu exemplar.

Uma questão de medida

Todos nós nos recordamos da época em que os nossos pais se dirigiam às escolas que frequentávamos para ver a lista dos manuais adoptados no ano seguinte e o material escolar necessário para o funcionamento das aulas. Todos nós nos recordamos de ver a nossa mãezinha a revirar a mala à procura de uma caneta com que anotasse tudo isto para depois tratar da questão na papelaria da zona. Aliás, todos nós que andámos numa escola pública, daquelas que afixavam tudo numa parede (há uns quinze anos funcionava assim, agora não sei como é), esperando que todos os pais vissem o que tinham de adquirir, conhecem esta realidade.

Em muitas escolas privadas as coisas funcionam, hoje, de forma diferente. Há toda uma equipa de marketing a trabalhar para produzir os cartazes e os folhetos mais apelativos que depois são entregues aos encarregados de educação em mãos ou por correio. Muito mais cómodo, admita-se.

Contudo, não é do saudosismo das listas que aqui venho falar porque, para ser sincera, aquilo de copiar os títulos de uns sete manuais, mais as suas editoras e a listinha de material escolar, muitas vezes à torreira do sol, não lembrava ao menino. Faço esta quixotada porque, há pouco, procurando uma informação relativa a um determinado colégio onde nunca andei nem dei aulas, topei com a lista de material pedido aos vários ciclos de ensino e só consegui concluir que aquela enumeração de itens é melhor do que a pílula e o preservativo juntos: perante uma lista daquelas ninguém ousa botar crianças no mundo.

Gentes, a lista do material individual a adquirir por cada aluno do segundo ciclo é composta por uns meros trinta e dois artigos. E, note-se, os manuais escolares estão FORA dela! Chega-se ao cúmulo de se pedir uma régua de trinta centímetros e outra de cinquenta, como se esta última não servisse para medir as malfadadas três dezenas de centímetros! Só lápis pedem-se cinco, cada um de um tipo diferente. Até o número de canetas de feltro está estipulado: dezoito. Que se lixe se a embalagem de doze que sobrou do ano anterior ainda está boa. Têm de ser dezoito. Pede-se cola em stick, mas também cola em tubo. A cola em tubo cola quase tudo, até me colou os dedos muitas vezes. Não poderia, por isso, pedir-se apenas essa, em vez de vir atrelado o excomungado batonzinho de cola em stick? Até a largura da lombada dos dossiês é prevista na lista dos manuais, assim como o número de argolas que o dito deve ter!

Bem sei que me refiro a um colégio privado para o qual só vai quem quer e pode. Mas mesmo assim não deixa de me chocar o exagero, a falta de contenção na hora de pedir. Será mesmo preciso tudo isto? Se em vez de dezoito canetas e dezoito lápis de cor tivermos apenas doze de cada não poderemos vir a tornar-nos uns excelentes artistas na mesma? E se a nossa borracha em vez de ser branca (como manda a lista) for daquelas verdes que todos nós tivemos em alguma altura da vida, não ficarão os nossos erros bem apagados? Com um quarto do que aquela lista pede fiz a minha escolaridade toda e ainda cá ando.

500 quixotadas

A quixotada número quinhentos segue com impropérios e nervos da autora que deixou de ter direito ao tipo de letra que sempre teve desde a inauguração do estaminé. Nas definições continua a dizer que o meu tipo de letra é aquele, mas a realidade que depois me aparece no blogue é outra. Portanto a vontade que tenho é de excomungar este até aqui tão doce espaço e mandá-lo para as urtigas. Que falta de respeito!

Fora isso, já lá vão quinhentas quixotadas e quase oito meses. Haja tempo, inspiração, leitores e um tipo de letra decente para poder continuar (é que estou mesmo danada)!

Fuga de informação

E a barraca está lançada! Ao que parece houve uma denúncia anónima que deu conta de uma fuga de informação relativamente ao excerto sujeito a exame na prova de Português desta segunda-feira. Segundo o Correio da Manhã, alguns alunos de Guimarães e de Fafe terão sido avisados por sms de que no exame sairia um excerto do Canto VI de Os Lusíadas. Não posso acreditar nisto. E os meus alunos tão a leste e a estudarem quase exclusivamente Fernando Pessoa. Estou para ver no que dará isto agora...

Dá que pensar


Ontem comprei este livro, como vos mostrei. É a biografia do escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor de pérolas como Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos de Cólera. Normalmente não leio biografias. Acho que a primeira que li de fio a pavio foi mesmo a da Maria Filomena Mónica (olha o pessoal a ter ataques cardíacos já), mas a deste senhor, por alguma razão, chama-me a atenção. Ele próprio contou a sua história no livro Viver para Contá-la (havemos de chegar a esse), mas ontem vi este volume na FNAC com uma promoção apetecível. Estava com algumas dúvidas quanto a comprá-lo, porém o excerto da contracapa decidiu-me. Deixo-vo-lo.

