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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Peculiaridades de um leitor XV

Estava a ler um artigo do El País sobre livros com temas difíceis que vale a pena ler e fiquei a pensar que, de facto, são muitas vezes esses livros duros, crus, terríveis que nos ficam na memória. Mais até do que o que é divertido ou leve, são as vivências duras das personagens que nos marcam. O sofrimento é intemporal (basta ver que a tragédia era considerada superior à comédia em tempos antigos) e ler a dor do outro é, de algum modo, marcante. Segundo este texto do El País, que inclusivamente faz uma lista de livros com temas difíceis que vale a pena ler, o próprio Nabokov considerava que a literatura que assim não fosse nem sequer era literatura. É, no fundo, a ideia de que os livros devem incomodar. Não sou assim tão radical, mas percebo a sua opinião.

E se pensar nisso, a verdade é que realmente são os livros mais duros aqueles que recordo mais depressa. E mesmo no Quixote, se a parte cómica é imensa e inesquecível, é a dureza com que o mundo trata aquele homem bom e os valores universais que ele defende contra a maldade com que se deparava aquilo que mais lembro. 

Não lemos essa literatura para sofrer. Acho que não temos, enquanto leitores, essa veia masoquista. Lemo-la porque vale a pena, porque essas dores são humanas e porque nos identificamos com elas. De algum modo, isso também nos prepara para as nossas próprias dores. Essa é a boa literatura, no fim de contas: a que fica cá dentro mesmo depois da última página.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Peculiaridades de um leitor XIV

Nos dias em que estive em repouso devido à pomposa cólica renal que se fez sentir no final da semana passada, caiu-me no colo um tema curioso que tem que ver com hábitos de leitura, particularmente aqueles que temos quando ficamos doentes. 

Este blogue nasceu em 2011, mesmo no final de um período em que estive em casa devido à varicela que apanhei num casamento (sim, uma mãe genial achou que levar o filho em fase de contágio para um casamento era o melhor a fazer, mas enfim). Nesses dez dias em que estive trancada em casa para não contagiar mais ninguém (embora a minha irmã não tenha escapado), li muito. A leitura de que me recordo imediatamente é Atribulações de um Chinês na China, de Júlio Verne. Foram horas e horas de leitura para despachar numa noite ou duas aquelas aventuras tão típicas na escrita do autor. Era, ao mesmo tempo, um livro divertido, leve e envolvente, muito apropriado para uma altura em que ora se lê, ora se dorme e em que a concentração pode não estar no seu melhor. Por isso mesmo, perto do final da minha querida varicela, peguei num portento que se tornou num dos meus livros favoritos: David Copperfield. Aliás, uma das primeiras quixotadas que escrevi foi, precisamente, sobre esse romance de Dickens. Já estava melhor, mais concentrada, mais capaz de me lançar a largos voos e aquelas centenas de páginas foram percorridas a grande velocidade.

Mas desta vez, com as dores da cólica renal e, sobretudo, as imensas náuseas que ela causava, a vontade de ler foi-se. Consegui ver séries e outros programas, mas não consegui ler grande coisa. Mesmo andando com o Tennessee Williams debaixo do braço (já agora, uma vénia para ele que é absolutamente brilhante e, talvez, a minha melhor descoberta de 2017), só pensar em ler era causa de enjoo. E foi assim que me caiu no colo o tal tema desta quixotada e que é mais uma peculiaridade dos leitores.

Falando com uma Professora universitária de quem gosto muito e perguntando-me ela como estava a minha saúde, disse-lhe como me sentia e, inclusivamente, que não conseguia ler nada há vários dias, mesmo passando o tempo aninhada no sofá ou na cama. Disse-lhe que não querer ler era muito invulgar em mim, mas que mostrava bem o estado em que estava. A isto ela respondeu com alguma graça que sempre que sentia que vinha lá uma gripe, pegava invariavelmente num Eça que a acompanhava até ao final da doença. Na última vez que tal aconteceu leu A Capital.

Fiquei a pensar nisso, naquilo que entendi como «leituras de conforto»: naqueles livros que sabemos que não nos vão falhar, que não vamos ficar desapontados com eles. Para esta Professora, a leitura que nunca a deixa mal e que pode acompanhá-la num período de maior fragilidade passa pelos vários livros de Eça de Queirós. Já eu não tenho uma leitura de conforto propriamente dita, embora tenha percebido, depois de pensar no assunto, que normalmente escolho livros infanto-juvenis ou livros mais humorísticos. Não foi afinal à toa que, no segundo ou terceiro dia de dores, peguei no quinto volume do Manolito Gafotas. Para a Professora, Eça tem aquilo de que precisa quando se sente pior; para mim o que me importa é que o texto seja leve, engraçado e que não exija muito de mim. Ainda que as peças de Tennessee Williams se leiam muito bem e sejam muito fluídas, os temas sérios nelas abordados eram demasiado para um cérebro mais concentrado nas dores e na falta de posição para estar do que propriamente naquilo que estava a ler. 

Portanto, acredito que cada leitor tenha as suas preferências quando está doente. Talvez uns prefiram abandonar os livros e optar pelos periódicos; outros largam todo o material de leitura e entregam-se à televisão e às séries e filmes; outros ainda optam por um determinado autor ou género; alguns pegarão em BD e infanto-juvenil e outros poderão manter-se como sempre e ler o que apetecer sem pensar mais no assunto. A verdade, é que mesmo sem darmos muita conta disso, os livros que nos acompanham combinam muitas vezes com o modo como nos sentimos: se mais tristes, tendemos a fugir de dramas; se estamos felizes, já podemos ler um dramalhão; se aborrecidos, venham as aventuras; se cansados, a leveza de alguns livros infanto-juvenis ou de algumas bandas desenhadas ajuda imenso. Cada leitor é um mundo e agirá de acordo com o que sente. Chegados à décima quarta «Peculiaridades de um leitor» creio que já ficou bem claro isso mesmo: que são peculiaridades e não regras. Alguns de nós temos uma ou outra esquisitice, outros temos muitas das que já referi nesta onda de quixotadas. Com isto dos «livros de conforto» passa-se o mesmo, mas uma coisa é certa: só os leitores, só os amantes dos livros param para pensar nisto. E isso torna-nos peculiares e peculiarmente felizes.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Peculiaridades de um leitor XIII


Não nascemos leitores: fazemo-nos leitores. Ao poucos, muito lentamente nuns casos, mais rapidamente noutros, habituamo-nos às letras, aos livros e quando damos conta estes fazem parte inseparável dos nossos dias. Mas para muitos de nós, mais do que os livros que a escola pudesse levar-nos a ler, o que nos fez leitores foi o exemplo daqueles que nos são mais queridos.

Sempre vi a minha irmã e a minha mãe a ler jornais e livros. O meu pai ainda hoje lê um ou dois jornais por dia (podem não ser os meus favoritos, mas lê). Acho que mesmo tendo poucos livros enquanto pequenita, sempre convivi com eles como algo que faz parte da nossa vida. Com o tempo fui lendo mais e mais, passei pelos livros parvos da adolescência e fui trilhando o meu caminho, descobrindo aquilo que resultava para mim e o que não valia a pena ler. Quando dei conta, estava a escolher uma Licenciatura na qual pudesse ler muito e dos mais variados tipos. Mais tarde, para muitos dos meus alunos, eu era um bicho raro e anacrónico, pois era a única docente que trazia sempre um livro na mala e que falava frequentemente do que lia. Para alguns eu vivia algures no século XIX, bem antes das tecnologias que lhes ocupavam os dias. Infelizmente, muitos daqueles miúdos não tinham leitores em casa que lhes dessem o exemplo. Tinham acesso a muitos mais livros do que eu tive em criança, mas poucos adultos que lhes mostrassem que ler é bom em qualquer idade. 

