sexta-feira, 14 de junho de 2019

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert - o balanço

Wook.pt - A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

Com uns dias de descanso para aproveitar, escolhi um livro mais leve para ler. Note-se que leve não diz respeito ao peso, já que o volume é uma verdadeira bisarma de quase 700 páginas. A ideia era mesmo a de ser entretida por um livro com uma história em que queremos mesmo, mas mesmo, correr para saber o final.

Bom, antes de mais, acho que todos se recordam da barulheira em torno deste livro há alguns anos, quando saiu. Foi um best seller, um campeão de vendas, foi a loucura. Acabei por comprá-lo nessa altura e tem estado a aguardar placidamente a sua vez.

A história é narrada por um escritor, Marcus Goldman (que, aparentemente, voltará a aparecer como personagem noutro livro do autor, O Livro dos Baltimore). A propósito de uma fase em que se encontra com a famosa crise da página em branco, visitará o seu antigo professor universitário e amigo Harry Quebert. Esta personagem é assim um mix de Rocky Balboa com Umberto Eco, por isso imaginem. Bom, devido a um acontecimento meio macabro, Goldman ver-se-á na obrigação de investigar o desaparecimento, 33 anos antes, da jovem Nola. A semelhança entre «Nola» e «Lola» não deve passar despercebida. Lembram-se da Lolita, de Nabokov? Tenho a sensação forte de que o autor deste livro quis que recordássemos essa menina, já que a Nola deste livro tem 15 anos e uma relação amorosa com Harry Quebert quando ele tem 34.

Nola, depois de uns meses de amor com o tal mentor de Goldman, desaparece misteriosamente. Durante 33 longos anos a sua cidade não saberá que destino teve. E tudo continuaria assim se Harry Quebert, já sexagenário, não se lembrasse de mandar plantar umas hortênsias no seu jardim. Os jardineiros, remexendo a terra, descobrem ossadas humanas e lá vai o respeitado professor passar uns dias à prisão. É por isso, para salvar a pele do amigo e também por precisar de uma história para contar, que Goldman se envolve até à alma na investigação do que realmente aconteceu a Nola três dezenas de anos antes.

Ora bem, na essência, é o costume. Rapariga desaparece, rapariga é encontrada morta, investigação, rapariga era uma safada, ai não, afinal era uma santa, fim. Porém, este livro parece aqueles comboios que param em todas as estações e apeadeiros e vão com uma lentidão desesperante por esse Portugal fora. Saímos desses comboios com a sensação de que passámos décadas lá dentro e com vontade de nos esbofetearmos por termos sequer comprado o maldito bilhete. Bem, estou a exagerar. O livro cumpre bem a missão de entretenimento (que era, recordo, o meu objectivo), mas tem dois defeitos: em primeiro lugar a acção desenrola-se com uma lentidão desesperante (o livro devia ter menos umas duzentas páginas para acabar com o flagrante enchimento de chouriço) e, depois, tem demasiadas reviravoltas. Dirão: mas isso não é mau, isso confere suspense ao livro. Sim, uma reviravolta sim. Mas três ou quatro cansam. Houve mais «culpados» pela morte de Nola do que portugueses a votar no CDS nas últimas eleições (bem, talvez não fosse assim tão difícil...).

Além desses dois defeitos que, mais do que entusiasmarem, aborreceram, há a questão do estilo. Todas as personagens falavam da mesma maneira. Fossem escritores consagrados, polícias de uma cidade pequena, meninas de 15 anos... Ouvir um era ouvi-los todos. E lá se vai a verosimilhança. Aliás: com tantos twists a verosimilhança já estava nas ruas da amargura. No final fiquei com a sensação de que o autor quis fazer uma coisa mesmo mesmo única, nunca vista, mas conseguiu tornar o livro um pouco mais ridículo. E pelo meio ainda tivemos o momento Cyrano de Bergerac, com uma personagem a escrever cartas de amor em nome de outra e a criar com isso uma enorme confusão. Ah, os clássicos...

Tudo isso empobreceu o livro, a meu ver. Podia ser um livro muito bom sem as reviravoltas a mais e se o autor se tivesse lembrado de que as pessoas não engoliram um dicionário, logo não falam todas da mesma forma. Assim, perdeu qualidade. No entanto, é um livro excelente para nos ocupar umas tardes porque, claro, queremos sempre saber o que aconteceu à jovem Nola. E é por isso que não o largamos. Mesmo quando nos parece que já é de mais, que já se está a exagerar muito, queremos saber o final e queremos saber se a nossa aposta é a correcta. Por isso continuamos e levamos o livro até à última página. No fim já é uma questão de honra.

Tenhamos, porém, em conta que o autor deste livro era jovem e ainda inexperiente nestas andanças quando o escreveu. Isso faz diferença. Talvez nos livros seguintes tenha tido mais cuidado com estas questões de estilo e de verosimilhança, que são importantíssimas, ou talvez não. A verdade é que vende imenso e muita gente adora o que escreve. Apesar de tudo, consegue deixar-nos com vontade de saber que fim terá a história e, portanto, é um livro que ocupa muito bem o nosso tempo.

Agora, o que me irritou realmente, o que me deixou louca de nervos foram as gralhas. Tantas! Mas ninguém revê os livros? Muita gente pode, ao contrário de mim, ter adorado os muitos twists da história. Depende de cada leitor. Mas duvido que algum tenha gostado de encontrar tantas gralhas num só livro. Letras trocadas, letras em falta, erros de concordância, enfim... Uma paródia! Bem sei que é preciso publicar muito e depressa, contudo, é necessário cuidado. Não existem livros sem gralhas, mas também não é preciso semeá-las página sim, página não. Fora tudo o resto que é da competência do autor e cuja apreciação depende do gosto e da experiência do leitor, isto foi o que verdadeiramente me irritou.

O balanço final é, portanto, este: óptimo para entreter, para espicaçar a curiosidade do leitor, mas cansativo porque quando parece que chegámos a um final (embora demasiado óbvio), eis que recomeça o virote outra vez. E torna-se a repetir o que já sabíamos, ainda que com uns acrescentos. É uma espécie de espiral, portanto. Às voltas, voltas, voltas, mas alargando um pouco mais o panorama, acrescentanto um pouco mais de informação. Todavia, voltarei a dar uma oportunidade ao autor. Vamos ver se entretanto mudou alguma coisa...

Nota: A imagem da capa saiu daqui.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Foi a Hora H - parte 2

Estive novamente na Hora H e a desgraça foi esta:


E as filas na Leya?! E os cestinhos cheios de livros que muitas pessoas tinham? E as pilhas enormes que algumas levavam em braços de tal modo que quase só se lhes via a testa? Uma maravilha!

Nota: As imagens saíram da página da Wook.




terça-feira, 11 de junho de 2019

A Feira do Livro em todo o lado

Já se contam os dias para o fim da Feira do Livro de Lisboa, que será no próximo domingo. Do que tenho visto, muita gente tem marcado presença neste evento que todos os anos anima o Parque Eduardo VII. Se fazem compras, isso já é outra história... 

Livros do dia, Hora H, promoções várias: são muitas as oportunidades para trazer para casa aquele livro que se queria, mas que não se encontrava ou cujo preço não era apetecível. Ora, isto é tudo muito bom, mas apenas para quem mora em Lisboa ou arredores ou quem, por acaso, está na capital por estes dias e pode deslocar-se à Feira. E para quem está longe não vai nada nada nada? 

Alguma coisa irá. Não é a Feira, que infelizmente não percorre o país, mas pelo menos duas editoras estão a dar oportunidade aos leitores de aproveitarem um bocadinho da Feira nos seus sites

A Tinta da China tem na sua página online uma vistosa publicidade aos seus livros do dia: até ao último minuto da Feira do Livro de Lisboa será possível comprar no site da editora qualquer um dos 95 títulos que foram sendo destacados como Livros do Dia ao longo da Feira. Isto é bom para quem não pode mesmo deslocar-se até lá, mas também para quem, tendo ido, não acertou nos dias em que os livros que queria estavam com um preço mais simpático. Portanto, os livros estão lá, com o mesmo desconto que tiveram na Feira e os portes são oferecidos pela editora. Vale a pena. 

A Relógio d'Água faz um desconto em todos os livros do seu catálogo que já tenham mais do que os 18 meses previstos na Lei do Preço Fixo. Vi esse anúncio no seu site logo nos primeiros dias da Feira. Infelizmente, vendo a página pelo telemóvel, não encontro o anúncio. Contudo, lembro-me de que para terem o desconto tinham de, na finalização da compra, escrever o código Feiradolivro. Fiz o teste com um livro com mais de 18 meses e resultou: o desconto foi aplicado. Acima de um determinado valor os portes são gratuitos e essa opção também surge na finalização da encomenda. Gostava de poder ser mais detalhada quanto a esta promoção, mas de facto não consigo ver o anúncio da mesma no telemóvel. De qualquer modo, vão ao site e experimentem. O código funciona, portanto passem o catálogo a pente fino e aproveitem a oportunidade. 

Gostaria de ver mais editoras enveredarem por este caminho. Em paralelo com a Feira darem a todos os leitores, de norte a sul do país, a possibilidade de aproveitarem ao menos uma parte do que o evento oferece. Pelo menos os livros do dia. Se não puderem aplicar todos os preços em vigor na Feira, que ao menos façam como a Tinta da China e disponibilizem essa possibilidade aos leitores. Seria muito bonito. 

