sexta-feira, 31 de março de 2017

Chora, Camões, chora... V

Parágrafo retirado de uma notícia de ontem de O Observador. Os destaques são da minha responsabilidade. Apreciai:

"O JN recorda ainda que, em 2012, Luísa Beirão afirmou publicamente que foi vítima de violência doméstica por parte do ex-marido, o ex-jogador Miguel Pedrosa. A ex-modelo chegou a apresentar queixa na Justiça contra o ex-jogador, com quem esteve casada durante 11 anos e com quem teve dois filhos."

quarta-feira, 29 de março de 2017

Brincadeirinha, afinal vai ser "Aeroporto __________" (complete, por favor)

Eu tenho de vir cá falar sobre a mudança de nome do aeroporto da Madeira para "Aeroporto Cristiano Ronaldo". Estou só à espera de que alguém venha dizer "estávamos a brincar, somos uns chalaceiros do pior, pá!" para ver se vale a pena ou não. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Chora, Camões, chora... IV

Numa paragem de autocarro junto à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, alguém pegou num marcador preto e escreveu um chorrilho de disparates. Em determinado ponto do discurso, e em jeito de finalização, escreveu:

ÓTÁRIOS

Hoje fiquei a olhar para aquilo. O mais certo seria interpretar a coisa como sendo um insulto aos portugueses, aliás já supostamente bastante maltratados nas linhas anteriores (se o que alguém escreve sobre os portugueses numa paragem de autocarro for capaz de ferir quem quer que seja...). Mas dada a burrice de quem escreveu tal disparate gramatical só posso acreditar que muito mais do que um insulto, é uma assinatura.

As newsletters

Neste infinito mundo que é a internet, as newsletters são uma realidade e todos convivemos com elas. Gostamos de qualquer coisa, aderimos à newsletter e, de tempos a tempos, vamos sabendo as últimas de uma determinada marca ou serviço. De um modo geral não chateiam muito e, de qualquer forma, podemos sempre desistir de recebê-las, ainda que por vezes não seja fácil descobrir como... O que incomoda é quando uma determinada empresa não se enxerga e começa a enviar newsletters TODOS os dias, por vezes mais de uma em vinte e quatro horas. Aqui sim, parece-me, existe um abuso da paciência e começa-se a fazer algo contraproducente, já que até o mais paciente dos consumidores tende a detestar a marca que tal coisa faz.

Acontece-me isso com uma empresa que vende brinquedos. Todos os dias chegam dois emails, de vez em quando só vem um, e acho que é muito raro o dia em que não vem nenhum. Inicialmente nem ligava, até via alguns dos emails, mas com o tempo fui dando conta da tendência e perguntava-me qual era a ideia. Se nem os hipermercados, com produtos alimentares que consumimos todos os dias, fazem um assédio tão grande, por que raio uma loja que vende produtos importantes, mas de compra esporádica, haveria de o fazer? Pois, não sei. Talvez a ideia seja a de vencer o consumidor pelo cansaço. No meu caso não tem resultado. Vencer-me não têm vencido, mas têm-me cansado ao ponto de andar à procura do modo de «desligar» a newsletter.

Entendo que a comunicação com o consumidor, num mercado tão cheio de oferta, é importantíssima. Mas comunicar é uma coisa e chatear é outra. E, convenhamos, a internet já tem que chegue para nos aborrecer para depois ainda virem estas notícias constantes encher-nos a caixa do correio. Não há carteira que chegue para tanta oferta. Mas pior: não há paciência que suporte tanto assédio.

quinta-feira, 23 de março de 2017

A gargalhada final

Diz o provérbio que quem ri por último ri melhor. Hoje, pela primeira vez, tive a oportunidade de sentir na pele tal dito popular. Ri, e ri com gosto perante alguém que me fez mal, que foi uma das responsáveis pela porcaria de vida profissional que tive nos últimos anos. Vi-a perder um processo provocado por ela e pela sua maldade e pude, felizmente, olhá-la de frente e rir à gargalhada diante da justiça feita e da desilusão dos que sempre acharam que podiam tudo contra todos. O processo não era meu, eu era uma das testemunhas, mas fiquei feliz como se fosse eu a vencer. Já não via aquela gente há muitos meses e nestes meses vivi uma situação nem sempre fácil do ponto de vista da adaptação à mudança, ao desconhecido e à enorme ansiedade desenvolvida ao longo de anos de trabalho num local que não me merecia. Voltar a ver aquela arrogância deu-me gozo. Apresentar-me perante gente que me fez mal com um enorme sorriso, com bom aspecto e feliz foi um presente que a vida me deu. A gargalhada final gostosa, nascida bem cá dentro e espalhada bem para fora, acompanhada pela de outras pessoas que viveram o mesmo inferno, pagou tudo e, para mim, encerra o caso. As contas nem ficaram bem feitas, mas olhem... Acabou. Siga a vida, venha a mim o que for para ser meu e mais nada. Hoje pude dar um final gostoso a isto. Sempre achei que teria coisas para dizer àquelas pessoas e afinal não tinha: só precisava de saber que estava bem, que estava ainda melhor do que eles e a gargalhada mostrou-mo. 

