domingo, 30 de setembro de 2012

O melhor seguro de todos

Na «Grande Reportagem» da Sic, acabei de ouvir uma actriz dizer que quando tudo falha tem o melhor seguro de todos: o pai e a mãe. Que estes são o único «seguro» que não lhe pede que prove nada e que estão sempre lá para ela. Exacto: é isso mesmo. E é isso para muita gente... É o que ainda nos salva.

Sorte

Ontem vi esta notícia na SIC e hoje voltei a vê-la. Fico doente só de imaginar um casal adulto a ter de ir a casa dos pais diariamente para se alimentar porque nenhum dos dois emprego. Ela é professora e ficou sem colocação. Mais: professora de uma das disciplinas com piores resultados nos exames nacionais. Certamente fará muita falta nas escolas, mas num país onde é preferível esticar as turmas até aos trinta alunos, para que se quer mais esta professora? Aliás, esta e os outros: com trinta alunos por turma, atrevo-me a arriscar que estar lá o professor ou não estar é absolutamente indiferente. Os resultados dos alunos serão maus, a frustração dos docentes será grande, o desemprego entre os professores é e será gigantesco.
 
Quantos casais como este existirão? Quantos e quantos adultos estarão, neste momento, a almoçar em casa dos pais, não porque seja dia de visita à casa paterna, mas sim porque o frigorífico lá de casa está vazio e sem condições para ser enchido? Quantos têm de suportar esta vida diariamente e ainda tolerar mais medidas de austeridade e mais disparates de gente que sabe tanto governar este barco quanto eu sei guardar gado? Quantos somos, afinal, a sentir que ser jovem em Portugal é hoje uma grande porcaria e a pensar que valia mais termos nascido muitos anos antes da década de oitenta, só para não termos esta idade agora e para não nos sentirmos tão inúteis e desprezados como sentimos? Quantos casais como o da reportagem partilham as lágrimas que o rapaz segurou quando admitiu que a ajuda alimentar dos pais é que os salva? Afinal, quantos somos e por quanto tempo continuaremos a sê-lo?
 
Fiquei muito comovida com as palavras e a situação deste casal. A estes dois jovens desejo toda a sorte possível, assim como desejo a todos os outros que se sentem encurralados numa situação que não criaram. Assim como desejo a mim própria.

Falta de juízo

Aquele senhor do governo que chamou ignorantes aos patrões que não embarcaram na maluqueira da TSU tem muita graça. O que ele fez é parecido com qualquer coisa como: um professor de Educação Física propõe aos alunos uma corrida em cuecas no cimo da Serra da Estrela em pleno mês de Dezembro e com pomposos flocos de neve a desabarem do céu. Os miúdos, ajuizadamente, não aceitam e o professor acaba a cuspir um raivoso «ignorantes».
 
Estão a ver quando alguém tem uma ideia mesmo parva e depois fica muito chateado e ofendido porque os outros, com três neurónios e dois dedos de testa, se recusam a segui-la? É isto. A questão é que partir para o insulto, depois da peregrina ideia que eram as mudanças na TSU, já não é coisa demonstrativa de muito juízo...

sábado, 29 de setembro de 2012

Lojas

Por estes dias reparei em alguns factos que, em lojas, parecem ser suficientes para levar alguém a não comprar alguma coisa. Tendo em consideração que estes espaços existem para vender coisas, certas atitudes seriam de evitar. O que parece de loucos é o facto de as lojas não o perceberem e persistirem nos mesmos erros, ano após ano. Este é um tema a que acho imensa piada, tanta que vou comprando livros sobre ele. Um de que gostei muito e que recomendo a quem queira perceber o modo como as lojas funcionam, prevendo as nossas atitudes é o livro A Ciência das Compras, de Paco Underhill. Algumas das coisas que li ali, verifiquei depois, in loco, serem totalmente verdade. Por exemplo, uma de que me recordo diz respeito ao facto de a maioria dos clientes virar à direita quando entra numa loja. Ora, sabido isto, o estabelecimento comercial terá de organizar a sua loja tendo-o em consideração. Quando entro na Bershka do Colombo dou sempre por mim a virar à direita e a fazer a volta à loja a partir daí. Mas note-se, também, que o livro refere que em países onde a condução se faça pela esquerda, a regra inverte-se: as pessoas entram nas lojas e tendem a virar à esquerda. Portanto, em que medida o modo como conduzimos influencia a nossa vida? Curioso, não?
 