«No início de Agosto de 1966, García Márquez e Mercedes foram aos correios enviar o manuscrito terminado de Cem Anos de Solidão para Buenos Aires. Pareciam dois sobreviventes de uma catástrofe. O embrulho continha 490 páginas dactilografadas. O funcionário que estava no balcão disse: "Oitenta e dois pesos." García Márquez observou Mercedes a procurar o dinheiro na carteira. Tinham apenas cinquenta pesos, e só puderam enviar cerca de metade do livro: García Márquez pediu ao homem que estava do outro lado do balcão para tirar folhas como se fossem fatias de toucinho, até os cinquenta pesos serem suficientes. Voltaram para casaa, empenharam o aquecedor, o secador de cabelo e o liquidificador, regressaram aos correios e enviaram a segunda parte. Ao saírem dos correios, Mercedes parou e voltou-se para o marido: "Hei, Gabo, agora só nos faltava que o livro não prestasse."»

Acho deliciosa esta história e parece-me de génio colocá-la como apresentação do livro. Um autor que chegou aos píncaros a que chegou García Márquez teve de contar os tostões para poder enviar a sua obra-prima. Parece que há muitos génios literários que passaram por estas situações. Imediatamente lembrei-me do nosso serralheiro mecânico mais conhecido, José Saramago, que veio de um meio tão pobre e que atingiu pontos tão altos. Foram dois prémios Nobel. Dá que pensar.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Não gosto disto

O meu blogue está a aparecer-me com um tipo de letra diferente da do costume. Está a irritar-me profundamente. Ignorem as alterações, por favor. Julgo serem passageiras. ESPERO que sejam passageiras.

Ao ponto a que os paizinhos chegam

Perdoem-me os que possam sentir-se atacados com o que aqui vou dizer. Provavelmente vou cair no enorme erro de generalizar algo que devia ser particularizado. Contudo, avanço já a minha explicação: de acordo com os disparates que vejo ao longo dos muitos meses que dura um ano escolar, não há como evitar a generalização. O volume de idiotice é tão gigante e vem de tantas frentes que é-me difícil poupar os que ainda mantêm a sanidade mental e não vão espancar professores e alunos por "dá cá aquela palha".

Por que razão digo isto? A menina explica. Lembram-se daquela história das "BFF" (Best Friends Forever) que aqui contei há uns dias? Pois bem, teve desenvolvimentos. A ver se consigo voltar a pôr isto em modo fábula para ser menos chocante.

A coelhinha que não viajou decidiu, no final da fábula do outro dia, reduzir toda a gente à categoria de "amigas" (sem o vocábulo "melhor" antes) e assim julgou que os seus problemas teriam fim. Enganava-se. A MÃE da coelhinha que viajara e que, pelo afastamento, perdera o estatudo de "BFF", decidiu que havia de ter uma conversinha com a coelhinha que agora se dava muito bem com a passarinha e que despromovera a sua filha a, apenas, amiga.

A pobre coitada que pensava que tinha de novo a harmonia na sua vida assustou-se quando soube que seria confrontada com a progenitora aguerrida da sua antiga "BFF". Felizmente, a sanidade imperou e a mãe da coelhinha que muito viaja foi proibida de conversar com a "ex-BFF" da filha.

Minha gente, comentem vocês isto porque não tenho já qualquer paciência e verve para o fazer. O disparate parece-me tão grande e despropositado que já não tenho palavras. Proteger os filhos, amá-los, tentar evitar que sofram (ainda que se saiba que isso acabará por acontecer, já que faz parte da vida) é uma coisa. Querer controlar todos os aspectos da vida de um filho ao ponto de invadir as liberdades de outras crianças já me parece coisa grave e despropositada. Há limites para a protecção, ainda que não os haja para o amor da mãe por um filho. Eu não sou mãe, mas parece-me que é assim que as coisas funcionam. Dá-se a mão aos miúdos, mas eles acabam por cair na mesma e esfolar um joelho. O que devem fazer as mães? Pontapear e pegar fogo ao chão onde o joelho se esfolou ou cuidar da ferida? Claramente, eu escolheria a segunda opção, mas acreditem: cada vez encontro mais pais que preferem a primeira hipótese. Isso não faz nada pela criança, pelo contrário: é uma péssima lição.