Por outro lado, tive alguns (poucos) casos de alunos que tinham a sorte de ter pais leitores que lhes transmitiram o gosto e os incentivavam a ler mais e mais. Alguns tinham listas de livros que queriam comprar com o dinheiro que recebessem no Natal. Era delicioso vê-los agarrados a livros, orgulhosos por lerem centenas de páginas, livros cada vez maiores e mais complexos. Os pais lá lhes alimentavam a paixão e, em alguns casos, tinham de fazê-lo em alta velocidade, tal era a rapidez com que devoravam as páginas impressas. Esses também eram bichos raros para os colegas, mesmo partilhando outros gostos com eles como a paixão pelas tecnologias, pelos melhores telemóveis e tablets. Eram do mesmo século que eles, mas tinham aquele gosto estranho que envolvia livros grandes e chatos. Já eu era mesmo qualquer coisa saída de uma máquina do tempo directamente para a sala de aula.

A imagem que deixei no início deste texto (e cuja fonte não consigo citar porque não a encontro) ilustra bem a falta de exemplo e de noção de que é preciso fazer primeiro para que os miúdos aprendam a fazer depois. Pais e professores, irmãos mais velhos e outras pessoas importantes na vida das crianças são modelos que muitas vezes tentam imitar. Se no início o que queremos é fazer o que eles fazem, tempos depois já queremos ler porque gostamos, porque descobrimos que é divertido. Comigo foi assim e com muitas outras pessoas que conheço também. Mas desdenhar dos livros  que os filhos liam (como vi encarregadas de educação fazerem na frente dos seus educandos) é meio caminho andado para não se fazer um leitor.

Note-se que nisto não há nenhuma receita infalível. Há miúdos com pais que lêem imenso e que se recusam a «perder» tempo a ler. Também há os que gostam de ler sem que alguma vez tenham visto alguém lá em casa fazê-lo. Porém, sabe-se que o exemplo daqueles que nos importam é fundamental em vários níveis do desenvolvimento e a leitura não é excepção.

A minha mãe conta muitas vezes uma história fabulosa sobre ignorância que, claro, gerou ignorância. Uma tia minha, certo dia e a meio de uma conversa telefónica, dizia com um tom muito revoltado à minha mãe que alguém tinha oferecido um livro ao filho dela. Um livro!!! Falava como se fosse o mesmo que levar a lepra para dentro do seu lar. A minha mãe perguntou qual era o mal de ele ter recebido um livro e a outra lá armou uma desculpa esfarrapada qualquer que passava pelo facto de o meu primo, um ano mais velho do que eu, não se interessar por livros. Bom, é óbvio que com aquele choque todo por causa de um livro oferecido pelo Natal também não passaria a interessar-se mais. Tudo o que não fosse um espalhafatoso brinquedo era pouco para o seu menino. Um livro, dois bocados de cartão com folhas no meio era, então, o pior que se lhe podia oferecer. Nem sei quem gostaria menos de tal presente: se a mãe ou o filho.

Enfim, nisto como em muitas outras coisas, não podemos fabricar o que queremos com peças que para ali tenhamos. Podemos dar o exemplo e ninguém querer segui-lo. No entanto, estando provado que há mais hipóteses de que famílias de leitores venham a gerar leitores, qual é a dúvida? Se o meu filho só aceder a smartphones e nunca a livros, não poderei esperar um milagre. Se passar anos de vida sem sonhar que nos livros se contam histórias extraordinárias, provavelmente continuará a sua vida sem que nenhum lhe provoque a curiosidade. Se um miúdo assiste frequentemente aos discursos da mãe diminuindo a importância e a utilidade dos livros, é provavel que ele próprio acabe por pensar que aquilo não vale a pena, pois se a mãe o diz... 

Como disse no início, não nascemos leitores. Vamo-nos construindo aos poucos enquanto tal. E se os olhos de um leitor em formação observam os livros que o rodeiam, também prestam muita atenção aos outros leitores para que reforcem positivamente tal actividade e lhes indiquem os melhores caminhos a seguir pelo meio de tantas páginas possíveis.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XII


Os leitores conhecem bem o problema da escolha do(s) livro(s) para levar de férias. Fazem-se as malas, prepara-se tudo, mas depois surge o dilema da escolha. Levamos um maior ou vários mais pequenos? Estaremos dispostos a arrastar um livro muito pesado durante as nossas férias? E mesmo que fiquemos em casa, queremos um livro grande que leve muitos dias a ler (os dias que, frequentemente, ao longo do ano não estão disponíveis) ou queremos «dar andamento» à biblioteca lendo vários livros menos extensos? Problemas, problemas. 

Lembro-me do ano em que escolhi ler o Tom Jones nas férias. Como não passava os dias a ler, a leitura arrastou-se por todos os meus dias de férias. Fiquei com uma sensação agridoce: se por um lado tinha lido um bom clássico, por outro também não havia conseguido ler mais nada num mês inteiro. Mas se não escolhermos o Verão para estas leituras mais longas, quando as faremos? Estes problemas são mesmo peculiaridades nossas. Muita gente limita-se a comprar a Maria ou a TV Guia e a levá-las para a praia. Ou então nem levam nada.

Mas este é um problema que levamos bastante a sério. Escolher um livro que levamos para férias (no caso de sairmos de casa) e ele revelar-se mau é suficiente para deixar um leitor muito maldisposto. Se ficarmos em casa, sempre podemos ir buscar outros que pareçam mais promissores. Porém, longe das nossas prateleiras, a solução é comprar outro livro ou aguentar aquele que escolhemos. 

Se quiserem, partilhem nos comentários as vossas experiências de leitura em férias. Contem-me tudo! Eu revelo já que, ficando em casa, leio livros em papel, mas que se sair, levo o Kindle. É mais leve e lá dentro cabem muitos livros: se me fartar de um, mudo para outro. 

Nota: A imagem saiu daqui.

sábado, 19 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XI


Há alguns anos passei pela situação descrita acima e pensei que só eu é que sentia aquilo. Na altura fiquei mesmo preocupada porque não percebia como poderia ser possível alguém que lia tanto ver-se, de repente, incapaz de ler. Na verdade, era como se não conseguisse concentrar-me para ler, por pouco tempo que fosse. Pegava num livro e nada. Não sentia nada e, mesmo quando me esforçava para conseguir concentrar-me, era impossível e acabava por distrair-me. Somava-se a isso a culpa por continuar a comprar livros, embora fosse difícil ler mais do que uma página. 

