segunda-feira, 31 de julho de 2017

Peculiaridades de um leitor IX


Uma das coisas que influencia os leitores a comprar ou a deixar um livro para trás é a sua capa. Há capas lindíssimas (algumas delas até em livros muito maus) e há capas terríveis, demasiadas vezes em livros muito bons. Também há quem queira saber apenas do conteúdo do livro e conviva bem com qualquer capa. Porém, dos bons leitores que conheço, todos ficam eriçados como um gato zangado quando vêem uma capa feia num livro que queriam comprar.

Claro que, tirando as capas inequivocamente más como a da fotografia que acima coloquei (e que saiu daqui, onde há outras que vale a pena ver), este conceito de capa bonita ou feita é subjectivo. O que para uns é bonito, para outros é feio e será sempre assim ao longo dos tempos. Contudo, seja como for, a partir do momento em que eu, de acordo com os meus gostos, considero uma capa desajustada a um determinado livro, estou no meu direito de querê-lo ou não na minha estante. Já me aconteceu não comprar uma certa edição porque, por exemplo, tem na capa imagens da sua adaptação cinematográfica, uma mania que considero perfeitamente idiota. Principalmente quando se trata de clássicos, textos que sobreviveram ao tempo, datar as edições com imagens que provavelmente serão engolidas pelo mesmo tempo que consagra o livro é ridículo. Um filme é um filme, um livro é um livro e obrigar os leitores a conviverem com as caras dos actores que protagonizaram a adaptação mesmo quando já passaram trinta anos e já ninguém se lembra dela é, a meu ver, escusado.

Um leitor que se dirija a uma livraria sabe perfeitamente que o que verá em primeiro lugar serão as capas dos muitos livros disponíveis. Inicialmente esse é o elemento que os distingue uns dos outros. As outras diferenças vêem-se com uma análise mais aprofundada: a leitura da sinopse, das primeiras linhas do livros, de paratextos como o nome do autor e os prémios já recebidos (informações que costumam constar da capa e das cintas que por vezes acompanham os volumes). Quantas vezes na história do livro o design das capas de uma determinada edição ou colecção distinguiu e ajudou a tornar ainda mais conhecidos os próprios livros? Quem não recorda a especificidade dos livros da «Biblioteca de Babel», com autores e textos escolhidos por Borges? E a colecção «Vampiro»? E os famosíssimos romances da Livros do Brasil que, durante muitos anos, nos trouxeram clássicos que mais ninguém editava? E hoje, quem não reconhece à distância um livro da Tinta da China ou da Cavalo de Ferro? Quem não reconhece facilmente pela capa um livro da Quetzal? Ou da Relógio D’Água? É que se é verdade que os leitores ainda julgam muitos livros pela capa, então as editoras têm de ter um cuidado redobrado com elas. As capas deixaram de ser apenas aquele componente do livro físico que servia para proteger o miolo para passarem a fazer parte da identidade de uma editora. Cada livro publicado partilha com os outros da mesma chancela ou da mesma colecção, além do logótipo, alguns aspectos gráficos que fazem com que sejam facilmente identificáveis. Assim, as capas ganharam importância ao longo dos tempos. Inicialmente os livros nem as tinham. Havia uma página que funcionava como frontispício e onde surgiam informações como o nome do autor, o título da obra e a casa onde foi impresso. O efeito de protecção não existia e muito menos existia a componente publicitária que as capas hoje têm. Os livros eram comprados pelo que eram e pelo que se dizia sobre eles. Não imagino alguém no século XVII a não comprar o Quixote por não gostar do frontispício do livro... Os encadernadores ainda ganharam algum dinheiro com isto, pois quem o tinha pagava para encadernar faustosamente as edições que comprava. 

Há poucos anos não comprei um livro de Thomas Hardy por considerar que a capa parecia um misto de romance cor-de-rosa com um daqueles livros que têm muitas «Sombras». Prefiro encontrar um dia uma edição mais antiga, mas mais bonita do que conviver com aquela monstruosidade. Para muitos leitores isto é apenas uma mania parva, uma picuinhice. Contudo, para quem vê os livros como um objecto que vai além do texto que traz no seu interior, a capa faz diferença. É verdade que hoje existem belíssimas capas em tecido para protegermos os nossos livros e, se quisermos, escondemos as capas de olhos mais abelhudos. Todavia, o que queremos em primeiro lugar, é que os livros sejam bonitos, atraentes, e que não precisem de ser escondidos. O miolo é muito importante, mas assim como deixo de comprar um livro se a letra for demasiado pequena ou demasiado grande, também deixo de o fazer se a capa for terrivelmente idiota. 

No curso de Edição de Texto que fiz, um dos professores contou várias vezes o episódio que levou a que Lídia Jorge quebrasse o contrato com a Europa-América e tal deveu-se a uma capa que a autora considerou desajustada para um livro seu. O editor não terá tomado em conta esta opinião e insistiu na sua proposta. O caso foi para tribunal e assim a editora perdeu uma das autoras que mais vendia. Esta história foi-nos contada muitíssimas vezes para ilustrar a ideia de que a capa faz toda a diferença e que são muitas, mesmo muitas, as pessoas que se preocupam com elas, por serem precisamente as primeiras coisas que vêem quando encontram um livro à venda. São estas peculiaridades que levam as editoras a valorizar cada vez mais o design dos seus livros porque se elas querem vender, nós queremos comprar e com os livros, como com todas as outras coisas que se transaccionam comercialmente, os olhos também comem. E os dos bons leitores, ao contrário dos dos meros compradores, comem muito mais.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Adenda a "Para quem gosta de ler e de viajar"

Ontem escrevi aqui uma quixotada a partir da capa do Courrier Internacional de Agosto, que foi hoje para as bancas. Já corri a comprá-lo e ao ler o editorial percebi que um dos viajantes que falará sobre a "arte de viajar" é, precisamente, o americano Paul Theroux, autor de livros de viagens já muito referido aqui no blogue. 

Eu não passo de uma turista. Vou aos sítios ver o óbvio, mas há quem procure outras experiências, quem anseie por encontrar a verdadeira cor local de cada país visitado. É isso que Paul Theroux faz nos seus já muitos livros. Caso a revista vos aguce a curiosidade pela obra deste autor (que também inclui alguns romances, embora estes não larguem a ideia de viagem, de fuga, de partida), aqui ficam alguns dos seus títulos em formato "eis o Paul Theroux na minha estante". É publicado (e muito bem) pela Quetzal. Escreveu ainda outros livros que, infelizmente, ainda não foram publicados em Portugal. Mas com estes já têm muito com que entreter-se. 


A Menina Quer Isto XCVII

Isto em português e pela mão da excelente Cavalo de Ferro é outra coisa. Parece que ainda está quentinho, acabadinho de sair:

(Pai Natal, não queres vir cá já em Agosto para depois não vires tão carregado? É só uma sugestão. Pensa nisso.)

Para memória futura dos "felineiros"

Este tipo de móvel de gavetas do IKEA...

...é um constante convite à asneira felina. Aquelas patinhas de algodão enfiam-se nas aberturas das gavetas e quando acordamos de manhã (perdão: quando eles nos acordam com altos miados de madrugada), verificamos não só que as gavetas mais baixas foram abertas como que o seu conteúdo foi saqueado. Vivo, portanto, com dois meliantes!

São agora seis e um quarto da manhã, já fui acordada com grande brutalidade felina há meia hora para vir descobrir no escritório as malfadadas gavetas abertas e uma embalagem de canetas totalmente vilipendiada por seres com unhas e que não têm problemas em usá-las. Bem, pensando de forma positiva: antes no saco das canetas do que na minha pele, que viver com dois pequenos tigres impõe estas concessões. Mas vá, pelo sim pelo não, comprem coisas com puxadores anti-patinhas-ninja. Ou então ponderem, como eu, regressar ao IKEA para trazer de lá as famosas protecções de gavetas... para crianças. Já vale tudo no mundo da anarquia peluda!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Para quem gosta de ler e de viajar

Amanhã estará nas bancas a edição de Agosto do Courrier Internacional e capa já está prontinha para ser namorada:


Embora eu não conheça os leitores do blogue, conheço os blogues de alguns e há duas coisas que têm normalmente em comum: gostam de ler e de viajar. Portanto parece que a edição de Agosto do Courrier Internacional junta ambas as coisas: a leitura e a viagem.

Já há algum tempo escrevi uma quixotada sobre livros de viagens e há poucos dias voltaram a gerar agradável conversa nas caixas de comentários do blogue. É um género de que nem toda a gente gosta. Em parte, creio, pelo facto de ser muito descritivo. É normal: por muito que o autor comente alguns acontecimentos ou passe algum tempo a narrá-los, terá inevitavelmente de escrever momentos de descrição para poder dar a ver ao leitor aquilo que ele encontrou nas suas viagens. E se alguns vêm acompanhados de fotografias que sempre ajudam a entender melhor as palavras do autor, outros nem isso trazem. São, por isso, livros exigentes. É necessária concentração, capacidade de abstracção, imaginação. Muitas vezes faz mais falta um mapa do que as próprias fotografias que frequentemente os acompanham. Aconteceu-me há pouco tempo ler um livro de viagens que não o tinha e cujo itinerário percorria o globo de norte a sul. Os países até nem eram o maior dos problemas. A dificuldade estava mesmo na quantidade de cidades atravessadas pelo viajante, muitas delas pequenas e pouco conhecidas.