(Eu disse que não comentava, mas afinal comentei. Sou uma troca-tintas incapaz de se calar.)

Gente surda e endurecida

Durante o dia de hoje fui recebendo o feedback dos meus alunos do 12.º ano sobre o exame e já estive a pontos de proceder a espancamentos. De tantos avisos que fiz, alguns alunos resolveram prestar atenção a muito poucos e daí não se augura nada de bom. Querem exemplos? Ora lá vão:

- eu disse que a minha aposta ia para Pessoa ortónimo, Felizmente Há Luar! e Memorial do Convento, mas que apesar disso era obrigação deles estudar TODOS os autores do Programa. O que é que eles fizeram? Estudaram apenas Pessoa ortónimo e Felizmente Há Luar! (para os restantes textos e até para o romance de Saramago nem olharam!);

- eu disse para não se prenderem demasiado à folha de rascunho e para a usarem preferencialmente para a produção do rascunho dos textos a escrever na "pergunta B" do Grupo I e no Grupo III, uma vez que existe a tendência para se perder demasiado tempo com a folha de rascunho, faltando depois o tempo necessário para se escrever efectivamente na folha de respostas a avaliar. O que é que algumas meninas fizeram? Escreveram TUDO na folha de rascunho e depois entregaram a folha das respostas EM BRANCO porque não conseguiram passar nada para lá (nem me perguntem como é isto possível...).

- eu disse para NÃO despejarem matéria. Por exemplo na "pergunta B", se a ideia era falar sobre a epopeia da pedra no Memorial, era para falar sobre isso e não sobre o casamento do Saramago com a Pilar. O que é que uma menina fez? DESPEJOU tudo o que sabia sobre a época em que se passa a acção do romance, chegando até a falar do Palácio de Versalhes. Não me perguntem a lógica porque eu também não a entendo...

Eu disse tanta coisa que, afinal, parece que ficou pelo caminho... Fico triste porque sei que este era o exame ideal para brilharem. Não era, de modo nenhum, difícil. O português do século XVI era, no fundo, a maior dificuldade, mas aquilo que saiu (por exemplo a mitificação do herói nas palavras do poeta) foi uma das teclas em que mais bati ao longo do ano. Mas é como diz Camões perto do final de Os Lusíadas:


No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.

                                             (Canto X, est. 145)


Ando, decididamente, a pregar a gente surda. Chegou o final do ano lectivo: calo-me finalmente.

Hora de almoço


A minha hora de almoço antes da vigilância de um exame nacional ia ser curtíssima. Contudo, ainda deu para pular à FNAC e, com dois vales de desconto nas mãos, arranjar esta carga para puxar durante o resto do dia. Não tenho remédio, é uma desgraça.

Preparai-vos!

Preparai-vos, pois, a menos que me dê uma branca, vem de lá uma enxurrada de quixotadas!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

E lá veio o Camões

E já sei: no Exame Nacional do 12.º ano saiu um excerto d' Os Lusíadas e, na «pergunta B» saiu Memorial do Convento. O exame não me pareceu, de todo, tão difícil como o do ano passado. Mas assim de repente consigo ver alguns alunos que odeiam Camões (e principalmente as suas reflexões, que foi precisamente o que saiu) em pânico... Esperemos que não.

Nervos, nervos, nervos

Neste momento os meus alunos do 12.º ano estão a fazer o Exame Nacional de Português e eu ainda não sei o que saiu. Que nervos! A minha aposta vai para Pessoa ortónimo ou Felizmente Há Luar!, mas vamos lá ver... Tenho de esperar que o GAVE publique os exames. Ai ai...

domingo, 17 de junho de 2012

Habemus puzzle!

A secagem da cola do puzzle correu bem: o dito está fino para ser emoldurado. Rejubilemos todos! Agora, há algo que me apoquenta... Normalmente quando faço puzzles faltam-me sempre peças. Quando o Universo se une para me irritar, falta uma. Quando o intuito é só mesmo fazer-me largar um palavrão e virar as costas ao excomungado quebra-cabeças, falta mais do que uma. Mas hoje, curiosamente, havia uma peça a enervar-me por não ver onde a poderia encaixar. Pois pudera... O puzzle de quinhentas peças tinha, na realidade, quinhentas e uma, o que para mim é bastante irónico. Num jogo que geralmente peca por defeito, o meu destaca-se pelo excesso. E portanto tenho para ali repetida uma ponta de um moinho de vento que foi tristemente sonegada de todo este processo lúdico.

Mais livros velhos


E eis que a minha casa ganhou oito nove moradores (Deus me valha, qualquer dia vou eu e a placa do meu andar parar ao rés-do-chão do prédio devido ao peso...). Na realidade ainda comprei mais dois além destes, mas são presentes por isso não posso divulgar ainda.