Hoje foi um excelente dia e a prova de que de vez em quando os bons também ganham. E com o riso final, bem diante de quem sempre fez questão de me deitar abaixo, encerrei de vez o assunto. Agora venha o resto da vida e que seja bem boa. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

A morte da gramática

"O suspeito e a vítima mortal são vistas a discutir."

Acabei de ouvir isto na SIC dito numa peça sobre o homicídio à porta da discoteca Luanda. Um capítulo inteiro da gramática portuguesa suicidou-se. Os restantes estão às portas da morte. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Copos e mulheres, diz ele

O Presidente do Eurogrupo disse que os países do sul da Europa não podem gastar o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda.

Bom, quanto aos copos confesso: nunca me dei ao trabalho de juntar os dezasseis selos do Continente para obter copos gratuitos. Quando consegui oito selos, paguei três euros e trouxe logo os copos. Por isso, confesso: gastei dinheiro em copos, mas nunca pensei que isso prejudicasse o continente (o europeu, não o do Belmiro).

Agora, estou fartinha de dar voltas à cabeça para lembrar-me de quando gastei dinheiro em mulheres e não consigo lembrar-me. Estou a ponderar escrever uma carta ao Presidente do Eurogrupo para ver se me ajuda nisso. Entretanto já corri toda a página do «e-factura» a ver se, por acaso, tive o bom senso de pedir factura da última vez que gastei dinheiro em moças, mas não encontro nada. Porém, se o Presidente do Eurogrupo diz que gastamos dinheiro em mulheres, é porque gastamos, pois claro, que ele é que sabe! E eu, que sou uma «maria vai com as outras» também devo ter gastado a minha somazinha para justificar o pedido de ajuda externa. Espero lembrar-me depressa, que não gosto nada de perder o norte aos meus dinheiros...

O quê?????

« - Eu este ano constipei-me num ouvido.»

Sim, eu ouvi isto hoje. Não, não sei como a coisa se processa. Sim, foi num espaço público para quem quisesse ouvir. Não, não foi dito por uma criança. Sim, vou passar a noite a pensar nisto.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Teimosia felina

Uma pessoa compra uma alcofa para o seu gatinho bebé para ser estreada no dia em que ele se muda cá para casa. Pequeno felinito ignora airosamente a alcofa, parece até soltar um «pfff» quando olha para ela, como quem diz «O filho da minha mãe jamais se aninhará aí!». E durante anos a alcofa fica ali esquecida, lavada de tempos a tempos na esperança de que o bicho acabe por apaixonar-se irremediavelmente por ela. Mas nada acontece. Entretanto a irmãzinha aparece cá em casa e sempre lhe vai dando algum uso, pouco, mas ainda assim algum. E a alcofa ali, a ocupar espaço e a desafiar a paciência de gatos de donos por ser mais um mono comprado ao qual os peludos tendem a virar as suas reais caudas.

Mas eis que aos três anos e quatro meses de vida, Senhor Gato descobre a pólvora! Certo dia, começa à porrada com a alcofa (julgo que ela o provocou...) e a dita acaba virada de pernas para o ar. Então, nesse momento, o Senhor Gato deu o golpe de misericórdia: deitou-se em cima dela, afundando-se na sua base fofinha que, recordo, estava virada para cima. Aninhou-se, o fundo da alcofa ganhou o formato do seu corpinho peludo e agora é o melhor lugar para estar. 

Há quem diga que as mulheres são difíceis de entender, mas então e os gatos?

domingo, 19 de março de 2017

Detalhe

Moro num prédio alto, onde a maior parte das pessoas não se conhece. Mas este prédio tão grande e que, por ser enorme, não fomenta as relações humanas tem uma particularidade muito interessante e poética: tem um pianista.

Não sei onde ele (ou ela) vive, só sei que deve ser num andar acima do meu, pois o som parece-me vir de lá. O que sei é que de tempos a tempos, quando menos se espera, lá toca durante um bocado, parando e recomeçando (e foi assim que percebi que era um pianista in loco e não um CD). Toca música clássica e durante o tempo em que o faz o prédio parece deixar de ser só mais um para passar a ter uma identidade muito própria que, desconfio, poucos tenham desta maneira. Quando ele pára, voltamos a estar todos enfiados num edifício igual a tantos outros. Aquele pianista muda durante alguns minutos a nossa realidade e torna-a mais bonita. Parece que eu e os outros moradores entramos de repente numa soirée do século XIX, longe dos barulhos da modernidade. É, no fundo, um pequeno detalhe que enche de beleza o nosso dia. 

Bom domingo soalheiro, fiéis quixoteiros!


quinta-feira, 16 de março de 2017

Casa à deriva e o cúmulo da ignorância

Tenho estado com uma profunda falta de inspiração, pelo que esta modesta casinha tem andado ao desamparo. Isto ou bem que se diz alguma coisa de jeito ou bem que mais vale estar calado, por isso não me tenho arriscado muito e vou andando calada.

