segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXVII

É incrível ainda conseguir encontrar clássicos que não moram nestas estantes. De vez em quando olho para elas e penso que já cá estão todos. Até me esqueço que o mundo dos clássicos é vasto, ainda que consista nos produto de uma escolha feita pelos leitores ao longo do tempo. Bem, este que a menina quer e pensava que tinha (mas que estava a confundir com o A Invenção de Morel), é um clássico da ficção científica, escrito por um dos maiores desse género. A menina quer isto, portanto:


Nota: A imagem saiu, como se vê, da página da Wook. 

O lápis azul que agora é preto

Teria eu uns catorze anos quando um colega de escola me emprestou um livro que consistia na autobiografia de um adolescente qualquer (não me perguntem o que fez o autor de especial para escrever uma biografia na adolescência porque não me lembro). Termos como «punheteiro» apareciam a torto e a direito, além de outros de que já nem me recordo. Li o livro e estou viva.

Muito antes disso, li, por vontade própria, o livro Os Filhos da Droga, onde além de descrições sexuais, são muitas as descrições violentas relacionadas com consumo de drogas, mortes por overdose e outros problemas, também eles vividos na adolescência de alguém. Li-o talvez com uns doze anos e ainda ando por cá.

Como estes exemplos, existirão outros. Se puxasse mais pela memória, talvez lá chegasse. Mas já me passaram pelas mãos tantos livros que é impossível lembrar-me de todos. Lembro-me de, novinha, ter lido um policial que tinha, em determinado momento, um conteúdo sexual também muito explícito. Uma vez mais, sobrevivi.

Mas isto tudo a propósito de quê? No sábado passado foi notícia no Expresso a enorme indignação dos encarregados de educação do oitavo ano do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, devido à obra escolhida para ser lida no âmbito da disciplina de Português. O livro em causa é o romance O nosso reino, de Valter Hugo Mãe. O problema dos pais? Algumas páginas com uma linguagem vulgar. O semanário cita alguns exemplos que reproduzirei aqui: «E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma porca que fode com todos os homens e que mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.»; «maricas não é ter medo, isso é medricas, maricas é meter coisas no cu». Antes de avançar, deixem-me dizer-vos que este livro «retrata o dia a dia de uma criança de oito anos numa época marcada pelo final do Estado Novo, pela repressão sexual e religiosa e pelas mudanças da Revolução dos Cravos». A leitura deste livro foi decidida pelo Departamento de Português da escola citada e os professores consideram que a ideia era abordar com os alunos questões de língua, memória, narração e “prepará-los” para autores como Gil Vicente e José Saramago, em anos posteriores». Os pais não estão pelos ajustes, mesmo sabendo que a obra está (ou estava...) nas listas do Plano Nacional de Leitura e que, portanto, a escolha dos professores não saiu de um sonho louco, mas sim de um documento oficial que ajuda a orientar professores e alunos relativamente às leituras a fazer em cada nível de escolaridade.

Contudo, meus caros, o melhor ainda está para vir. Os pais ficaram muito indignados, duas mães dizem que «Os miúdos de 13 anos ainda não têm maturidade para compreender esta linguagem». Dizem que as palavras presentes no livro são «inqualificáveis», «violentas» e «inapropriadas para alunos de 13 e 14 anos». Vai daí e como a escola tomou a admirável decisão de manter a leitura do livro no oitavo ano (eis a diferença entre a escola pública e muitos colégios privados: estes últimos provavelmente ajoelhar-se-iam perante os pais e demitiriam os responsáveis pela escolha da obra), os encarregados de educação tomaram também as suas decisões: «umas proibiram os filhos de ler a obra; outras recorreram à técnica do “lápis azul”. “Eu, na minha liberdade de mãe, estou a fazer como a censura. Risquei as partes polémicas a preto.”».

Eu quero acreditar que estes querubins do oitavo ano nunca viram um filme com conteúdos pouco adequados à sua idade, sejam eles pela violência das imagens ou do vocabulário. Ou que não jogam, por exemplo, GTA. Eu quero acreditar que estamos a falar de meninos sem acesso à internet ou com um bloqueio parental ao nível de um Pentágono. Eu quero acreditar que estes adolescentes do oitavo ano têm uma caixa de areia em casa onde todos os dias enfiam a cabeça para não sonharem com o que de menos cor-de-rosa existe no mundo. Eu quero acreditar, mas não acredito. E quando leio que alguém, que nem sequer é professor, leu o livro antes do filho só para poder riscar a preto tudo o que o menino ou a menina não deve ler, arrepio-me toda. 

Vamos ver: a pensar assim, esta pessoa vai ter de riscar também o Auto da Barca do Inferno e a Ilha dos Amores n’Os Lusíadas. Ora, essa última acção era precisamente uma das que o Estado Novo praticava e que impediu muita gente de ler, nas escolas algumas das passagens mais interessantes e importantes da nossa epopeia. Acredito que um pai ou uma mãe apanhados desprevenidos de repente com um livro com este tipo de vocabulário apanhe um susto. Mas depois deve pensar no assunto e perceber que se TODO um departamento de professores escolhe tal obra e que se ainda por cima esse título está nas listas que legitimam a escolha, então é porque saberão o que estão a fazer. Quem não ensina não sabe (embora toda a gente se julgue um professor em potência, o que é uma enorme prepotência e uma ainda maior estupidez), mas há muitas maneiras de abordar uma obra. Obviamente, a questão da linguagem tem de ser discutida, mas de um ponto de vista didáctico. Talvez seja bom começar por perceber por que motivo falará a personagem daquela maneira. Quais as suas características que justificam aquelas palavras e as ideias que veiculam? O que pretendeu o autor mostrar com este aspecto da linguagem, relacionando-a com todo o conteúdo da obra? Mas não: é muito mais fácil proibir a leitura ou, melhor ainda, permitir que o filho leia o livro, embora retalhado pelos cortes feitos a tinta preta. 

Não sei em que mundo os pais vivem. Mas o mundo que eu conheço enquanto professora (e sempre do ensino privado, ainda por cima), mostra-me que os alunos do oitavo ano conhecem este vocabulário e algum ainda pior. Mostra-me que dominam a internet como mestres e que, tendo tempo para isso, vêem nela o que devem e o que não devem. Mostra-me que, muitas vezes, falam com os professores e contam que foram com os pais ver este ou aquele filme que não é, de todo, para a sua idade. Não indo mais longe: tive muitos alunos que foram ao cinema ver o filme Deadpool, que era para maiores de dezasseis. Ora eles eram alunos do sétimo ano, estando por isso muito, mas muito longe da idade necessária para ver o filme. Quem os levou ao cinema? Os pais. Eu vi o filme, sei o que por lá se diz e faz. Mas claro que os alunos do oitavo ano do Liceu Pedro Nunes não vêem este tipo de coisas.

Em resposta à polémica, o escritor Valer Hugo Mãe diz, com alguma graça, que não se lembra de o seu livro ser «assim tão escabroso e tão explícito» e que não lhe ocorre «ter usado uma perversão tão grande que represente a morte do Pai Natal». 

Mais do que a linguagem, que é perfeitamente tratável na sala de aula e que não representa todo o livro, sendo apenas um dos elementos que o constitui, choca-me a reacção das famílias e, mais ainda, este retalhar da obra literária para que o adolescente a possa ler sem as partes que a mãe considera chocantes. Porém, onde pode parar a caneta preta? Se a escolha dos professores pode ser posta em causa pelos pais, quem põe limites ao que uma mãe censura ou não? Que leitura, que obra sobra depois de a caneta preta actuar? Onde está a confiança na escola e na capacidade de os docentes encontrarem uma forma de abordar o texto sem dar todo o ênfase do mundo à questão da linguagem? Não conseguiram estes pais exactamente aquilo que não queriam: dar todo o destaque às palavras menos bonitas e às ideias que elas constroem? Não terão sido os encarregados de educação com esta desproporcionada indignação os responsáveis pela redução de uma obra literária a duas páginas (segundo o Expresso) em que as palavras descrevem ou relatam algo que existe, mas que não costumamos mencionar assim? Eu acho que aqui se aplica bem aquela frase que diz «O que eu temo eu crio.» e, mesmo sem querer, estes pais conseguiram que, provavelmente os meninos agora só queiram mesmo saber o que diz nestas páginas do livro. Que ignorem o resto. Mas mais ainda, gostava de saber se o aluno cujo livro deve estar riscado a preto, não correu já a pedir o livro de um colega emprestado no intervalo para poder ler, avidamente, aquilo que tanta polémica gerou e que a mãe, tão candidamente, riscou.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Olá, bem-vindos, meus lindos!

Olá, podem entrar e encontrar lugar na estante... Mas boa sorte com isso, está bem? De qualquer modo sejam bem-vindos.



Nota: As imagens saíram da página da Wook. Mas o livro do Churchill surge lá como esgotado.

Manuais escolares e misérias

Ontem percebi que há um manual de Português do 11.° ano que introduz o estudo de um capítulo do Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, com uma frase do senhor Pedro Chagas Freitas, retirada de um livro seu chamado Prometo [não me lembro do resto, mas não é importante]. 