Já o meu moço aproveitou, também, para rechear as suas estantes. Diz que o arrastei para esta situação de compras de livros ao Domingo. Mas ele adora, eu sei que adora...


Colagens


Este puzzlezinho de quinhentas peças (singelo recuerdo de Madrid) foi montado por mim e pelo meu moço durante a tarde de ontem e a de hoje. Está muito lindo, que está, todavia temo que isso mude se o processo de secagem da cola para puzzles não correr bem. Daqui a umas três horas darei conta do resultado e espero não estar chorosa.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os livros que deviam vir com a oferta de uma caixa de fósforos

Palavra de honra... Há pessoal que chama «literatura» a alguns livros que eu não usaria nem para forrar a caixa da areia do gato que um dia virei a ter. Pergunto-me se é ignorância ou ânsia idiota para vender mais dois ou três exemplares a pessoas tão ignorantes como as que chamam ouro ao lixo publicado. A sério, por muito lambedores de botas que sejamos numa ou noutra ocasião, há limites para a parvoíce e para mim estes são claramente ultrapassados quando alguém não enxerga a diferença entre um amontoado de tolices que uma qualquer editora quis publicar (ah, o cheiro do dinheiro...) e um texto efectivamente literário, com tudo de bom que isso implica...

Cusco sem vergonha

O Facebook quer saber mais da minha vida do que eu. É oficial! Então eu recebo um convite de uma editora para estar presente no lançamento de um livro cujo autor odeio, recuso o convite e abre-se-me logo pomposamente uma janela onde devo escrever a razão pela qual não vou?! Mas o que é isto, senhores? Não estais querendo esmiuçar em demasia a vida de uma pessoa selectiva quanto aos autores que lê e que anda mais precisada de descanso do que de qualquer outra coisa? Credo, onde isto já vai...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O problema das BFF

O gajo (ou gaja, que isto parece-me mesmo coisa de "gajinha" parva) que inventou esta fantochada de «BFF» (ou «Best Friends Forever») era bem espancado com um ursinho carinhoso recheado de tijolos e empalado logo de seguida. É que graças a esta piroseira hoje passei a tarde a acalmar as lágrimas de alunas de onze anos que de repente tinham deixado de ser as BFF's umas das outras.

Eu explico o que aconteceu, mas em forma de fábula, para a coisa ser mais lúdica:

Num lindo bosque encantado viviam duas coelhinhas de cauda fofinha. As duas ternuras peludas eram as melhores amigas do mundo. Conversavam, contavam tudo uma à outra, partilhavam as cenouras, tudo como duas boas amigas fazem. Também brincavam com outros animais fofinhos, mas a ligação entre elas era especial e única. Nada as separava.

Um dia, fazendo uma longa e pouco aceitável ponte, uma das coelhinhas viajou para um país europeu, enquanto a sua BFF continuou no encantador bosque onde viviam e estudavam com a professora coruja. A coelhinha que por cá ficou sentiu a falta da sua amiga, mas percebeu no seu doce e carinhoso coração que não poderia viver tantos dias sem uma nova BFF. Aos poucos aproximou-se da passarinha e compreendeu que conversar com ela era tão bom como conversar com a coelhinha que viajara. Passaram os dias juntas, partilharam a água e o sol de um lindo mês de Junho e, quando deram por si, a coelhinha que não viajara e a passarinha que também ficara eram as novas BFF's do bosque.

Mas a roda do tempo que não pára e os aviões que ligam o bosque encantado às capitais europeias trouxeram de volta a coelhinha que partira. Esta, ao chegar, procura a sua grande amiga felpuda e rapidamente percebe que o seu lugar de BFF estava periclitante. «Meu Deus, meu Deus! Mal virei o meu rabo felpudo e fazem-me logo isto? Não pode ser!», pensou a coelhinha viajada que, pouco depois, decide falar com a outra coelhinha e esclarecer a situação escandalosamente pouco querida que se verificava.

As duas comedoras de cenouras conversam e a coelhinha que por cá ficou a ter aulas explica que, nos dias em que a outra esteve longe, encontrou uma nova amiga e que esta era agora a sua BFF. Os sentimentos assim lho ditavam, nada mais havia a fazer. Pode a narradora afirmar, neste momento, que o mundo da coelhinha conhecedora dos melhores museus europeus desabou por completo. «Ser amiga é bom - pensa ela - mas sempre é uma despromoção relativamente a ser a BFF!». Intolerante, rapidamente percebeu que despromoções são coisas feias e, aborrecidíssima, recusou. O que se seguiu embaraçará durante séculos o lindo bosque encantado:

- Eu é que era a tua BFF! E agora voltei e quero manter o meu estatuto, por isso escolhe: ou eu ou ela!