Nota: Vi, depois de publicar este texto, que a Gradiva está também a fazer um desconto de 40% em todo o catálogo (apenas para livros com mais de 18 meses). Visitem a página da editora e vejam se alguma coisa vos agrada. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Dica para passar o feriado...

... segundo o Senhor Gato:

Nota: Cuidado, pois são necessários anos de preparação para conseguir relaxar desta maneira. O Senhor Gato é já veterano nisto: há cinco anos e meio que passa feriados (e basicamente todos os outros dias também. ..) enfiado em caixas. Se nunca experimentou, aconselhe-se com um especialista em contorcionismo antes de tentar encaixotar-se. Quando conseguir, o resultado final deve ser mais ou menos este:

Nota 2: Não tente igualar o Senhor Gato em beleza: é impossível. 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A Menina Quer Isto CXIX

Wook.pt - Diz-Me Que És Minha

Eu sei, eu sei que não costumo ler thrillers, que opto normalmente por outros géneros e que uma coisa assim costuma estar distante dos meus hábitos de leitura. No entanto, este (acabadinho de sair) Diz-me que és minha parece-me bastante porreiro e fantástico para ocupar o tempo (e agora começam aqueles dias mais longos e de sol que pedem livros, livros e mais livros).

De acordo com a sinopse, a protagonista perde uma filha numa viagem de família e pensa tê-la reencontrado vinte anos mais tarde. No entanto, pode ou não ser ela, até porque todos julgam que a rapariga morreu no dia em que desapareceu. Stella, a mãe, vai iniciar uma busca pela verdade e vai tentar provar que não está louca, que é o que todos pensam sobre ela. A mim parece-me que tem tudo para estar, mas espero que os livro me elucide e, sobretudo, que me surpreenda. 

Este é o primeiro livro desta autora sueca, Elisabeth Norebäck, e parece-me promissor. Pela sinopse e pela capa, acho que vou mesmo dar-lhe uma oportunidade. Venha o livro, um dia livre e um gelado para acompanhar. 

Feira do Livro, aí vou eu...

Nota: A imagem saiu daqui.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Perdoai-lhes, Senhor!

No pavilhão da Guerra & Paz na Feira do Livro, uma jovem de uns vinte e poucos anos comentava com uma amiga que tinha lido um livro de Júlio Dinis de que não tinha gostado muito porque o português «é velho». E, mesmo assim, tinha gostado mais de ler A Morgadinha de Canaveses...

Wook.pt - A Morgadinha dos Canaviais

Nota: A imagem saiu daqui.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Foi a Hora H

Hoje, ao final do dia, fui com o moço à Feira do Livro. Assim foi a Hora H nos pavilhões da Leya:


Vi filas enormes para as caixas de pagamento. Isso deixa-me contente: gosto de ver as pessoas as comprarem livros, pois é sinal de que há leitores e de que há quem valorize os livros e a leitura. É bom para as editoras, mas é ainda melhor para quem tem o prazer de passar umas horas com uma boa história, longe de realidades mais comuns, entregue a um mundo de papel que até pode ser pior do que aquele em que vivemos, mas que é diferente e nos ensina sempre qualquer coisa. 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A obra que fica

Na sexta-feira passada, fiz a minha primeira (e até agora única) visita à Feira do Livro. No bolso levava uma lista, mas curiosamente afastei-me dela e deixei-a para segundas núpcias. É que vi em promoção dois livros com os quais andava curiosa e de uma autora que queria conhecer melhor: Agustina Bessa-Luís. Os livros foram A Sibila e Fanny Owen.

Agustina faleceu hoje e os portugueses desfazem-se em mensagens simpáticas por essas redes sociais fora. Que faleceu uma grande escritora, que a cultura ficou mais pobre, que a literatura lhe deve muito. A minha questão é: quantos dos que dizem estas coisas fizeram efectivamente a maior homenagem possível a um autor, lendo o que escreveu? Quantos conseguem chamar os livros de Agustina de obras fundamentais da literatura nacional porque realmente leram algum dos seus livros? E quantos chutam mensagens de pesar só porque é uma moda das redes sociais?

Seja como for, morreu Agustina, mas vivem os seus livros. E a obra é imensa, há muito por onde escolher. Queira-se ler e haverá muitas histórias para conhecer. Vamos, então, a elas, pois mais do que palavras soltas numa rede social, é com leituras que os escritores se homenageiam e se perpetuam. 

terça-feira, 28 de maio de 2019

A Menina Quer Isto CXVIII

Não preciso de dizer mais do que isto: Gabriel García Márquez e seus textos jornalísticos. Querooooooooooo!

E a Feira do Livro começa amanhã...

Wook.pt - O Escândalo do Século

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Diário de Madame Pochita V

Querido diário, 
Ando pela rua a exibir a minha coleira cheia de bonecos. Sou uma pirosona, eu sei, mas não passo sem esfregar a minha beleza na cara do Bruce, o cão mais jeitoso do pedaço. 
Ok, ok... É uma coleira para evitar bichezas, mas acho que podemos concordar que tudo me fica bem, não é?! Madame Pochita sambando na cara das inimigas!

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Menina Quer Isto CXVII

Wook.pt - Agradar e Tocar

Adoro os livros do Lipovetsky. Adoro o modo como descreve e interpreta a sociedade actual. Neste novo livro vai falar sobre o modo como tudo está feito para nos conquistar, para nos seduzir. Dos anúncios de televisão à própria política, a sociedade consumista está marcada pela necessidade de  ser convencida. Essa sedução está em todo o lado, é constante e, frequentemente, não damos por ela. Lipovetsky é um pensador muito claro na exposição das suas reflexões e, por isso, vale sempre a pena lê-lo.

Porém, aqui entre nós, acho que a editora está com uma noção de preços um bocadinho... desfasada. Este livro tem um preço de capa de 26.90€. Mesmo com mais de 450 páginas, não deixa de ser um livro de pequeno formato e com capa mole, custando-me assim a conceber que seja mais caro do que muitos álbuns fotográficos ou novelas gráficas. Aliás, já noto esta questão dos preços nas traduções portuguesas deste autor há muito tempo e tenho pena porque, de facto, isto afasta alguns compradores. Eu, por exemplo. Gosto da ideia, quero o livro, mas não o vou comprar, pelo menos enquanto não passarem os 18 meses da lei do preço fixo. Este vai mesmo ter de esperar.

Nota: A imagem saiu daqui.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Diário de Madame Pochita IV


Querido diário,

Hoje fui ao veterinário porque parece que este mês fiz um ano. Bem, ninguém sabe bem quando é que eu fiz um ano, já que nasci na beira da estrada, mas aparentemente isso foi no mês de Maio de 2018. Não faço ideia, também não gosto de me lembrar desses tempos. Agora sou muito mais feliz.

Mas vamos ao que importa: parece que peso vinte quilos e mais duzentos gramas. Estou uma chouriça, foi o que a dona disse. E depois a veterinária deu-me um biscoito porque subi para a balança. Foi o biscoito mais fácil da minha vida. Tansa.

Tive um resultado esquisito na análise da Leishmaniose. Ouvi falar num fraco positivo. Levei uma pica e em breve vão tirar-me sangue para saber se tenho mesmo qualquer coisa ou não. Espero que não. De qualquer forma, agora tenho quem cuide de mim. Por isso, parabéns para mim: porque fiz um ano e porque apesar de tudo sou uma cão muito sortuda. 

A Menina Quer Isto CXVI


Esta Feira do Livro que aí vem promete. O espaço já não é nenhum lá em casa, preciso de mais estantes e quando tiver filhos o quarto deles será enfeitado com livros, mas não dá para deixar de querer coisas novas se o que vai saindo é muitas vezes bastante apetitoso. Este romance de Thomas Hardy é um desses exemplos. Publicado pela Relógio D'Água, conta a história de um tipo que, no meio de uma bebedeira, vende a mulher e a filha por cinco guinéus. Com o tempo chega a tornar-se uma pessoa respeitada na sociedade, contudo, o seu segredo obscuro vai estar sempre presente... Parece ou não promissor?

Bem, a lista está a compor-se. O espaço para arrumar mais livros é que não.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Felina vaidosa

Alguém chegou a este blogue pesquisando «felina vaidosa».

...

Deve ter tido uma desilusão.

Prioridades e o novo AO

Não é preciso muito para perceber que não gosto do Novo Acordo Ortográfico. Já aqui falei dele, particularmente quando o assunto estava na ordem do dia. Infelizmente, tive de render-me a ele na minha vida profissional. Contudo, o blogue mantém-se ainda hoje com a ortografia antiga. É uma situação um bocadinho doida, mas foi a minha opção por isso tenho de a aguentar.

Todos nós sabemos que quando o novo AO entrou em vigor, as editoras passaram a utilizá-lo e, a menos que os autores exijam o contrário, os livros aparecem com a nova grafia. Podemos até ter torcido o nariz, mas as pessoas de bom senso continuaram a querer ler e não desistiram de comprar novos livros só porque a escrita era diferente da usada até então. Repare-se: eu disse pessoas de bom senso. Infelizmente, anda por aí muita gente doida.

Quem segue editoras nas redes sociais é informada com frequência sobre as novidades que vão saindo. Com facilidade pode verificar-se que não são poucos os que aproveitam tais publicações para mandarem vir (outra vez) com o AO, dizendo que não compram livros com o novo acordo, que não lêem em “abortês” e pérolas afins. Ora, crendo no que dizem estes iluminados, sou levada a pensar que a) só compram livros de autores que escrevem pela grafia antiga e b) que não lêem nada que esteja com o novo AO, por apetitoso que possa ser o livro.