Mas esta quixotada não é nenhuma recensão àquele livro. Serve, sim, para mostrar os tais factos em que reparei. E aí vão eles:
 
1. Uma loja que venda roupa e sapatos tem de ter provadores e banquinhos onde nos possamos sentar a experimentá-los. Entrei, na semana passada, numa loja que tinha uns provadores impecáveis, mas sem bancos. Estes estavam dentro da loja, junto a umas prateleiras. Sentei-me a experimentar umas botas e em determinada altura uma funcionária aparece a pedir-me para me desviar para poder chegar a uma das prateleiras onde se encontrava um artigo que precisava de agarrar. Eu ando diariamente carregada com uma pasta e com a minha carteira. Naquele dia ainda tinha um casaco. À minha volta, enquanto experimentava as botas, havia, portanto, tudo isso e mais as botas que levava calçadas nesse dia. Com um pé calçado e outro descalço, lá me desviei o melhor que pude. Ficaram as minhas botas à frente da prateleira. A funcionária agarrou nelas e atirou-as para o lado. Leram bem: atirou-as. Olhei para ela como se fosse queijo fedorento, mas a tipa não percebeu a ideia. Resultado: fez menos uma venda.
 
2. Uma sapataria, assim como qualquer loja de roupa e acessórios, tem todo o interesse em manter os espelhos limpos. Já nem falo do facto de haver uns espelhos mais amigos do que outros, falo simplesmente de limpeza. Ao experimentar umas botas hoje numa das sapatarias em que entrei, percebi que a zona inferior do espelho (precisamente aquela que me interessava) estava de tal forma suja que não conseguia perceber muito bem como me ficavam as botas. Resultado: menos uma venda feita.
 
3. Quando descobrimos um par de sapatos de que gostamos e verificamos que o exemplar exposto é o nosso número, experimentamo-lo. Mas temos dois pés, por isso convém experimentar também o par. Pedimos, então, à funcionária que no-lo traga. Lá vem ela com a caixa, tira a papelada toda que lá está dentro e entrega-nos o artigo. E depois fica ali, qual soldadinho de chumbo, a ver se não fugimos montados nas botas que pedimos para experimentar. Não gosto dessa pressão, embora compreenda a razão pela qual é feita. Geralmente, quanto mais tentam levar-me a comprar alguma coisa, menos eu compro. Gosto de andar um bocadinho com o calçado, ver com as calças por cima, sem as calças por cima e não gosto de ter alguém por cima do meu ombro a repetir «ficam muito giras» a cada dois minutos. Resultado: faz-se menos uma venda.
 
4. Há produtos a que somos fiéis. Por exemplo: há quatro anos que compro sempre o mesmo fond de teint de Estée Lauder. Sempre o mesmo tom, sempre do mesmo tipo, mas nem sempre na mesma loja. Costumava comprá-la numa perfumaria muito conhecida, mas acabei por mudar-me para outra ainda mais conhecida. Ambas são de presença muito frequente em centros comerciais. E porque mudei? Porque sempre que ia à primeira delas, saía de lá aborrecida. Umas vezes porque as funcionárias, maquilhadas logo pela manhã como se à noite fossem trabalhar num bar de má fama, quando lhes dizia o que queria, olhavam para a pele do meu rosto e, fazendo umas trombas bem feias, diziam coisas como «pois, está muito seca e com mau aspecto». Quantas vezes me segurei para não dizer: «Amiga, a minha pele, embora seca, que sei que está assim, ainda é e parece ser a de alguém na casa dos vinte. Já a sua, com esse camadão de betume, blush, sombra, batom e gloss, está longe de deixar alguém acreditar que você tem menos de cinquenta anos. Não tem, pois não? Pois, mas parece...». A antipatia daquela gente irritava-me, mas cheguei ao meu limite quando um dia peço o fond de teint no tom habitual e a tipa hipermaquilhada insiste comigo que a minha pele permite que compre dois tons acima. Insiste, insiste, insiste. Ora, eu sou branquinha e é isso que lhe digo e ela insiste, insiste, insiste. Levo a porcaria do tom que indicou. Ela abrira a caixa com o X-acto ainda na loja para me mostrar a cor e logo ali desconfiei de que a coisa daria mau resultado. E ela insiste, insiste, insiste. Em casa, no dia seguinte, aplico aquilo e fico com a cara num tom aproximado ao de um tijolo. Vou, em fúria, até à loja e lá consegui trocar aquela porcaria. Expliquei à menina que me atendeu que fora a colega quem abrira a base e que não me deu o tom que eu pedira. Fizeram a troca. Nunca mais lá voltei. Mudei-me para a concorrência e estou satisfeita.
 