Quase daí da cadeira. Isto está ao nível da heresia. A sério, senhores da editora?! De todo o material que há no mundo para falar de heróis, só vos ocorreu uma frase desse senhor para colocar num manual escolar?! Quando eu estudava, os livros estavam pejados de frases de clássicos para comentarmos ou então traziam excertos de críticas literárias com a mesma finalidade. Mas daí a ir buscar o Pedro Chagas Freitas para tentar explicar o que é um herói antes de apresentar aos discentes as façanhas de Simão Botelho na novela camiliana vai um passo de gigante. Já estou a imaginar que na unidade seguinte, quando o Carlos da Maia se enfiar na cama com a irmã, o momento de amor será introduzido por um excerto das Cinquenta Sombras de Grey, e os alunos imaginarão um Carlos dominador e uma Maria Eduarda muito virginal a entregar-se ao doido das coisas sado-maso. E assim, na loucura, quando estudarem Antero de Quental e Cesário Verde e os seus cenários muito escuros, muito locus horrendus, muito nocturnos, feios e abjectos por vezes, saltam de lá uns excertos do Crepúsculo e similares, com lobisomens a uivarem à lua, pedindo-se aos alunos o paralelismo entre o ambiente nocturno em que se movem o vampiro e o lobito adolescente apaixonados e o sujeito poético dos poemas "Nox" e "Cristalizações". Deus me valha.

Adenda: E não me venham com a história de que é uma forma de incentivar a leitura, através de paralelismos com materiais contemporâneos que continuo a ter a certeza de que há por aí bons autores portugueses que já falaram de heróis e que não são o Pedro Chagas Freitas com os seus livros cheios de modus vivendi para pessoas precisadas. A escola tem a obrigação de apresentar aos alunos o que de melhor se encontra para que depois eles, já fora do ensino, decidam se é esse o caminho que querem continuar a trilhar na busca do conhecimento ou se, por outro lado, preferem não ler nada ou ler o que não presta. O que depois fazem é com eles, mas a escola tem de lhes dar o que é inequivocamente melhor. E as editoras deviam colaborar com as escolas e não fazer manuais que deixam muito, mas muito a desejar. Isto já parece aquela altura em que para ensinar aos alunos o que era um regulamento, uma editora optou por colocar num manual escolar o regulamento do Big Brother

Medo.

O Roberto - parte 3

A noite passada foi noite de Roberto. Para quem não sabe o que raio é isso, vão ver as quixotadas do dia 13 deste mês, que eu agora não consigo deixar-vos aqui o link. Bom, mas para quem já conhece a história, saber que foi noite de Roberto é saber que foi uma noite muito "animada". 

Começou o fandango por volta das onze e quarenta e cinco. "Roberto, deixa-me falar! Roberto, eu estou a falar!!!", assim com uns decibéis que fariam inveja aos pregoeiros da Lotaria Clássica do Natal. Um berreiro desatinado e lá estava a maluca do Roberto a tentar que o tipo sossegasse do outro lado e a deixasse dizer o muito que lhe ia na alma. O problema é que cada vez que ela tem "muito a ir-lhe pela alma" quem se lixa sou eu. Desta vez o moço também ouviu e até teve sorte porque esta noite a sessão de Roberto foi em todo o seu esplendor. Pena tive eu de não ter em casa um balde de pipocas: tinha dado jeito às três da manhã quando a menina surtou.

Sim, isso mesmo: surtou. Ora, depois de estar ali em conversações unilaterais com o seu Roberto quase à meia-noite e até já estarmos no dia de hoje, lá se calou. Não sei se saiu ou se simplesmente desligou o telefone, mas a verdade é que deixámos de ouvi-la cá em casa. Eu avisei o moço: prepara-te porque de madrugada há mais. E houve, de facto. Às duas e meia acordo estremunhada com o mesmo berreiro de antes: "Roberto, eu estou a falar! Roberto, eu estou a falar! Roberto!!!". Mas nem eu, já quase doutorada em "Roberto", podia prever o que se ia seguir. Bom, a menina tanto disse que estava a falar, tanto o mandou calar, tanto subiu os decibéis para fazer-se ouvir que, olhem, à falta de melhor descrição, só posso dizer-vos que "explodiu". Desatou a gritar histericamente, a bater em coisas ou contra as paredes, não percebemos bem, a chorar convulsivamente, como se lhe tivesse morrido a mãe. E nós ali, às escuras, de olhinhos abertos, a imaginar que com aqueles gritos ela iria com certeza transformar-se num Super-Super-Guerreiro (alguém se lembra do Dragon Ball?!). Eu gostava mesmo que vocês ouvissem, porque contado é muito difícil de acreditar. Aqueles nervos devem estar mais esburacados que os naperons que a minha mãe fazia nos idos de oitenta! Uma reacção assim a uma conversa telefónica é própria de alguém que já deixou a sanidade mental atrás e que se dirige a trote para a loucura. Aquilo que posso imaginar é que qualquer pessoa normal e com dois dedos de testa desligaria o telefone, mandaria o Roberto às urtigas, arranjaria outro bem melhor e pronto. Mas ela está definitivamente presa naquilo e, se dúvidas houvesse, o ataque de gritos agudos e descontrolados acompanhados da porrada no que lhe aparecia pela frente, prova bem que a criatura já entregou o juízo ao criador. 

Depois pus-me a pensar (e tive bastante tempo para isso, já que a madame nos deixou sem dormir até mais ou menos às quatro horas da manhã): para fazer aquela chinfrineira toda, provavelmente a moça mora sozinha. Assim sendo, será, com certeza, maior de idade. Ou seja: já não é uma adolescente de quinze anos para quem o namorado é tudo na vida e sem ele nada interessa. Mas esta criatura deve ser uma "maior de idade" que permaneceu menor de idade dentro da cabeça. Já nem falo da falta de respeito que revela para com as pessoas que vivem nos apartamentos em volta e que perdem horas de sono a aguentar uma discussão absolutamente infantil e idiota. Falo até mais do pouco amor próprio que esta alma tem para passar horas a tentar que o seu Roberto a escute (coisa que não me parece que ele queira fazer) e que se deixe chegar ao limite de tal maneira que precisa de deitar tudo para fora em forma de gritos e murros à esquerda e à direita. É doentio.

Mas, enfim, infelizmente não sei onde ela se encontra. Calculo que seja no prédio ao lado, mas não tenho a certeza e muito menos sei em que andar vive. Nem conheço a cara dela. Se soubesse onde mora, esta noite tinha-lhe enviado a polícia a casa para acabar com aquela palhaçada toda. De preferencia devia enviar-lhe os médicos do Júlio de Matos e três ou quatro coletes de forças (no estado em que ela está, duvido que um seja suficiente) e mordaças, mas pronto. Acho que mais do que mostrar-lhe que incomoda a vizinhança, estaria a fazer-lhe um favor. A ela e ao Roberto que, a julgar pela quantidade de "Roberto, eu estou a falar!", também já deve estar fartinho de a ouvir. E graças à menina e aos seus nervos mal domados, hoje moram cá em casa dois zombies, cada um mais ensonado do que o outro. Já bebi uma caneca de café e não sinto efeitos. Isto hoje promete.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O acordar dos felinos cá em casa

Esta é a minha tentativa para descrever o acordar dos felinos cá de casa. Na realidade, tudo acontece às cinco e pouco da manhã (são agora seis e dez, mas o filme, igual a tantos outros, teve início às cinco e vinte), com miados, resmungos e arranhadelas. Contudo, tenho quase a certeza de que se houvesse um tradutor para gatos, a coisa seria mais ou menos assim. Comecemos pela gatica:

Lady Gatinha: "Olá! Olá! Olá! Estou aqui! Olá! Olá! Estou muito contente porque estás aqui, dona. Aqueci-te as pernas devidamente? Ainda bem. Sou tão feliz. Tenho é um cocó a importunar-me a barriga... Ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai. Tenho de ir fazer, mas não quero sair de ao pé de ti porque estou tããããããão feliz por me teres deixado dormir contigo! Mas esta sensação na barriga torna-se chata... Ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai! Deixa-me só ir aí mais para junto da tua cara para me fazeres umas festinhas na cabeça. Gosto tanto de ti. Já te disse que gosto de ti? E que sou muito feliz? Já disse? Já?! Responde, mamã! Estás viva? Deixa-me ir para cima de ti para ver se estás bem..."

Eu: (algo imperceptível parecido com um gemido doloroso)

Vamos agora traduzir o acordar do Senhor Gato por volta das cinco da manhã de quase todas as noites:

Senhor Gato: "F***-se! Que horas são???? C*******!!! Como é que esta idiota ainda não se levantou para me encher o pratinho?! M**** de mania de que o dia só começa quando nasce o sol, cambada de filhos de um cão! (Elevando o tom dos resmungos e quase de dedo em riste) Bom, é assim que isto vai funcionar: ou levantas esse cu da cama e me vais pôr ração no pratinho JÁ ou eu parto esta M**** TODA!!!"

Eu: (Com voz muito ensonada) "Senhor Gato, tens lá comida. Ainda ontem à noite a pus." (resmungar imperceptível)

Senhor Gato: "Ok, tu é que as pediste." (Som muito evidente de unhas na cómoda, no roupeiro, na porta...)

Eu: (Quase caindo com a velocidade a que me levanto e acordadíssima) "Já estou a ir, bichinho!"

Senhor Gato: "Acho bem. Que fique bem claro quem manda nesta m**** desta casa, c******!"

E é isto a minha vida.

Fim.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Mea culpa, gatica!