Nesse momento os céus turvaram-se com nuvens escuras, os peixes choraram, mas ninguém deu por nada porque eles estavam dentro de água, os esquilos beberam vodka para esquecerem um dia tão infeliz. A natureza mostrou-se carrancuda perante tal falta de harmonia num bosque outrora maravilhoso.

Perante o ultimato, a coelhinha que por cá ficara tremeu. Já gostava muito da passarinha, a nova BFF, e era-lhe impossível esquecer os momentos bons que passara com a coelhinha coleccionadora de milhas aéreas. Estava, então, perante um dilema. Escolher a coelhinha restabeleceria a ordem no bosque encantado, mas isso significava olvidar dias muito doces vividos com a passarinha. Era tudo tão difícil...

A professora coruja apercebeu-se das movimentações estranhas pelo bosque e encontrou a coelhinha com um problema de selecção de amizades a chorar dentro de uma toca. Foi lá falar com ela e ficou a par do terrível drama que ocupava as duas coelhinhas e a passarinha. A sábia e muito linda coruja (é preciso que se diga que é uma coruja espantosa, única, maravilhosa, um doce! ) explicou à coelhinha que a amizade não é um pódio onde tem de, obrigatoriamente, haver um a ocupar o primeiro lugar e os restantes a lutar pelo espaço que sobra. A espantosa professora coruja disse-lhe ainda que se a amizade a fazia chorar daquela forma, então não valia a pena e que ninguém, nem a mais fofa das coelhinhas nem a querida passarinha, tinha o direito de a fazer escolher entre uma ou outra para o lugar de BFF.

Em vão. O problema estava para durar e a professora coruja teve de repetir o seu discurso sobre a amizade mais duas ou três vezes ao longo do dia, pensando sempre que era a mais desadequada das criaturas para proferir tal discurso, já que a sua opinião sobre a amizade não era de modo algum das mais favoráveis.

Horas depois o sol voltou a sorrir no bosque encantado dos animais fofinhos. A coelhinha chorosa resolvera o dilema: tal como a esbelta professora coruja lhe havia sugerido, concluira que ter melhores amigas dá trabalho e pode irritar muitas gente. Assim, decidira despromover a coelhinha conhecedora dos países europeus e a passarinha ao singelo título de amigas, retirando-lhes o pomposo destaque de «BFF's». A professora coruja, espantosa como só ela, aplaudiu a sensata decisão e logo os peixes deixaram de chorar porque também já parecia mal...

Moral da história:

Se a cabeça da professora coruja
em muita água queres tornar,
com antecedência deves avisar
para que a pobre coitada fuja.

(E pronto: este foi o meu dia.)

A Menina Quer Isto XIII


Diz que foi o primeiro livro do Philip Roth e além da novela Goodbye, Columbus ainda traz cinco continhos lindinhos para entreter a menina. Por isso a menina quer, para variar...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Nova oração

Hoje, ao corrigir testes, uma aluna apresentou-me uma nova oração. Era ela a «oração subordinada relativa restritiva regional». Citando um colega a quem logo narrei o caso, «mais um pouco e seria a oração subordinada relativa regional do município de Freixo de Espada à Cinta». Ainda havemos de lá chegar, parece-me...

terça-feira, 12 de junho de 2012

A declaração de Teolinda Gersão

Li há pouco o texto de Teolinda Gersão que tem sido intitulado de «Declaração de Amor à Língua Portuguesa». E é mesmo. E eu e as minhas colegas sentimos na pele a realidade de que a autora ali fala. Dou um bombom a quem me explicar e fizer compreender sem sombra de dúvida, a mim, professora de Português, a diferença entre o modificador do grupo verbal e o modificador de frase. Aqui fica o texto de Teolinda Gersão.


Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

Teolinda Gersão, junho, 2012


É com estes disparates que convivemos e eu acho que a autora, que estudou um pouco com os netos, percebeu bem o desespero que é, para nós e para os alunos, ensinar aquilo que era fácil e que hoje é difícil. Enfim... É o que temos e é o nosso costume: mudar, porque tem de se mudar, mas nunca para melhor.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Presente de aluno vale por dois

E eis que no fim do ano recebo um embrulho de uma aluna que diz «Para a professora mais fofa». Lá dentro estava uma ovelhinha-noiva (de véu e grinalda) que vai directa para o meu porta-chaves. Duas ternuras: a aluna e a ovelha desquitada a quem tenho de arranjar marido...