5. Ninguém gosta de comprar gato por lebre, porém essa troca vai sendo cada vez mais frequente. Conheço duas lojas portuguesíssimas em Lisboa onde se vendem sapatos exactamente iguais aos que se vendem nos estabelecimentos dos chineses. O problema é que isso não só não é dito aos clientes como também as caixas são diferentes daquelas que veríamos na loja asiática. E, como se não bastasse, sapatos chineses em loja portuguesa são bem mais caros do que sapatos chineses em loja chinesa. Quando vejo isto, dou meia volta. No chinês já sei o que de lá vem. Mas quando vou a uma loja que apregoa produto nacional e que depois vende o que acabei de ver com uma etiqueta «made in China» noutro estabelecimento, acabo sempre por ir embora revoltada pelo engodo. Resultado: vender gato por lebre não resulta.
 
6. Quando chego a uma loja e não tenho direito a um «bom dia» ou um «boa tarde», principalmente depois de eu, cliente, ter sorrido às funcionárias, a minha vontade é sair de lá imediatamente. Também já fui lojista e sei que por vezes os pés doem, que muitas vezes não apetece estar ali, que o salário é curto para as horas de trabalho que se fazem, entre outras coisas. Mas se há quem não tem culpa é o cliente. Esse faz a máquina mexer e o negócio continuar. E se este continua, o emprego mantém-se. Nos dias de hoje isso já vale muito. Gente antipática a atender afugenta os possíveis compradores. Resultado: menos umas vendas.
 
Podia continuar esta lista. Há tantas coisas que irritam no que às lojas diz respeito. Há tantos motivos para fugirmos de algumas lojas no exacto momento em que entramos que talvez esta quixotada venha a ter parte dois. Por agora é isto. Muitas vezes o que nos faz não comprar não é apenas a falta de dinheiro: são também os erros na constituição das lojas, dos seus equipamentos, mas também das pessoas que nelas trabalham. Acredito que ter um estabelecimento comercial seja uma aventura, especialmente em tempos de crise. Ainda assim há pequenos erros que podem ser rapidamente emendados, dando-se, desse modo, um melhor ambiente ao espaço e fazendo com que as pessoas abram realmente as suas carteiras e adquiram os produtos à venda sem vontade de fugir dali depressa.

Finalmente!

Finalmente consegui encontrar o Cerelac normal que comia quando era pequena. Aquele que se prepara com água e que tem glúten. Ultimamente só encontrava coisas para preparar com leite ou então com sabores a frutas. Do bom e tradicional, não se via nada. Pois hoje veio comigo para casa e será o meu lanche. Sabe-se lá se esta bomba hipercalórica não espanta a minha constipação...
 
 

Cábula

Na quinta-feira trouxe para casa uma espécie de cábula para me lembrar de alguns autores que não posso morrer sem ter lido. Estava em promoção na Fnac.

Muita arrumação

No seguimento da quixotada anterior, fica o episódio vivido com uma senhora idosa que andava lá pela sapataria.
 
Estava eu sentada num banquinho a experimentar umas botas quando uma senhora de uns setenta anos se senta no banquinho à minha frente olhando fixamente os meus pés. Devido à insistência do olhar, acabo por mirá-la também. Ela diz:
 
- Essas botas que a menina aí tem são muito bonitas. Também queria umas botinhas em camurça.
 
Respondo-lhe sorrindo e apontando o salto das botas:
 
- Mas olhe que estas são altas.
 
- Ai assim não pode ser que a minha coluna já não aguenta. - diz a senhora, levantando-se do banquinho e preparando-se para ir embora com a amiga, talvez ainda mais velha do que a primeira.
 
Ao passar ao meu lado, a senhora diz-me
 
- A menina tem o pé tão pequenino. Um 35 ou um 36, não?
 
- É um 36. - disse-lhe. E acrescentei, sorrindo - Eu sou toda pequenina.
 
A senhora olha então muito séria para mim durante uns instantes e diz:
 
- Mas tem muita arrumação...
 