Mas já que aqui estou, deixem-me partilhar convosco uma daquelas coisas que faz ignorantes. Isso mesmo. É uma coisa que, para quem não saiba mais do que aquilo que é evidente, cria preconceitos onde eles não devem existir. Apresento-vos a capa do Jornal I do Dia da Mulher (8 de Março):


Estão a ver ali do lado direito onde diz «Frases de homens contra mulheres que ficaram célebres» (frase, aliás, muitíssimo ambígua e mal escrita, mas pronto, já é pedir de mais...)? A frase escolhida para a capa é do Cervantes e, caso não consigam ver bem, deixo-a aqui: «Faz parte da natureza das mulheres desprezar quem as ama e amar quem as detesta».

Portanto, quem viu a capa deste jornal naquele dia ficou a pensar que o Cervantes era uma besta que dizia coisas contra as mulheres. Pois... A frase (além de não ser necessariamente má para com as mulheres: muitas vezes é simplesmente um facto, já que não se escolhe quem se ama) está COMPLETAMENTE fora de contexto. Digo-vos eu que já li o Quixote, livro de onde esta frase foi retirada, e o que lá está é outra coisa muito diferente. A frase é, de facto, de Cervantes e saiu da sua obra-prima, mas é dita num contexto muito favorável à defesa das mulheres perante os abusos dos homens. Uma personagem feminina lindíssima desperta várias paixões, mas não está interessada em nenhuma. Por causa dela, morre um homem e a moça, que causou um desgosto ao rapaz, é apelidada de cruel, de não ter coração, entre outros epítetos. Durante as cerimónias fúnebres do jovem que morreu por amor, a rapariga, que vive uma vida bucólica pelos campos, deixa-se entrever e dá-se início a uma série de impropérios contra ela. Alguns homens querem, inclusivamente, ir atrás dela, ou para vingarem a morte do amigo ou porque também eles estão apaixonados. É o louco Dom Quixote que os ameaça fisicamente e impede de perseguirem a bela donzela, fazendo um discurso sobre a liberdade das mulheres. Pelo meio diz aquela frase que está totalmente descontextualizada na capa do I, prosseguindo o seu discurso num sentido que diz sensivelmente isto: as mulheres têm o direito de amar quem querem e não têm de se sentir obrigadas a aceitar um marido só porque ele sofrerá se não as tiver. Alguma semelhança com o que está na capa do jornal? Rigorosamente nenhuma!

E assim os dois leitores do I ficaram a pensar que o Cervantes era uma besta. Na altura até espumei da boca precisamente porque sabia muito bem que as palavras daquele génio no início do século XVII eram exactamente no sentido oposto e eram até demasiado modernas para a época. Enfim, é uma tristeza. Só mesmo isso: uma enorme tristeza e o sinal de que a ignorância é perigosa, pois pode deixar a sua semente em todos os que não têm espírito crítico, vontade e tempo para buscar a verdade. Felizmente, eu sabia o contexto real da frase, senão talvez também me sentisse desiludida com o Cervantes. Assim não... Só acho aquele jornal uma leitura ainda menos adequada do que já  antes achava.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Murchando

Acabei de ouvir uma repórter da SIC, que entrevistava uma encarregada de educação de uma escola onde os alunos se sentiram indispostos, dizer «Então não terá sido uma intoxicação derivado do que comeram na escola?».

Sinto-me a murchar aos poucos.

terça-feira, 14 de março de 2017

Voltar

Dizem-nos que não devemos voltar aos lugares onde já fomos felizes. Tretas. Hoje voltei a um dos lugares onde mais feliz fui e não o lamento, ainda que agora lá regresse com uma saudade imensa. Voltar é bom, traz memórias felizes, o que é muito bom sinal. As boas memórias são sinal de que as vivências foram boas. Claro que não posso esperar viver tudo novamente e da mesma maneira nos lugares onde fui feliz. Mas também não tenho de ir para lá carpir porque agora tudo é diferente. A vida altera-se: isso faz parte. E eu agora só não vos ponho aqui o poema «Noutros Lugares», do Jorge de Sena, aquele que é o meu poema favorito, porque já o copiei tantas vezes para este blogue que qualquer dia alguém dá por isso e manda-me calar. 

Mas digo-vos, tal como Sena, que «Apenas sei que as circunstâncias mudam / e que os lugares acabam. E que a gente / não volta ou não repete, e sem razão, o que / só por acaso era a razão dos outros.». Os lugares acabam, mas as memórias ficam e são elas que nos fazem ser o que somos. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

A floresta

Se por cada mola que deixo cair para a rua nascesse uma árvore, eu já era responsável pelo aparecimento súbito de uma floresta.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A vaidosa sem jantar

Esta noite sonhei que ia jantar fora com o moço, mas que para ir tinha mesmo de levar um colar de pérolas que tinha pertencido à boa da Marilyn Monroe. Foi porque o Senhor Gato deu início ao seu toque de alvorada, senão julgo que ou me tornaria ladra profissional em sonhos ou bem que virava esqueleto antes de ter direito ao jantar.