Contudo, se lhes dedicarmos tempo, revelam-se livros maravilhosos. Só o facto de descreverem diferentes modos de viajar, desde os projectos mais simples até às iniciativas mais loucas, já os torna ricos e interessantes. Tenho livros cujas longas viagens foram feitas apenas de comboio, atravessando continentes inteiros. Outros há em que a viagem decorre em cargueiros. Alguns recorrem a motas para percorrer África de norte a sul, outros preferem fazê-lo de bicicleta. Muitos recusam-se a usar o avião. Outros partem com um orçamento tão mínimo que começamos o livro a perguntar-nos como não morreram de fome. Alguns autores preferem traçar rotas famosas como a conhecida viagem de circum-navegação. Outros ainda seguem os passos de escritores como Hemingway ou Fernão Mendes Pinto. Existem livros de viagens que já aconteceram há muito tempo e cujas paisagens descritas provavelmente já nem encontraremos. Enfim, existem para todos os gostos. Com jeito dava para termos o globo inteiro representado em livros de viagens pousados na nossa estante.

Para mim, os livros de Paul Theroux são absolutamente encantadores já que juntam a viagem a referências culturais e a uma escrita muitas vezes poética e belíssima. Também gosto dos do eterno Monty Python, Michael Palin, embora sejam sínteses dos programas feitos para a BBC e, portanto, mais apressados do que os de Paul Theroux. Bill Bryson também tem alguns, embora não sejam os meus favoritos, pois escolhe geralmente um tema relativo ao povo que visita e é em torno desse tema que se desenrola a viagem. Como vos disse, há para todos os gostos e podem sempre ler um. Se não vos agradar o género, abandonem-no. Eu gosto porque sei que há experiências que não me arriscaria a ter (sou pouco aventureira) e porque gosto de ver outros pontos de vista tanto sobre lugares onde nunca fui como sobre viagens que também já fiz. Gosto de reconhecer numa descrição alguma coisa que já vi e perceber que há muitos olhares possíveis sobre a mesma coisa.

Viajar é hoje algo que fazemos com relativa facilidade. Felizmente, a viagem através dos livros não impede a viagem física. Pode influenciá-la, pode proporcionar novas ideias, mas jamais se excluirão. Não conheço ninguém que diga «Não vou a Paris porque li um livro sobre essa cidade!». Estes livros são, sim, uma janela para o mundo e para várias formas de o ver. Valerão sempre a pena, mesmo que as viagens estejam cada vez mais baratas e a outra ponta do planeta cada vez mais ao nosso alcance. 

Mas enquanto começam e não começam a ler um livrinho destes, têm sempre este número do Courrier Internacional cujo artigo de destaque partilha o mesmo nome que um livro de Alain de Botton. Viajar já não é só ir do ponto A ao ponto B para fazer qualquer coisa. Já é muitas vezes uma arte que exige conhecimento, muita planificação e uma boa componente de sonho e de vontade. 

E como a partir de tudo o que aqui foi dito se prova que viagem e escrita sempre deram muito bem as mãos, deixo-vos com a famosíssima abertura de um dos nossos mais conhecidos romances, uma verdadeira apologia à viagem, por mais pequena e próxima que seja, e à crónica da mesma. Porque se ler e viajar ainda não são exactamente o mesmo, mas apenas duas coisas que podem complementar-se na perfeição, viajar sem ficar com um registo do que se viu hoje nem sequer é concebível. Actualmente, nós temos as fotografias: o autor tinha a pena e usou-a com grande mestria. 

    «Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

    Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, (Capítulo I)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ler com a Quetzal e outras promoções

Eu sei que estou um bocadinho atrasada e que a promoção acaba hoje, mas quem não conseguiu aquelas pechinchas da Quetzal dos caixotes das promoções na Feira do Livro tem até ao final do dia de hoje para consegui-las na página da FNAC. Clicando aqui, chegarão a uma selecção de livros da Quetzal em desconto. Aí encontrarão, por exemplo, os Raymond Carver a preços fofinhos, como na Feira. Mas, atenção, porque a promoção termina mesmo hoje.


Nota: Ah, e já que estamos a falar de promoções, a FNAC está hoje com 20% em todos os livros, incluindo novidades, e a Wook estará também com 20% e portes gratuitos amanhã. Encham as vossas prateleiras e leiam muito!

Já só faltam nove!

Faltam nove livros para concluir o desafio anula do Goodreads. Começo a pensar que quando chegar aos cinquenta vou ter mesmo de alterar o desafio. O que sugerem? Oitenta? Noventa? Cem até ao final do ano? Vá, sejam meiguinhos a solicitar que eu só tenho dois olhinhos e não vou para nova. 

terça-feira, 25 de julho de 2017

A minha desgraça deste Verão

Eu, que nem costumo gostar de jogos no telemóvel, confesso: estou viciada nisto. Desde os tempos do "Candy Crush", nos idos de 2013, que não passava por tal fixação por um jogo. Ainda por cima mete gatos. Aaaaaai, vida!



Questões de agenda

Ontem à noite vi na RTP3 um documentário sobre cesarianas. Falou-se do procedimento, dos prós e dos contras, dos avanços que a técnica sofreu ao longo dos tempos, mas também da moda em que se tornou. A comunidade médica alemã, por exemplo, mostrava-se preocupada com o aumento drástico do número de cesarianas realizadas sem que houvesse verdadeira necessidade disso. 

O documentário é bastante interessante, porém o que me leva a escrever esta quixotada tem que ver com dois casos apresentados, representativos de tantos outros e por isso mesmo um pouco assustadores. 

Na China, uma mulher de 22 anos começou a pesquisar na internet mal soube que estava grávida. Pelo que leu e pelo que as amigas lhe diziam, o parto natural era muito doloroso e ela não estava para isso. Escolheu marcar e pagar uma cesariana para a qual toda a família contribuiu. Ora, por um pagamento extra, podia escolher a data da mesma. Lá foi ela para a internet procurar dias entendidos como sendo "de sorte" para o bebé nascer. Optou pelo dia dos namorados na China, 7 de Julho. A sogra, ao lado dela enquanto falava para a reportagem, disse que as mulheres agora eram "muito mimadas", que faziam tudo para escapar à dor que sempre tinha sido inevitável nos nascimentos. Eu fiquei a perguntar-me se a sorte que o nascimento naquele dia poderia trazer ao miúdo (caso se acredite nessas coisas) não ficou anulada pelo facto de o nascimento ter acontecido naquela data apenas porque a mãe assim escolheu e pagou para isso. Fiquei a pensar que já nem se tem direito a nascer quanto o corpo assim o pede. Agora vai-se ao Google e escolhe-se o dia em que a cegonha faz a entrega. Enfim...

A outra situação passa-se no Brasil, mas pelo que percebi acontece em vários outros países. Exitem clínicas sem equipas médicas próprias que alugam os blocos operatórios para os médicos fazerem lá os partos das suas pacientes. Ou seja: um obstetra segue uma paciente no seu consultório, mas não trabalha num hospital. Existe a hipótese de alugar um bloco operatório para fazer cesarianas às suas pacientes. Nesses lugares não se fazem partos normais, apenas cesarianas. O documentário explica porquê. É que um parto normal pode acontecer a qualquer momento e prolongar-se por horas. Porém, o médico tem mais que fazer e não pode parar o resto da sua vida profissional apenas para fazer o parto de uma única parturiente. Além de que, se se tratasse de um parto normal, ele poderia ocorrer num momento em que o médico nem pudesse deslocar-se à clínica. Por isso, para rentabilizar o tempo do médico, programam-se as cesarianas para a noite, para quando os obstetras já fecharam os seus consultórios e podem finalmente ir fazer nascer uns bebés. Pior: fazem-no duas semanas antes daquela que seria a data provável do nascimento, quando, segundo a reportagem, ainda faltam alguns dias para os pulmões do bebé estarem completamente  prontos para o nascimento. Não sei que consequências isso pode trazer, mas não me pareceu grande prática. Além de que tudo aquilo era impessoal, na medida em que a parturiente tem de esperar horas até que o médico termine as suas consultas, chegue à clínica com a sua equipa e tenha, então, a disponibilidade para trazer o bebé ao mundo. Mais: ainda existe a possibilidade de ter um fotógrafo a filmar a cesariana. Por um filme de dez minutos e setenta fotografias pagam mais qualquer coisa que não é assim tão pouco. A reportagem dizia que as cesarianas também estão a ser boas para os fotógrafos. Nem consigo comentar isto. 