Um dia li num blogue a descrição que alguém fazia do mesmo problema. A autora estava a atravessar a mesma fase de bloqueio que eu vivera antes. Foi aí que percebi que é algo que acontece. É chato, mas acontece. É como se de repente um hábito nosso se tornasse estranho para nós mesmos. Parece que há duas partes do cérebro em conflito: aquela que sabe que adoramos ler e conhecer novas histórias através dos livros e a outra, a que, subitamente, é incapaz de fixar uma página por mais de cinco segundos sem desatar a pensar noutras coisas.

Ando novamente numa fase destas. Não tão grave como noutros tempos porque está a acontecer apenas com livros. Continuo a ler revistas e, mesmo não estando concentrada como seria de esperar, pelo menos estou a ler. E tenho tantas em atraso que bem posso dedicar-me aos periódicos. Mas com os livros a coisa está meio parada. Parece mesmo que só quero é ver o livro acabado, ainda que não me esteja a apetecer muito viver o processo necessário para chegar ao fim. É estúpido, mas é mesmo tal e qual o que está descrito na imagem. Encontrei-a no Facebook há uns tempos e, somando-a à minha experiência e à da blogger que li e de que já falei, sou levada a crer que isto não é assim tão raro. 

Noutros tempos atribuí a culpa ao cansaço. Agora não tenho nada que culpar. Simplesmente o meu cérebro não está com vontade de dedicar-se com afinco a um livro. Parece que olha para ele e acha-o muito grande e muito cansativo ainda antes de pegar-lhe. É um cérebro leitor que mostra a sua vontade de parar um bocado, de olhar para outras coisas, de passear em vez de ler; de ir à praia em vez de ficar a ler; de estar a olhar para ontem em vez de prestar atenção às páginas de um livro. Isto acaba por passar, claro. Acho que o calor também não ajuda. Mas esta é mais uma das nossas peculiaridades. Adoramos os livros, adoramos ler, mas por vezes até este amor tem de ficar pendente porque não se consegue concretizar com a qualidade a que estamos habituados. Há males maiores, por isso pode conviver-se com este durante uns tempos. Ainda assim não posso deixar de pensar que tenho tanto para ler e que assim estou a perder tempo... 

Portanto, verão ali durante uns tempos os mesmos livros nas leituras que presentemente faço. Vou aproveitar a fase para dedicar-me às revistas já que parece que o meu cérebro está cansado de ficção, mas não de reportagens e de entrevistas. Espero, no entanto, que esta «peculiaridade» não dure muito tempo porque a biblioteca está sempre à espreita.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor X


Um leitor que tenha já uma biblioteca considerável acabará um dia por viver o mesmo problema que eu experimento desde ontem: o de um livro desaparecido. E sabe que é um pesadelo!

Tenho por aqui uma lista de livros em que há precisamente um livro no centro da acção. É difícil ser-se mais rato de biblioteca do que isto, mas je m’accuse: eu sou um grande, um enorme, um descomunal «fuçador«» de livros. Nada a fazer. Então ontem, um bocadinho farta de ler no Kindle, resolvi ir aos livros do moço e retirar de lá O Livro das Ilusões, do Paul Auster, um dos que consta da tal lista. Contudo, corri a prateleira de ponta a ponta mais de dez vezes e do livro nem sinal. Depois fui à antiga lista de livros do moço (ando a juntar os dele à minha para a coisa ser mais fácil) e ele constava da mesma, ou seja, o livro já existiu cá em casa e por cá deveria estar. Considerando que todos os livros desse autor estão juntos, que não havia motivo para separá-lo dos outros e que não foi emprestado, a questão que se coloca é: onde anda o danado do livro???

Estou farta de tentar puxar pela cabeça para reconstituir o rasto ao bicho, mas não há rasto possível: o livro devia estar na prateleira a menos que andasse a ser lido, coisa que não está a acontecer. E eu, como qualquer ratinho de biblioteca, já desejei que os livros tivessem microchip, que gritassem, que respondessem pelo nome, que se atirassem aos nossos pés... Enfim, já desejei uma série de situações muito «potterianas» e, portanto, impossíveis. Mas lá está: isto só acontece aos leitores. A angústia do livro sumido só apoquenta essa minoria da população que venera o deus Gutemberg e o cheiro a papel. Não conheço muita gente que queimasse os seus neurónios por desconhecer o paradeiro de um livro que tem de estar cá em casa (o moço gosta de Paul Auster e tem os livros todos, por isso é que a falta se tornou ainda mais evidente). Conheço até muita gente que se perguntaria como raio alguém perde tempo à procura de um livro em particular se tem tantos. Simples: para um leitor amante dos seus livros, eles não são todos iguais nem cada um é apenas mais um entre tantos. Um livro é um livro e há alguns que podem fazer-nos mais falta do que outros, mas todos têm de estar por perto, de preferência onde sabemos que os deixámos. Um pastor não gosta de perder uma ovelha e um leitor não gosta de livros tresmalhados. Principalmente quando são os que compõem as suas prateleiras. Por isso, esta é talvez uma das nossas maiores peculiaridades. Uns sofrerão porque não sabem de uns brincos ou de uma mala; nós sofremos por esses desaparecimentos e também pelo dos livros que ganham perninhas e vão fazer vida para longe da nossa vista.

Agora ando aqui em modo «Sherlock Books» (é primo afastado do «Holmes»). Vou olhando para as estantes todas (embora saiba que não pode estar em mais nenhuma porque sou eu que as organizo e  ainda não estou louca para separar um volume de todos os outros do mesmo autor), cirando pela casa a ver se o moço lhe pegou e o deixou por aí, esforço a memória visual para tentar recordar onde o vi pela última vez, procuro perceber por que razão nem o seu espaço vazio está na estante (o que explica que até ontem não tivesse dado pela sua falta), enfim, investigo, quase de lupa em punho. Para o que um leitor está guardado!

Notita: A imagem saiu daqui

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Peculiaridades de um leitor IX


Uma das coisas que influencia os leitores a comprar ou a deixar um livro para trás é a sua capa. Há capas lindíssimas (algumas delas até em livros muito maus) e há capas terríveis, demasiadas vezes em livros muito bons. Também há quem queira saber apenas do conteúdo do livro e conviva bem com qualquer capa. Porém, dos bons leitores que conheço, todos ficam eriçados como um gato zangado quando vêem uma capa feia num livro que queriam comprar.

Claro que, tirando as capas inequivocamente más como a da fotografia que acima coloquei (e que saiu daqui, onde há outras que vale a pena ver), este conceito de capa bonita ou feita é subjectivo. O que para uns é bonito, para outros é feio e será sempre assim ao longo dos tempos. Contudo, seja como for, a partir do momento em que eu, de acordo com os meus gostos, considero uma capa desajustada a um determinado livro, estou no meu direito de querê-lo ou não na minha estante. Já me aconteceu não comprar uma certa edição porque, por exemplo, tem na capa imagens da sua adaptação cinematográfica, uma mania que considero perfeitamente idiota. Principalmente quando se trata de clássicos, textos que sobreviveram ao tempo, datar as edições com imagens que provavelmente serão engolidas pelo mesmo tempo que consagra o livro é ridículo. Um filme é um filme, um livro é um livro e obrigar os leitores a conviverem com as caras dos actores que protagonizaram a adaptação mesmo quando já passaram trinta anos e já ninguém se lembra dela é, a meu ver, escusado.