Uma pessoa sonha com cada coisa... Para onde havia de dar-me!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Da ternura

E o que dizer de um gato que se deita SEMPRE nas costas do sofá em que estou sentada com uma das patas da frente sobre o meu ombro? Mesmo que eu me mexa, a pata volta a apanhar-me. Digo apenas que é uma companhia e um amigo sem igual. 

Primeiro sol

Está sol em Lisboa. E o que eu já vi de nalgas mal entaladas em cuecas de ganga (há quem lhes chame "calções")?!?

terça-feira, 7 de março de 2017

Novas formas geométricas

Eu, moça de Letras, proponho às ciências exactas a inclusão nos cartapácios de Geometria e de Matemática de duas novas formas geométricas por mim descobertas. E são elas:

1.ª - A semicircunferência felina*:


2.ª - A circunferência felina perfeita:


*Esta figura só não recebe o epíteto de «perfeita» porque levantou a cabeça no momento da foto. Estas formas geométricas que se mexem são uma chatice...

Mute

Algures no meio daquele pelito todo que reveste a minha gatica haverá, espero eu, um botãozinho que diz «Mute». Eu é que, desafortunadamente, ainda não o encontrei, pelo que a minha vida passa por ser assombrada por um «miau miau» constante e agudo. Ora é o «miau miau» de quem não sabe onde anda o Senhor Gato e quer saber; ora é o «miau miau» repetido e ainda mais agudo de quem anuncia ao mundo que precisa de se aliviar; ora temos o «miau miau» de quem exige festinhas, sendo este geralmente seguido de um corpo felino a atirar-se para o chão; ora temos o «miau miau» ansioso de quem quer atum ou saquetas; ora ouvimos o «miau miau» alegre de uma parolita bem disposta que anda pela casa a correr e a brincar com a própria sombra.

Eu já a apalpei a ver onde está o botão, mas ainda não o encontrei. Se alguém souber como configurar estes aparelhos modernos a que chamam «gatinhos», agradeço o auxílio. Já tentei contactar o Apoio a Clientes, mas quando atendem dizem «miau miau» e eu desligo logo com os nervos em alta e a respiração acelerada. Penso até que estou traumatizada.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Este meu espelho

Este blogue nasceu no final de 2011, depois de uma estada em casa com varicela. Já era professora, na altura ainda não estava desencantada com a profissão e com a realidade terrível vivida pelos docentes nas escolas portuguesas. Em Novembro, no dia dois, mantendo-se aberto, este blogue celebrará meia dúzia de anos de existência.

Muito mudou de lá para cá, no mundo, no nosso país, mas sobretudo na minha vida. A primeira quixotada foi escrita no sofá da sala da casa dos meus pais, onde então vivia. Agora escrevo-as maioritariamente na minha própria casa. O trabalho daquela altura já não o tenho porque assim o quis. Já conhecem a história, não vo-la voltarei a contar. Desencantei-me com a profissão, mas aproximei-me ainda mais dos livros, precisamente porque voltei a ter mais tempo para eles. Passei os últimos meses a descansar esta cabeça que estava esgotada de tanto stresse, de tanta pressão diária, com uma medíocre pausa no mês de Agosto (que nem era bem pausa porque, mal o colégio reabrisse em meados do mês, recomeçava a chuva de emails e lá se iam as férias tranquilas...). Enfim, tudo mudou e eu sobretudo.

Mas porquê isto agora? Porque ontem precisei de encontrar uma quixotada antiga e isso deu-me ensejo para reler algumas das coisas que escrevi no final de 2012 e no início de 2013. Notei grande diferença no tom e no tamanho das quixotadas que escrevi naquela altura. Eram muito mais curtas do que são hoje, eram mais sarcásticas e mordazes, e também tinham mais humor. Falava muito mais do que vivia no trabalho do que nos anos seguintes. Ou seja: mesmo os disparates engraçados que os miúdos me diziam foram perdendo lugar no blogue à medida que ia percebendo a toxicidade que o trabalho estava a ter na minha vida. Parece-me que me tornei mais séria no tom, mas também nos temas abordados nos textos (salvo algumas excepções em que a parvoíce vem ao cimo e sai com estrondo). Senti, confesso, algumas saudades daquela capacidade para fazer humor relativamente a algumas situações do dia-a-dia. Parece-me que estes anos trouxeram e levaram muitas coisas, mas felizmente nem tudo se perdeu e ficou o blogue como testemunha disso tudo. Bem a calhar, ontem dei por mim a pensar que quando tiver um filho ele vai acabar por poder ler o que a mãe escreveu durante vários anos e publicou online para quem quisesse ler. Tem a sua piada. É como se fosse uma espécie de diário cuja leitura é consentida pelo autor. Não digo que o desgraçado não morra de vergonha com alguma coisa que tenha dito (embora ache que fui sendo cuidadosa com as palavras e considere que não expus assim tanto a minha privacidade). Seja como for, esquecemo-nos frequentemente de que o que aqui criamos todos os dias quando escrevemos em blogues será eterno na internet e, ainda que interesse a poucos, é uma parte muito significativa da nossa vida que aqui se encontra espelhada. Serve para os outros nos conhecerem (ou conhecerem apenas o que queremos mostrar, já que a realidade, a verdadeira, é só para quem está deste lado do monitor), mas serve também para que nós, volvidos alguns anos, possamos olhar para um outro «eu» que já foi, que cresceu para se tornar no «eu» de agora até que também ele ceda o seu lugar a outro. Quem leu o Harry Potter recorda-se bem do Dumbledore e dos seus frasquinhos onde guardava memórias e pensamentos que depois podia revisitar. Um blogue, como um diário, é a nossa forma de o fazer sem recurso à magia. É, ainda assim, uma experiência singular.