Eu acho e já o disse aqui várias vezes que vivemos tempos terríveis. Temos acesso a tantas coisas que estamos a desumanizar-nos. O nascimento sempre foi aquele momento natural em que o corpo dava o seu sinal e começava um processo incrível que culminava com uma nova vida neste mundo. Não acho que, existindo anestesias, as mulheres tenham de sofrer tanto como no passado. Se há epidurais que facilitem a coisa, usem-nas. O que me parece de doidos é usar as cesarianas como forma de escolher dias de sorte para os nascimentos dos filhos, pagar para ter o bebé quando dá jeito ao médico, mesmo que umas semanas antes do que seria suposto. Pensei, enquanto via a reportagem, que o mundo é realmente muito triste quando um bebé já nem pode nascer quando assim tem de ser, quando a sua data de nascimento foi previamente escolhida por outros, quando até nasce antes da data prevista por questões de agenda. Parece-me tudo muito estranho, muito pouco natural relativamente a uma coisa que sempre foi tão natural.  Pensei até que os animais chegam a ter mais sorte do que muitos bebés: pelo menos ainda nascem quando assim tem de ser, sem pesquisas prévias no Google e sem fotógrafos profissionais a vender vídeos e fotografias no bloco operatório. 

Eu nasci de cesariana porque achei por bem enrolar-me toda no cordão. A minha mãe conta que lhe rebentaram as águas e que tudo começou naturalmente (ela nem sabia se ia ter uma menina ou um menino). Já no hospital perceberam que eu estava em risco e avançaram para a cirurgia. Na altura ainda a faziam com anestesia geral, portanto a minha mãe nem deu por nada. 

Neste caso, a cesariana salvou-me a vida e eu sempre a entendi assim: como um procedimento utilizado quando o nascimento não pode acontecer pela via normal. Sempre entendi que primeiro se tentasse o parto normal e só depois a cesariana. Ou que, havendo já razões médicas para crer que um parto normal não correria bem, se partisse logo para a cesariana. Nunca vi a cesariana como uma comodidade de agenda ou como uma maneira de um filho nascer num dia considerado de sorte em vez de estar sujeito ao aleatório da coisa e nascer quando tem de ser e pronto. 

A nossa humanidade, capaz de grandes invenções, está a desumanizar-nos e a conseguir tornar pouco natural aquilo que de mais natural existe nas nossas vidas: o nascimento. Vivemos tempos inacreditavelmente paradoxais: sabemos tanto sobre tantas coisas e mesmo assim optamos por deixar de lado o que é mais natural e fisiológico para nos rendermos ao que dá jeito. Camões é que sempre o disse bem: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e até muda a própria mudança. Nem sempre para melhor, diria eu. 

A Menina Quer Isto XCVI


Sinto uma certa curiosidade relativamente a este livro. Pelo que percebi consiste numa série de textos que abordam a ideia de "sonho americano", tendo sempre em vista um livro da literatura norte-americana. Esta navegação à vista feita pela autora não se resumiu, contudo, às leituras que poderia fazer no recato da sua casa. Ela é feita, também, da própria viagem de um ano que Isabel Lucas realizou pelos vários estados dos E.U.A., criando assim uma mistura entre literatura, paisagem e política, à qual tomou o pulso in loco e numa altura em que os americanos eram chamados a tomar uma decisão (da qual já se devem ter arrependido, diga-se). 

Por tudo isto, sim, sinto mesmo uma curiosidade que cresce quanto mais penso no assunto. Ficaria bem na minha estante dedicada à literatura de viagens. 

E a vocês, o que vos parece? O livro, claro, e não se fica bem na minha estante que isso é garantido!

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Problemas de Física

Eu hoje abri um saco de areia de 16 quilos.


Despejei alguma para uma das caixas que já estava a precisar e coloquei o resto em baldes para ir usando. Mas o saco manteve-se estranhamente pesado. Pensei que as leis da Física tinham sofrido um atentado qualquer. Porém, depois percebi que o saco só tinha perdido dez quilos. Os outros seis ainda estavam lá dentro...


...só tinham mesmo mudado de forma e de matéria.

sábado, 22 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCV


A menina quer isto. Nem tem muito mais a dizer sobre o assunto. Talvez só notar que ainda falta muito para o Natal, mas que me tenho portado tão beeeeeeem...

(A Quetzal ainda será o meu fim!)

Grumpy

Saímos para comprar areia. Voltámos com 32 quilos de areia e com isto:


O Grumpy tem proporcionado por aqui grandes sessões de acrobacias. Atrevo-me a dizer que Lady Gatica está embeiçada por ele uma vez que o rouba de qualquer sítio onde o deixemos. E se não o vê, resmunga, que foi só o que fez enquanto almoçámos. Chegou a empinar-se para ver se o tínhamos em cima da mesa e tudo. 

Grumpy, o gato que quebra corações!

Nota: A Zu, loja de animais em frente ao Continente do Colombo, é uma perdição. É pena os brinquedos serem tão caros. Se não fosse esse importante pormenor, trazia a loja toda. Curiosamente, a areia da Always Cat Litter é mais barata por lá. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A família completa vinte anos depois

Teria eu uns doze anos quando a minha irmã me ofereceu este livro:


Se pensar nas leituras da minha infância/adolescência, os diários deste hipocondríaco e azarado jovem inglês estarão como aquelas de que me recordarei imediatamente. O humor, a ironia, o sarcasmo, mas também outros pormenores que ali pelo meio nos mostravam como era a vida inglesa pela mão da senhora Thatcher tornavam estes diários absolutamente fenomenais. Ri-me muito com o pobre Adrian Mole e ainda hoje me lembro de algumas das suas frases. Melhor: uso-as no meu dia-a-dia.

Depois deste, a minha irmã ofereceu-me os outros que foram saindo. Mais tarde comprei eu aquele que julguei ser o último da colecção, Adrian Mole na idade do cappuccino. O protagonista já era adulto, embora continuasse hipocondríaco e com pouca sorte. Segui com o mesmo interesse as personagens a que já me habituara e dei por terminadas as minhas aventuras com Adrian Mole.

Mas depois, anos mais tarde, soube que saíra mais um livro, publicado novamente pela Difel. Não o comprei logo e pouco tempo depois a editora fechou e o livro desapareceu das livrarias. Estava impossibilitada de saber como terminariam, enfim, as desventuras deste anti-herói inglês que falha redondamente tudo aquilo a que se propõe. Procurei, procurei e ainda tive alguma esperança quando a Editorial Presença começou a reeditar os diários de Adrian Mole. No entanto, há duas feiras do livro consecutivas que passo pelo pavilhão da editora para ouvir sempre a mesma resposta: não, esse não está publicado nem sabem quando estará.

Bom, num destes dias deu-me uma iluminação divina lembrei-me de espreitar o OLX e lá estava ele: Adrian Mole e as Armas de Destruição Maciça, à venda por seis euros. Na esgotadíssima edição da  Difel e assim nem sequer diferiria graficamente dos outros volumes que já tinha. Mandei vir e eis que  uns vinte anos depois a colecção fica completa e eu poderei terminar uma leitura que começou quando eu era ainda mais nova do que o protagonista. Maravilhas dos livros! Ei-lo já cá em casa, prontinho para ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu:


quarta-feira, 19 de julho de 2017

«Quási»

Um pouco mais de sol - eu era brasa, 
Um pouco mais de azul - eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num baixo mar enganador de espuma; 
E o grande sonho despertado em bruma, 
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido... 

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim - quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão! 

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... - 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou... 

Momentos d'alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar... 
Rios que perdi sem os levar ao mar... 
Ânsias que foram mas que não fixei... 

Se me vagueio, encontro só indícios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; 
E mãos de herói, sem fé, acobardadas, 
Puseram grades sôbre os precipícios... 

Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa, 
Um pouco mais de azul - e fôra além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

terça-feira, 18 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCIV

A menina gosta de poucos perfumes, mas quando gosta, ama mesmo. Hoje passei na Perfumes & Companhia e, perante a minha incapacidade de gostar dos perfumes que me eram apresentados, a funcionária foi buscar a bomba atómica: um perfume chamado «Midnight Rain». Disse que era daqueles que primeiro se estranhavam, mas que depois adorávamos e que bastava uma só gotinha para durar o dia todo. Céptica que sou, achei que era banha da cobra. Inicialmente, não gostei logo do cheiro. Depois o odor melhorou na pele e é MARAVILHOSO. Já tomei banho e tudo e continuo a sentir o perfume. Considerando que a minha pele deixa logo de cheirar a perfume mal acabo de o pôr, isto acaba por ser milagroso. É tão fora de série que a marca, La Prairie, só fez embalagens de 50 ml. Que custam mais de cem euros... Mas pronto: posso um dia tropeçar num boletim premiado do Euromilhões. E também sonhar e querer não custam dinheiro, não é? Valha-nos isso.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Poupança

Lembram-se de vos ter contado que com uma rifa de cinquenta cêntimos comprada num evento organizado pela clínica veterinária a que costumam ir os meus patudos ganhei um ano de desparasitação (ou melhor: pipetas para a desparasitação durante um ano)? Bom, eu ainda fiquei a pensar que seria só para um dos peludos porque me parecia sorte a mais ser para os dois. Mas não: é mesmo um ano de desparasitação para os dois. Sorte a dobrar, portanto. Já tenho as caixas das pipetas cá em casa e, a juntar às duas pipetas que tinha para a desparasitação de Agosto, só volto a precisar de gastar dinheiro naquilo em... Outubro de 2018. Porreiro, não?