Um leitor que se dirija a uma livraria sabe perfeitamente que o que verá em primeiro lugar serão as capas dos muitos livros disponíveis. Inicialmente esse é o elemento que os distingue uns dos outros. As outras diferenças vêem-se com uma análise mais aprofundada: a leitura da sinopse, das primeiras linhas do livros, de paratextos como o nome do autor e os prémios já recebidos (informações que costumam constar da capa e das cintas que por vezes acompanham os volumes). Quantas vezes na história do livro o design das capas de uma determinada edição ou colecção distinguiu e ajudou a tornar ainda mais conhecidos os próprios livros? Quem não recorda a especificidade dos livros da «Biblioteca de Babel», com autores e textos escolhidos por Borges? E a colecção «Vampiro»? E os famosíssimos romances da Livros do Brasil que, durante muitos anos, nos trouxeram clássicos que mais ninguém editava? E hoje, quem não reconhece à distância um livro da Tinta da China ou da Cavalo de Ferro? Quem não reconhece facilmente pela capa um livro da Quetzal? Ou da Relógio D’Água? É que se é verdade que os leitores ainda julgam muitos livros pela capa, então as editoras têm de ter um cuidado redobrado com elas. As capas deixaram de ser apenas aquele componente do livro físico que servia para proteger o miolo para passarem a fazer parte da identidade de uma editora. Cada livro publicado partilha com os outros da mesma chancela ou da mesma colecção, além do logótipo, alguns aspectos gráficos que fazem com que sejam facilmente identificáveis. Assim, as capas ganharam importância ao longo dos tempos. Inicialmente os livros nem as tinham. Havia uma página que funcionava como frontispício e onde surgiam informações como o nome do autor, o título da obra e a casa onde foi impresso. O efeito de protecção não existia e muito menos existia a componente publicitária que as capas hoje têm. Os livros eram comprados pelo que eram e pelo que se dizia sobre eles. Não imagino alguém no século XVII a não comprar o Quixote por não gostar do frontispício do livro... Os encadernadores ainda ganharam algum dinheiro com isto, pois quem o tinha pagava para encadernar faustosamente as edições que comprava. 

Há poucos anos não comprei um livro de Thomas Hardy por considerar que a capa parecia um misto de romance cor-de-rosa com um daqueles livros que têm muitas «Sombras». Prefiro encontrar um dia uma edição mais antiga, mas mais bonita do que conviver com aquela monstruosidade. Para muitos leitores isto é apenas uma mania parva, uma picuinhice. Contudo, para quem vê os livros como um objecto que vai além do texto que traz no seu interior, a capa faz diferença. É verdade que hoje existem belíssimas capas em tecido para protegermos os nossos livros e, se quisermos, escondemos as capas de olhos mais abelhudos. Todavia, o que queremos em primeiro lugar, é que os livros sejam bonitos, atraentes, e que não precisem de ser escondidos. O miolo é muito importante, mas assim como deixo de comprar um livro se a letra for demasiado pequena ou demasiado grande, também deixo de o fazer se a capa for terrivelmente idiota. 

No curso de Edição de Texto que fiz, um dos professores contou várias vezes o episódio que levou a que Lídia Jorge quebrasse o contrato com a Europa-América e tal deveu-se a uma capa que a autora considerou desajustada para um livro seu. O editor não terá tomado em conta esta opinião e insistiu na sua proposta. O caso foi para tribunal e assim a editora perdeu uma das autoras que mais vendia. Esta história foi-nos contada muitíssimas vezes para ilustrar a ideia de que a capa faz toda a diferença e que são muitas, mesmo muitas, as pessoas que se preocupam com elas, por serem precisamente as primeiras coisas que vêem quando encontram um livro à venda. São estas peculiaridades que levam as editoras a valorizar cada vez mais o design dos seus livros porque se elas querem vender, nós queremos comprar e com os livros, como com todas as outras coisas que se transaccionam comercialmente, os olhos também comem. E os dos bons leitores, ao contrário dos dos meros compradores, comem muito mais.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Peculiaridades de um leitor VIII

Li há pouco este artigo do The Guardian sobre gralhas que se tornaram famosas e, em alguns casos, extremamente valiosas. Já quando li o livro O Bibliófilo Aprendiz fiquei a saber que certas edições, precisamente pelos erros que escaparam, acabaram por tornar-se mais valiosas do que as que foram corrigidas.

Ora, acho que nisto das gralhas todos os leitores estão de acordo: preferem um livro que tenha pouquíssimas ou nenhuma. Inevitavelmente passa sempre uma ou outra, porém o problema começa quando de facto o livro está pejado delas ou quando as gralhas alteram o sentido do texto. Há uns anos, por exemplo, li O Monte dos Vendavais numa edição tão terrível que me livrei dela depois. As gralhas eram tais e tantas que chegavam a colocar personagens já mortas a conversar sentadinhas numa poltrona, numa clara troca de nomes. Está bem que o romance tem ali umas partes em que realmente parece andar por ali um espírito a fazer bater as portadas das janelas, mas o erro ia além disso e era inconfundível com qualquer elemento sobrenatural adicionado à história.

A primeira vez que li o Quixote, aos dezoito anos, foi inesquecível. Não só porque encontrei ali o MEU livro, mas também porque cheguei ao ponto de pegar num lápis e ir corrigindo as gralhas, que eram imensas. Para terem uma ideia, foram dezenas as vezes em que a palavra «urna» apareceu em vez do determinante artigo indefinido «uma». Está bem que graficamente até são parecidos, mas imaginem o significado que certas frases tinham...

Como disse acima, um leitor (e aqui nem precisa de ser dos melhores: basta mesmo gostar de ler) dispensa bem as gralhas que perturbam a leitura e que dão um ar desmazelado ao livro. Irritam ainda mais quando o mesmo nos custou mais dinheiro do que aquele que deveríamos pagar por livros, mas enfim. O trabalho de revisão devia, por isso, ser objecto de maior consideração. No entanto, a crise provocou o oposto e livros, jornais e revistas surgem pejados de erros que afligem os leitores e que conseguem mesmo, por vezes, afastá-los deles.

Ainda assim, certas gralhas, propositadas ou não, dão boas histórias. Quem leu o romance de Saramago História do Cerco de Lisboa recordar-se-á, certamente, da premissa que cria toda a acção. O revisor de um livro de História sobre a ajuda dos cruzados a Portugal na luta contra os mouros resolveu acrescentar a palavra «não» a uma frase, criando novos acontecimentos históricos e alterando para ficção aquilo que se queria real num livro de História. Ora, o próprio Saramago, que imaginou uma narrativa em torno de uma única palavra acrescentada às provas tipográficas, teria adorado estas gralhas referidas pelo The Guardian no já citado artigo: numa edição da Bíblia do século XVII, alguém fez o contrário e esqueceu-se da palavra «não» nos diferentes mandamentos. Assim, segundo aquela edição, matar, roubar, cometer adultério e cobiçar as coisas alheias passaram a ser permitidos e, inclusivamente, um dever. Essa mesma edição passou, por isso mesmo, a ser tida como «The Wicked Bible». 

Qualquer leitor detesta gralhas, mas acho também que qualquer leitor gostaria de ser dono de uma destas peculiares edições em que uma palavra muda tudo. O artigo do The Guardian refere outros exemplos curiosos que vale a pena conhecer. 