Aos meus alunos costumava dizer para escreverem um diário. Nem que fosse durante um ano, que o fizessem, pois um dia, passados muitos anos, iriam tropeçar nele e gostariam de reler o que haviam contado sobre si e sobre os seus dias. Ririam, provavelmente, mas de qualquer modo seria uma experiência curiosa. Alguns ficavam entusiasmados, contudo não sei se algum aceitou o desafio. Quando lhes dizia isto, sabia do que falava, já que além dos diários da infância e adolescência, tenho agora quase seis anos de um outro suporte, este, que espelha perfeitamente aquilo que fui fazendo com o tempo que passou. Consegui ontem, ao ler o que ficou para trás, encontrar-me no que li, mas perceber inúmeras diferenças entre o que escrevo e como escrevo agora e o modo como o fazia antes. Se o As Minhas Quixotadas durar mais meia dúzia de anos, quem sabe o que encontrarei depois? O que sei é que isto dos blogues, bem espremido, torna-se coisa séria, mas mais que isso, coisa pela qual ganhamos grande afecto, uma estranha forma de carinho. No fim de contas, por trás deste rosa todo e dos textos que já não sabem ser pequenos, sou eu e a minha vida que aqui estamos.

Nota: Mais seis anos disto e cada quixotada terá cerca de metro e meio de comprimento.

domingo, 5 de março de 2017

A biblioteca que somos

No último livro de Alberto Manguel lemos sobre bibliotecas. A Biblioteca à Noite, publicado pela Tinta da China, evoca as públicas e as particulares, mas não fica por aí. Alberto Manguel diz ao leitor que além sermos a nossa própria biblioteca, já que os livros que temos dizem muito sobre nós, somos também as bibliotecas que não temos. Ou seja, segundo o autor, os livros que não temos também dizem muito sobre nós. Não só os que não temos porque não queremos ter, mas também os outros: aqueles que gostaríamos de possuir e que, por algum motivo, ainda não estão na nossa biblioteca e aqueles que queremos, mas que ainda nem foram escritos.

Os livros falam de nós: esta é uma ideia bonita, mas ao mesmo tempo inquietante. Depois de ler este livro de Manguel, entre o final do ano passado e o início deste, fiquei a pensar que se é bonito ter à minha volta livros que me apresentam ao mundo, é também estranho que neles esteja tanto sobre mim. Inclusivamente aquele tanto que posso não querer partilhar com os outros e guardar só para mim. E depois, além de os meus livros revelarem muito do que sou, ainda há a outra parte que ajuda a completar o meu retrato: a dos livros que cá não estão. Sem dúvida, Manguel tem razão: os livros dizem mesmo muito sobre nós. Mas feliz ou infelizmente, esqueceu-se de um pormenor: a maior parte das pessoas não liga nada aos livros e não percebe que para conhecer bem uma pessoa, ver a sua biblioteca e pensar sobre os seus haveres e faltas é fundamental. Está diante da vista, porém não se vê. O Principezinho explica, pois no seu entender «O essencial é invisível aos olhos.».