Não me lembro ao certo, mas creio que cada caixa custa mais de trinta euros. Recebi quatro. É fazer as contas como diria o outro, mas parece-me uma excelente poupança. 

O Duplo - o balanço (possível)

Estou aqui há algumas horas diante do ecrã a pensar sobre o que vos dizer e como falar do livro O Duplo, de Dostoiévski e não cheguei a conclusão nenhuma. Quando um livro é tão vertiginoso e ambíguo, o que dizer sobre ele? Nada de ideias definitivas, nada de conclusões interpretativas, nada. Há três ou quatro questões que levantei a mim própria, mas não passam de dúvidas. Dei uma voltinha pela internet para ler opiniões alheias. Não gostando do que vi em Português, passei às opiniões de leitores espanhóis e fiquei contente por ver que não fui só eu a ficar com a cabeça num nó ao ler este livro. Creio que a ideia do autor seria mesmo essa, a de levantar dúvidas tão embrulhadas que chegamos ao fim da leitura a perguntar «O que raio se passou aqui?».

Ao fecharmos o livro, a grande questão é: quem é este duplo? Mas mais ainda: este duplo existe mesmo? O que pode provar a sua existência? Podemos confiar no protagonista para acreditar na existência de um duplo? Sempre aprendi que devemos desconfiar de narradores bêbados ou com doenças mentais, obsessões e afins. Neste caso, o problema não está no narrador, mas no protagonista que, desde o início, assume que só usa uma máscara em determinadas circunstâncias. Quem nos garante que este duplo alegre, divertido, cativante - precisamente o oposto do «original» - não é, precisamente, a máscara que ele assume colocar apenas em alguns momentos? Na realidade, poucas ou nenhumas são as provas de que esse duplo exista fora da cabeça do senhor Goliadkin, funcionário público de baixo estatuto. Ao longo da leitura, e atentando nas falas e nos pensamentos do protagonista, pensei várias vezes que ele estava a deixar-se enlouquecer e que era um «desencaixado» da realidade, ou seja, tudo o que dizia e fazia diante de terceiros corria mal, saía ao contrario do que devia sair e era, por isso, desenquadrado daquilo que a sociedade esperaria. Se falava, enrolava-se nas palavras e acabava por sentir-se mais angustiado depois de tentar resolver certas situações do que se nem tivesse tentado esclarecer nada. Além disso, uma personagem que pára um dia supostamente alegre para ir chorar sobre o ombro do seu médico e que recebe como conselho fazer-se amigo da garrafa e soltar-se mais não pode estar bem. 

Todavia, estas pistas só colocam questões. Não creio que existam respostas definitivas para o que realmente acontece com este senhor Goliadkin. Um bocadinho como o Bentinho e a Capitu, de Machado de Assis, que deixarão para sempre a dúvida sobre a existência de traição ou não. Cada leitor entenderá os acontecimentos à sua maneira e viverá com as suas dúvidas e certezas no final.

Mas afinal, o que se passa neste livro de Dostoiévski? Um funcionário público de baixo estatuto prepara-se para um dia de luxos proporcionados por um considerável valor em dinheiro que tem na carteira. O objectivo final é o de comparecer na festa de aniversário da filha do seu chefe. A meio do dia, ou melhor, em boa verdade ainda antes de iniciar a verdadeira preparação para o evento social do final do dia, pára para conversar com o seu médico, mantendo um diálogo que aponta algumas pistas na direcção de uma fraca estabilidade mental deste senhor e de um desenquadramento relativamente ao que é apreciado pela sociedade. É, pois, nesse momento que é aconselhado pelo médico a fazer-se amigo da garrafa e a sair mais à noite, o que nos leva a crer num fechamento excessivo desta personagem, numa existência triste e diferente daquilo que seria a de outros (e a que seria tida como «saudável»). Depois, o senhor Goliadkin dirigir-se-á, enfim, a casa do seu chefe, da qual será escorraçado por não ter sido convidado para a festa da jovem Klara. Ainda assim, acabará por arranjar maneira de entrar contra a vontade do anfitrião e causando uma situação embaraçosa para a sociedade russa ali presente, mas sobretudo para aquele indivíduo que parece não encaixar plenamente em lugar nenhum. Depois de ser conduzido à rua, o protagonista cruzar-se-á, na sua deambulação, com uma figura que aparenta ser igual a si mesmo, o que o transtorna. Mais transtornado ficará quando vir, no dia seguinte, que este seu duplo ingressa na mesma repartição em que é funcionário, mas sem que os outros dêem verdadeiramente pelas suas semelhanças. Só quando ele chama a atenção para esse facto é que uma das personagens com quem conversa afirma que sim, que existem algumas parecenças. Mais estranho ainda é o pormenor de este duplo ter o mesmo nome que o senhor Goliadkin e ser proveniente da mesma aldeia. Contudo, será o que os separa aquilo que mexerá verdadeiramente com o protagonista: se em aparência são iguais, à mediocridade e à pouca alegria do senhor Goliadkin «original» contrapor-se-á um modo de ser totalmente diferente do duplo, alguém que sabe fazer-se querido pelos outros. No fundo, a sensação que fica é a de que este duplo é aquilo que o senhor Goliadkin não é. É como se existisse outro senhor Goliadkin para conter a parte positiva e feliz que no original não existe. Mas voltamos ao mesmo: afinal este duplo existe mesmo ou é efeito de uma enorme desilusão para com a vida, misturada com uma boa dose de loucura que vai crescendo, crescendo, crescendo até ao momento em que a única solução é afastar o senhor Goliadkin da sociedade? Não sei. Aliás, sei poucas coisas relativamente a esta obra literária que, de tão magistralmente escrita, deixa os seus leitores em dúvida há muitas décadas. Os leitores terão as suas teorias, mas poucas certezas. Na minha opinião, o duplo será simultaneamente alguém que nunca existe e alguém em quem o senhor Goliadkin projecta a sua própria imagem e o consequente desconforto e ciúme. É esse o processo que o conduz à insanidade: o de não ser aceite e de projectar noutro tudo o que devia ter e não tem. Mas pior: o de tentar lutar contra esse outro que poderá não ser mais do que uma ideia sua que as outras personagens não vêem como ele vê. Porém, uma outra interpretação poderia entrar mais no campo do fantástico e admitir que sim, que esse duplo que inferniza a vida do pobre e apagado senhor Goliadkin existe mesmo e atormenta o nosso herói até o fazer sair de cena.

Portanto, o meu balanço é a inexistência de um balanço. É Dostoiévski a recordar-nos por que motivo é um dos maiores da literatura universal. É um autor a saber quebrar-nos enquanto leitores chico-espertinhos que somos, a saber lindamente como trocar-nos as voltas e a deixar-nos desconcertados com a impossibilidade de respostas definitivas para as dúvidas que o texto nos coloca. Se puderem, leiam este livro e procurem vocês mesmos as respostas que eu não vos consigo dar. Assistam à queda de um homem que não cai de cima de nada porque ele já começa por baixo de tudo. Vejam como uma sociedade altamente hierarquizada trata aquele que se encontra perto da base da pirâmide; procurem perceber o que faz a um ser humano a sensação perene de que não está à altura, de que nunca é o que devia ser, embora também não seja dado a usar máscaras, nem tenha qualquer talento para isso. Lembrei-me muito de Kafka e de Pirandello ao ler este livro. Desafio-vos a lerem-no também e a tentarem perceber a razão pela qual recordei dois outros grandes autores ao ler a história triste do senhor Goliadkin. Não será tempo perdido.


«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»*

Hoje fui ao parque com a minha mãe e a minha sobrinha pequenita. Ela andou para lá a brincar e a minha mãe esteve por ali para a ajudar sempre que era preciso, ou porque o balouço não se mexe sozinho, ou porque subiu demasiado e descer já assusta, ou porque entrou uma pedrita na sandália e é o fim do mundo... O que for. Ao mesmo tempo andava por lá uma menina pequenita, filha de uma moça que conheço de vista desde sempre até porque é irmã mais nova de uma antiga colega de escola. A tal moça é alguns anos mais nova do que eu e a menina teria sensivelmente a idade da minha sobrinha. Ela pediu à mãe para que entrasse para dentro do parque com ela quando viu que a minha mãe entrava com a neta. A mãe entrou e sentou-se num banco que lá está. Até aí nada de grave.

O que leva a que esta quixotada exista é o facto de que a mãe da pequena não largou o telemóvel um instante enquanto lá esteve, mesmo quando a filha falava com ela e lhe pedia ajuda por algum motivo. Em determinado momento saiu mesmo do recinto do parque, foi sentar-se a falar ao telemóvel do lado de fora e a menina acabou por sentar-se amuada no chão. Triste e com razão, acho eu, porque para aquilo não faz falta ter por ali a mãe.