Por aqui recordo-me da gralha na contracapa da minha edição de Os Buddenbrook, de Thomas Mann, na qual está escrito que «Thomas Mann iniciou a escrita do seu primeiro romance - Os Buddenbrook - em 1986, com apenas 21 anos de idade, terminando-o cinco anos mais tarde.». Ora, Thomas Mann nasceu em 1875 e faleceu em 1955... Na altura a gralha irritou-me, mas agora até lhe acho graça. O resto do livro, felizmente, está livre de disparates assim e esta edição da Dom Quixote tem qualidade. Isto mostra-nos que, de facto, se de um modo geral dispensamos gralhas, em certas circunstâncias elas acrescentam qualquer coisa ao livro. Claro que quando até tomamos a iniciativa de pegar num lápis para as corrigir é porque a situação é ridiculamente desproporcional e prejudicial à leitura e compreensão do texto. Nem todas são como a celebérrima gralha da primeira edição do Memorial do Convento, na qual o autor, falando de música conhecida por Baltasar e Blimunda, a descreveu como «estridor operático», transformando-se isto em «escritor operário» depois da revisão. Quem sabe se o revisor pensaria no próprio Saramago ao realizar tal transformação no texto?...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peculiaridades de um leitor VII


Há dois tipos de leitores: por um lado, os que têm grande controlo sobre a sua estante e que conseguem ter uma lista relativamente pequena e comedida de livros por ler (às vezes até os têm bem contadinhos); por outro, os que querem lá saber se têm uma grande ou pequena fila de livros em espera e que compram mais e mais e mais e mais livros. Pertenço claramente ao segundo grupo.

Eu tento, tento, tento, mas não há maneira: basta cheirar-me a livros que eu vou, qual perdigueiro na caça! Ainda ontem, depois de tomar um simpático pequeno-almoço na Padaria do Bairro, vou a atravessar a estrada e bato com os olhinhos na Leituria. Lá fui eu e lá descobri os livros da colecção da quixotada anterior a um preço fofinho de mais para não virem comigo. Mais cinco, portanto.

Já passei por épocas com muito trabalho em que quase deprimia ao olhar para as estantes. Ficava até um bocadinho ansiosa por pensar que à velocidade a que lia, nunca conseguiria ler nem metade da minha própria biblioteca. Escolher o livro seguinte era, por isso, também motivo de ansiedade, imaginem só (acho que já perceberam que tive problemas de ansiedade, cortesia da minha antiga vidinha profissional). Agora, com mais tempo e uma cabeça mais tranquila, já não é bem assim. Leio mais do que um ao mesmo tempo e despacho-os à velocidade da luz. Como este ano resolvi dar uso ao Goodreads, sei o que já li e o que anda pendurado e a custar a engolir. O número de livros começados e terminados desde o início do ano já vai nas três dezenas, o que não me parece mal.

Mas estou a fugir ao tema. Conheço casos de quem só compra à medida que lê e que não quer ter livros parados na estante, eternamente à espera de que chegue a sua vez. Admiro o racionalismo dessas pessoas porque eu sou totalmente desprovida dessa capacidade. Sou mais uma espécie de lobo esfaimado dos livros. Não sei controlar-me assim. E nem sonham o gozo que me dá quando se fala de um livro (e mais ainda quando não é de literatura) e penso «Já tenho.», podendo por isso chegar a casa e lê-lo se assim o entender. No curso livre que frequento isso já aconteceu algumas vezes.

Quando era mais miúda, também tinha as filas de espera controladas e não gostava. Por isso relia muito. Hoje não o faço tanto porque sei que ainda tenho muito por ler e não preciso de ir repetindo leituras. Quando o faço é porque adorei mesmo o livro ou por motivos profissionais, problema que por agora não se coloca. Hoje não sou controlada porque tenho um grande apetite e mais ou menos variado, tanto que não posso ver uma boa oportunidade e passar ao largo. Há quem consiga. Há quem consiga não ir à Feira do Livro, por exemplo, porque tem ainda muito por ler em casa. Eu consegui comprar uns quarenta livros na Feira de 2016... Enfim, são novamente peculiaridades de leitores capazes de agirem de formas diferentes relativamente ao mesmo objecto. Há os descontrolados e os que seguram bem as rédeas da sua biblioteca. Esses são os que à típica pergunta «Mas tu já leste isto tudo?» podem responder que sim. Eu nunca o poderei fazer, a menos que me torne imortal.

Nota: A imagem saiu daqui.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Peculiaridades de um leitor VI


Emprestar livros. Duas palavras que, quando juntas, são o terror de muitos apaixonados pelos seus livros. Lembrei-me de falar disto porque na aula da semana passada, a professora que está a falar sobre o Se numa noite de inverno um viajante, do Calvino, falou sobre o facto de ter emprestado a sua primeira edição desse livro e de nunca mais o ter visto. Lembrou, a propósito, as sábias palavras de uma maravilhosa filóloga já falecida que tive como docente no meu curso, Maria Lúcia Lepecki: «Mas você não sabe que nunca se empresta um livro!». Concordo inteiramente com ela.

Abro algumas excepções: a minha mãe e a minha irmã. E fico por aí. Empresto-lhes porque sei que as vejo com frequência e que o livro volta (no caso da minha irmã corro o risco de ele ser tão bem arrumado que leva anos a reaparecer, mas pronto). Mas não empresto a mais ninguém. Isto perturba algumas pessoas que acham de um egoísmo enorme não permitir que outros leiam os meus livros e depois os devolvam. Mas vamos ver: já emprestei livros que não voltaram e outros que regressaram em mau estado. Cheguei a um ponto em que disse que bastava: não andava a comprar livros e a estimá-los tanto para depois não os voltar a ver ou reencontrá-los sujos e muito diferentes do estado em que os emprestei. Quem me conhece bem nem me pede livros emprestados (muito menos os Quixotes). Quem não me conhece assim tão bem distrai-se e solta um «A ver se me emprestas um livro para eu ler nas férias.». Nunca se concretiza.

Há, portanto, dois tipos de donos (e amadores) de livros: os que emprestam e os que se recusam a fazê-lo. Respeito os dois. O que não respeito é a mentalidade de tantas e tantas pessoas que se «esquecem» de devolver aquilo que pedem emprestado. Se alguém me empresta alguma coisa, devolvo o mais depressa possível. Aliás, até evito pedir coisas emprestadas precisamente para não sentir a pressão da devolução. Mas cada vez me acho mais um bicho raro porque me parece que eu e a minha mãe somos as únicas a pensar assim. A minha irmã disse-me há uns tempos que tinha ficado sem dois dos seus livros favoritos porque os emprestara sem que os devolvessem. Um deles está esgotadíssimo e nunca mais conseguiu um exemplar. Isto faz sentido? Para mim não.

Claro que tudo isto depende do grau de desprendimento que temos em relação às nossas coisas e eu sou muito picuinhas. Há quem não se importe assim tanto com o facto de o livro não voltar ou com a possibilidade de ele não regressar exactamente como foi. Afinal, os livros são para ler e não para adorar as suas páginas imaculadas. Contudo, eu não consigo ser assim. Acho que se me esforço para ter a minha biblioteca ideal, não mereço depois que alguém me desapareça com os livros ou que os trate mal. Provavelmente até paga o justo pelo pecador, mas infelizmente não vejo como possa ser de outra maneira. Abro as já referidas excepções e fico-me por aí.