Foi a pensar nisto que Alberto Manguel diz sobre o facto de sermos a nossa biblioteca, mas também a biblioteca que não temos (inclusivamente porque podemos desejar livros que ainda nem foram escritos, como já disse), que resolvi pensar na biblioteca que não possuo. A que tenho conheço bem e, se vista com atenção, diz mais sobre mim do que aquilo que gostaria. Está cheia de clássicos, tem poucos livros contemporâneos. Vive e aumenta-se muito com livros que sobreviveram ao escrutínio do tempo. Vai crescendo também com a História do que fomos e a análise do que somos. Mas tem falhas. Falhas que tento tapar por vezes, quando tropeço nos livros que não estão e que deveriam estar. Ainda assim, um bom leitor sabe reconhecer três ou quatro (ou dezenas ou centenas) de livros que não estão e deveriam estar junto de si. Isto até poderia dar uma daquelas quixotadas com o título «A Menina quer Isto», mas não vai dar. Porquê? Porque embora sejam livros que gostaria de ter, são livros que não estão na minha biblioteca pessoal porque outros sempre se colocaram em bicos de pés na frente deles. Estes são, considero, básicos que têm, infelizmente, ficado esquecidos. Provavelmente, mesmo que me saísse agora o Euromilhões, não seria estes aqueles que correria a comprar porque, lá está, arranjaria sempre outros muitos para trazer primeiro. Estes acabam por ser valores certos que estão lá, que nunca desaparecerão, mas que enquanto aqui não estiverem serão ausências ruidosas, falando muito sobre o que sou. Assim, esta é uma parte da biblioteca que não tenho, não porque não a queira, e que ao mesmo tempo sou:






Nota: Todas as capas foram retiradas do catálogo da Wook.

Os livros de viagens

Há alguns dias li as primeiras linhas de um texto sobre livros de viagens. Nem consigo dizer-vos onde o li porque não me recordo mesmo. É que foi numa visita muito rápida à internet entre uma coisa e outra que tinha para fazer. Por isso não li o texto todo e tenho pena. Mas sei do que falava. Colocava a seguinte questão: numa época em que viajar é mais fácil e barato, continuará a valer a pena escrever (e ler) sobre viagens?

Na minha opinião, vale. Mesmo que eu tenha agora mais possibilidade de correr o mundo do que teria há cinquenta ou cem anos, não significa que possa ou queira privar-me dos relatos dos outros. Quantas vezes vamos a algum lado com ecos de quem lá foi antes e vamos aqui ou ali porque lemos sobre esses espaços? E esse relato anterior à própria viagem não lhe retira a surpresa, pois uma coisa são as palavras que correspondem à visão que outro teve do lugar e outra muito diferente é a forma como eu mesma vejo o espaço para onde viajei. Mais: há relatos de viagens que ultrapassam e muito o mero relato. São verdadeira poesia. Há autores que são capazes de verter no papel experiências que podemos não ter, mesmo que viajemos para o mesmo lugar que ele. Que sabem contá-las de uma forma única. Posso ir ao mesmo sítio e experimentar algo parecido: ler é e será sempre diferente de viver. Uma coisa pode preparar para a outra, mas nunca o faz completamente. Há sempre uma boa dose de desconhecido que não vem nos livros e ainda bem. Ler a experiência dos outros não empobrece a minha, pelo contrário: enriquece-a. 

Gosto muito de livros de viagens. Gosto de ver o modo como os autores olham para os lugares para onde se deslocam e o que lhes merece digno de ser partilhado ou não. Já me aconteceu ir a lugares sobre os quais li anteriormente e, acreditem, ler primeiro sobre eles não diminuiu nada o prazer da visita. Os olhos dos outros não substituem os meus, ainda que, numa primeira instância, possam servir para informar-me e espicaçar a minha curiosidade sobre determinado lugar. Além disso, há sempre muitos olhares diferentes e possíveis para ver a mesma coisa. Uma viagem feita em trabalho não é igual a uma viagem feita por lazer, assim como um livro de viagens encomendado por uma editora será diferente de um que nasceu espontaneamente da vontade do autor. Assim sendo, por muito que hoje seja mais acessível e fácil correr pelo mundo fora e ver o que antes só poderia imaginar, os livros de viagens continuarão a fazer sentido, não só para despertar a vontade, mas também para permitir o confronto de impressões. Creio que nunca deixarão de fazer sentido e há livros de viagens que são verdadeiros monumentos, alguns tão maravilhosos e firmes quantos os de pedra e cal que eles mesmos descrevem.

sábado, 4 de março de 2017

A menina queria e já tem


O resto do saldo do cartão de oferta da FNAC que recebi no Natal aliado ao Dia do Aderente permitiram-me trazer este livro para casa sem ter de pagar mais nada. Já vos falei dele. Pelo que li na revista Ler vale bem a pena. E dá-nos muita matéria em que pensar.

O meu primeiro soneto

Ah! Como é bom ao sábado acordar
C'o Continente Online a descarregar
Paletes de gostosas iguarias:
Chocapic e Cerelac para todos os dias.

E também rolos de papel de cozinha,
Desodorizantes, feijão, farinha,
Cogumelos, atum, aveia e cevada:
Tudo para ter uma despensa recheada.

Ao acordar também pão fresco chegou.
Ainda estaladiço: muito bem marchou!
Barrado com manteiga como se quer

E empurrado com um fumegante café.
Soube muito bem e assim o dia arrancou:
Espero que estejam bem, pois eu estou!

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Senhor Gato é afinal um bebé

O Senhor Gato apanhou-me desprevenida e há umas semanas lambiscou o meu prato de Cerelac do pequeno almoço. Dei-lhe um ralhete, mas como genuíno gato que é não ligou um caracol a isso.