Os telemóveis tomaram conta da nossa vida e cada vez menos sabemos parar, erguer o olhar e ver o que está à nossa frente. Eu não tenho filhos, mas parece-me que estes serão sempre muito mais importantes do que a actualização do Facebook ou do Instagram, mais importantes do que o que possa surgir no ecrã do telemóvel. Enquanto a minha sobrinha esteve sempre acompanhada, andou no que quis e teve toda a ajuda de que precisou, a outra menina recebeu respostas enquanto os olhos miravam um smartphone. A mãe estava, mas não estava. E é isto.

Tive em tempos um aluno que me chorou no ombro porque o pai ia aos seus jogos de andebol ao fim-de-semana e levava o portátil com ele. Ia, mas não via o jogo, não via o filho, não via nada além de um ecrã. E porque fora isso também parecia não ligar a nada do que o filho fazia, as lágrimas foram imensas. Era já um adolescente quando isto aconteceu, portanto os anos de desilusões sobre desilusões eram já imensos. Parece-me que como ele haverá por aí muitos meninos e meninas que poderão queixar-se do mesmo. E existirão cada vez mais à medida que o ser humano se deixa engolir mais e mais pelas tecnologias disponíveis. 

Um dia aquela menina crescerá e já não irá ao parque. Talvez a mãe lembre com saudades esses tempos de que não terá muito mais para recordar além da voz da filha de dos muitos pixels do telemóvel.

* Frases de José Saramago e epígrafe do conhecido Ensaio Sobre a Cegueira. Cada vez funcionam mais como conselho a seguir.

sábado, 15 de julho de 2017

Chora, Camões, chora... XI

Esta quixotada... É dedicada... A todos aqueles... Que consideram... Que o abuso... Das reticências... Quando escrevem... Acrescenta... Profundidade...  E sentido... Ao... Que... Dizem...

Mas... Não... É apenas... Muito estúpido... E... Sinal de... Que não... Sabem... Escrever... E... De... Que padecem... De uma... Imaturidade... Do tamanho... Do mundo... A profundidade... Vem... Do conteúdo... E do uso... De uma... Pontuação... Correcta... Não... Será com certeza... Do uso... Ridiculamente... Exagerado... Das reticências... E... Se eu pudesse... Enrolava o Expresso... De hoje... Com os... Cadernos todos... Para ficar... Um rolo... Grossinho... E... Dava... Com ele... No lombo... De quem... Escreve... Assim... Enquanto... Gritava... "Não faz isso"... "Não faz isso"...

(Acho... Que gastei... O... Plafond de... Reticências... Do século... Todo...)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A conta

Se eu um dia me atrevo a apresentar ao Senhor Gato a conta relativa a tudo o que ele já partiu/destruiu desde que era deste tamanho,


creio que passa ele a assumir a lavagem da louça para o resto da vida!

Adenda: Esqueçam, não vou apresentar conta nenhuma. Ele lavaria a louça com a língua. E o hálito do bicho é de morte...

Zombie

Acordei às 4:50 da madrugada. Não consegui dormir mais. Vi o sol nascer e tudo. Estou em modo zombie. Lady Gatica dorme ferrada ao meu lado, faz um calor desgraçado colada a mim com aquele pêlo todo, mas não me pega o sono. 

Palavra que cada vez odeio mais as noites. E pensar que há uns anos, antes de me estourarem com os nervos e com as noites, dormia como uma pedra a noite inteira. De facto, na vida, "todo cambia". 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Bem lançada

Avisou-me hoje o Goodreads de que estou a doze livros de atingir a meta de leituras a que me propus no início do ano. Está bem que nivelei a coisa por baixo e comprometi-me a ler cinquenta livros em 2017, mas mesmo assim, considerando que faltam cinco meses e meio para acabar o ano, posso dizer que vou bem lançada. Com jeitinho podia duplicar a coisa e terminar o ano com uma centena (ou pelo menos lá perto) de livros lidos. 

Note-se que nisto da leitura interessa mais a qualidade do que a quantidade. Contudo, quando se tem uma lista de espera de centenas de livros para ler, o avanço que se dá às leituras a cada ano que passa ganha a sua importância. E 2017 está a ser um ano de boas leituras. Desde já destaco o maravilhoso Anna Karenina como o melhor livro que li este ano. Ainda assim, outros houve que me ocuparam horas deliciosas, como o Incidente em Antares, de que falei há pouco tempo, o Quincas Borba ou mesmo o Sancirilo, de A. M. Pires Cabral. Não há nada como ler bons livros e ocupar o cérebro com cenários diferentes do nosso, com figuras de papel que tomam decisões que nos fazem pensar, com as quais concordamos, discordamos e aprendemos a pensar (algumas pessoas são imunes a esta parte). 

Portanto, sigam as leituras que ainda faltam doze livrinhos para dar o desafio por terminado. No próximo ano a ver se alargo um pouco o número de livros que me proponho a ler. Há ali muita estante para debulhar: pois vamos a elas! Por agora sigo calmamente com a biografia de Einstein e com O Duplo, de Dostoiévsky. Muuuito calmamente, que sou leitora lenta. 

Da inveja

Temos hoje o mais fácil dos acessos à cultura, à leitura, à informação. São cada vez mais as pessoas que estudam muito além da escolaridade obrigatória. Enfim, temos tudo para ter uma sociedade informada, com um espírito crítico aguçado, capaz de dar e de sustentar opiniões.

No entanto, fazendo uma rápida viagem pela blogosfera e pelas redes sociais, encontramos exactamente o oposto. Gente que recorre ao insulto, à ameaça, ao palavrão para comentar qualquer coisa; gente que, quando confrontada com opiniões contrárias, deixa de saber argumentar e parte para a pura ignorância; gente que, perante uma crítica, em defesa dos bloguers ou de figuras públicas apenas consegue dizer «Vocês têm é inveja.». Esta quixotada é sobre os comentadores que vêem inveja em todo o lado. Pessoas que, se forem à praia, encontram a inveja debaixo da toalha. Pessoas que conseguem comentar dez posts no Facebook com «Tens é inveja.». Pessoas que balbuceiam «inveja, inveja» enquanto dormem. Enfim, gente tonta e de vocabulário reduzido.

Não é difícil encontrar estes GPS’s da inveja. Basta seguirem um blogue conhecido e abrirem os comentários. Sempre que alguém comentar dizendo que não gostou de alguma coisa leva logo como resposta um «Tu tens é inveja por não seres como ela.». A bloguer até pode estar vestida de palhaça, com uma caçarola na cabeça e um saco de farinha em cada pé que, invariavelmente, basta alguém com dois olhos na cara comentar com um «Não gosto lá muito do conjunto.» para vir um defensor aguerrido soltar o pseudo-argumento da inveja.

No Facebook a mesmíssima coisa. Se aparece uma notícia sobre um qualquer famoso que fez um disparate qualquer e alguém comenta que aquilo não se fazia ou não se dizia, pouco depois salta da moita o tigre defensor arremessando o maravilhoso ataque da inveja. Ou seja: algumas pessoas são incapazes de ver que outros, geralmente figuras públicas, são tão seres humanos como nós e que por vezes lhes foge a mão para o disparate, seja na roupa que vestem, seja nas coisas que dizem, seja nas acções que fazem. Perante a crítica de outros (frequentemente também ela bastante dispensável), atiram a logicazinha da inveja. Se eu achar a Cristina Ferreira uma pindérica e o disser, imediatamente virá alguém dizer que eu tenho «é inveja». Ou seja: parece anti-natura eu não apreciar o estilo dela (e estou a usá-la meramente como exemplo, podia escolher muitos outros) e, se assim é, só pode dever-se a um defeito meu, neste caso a inveja. Aparentemente todo o mundo pode detestar-me a mim, que sou uma reles anónima, pode odiar o que visto, pode gozar comigo que ninguém vem em minha defesa. Aí não é inveja, se calhar até é merecido. Mas se for com uma figura pública, alto e pára o baile: é inveja pura, inveja feia, inveja ruim! Mas isto faz sentido a alguém?

Além de este arremesso da palavra «inveja» para a esquerda e para a direita estar ao nível do que fazemos nos pátios das escolas aos cinco ou seis anos e de funcionar como argumento assim mais ou menos como funcionava a varinha mágica que se me avariou e foi para o lixo na semana passada, é absolutamente estúpido porque não, não é inveja o que sentimos quando vemos ou lemos um disparate feito por alguém conhecido. Frequentemente é mesmo sentido da realidade e capacidade de perceber que aqueles seres humanos (porque é isso o que eles são e não divindades lançadas sobre a terra para entreter a humanidade) também fazem disparates, sejam eles inocentes quanto uma roupa mal escolhida ou um bocadinho mais graves. Francamente, perder tempo a comentar tais notícias já nem faz muito sentido, mas, enfim, há quem o queira fazer e, assim, existe o direito de discordar com tal atitude. Quando alguém coloca quase diariamente a sua roupa para ser vista pelo público, corre o risco de ter opiniões favoráveis e outras menos positivas. Desde que exista educação no que se diz, desde que não se ofenda ninguém, parece-me natural que quem está lá diariamente para aplaudir também se sinta no direito de dizer «Hoje não gosto tanto.» sem que um papagaio lhe caia em cima a grazinar «inveja, inveja, inveja». Não é inveja, senhores: são dois olhos na cara! 