Sendo eu alguém que acha que o novo AO está pejado de idiotices e de regras que não têm lógica nenhuma, posso falar à vontade quando digo que as pessoas que cospem tais alarvidades sempre que sabem de algum novo livro prestes a sair não gostam assim tanto de ler como pensam. Abdicar de ler o que de bom ou muito bom vai saindo porque está com a nova grafia é, no mínimo, infantil. A língua sempre mudou, faz parte das suas características o facto de se alterar com os tempos, com as novas realidades. Podemos discordar de regras disparatadas que só criam confusão, mas quem gosta efectivamente de ler não deixará de querer conhecer novos autores e obras promissoras só porque não estão lá umas quantas consoantes mudas. Mais: tantos anos depois ainda andar a fazer birra com isso parece-me digno de garotos pequenos e não de gente adulta. 

Acho que não se pensou suficientemente no novo AO, acho que há regras absolutamente estúpidas e arbitrárias e que em muitos casos mudou-se sem razão lógica. Creio que tudo isto deveria ser repensado, até porque vários países que deveriam estar a usar o AO não o estão a fazer. Espero, fazendo fé numa notícia do Expresso de há algumas semanas, que se repense tudo isto e, não acabando com o AO (que seria pior a emenda que o soneto) se reponha a lógica em idiotices como a forma do verbo “parar” sem acento (acabando igual a uma preposição...). Todavia, a vida não pára e todos os dia saem livros que quero ler. Estejam com a nova grafia ou não, quero lê-los. Gosto de ler e, como tal, não posso abdicar de conhecer o que vai sendo publicado só porque não está como estaria há vinte anos. Se o nosso querido Eça ou o nosso Camilo voltassem à terra e lessem um livro com a grafia que usávamos, por exemplo, na década de 80 do século passado, também teriam um fanico. Foi antes de aplicarmos o novo AO e mesmo assim já não escrevíamos como eles escreveram em tempos. Porquê? Porque a língua não é sempre a mesma, embora algumas almas mais tacanhas achem que sim.

Por isso, caros senhores que comentam todas as publicações das editoras com impropérios contra o novo AO e que afirmam não comprarem livros que o tenham, se não querem ler, não leiam. Comprem os vossos livros sempre sem a nova grafia e ocupem-se a lê-los. Pode ser que vos falte tempo para irem torrar o juízo dos outros com birrinhas infantis e fora de prazo nas redes sociais.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hilariante

Os banqueiros estão unidos nos argumentos sobre a necessidade de os portugueses pagarem pelo uso das caixas multibanco porque esse serviço tem custos para os bancos e porque somos dos poucos países na zona euro que usam as caixas multibanco de forma gratuita. Tem graça: pensava que esse serviço ficava pago com os milhões dos contribuintes que de tempos a tempos o Estado injecta na banca devido ao fantástico trabalho que tem sido feito nessa área... Que ingénua sou. 

terça-feira, 7 de maio de 2019

Diário de Madame Pochita III

Querido diário, 

Tinha meia dúzia de coisas para dizer, principalmente sobre lógica aristotélica e falácias, mas acabei por distrair-me com festas no peito e por isso terei de deixar tais considerações para amanhã. Agora, confesso, nem estou em mim. Por agora, ficarei aqui tombada em cima dos chinelos da dona a receber o devido tributo por ser uma Cão muito fofa. 

Até amanhã! 

Às camadas

Na gala do MET, a Lady Gaga usou um vestido que na realidade eram mais ou menos quatro vestimentas numa só. Era assim uma espécie de bolo às camadas. A última já estava mais para recheio do que para camada, mas pronto.

Ora, e o que concluo eu de tudo isto? Que a Lady Gaga com quatro camadas de roupa sobre ela consegue sempre parecer mais esbelta do que eu com uma fininha blusa de algodão. Que vida a minha! 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O planeta dos Macacos (e da CMTV)

Se um extraterrestre instalar um serviço de televisão paga que inclua um canal extraplanetário e se esse canal for a CMTV, o que vai o pobre ET pensar das pessoas que habitam o nosso planeta, ao ler coisas destas?


Diário de Madame Pochita II

Querido diário,

São agora 9:30 H e já cãopri muitos dos afazeres da minha lista. Consegui surripiar duas peças de roupa da dona de dentro do cesto da roupa suja e melhorá-las com dois buracos gigantes. Ela não gostou, mas tenho esperança de que venha a perceber que a pele precisa de respirar.

Já lavrei a areia do gato. Fui lá, enfiei a pata e... bom, digamos que a casa precisa de ser varrida. Mas deixo isso para os donos porque eu já fiz muito hoje e começo a precisar de uma soneca das valentes.

Para já fico por aqui. Depois da soneca vou ver se consigo roer, partir, esconder, roubar, rasgar ou esburacar qualquer coisa. É uma vida estafante. A verdadeira vida de cão.

Ass.: Madame Pochita, a bárbara.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Histórias de Nova Iorque - o balanço

Terminei ontem a leitura deste livro, pertencente à colecção de textos de viagens da Tinta da China. O autor, Enric González, é jornalista e no início do milénio esteve em Nova Iorque como correspondente do El Pais

O livro aborda temas tão diferentes quanto as origens da cidade, a loucura que é arrendar por lá uma casa sem declarar falência, a adoração que os nova-iorquinos têm por beisebol (e as peculiaridades de alguns dos mais conhecidos jogadores dos Yankees e dos Mets), a máfia da cidade e as suas personagens, os bifes e a sua ciência, os diferentes bairros da cidade, os homens ricos que criaram grandes impérios que ainda hoje rendem muitos milhões e, claro, aquela data inesquecível que nunca mais se separará da cidade: o 11 de Setembro. 

É um livro pouco extenso, lê-se rapidamente. Além disso, o autor tem um humor imenso e sabe rir-se dos desastres que lhe vão acontecendo na cidade, quer seja na odisseia desmedida para conseguir um tecto sob o qual viver, quer seja perante uma perseguição policial enquanto se encontra carregado com as compras feitas no supermercado. Têm um olhar jornalístico inequívoco e, assim, consegue olhar para Nova Iorque sem ficar preso aos elementos mais conhecidos. Pelo contrário, consegue olhar além do óbvio e descobrir beleza em aspectos muito pequenos da cidade. Sendo estrangeiro, consegue ainda olhar de fora e aperceber-se mais facilmente das peculiaridades que fazem de Nova Iorque uma daquelas cidades que nos atrai e repele. Atrai porque nos entra em casa pelos filmes, porque sentimos que a conhecemos desde sempre, porque gostaríamos de ver ao vivo aqueles arranha-céus, o Ground Zero ou a Estátua da Liberdade. Repele porque temos ideias prévias relacionadas com a criminalidade em bairros como o Bronx e outros, porque tememos ser engolidos pela velocidade a se vive por ali e por muitas outras razões. 

Seja como for, fechamos o livro confirmando a sensação criada, provavelmente, pelos inúmeros filmes que mostram Nova Iorque: aquela não é uma cidade como as outras. Tem uma identidade muito própria e acredito que quem lá vai deseje regressar. Como o autor deste livro. Nova Iorque, os seus sons, as suas luzes ficam na memória, exercendo encanto como as sereias de Ulisses. Livros como este servem para provocar a vontade. Servem, diria eu, para acrescentar um novo lugar à lista de destinos a conhecer. E servem para entreter os que não podem partir e a quem resta viajar à roda do quarto, vendo o mundo pelas páginas de um livro. 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Diário de Madame Pochita I

Aqui onde me vedes, luto contra a minha manta azul que acabou de engolir uma das minhas 5835 bolas de ténis. E não a cospe! Ah, mas eu não desisto! Não desisto de recuperar a minha bolinha e não desisto de tentar deixar a minha dona sem um chinelo. Se tem dois, por que motivo não posso ficar com um?! E eu que até tenho quatro patas. Oh vida injusta!

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Pelo Latim: habemus grammaticam!

Esta quixotada podia perfeitamente pertencer ao grupo «A Menina Sugere Isto», mas falando-se aqui de uma gramática de latim, língua que poucos chegam a aprender, achei que podia fazer isto de forma diferente. 

Como penso que já disse aqui no blogue, sou, de acordo com o meu diploma, professora de português e de latim. No entanto, nunca dei aulas de latim fora do estágio. Tive a oportunidade de o fazer, mas não quis aceitar a oferta por uma razão muito simples: não viria a ser boa professora. Deixo essa tarefa para quem domina a língua melhor do que eu. Fiquei-me pelo português já que ensiná-lo era mesmo o meu sonho.

Contudo, aprendi latim na faculdade e dou-lhe até maior valor hoje do que dava na altura. Foi soberbo para perceber melhor a nossa língua, para compreender de onde vinham as palavras e que caminho haveriam de percorrer até chegarem a ser as que hoje usamos. Foi uma aprendizagem importante para mim e acredito que faz muita falta aos nossos alunos. Tenho a certeza de que a nossa gramática seria mais fácil de aprender se também passassem pelo conhecimento da gramática latina. No entanto, a lógica do útil e do inútil e do imediatamente utilizável foi-se sobrepondo e Portugal deixou morrer o ensino do latim nas escolas. Aqui e ali ainda se aprende, sobretudo nos colégios privados, mas a maior parte das escolas desistiu da oferta da língua latina. 