Porém, deve ter gostado. Embora já tenha lido que os gatos não sentem o doce, deve ter gostado da consistência porque agora, sempre que lhe cheira a Cerelac, vem ter comigo e pede um bocadinho. Como aquilo tem lactose (embora o faça com água, não deixa de ser farinha láctea), só o deixo dar três lambiscadelas.  O bicho fica contente e vai dormir enroladinho a seguir, como está a fazer agora. Portanto, revisão da matéria dada: o Senhor Gato gosta de sopa e de Cerelac. É um bebé!

Nota: Antes de me chamarem gorda deixem-me explicar-vos que normalmente como Cerelac quando sei que vou ter de passar várias horas sem voltar a comer. É o único pequeno almoço capaz de me deixar saciada a manhã inteira sem o estômago começar com aqueles lindos roncos de fome. E antes que digam "Que nojo, deixa o gato lambiscar do prato!", olhem, o que não mata engorda e o bichano está vacinadíssimo, desparasitamo-lo mês sim, mês não, anda sempre limpinho e eu não tenho nojo dele. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns I

E o que me enerva pôr o desodorizante num sovaco e quando vou pôr no outro... pfffff: acaba-se? E o que me enerva chegar à despensa, com um sovaco devidamente untado e o outro à espera do seu quinhão, para rapidamente constatar que não tenho outro desodorizante igual? E que hipóteses considero eu?

A) Deixar um sovaco como está e pôr o outro desodorizante, com outro cheiro, no outro. 

B) Lavar o sovaco já perfumado e pulverizar os dois com o mesmo cheiro. 

C) Pôr-me em posições idiotas para tentar que o maldito spray, que ainda consegue borrifar um sovaco, chegue também para o outro. 

D) Sentar-me no chão a chorar perante tão complicado problema, esperando que alguém me salve. 

E) Ficar em casa a feder de um sovaco, sozinha, sem ninguém para partilhar a minha dor. 

F) Esquecer que tenho dois sovacos e sair para a rua com um perfumado e o outro não, na esperança de, qual princesa, cheirar sempre a lírios do campo. 

G) Dar um tiro na cabeça e resolver de vez estes horríveis problemas com desodorizantes parvos que não sabem contar sovacos. 

O que fariam vocês? É difícil, não é? Enfim, são problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns.  

Peculiaridades de um leitor V

A leitura, para os verdadeiros leitores, é um prazer que tem de repetir-se. Lemos como respiramos, como andamos, como fazemos qualquer uma das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia. É coisa de que sentimos falta quando, por algum motivo, ficamos impedidos de a praticar. E como prazer que é, não raras vezes vamo-nos a ele em várias frentes. Que quer isto dizer? Que em simultâneo lemos um, dois ou três livros, que lemos ainda umas revistas e uns jornais e o que aparecer pela frente. Ou então não e somos uns «monógamos» livreiros que mantêm a fidelidade à leitura do momento sem a misturar com qualquer outro texto.

De forma sucinta: nisto da leitura, há as pessoas que nunca lêem mais do que um livro ao mesmo tempo e há as que lêem os que lhes apetecerem, nem que sejam dois, três, quatro ou mais em simultâneo. Mais uma vez, nenhum método é melhor do que o outro. A leitura é muito democrática. É uma espécie de medicamento que se pode tomar de todas as formas possíveis, causando benefícios óbvios a quem usa e abusa desse tratamento. A leitura é quase uma panaceia que, se não cura, pelo menos alivia muito. E inquieta, também, mas de um modo salutar, pois faz pensar e crescer, e ser capaz de ver além da ponta do próprio nariz.

Mas voltemos ao tema: leitura única versus leituras múltiplas em simultâneo. Eu faço parte do grupo dos que lêem dois livros ao mesmo tempo. Geralmente não leio mais do que isso porque além dos livros tenho sempre várias revistas (algumas delas já atrasadas) na mesinha de cabeceira. Acabo por ir intercalando tudo. Muitas vezes, também, acontece-me andar a ler um livro, precisar de me deslocar e considerá-lo demasiado volumoso e pesado para desejar transportá-lo comigo. Nessas alturas dá-me sempre jeito estar a ler outro mais pequeno que se deixe levar mais facilmente sem ser responsável pelo deslocamento de um ombro. Há quem diga que quando lê mais do que um livro em simultâneo, acaba por misturar as histórias e as personagens de um e de outro volume. Não me lembro de alguma vez isso me ter acontecido. No fundo, acho que o treino dos anos de Faculdade num curso de Línguas e Literaturas ajudou a desenvolver esta capacidade (se é que se lhe pode chamar isso). Nas várias cadeiras de literatura que tinha num único semestre tinha de ler tantas obras literárias em simultâneo que precisava de desenvolver «compartimentos estanques» no meu cérebro para não confundir o Moby Dick com o Austerlitz, nem O Anjo Ancorado com Os Pequenos Burgueses. Não me dava muito jeito confundir as Memórias Póstumas de Brás Cubas com As Memórias de João Miramar. Por isso, mesmo que antes de dormir lesse um bocadinho de um e um bocadinho de outro, tinha sempre de arrumar tudo muito bem arrumadinho na minha memória. Sempre o consegui com facilidade, felizmente. Agora já ninguém me obriga a ler vários livros ao mesmo tempo, mas continuo a fazê-lo de vez em quando porque quero. 