É ridículo este mundo digital que nos tem sido dado nos últimos anos. Nunca tivemos tanto para comentar, mas ao mesmo tempo nunca fomos tão penalizados por fazê-lo. Um dia destes também tenho de falar aqui sobre o modo como os blogues e as redes sociais têm adulterado na cabeça de pessoas pouco inteligentes o significado de «liberdade de expressão», mas ficará para outro dia. Para já fico-me pelo fenómeno da inveja que é qualquer coisa que me mexe nos nervos. Esta gente que faz a defesa (de forma ridícula) de figuras públicas que sabem que, infelizmente, na sociedade de hoje tudo o que fazem ou dizem é minuciosamente escrutinado, não percebe que tais figuras não precisam da sua defesa e que não lhes ligam um caracol? Mais: são incapazes de perceber que há quem esteja demasiado bem com a vida que tem para sentir inveja de uma figura pública? Será que as pessoas divinizam assim tanto essa gente que não são capazes de ver que, como qualquer ser humano, também erram? Por que motivo quando eu erro sou estúpida e quando eles erram eu tenho «é inveja»? Porventura haverá seres humanos de primeira e de segunda? Ainda alguém considera isso?

Enfim, é o mundo que temos. Temos tudo para sermos críticos, para pensarmos nas coisas, para sabermos o que merece que percamos o nosso tempo e o que não vale sequer um relance de olhos, mas há quem não faça uso deste presente que os tempos nos ofereceram. Há quem prefira viver uma vida nas redes sociais a defender heróis que não o são de comentários que muitas vezes não têm um pingo de maldade, que são apenas discordâncias normais porque não gostamos todos do mesmo (não me refiro, claro, a quando as pessoas são más e ofensivas). E isso é triste. Nunca tivemos tanto por onde aprender e por onde desenvolver o espírito crítico e aproveitámos tão pouco. Vivemos tempos paradoxais, de facto.


Nota: Dito isto tudo, aviso já que responderei a qualquer comentário menos simpático com um «tens é inveja». Ahahahah!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Chora, Camões, chora... X

Uma pessoa é acordada de manhãzinha pelos felinos, dá uma voltinha pela actualidade e dá de caras com uma vírgula magnificamente entalada entre o sujeito e o predicado. É de pesadelo, não?

Ora vejam lá a frase que seleccionei.


Pânico no Scala - o balanço


Terminei hoje a leitura dos contos que compõem o volume intitulado Pânico no Scala, da autoria de Dino Buzzati e publicado pela Cavalo de Ferro. O nome da obra é, na realidade, o título do primeiro conto do livro e posso dizer que «pânico» ou «medo» são mesmo as melhores palavras para sintetizarmos o conteúdo destes contos, se é que tal coisa é possível.

Contos como «Pânico no Scala», «O Monstro», «O Sótão» ou «Uma Gota», apenas para mencionar alguns exemplos, abordam a questão do medo, muitas vezes do medo irracional, que não se explica e que só cresce. Um medo que pode nem ter razão para existir, mas que está lá, soprando-nos o susto, o terror de que algo aconteça, impedindo-nos de viver em paz. No primeiro conto, por exemplo, existe o medo de que um grupo extremista ponha Milão a ferro e fogo na noite em que se levaria a cena O Massacre dos Inocentes (nome sugestivo, diga-se) no Scala. O protagonista deste conto é um antigo maestro, Claudio Cottes, que, aos poucos, vai sendo introduzido a essa nova realidade de um movimento que ambiciona «derrubar a ordem estabelecida» (p.10). Gradualmente, vai ficando a saber que o seu filho poderá estar em perigo e, assim, uma noite que se adivinhava ser de espectáculo, torna-se numa noite de susto em crescendo. Mais: essa noite acabará por formar uma pequena sociedade de homens e mulheres de diferentes proveniências e que se vêem sitiados dentro do próprio Scala de Milão. E, como a humanidade já nos habituou, quando algum grupo corre risco, o grupo dos que correm menos risco afasta-se e entrega o primeiro aos bichos. Convenhamos que já vimos isto na história mundial. Assim, o pânico do título vai estar presente ao longo de todo o conto, aumentando de intensidade e chegando ao paroxismo quando Cottes, por amor ao filho, decide tomar uma atitude. O final pode deixar-nos desconcertados (embora eu já o esperasse), uma vez que, quando finalmente se sai da protecção do Scala e se chega à rua, nasce a dúvida: afinal o medo tinha motivos para existir ou foi tudo fruto de uma espécie de paranóia colectiva? Fosse como fosse, serviu este medo para mostrar o Homem no seu pior, entregando outros como carne para canhão desde que isso fosse garantia da salvação da própria pele.

Outros contos abordam o medo. Diria até que quase todos e em muitas situações fiquei a pensar que aquele medo poderia ser mero produto da mente e não fruto de algo lógico que causasse susto. Diria que em muitas circunstâncias acontece como no primeiro conto: terminamos a leitura com a dúvida sobre a existência real dos motivos para ter medo ou sobre a possibilidade de ser a mente das personagens a primeira causadora de tais pânicos. O medo pode ser uma resposta a algo que tememos, mas também pode nascer da imaginação, pode ser «feito» por nós. Também encontramos a culpa nestes contos. Mais precisamente a culpa como alguma coisa que facilmente leva ao medo e, pior, ao pânico. 

Estes contos de Buzzati são curiosos precisamente por tocarem num ponto tão particular como este do medo criado e alimentado até mais não se poder. A escrita é bonita e poucas vezes aborrecida. No entanto, parecem-me textos que não devemos ler com sono sob pena de deixarmos passar momentos de reflexão ou de descrição do narrador. Houve contos que me souberam a pouco. Gostaria que continuassem e que tivessem um final óbvio e não uma dúvida que fica em aberto. Mas, se assim fosse, seriam outras histórias e não seriam de Dino Buzzati, com certeza, porque me parece que esta dúvida que paira, esta fronteira meio indefinida entre o fantástico e o real, entre aquilo que existe e o que pode existir fazem parte do estilo do autor e servem, entre outras coisas, para semear a confusão no leitor e uma certa inquietação que faz pensar sobre o que se leu. Sem esta sensação estranha que vai ficando, o impacto dos contos sobre o leitor não seria o mesmo. Se soubéssemos pelo narrador que aquele monstro de que se fala é mesmo um monstro, o conto seria outro, a dúvida dissipar-se-ia e não haveria dúvidas quanto à sanidade de quem julga que o viu. A interpretação seria outra, estaríamos apenas no domínio do fantástico e isso deixaria de fora a dúvida e as atitudes estranhas dos que rodeiam a protagonista.

O livro é barato, por isso podem facilmente ler estes contos. Não vão dar o vosso tempo como perdido. E preparem-se para ver como o medo pode ser infundado, disparatado, mas também um problema sério, capaz de fazer notar o que de pior existe no ser humano.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCIII


Já disse várias vezes que a Cavalo de Ferro está no top 3 das minhas editoras favoritas. Pelo catálogo, pelo cuidado com os livros, pela simpatia dos funcionários que ano após ano me atendem na Feira do Livro... E porque vai lançando livros que são verdadeiras delícias. Tenho uma boa parte do catálogo desta editora cá em casa, mas gostava mesmo de o ter todo. Na impossibilidade disso acontecer, pelo menos gostaria de ter esta novidade que, pela sinopse, me parece muito boa. Duas pessoas, dois feitios absolutamente opostos casam-se e, claro, essa união acabará por trazer a discórdia. Mas traz, além disso, o ciúme e a desconfiança a um nível que nem a morte resolverá. Ainda segundo a sinopse, a escrita revela algum humor, mas também alguma melancolia. Talvez aquele desconcerto que sempre surge quando olhamos em frente e vemos alguém tão diferente do que somos que não conseguimos compreender. Enfim, a menina quer muito isto. 

Para os donos de patudos

Ontem estive, como disse numa quixotada anterior, num evento para animais de estimação e respectivos donos. Fui em representação dos dois felinos que preferiram ficar a dormir, como de costume, aliás. Bom, neste evento havia várias banquinhas com produtos e acessórios para os nossos bicharocos de estimação. Depois de umas voltinhas por ali, acabei por fazer duas compras muito porreiras e, como acho que tudo o que é bom merece ser divulgado, vou falar-vos delas.