Donos de gatos, sigam o conselho: mantenham as vossas sanitas fechadas. É um cuidado que temos tido sempre, mas hoje houve ali um momento em que o tampo ficou levantado e a minha gatica, curiosa até mais não, resolveu saltar sem parar para ver se estava tudo pronto para o salto. Resultado, caiu na sanita. Felizmente, foi com as patas de trás e não se lembrou de mergulhar de cabeça, embora fosse menina para isso. Como estava mesmo ao lado, tirei-a logo de lá, mas a pobrezinha assustou-se. Não está muito habituada a saltos falhados. O passo seguinte foi limpar-lhe o que se molhou com Dodots. Ela está agora a lavar-se loucamente e a lamuriar-se pela humilhação. Pobrezinha. Mea culpa, gatica.

Barulho, muito barulho

6 horas da manhã - Gatos miam desalmadamente e não se calam de maneira nenhuma. Tenho de levantar-me.

8 horas da manhã - Vizinhos de cima iniciam obras com berbequins e martelos. Moro ao pé de uma esquadra, mas parece que a polícia não ouve bem...

9:30 da manhã - Gatos calam-se, obra pára. É a Lei de Murphy, só pode.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

As lindas

Há um fenómeno que devia ser estudado por cientistas, sociólogos, psicólogos e quem mais vos ocorra. E qual é?, perguntam avidamente os quatro leitores e meio que visitam este blogue. Eu, fazendo verdadeiro serviço público, explico. 

O fenómeno de que falo e que designo livremente como "As lindas" acontece nas redes sociais, concretamente no Facebook, que é a única que tolero. Consiste no seguinte: uma mulher (porque geralmente isto é coisa de gajas) publica uma foto sua (não raramente uma selfie manhosa ao espelho) com uma legenda absolutamente oca, ou, em alternativa, com uma daquelas coisas do género "A sentir-se misteriosa...". Bom, publica esta pérola bastante necessária para que o mundo se mantenha nos seus eixos e espera. Espera o quê?, perguntam os três leitores e meio que visitam o "As Minhas Quixotadas" (é que um abandonou a leitura a meio). Espera os likes e os comentários. E é precisamente aqui que nascem as lindas. Ora vasculhem bem na vossa memória e vejam se não bateram já "ojólhos" nisto: gaja publica foto supostamente bonita ou sexy, coloca uma legenda que não quer dizer nada ou que pretende apenas (e mal, geralmente) justificar a publicação extemporânea de uma imagem puramente narcisista; depois seguem-se as reacções dos amigos, dos amigos dos amigos e é um fartote. Por feia que seja, por ridícula ou despropositada que seja a foto e por desprovida de lógica que seja a legenda, ergue-se imediatamente um coro de outras gajas que desatam a comentar "Linda!", ou "Miga, és linda", ou ainda a que mais me irrita, "Simplesmente linda". E puf!: tal como uma linda flor desabrocha de um dia para o outro na primavera, tal como o Pico faz surgir o Chocapic, assim nasce uma "linda". Pode ser feia que nem uma parede com mofo, pode estar mais despida que eu quando nasci e parecer mais rameira que linda, pode estar numa posição pouquíssimo natural e mais digna de preocupação médica do que de elogios, mas para várias almas cujos olhos vêem onde eu não enxergo, a criatura é "Simplesmente linda". É ou não é coisa que se estude?! Tanto merece ser estudada a autora da publicação que, obviamente, padece de extrema falta de atenção e encontra no Facebook forma de chamá-la para si; como merecem ser estudadas as meninas que aparecem logo a comentar de forma tão pouco original tais fotos. Se eu recebesse cinco euros por cada vez que assisto a isto, estaria provavelmente a escrever esta quixotada no Dubai, no mais caro hotel do sítio. 

Mas agora falando mais a sério. Esta procura de aprovação pelos outros, este desejo de ser apreciado por terceiros e este pedido de atenção que é tão pouco discreto parecem-me preocupantes. É mesmo como se algumas pessoas necessitassem deste combustível para se sentirem bem consigo próprias. E depois a necessidade que outros têm de correr a comentar o que não merece ser  comentado, pespegando ali um elogio que será igual a vários outros, que é o típico "falo para não estar calada" é coisa para me fazer confusão. O narcisismo que impera nas redes sociais e a corte de aduladores prontos a tecer elogios ocos à esquerda e à direita são de uma pobreza de conteúdo atroz. Era enrolar um jornal Expresso (apenas porque tem vários cadernos) e dar-lhes uma nalgada com ele, enquanto repetimos: tu, pára de te exibir que ninguém acredita nessa falta de naturalidade; e vocês, parem de ser carneiros que só conhecem uma frase! Irra! Até a Rosinha, a boneca que falava nos idos de noventa, conseguia dizer frases mais variadas do que a porcaria do "És simplesmente linda". 

E pronto. Era isto. Neste momento já só há três leitores. O meio seguidor (????) desistiu algures no primeiro parágrafo. Provavelmente, foi tirar umas selfies e dizer ao mundo que está "a sentir-se pensativo", na esperança de que alguém lhe pergunte porquê... É um lindo!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Anna Karénina - o balanço


Era um dos meus objectivos de leitura para 2017 et voilà: em Janeiro já está lido e arrumado na prateleira do moço (não vá ele dar pela falta de um dos seus russos). 

Sobre este romance de Tolstoi só posso dizer aquilo que digo sobre outros clássicos: é que é um monumento. O final é, talvez, dos mais conhecidos da história da literatura e eu quando comecei a ler o livro sabia muito bem como acabava. Não sabia era o caminho trilhado para se chegar a tal fim. Já vi adaptações cinematográficas deste romance (vi, inclusivamente, aquele em que a actriz é a que consta desta capa da edição da Relógio D’Água), mas como de costume o livro vai bem mais longe e é muitíssimo mais rico.

Tolstoi é brilhante nas descrições, sobretudo nas descrições de sentimentos que nós não conseguimos pura e simplesmente descrever. Ele consegue e nós ficamos a pensar que sim, que ele tem razão, que tal sentimento é exactamente o que ele consegue pôr em palavras e que nós nunca conseguiríamos explicar. Alia-se essa excelente capacidade à história que quer contar e está feita uma obra-prima da literatura.

Confesso que sempre julguei que estaria inequivocamente do lado da Anna Karénina, mas em muitos momentos do livro achei-a ruim até mais não. Tive pena do marido dela que até era tão permissivo relativamente aos «desvios» dela com o Vronsky. Porém, acabei por perceber que ali não podemos simplesmente estar do lado de um contra o outro porque o que está no livro é demasiado complexo para isso. Tolstoi é tão realista naquilo que conta que diante de nós estão personagens que podiam perfeitamente ser seres humanos de verdade, com todos os seus defeitos e virtudes. Portanto, nem Anna Karénina é completamente digna de piedade, nem o seu marido é merecedor da nossa pena. Ambos, como na vida real, fizeram más escolhas, seguiram caminhos que não deviam ter seguido. A história não se resume ao adultério de Anna, pois vai muito além disso. 

Depois, por outro lado, e em total contraste com os casais formados por Anna e outro homem, existe Lévin e Kitty. Este último par vive um amor tão verdadeiro que acaba por tornar ainda mais disforme as relações da protagonista. E as mudanças vividas por Anna, a sua asfixiante falta de paz, tornam-se mais visíveis porque simultaneamente Kitty alcança, precisamente, um invejável estado de tranquilidade. Mesmo Dolly e Oblonsky, no meio das traições dele e da falta de dinheiro, conseguem ir mantendo uma relação mais ou menos constante, talvez porque ali existam outros valores (ainda que o irmão de Anna seja um verdadeiro tonto). Anna e Vronsky é que são uma dupla que se assemelha a um balão que vai enchendo até estar de bom tamanho. No entanto, continua-se a soprá-lo e sabemos que inevitavelmente rebentará, ainda assim é impossível parar de soprar.

Ler um clássico nunca é perda de tempo e Anna Karénina é mais um dos exemplos que sustentam esta ideia. É um livro viciante, muito difícil de largar, mesmo que saibamos que fim terá a protagonista e mesmo que estejamos atentos a todos os sinais que o narrador nos vai entregando aqui e ali. Tolstoi é, como disse, um excelente criador de situações que tinham tudo para ser reais em lugares que, se não o são, pelo menos são verosimilhantes. Anna Karénina é, repito, mais do que um livro: é um monumento.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXVI

A Relógio D’Água tem uma colecção de livros de viagens. E eu adoooooro livros de viagens. No Natal recebi o Homenagem a Barcelona, de Colm Tóibín. Mas há mais uns quantos que gostava de ter. Por isso, a menina quer isto (e quer o Euromilhões para poder comprar tudo o quer e uma casa maior).






E já que estamos numa de pedinchar, a Livros do Brasil está a fazer renascer a antiga colecção Miniatura. Saíram já três títulos e eu gostava bastante de ter este, da Rosa Montero. Ai, por que não é Natal já amanhã????


Mudar ou morrer?

Ontem fomos ao supermercado ao lado de casa e vi lá uma senhora idosa da minha zona que já não via há muitos, muitos anos. Ao olhar para ela e reconhecê-la, mais velha ainda do que me recordava, e consciente de que já não a via há mais de uma dezena de anos, pensei com os meus botões «Esta senhora ainda é viva!». Sim, ao nível do óbvio eu sou fenomenal, mas adiante.