Pedido satisfeitíssimo


E eis como resolvi o «A Menina Quer Isto» de ontem. Trouxe o A Arte de Viver à Defesa (embora o título engane, calma, que isto é um romance e não uma caca qualquer de auto-ajuda),  aproveitando um vale de dez euros que definhava na minha carteira. E como quem diz um diz dois, aproveitei e trouxe um Mark Twainzito para lhe fazer companhia, fazendo uso de outro vale que havia recebido na Feira do Livro de Lisboa. Maravilha!

domingo, 10 de junho de 2012

A Menina Quer Isto XII


Já não pedinchava nada há tanto tempo que a coisa já se ia tornando estranha. Ora há uns dias recebi um email da Wook que destacava a chegada para breve deste romance sobre um caloiro numa universidade americana, com um talento enorme para o basebol. Mas, como diz na página da livraria, um dia o rapaz «comete um erro: faz um mau lançamento e tudo muda». E eu, que sou uma cusca, fiquei curiosa para saber que efeito pode ter um dia de mau desempenho desportivo na vida deste moço. O Natal não está para breve, portanto o melhor é começar à procura dele nas livrarias desta vida...

Leitura nova

Depois de ter aprendido muitas coisas sobre a «ciência das compras» no livro com o mesmo nome de que vos falei no outro dia,  hoje comecei uma leitura nova e à terceira página já ria à gargalhada. O motivo? Este livro:


A coisa promete...

Adeus dente

É triste chegar aos vinte e seis anos e meio e ter dentro de mim um dente ansioso por nascer, mas sem espaço para saltar cá para fora. De tempos a tempos o idiota do dente do siso dá sinal de vida: já lhe vejo a parte de cima e posso dizer que é bonito, porém, e correndo o risco de ferir os seus sentimentos, não preciso dele. Na realidade a sua existência tem sido motivo de aborrecimento e dor. Por isso, dente, se lês este blogue, és livre para partir, volta para casa, vai ver os jogos do Euro à Polónia, mas desaparece que já me vai custando a abrir a boca.


Dia de Camões



Hoje é o dia do nosso feriado nacional por causa deste senhor, que tantos odeiam devido à maravilhosa epopeia que escreveu e que alguns pouco iluminados consideram «a seca das secas». Mas este senhor, minha gente, é um dos maiores (e para mim é mesmo «o maior») poetas portugueses de sempre.

Em vida lamentava o esquecimento a que a sociedade o votava e comeu, diga-se, o pão que o diabo amassou. Também, pelo que se diz, só estava bem quando se encontrava metido em confusões até ao pescoço. Mas isso também o Cervantes e mesmo assim escreveu o Quixote...

Camões é um dos nossos mitos nacionais e a ele devemos uma série de outros mitos e vários ganhos para a nossa cultura. Portanto, devemos-lhe muito e lembramo-lo pouco. Da sua mão saíram alguns dos versos mais bonitos que as nossas letras já viram. Por isso, em homenagem ao seu dia de morte, deixo aqui um soneto seu de que gosto muito por mostrar, como ele tão bem sabia fazer, a confusão louca e imperceptível que é o amor.

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Nota: O quadro é de João Ramos e tanto este como outros muito bons podem ser contrados aqui.

Adenda à quixotada anterior

Portugal não ganhou o jogo. A vaca Ivonne deve, neste momento, ir a caminho do matadouro para ser transformada em bifinhos da alcatra e muita bolonhesa para cobrir a massinha. Lições a retirar de todo o acontecimento?

1. - As balizas não deviam ter traves;
2. - As linhas pintadas no relvado deviam ser mais fininhas;
3. - As vacas não se devem deitar a adivinhar: devem dar leite e ponto final;
4. - A ração de origem portuguesa induz vacas gulosas em erro, por isso deve ser boa.

sábado, 9 de junho de 2012

Tubo José e o Euro 2012

Diz que agora é moda ter animais que «prevêem» os resultados do EURO 2012. Há dois anos havia um singelo polvo, pacatinho como só ele, que se dava ao trabalho de seleccionar uma bandeira de cada vez que um doido se lembrava de lhe pôr duas diferentes dentro do aquário. Por mistérios da vida ia acertando, o que lhe valeu um estatuto invejável no seu país de origem.

Ora, acabei há pouco de ver uma peça de um noticiário sobre isso mesmo e por momentos senti que toda a lucidez se havia evaporado da face da terra e que tudo o que restava era uma boa quantidade de animais a gozarem com a nossa cara à grande e à francesa. E nós, quais tolinhos desprovidos de um dos hemisférios do cérebro, aplaudíamos a capacidade demonstrada pela vaca Ivonne ao escolher Portugal como a equipa que hoje sairá vencedora do jogo. Muito bem.