Adoro ímanes para o frigorífico e até me estavam a fazer falta mais alguns para poder pendurar a papelada toda que por lá está. Eis que numa das bancas descubro a «i love my stickers» (vejam aqui). Comprei dois que, além de ímanes, são abre-caricas. O chamado dois em um, portanto. E têm-nos com imagens de gatos e cães, mas também com frases muito engraçadas. Além disso, a menina que me atendeu explicou-me que podem fazê-los personalizados, se tivermos uma fotografia do bicho e lha fizermos chegar. Além de ímanes, têm outros produtos interessantes que deixam os donos dos patudos loucos. Pins, t-shirts, autocolantes e outras coisas podem ser vistas no link que vos deixei acima. Aí, na página de Facebook da marca, também poderão ver a foto que aqui deixarei e que mostra ímanes que são ao mesmo tempo abre-caricas. Eu comprei com frases sobre gatos, mas dá para terem uma ideia. E podem sempre personalizar com o vosso companheiro de quatro patas: é só contactarem a marca.


Também havia uma barraquinha da Doglicious (visitem aqui a página no Facebook). Quando vi os seus bebedouros em suportes de madeira fiquei encantada. Primeiro porque já andava a pensar em mudar os bebedouros dos bichanos já que, sendo baixinhos, a água sujava-se muito com pêlo, principalmente nesta altura de muda. A ideia até era a de comprar uma fonte, mas com gatos tão esquisitos, andava com receio de que a mudança não fosse bem aceite. Entretanto, ontem vi e trouxe para casa este bebedouro que foi bem acolhido pelos bichados ao fim de dois minutos de ser colocado no sítio, já lavadinho e cheio de água. 


Eles adoraram! Chegaram a estar os dois a beber ao mesmo tempo e confesso que fica muito mais bonito em casa do que os bebedouros normais. Há mais modelos, há modelos maiores para cães. Há modelos ainda mais pequenos. Visitem a página da marca no Facebook e escolham o que considerarem mais conveniente para o vosso peludo. 

Foi, portanto, uma feira em cheio. Gatos sortudos, pá!


O Blogue do Nanossegundo!

Estive a ler o regulamento para a candidatura ao «Blogue do Ano» (calma, eu tenho noção da realidade e esta humilde casa não será candidata, pelo menos que seja eu a inscrevê-lo) e nos requisitos de avaliação fala-se muito em marcas, no facto de o blogue estar a ultrapassar as fronteiras da internet e de ter um considerável número de leitores. Mais: menciona-se a possibilidade de ser um blogue cuja falta se faria sentir se deixasse de existir.

Bem, quanto a marcas nada. Também não está a passar as fronteiras da internet nem lá perto. Aliás: o pobrezinho nem é capaz de ver as fronteiras e não é ele que é pitosga. Relativamente ao número de leitores/seguidores... Pouquinhos, porém bons e fiéis. Agora, o que eu gostava mesmo era que, se ele desaparecesse, fizesse nem que fosse um bocadinho de falta a alguém. Que, sem ser «Blogue do Ano», alguém sentisse que um ano sem ele seria um bocadinho menos divertido. Não sou tonta: a blogosfera é quase infinita, mas «Cada um é filho das suas obras.» e este blogue é obra minha. Há um certo orgulho nele, mesmo no meio da sua pequenez. Há muito por onde escolher no que aos blogues diz respeito. Existem inclusivamente alguns absolutamente incontornáveis. Mas, no meio de um mar de peixes grandes, ser um peixinho pequenito não é necessariamente mau. Não será nunca «Blogue do Ano», nem do mês, nem do dia. Nem sequer chegaria a ser o «Blogue do minuto», se isso existisse! Será, todavia, o meu cantinho. Sem marcas, sem fronteiras a ultrapassar. Despojado, repetitivo, imutável como sempre tem sido (mantém a mesma imagem desde o primeiro dia, em Novembro de 2011). Este blogue é uma quixotada, portanto, tal e qual as de Dom Quixote, o seu  grande mentor.

domingo, 9 de julho de 2017

Sorte!

Comprei uma rifa num evento dedicado a animais. Fui a primeira pessoa a tirar uma rifa logo no início do evento. Foi a primeiríssima rifa que venderam hoje e saiu-me logo o primeiro prémio: um ano de desparasitação (interna e externa) gratuita para os meus felinos. Sendo coisa carita, posso dizer que tive muita sorte hoje. 

A Menina Quer Isto XCII



Cruzei-me com a capa do primeiro livro há uns dias e já era para ter vindo falar um pouco sobre ele. Vamos lá ver: não é que seja propriamente a coisa que mais quero ler na vida, mas parte de um pressuposto que defendo há muito tempo e isso interessa-me. Infelizmente, numa sociedade em que o trabalho volta a ganhar contornos de escravatura (salva a diferença real entre uma coisa e outra, claro), o descanso vai ficando para trás porque temos de ser sempre mais e mais produtivos. Temos de trabalhar a toda a hora, temos de estar sempre contactáveis, mesmo quando é tempo de dormir ou de estar a fazer o que nos apetece. Ficamos ansiosos porque a linha entre a vida privada e a linha profissional torna-se líquida e facilmente o trabalho entra nos nossos momentos que deveriam ser de folga. Falo do que sei porque passei por isso e tive de tomar uma decisão: ou o salário ou a normalidade de volta à minha vida. Bem sabem que optei pela segunda. Já antes o cria, mas agora ainda acredito mais que se as empresas querem que vistamos a sua camisola e que sejamos produtivos, não é amarrando-nos às paredes do local de trabalho que o vão conseguir. Nem é com e-mails e exigências fora de horas que vão ter funcionários motivados e com vontade de dar o seu melhor. Pelo contrário: acredito que mais descanso e, sobretudo, mais consideração pelo nosso espaço privado e pelos momentos de lazer far-nos-ia querer dar o nosso melhor nas horas de trabalho.  Por isso, tenho curiosidade para ver como foi isto tratado neste livro. 

Quero o segundo, de Max Aub, porque além de gostar do autor, li numa crítica ao livro que teve como inspiração o «Colóquio de los Perros», uma das Novelas Exemplares, de Cervantes. Nesse conto, dois cães conversam e esse diálogo mostra em toda a sua falta de esplendor os defeitos que marcavam a sociedade espanhola do século XVII. Aqui, com esta novidade da Antígona, é um corvo que, olhando de cima um campo de concentração, analisa o Homem. Ora, tendo em conta o lugar onde está, o que vê não pode ser bom, mas é, infelizmente, o real, ainda que o narrador seja tão sui generis como um corvo. Curiosamente, este animal de tão mau agouro olha para o que uns seres humanos fazem a outros seres humanos e consegue mostrar maior sensatez nos seus pensamentos do que os homens nas suas acções. Parece-me, por tudo isto, ser um livro a não perder. 

A menina quer estes dois. A menina quer sempre alguma coisa.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Senhor Gato de Pavlov

Estes gatos são um poço de histórias. Enfim, ora aí vai mais uma.

Temos um sofá no escritório e, desde que ele cá está, o Senhor Gato gosta bastante de se empoleirar nas costas do sofá, às vezes só para estar, muitas vezes para dormir. Muitos testes corrigi eu com o Senhor Gato empoleirado ali, mesmo em cima do meu ombro. Parecia que estava a supervisionar o meu trabalho. Mas, no fundo, só estava com ele nesse sofá ao fim-de-semana ou nos poucos momentos em que tinha tempo para parar por ali. Ora, com o fim do meu trabalho no inferno, passei a estar mais por casa e, como o escritório é a minha divisão favorita, o sofá também passou a ser pouso de leituras, de sonecas, de lanches... Abençoado sofá. O Senhor Gato lá foi continuando a ir descansar para o encosto muitas vezes enquanto eu estava lá sentada. Parando mais tempo por aqui, comecei a ter mais vagar para lhe fazer umas festinhas enquanto ele dormitava ali e para o escovar (e encher o sofá de pêlo que depois tinha de tirar com uma luva...). Ou seja: o Senhor Gato passou a ser ainda mais apaparicado quando estava naquele lugar.

Resultado: agora o Senhor Gato já vem a ronronar quando sobe para as costas do sofá. Às vezes até já vem meio babado de alegria. Mais umas festinhas, umas coçadelas atrás das orelhas e é o delírio. Portanto, qual cão de Pavlov, ele já sabe que agora aquele lugar é garantia de miminhos. Daí os sonoros ronrons que se ouvem mal pula para lá. É adorável: tenho um «gatinho de Pavlov»!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Chora, Camões, chora... IX

E as pessoas que dizem «munto» em vez de «muito»? A maioria pronuncia qualquer coisa como «muinto». Eu quando era mais pequenita também o fazia. Mas depois forcei-me a tirar dali o som nasal. Agora, «munto» é coisa que me dói e que faz chorar o busto de Camões que tenho ali.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Menina Quer Isto XCI

Há uns anos orgulhava-me de saber exactamente que livros tinha e quais as suas edições. E na altura até já tinha muitos livros. Pensava que ia ser sempre assim, até que com o passar do tempo e o aumento do número de volumes cá por casa, a memória deixou de ser suficiente. Hoje tenho uma lista em Excel que, não sendo perfeita, pelo menos desenrasca-me no momento de perceber se devo comprar determinado livro ou se já o tenho. Juro que nunca pensei precisar disto. Tive sempre uma relação tão próxima com os meus livros que sabia sempre como eram as suas capas e nunca me enganava relativamente ao que tinha e ao que não tinha. Porém, a lista tornou-se necessária e até me ajuda a saber quantos livros pululam cá por casa. De vez em quando lá dou por uma ou outra omissão e trato de acrescentar o título em falta à lista, mas de um modo geral até está bastante completa. Além dos autores, títulos e editoras, acrescento também, sempre que possível, a proveniência do livro e o preço. Um dia somo aqueles preços todos e caio para o lado. Fora todos os que não têm esse dado porque foram comprados há muito tempo e já não tenho como saber exactamente quanto custaram.