Ora, isto levou-me a pensar numa coisa estranha: quando passamos muito tempo sem ver alguém jovem (ou mais ou menos jovem) da nossa zona e depois encontramos essa pessoa, dizemos para nós mesmos «Afinal ainda mora aqui!». Porém, quando se trata de uma pessoa mais velha que passámos muitos anos sem ver, o espanto é mesmo por ela ainda estar viva, porque a julgávamos morta. Só isso justificaria o facto de a não vermos. Dei por mim a pensar nisto e a concluir que envelhecer é uma porra. Se nos descuidamos muito, as pessoas pensam que morremos e «limpam-nos» das suas bases de dados com muita facilidade. Um idoso, por esta ordem de ideias e nas nossas cabeças, nunca pode mudar-se: só morre. É estranho perceber como pensamos. E pensamos de forma muito estranha.

sábado, 21 de janeiro de 2017

«Nunca digas nunca!»

No outro dia recebi no email uma coisa qualquer da revista Visão que falava sobre a leitura e sobre algumas estratégias para conseguir ler melhor e ter, no fundo, uma experiência de leitura mais proveitosa.

Uma das estratégias referidas passava pela audição de «white noises», coisa que eu nem sabia o que seria. Vinha até, no texto, o exemplo de alguém aparentemente importante e CEO de uma empresa qualquer que jurava a pés juntos que ouvir estes sons tinha sido a única solução para conseguir ler as coisas que os pais lhe punham à frente na tentativa de conseguir formar ali um leitor. O texto continha links para dois exemplos de «white noises» e, por isso, fui lá espreitar e matar um pouco da minha ignorância.

Confesso que os links me levaram a sons que me irritavam mais do que me relaxariam e do que me ajudariam a concentrar. Mas percebi a ideia: «white noises» são sons naturais como o da água a correr, o som da chuva a bater no chão, o som do vento... Enfim, sons relaxantes que não nos obriguem a pensar em nada. Há quem os use para ler, quem os use para adormecer, quem os use para meditar. Eu achei aquilo muito parvo e comentei com o meu moço o que pensava sobre o assunto (ele também não sabia o que eram os tais «white noises»).

Mas depois andei pelo YouTube a ver que outros sons existiam, percebi que até existiam «white noises» para gatos stressados, para os gatos adormecerem, entre outros. Até que descobri uns que consistiam no som da chuva. Fiquei intrigada. Resolvi ler ao som daquilo e, juro-vos, mordi a língua: a concentração dedicada à leitura com aquele som de fundo é totalmente diferente da concentração com música, com a televisão ligada ou mesmo sem qualquer ruído. É como se não conseguisse tirar os olhos do livros porque não vale a pena: estão tão bem a ler, tão confortáveis com a chuva (mesmo que não esteja a chover realmente) que não vale a pena olhar para qualquer outro lugar. Nem vos sei explicar a sensação. Todavia, para mim, que sou uma leitura muito lenta e muito, muito distraída, uma ajuda destas é divinal. Posso dizer-vos que em dois dias despachei dois livros (Capitães da Areia, de Jorge Amado, e Amor de Perdição, do nosso Camilo) sempre com este som a ajudar.

Portanto, meus caros, ficou-me a lição: nunca digas nunca. Gozei com os «white noises» quando percebi o que eram e agora até acho que deviam ser utilizados nas escolas para aumentar a concentração e diminuir o stress. É viver e aprender, viver e aprender...

Nota: Deixo-vos o meu «white noise» favorito. Pode ser que resulte convosco também. Se não, podem sempre gozar com ele.


A Menina Quer Isto LXXV

Meu Deus, estas revistas ainda hão-de dar cabo de mim.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O melhor aquecedor

Diz que esta madrugada esteve um frio do caraças, mas eu, que durmo de calções, tive um calor tremendo. Quereis o truque, pessoas? Ora aí vai, deixem-me só entrar no modo publicitário...

Ora bem: de maneira a não terdes frio nas longas noites invernais que se avizinham, deveis ter à mão (ou melhor, sobre as pernas) um bom e gordinho gato. São peludinhos e quando bem encaixados sobre as nossas pernas adormecidas emanam um grau de calor extremamente relaxante. Mais: tendem a mudar de posição durante a noite e a aquecer pés, costas, barriga... Enfim, é todo um aquecedor amigo do ambiente. 

No verão não deve ser guardado na arrecadação, pois tende a cheirar mal. Deve-se deixá-lo andar dentro de casa, utilizar todos os serviços e utensílios disponíveis, fornecer-lhe toda a paparoca de que necessitar de forma a manter-se em boas condições de uso para os meses mais frios. É uma fonte de calor que trabalha melhor quando afagada várias vezes por dia, portanto não devem descurar essa parte de modo a assegurar-se o seu bom funcionamento. 

Garanto-vos: não há melhor do que um felino a aquecer as pernocas nas noites frias de inverno. É coisinha para exigir muita manutenção, mas vale bem a pena porque é espectacular. No meu caso, é uma felina, que cumpre bastante bem a sua função. Tenho um outro felino em funcionamento, mas padece de mau feitio e prefere aquecer-se exclusivamente a si próprio. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXIV

A menina está à rasca de um dente, não está à rasca dos olhos, pelo que entrar numa livraria continua a ser perigoso. Mas vá, a minha situação de desempregada permite-me (obriga-me a) um controlo absolutamente inédito. No entanto, alguns livros ficaram debaixo de olho para dias mais abonados. E eles haverão de chegar...

Então, a menina quer isto:









Coisinha pouca, como vêem. O Natal já passou, não foi? Bolas...

Nota: Todas as imagens saíram da página da Wook.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A reportagem e os manuais escolares

Tenho andado a morder-me toda para não comentar a reportagem que passou ontem e no Domingo na TVI sobre os manuais escolares. Mordo-me porque não quero perder tempo a pensar no que vi para não me chatear. É que aquilo chateou-me a sério e é mais uma coisa a levar-me a pensar que, de facto, ser professor em Portugal não vale mesmo nada a pena.

A reportagem abordou o tema dos manuais escolares pegando no seu preço, no enorme encargo que representam para as famílias, na promoção dos manuais... Enfim, pegou em vários aspectos, se bem que o que mais me chocou foi quando basicamente se insinuou que os manuais eram caros por culpa dos professores. Não só porque a quantidade de materiais que as editoras produzem para auxiliar os docentes nas suas aulas podem encarecer os livros, mas também porque as ofertas de exemplares que anualmente as editoras fazem aos docentes também lhe aumentam o preço. Foi ainda dado a entender que os encontros promovidos pelas editoras em Abril e Maio, geralmente em hotéis, com o objectivo de apresentar os projectos aos docentes também encarecem os manuais. Ou seja, e pensando de forma linear: a culpa de os livros escolares serem caros é nossa, professores. Mais: somos nós que escolhemos o manual a adoptar, por isso por que não escolhemos os mais baratos? Melhor ainda: por que não deixamos os alunos usarem manuais sem metas nas nossas salas de aula, poupando assim uns trocos aos pais? Todas estas questões foram levantadas e algumas ofenderam-me mesmo e espero que tenham ofendido outros docentes.

Vamos lá ver: eu sou a primeira a dizer que os manuais escolares são vergonhosamente caros. Num ensino que, de acordo com a Constituição, se quer tendencialmente gratuito, pagar duzentos ou trezentos euros todos os anos e por filho é absolutamente impensável. Acho, sinceramente, que algo devia ser feito para que um manual escolar não custasse quase (ou mais de) três dezenas de euros. Mas a responsabilidade pelos preços dos manuais não pode ser atribuída aos professores, por muito que apeteça culpá-los pelos materiais que as editoras criam para eles; por muito que se diga que são uns trogloditas por não aceitarem livros anteriores às metas (e assim o reaproveitamento entre irmãos, por exemplo); por muito que apeteça criticar os encontros em hotéis fantásticos onde equipas que se matam a trabalhar e a percorrer o continente e ilhas apresentam os frutos do seu trabalho para que depois os professores os escolham ou não. Por muito que apeteça, a culpa não é nossa. Não sei de quem é, mas não é nossa. 

Em primeiro lugar, senti uma enorme revolta quando a autora da reportagem abordou a questão dos muitos materiais feitos apenas para os docentes e de como aqueles podem encarecer o produto final adquirido pelos encarregados de educação. Como muito bem alguém respondeu, a profissão docente é trabalhosa e aqueles materiais vão ajudar os professores a não passarem o seu tempo livre a preparar materiais completamente novos e de raiz. Estas pessoas que fazem estas perguntas de profundo senso comum têm ideia de quanto tempo, por exemplo, demora a preparar o enunciado de um teste? E de quantas vezes temos de fazer mais do que um enunciado por turma porque há alunos com dislexia, com necessidades educativas especiais que têm adequações no processo de avaliação? Têm noção de que, muitas vezes, somos docentes de várias turmas de diferentes níveis (como eu fui sempre nos últimos anos, chegando a ter uma turma de cada nível desde o quinto até ao nono ano) e de que os materiais criados para uma turma são-no exclusivamente para ela e não servem para outra? Têm noção de que corrigir testes, fazer grelhas de avaliação, corrigir trabalhos, planificar aulas já toma muito do nosso tempo livre (não estou a falar de horas de trabalho: estou a falar de tempo livre, quando devíamos estar com as nossas famílias e a descansar um pouco)? Claro que não têm. Apenas falam de forma populista: para que recebem os professores tantas fichas, tantos materiais se depois alguém, que não eles, tem de pagar a factura? Sim, os livros são caros, mas não vão por aí.