A relação de um apaixonado por livros com a sua biblioteca pessoal é difícil de compreender e varia muito de pessoa para pessoa. Acho que um verdadeiro leitor cria com o objecto uma relação de empatia que dificilmente se repete. Tendemos a ter os livros de que gostamos e, por isso mesmo, custa-nos mais perdê-los. Não é justo que a perda surja precisamente depois de um acto generoso quanto o de emprestar um livro. Como no caso da minha irmã, em que emprestou os seus livros favoritos e foram precisamente esses que se foram. Imaginem-me a coleccionar Quixotes para depois ficar sem eles ou vê-los voltarem em mau estado. Acho que me tornaria numa pessoa violenta. Mesmo muito violenta.

Por isso não pude evitar sorrir quando ouvi citada a teoria da Prof.ª Maria Lúcia Lepecki, pois é também a minha há já muito tempo. Já cheguei a pensar que era mesmo má pessoa por não emprestar os meus livros, mas afinal não sou a única. Até os professores universitários vão chegando à mesma conclusão. Infelizmente, não podemos achar que todos são certinhos como nós e, como costumo dizer, «bondade a mais é burrice». 

E vocês, «quixoteiros», emprestam os vossos livros? Contem-me tudo. Falem lá das vossas peculiaridades enquanto leitores. 

Nota: A imagem saiu daqui.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Peculiaridades de um leitor V

A leitura, para os verdadeiros leitores, é um prazer que tem de repetir-se. Lemos como respiramos, como andamos, como fazemos qualquer uma das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia. É coisa de que sentimos falta quando, por algum motivo, ficamos impedidos de a praticar. E como prazer que é, não raras vezes vamo-nos a ele em várias frentes. Que quer isto dizer? Que em simultâneo lemos um, dois ou três livros, que lemos ainda umas revistas e uns jornais e o que aparecer pela frente. Ou então não e somos uns «monógamos» livreiros que mantêm a fidelidade à leitura do momento sem a misturar com qualquer outro texto.

De forma sucinta: nisto da leitura, há as pessoas que nunca lêem mais do que um livro ao mesmo tempo e há as que lêem os que lhes apetecerem, nem que sejam dois, três, quatro ou mais em simultâneo. Mais uma vez, nenhum método é melhor do que o outro. A leitura é muito democrática. É uma espécie de medicamento que se pode tomar de todas as formas possíveis, causando benefícios óbvios a quem usa e abusa desse tratamento. A leitura é quase uma panaceia que, se não cura, pelo menos alivia muito. E inquieta, também, mas de um modo salutar, pois faz pensar e crescer, e ser capaz de ver além da ponta do próprio nariz.

Mas voltemos ao tema: leitura única versus leituras múltiplas em simultâneo. Eu faço parte do grupo dos que lêem dois livros ao mesmo tempo. Geralmente não leio mais do que isso porque além dos livros tenho sempre várias revistas (algumas delas já atrasadas) na mesinha de cabeceira. Acabo por ir intercalando tudo. Muitas vezes, também, acontece-me andar a ler um livro, precisar de me deslocar e considerá-lo demasiado volumoso e pesado para desejar transportá-lo comigo. Nessas alturas dá-me sempre jeito estar a ler outro mais pequeno que se deixe levar mais facilmente sem ser responsável pelo deslocamento de um ombro. Há quem diga que quando lê mais do que um livro em simultâneo, acaba por misturar as histórias e as personagens de um e de outro volume. Não me lembro de alguma vez isso me ter acontecido. No fundo, acho que o treino dos anos de Faculdade num curso de Línguas e Literaturas ajudou a desenvolver esta capacidade (se é que se lhe pode chamar isso). Nas várias cadeiras de literatura que tinha num único semestre tinha de ler tantas obras literárias em simultâneo que precisava de desenvolver «compartimentos estanques» no meu cérebro para não confundir o Moby Dick com o Austerlitz, nem O Anjo Ancorado com Os Pequenos Burgueses. Não me dava muito jeito confundir as Memórias Póstumas de Brás Cubas com As Memórias de João Miramar. Por isso, mesmo que antes de dormir lesse um bocadinho de um e um bocadinho de outro, tinha sempre de arrumar tudo muito bem arrumadinho na minha memória. Sempre o consegui com facilidade, felizmente. Agora já ninguém me obriga a ler vários livros ao mesmo tempo, mas continuo a fazê-lo de vez em quando porque quero. 

Claro que compreendo quem gosta de dedicar-se a apenas um livro de cada vez. Já aqui disse que na leitura tudo (ou quase) é possível. São escolhas. Até pode ser não porque temam misturar histórias, datas, personagens, mas sim porque gostam de manter a concentração num único livro, pensar apenas nas questões que ele suscita e, quando o acabam, passar ao próximo quando apetecer, sem pontas soltas. Às vezes também me apetece ser assim e nessas alturas leio um único livro (quando muito intercalo com revistas), noutras vezes apetece-me ser «assado» e ando com dois volumes debaixo do braço, lendo meia dúzia de páginas de um e meia dúzia de páginas de outro. É para onde me dá.

Depois há, infelizmente, os que não lêem nem um, nem dois, nem três: enfim, os que não lêem mesmo nada. Mas desses não reza a história porque aqui fala-se das peculiaridades dos leitores e não dos que ainda não começaram a sê-lo. Esses não perdem tempo com livros, o que é uma pena. Não sonham o que perdem.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Peculiaridades de um leitor IV

Os vossos comentários a esta série de quixotadas a que pomposamente chamei «Peculiaridades de um leitor» têm-me feito pensar noutras particularidades de que falar. Ou seja, o vosso contributo, mesmo que nem dêem conta de que estão a dar-me ideias, é fundamental. Aquilo de que vou falar hoje nasce, precisamente, de um dos comentários que foi feito neste blogue, que desde já agradeço.

Todos nós temos as nossas manias para tudo na vida. Não apenas para a leitura e para os livros, mas para outros aspectos. Fazemos as coisas à nossa maneira, como nos dão prazer, mesmo que aos olhos dos outros soem a picuinhices. Para nós tem de ser assim e é importante manter esses hábitos. Quebrá-los pode até causar-nos alguma instabilidade. Mas, enfim, aquilo de que vos vou falar pode ser tanto uma mania quanto um método de leitura em que uns agem de uma maneira e outros de outra. Trata-se da leitura de uma obra que se divide em diferentes volumes.

Uma coisa que as editoras portuguesas adoram fazer, já o disse neste blogue, é partir livros em volumes. Isso faz com que cheguemos a Espanha ou ao Reino Unido e encontremos livros de mil páginas e aqui não. Aqui divide-se em volumes e geralmente pagamos bastante bem por eles. Ora, é fácil perceber que partir um livro em diferentes tomos tem influência sobre a nossa leitura. Reparem: se eu transportar comigo todo o livro, por exemplo, quando vou para o trabalho (como eu fazia, lendo nos autocarros), provavelmente só o devolverei à prateleira quando o terminar. Porém, se o livro estiver dividido em volumes, posso chegar ao final do primeiro, arrumá-lo na prateleira e não pegar imediatamente no segundo. Fazer uma pausa, respirar entre a leitura dos tomos da mesma obra. Raramente o fazemos durante a leitura de um livro que só tem um volume e quando o fazemos é sinal de que não estamos a gostar lá muito.