Claro que compreendo quem gosta de dedicar-se a apenas um livro de cada vez. Já aqui disse que na leitura tudo (ou quase) é possível. São escolhas. Até pode ser não porque temam misturar histórias, datas, personagens, mas sim porque gostam de manter a concentração num único livro, pensar apenas nas questões que ele suscita e, quando o acabam, passar ao próximo quando apetecer, sem pontas soltas. Às vezes também me apetece ser assim e nessas alturas leio um único livro (quando muito intercalo com revistas), noutras vezes apetece-me ser «assado» e ando com dois volumes debaixo do braço, lendo meia dúzia de páginas de um e meia dúzia de páginas de outro. É para onde me dá.

Depois há, infelizmente, os que não lêem nem um, nem dois, nem três: enfim, os que não lêem mesmo nada. Mas desses não reza a história porque aqui fala-se das peculiaridades dos leitores e não dos que ainda não começaram a sê-lo. Esses não perdem tempo com livros, o que é uma pena. Não sonham o que perdem.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Aviso aos ratos de feira como eu!!!

Caríssimos ratos de feira,

Não estou equivocada com a expressão «ratos de biblioteca». Desta vez é mesmo «ratos de feira» que quero dizer, pois pretendo avisar-vos, qual flautista de Hamelin, que já há datas para a Feira do Livro de Lisboa. Terá início no dia 1 de Junho e encerrará no dia 18 do mesmo mês.

Assim, para quem, como eu, gosta de exercitar as pernocas no Parque Eduardo VII, subindo e descendo, subindo e descendo em busca da melhor das pechinchas, marcai as datas nos vossos calendários. A brincar a brincar o tempo voa e não tarda estamos debaixo de um sol simpático a ouvir a voz do costume a anunciar as sessões de autógrafos daquele dia na Feira do Livro, enquanto devoramos gelados, bolas de berlim, farturas e imperiais (como diria o Carlos da Maia enquanto petiz «É festa, vovô, é festa!», por isso pode-se tudo).

Mais pobrezinha este ano, mas mais serena, feliz e com mais tempo disponível, lá estarei. Alguma coisa haverá de vir comigo para casa. Talvez não os quarenta livros do ano passado, mas nem espaço nas estantes havia para isso... E aquele passeio ninguém me rouba. Marquem-no nas vossas agendas também!

Hasta luego, quixoteiros.


Nota: A imagem do Firmin, o ratito leitor, saiu daqui.

A limpeza e a pena

Fiz uma limpeza na barra lateral, aquela em que indico os blogues que gostava de ler. Tinha por lá imensos que já não viam novos textos há meses ou anos. Fui deixando ficar na esperança de que os seus autores voltassem, mas acabei por desistir.

Já aqui falei disto noutros tempos, desta empatia que ganhamos com certos blogues e com os seus autores, da rotina que nasce e que nos leva a visitar diariamente ou quase as mesmas páginas para ler o que alguém que não conhecemos quer partilhar com os outros. É uma ligação curiosa que é fruto da época em que vivemos, na qual não precisamos de conhecer alguém para o admirar. Podemos fazê-lo à distância. Mas mais curioso ainda é que quando essas pessoas desaparecem sem qualquer aviso, quando abandonam as suas páginas sem que, contudo, as encerrem em definitivo, fica-nos uma certa preocupação e alguma pena. Não éramos amigos, não nos reconheceríamos na rua ainda que nos cruzássemos diariamente, e ainda assim perguntamo-nos o que terá sido feito daquele bloguer que seguíamos com gosto e que, de um dia para o outro, deixou de publicar. Estará bem? Por que nunca mais disse nada? No fim, acabamos invariavelmente por esquecer o blogue e o autor, sendo o passo seguinte o da limpeza da lista, como agora fiz.

São curiosos estes laços que a internet consegue criar. Por vezes gostava mesmo de conhecer as pessoas que me visitam e de trocar ideias com elas durante um apetitoso cappuccino. Depois penso que é melhor não: o mistério faz parte dos blogues e às vezes o conhecimento traz a desilusão. Estaremos juntos por aqui até que o «As Minhas Quixotadas» tenha fôlego e perninhas para andar. Quando não tiver, espero conseguir avisar-vos de modo a que não fiquem com o travo amargo que tive ao eliminar tantas páginas que me proporcionaram muito tempo de boas leituras quase diárias. Sobretudo para que não vos fique aquela dúvida que acho que, inevitavelmente, tem de aparecer nas relações humanas (mesmo que só existam atrás de um computador) quando deixamos de saber de alguém: estará essa pessoa bem?