Depois, por muito obscuro que pareça o negócio dos manuais escolares, de certeza que não vão ser os professores a torná-lo mais claro nem a regulamentá-lo. A quem ache estranho os professores receberem amostras dos manuais eu pergunto: compraram o vosso vestido de noiva sem o experimentarem? Não? E só o usam um dia! Um professor trabalha com o manual escolar adoptado durante (se tudo correr bem) seis anos. Se não o virmos antes com atenção, como podemos fazer uma escolha consciente? Acho que sobre isto nem vale a pena dizer mais nada.

Sobre as apresentações em hotéis... Meus caros, são locais geralmente de fácil acesso, com salas de conferências onde existem muitos lugares disponíveis e materiais audiovisuais que facilitam as apresentações. Se há café e bolinhos não me interessa nada porque nunca os provo. Se me dão blocos de notas e esferográficas, ainda bem, pois gosto de tirar algumas notas a respeito do que ouço. Eu preferir, até preferia que viessem apresentar os projectos cá a casa, mas dá-me a ideia de que isso é que iria encarecer os livrinhos.

Relativamente à acusação de que muitos professores não deixam utilizar livros anteriores às Metas Curriculares impedindo, assim, a reutilização de manuais escolares entre irmãos, por exemplo, j’accuse, como diria o Zola: eu não deixo. Porquê? Porque se há disciplinas em que as Metas alteraram poucas coisas e os manuais até estão parecidos, no caso do Português há textos inteiros que desapareceram para dar lugar a outros, há matérias gramaticais que desapareceram de um nível para só entrarem no nível seguinte, há abordagens que passaram a fazer-se e que antes quase não se faziam. Com uma rápida vista de olhos ao manual pode parecer tudo igual, mas não é. Lidar com livros diferentes em turmas com trinta alunos serve para enlouquecer alunos e professores. O docente pede para abrirem numa página, uns abrem e encontram o texto pedido, os outros abrem e encontram outro texto. "E agora, professora?”, “Olha, Maria, senta-se ao lado da Joana e o Pedro vai para ao pé da Laura que por sua vez vai pôr o livro na diagonal de maneira a que o João e a Inês também consigam acompanhar.”. Isto parece-vos normal? Parece-vos boa prática pedagógica? Imaginem ao vivo e a cores a loucura que é.

Por fim, quanto à dúvida que a reportagem lançou sobre o facto de os professores não escolherem os livros mais baratos, deixem-me dizer-vos umas coisinhas. A própria reportagem concluiu que eles custam sempre o preço máximo, logo não há cá livrinhos mais baratos. Além disso, e isto é importante, quando recebo amostras, muitas delas nem trazem o preço marcado. Dizem apenas “Oferta ao professor. Amostra não comercializável.”, portanto eu não faço ideia de quanto custa o livro quando estou a analisá-lo e a decidir se é com aquele que quero trabalhar ou não. Escolho de acordo com o grafismo, a estrutura e o nível de exigência. Não vou a correr pesquisar o preço. Deduzo que serão muito caros a julgar pela aparência, pela quantidade de materiais que os acompanham (e que dão trabalho a muita gente) e pelo facto de serem sempre caros (já o eram quando eu ainda estudava). Mas não escolho com base no preço. Assim como também não escolho por me oferecerem uma caneta ou um bloco, por me darem um livro de leitura que vai ser estudado na sala de aula e que faz parte do programa. Se assim fosse, só escolhia uma editora e não era isso que fazia quando estava no activo. Novamente: escolhia com base na qualidade e com aquilo que me parecia essencial num manual. Nunca nenhuma oferta me fez alterar a escolha. Não posso falar por todos os docentes, mas duvido que a maioria se venda por canetas e blocos de notas.

Os livros são caros, sim. Talvez fossem mais baratos se se cortasse nas corzinhas, nas imagens, nos recursos audiovisuais tão queridos dos alunos e dos pais hoje em dia (eu, enquanto professora, detestava-os, imagine-se), enfim, se se cortassem os extras todos. Percebo isso tudo. Só não percebo que tantas vezes na mesma reportagem se tente virar o problema para o lado do costume, mesmo quando desta vez não é nada connosco. Senti-me acossada, como se cometesse um crime ao querer o melhor no meu trabalho, como se fosse um verdadeiro troll por querer evitar perdas de tempo durante as aulas que inevitavelmente acontecem quando dentro da mesma turma há diferentes versões de um livro. Senti que mais uma vez a culpa era dos mesmos e que para nós, professores, já só há uma saída para não sermos vistos como “criminosos”: arrepiar caminho, procurar outro futuro.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A anestesia

Há lá sensação mais estranha do que a de ter uma parte do corpo anestesiada?!

Hoje fiz uma (vou citar a factura) "extracção dentária complicada" e tenho uma compressa no sítio onde estava o dente e onde agora estão os pontos. Há pouco precisei de a trocar e não sabia quando estava a tocar na bochecha ou a mexer na dita compressa... Neste momento parece que uma parte da minha cara é feita de cortiça. Abençoado o inventor da anestesia!!!

sábado, 14 de janeiro de 2017

É preciso ser burro!

Nem sei se já falei disto ou não, mas se falei, perdoem-me a repetição: acreditem que é a indignação que provoca a redundância.

O semanário Expresso está, desde a semana passada, a publicar em seis volumes uma biografia de Estaline. Tal como já publicou a biografia do Hitler, uma história da Segunda Guerra Mundial, uma História da Cultura, uma biografia do Salazar, romances de Camilo Castelo Branco, Os Maias e uma continuação desse romance escrita por vários autores portugueses... É normal e costumeiro o Expresso oferecer livros aos seus leitores. Ajuda a vender o semanário e quem já tem o hábito de o comprar agradece o miminho. Portanto, não é a oferta da biografia de Estaline que me apoquenta: o que me enerva são as inúmeras vozes que se têm levantado para criticar a escolha do livro a oferecer. Dizem estes eternos descontentes que é uma forma de “endeusar” um tirano sanguinário. Que podiam oferecer biografias de outras pessoas que dessem bons exemplos aos jovens em vez de dar a conhecer a vida do responsável por muitas e muitas mortes. Que é uma vergonha oferecer-se a biografia do Estaline e não a do Salazar ou do Hitler, coisa que o Expresso já fez, mas que os ignorantes desconhecem. Que o Estaline não merece a atenção. Que assim nunca ninguém vai esquecer esta besta. Que assim o Expresso quer é limpar a imagem de Estaline. Que há outras coisas melhores. Que...

Enfim, um chorrilho de disparates que só me levam a dizer que é preciso ser burro. Mas BURRO todos os dias. De uma ignorância tal que faz com que a perna manca de uma mesa pareça um professor de Harvard distinguido com um Prémio Nobel pela maior das descobertas científicas. Uma burrice capaz de fazer um saco das compras vazio corar de vergonha! Então agora só se podem revelar as partes bonitas e fofinhas da História? Então agora temos de eliminar do conhecimento geral as biografias dos ditadores porque conhecê-las é o mesmo que divinizá-los?! Desculpem-me, mas esta gente que anda a malhar no Expresso pela escolha do biografado é tão, mas tão jumenta que estaria bem no "País dos Brinquedos", aquele lugar onde, no Pinóquio, todos se transformam em burros.

A História é feita de muitas coisas. Umas melhores e muitas piores que nos obrigaram, como diriam os espanhóis, a “sacar adelante”. O século XX, o século em que tudo aconteceu, está cheio de figuras importantes. Quando dizemos importantes não estamos a dizer que são anjos do Senhor ou demónios do piorio: estamos simplesmente a dizer que as suas acções, a influência que tiveram sobre os acontecimentos fizeram a História mudar. Para melhor, para pior... Depende. Conhecer a vida destas pessoas não as diviniza per se. Supostamente, todos temos um cérebro que nos permite distinguir o certo do errado, todos temos um espírito crítico que nos leva a julgar como acertadas ou não determinadas atitudes. Ler sobre alguém com peso histórico não me faz passar a adorá-lo e a colar posters com a sua carinha no meu quarto (imaginem-me a colar posters do Estaline na cabeceira da cama e a dar-lhe um beijinho todas as noites). Fará de mim, com certeza, uma pessoa mais informada, mais capaz de perceber o que aconteceu, mas não necessariamente uma admiradora do biografado. 

O branqueamento da História deixa-me louca! É preciso ser-se, repito, muito burro para achar que isso traz vantagens. É o mesmo que os jumentos que quiseram alterar o Huckleberry Finn ao substituir a palavra “niger” por “slave” tentaram fazer. Coitadinhas das crianças que vão ler um insulto odioso. Mutilemos o clássico: sempre é mais fácil do que explicar-lhes o contexto de aparecimento da obra (nem é para isso que os professores são pagos nem nada... E eu sou professora, sei o que estou a dizer.). BURROS é o que são. E pior: são-no muito assumidamente, já que não têm pudor em ir para as redes sociais apregoar as suas nada fundamentadas opiniões. Então a partir de agora fazemos o quê? Só lemos o que é bom e bonito? Vidinhas de santos? Ai que porra, com tantas religiões diferentes, como havemos de saber o que podemos ou não ler? Olha, o melhor é não ler nada que é para não ferir nada nem ninguém. Burros, burros, burros!