Porque é uma língua morta, porque não dá dinheiro, porque não garante acesso a postos de trabalho: as razões foram imensas e todas presididas por uma enorme ignorância. O latim está-nos no sangue, na história e quem manda optou pelo esquecimento. Louvo os colégios que insistem no seu ensino, que o têm inclusivamente como disciplina obrigatória, que percebem que o português se aprende melhor se a base latina estiver lá. Eu, como disse, não daria uma boa professora de latim, mas nem por um segundo lhe retiro a importância que tem. E não deixo de lamentar o esquecimento a que tem sido sujeito. É mais estudado, lido e ensinado em países de língua não românica, como a Alemanha, do que em Portugal. E hoje, com a autonomia das escolas, até seria mais fácil inclui-lo nos curricula. Felizmente, ainda existe quem a ele dedique a vida: a estudá-lo e a ensiná-lo.

Por isso mesmo, porque tenho o privilégio de conhecer alguém que se apaixonou pelas línguas e literaturas clássicas e que tem a elas dedicado o seu tempo, aproveitei para deixar no blogue um testemunho muito mais rico do que o meu no que à importância do latim diz respeito. 

Gabriel Silva é professor de latim desde 2010, se não me falha a memória. Fez o seu mestrado e o doutoramento na área das línguas e literaturas clássicas. Continua a traduzir e a investigar (porque este mundo não tem fim e são poucos os que labutam nele), mas também a ensinar latim a crianças e jovens do ensino básico e secundário. Pedi-lhe para escrever um pequeno texto sobre a língua dos romanos e ele acedeu. Aí vão as suas palavras.

«Olavo Bilac (o poeta brasileiro, não o cantor) disse, em tempos, que a língua portuguesa é a última flor do Lácio. O Português é, sim, uma das flores que o Lácio deu ao mundo. Que todos sabemos que o Latim é a base principal do nosso idioma, não duvido. Mas até que ponto utilizamos palavras de todos os dias sem conhecermos um pouco da sua história? Saberemos nós que quando estamos a considerar uma coisa, de certo modo estamos com o olhar posto nas estrelas? Teremos noção de que o verbo pular está relacionado com frangos? O Latim tem muitas utilidades. Passar um raio-x em boa parte da língua portuguesa é apenas uma delas. Poderia agora elencar os mil benefícios de aprender Latim: ajuda na gramática, dá uma maior sensibilidade para o Português e outras línguas românicas, abre portas para um mundo imenso de literatura..., mas já consigo ouvir um coro que se levanta contra o ensino/aprendizagem da língua do Lácio. Os argumentos são os habituais: já não se usa, não tem utilidade, não dá dinheiro, não gera emprego... Mas agora pergunto eu: e não é bom conhecer/saber uma coisa apenas porque sim, pelo simples gozo de aprender e de saber? Estou longe de imaginar (quanto mais de querer!) que toda a gente se torne latinista, mas não é tão bom aprender uma coisa nova? Eu não sei tocar nenhum instrumento musical, mas gostava apenas porque sim, porque é agradável aprender, e é mais um meio de olear a nossa maquinaria mental. Sabem que mais? A ignorância é atrevida.»

E já que falamos tanto de latim... Frederico Lourenço tem sido responsável por traduções de textos clássicos e por adaptações dos mesmos aos mais novos. Tem feito um trabalho imenso na área. Na Quetzal, publicou recentemente esta Nova Gramática do Latim.

Wook.pt - Nova Gramática do Latim

Já a tenho e está estupenda. Além de que era difícil aos alunos de latim encontrarem uma boa gramática (o velhinho Compêndio já não era fácil de encontrar), é bom ver sair estes títulos que dão novo fôlego e chamam a atenção para esta «língua morta» (linda expressão). Não deve haver aluno de Letras que não vá a correr para esta gramática, mas seria bom que outros se sentissem tentados a aprender um pouco mais sobre esta língua. Por extensão, saberão mais de português. E isso é sempre bom.

Por isso, se tiverem curiosidade, se quiserem tentar perceber o que ainda existe de latim no nosso português, fica esta sugestão. É um livro bonito, bem feito e com um conteúdo importantíssimo para os falantes de português. E, nunca se sabe, pode ser que nasça assim a vontade de saber mais. Até porque essa deve manter-se sempre. 

Nota: A imagem saiu da página da Wook.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

A Menina Quer Isto CXV

Wook.pt - Kentukis

Nunca li nada desta autora e confesso que nunca havia ouvido falar dela. Mas hoje li esta crítica no Observador e fiquei muito curiosa relativamente a este romance que trata de um presente meio futurista, no qual humanos adquirem por alguns dólares um peluche que lhes fará companhia, sendo remotamente comandado por um outro humano. O leitor acompanha ao longo de mais de duzentas páginas as relações de várias personagens com estes Kentukis, os bonequinhos japoneses que viverão com elas e que nunca poderão ser desligados. No fundo, parece-me haver aqui a questão da solidão dos nossos tempos, mas também do modo como a tecnologia entra na nossa vida com grande pompa e circunstância. Abrimos-lhe a porta com gosto e deixamo-la aberta até ao dia em que percebemos que essa mesma tecnologia está a arruinar-nos, como parece suceder a alguns dos donos de Kentukis. É tudo muito bom e bonito até ao dia em que se percebe que aquele boneco, aquela companhia simpática tem alguém por trás dela e é mais prejudicial do que benéfica.

Fiquei muito curiosa com esta história. Acho que vou acrescentar este título à lista de desejos para a Feira do Livro de Lisboa, que começa no final de Maio. Se entretanto algum dos três leitores desta casa passar os olhos por este romance, manifeste-se, por favor. Gostava de saber o que pensam sobre tal história.

Nota: A imagem saiu daqui.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Os novos Velhos do Restelo

Resultado de imagem para catedral de notre dame

Todos ficámos de coração apertado ao ver um monumento com séculos de História ser devorado pelo fogo. A queda daquele pináculo foi um murro no estômago para toda a Europa e, claro, sobretudo para França. Todos sabemos que o que ali estava tinha um valor incomensurável e que cada centímetro ardido era uma perda inestimável. Acho que nunca tinha assistido a uma reação de choque tão profundo perante a destruição de um monumento (e recordem-se que, infelizmente, nos últimos anos vimos muitos serem deliberadamente arrasados por fanáticos religiosos). Creio que entrou também em campo a questão da proximidade e do simbolismo. Mesmo sem termos visitado a Catedral de Notre Dame, ela estava próxima, aqui no nosso continente, e era um símbolo do seu país. Muitos recordaram o célebre corcunda, fosse o de Victor Hugo ou o da versão da Disney: todos ficámos suspensos das notícias que chegavam e reduzidos à nossa insignificância perante um fogo que devorou séculos de História, toneladas de cultura.

O Presidente Macron fez nessa mesma noite uma comunicação ao país apelando à união de esforços para a reconstrução da catedral. Salvaguardada a estrutura, torna-se possível falar em reconstrução. Imediatamente alguns milionários doaram avultadas quantias para que a catedral volte a erguer-se. E, quando as notícias dessas doações chegaram à internet, ergueram-se também os Velhos do Restelo que por lá andam adormecidos (mas só até à oportunidade seguinte para reclamar com o mundo).

Os Velhos do Restelo do Facebook (a única rede social que sigo) começaram a fazer circular textos sobre a pouca vergonha que é arder um monumento e aparecerem logo milhões para a sua reconstrução, havendo fome em África sem que alguém se preocupe com isso. Alguns apressaram-se, inclusivamente, a justapor duas imagens: em cima a catedral em chamas e em baixo umas cinco crianças em situação de fome extrema. Nem preciso de falar na quantidade de likes que estas publicações que vi conseguiram em pouco tempo. Acho que podem imaginar.

Também encontrei comentários às notícias sobre as doações que podiam ter sido proferidos pelo Velho do Restelo camoniano. De repente, estes combatentes da fome no mundo saíram dos seus casulos e revelaram indignação por, aparentemente, se ajudar mais depressa a reerguer paredes antigas do que a matar a fome a crianças que necessitam de auxílio imediato. Mais likes. E, como a estupidez funciona por osmose, mais comentários do mesmo género por ali fora.

Claro que todos gostaríamos que o mundo não tivesse problemas. Claro que fome, guerra e pobreza são coisas que gostaríamos de eliminar, ninguém põe isso em causa. E acredito que diariamente haja quem tente minimizar a dor dos que sofrem e quem tente resolver os problemas que conduziram aos conflitos ou à fome. Porém, não podemos esperar que todo o dinheiro que existe seja canalizado para esses problemas. Reerguer uma catedral que faz parte da nossa História, que é um elemento cultural da maior importância não significa que não nos preocupamos com outros problemas e que nada fazemos para acabar com eles. É como quando alguém ajuda uma instituição de animais e vêm logo estes indignados de serviço dizer que é uma vergonha estar a dar dinheiro a cães e gatos com tantas crianças a passarem mal. São incapazes de perceber que é possível olhar para os dois lados, que é possível tentar resolver diferentes problemas. E são ainda mais quadrados para compreender que, infelizmente, alguns problemas não se resolvem simplesmente mandando dinheiro para os locais onde existe fome. Por vezes, há questões políticas na base dessas dificuldades que impedem inclusivamente que façamos mais por aquelas pessoas (basta pensar no que se passa na Venezuela e no que aconteceu à ajuda humanitária que para lá se enviou, impedida de entrar pelo próprio governo). Além disso, são extremamente injustos quando até vemos que as pessoas se mobilizam para ajudar quando a isso são chamadas. 