Não sei o que é que os campeonatos de futebol fazem às pessoas, mas é assustador ver como se perde a noção dos limites e do ridículo. Da primeira vez, com o Paul - o - polvo, era estúpido, mas teve alguma piada. Agora é apenas estúpido. Eu se for ali à gaiola do periquito Tubo José, lhe puser dois potes com comida, um com a bandeira lusitana e outro com a alemã, o mais certo é ele não tocar em nenhuma e borrar-se (literalmente) de medo por ver cores berrantes dentro da sua singela casa. E se usar com ele o mesmo método usado com a vaca Ivonne, em que lhe puseram ração portuguesa e ração alemã em dois comedouros diferentes e ela preferiu a nossa (a espertalhona), também não obterei grandes previsões futebolísticas: o Tubo prefere, nitidamente, comida espanhola. Não gosta da que lhe compram em casos de emergência na feira da Brandoa ou na das Galinheiras. Gosta da que se vende no Minipreço ou em Benfica, numa loja de animais. E isso, como devem imaginar, não me ajuda a saber se Portugal ganhará o jogo.

Portanto arrisco-me a ser, de acordo com o que vejo na televisão por estes dias, a única pessoa que tem em casa um animal imprestável em termos de vaticínios futebolísticos. O que fazer? Depená-lo e fazer pipis? Castigá-lo impiedosamente proibindo-o de se ver ao espelho nos próximos tempos (o pobre bicho é vaidosíssimo)? Ou retirar-lhe o sininho que lhe decora a casa, impossibilitando-o de comemorar com espalhafato os golos da selecção? Pois parece-me que não farei nada. Graças a Deus ainda possuo os dois hemisférios cerebrais aglutinadinhos um ao outro e isso permite-me perceber que os animais não são a Maya e que, portanto, não têm qualquer dom para prever resultados de Euros, Mundiais ou de apostas na bolsa de Tóquio. E assim, Tubo José, o periquito, prosseguirá sendo o mesmo gordo sacana que adora a adaptação que lhe fiz da música do anúncio da Mukambo e só saberá do resultado do jogo quando eu lho disser.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Boas, mas boas!


E o que eu gosto de um bom par de oreos molhadinhas no leitinho? E o quanto a minha barriga o prova?

Novidade

Ontem, graças a uma catita promoção da FNAC, trouxe este senhor para casa:


É tão gordo e não cabe em lado nenhum. Ai...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

12 000


E eis que já por cá foram feitas doze mil visitinhas. A gerência agradece. Voltem sempre que são muito bem-vindos. 

Na companhia do ornitorrinco


Eis como uma professora torna a invenção do enunciado de um teste numa actividade risível: deixa como banda sonora o filme que a SIC está a transmitir. Nada mais, nada menos do que o filme dos desenhos animados Phineas & Ferb. Estou, portanto, a pensar em complementos oblíquos, mas a ouvir os feitos gloriosos de um ornitorrinco de vida dupla que ora é simplesmente parvo, ora é agente secreto. Na última vez que olhei para a televisão, o pobre bicho estava a fazer xixi no sofá, embaraçando os donos perante o cientista mau. Brilhante!

Fogos-fátuos

Estou quase emocionada: vou fazer agora o enunciado do último teste do ano lectivo. Aleluia! Infelizmente ainda é capaz de me calhar ter de fazer os exames finais de alguns alunos numa das escolas, mas como esse trabalho ainda não é certo, começo já a atirar os meus foguetes. Isto cheira-me a fogo-fátuo, mas enfim... É que estou mesmo fartinha, pá!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sardinhas e neguinhas

O arraial a bombar aqui ao lado de casa, com sardinhas para dar e vender (principalmente vender) e a parva a fazer a maratona de correcções do final do período. Deus me dê saúde e paciência, senão não chego lá...

Ray Bradbury

Morreu o senhor que inventou uma história em que os livros ardiam. Eram objectos malditos numa sociedade de poucas liberdades e, por isso, o papel era condenado ao fogo. As personagens lutaram contra o esquecimento das grandes histórias e, na impossibilidade de manterem consigo os livros que o regime censurava, decoraram as palavras que eles continham e repetiam-nas vezes e vezes sem conta, para que nunca desaparecessem realmente. Com Ray Bradbury, autor de livros de ficção científica, passou a ser do conhecimento geral a temperatura a que arde o papel. Não gosto de tal tipo de literatura, mas gosto da ideia subjacente a este livro, o Fahrenheit 451, de 1953.