Já quando o Mein Kampf saiu com a Sábado foi o mesmo fandango. Aqui d’El Rei que se está a publicar o programa político de um dos maiores criminosos da história! Ai que esta gente quer repetir  esta brincadeira! Mas será que têm a nossa inteligência em tão pouca consideração? Eu li uma parte do Mein Kampf e não tatuei a cruz suástica numa nalga. Pelo contrário: não só percebi que a mente daquela besta era para lá de retorcida ainda antes de fazer o que mais tarde veio a fazer como consegui passar a detestá-lo mais (afinal ainda era possível). Mas os burros do costume odiaram que o livro fosse publicado. 

A mim não me assustam as biografias dos ditadores, as histórias desta ou daquela guerra ou os livros com modos de pensar que causaram a morte a milhões de pessoas. O que me assusta é a ignorância e o gosto que muitos têm em enfiar a cabeça debaixo da areia. Esses, os pouco informados que só querem um mundo cor-de-rosa cheio de unicórnios a vomitar purpurinas e arco-íris de veludo, é que metem medo porque querem esconder o que de mais importante temos: o passado enquanto guião de tudo o que correu mal e de que vale a pena continuar a desviar-nos. Irra, que é preciso ser burro!


Nota: E já agora, esta edição é feita em parceria com a editora Alethêia e os livros são muito jeitosos. São gordinhos, o tipo de letra e o espaçamento permitem uma leitura cómoda. Só lamento que esta biografia deixe de fora a infância do biografado. Parece que o autor escreveu um outro volume dedicado a esses primeiros anos de Estaline e esta será muito mais a biografia política. Enfim, quem depois quiser conhecer mais sobre esta figura pouco simpática mas incontornável do século XX posteriormente pode procurar informação noutros livros ou fontes.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Roberto - parte 2

É meia-noite e um quarto. A saga "Roberto" teve uma fase mais calma, mas acendeu-se novamente. Por agora ouve-se um "Roberto, não te atrevas!" e um "Roberto, queres que eu te falte ao respeito?". Ah, e já me esquecia: "Roberto, estás-me mesmo a tirar do sério. Tu tiras-me do sério, c******!". O tom de voz está em crescendo.

Por aqui chego à conclusão de que se tivesse uma nota de cinco euros por cada vez que a-moça-que-podia-ser-um-gritador-azeiteiro-em-Hogwarts diz um palavrão ou o nome do Roberto, já podia estar a comprar a secção de literatura estrangeira da Fnac, uma Bimby e três quilos de cerejas do Fundão em época alta. Oportunidades perdidas, é o que é.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Roberto

O Roberto é uma personagem que entrou na minha vida esta semana e que já faz o meu coração bater mais depressa... De tantos nervos que me provoca.

Ora imaginem-se nesta situação: estão a dormir o vosso primeiro soninho, o melhor de todos, e acordam repentinamente com a voz de alguém que fala sonoramente ao telemóvel num apartamento que deverá ser do prédio ao lado, a avaliar pela direcção de onde chega o som. Levantam a cabeça da almofada ainda meio totós e sem perceberem que porra está a acontecer e quem são vocês e han? Han? Han? (que são as sábias perguntas que nos ocorrem quando somos violentamente arrancados dos braços de Morfeu). Ao erguerem a vossa cabeça, percebem algumas frases que estão a ser ditas em voz bem alta: "Não voltas as desligar-me a p*** do telemóvel na cara, Roberto!" (frase repetida cerca de sete vezes seguidas e sem os asteriscos). Continuam em modo "troll" sem perceber em que terra estão e se ainda estão a dormir. Mas com a continuação do berreiro acabam por despertar e por tentar perceber quem é que raio está a montar um arraial às quatro da manhã (sim, leram bem, eram quatro da manhã).

Até agora sei pouco sobre a personagem que desconhece o que seja falar baixo e que também não deve saber o que é um relógio e, muito menos, deve saber ver as horas. Só sei que deve morar no prédio do lado, já que o som vem de baixo e da zona da cabeceira da minha cama (já viram a minha sorte?!) e, tendo em consideração que no meu prédio o apartamento de baixo é habitado por uma octogenária que tem um relógio de pêndulo, parece-me pouco provavel que ela grite com um Roberto às quatro da madrugada. Sei também que a menina que grita não gosta que o Roberto lhe desligue a chamada enquanto ela grita; que gosta de afirmar que ela não é uma das p***s do Roberto; que a relação está tremida ou fica tremida pelo menos três vezes por semana; que uma das frases favoritas da fofinha é "cala a boca, Roberto!" e pouco mais. Sei que da primeira vez estive sem voltar a adormecer das quatro às sete e tudo porque o Roberto se portou mal. Hoje estava eu no quarto a ler pacatamente a Anna Karenina e eis que subitamente o vulcão menina-histérica-mas-extremamente-apaixonada-pelo-Roberto entra em erupção e a saga recomeça. Excertos como "partir a cara", "não sou uma das tuas p***s" e "responde à minha pergunta, Roberto!" começam a subir pelas paredes. Aparentemente, a menina deve também estar a ensinar o Roberto a fazer um refogado, a julgar pela quantidade de vezes que me chega aqui o som "alho", mas agora que penso nisso acho que pode ser outra coisa. O que sei é que o Roberto está há mais de meia hora a ouvir a tipa aos gritos ao telefone e eu, que não sou o Roberto, tenho de ouvi-los também. O Senhor Gato e a Lady Gatinha estão em choque e de vez em quando levantam as cabeças com um total aspecto de quem já não tem fé nenhuma na humanidade. Tento explicar-lhes que o problema está só nos Robertos desta vida, mas eles já não acreditam. 

A julgar pela conversa da menina-que-julga-que-toda-a-localidade-quer-saber-quem-são-as-p***s-do-Roberto, este menino é um fresco! E eu gostava de lhe dizer umas coisas. Gostava de lhe dizer para pegar na menina e ir fazer o amor para longe daqui. Não só pouparia a sua paciência como os meus tímpanos e horas de sossego. Ou então que corra com ela de uma vez, que ninguém merece tanto grito. E se é um porco, ela que o mande às urtigas e vá gritar para outra freguesia que isto não é vida para ninguém!

Sempre pensei que, a ter um Roberto na minha vida, seria um gato chamado Roberto Anísio. Afinal sai-me este jeitoso. De facto, é melhor nunca criar expectativas sobre nada. 

Nota: Levei uns vinte minutos a escrever a quixotada pelo que o Roberto já está a ser desancado há quase uma hora... E continua! Façamos uma corrente de oração pelo Roberto (e por mim). 

Inícios [nada] fantásticos

Há muitas maneiras de começar um ano. Eu cá gosto de começá-lo em grande! E que melhor forma de fazer isso do que recebendo quase toda a discografia do Cohen ao mesmo tempo que estouro com um dente molar e passo a precisar com urgência de um dentista (sendo que o consultório onde costumava ir fechou)??? Assim de repente não consigo imaginar melhor forma de inaugurar o ano novo. 

Portanto, amanhã de manhã preciso de descobrir uma alma caridosa que me arranque o fdp*** do dente que está a levar-me à loucura. Até lá comerei papas. Papas, papas e papas. Porra de sorte!

SUGESTÃO MUITO A PROPÓSITO: Por causa disto de dentes que precisam de ser arrancados lembrei-me de sugerir-vos a leitura do conto “Um Dia Destes”, do Gabriel García Márquez. É muito bom e passa-se no consultório de um dentista muito corajoso. Leiam que é muito bom.

Presente de Natal fora de época

O meu moço tem azar todos os anos e há sempre um presente para mim que não chega a tempo. No ano passado foi o Quixote da Real Academia Espanhola que só chegou a meio de Janeiro. Como geralmente ele me oferece sempre mais outras coisas, acaba por não se chatear assim tanto e eu acabo a receber mais um presente quando as festividades já acabaram. Devo dizer que hoje me soube muito bem receber uma caixa com “The Complete Studio Albums Collection” do Leonard Cohen. Assim, na pequena caixinha estavam todos os cd’s editados por ele desde 1967 até 2004. Ficam a faltar-me apenas os seus três últimos álbuns para ter a discografia completa.




Obrigada ao moço por acertar sempre nos presentes que me fazem feliz. Gostei mesmo muito. Gostei ainda mais porque, tendo chegado depois da loucura natalícia, vou poder dedicar-lhe mais atenção e ouvir as minhas músicas preferidas de Leonard Cohen vezes e vezes sem conta, sem a maldita publicidade que se intromete nas playlists do YouTube.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Meias: o problema

Expliquem-me este fenómeno: dobro a roupa e sobram-me sempre meias sem par. SEMPRE! Pergunto-me se devo ter a esperança de voltar a reunir estes pares desavindos ou se devo chorar já o desaparecimento de quatro meias que inutilizarão igual número de pares. Malditas meias que dão cabo do juízo a uma pessoa!