Bem, mas isto tudo para dizer que nem com lista, por vezes, consigo aperceber-me de faltas importantes. Só mesmo o pretexto de ter de arrumar estantes pode levar-me a sério a perceber que me faltam imensos livros de um autor que adoro. No fim-de-semana, por exemplo, depois de montada a nova estante, estive a arrumá-la e decidi colocar nela além das gramáticas e dos muitos livros sobre livros e leitura, os romances de autores da América Latina que por ali tinha espalhados. Ora, o Vargas Llosa foi um dos senhores que teve direito a estante nova e, entre livros da Dom Quixote e da Quetzal já arrumados, percebi que me faltam vários livros dele. Nomeadamente, estes:








Ora, a menina quer estes livros. Quer muito. E quer enquanto ainda tem meia prateleira livre já que depois de a encher será mais difícil arranjar-lhes um lugar decente e em que fiquem todos juntos. Acho extraordinário como olho diariamente para tantas lombadas e me escapam tantos pormenores. É preciso realmente carregar os livros em braços, olhar para eles com olhos de ver, para entender que a obra de um tal autor, que julgava ter quase completa, está muito longe de o ser. Não morro se não tiver todos os livros de Llosa publicados em Portugal, mas sendo um autor de quem gosto bastante e tendo já grande parte da sua obra, pois claro que gostaria de ter também estes livros. Dom Quixote, querida, não queres oferecer uns exemplarzitos ao fofo do blogue As Minhas Quixotadas? Podem ser manuseados, a menina não se importa. A menina quer é tê-los ali ao alcance da mão e devorá-los um a um com o gosto imenso que só o Llosa sabe provocar.

Nota: As imagens das capas saíram da página da Wook.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Incidente em Antares: o balanço

Nota inicial: Vou escrever está quixotada no telemóvel por isso perdoem-me as possíveis gralhas e o desalhinhamento do texto. Se não escrever isto já hoje, passo ao livro seguinte e acabo por esquecer-me de falar-vos deste.

Hoje terminei a leitura de Incidente em Antares, de Erico Veríssimo e posso dizer-vos que este é um livro EXTRAORDINÁRIO! Assim mesmo, em maiúsculas. É daqueles aos quais ficamos agarrados e que ficam também agarrados a nós. Estão a ver aqueles livros que só queremos acabar para conhecermos o fim, mas que nos deixam uma sensação de orfandade quando chegamos à última página? Este é um desses. 

Sem vos revelar tudo, deixem-me dizer-vos mais ou menos o que compõe este texto. Numa pequena cidade do sul do Brasil, chamada Antares, acontece na década de sessenta do século XX um "incidente" que altera a vida dos habitantes daquele lugar. Mas calma: desse incidente só se fala na segunda parte do romance. Antes disso, uma primeira parte apresenta-nos a história de Antares ao longo dos tempos. Ora, aquilo que acontece nessa pequena cidade é originado em boa parte pelo que acontece politicamente no Brasil, sensivelmente desde o século XIX até ao momento do incidente. Deste modo, o autor apresenta ao seu leitor um resumo da história política do Brasil. Todavia, ao lermos, percebemos bem que aquela primeira parte é um grande preâmbulos sem o qual não conseguiríamos perceber toda a dimensão do incidente que constituirá o núcleo da segunda parte. Ligadas à história política do Brasil estão as personagens que voltaremos a ver na segunda parte. Conhecemos os seus ascendentes, os seus vícios e virtudes, os seus talentos e os pontos fracos e tudo isso será fundamental para a compreensão da segunda parte. Somos apresentados a uma sociedade patriarcal e extremamente machista, onde vale tudo, mas mesmo tudo, para chegar-se onde se deseja. Em Antares há duas famílias inicialmente rivais que têm propriedades a perder de vista e que se tornam as mais importantes da cidade, ao ponto de nenhuma decisão ser tomada sem passar antes por elas. Falamos dos "coronéis" que nos habituámos a ver nas novelas da Globo: homens que mandam e desmandam, que decidem a seu bel-prazer e que se tornam perigosamente poderosos. Os Vacarianos e os Campolargo serão o eixo em torno do qual Antares vive. 

Depois desta primeira parte em que somos contextualizados tanto relativamente à cidade como ao país, passamos à segunda, à do incidente. 

Antares vai viver uma greve geral dos trabalhadores de três empresas que laboram na cidade. O objectivo são os aumentos salariais que já não acontecem há vários anos. Se tudo correr como está previsto e se as empresas não cederem, Antares parará, até porque muitos outros trabalhadores pararão também em solidariedade com os colegas das tais três empresas estrangeiras (pormenor que mostra já a crítica à exploração por parte de outros países aos trabalhadores de pequenas cidades do Brasil, onde a mão-de-obra era barata e garantia de sólidos lucros empresariais). Bom, não existindo acordo, a greve avança e até os coveiros, em consideração com os restantes camaradas, pousam as pás e não procedem a sepultamentos. Também eles, mesmo sendo funcionários da Prefeitura, querem seguir a onda de exigências e pretendem aumentos. Por coincidência, naquele primeiro dia de greve, vários habitantes da cidade morrem. Sete, para ser mais precisa. O problema maior acontece quando falece a matriarca da família Campolargo. Depois do cortejo fúnebre, quem acompanhou o féretro ao cemitério viu-se impossibilitado de lhe dar sepultura, não só por um enorme piquete de greve, mas também porque os coveiros se recusaram a fazê-lo. Assim, o corpo de D. Quita, a mulher mais rica da cidade, fica no caixão encostado à parede do cemitério à espera de que a greve passe. Junto a ela já estão outros seis defuntos, mas desses ainda não havia história, pois socialmente não eram ninguém ou quase ninguém. Depois de uma noite junto ao cemitério, os sete defuntos levantam-se dos féretros e descen ao centro da cidade para fazerem pressão sobre os vivos de modo a que dêem enterro digno aos mortos. Primeiro farão visitas privadas e cada um visitará aqueles que mais amou e as casas onde viveu, muitas vezes para descobrirem apenas que já foram esquecidos e trocador por outros. Verificarão que aos vivos interessam as jóias, a herança, a liberdade que tal morte gerou. Poucos dias após a morte, estes defuntos já nem eram lembrados. Mas far-se-ão recordar com grande pompa. 

Não vos conto mais porque este livro é ainda melhor se certos pormenores forem descobertos página a página. Mas o que me importa ainda dizer-vos é que este incidente despirá a cidade das suas vestes falsas, arrancar-lhe-á as máscaras e as vidas duplas, paralelas, reprováveis tornam-se públicas. No fundo, cada defunto mostrará um ou vários problemas que assolavam o Brasil da época. Recorde-se que era um país sob ditadura militar, no qual a liberdade era extremamente condicionada, onde as torturas existiam em nome de um suposto bem maior. Isto tudo na tal sociedade patriarcal onde a voz da mulher não se fazia ouvir e na qual a corrupção e a ilegalidade imperavam. Estes defuntos chocarão a cidade, não só pelo seu aspecto e cheiro pestilento, mas também porque, não tendo já nada a perder, dirão e farão na morte o que lhes foi impossível em vida. 

E o que resulta dessa intervenção tão macabra? Não vou contar-vos para não estragar a leitura. Mas imaginem uma sociedade com séculos de falcatruas, inde o fosso entre ricos e paupérrimos não é bem um fosso, mas mais um precipício... o que vos parece que vão  conseguir estes corpos em decomposição, ansiosos por descerem à terra? 

Infelizmente, este não é um livro muito fácil de conseguir. Comprei o meu há uns anos numa feira de objectos em segunda mão. Gostaria que as editoras olhassem mais para a obra de Erico Veríssimo, mas é difícil abdicar de publicar porcaria para editar um dos melhores autores brasileiros. Entretanto, a quem interessar, possivelmente encontrarão este romance nas bibliotecas ou em alfarrabistas. Vale muito a pena e é um livro que constantemente nos surpreende, levando-nos a pensar sobre o modo como uns podem ter duas vidas paralelas enquanto outros, tão mais desprotegidos, nem uma vida com dignidade podem ter. Enfim, este romance levanta tantas, mas tantas questões que só lendo. Espero que o encontrem e que se divirtam tanto a lê-lo como eu me diverti.