Estas pessoas também não devem ter noção de que há paredes de pedra («cimento», como um iluminado chegou a dizer) que dizem mais sobre nós do que mil páginas de internet, do que qualquer rede social. Paredes pelas quais se tem afecto e que se desejam de pé, não no meio de cinza e escombros a existir apenas na memória. Estas pessoas encontrarão sempre o que criticar e se calhar até são as mesmas que nem contribuem para recolhas de alimentos porque «há sempre quem se aproveite sem precisar» ou porque «a mim ninguém me ajuda». No fundo, tais criaturas encontrarão sempre motivo para a indignação e espalharão na internet questões que não existem e aspectos que não colidem. Doar dinheiro para reerguer um símbolo de França não exclui que se faça mais por um mundo melhor. E muitos praticam o bem sem querer publicidade sobre isso. Muitos doam sem desejar que isso se saiba. Quantos gostariam de fazer mais e não podem porque as questões políticas não o permitem?

Mas isso já obriga a pensar, a ler, a ver noticiários e os indignados não têm tempo para essas coisas. Eles servem para apontar as injustiças sociais, mesmo que tais acusações sejam, elas próprias, injustas. No fundo, acho que falam para não estarem calados. São estes Velhos do Restelo que geram e embarcam em populismos, que abrem as portas a ideias demagogas, vazias e perigosas. Tudo porque são mal-informados com a mania de que sabem muito; porque são pessoas que não enxergam além do óbvio e que ficam pela rama; porque são incapazes de pensar sobre um assunto e de resistir ao imediatismo das redes sociais, ao gozo bacoco de ter likes e gente a apoiar as suas palavras. São pessoas que vêem uma catedral com centenas de anos a arder e não entendem sequer o que estão a ver. Estes Velhos do Restelo, estes indignados, estas pessoas que sofrem de quixotismo inerte são um perigo. E são, para mim, dignos de dó.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A Menina Sugere Isto XXXIX

Wook.pt - Sabrina

Sabrina é o título de uma novela gráfica que reflecte em boa medida os tempos loucos que vivemos. Nesta história de Nick Drnaso, uma rapariga desaparece e, ao contrário do que poderíamos esperar, o leitor não encontra a busca por essa personagem, mas sim as repercussões que o desaparecimento teve na vida de quem a rodeava, sobretudo a irmã, o namorado e um amigo dele. Não é que não importe saber o que aconteceu a Sabrina: interessa-nos e sabê-lo-emos a seu tempo, contudo, mais do que a história de quem desaparece, nesta novela gráfica destaca-se a história dos que ficam e que, além da dor, têm de lidar com os outros e com um mundo onde as teorias se espalham muito rapidamente, sem ter em conta sentimentos alheios ou o respeito pelo próximo.

Aquilo a que frequentemente assistimos na nossa vida quando abrimos o Facebook e encontramos as mais disparatadas teorias e opiniões sobre determinados acontecimentos (lembrar-me-ei sempre da opinião de uma senhora que considerava culpada a mãe do menino espanhol que caiu num buraco no início deste ano apenas porque... nunca a viu chorar) está neste livro. E o que é curioso é que, ao lê-lo, me senti minúscula: o que sou, o que somos estava ali. Uma personagem desaparece e o mundo dos que faziam parte da sua vida fica de pernas para o ar. Porém, esse medo e essa dor são completamente estraçalhados pela opinião pública e pelas muitas teorias da conspiração veiculadas através de redes sociais, da rádio e de outros meios de comunicação. Todos têm uma explicação para o que aconteceu a Sabrina, todos conseguem explicar o que lhe aconteceu REALMENTE, mesmo quando já existe uma resposta verdadeira e comprovada. Ainda assim, as pessoas continuam a sentir-se livres para emitirem opiniões cruéis, infundadas, acusatórias e profundamente dolorosas para os familiares da personagem desaparecida. Pouco importa o sofrimento deles, não interessa se vão magoá-los ainda mais. O que as pessoas querem é fazer-se ouvir, mostrar que pensaram sobre o assunto e que vêem mais longe do que os outros, dar a entender que não se deixam enganar por nada nem ninguém. 

Sabrina desaparece. E, de facto, após as primeiras páginas Sabrina desaparece mesmo do livro. Saberemos o que lhe aconteceu, mas não a voltaremos encontrar como nas primeiras vinhetas, sendo uma rapariga com uma vida normal e pessoas que a amam. Para o autor, mais importante do que a história de um desaparecimento é a história dos que ficam e têm de lidar com os destroços. Com a angústia de não saber o que aconteceu e com a dor de lidar com aquilo que entretanto sabem ter acontecido. E mais: que têm de saber lidar com as teorias de quem não conheceu nenhum dos intervenientes, mas que mesmo assim não tem qualquer pudor em levantar dedos acusadores, transformando em menos que miseráveis as vidas de familiares e amigos da vítima. Tudo isto é tão real, tão próprio dos nossos tempos que terminamos a leitura boquiabertos com a pertinência da história. Mas, sobretudo, fechamos o livro embaraçados com as opiniões escusadas que já emitimos; com os dedos que também já apontámos e que aumentaram em muito uma dor que já existia; com as teorias da conspiração que desenvolvemos e com o orgulho que sentimos por considerarmos que nós é que sabíamos a verdade e que ninguém era capaz de nos enganar. Terminamos a leitura com a sensação de que a vida agora, infelizmente, também é aquilo. Mas também é um passeio de bicicleta pelo campo. E também é a amizade. No fundo, este livro, mostrando o ser humano como ele é, tem muitas coisas dentro de si. Eu diria ser quase um livro sem fim de tanto que é capaz de nos fazer pensar sobre o que somos para os outros (e mesmo para nós mesmos). Quem o lê como deve ser tem de sentir-se levado a pensar sobre o modo como lidamos com os outros e com a sua dor. Se não o fizer, não leu verdadeiramente esta novela gráfica.

Os desenhos de Nick Drnaso são de uma simplicidade comovente. No fundo, mais do que a perfeição dos bonecos, importam-nos a história, as personagens, o que com elas se passa. Ainda assim, existem detalhes que saltam à vista. Os facto de tudo ser tão simples, tão limpo evidencia precisamente qualquer aspecto mais incomum. Portanto, podemos dizer que texto e desenho se complementam muito bem e que a simplicidade do traço serve perfeitamente o objectivo do autor que, note-se, é um jovem de trinta anos com uma sensibilidade incrível, como o livro demonstra bem.

Por tudo isto e pelo muito que poderíamos dizer sobre esta novela gráfica, aconselho-vos vivamente este livro. Lê-se num instante e não nos deixa indiferentes. Leva-nos a um mundo que, sendo o de Sabrina, é, afinal, o nosso. A boa literatura é isto mesmo e é sempre tão bom encontrá-la. Sabrina foi uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos e, portanto, achei que devia partilhar este título convosco. Espero que gostem tanto como eu.

Nota: A imagem da capa saiu da página da Wook.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Em busca de lugar na estante XXI

Esta banda desenhada sobre um unicórnio fêmea e a menina que a encontra e que passa a ser a sua melhor amiga vem jubtar-se aos anteriores três volumes da colecção. Já conhecia esta banda desenhada há vários anos. Cheguei a ela através de uma App de comics. Tem estado a ser traduzida e publicada por cá desde o ano passado e continuo fã. Os livros lêem-se num instante, a diversão é garantida e o humor não é, normalmente, o mais óbvio. Vale a pena. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

Eu sou velha o suficiente para... VI

Eu sou velha o suficiente para me lembrar dos tempos em que ninguém telefonava depois de uma certa hora, que, em algumas casas, poderiam ser as dez da noite, mas noutras seria ainda mais cedo. Era quase como se o telefone fechasse, como fecham as lojas e os serviços. Respeitava-se o direito ao descanso. Tinha-se um grande receio de acordar os outros, de lhes perturbar o sossego nocturno. E se por algum motivo o telefone tocava depois dessa hora, todos saltavam de medo: era quase certo que viriam de lá más notícias.

Agora estamos sempre contactáveis. O telefone fixo ou não existe ou nem se usa, mas os telemóveis dormem na nossa mesa de cabeceira, recebendo notificações várias, mensagens e todo o tipo de contactos possíveis e imaginários. Hoje já é quase banal receber mensagens depois da meia-noite ou telefonemas quando julgamos que todo o mundo dorme. Nunca desligamos completamente precisamente porque também não desligamos os telemóveis. Não raramente, acordamos com um e-mail que chega, com a vibração causada por uma conversa entre um grupo de WhatsApp.

Eu ainda sou um bocadinho como eram os meus pais. A partir das dez horas da noite não telefono a ninguém. Evito enviar SMS's e, na loucura, envio um e-mail. Mas nem toda a gente é assim e há uns dias fui acordada com uma mensagem no WhatsApp que podia perfeitamente ter sido enviada no dia seguinte porque não dizia nada de extrema importância. Fiquei louca, possessa mesmo, uma vez que depois me vi em grandes apuros para conseguir voltar a adormecer.