Ah, e já que estou a falar de meias, deixem-me desabafar sobre algo que me enerva solenemente: por que raio as meias masculinas parecem todas iguais??? Dobrar aquilo é o horror. Quase preciso de uma lupa para descobrir as diferenças mínimas entre as peúgas de modo a conseguir emparelhá-las com o par correcto. Que desespero!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Um clássico é sempre um clássico

Tenho andado a ler o romance Anna Karenina, de Lev Tólstoi, e só me ocorre o do costume: um clássico é sempre um clássico. A frase é estúpida todos os dias, mas reflecte mais ou menos o meu estado boquiaberto perante a perfeição da escrita e da história narrada. Este tipo de mestria encontra-se (quase) sempre nos clássicos e é por isso que se torna tão seguro escolher estes livros antes de outros. Primeiro porque é nossa obrigação conhecer o que de melhor já foi feito e que, hoje em dia, faz parte da nossa identidade (seja nacional, seja europeia...). Em segundo lugar, devemos ler os clássicos porque se eles receberam esse rótulo foi porque tiveram a capacidade de sobreviver à passagem do tempo e ao escrutínio dos inúmeros leitores que já lhes percorreram as páginas.

Num mundo onde há todos os dias mais uns milhões de páginas para ler, é fácil deixar alguma coisa para trás. No entanto, é importante que não deixemos para trás o que de melhor já se fez. O que é tão bom que se conhece já ainda antes de ser lido. A propósito disto, ontem lia um artigo sobre o clássico Alice no País das Maravilhas e o autor dizia algo como que a sua leitura já não acontece muito porque todos já sabem o que por lá se passa. Até percebo uma parte da ideia, já que a ideia base de cada clássico é conhecida por todos (muitos podem não ter lido o Quixote, mas sabem que há um tipo que anda para aí a lutar contra moinhos porque se julga cavaleiro andante: é algo que é do domínio comum). Mas julgar que já não vale a pena ler porque já se conhecem vários elementos do enredo vai além do que me parece ignorância. É, sobretudo, redutor daquilo que é um livro. Um livro, e concretamente um clássico, não é apenas a sua acção central. É também as acções secundárias, as suas personagens, os ambientes que descreve, o modo como os descreve, a perfeição da escrita e das imagens criadas, os valores que veicula... Um clássico é sempre um clássico e pronto. É o que de melhor podemos ler. Com a Anna Karenina tenho recordado muito isto e, portanto, aconselho a todos a sua leitura. É Tólstoi e ele não nos falha.


Actriz Sophie Marceau, protagonista numa das adaptações cinematográficas que se fez de Anna Karenina.
A imagem saiu daqui.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Paradoxalmente

Na crónica de Miguel Sousa Tavares publicada no semanário Expresso da semana passada, o autor falava das redes sociais e de como elas e as falsas notícias que propagam à velocidade da luz estão a alterar o nosso conhecimento, o modo como (não) nos informamos.

Para o efeito refere as constantes notícias que vieram a público sobre Hillary Clinton por alturas da campanha eleitoral. Boa parte delas eram falsas, mas foram suficientes para minar a opinião de muitos “consumidores” de redes sociais que, por azar, também eram eleitores. A partir disso, Miguel Sousa Tavares reflecte sobre como tão facilmente comemos as mentiras propagadas pelas redes sociais, transformando-as em verdades simplesmente porque lá estão. Nós vamos acabando por habituar-nos a devorar as notícias que, por exemplo, nos aparecem no mural do Facebook e raras vezes vamos verificar se são verdadeiras ou não. Refere ainda o autor da crónica que paradoxalmente, até os meios de comunicação como as televisões acabam por servir-se do que aparece no Facebook para gerar notícias, servindo-se para isso da expressão “viral” como forma de justificar o surgimento de tal notícia nos seus blocos informativos. O paradoxo está, refere Sousa Tavares, precisamente no facto de serem as redes sociais e as muitas notícias (falsas e verdadeiras) que veiculam as responsáveis pela cada vez mais significativa quebra nas vendas de jornais, por exemplo. Muitas pessoas que querem informar-se não vêem os noticiários nem compram jornais: consultam o Facebook. Pelo meio acabam por engolir o verdadeiro e o falso, o bom e o mau. Quem quer outro tipo de informação recorre a outras fontes, vai mais além do imediato que nos chega pelas redes sociais. Mas estes últimos, infelizmente, são poucos e vão sendo cada vez menos.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e também nunca tivemos de ter tanto cuidado com ela. Não só pela quantidade de informação incorrecta que por aí circula, mas ainda pela falsa sensação de conhecimento que tantas notícias, textos expositivos ou outros provocam. Disse-se em tempos que um dia os professores deixariam de fazer falta, já que o conhecimento estaria acessível a todos e a mediação de um docente deixaria de ser necessária. Afinal verifica-se que, embora o conhecimento esteja por aí, é preciso que exista alguém capaz de ensinar a separar o trigo do joio (muitas vezes sem grande sucesso, tão grande é a devoção pelo que é mau e a pouca vontade crítica para questionar o que nos chega com enorme facilidade), e, por isso, os professores continuam a assumir o seu lugar nas salas de aula. No entanto, para muitos que já abandonaram os bancos da escola ou que não fizeram a aprendizagem que deviam ter feito enquanto por lá andaram, tudo o que vem à rede é peixe e se na internet diz que fulano fez isto é porque fez e assim podemos espalhar a informação pelos nossos conhecidos. Se no Facebook me aparece um link para uma notícia de uma página qualquer sobre o que sicrano fez, posso sempre partilhá-lo com os meus amigos. Seja verdade ou não. Posso desatar a comentar qualquer coisa que nem sequer é bem assim. Posso nem me dar ao trabalho de verificar se a fonte é fidedigna ou se é mais um distribuidor de petas. Enfim, posso fazer o que quiser com a informação que me chega e isso é francamente perigoso.

Há uns anos li um artigo na New Yorker que mostrava um dos lados ocultos da internet e que sempre gostei de partilhar com os meus alunos. Nesse artigo pediam-nos que imaginássemos uma situação: separadas por uma cortina estão duas pessoas. Uma vem do século XIX e faz várias perguntas à que está do outro lado da cortina. Pergunta sobre Música, sobre Literatura, sobre História, sobre Ciência... E a tudo o outro responde. O homem do século XIX, que só sabe que do outro lado está alguém do século XXI, fica estupefacto com as respostas correctas e a acreditar que neste nosso século somos todos uns génios. O que ele não pode imaginar é que do outro lado da cortina está alguém com um telemóvel com acesso à internet, onde buscava imediatamente a resposta a qualquer pergunta que lhe fosse feita. A questão que nos era colocada era: quem sabe mais? O homem do século XIX ou o do século XXI? O artigo atirava uma resposta: quem provavelmente saberá mais é o homem do século XIX porque o seu conhecimento foi solidamente adquirido e consolidado através do ensino, das leituras que fez, das peças a que assistiu, das viagens que fez... Já o do homem do século XXI é um falso conhecimento: ele descobre as respostas automaticamente recorrendo ao telemóvel e a ferramentas com as quais estamos hoje familiarizados. Mas perguntemos-lhe na próxima semana o que aprendeu hoje nos sites que consultou e provavelmente ouvi-lo-emos gaguejar. Isto porque hoje temos a informação na palma da mão, mas isso não significa que ela nos fique na memória para uso futuro. Estamos expostos a tanto conhecimento que acabamos por não reter quase nada. Já no século XIX, fruto também do tipo de ensino praticado, a memória era fundamental e o conhecimento não estava em todas as esquinas, pelo que acabava por ser mais escasso, mas também por ficar mais tempo connosco. Paradoxal, não? Quanto mais podemos saber, menos sabemos de facto. Recorda-me a “síndrome das fotocópias”, de que falou Umberto Eco: muitos estudantes tiram fotocópias e depois não as lêem. Sentem que já estão preparados para o teste porque já têm as fotocópias, mas depois adiam e adiam a sua leitura.

Ou seja: a internet e, concretamente, as redes sociais condicionam o nosso conhecimento e, em consequência, as nossas opiniões, o que é manifestamente perigoso (especialmente quando alguém se quer aproveitar disso, como parece que aconteceu nos Estados Unidos com a Hillary Clinton). Vimos o resultado disso nas eleições norte-americanas e temo que cada vez mais o vejamos. O melhor dos mundos seria aquele em que as pessoas não se ficassem pela internet e consagrassem tempo a buscar informação em jornais e revistas de qualidade, bem como nos livros que sempre cá estiveram, estão e estarão para nos ensinar e ajudar a pensar. Mas a cultura do imediato leva a que cada vez mais se ignore o prazer da procura pela informação apenas porque é muito mais rápido ir ao Facebook e ler alguma coisa sobre determinado assunto, colocar um “like”, partilhar a página e pronto. Nunca o mundo nos deu tanto e, paradoxalmente, nunca nos apoucámos tanto como nos dias que correm.

Novos nas estantes

Ano novo, livros novos. Para as estantes vão estes fofinhos:










Abençoadas promoções.

Nota: Todas as imagens saíram da página da Wook.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Não é estúpido: é tradição

Vivemos num país onde matar touros na arena não faz mal... é tradição. Vivemos num país onde colocar um gato vivo dentro de um pote de barro no cimo de um poste ao qual se pega fogo não é estúpido... é tradição. Vivemos num país onde, num certo lugar, o Dia de Reis é o dia em que se dão cigarros às crianças para fumarem, mas não é criminoso... é tradição.