Portanto, perante obras divididas em volumes há duas maneiras de agir: ler todos os livros de uma assentada ou ler um volume, depois outro livro que não tenha nada que ver, voltar ao segundo volume, depois tornar a ler outra coisa. Enfim, ou assumimos a leitura da obra como uma missão a cumprir e não permitimos que nenhuma outra se interponha no caminho até à página onde tudo termina, ou vamos lendo os volumes ao sabor da vontade, descansando das personagens e lendo sobre outras noutros livros ou mesmo lendo livros de outros géneros.

Aqui me confesso: sou do segundo tipo. A obra pode ter mil páginas que eu aguento e leio-a de seguida, mas se estiver dividida em volumes raramente pego no segundo logo a seguir ao primeiro. A psicologia deve explicar isto, porém eu não sei fazê-lo. É como se precisasse de respirar entre os volumes. É disparate? É. Esqueço-me de pormenores entre o primeiro e o segundo volume quando passa muito tempo entre a leitura de um e do outro? Sim. Chegam a passar-se anos até pegar no segundo volume? Sim. E se a obra tiver mais do que dois volumes? Nem vos conto... É uma vida até a acabar. Foi assim com O Manuscrito Encontrado em Saragoça, cujo segundo volume ainda me aguarda; foi assim com A Família Forsyte (faltam dois volumes); foi assim com Os Pilares da Terra (em que não pegarei mais porque aquilo é uma porcaria). Enfim, são peculiaridades de um leitor, as tais que fazem com que todos sejamos diferentes mesmo quando fazemos a mesma coisa. Reparem: ler tudo de seguida não significa que a leitura seja uma obsessão, nada disso. Proceder de um ou de outro modo tem que ver, apenas, com uma maneira particular de organizar as coisas na nossa cabeça. Ler tudo de seguida significa que toda a obra ficará arrumada no nosso cérebro de forma, talvez, mais consistente, sem grande perda de pormenores. Lemos tudo e só paramos mesmo no fim, ficando desde logo com todo o conhecimento sobre o texto e com a possibilidade de o criticar na totalidade, de falar dele sabendo exactamente o que dizer. Mais: podemos dizer com toda a razão que lemos a obra A ou a obra B inteira. Ao lermos os volumes como eu, perdem-se algumas coisas pelo caminho, até porque pelo meio se vão cruzar outras leituras. Os momentos da vida em que vou ler um ou outro tomo também vão ser diferentes e isso, como vos disse ontem no texto sobre Os Maias, também influencia a nossa relação com o texto.

O que mais uma vez importa é que não há uma maneira certa ou errada de ler uma obra dividida em volumes. Há aquilo que nos deixa confortáveis. Eu fico confortável dando um tempo entre as leituras, mesmo que isso signifique ter uma experiência que deixará de fora pormenores que, inevitavelmente, serão esquecidos. Na leitura é isso mesmo que interessa: conforto. Temos de estar bem. Ler num banco de pedra também não é o mesmo que ler na esplanada ou na cama. Ler no autocarro não é o mesmo que ler numa espreguiçadeira à beira da piscina. Todos estes factores influenciam a nossa leitura e o conforto não tem apenas que ver com o sítio onde o nosso rabiosque está pousado enquanto lemos. Tem que ver com muitas mais coisas e é fundamental para que continuemos sempre a ser leitores.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Peculiaridades de um leitor III

No mundo há dois tipos de leitor: os que fazem o culto do livro e os que o vêem como um objecto que se usa e que enquanto é usado é para ser vivido e não adorado. A coisa ilustra-se mais ou menos assim: os primeiros são os que têm capas para pôr o livro que andam a ler, que marcam a página com marcadores, que o guardam muito bem para que, Deus nos livre!, alguma coisa lhe aconteça e o deixe definitiva e tragicamente marcado; os segundos são os que fazem «orelhas de cão» (nome dado às dobras feitas no canto superior para marcar a página em que vamos) nas páginas, os que não têm problemas em sublinhar, tomar notas, que enfiam o livro que andam a ler dentro de sacos e malas cheias de tralha, sem capas, sem nada.

Durante muito tempo achei que este segundo modo de agir com os livros é próprio de quem não os adora. Agora já acho que não é bem assim. Há muitas maneiras de gostar de um objecto. Há quem prefira viver quase da contemplação do mesmo e há quem, pelo contrário, queira experienciá-lo, vivê-lo. Para uns as marcas na capa ou nas páginas são motivo para uma apoplexia, para os outros são marcas de guerra que mostram que aquele volume não viveu apenas trancado na biblioteca: saiu, apanhou ar e exibe gloriosamente as suas cicatrizes. Podemos censurar uns ou outros? Acho que não. A relação com os livros é muitíssimo pessoal. Creio até que não haverá duas relações iguais porque, cá está, essa relação constitui uma das peculiaridades de cada pessoa enquanto leitor. E mesmo o mais cuidadoso dos leitores, como eu, tem um ou outro volume na biblioteca que foi manuseado mais vezes, lido com mais paixão e que exibe algumas marcas dessas leituras. Muitas vezes, mesmo esse leitor cuidadoso exibe esse volume com orgulho, mostrando que se ele está assim é porque foi o seu fiel companheiro de uma determinada viagem, ou porque esteve consigo muitas vezes ao longo da vida... E também os que fazem «orelhas de cão» nos livros podem ter um ou outro volume que estimem com particular cuidado, ou porque foi oferecido por alguém especial, ou porque é antigo, ou porque foi muito caro, ou porque é uma edição rara... 

Enfim, há dois tipos de leitores, mas acredito que todos nós conseguimos ser um bocadinho de um e bocadinho do outro, dependendo do livro em questão e das circunstâncias em que nos encontramos. Eu pendo mais para os extremamente cuidadosos. Quero os livros imaculados. Mas depois também não deixo de achar uma certa graça quando a lombada começa a ficar quebrada em virtude de ter aberto o livro tantas e tantas vezes. Essas marcas provam que ele me passou verdadeiramente pelas mãos, que «foi» e que não se limitou a «estar». E isto leva-me a crer que nós, os leitores, somos uns seres muitíssimo complexos e que a relação entre as pessoas e os seus livros é muito maior do que aquilo que num primeiro momento poderíamos julgar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Peculiaridades de um leitor II

Leitor que é leitor e que quer ter livros seus e não ler apenas livros emprestados por amigos ou pela biblioteca passa a vida inteira a juntá-los pelas estantes fora, de forma mais ou menos desorganizada e desorientada. Mais ou menos disse eu. Porque, por vezes e ainda que não pareça, existe uma lógica naquilo que vamos comprando. Um livro sugere outros; uma revista levanta questões sobre um tema e corremos a arranjar material sobre ele; um jornal apresenta uma crítica que nos deixa de orelha em pé. Enfim, há várias formas de descobrir novos títulos para acrescentar aos que já temos. E o que se segue é, frequentemente, bastante estranho...