Comentei isto com uma amiga que me disse «Desliga o Wi-Fi à noite.» Senti-me tão jumenta. Era óbvio e eu nunca tinha pensado nisso: desligar a porcaria da internet durante a noite. Não há cá e-mails nem Messenger, nem WhatsApp. Tudo o que me for enviado é recebido no dia seguinte, ao ligar outra vez o Wi-Fi. Claro que me sobra a possibilidade de receber chamadas e SMS's, mas, por razões óbvias, não posso abdicar dessa possibilidade de ser contactada. Afinal, no meio de tanto disparate, ainda acontecem emergências e podemos sempre precisar de ser contactados. Todavia, por agora, tudo o que seja enviado pela internet só chegará de manhã. Não há fotografia ou disparate que seja mais importante que as horas de sono. Já lá vai o tempo em que os e-mails do colégio chegavam a qualquer hora com a exigência de resposta rápida. E pensar que nessa altura teria sido tão bom desligar o Wi-Fi e nem sequer me ocorreu. É já tão banal estarmos conectados ao mundo através da internet que nem percebemos que podemos desligar-nos e recuperar o sossego perdido. Como nos tempos em que os telefones só tocavam até uma certa hora e éramos todos tão felizes.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A Menina Sugere Isto XXXVIII

O jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, também escritor, lançou-se num novo projecto, desta vez na música. Xave é o seu nome e o primeiro disco foi hoje posto à venda. Todavia, duas das músicas estão já no YouTube e podemos ouvi-las. É um doce para depois querermos conhecer as outras. 

Fiquei curiosa com esta ideia desde que foi apresentada na televisão. Os excertos de canções do álbum pareceram-me interessantes. Agora aproveitei para ir ouvir as duas músicas disponibilizadas no YouTube e, honestamente, parece-me que as composições e letras do Rodrigo Guedes de Carvalho e a voz da Isabelinha estão de parabéns. Convido-vos a conhecerem estas canções e depois, quem sabe, a comprarem o álbum. Se for tão bom como esta pequena amostra, já estamos muito bem. Parece-me que a música portuguesa sai hoje a ganhar.



terça-feira, 19 de março de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Autobiografia de Agatha Christie - o balanço

Wook.pt - Agatha Christie


Quando um escritor tem uma obra tão vasta e reconhecida como Agatha Christie, é fácil esquecermo-nos de que houve uma vida além da escrita. Ora, a existência desta escritora é riquíssima e dava um (ou muitos) livro(s). 

Nasceu no seio de uma família endinheirada, sendo a filha mais nova e, portanto, ao mesmo tempo, a «bonequinha» e a mais esquecida da família. Os irmãos eram consideravelmente mais velhos do que ela e, por isso, desde cedo Agatha Christie começou a criar mundos de fantasia e a fazer parte deles como forma de brincadeira. Estaria longe de imaginar, nesse tempo da infância, que essas efabulações seriam um excelente treino para o futuro que a esperava. Imaginava amigos que não existiam, histórias com múltiplas personagens e traçava minuciosamente o carácter de cada uma delas. Mais: criava enredos para os diferentes núcleos de figuras inventadas.

Anos mais tarde, viu-se desafiada pela irmã a escrever um romance policial. Aquela sugestão ficou dentro de si e, numa fase em que a necessidade imperou, o primeiro livro viu a luz do dia. Porém, antes disso foram muitas as rejeições. O primeiro contrato que assinou com uma editora era draconiano. Ganharia meia dúzia de tostões. Claro que a editora tentou segurá-la ao perceber que ali estava uma autora promissora, mas Agatha Christie deu outros passos e acabou por lucrar com a escrita, vivendo dela mesmo em tempos difíceis. Note-se que a autora viveu as duas guerras mundiais e em ambas trabalhou em hospitais e farmácias, convivendo de perto com substâncias químicas. Esta aprendizagem foi fundamental para as suas histórias, para os famosos casos de envenenamento que imaginou e para o modo como os descreveu tão bem e de forma tão verosímil.

Este é um livro longo, mas o leitor nem nota que está a ler centenas de páginas. É uma vida tão cheia de aventuras e de momentos extraordinários que a leitura flui, as páginas viram-se e o livro termina com a sensação de que podíamos continuar a lê-lo durante muito mais tempo. Agatha Christie faz nesta Autobiografia o mesmo que nos seus outros livros: é directa, ainda que aqui e ali divague um pouco mais sobre alguns temas. Vai contando os factos que moldaram a sua vida e avançando, de modo a que, no fim, somos capazes de perceber em que medida isto ou aquilo, esta ou aquela pessoa tiveram influência sobre ela para que se tornasse na autora que conhecemos. 

Acho sempre muito interessante ler sobre a infância. É uma fase da vida extraordinariamente importante. É sobretudo nela que aprendemos a viver com os outros, que definimos certos gostos e aversões, que experimentamos coisas pela primeira vez, que começamos a idealizar o futuro... Por isso, aquilo a que somos expostos nesses tempos iniciais tem repercussões futuras. No caso dos escritores, a infância dá muitas vezes o mote para muitas histórias, para personagens. Gosto muito de ler biografias e autobiografias, mas a fase sobre a qual gosto mais de ler é mesmo a infância. Com este livro da Agatha Christie, tal voltou a acontecer. Se toda a sua vida é uma catadupa de acontecimentos interessantes, a verdade e que a infância e aquilo que ela construiu durante esses anos serviu de base para o que veio depois. E o que veio depois é uma aventura. Se algumas das suas ideias sobre o mundo podem parecer-nos ultrapassadas (importa ter em conta que eram comuns na época em que viveu), é, por outro lado, inequívoco o espírito aventureiro que nasceu na meninice e que continuou pela vida fora. A viagem no Expresso do Oriente, as visitas a países tão exóticos e diferentes como o Iraque ou a Síria, a África do Sul ou a Rússia fazem parte do seu espírito eternamente curioso e ávido de experiências novas. A maternidade não a fez parar, pelo contrário: Agatha Christie continuou a viajar, a conhecer diferentes hábitos, culturas e histórias e tudo isso entrou nos seus livros. Quando Poirot vive uma aventura no Expresso do Oriente, fá-lo porque a sua criadora fez essa viagem, conheceu-a bem. Se há policiais cujo enredo decorre no Egipto, é porque Agatha Christie esteve lá, viu, ouviu e sentiu o que por lá se vivia. Se encontramos escavações arqueológicas em alguns dos seus livros, tal deve-se ao facto de ter conhecido de perto essa realidade com o segundo marido. Já para não repetir que conviveu de perto com substâncias químicas que conheceu bem e que figuraram nos seus livros. São célebres os homicídios por envenenamento nos livros de Agatha Christie.

É por tudo isto uma leitura que aconselho. São muitas páginas de uma vida real que daria um romance. O tom alegre, optimista da autora falando da sua vida, mesmo quando refere momentos nada doces, enriquece o livro. E ainda que não concordemos com ela relativamente a algumas maneiras de ver o mundo (como quando fala da dependência das mulheres em relação aos maridos), a verdade é que também esses momentos nos permitem ver como o pensamento mudou e, portanto, acabam por ser interessantes. Falta-me apenas referir que o livro inclui fotografias da autora e de familiares seus e só pecam por serem poucas. Ao ter vivido tanto em tantos locais diferentes, apetecia ter quase uma imagem por episódio aludido, o que seria claramente impossível. Ainda assim, seria interessante ver mais fotografias de Agatha Christie nas viagens que fez, uma fotografia de um texto escrito por ela, por exemplo, com correcções (algo que os leitores costumam gostar de ver). Tirando isso e alguns lapsos gramaticais nesta edição portuguesa, o livro é uma delícia. Se conseguirem, deitem-lhe a mão e dediquem-lhe tempo. Não vão dá-lo como perdido.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Divulgações de livros no blogue As Minhas Quixotadas

Nas últimas semanas, o e-mail deste blogue tem sido invadido por comunicações de lançamentos de livros de diferentes editoras. Nunca antes tinha acontecido isso. De vez em quando lá vinha um ou outro e-mail a solicitar divulgação no blogue, mas este boom aconteceu agora pela primeira vez.

Gosto muito de conhecer as novidades que outras editoras vão lançar. É bom estar a par do que vai saindo. No entanto, não vou divulgar nada disso no blogue enquanto não me fizerem chegar um exemplar que seja. E porquê? Bom, em tempos, a propósito de um leque de quixotadas sobre as peculiaridades dos leitores, pedi a uma das editoras que agora envia informações para o e-mail do blogue um exemplar de um livro que conhecia para falar dele aqui. O tema vinha a propósito e, caramba, acabaria por fazer-lhe alguma publicidade. Mais: eu compro TANTOS livros que não estaria de forma alguma a aproveitar-me para ler sem pagar. Provavelmente, receberia um livro de oferta, mas acabaria a comprar outros três ou quatro. Sou assim, nada a fazer.

A pessoa que contactei na editora em questão disse que mo enviaria e até hoje aguardo. Já lá devem ir uns dois anos. 

Este blogue nunca recebeu nada. Vejo outros blogues publicarem textos sobre livros, indicando a parceria com a editora X ou Y. Acho bem. Alguns são tão pequenos e modestos como o meu, mas aparentemente tiveram mais sorte. O blogue As Minhas Quixotadas parece que só foi encontrado para receber informações sobre novos lançamentos, sobre concursos literários, sobre sessões de autógrafos, provavelmente com o intuito de vir a divulgá-los. Mas como posso falar do que não conheço? Não vou sugerir como boa escolha um livro que não sei se está bem escrito ou não; que não sei se vai ao encontro do tipo de público que segue este blogue (e que lê muito e com qualidade, pelo que já percebi).