Infelizmente, estas e outras quejandas tradições dizem muito sobre nós. Infelizmente, também, não dizem nada, mas nada de bom.

Crescer é difícil

Há algumas semanas falei com a mãe de um adolescente de dezasseis anos que me disse que em conversa com o filho, e depois de pedir-lhe que crescesse (devido às características da adolescência que a estavam a enlouquecer), o rapaz respondeu-lhe “Mãe, mas é tão difícil crescer!”.

Eu tentei explicar à senhora que é difícil, sim, mais ainda nos tempos em que vivemos, tempos em que os querem proteger de tudo até muito tarde, para depois, e de repente, lhes exigirem que sejam maduros. São tempos em que um adolescente tem, normalmente, os pais por perto a facultarem-lhe tudo o que podem, muitas vezes até de mais; em que são levados à escola, depois levados a casa até acabarem a escolaridade... Mas, no fim, os pais querem que os miúdos sejam independentes e desenrascados. Foi isto que tentei explicar à mãe e ela concordou comigo: de facto, hoje não é fácil crescer.

Ser adolescente é difícil. É muito complicado encontrar o equilíbrio entre o que os pais desejam e aquilo que os amigos e os pares querem que o adolescente seja. Muitas vezes, desejam-se coisas completamente opostas e por isso muitos adolescentes vivem uma angústia enorme por não conseguirem agradar completamente os pais (que exigem cada vez melhores notas, até porque cada vez proporcionam melhores meios para chegar a elas; que exigem um comportamento exemplar) e por não conseguirem ser exactamente o que os amigos esperam deles. Há um conflito que, numa idade em que tudo é confuso e doloroso, provoca não raras vezes a sensação de que é impossível existir sem estar a desiludir alguém.

E como se isto não fosse já complicado, os adolescentes ainda assistem a fenómenos que passam por um aumento inexplicável e inaceitável da violência entre eles. Noutros tempos, os problemas por namorados ou namoradas podiam passar por uma bofetada com o/a rival. Agora são murros e pontapés na cabeça dados por mais do que um agressor, enquanto alguém filma e faz desaguar o vídeo nas redes sociais, perpetuando ad eternum a agressão. Aquilo a que todos assistimos quando estas imagens chegam aos canais de televisão e voltamos todos a conversar sobre o mesmo é assustador: é a perda de qualquer respeito pela vida do próximo e é o desejo muito animal e narcisista de mostrar superioridade pela violência. Pelo meio está o pontapeado e o esmurrado a tentar defender-se como pode, provavelmente consciente também de que mais tarde verá o vídeo da sua agressão ser enviado entre amigos, comentado, classificado com “likes”, parodiado... Às nódoas negras somam-se as feridas emocionais que isto provoca em qualquer ser humano, mas que serão sempre maiores em alguém que está naquele limbo esquisito entre a infância e a idade adulta.

Apareceu, como todos já devem ter visto, mais um vídeo com agressões entre adolescentes. Desta vez foi filmado em Almada. No resto, é em tudo igual ao que já vimos: murros, pontapés e uma câmera que filma tudo para a posteridade. Os adultos assistem boquiabertos, os pais de filhos adolescentes tremem com o que vêem e rezam para que nunca tal lhes bata à porta, os que foram adolescentes há pouco tempo sabem que isto acontece e já nem estranham muito. Quase todos esperam castigos pesados, sabendo secretamente que neste país de brandos costumes eles nunca chegam. 

É importante prestar atenção ao que se passa com os nossos adolescentes. Crescer nunca foi fácil, mas sempre foi tido como inevitável. Agora, o crescimento é constantemente adiado (é-se adolescente até mais tarde) e pelo caminho espera-se que o jovem assuma uma série de papéis que entram em conflito com muita frequência. Como disse, conjugar redes sociais, amores, amigos e família (com as expectativas desta gente toda e as possibilidades que hoje em dia têm) é extenuante. Mas nada, absolutamente NADA, justifica a violência selvagem, absurda e vergonhosa a que assistimos nestes vídeos. É preciso educar esta gente, facultar-lhes terapia, pô-los a pensar no que é um ser humano e o respeito que ele merece. É preciso punir exemplarmente quem faz estas coisas (bem como quem as filma) e sarar as feridas a quem as sofre. Crescer é difícil, mas não deve ser impossível.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Quando tudo falta ou o poder de um livro

«No campo de concentração de Bergen-Belsen, os prisioneiros circulavam entre si um exemplar d’A Montanha Mágica de Thomas Mann. Um rapaz lembrava-se do período que lhe era permitido ter o livro nas mãos como “um dos pontos altos do dia, quando alguém mo passava. Ia para um canto para estar em paz e, depois, tinha uma hora para o ler”. Outra vítima polaca muito jovem, recordando os dias de medo e desalento, teve a dizer o seguinte: “O livro era o meu melhor amigo, nunca me traía, reconfortava-me quando eu desesperava, dizia-me que eu não estava sozinho.”»

Alberto Manguel in A Biblioteca à Noite, Tinta da China (p. 208)

Quando tudo falta, quando tudo falha, quando o mundo parece expulsar-nos de cima dos seus ombros, ainda sobram os livros para nos reconfortar. Ao ler hoje este excerto não pude deixar de ter pena de todos os que hoje sabem e podem ler, mas que escolhem não o fazer. Têm milhares de livros por perto, uma possibilidade imensa de aceder a novos textos, contudo dizem com gáudio que ler é “uma seca” e passam uma existência inteira sem lerem um único livro. As vítimas do campo de concentração referidas no excerto mostram um reconhecimento imenso pelo livro que, nem que fosse por uma hora, os levava para mais longe do inferno vivido. Provavelmente, dariam tudo para que esse reconforto permitido pela leitura durasse mais do que sessenta minutos; provavelmente adorariam ter acesso a outros livros e, sobretudo, provavelmente dariam tudo para estarem no sossego do lar com aquele ou outro livro. Não lhes foi possível nada disso. Mas no meio da maior das adversidades, reconheceram que o tempo passado com A Montanha Mágica era um curto tempo de paz em plena guerra. É este o poder dos livros e preocupa-me que sejam tantos os que hoje escolhem não ler, passando uma vida inteira sem sonhar o seja esta sensação de paz mesmo quando tudo arde; esta amizade e confiança transmitidas por um volume de papel passado de mão em mão por tempo limitado durante dias de verdadeiro terror. 


Nota: A imagem saiu daqui.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Livros que quero ler em 2017

Ora, nem seria ano novo se não começássemos já a falar de livros.

Andando por esta internet, deparei-me com esta sugestão de reflexão e decidi pensar um bocadinho no assunto:


Diga-se que não é coisa fácil de se fazer quando nas prateleiras há centenas e centenas de livros para serem lidos. Aquela experiência de saber sempre que livro iria ler a seguir, de sentir (quando se aproximava o fim da leitura do momento) que de seguida apeteceria conhecer o livro A ou B desapareceu conforme as estantes se foram enchendo e enchendo de novos livros. O meu ritmo de leitura não acompanha o ritmo de chegada de novos volumes e isso acabou por fazer-me perder esta capacidade, que quase parecia um instinto, de saber que livro se seguiria. 

Contudo, apesar da farta escolha, há alguns livros que estão cá por casa e que gostaria mesmo de ler em 2017. Convinha ler um bocadinho mais depressa do que leio para conseguir dar despacho a isto tudo (já que não são volumes fininhos), mas vamos ver como vai correr a coisa. Então, em 2017 quero ler:







Assim de repente lembro-me destes. Claro que pelo meio gostaria de ler outros de menor fôlego, coisa mais para entreter do que os monumentos que aqui estão. Mas esses serão escolha do momento numa das minhas viagens às estantes. A ordem de leitura será uma qualquer, que nisto dos livros é a vontade que manda e não um calendário pré-programado. Por enquanto, entro em 2017 com duas leituras que vêm já de 2016. Uma delas é uma leitura que leva quase um ano e que, na verdade, é uma releitura. Leva quase um ano porque é um livro enorme (a vários níveis) e porque é uma edição crítica, pelo que as notas de rodapé são imensas e desaceleram a velocidade da leitura da novela propriamente dita. Falo-vos da maravilhosa e pesada edição do Quijote publicada pela Real Academia Espanhola para celebrar os quatrocentos anos da obra-prima de Cervantes. Já cheguei à segunda parte, pelo que espero terminar ainda antes do final deste ano. Note-se que esta edição está em espanhol do início do século XVII, o que faz deste um desafio ainda maior.


Pendurada, também, vem a leitura de A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel. O livro é MARAVILHOSO para viciados em livros. É mesmo muito bom e fala-nos sobre vários aspectos relacionados com bibliotecas, públicas e privadas; sobre as taras que cada um de nós tem com os seus livros e a sua organização; sobre o modo como a nossa biblioteca pessoal, por maior ou menor que seja, conta muito do que nós somos ao mundo.


Fora isso, vêm penduradas revistas e mais revistas que não consegui ler em 2016. Caramba, mesmo desempregada as vinte e quatro horas do dia não chegam para tudo! E a porra do iPad rouba demasiado tempo. Ainda por cima, nos últimos meses, tenho-me viciado em séries e os livros vão ficando parados. Mas este ano será um novo ano e espero conseguir dedicar tempo a tudo. 

E vocês, o que pretendem ler em 2017?