Morre o autor, mas fica a ideia: os livros hão-de resistir porque haverá sempre quem olhe por eles e os deseje mais do que os odeiam os outros, os que não percebem nada.

Outra raça estranha

Há outra raça que me enerva e, coincidência das coincidências, também anda de autocarros. Refiro-me aos idiotas que quando vêem pela janela um amigo ou uma amiga, um vizinho ou uma vizinha desatam a bater no vidro até o desgraçado que vai do lado de fora olhar ou o motorista mandar um berro. Geralmente estes tristes de entre os tristes, quando conseguem que a vítima os olhe, limitam-se a acenar um adeus. Não percebo por que razão alguém se dá a tanto trabalho e se propõe a incomodar tanta gente só para acenar um reles adeus a uma pessoa que, talvez, até veja todos os dias. Palavra de honra... Não percebem que no fim de um dia de trabalho, ouvir pancadas num vidro pela razão mais infantil do mundo causa nervos até à mais zen das pessoas? Ah raça do caraças, era extingui-la já!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pelo caminho dos tijolos amarelos

A reportagem que a TVI acabou de passar sobre o futuro sem futuro da minha geração deixou-me de coração apertado. Nenhuma mãe devia ter de despedir-se no aeroporto de uma filha que tudo fez para ser bem sucedida na vida. Nenhum pai devia ter de despedir-se de uma filha que parte para a outra ponta do mundo à procura de qualquer coisa que pode ser nada, pois vai sem garantias de que alguma coisa boa aconteça. E isso, parece-me, é bem o sintoma do desespero: quando se parte para Macau sem se saber no que isso dará, é porque de tudo o que não se sabe sobra pelo menos a certeza de uma coisa: de Portugal não sairá, não poderá sair, nada de melhor.

A minha geração não terá empregos para a vida e, para muita gente, nem empregos haverá. Estudámos que nos fartámos e recebemos isto. Gabo todos os que conseguiram partir em busca de melhor, como outrora talvez os avós tenham feito. Mas lamento muito, mesmo muito, todos os que partem de coração destroçado, deixando no cais de embarque uma família de braços caídos, sem saber como conviver com a dor de uma ausência forçada e forçosamente estúpida.

No Verão não estou

Corro o risco de me tornar repetitiva, mas reitero a ideia de que os autocarros são fontes preciosíssimas de histórias memoráveis. Mesmo. Hoje trago mais uma que me deixa a pensar que se calhar a crise não é tão grande quanto se pinta ou então que não chegou aos jovens. Talvez os pais deles tratem a crise por tu e durmam com ela na cama, mas os filhos não se metem nesses assados, com certeza.

Ora, ia no autocarro um rapaz com um ar jovem, mas que pelos vistos seria recém-licenciado, a julgar pela conversa. Encontrou-o uma amiga. Cumprimentaram-se e ela questiona:

- Vais para onde?

- Vou para o estágio.

- Estás a estagiar onde?

- Numa empresa ali ao pé da escola.

- Ai eu também quero ver se vou estagiar. - desabafa a moça. Ele responde:

- O que eu queria mêmo [leia-se, tal como na outra quixotada, "mesmo": o erro é comum, parece-me...], mêmo, mêmo era trabalho...

- Ya, eu também... - diz ela, acrescentando de seguida, - Mas no Verão não!

Ele, brilhantemente, responde:

- Ya, eu também só quero [leia-se "para a"] segunda quinzena de Agosto.

A moça pergunta:

- O teu estágio vai durar até lá, é?

Ele satisfaz-lhe a curiosidade a ela e a mim, que ia de orelha espetada:

- Não: já tenho bilhetes pós festivais [leia-se "para os festivais"].

Portanto é isto: esta gente quer muito trabalhar, só não pode é ser no Verão porque isso é uma crueldade, especialmente quando existem Zambujeiras do Mar e Paredes de Coura. Pergunto-me:

a) Como viverão os tipos que os sustentam?

b) Quem terá pago os bilhetes?

c) Em que árvore acharão eles que nasce o dinheiro? Será na jabuticabeira? É que parece-me que por cá não há disso. Eu pelo menos nunca vi nenhuma...

d) Saberão eles que no Verão é mais fácil os jovens arranjarem trabalhitos em restaurantes, lojas e afins, bons para juntar uns trocos?

e) Saberão eles que vivemos em crise e que a atitude do "ah e tal, mas no Verão não" é para lá de estúpida?

Enfim, tanto para perguntar e nenhuma resposta. É que eles saíram na paragem antes da minha e eu não os pude acompanhar porque, tolice minha, tinha de ir trabalhar...