Hoje acordei muito cedo e mudei-me da cama para o escritório. Ao olhar para as estantes, bati o olhinho num romance de Salman Rushdie que me ofereceram no ano passado. Continuei a percorrer as prateleiras com os olhos e, elém desse Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, vi Os Filhos da Meia Noite, encontrei Shalimar, o Palhaço, o Grimus, O Chão Que Ela Pisa, vi também Luka e o Fogo da Vida, Harum e o Mar de Histórias, encontrei o Oriente, Ocidente e ainda os romances Fúria, O Último Suspiro do Mouro e A Feiticeira de Florença. Nada mau para quem começou a comprar estes livros quando, há uns dois ou três anos, leu no Kindle as memórias do autor, livro intitulado Joseph Anton.

Ora, nessas memórias, que ganham o título através do nome falso adoptado por Salman Rushdie quando teve de viver na clandestinidade de forma a tentar escapar da absurda ameaça de morte que pairava sobre ele devido à fatwa lançada em forma de punição pela publicação de um dos seus livros, percebemos que o romance Versículos Satânicos foi o gatilho que levou a que a sua vida ficasse totalmente virada de pernas para o ar. O livro foi considerado blasfemo e ofensivo para com o Profeta Maomé e, por isso, o líder do Irão lançou sobre o autor uma fatwa para que ele fosse assassinado. Durante anos, mais do que seria imaginável, Salman Rushdie viveu escondido, mudando de casa para casa, sem poder viver uma vida normal, com medo do que lhe pudesse suceder e aos seus. Supreendentemente, escreveu bastante neste tempo. Quando li as suas memórias, fiquei tão entusiasmada com a sua vida e com a capacidade de escrever mesmo na adversidade, de ter grandes ideias mesmo quando confinado a quatro paredes, de não sucumbir à pressão e, sobretudo, de ter escrito uma obra capaz de enfurecer assim alguém, ao ponto de mobilizar outros para a causa «eliminar Salman Rushdie da face da terra», que desatei a comprar os livros dele que me faltavam (na altura só tinha mesmo o famoso Os Filhos da Meia Noite).

E agora chegamos à tal peculiaridade de um leitor que, neste caso, sou eu. Se voltarem à lista de livros do Salman Rushdie que tenho, e que não é propriamente pequena, deparar-se-ão com uma importante e estranha lacuna. Eu gostava de vo-la explicar, gostava muito, mas acho-a tão desmesuradamente ridícula que não há nada que possa justificá-la. A falta do livro mais importante, mais destacado, mais falado de um autor é qualquer coisa de bastante idiota. Mas acontece cá em casa. Enfim, peculiaridades...


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Peculiaridades de um leitor I

Ando há uns dias a «mastigar» esta quixotada, mas depois acabo por escrever sempre outra coisa e outra e outra e, olhem, escapa-se-me sempre o tema. Mas hoje vai e ao pensar a fundo nisto, acabei por concluir que é coisa para mais do que um texto. Isto porque aquilo que «mastigava» era apenas um fenómeno que ocorre no mundo dos livros. Contudo, pensando em fenómenos destes e, por extensão, em peculiaridades dos leitores, verifico que não têm fim. Vai daí e olhem, nasce mais um conjunto de quixotadas devidamente numeradas e pomposamente chamadas (que cacofonia vai para aqui. Leiam em silêncio, sim?) de «Peculiaridades de um leitor». Atenção que este «leitor» não sou necessariamente eu. Somos todos nós, seres de carne e osso com manias no que à leitura diz respeito, mas também personagens que nos livros têm as suas próprias manias enquanto seres leitores. 

Esclarecidos que estamos, vamos a isto. Segue-se a primeira peculiaridade.

Há uns anitos apercebi-me de que estava à venda uma edição do Quixote com um pomposo desconto. Não que me interessasse muito, uma vez que já a tinha. O que me chamou a atenção foi o facto de, dos dois volumes que compunham a edição, só o segundo estar à venda. O primeiro estava esgotado. Perante o meu espanto para com a situação (já que não via grande utilidade no desconto do segundo volume se o primeiro, o que continha o início da história, não estava disponível), o livreiro veio em meu auxílio e explicou-me a razão que justifica tantos «volumes dois» e nenhum dos volumes anteriores. Faz todo o sentido: quando sai uma edição, composta por mais do que um volume (saiam eles em simultâneo ou não), as pessoas optam geralmente por comprar apenas o primeiro volume para ver se gostam. O que parece, a julgar pela quantidade de segundos e de terceiros volumes que andam alegremente por aí, é que muitos não regressam para adquirir os volumes seguintes. Ou porque o primeiro não lhes agradou, ou porque nunca chegaram a lê-lo, ou porque a disponibilidade financeira não o permitiu, ou porque se esqueceram... Enfim, há muitas explicações para o fenómeno. A verdade é que raramente somos obrigados a comprar os diferentes volumes de uma só vez. A maioria dos livros de que me lembro que são compostos por múltiplos tomos é posta à venda em separado, o que permite que isto aconteça.

Ora, o fenómeno está explicado. Agora vem a parte que irrita os outros leitores: cruzam-se com um livro espectacular, maravilhoso, mesmo a pedir para ser levado para casa. Resolvem ceder à tentação, mas apercebem-se de que o menino é um segundo volume. Pensamento seguinte: onde está o primeiro??? Falam com o livreiro e ouvem [em lágrimas] que está esgotado. [Soltam um grito lancinante que nasce bem lá no fundo das vossas entranhas, mas que não se aguenta quando se trata de livros]. Agradecem ao funcionário e, geralmente, optam por um dos seguintes caminhos: ou compram o segundo volume e seja o que Deus quiser; ou pousam o segundo volume e seguem com a vida. Já tomei a segunda opção muitas vezes. Por acaso na última vez em que me aconteceu, fiz o contrário. Foi com As Mil e Uma Noites, da Quetzal. Encontrei num alfarrabista os volumes dois e três em excelente estado e por um bom preço. Não consegui deixá-los lá, até porque considerava que seria fácil encontrar o primeiro. Pois, só que o primeiro estava esgotadíssimo em todo o lado. Até em grupos de procura de livros no Facebook tentei consegui-lo. Tentei tudo: OLX, Custo Justo, livrarias grandes e pequenas... Sempre esgotado. Valeu-me um amigo que, curiosamente, também tinha a colecção incompleta em casa (tinha, precisamente, os dois primeiros volumes) e que mo deu [Filho, estou-lhe eternamente grata. Não se esqueça de guardar a sobrecapa do dito, que ainda se me enregela o pobrezinho!]. Lá ficou a colecção completa e feliz.

Agora, para terminar que parece que não há quixotada que não me saia um testamento, fica o apelo aos senhores das editoras: eu sei que o primeiro volume não pode ser feito às toneladas porque vocês ainda não sabem se vai vender ou não, mas dava para depois fazer mais uns quantos? É que isto é como os sapatos de números mais pequenos: são sempre os primeiros a ir embora e depois a pessoa tem de ficar com o desgosto de nunca poder comprar o sapatinho mais bonito, mas apenas a pantufa horrorosa que ninguém quis. Quando virem que a coisa vende, façam lá mais umas centenas de exemplares do primeiro volume. Eu sei que este pedido não tem jeito nenhum do ponto de vista económico, mas que querem? É o desespero de uma leitora a falar mais alto.