E caso ocorra a alguém pensar que o que quero é ter livros «à borla» e me salte de lá a maldisposta de serviço a insultar-me, informo: tenho tantos livros para ler que mesmo não comprando mais nenhum até ao fim dos meus dias, teria sempre leituras novas para fazer. E, felizmente, agora também tenho acesso a outros livros que não tinha. De qualquer forma, o que me entristece é ver que este blogue passou ao lado de tantas coisas, mas foi encontrado para outras. Nunca quis encher o As Minhas Quixotadas de publicidade e, portanto, quando falo de alguma coisa, é porque efectivamente gosto dela e acho que merece ser divulgada. Ah, e paguei-a do meu bolso.

Assim, manterei essa linha orientadora: se alguma das editoras que tem enviado informações para o blogue quiser ver algum livro divulgado por ele, terá de manifestar a vontade de o enviar e, depois de lido, terei todo o gosto em fazer o balanço da leitura. Sem isso, não falarei de nada que não conheça só por falar. Espero que entendam.

terça-feira, 5 de março de 2019

Com o samba no pé!

Hoje está um dia magnífico para ficar em casa a ler. Sim, é mesmo esse o plano para hoje. Acho que vou adiar o samba por mais um ano.



Notita: A ilustração é de Geneviève Godbout. E é bem gira. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A plantação de trotinetes

Houve recentemente um boom de trotinetes por esta cidade fora. Nada contra: se contribui para facilitar a mobilidade das pessoas e desde que sejam seguidas as regras de segurança necessárias, então que sejam bem-vindas. Porém, aquilo que me irrita é ver as trotinetes que estão para recolha estacionadas no meio dos passeios. Portanto, alguém a alugou, utilizou e abandonou exactamente no meio do passeio. Ora, é aí que circulam os peões, às vezes com cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé. Acho que um invisual já tem obstáculos suficientes para ainda encontrar mais este. Mas mesmo quem não tem nada disto, tem o direito de poder circular livremente pelo passeio. Encontrar, nestas circunstâncias, uma trotinete especada no meio do caminho é coisa que enerva. Será que o civismo de quem utiliza estas coisas não chega para perceber que, ou para a esquerda ou para a direita, a trotinete pode ser deixada para recolha sem incomodar a vida dos outros?

Tenho visto isto todos os dias. Num dos casos mais escabrosos, alguém abandona a porcaria da trotinete atrás de uma paragem de autocarro, ou seja, no único espaço de passeio livre entre a dita paragem e o muro de uma casa. Resultado: quem circula a pé ou passa para a estrada, arriscando-se a ser atropelado, ou tem de tirar a trotinete dali para poder passar. Um pouco de bom senso resolveria a situação, mas parece que é coisa que não abunda. Assim sendo, talvez não fosse pior começar a multar quem o faz. Não sei como está este negócio regulamentado, mas quem o gere tem de pensar em alguma solução. Assim como é errado um peão andar a passear-se por uma ciclovia, prejudicando a mobilidade dos que a utilizam devidamente, também não está certo prejudicar a passagem dos peões naquele que é o espaço a eles reservados. E tendo em conta o facto de que todos os dias há mais e mais trotinetes por esta Lisboa fora, é importante começar-se a pensar nisto a sério. A plantar-se alguma coisa nesta cidade, que sejam flores, não trotinetes.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A Menina Quer Isto CXIV

Descobri que quero este livro. Vi uma entrevista ao autor no programa Todas as Palavras, da RTP3, e pareceu-me interessante. Conta a história do avô do autor, antigo soldado na Primeira Guerra Mundial, que deixou ao neto dois cadernos nos quais havia escrito sobre a sua vida. É ela, portanto, que Stefan Hertmans contará neste livro que, segundo a Wook, faz lembrar um pouco a escrita de Sebald, tão profundamente marcada pelas reminiscências. 

Mais um para a lista de desejos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Saga de um osso III

Agora, Madame Pochita, além de enterrar o ossinho, tenta enterrar o biscoito grande que recebe diariamente por ser tão fofa. Onde? Na areia dos gatos outra vez. Ontem, apanhei-a a tempo: o biscoitito ainda só estava sobre a areia. Se não começo a precaver-me, a desgraçada enterra tudo o que considerar valioso e o pobre gato fica sem casa-de-banho.

E mais: anda a fazer transição de uma ração para outra. Tenho andado a misturar a antiga (menos boa), com a nova (muito melhor), que chegou recentemente. Pois a focinhuda consegue catar e comer apenas a nova, deixando a antiga no prato. Dei por isso hoje de manhã. Confirma-se: este cão é genial.

Ai meu Deus, voltei a chamar «cão» ao meu canídeo fêmea. Não tarda vem de lá a comentadora anónima furiosa defender o género sexual da bicha. 

#tenhoumcãoqueécadelaegosto
#eugostodepôracentosnashashtagsdatreta

Ahahah!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Saga de um osso II

E hoje, quando fui limpar as caixas de areia, pesquei novamente o osso. O bicho continua a achar que tem de o enterrar e para isso não há melhor do que a casa-de-banho felina. Pobrezita, há instintos que não se perdem.

A propósito, aquela comentadora anónima que vê problemas em tudo o que digo/vivo/sou queixou-se do facto de eu chamar cão à Madame Pochita, em vez de cadela, que é o que ela é. Eu já respondi à alma penada que tenta assombrar este blogue, mas fica o esclarecimento: odeio a palavra "cadela" e, por isso, na brincadeira, por aqui chamamos-lhe "a Cão". Ela não se importa nada e nós rimo-nos imenso. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Vícios recentes

Nunca tinha provado comida indiana, nunca tinha calhado. Provámo-la, o moço e eu, há umas três semanas.

Bom, vou directa ao assunto: alguém conhece alguma instituição do género Alcoólicos Anónimos que trate de quem só vê chicken tikka masala à frente? De quem já não quer carcaças, apenas naan? De quem já foi comprar três toneladas e meia de especiarias para tentar aprender a fazer pratos indianos? Alguém conhece?

É que isto está a tornar-se grave. Com o Uber Eats a fazer entregas e com os terminais nervosos a terem fanicos devido às alegrias provocadas pelo intenso sabor daqueles pratos, acho que comi mais comida indiana nestas três semanas do que muitos na vida toda. Preciso de um tratamento de choque, de algo que me faça regressar ao caminho português da feijoada e do peixe grelhado, ao do pão de mafra e do cozido. Ajudem-me! 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A Menina Quer Isto CXIII

Wook.pt - A Mulher que Correu Atrás do Vento

A bem da verdade, ainda nem sequer comprei o último do João Tordo, intitulado Ensina-me a Voar Sobre os Telhados, mas o homem não pára e no próximo mês sai novo romance. Desta vez chama-se A Mulher Que Correu Atrás do Vento. Segundo a sinopse, trata da história de quatro mulheres que, de alguma forma, se cruzam ao longo de um século. Considerando que o livro do João Tordo de que mais gostei até agora foi o Três Vidas e que nele estão três personagens cuja existência se embrulha de tal maneira que a coisa tem de acabar de forma pomposa, este parece-me promissor. Além disso a capa é lindíssima e, admitamos, os olhos também comem. 

Portanto, vou pôr este na lista de coisas que quero. Não será para a Feira do Livro porque essa lista (já em fase de produção) encontra-se muito extensa bem composta. Mas pronto, fica a notinha e o anúncio de que vem aí novo livro do João Tordo. Nervoso miudinho, nervoso miudinho!

Saga de um osso

Ontem à noite, pareceu-me que uma das caixas de areia dos gatos estava esquisita, mas como eles são loucos, não liguei muito. Antes de ir dormir fui limpá-la e eis que lá no meio está enterrado o gigantesco osso que o cão se ocupa a roer um pouco mais todos os dias. Ele leva o costume ancestral de enterrar os ossos muito a sério. Desta vez não quis colocá-lo entre as almofadas do sofá, nada disso: enterradinho na areia é que é bom. E foi. Lá fui eu lavar-lhe bem o osso e dar-lho novamente. Quando saí de casa hoje, ainda estava por lá caído. Porém, estou a aceitar apostas sobre o paradeiro do desgraçado logo à noite.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Procura-se carrasco

Caso algum de vocês esteja insatisfeito com o trabalho e pondere mudar de vida, eis aqui uma boa oportunidade. O vencimento não é grande coisa e o trabalho é capaz de sujar um bocado a roupa, mas bem negociado talvez vos paguem o passe e o subsídio de refeição. Depois não se esqueçam de abrir actividade nas Finanças como «carrascos» e de fazer um seguro de trabalho, não vá o machado cair-vos nos pés.


Eu e o desporto

Pois que, quase um ano depois, resolvi ir ao médico e as dores nos braços devem-se ao que vulgarmente se conhece como «cotovelo de tenista». Acho que é o mais próximo do desporto que vou estar na minha vida... Portanto, anti-inflamatório e correcção da postura que, diga-se, é uma porcaria. Nunca sei como devo estar. Mas pronto, pelo menos agora já não acho que me vão cair os bracitos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Em busca de lugar na estante XX

A sugestão da Marta (uma das queridas leitoras deste humilde blogue) chegou finalmente a casa e procura o seu lugar na estante. A propósito da temática de obras de arte que atravessam a História e que ficam para sempre associadas a uma família, continuo a aconselhar e leitura do romance Eu Confesso, de Jaume Cabré. Boas leituras!

Wook.pt - A lebre de olhos de âmbar

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O jardim sujo

Costumo passear a Madame Pochita num jardim perto de casa. Existe lá uma placa que proíbe canídeos nos espaços verdes, mas como toda a gente lá passeia os cães e tenta que eles não passem da berma do jardim, lá vamos andando todos.

No entanto, o que a placa devia proibir era a permanência de pessoas naquele espaço, uma vez que sujam muito mais do que os animais. Por vezes a Câmara passa por lá e trata daquilo tudo. Todavia, no dia seguinte, há todo o tipo de lixo no chão: revistas velhas, pedaços de esferovite, pacotes vazios de bolachas, copos de café, preservativos (!), entre muitas outras coisas. É uma nojeira e, considerando que não são os cães os responsáveis por isto, só podem ser os humanos, precisamente aqueles a quem é legalmente permitida a permanência no jardim.

É tanto lixo que se torna difícil de compreender. Até facturas velhas de empresas e quadros de uma imobiliária já lá encontrei. O que leva as pessoas a serem tão desrespeitadoras de um espaço público que a todos pertence? É revoltante. Às vezes sou eu que não quero passear lá o cão, com receio de que se lembre de engolir esferovite ou alguma outra porcaria que por lá encontre. Mais ainda: em torno daquele jardim há muitos caixotes de lixo. Se a falta deles já não justificaria o pouco civismo, a sua existência torna-o ainda mais incompreensível. A Câmara preocupou-se em colocar a placa para manter afastados os animais e os seus donos, mas esqueceu-se que o grande conspurcador é mesmo o ser humano.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Alugo

ALUGO CÃO PARA ACTIVIDADES CRIMINOSAS

Características:

- Boas capacidades no furto de objectos de vários tipos (dá-se preferência ao ramo do calçado e da roupa interior);

- Grande eficácia na destruição de provas (nomeadamente papel, chinelos e pantufas);

- Enorme discrição, tanto no momento do furto quanto no da destruição das provas (o que geralmente só permite a descoberta do crime depois da consumação do mesmo);

- Rapidez na fuga;

- Inigualável capacidade de resistência a questionários centrados na questão «Quem fez isto?»;

- Boa dentição.

Requisitos:

- Ração de boa qualidade e em doses justas duas vezes por dia;

- Passeios longos, altamente necessários para a congeminação dos planos relativos à prática criminal a desenvolver em cada dia;

- Água em quantidades industriais;

- Exercício físico envolvendo, preferencialmente, uma bola de ténis (este ponto é imprescindível para a manutenção da velocidade e agilidade exigidas durante as fugas);

- Pagamentos ao cão pelos serviços prestados (priviligiam-se candidatos que optem por pagar em biscoitos ou salsichas).

Os interessados devem contactar este blogue através da caixa de comentários. Devido à elevada afluência que se espera, os candidatos serão sujeitos a uma entrevista que visa fazer a triagem para posterior aluguer do canídeo. Lamentamos desde já não conseguir chegar a todos. Estamos a iniciar esforços para iniciar felinos no mundo do crime.

Nota: Enquanto este anúncio foi escrito, chegou ao nosso conhecimento o roubo de um gorro. Acrescentamos por isso, nas características do cão, a capacidade de disfarce para evitar o reconhecimento. Usa gorro.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ena, quase me sinto uma Pipoca!

Tenho andado pouco por aqui. Até tenho umas ideias para escrever, mas tenho estado cansada e acabo por não ligar o computador. Mas hoje... Hoje tive mesmo de vir. É que hoje senti-me uma blogger importante. Dei um pulo ao blogue no telemóvel e eis que me deparo com dois comentários anónimos a aguardar moderação que são uma pérola. Não os vou publicar nos comentários e responder-lhes por essa via porque achei melhor dar-lhes a glória de uma quixotada, de bons que são. Ora aí vai um print screen da coisa (carreguem na imagem para verem melhor, por favor):


Ora, esta criatura corajosa o suficiente para comentar o blogue de forma anónima quis deixar sua opinião relativamente à quixotada em que falei das leituras que fiz no ano passado e que ela não aprova. No primeiro comentário, começa por achar extraordinário que eu tenha dado aulas de português. Isto porque, na sua opinião, sou «poucochinha» e «baixinha». Bom, caro leitor-meio-enraivecido, acertou num ponto: sou baixinha. Tenho pena de não ter sido abençoada com mais uns centímetros, mas infelizmente a genética falou mais alto e, com um pai e uma mãe pouco altos, não poderia esperar crescer muito. Mas nada que uns belos saltos não resolvam. Quanto ao «poucochinha», fico a aguardar um novo comentário seu a explicar o que quer dizer com isso. Presumindo que seja qualquer coisa como «és limitadita, filha», a minha questão é: e parou a ler o blogue porque...? Por favor, substitua as reticências com a explicação que desejar. É que eu, quando vejo que o blogue não me acrescenta nada e que a escrita do autor mostra que ele não é lá muito dotado, prefiro optar por um livro. O mesmo acontece quando tenho o azar de me cruzar com um livro que não me aquece o coração: volta direitinho para a estante. Podia chamar-lhe nomes e assim, mas era perda de tempo. Também perdeu pelo menos treze minutos da sua vida a comentar este blogue. Aliás, explique-me lá: como é que conseguiu demorar tanto tempo a escrever dois comentários tão curtos ao mesmo texto, tão básicos e mal pontuados? 

Ah, mas parece que o que a espanta é a má qualidade dos livros que li em 2018. Pois, lamento não ter lido Os Miseráveis, o Crime e Castigo e o Quixote pela quinta vez. De vez em quando importa variar. E às vezes ler outras coisas. Li O Pintassilgo e achei uma excelente história. Se um dia for capaz de ler um livro extenso (quando passar a fase das vogais) e der uma oportunidade àquele romance, talvez tenha uma surpresa. Palavra de professora de português especializada em literatura! Mas se só quiser ler clássicos, também está à vontade. Nunca se perde tempo a ler um grande livro que o tempo consagrou. Perde-se tempo a destilar rancor nos blogues alheios, mas a ler boas histórias não. Também se perde tempo a responder a gente malcriada, mas, oh well, tinha aqui um bocadinho livre e resolvi retribuir-lhe a atenção que me dedicou.

Lamento, mas atirar ao ar o possível nome da editora em que trabalho não me fará abrir a boca e dizer «acertou, é mesmo essa» ou «errou, tente lá outra vez». Mas apreciei a tentativa de se mostrar esperta. Às vezes isso faz bem ao nosso ego e, quando a realidade em que nos movemos é suficientemente má para sentirmos a necessidade de ir destilar veneno para os blogues dos outros, qualquer tentativa de elevação do ego é importante. Deixe-me dizer-lhe, caro-leitor-altamente-erudito-que-só-lê-o-cânone-validado-pela-tríade-Eco-Steiner-e-Bloom, eu permito-lhe que venha aqui, a esta humilde casa, escrever comentários venenosos. Por duas razões: a primeira é porque considero que farei algo por si ao permitir que «bote» cá para fora o fel que têm aí dentro a consumi-la; a segunda é porque esse veneno dá jeito para quixotadas destas em que mostro que não tenho só gente muito porreira a ler o que escrevo e a comentar com educação. Não: a caríssima leitora-danada-com-a-vida-e-com-um-ligeiro-problema-com-aquilo-que-sou-e-que-faço é a prova de que, além dos quatro leitores habituais, também tenho os que vêm camuflados visitar a página. Só que alguns dos anónimos são pessoas normais. E depois há a caríssima. 

Bom, para abreviar a coisa: agradeço-lhe o palavrão. Foi uma inovação nesta casa! Acho que nunca o tinha escrito no blogue sem ser em referência a livros que utilizam tal vocábulo. Talvez por ter a tal veia de professora (bem sei que lhe custa a crer que já tenha dado aulas porque sou «baixinha» e «poucochinha», mas é verdade e era bem boa no que fazia), evito esse tipo de linguagem. Porém, não posso esperar o mesmo dos eruditos-brejeiros-revoltados que por aqui passam. Ainda assim, vá lá, desta vez passa, mas da próxima mando-a de castigo voltada para a parede ou lavar a língua com sabão azul e branco. Ai a menina!

Por fim, uma correcção: não é «a Kepler». Quando muito são «os Kepler». Os autores são um casal. Escrevem excelentes livros para entreter. Sabe, aquela coisa que os seres humanos de vez em quando precisam de fazer? Não deve estar a ver... Olhe, vamos ver se me explico assim (eu, que fui tão boa a explicar coisas aos meus alunos): está a ver aquilo que faz quando vem aqui entreter-se a ler coisas que a irritam? Isso é entretenimento. No seu caso é entretenimento masoquista. No meu, quando quero ocupar as horas mortas, leio livros. Às vezes leio autores intocáveis, como Dickens,  Eça de Queirós, Camilo, Twain, Vargas Llosa ou outros, mas por vezes, como criatura mortal e imperfeita que sou, leio coisas como os Kepler. E o folheto do LIDL. E o frasco do champô. Coisas inócuas, que me enervem pouco. Vá, aprenda comigo. Afinal, sou professora (piscadela de olho).