Ri-me. Porém, a senhora ainda não tinha terminado:
 
- ... Pelo menos a julgar pelo armário. - diz, apontando a zona das maminhas.
 
Bom, gentes, dei uma gargalhada na sapataria que ninguém faz ideia. Ter uma senhora de uns setenta anos a fazer reparos às minhas meninas é daquelas experiências que ficam para memória futura. Contudo, ainda faltava à senhora dizer mais uma pérola:
 
- Olhe, menina, uma mulher sem peito é como um jardim sem flores!
 
E dito isto, deseja-me bom dia e vai embora, enquanto eu fico a escangalhar-me de riso no banco da sapataria. É aí que a amiga dela, que ouviu tudo, se aproxima de mim e diz:
 
- Olhe que ela é sempre assim. Onde vai, põe toda a gente a rir.
 
Disse à senhora que ainda bem que assim era. Elas lá foram à vida delas e eu fiquei a pensar na questão da arrumação. Chegava a dar jeito que nas mulheres esta fosse uma prateleira funcional. Umas aproveita-la-iam para bibelôs e «naperons» de renda. A mim dar-me-ia jeito para a quantidade louca de livros à solta que por aqui vai andando.

Está feito!

Admito que tenho muito calçado e admito que já fui completamente viciada em comprar sapatos. Admito que passei vários anos sem conseguir entrar numa sapataria e sair sem trazer nada. Admito que muitas vezes comprei o mesmo modelo em cores diferentes. Admito que cheguei a comprar sapatos que me apertavam apenas porque eram deslumbrantes. Admito que fiquei sem pele no calcanhar ou nos dedos porque alguns sapatos me aleijavam. Admito que, quando isso acontecia, não só não os mandava fora como continuava a usá-los porque eram giros e punham-me com bom aspecto. Admito que cheguei a ter um sentimento de culpa cada vez que comprava uns sapatos novos. Admito que me chamaram maluca e fanática. Admito que peguei a mania a outras pessoas. Admito isto tudo.
 
Porém também admito que a mania está em vias de passar. Há talvez um pouco mais de um ano que não sinto o apelo que sentia para entrar numa loja e comprar um ou dois pares de sapatos. Já não me acontece entrar numa sapataria com a desculpa de que vou só ver e sair de lá com três caixas debaixo do braço. Antes, entrava numa e gostava de quase tudo o que via. Agora vou a uma sapataria e raramente alguma coisa me desperta algum interesse. Agora, também, mais do que comprar porque são uns sapatos lindos, a minha aquisição segue a regra do conforto. Dou aulas de pé, caminhando pela sala e, por isso, não posso estar montada em dez ou doze centímetros de salto, por muito que isso faça umas pernas e uns pés bonitos.
 
Percebi que estava muito melhor deste vício quanto no Verão que agora acabou saí de uma sapataria de mãos a abanar depois de me ter apaixonado por umas baratas sandálias verdes. Experimentei-as, adorei-as, mas não as comprei porque acabei por dizer a mim própria «já tens tantas sandálias». E saí da loja sem ter gastado (sim, é assim que se diz: "ter gastado") os poucos euros que aquilo custava. Mais certezas tive quando, também durante este Verão, dei por mim a deitar fora sem pena calçado que já merecia uma ida para o caixote do lixo. Ou a dar um par de sandálias a alguém da família.
 
Apesar do que fica dito, hoje comprei dois pares de botas. Esta é a parte em que vocês gritam «Estás curada, estás». E eu digo: hoje comprei dois pares de botas sob pena de começar a andar descalça. Na semana que passou choveu, como devem ter notado. Todas as botas impermeáveis que tenho são altíssimas, muito desconfortáveis, e a sola é escorregadia. Em dias de chuva preciso de pés ágeis e não de andar constantemente a patinar no chão ou de enfiar o diabo dos saltos nos buracos da nossa odiada calçada portuguesa. Precisava, também, de uns botins pretos. Entre quinta-feira e hoje resolveram-se todos os meus problemas e a compra de botas para este Inverno está concluída (pelo menos estará concluída se, ao contrário do que aconteceu no ano passado, as botas adquiridas sobreviverem ao Inverno inteiro). Só torno a entrar numa sapataria lá para o próximo Verão. A menos, claro, que tenha uma recaída no vício, mas espero que não.
 
 
(Estas são umas pantufinhas: a borracha da sola diminui o impacto dos passos e não permite escorregadelas nos calhaus da calçada portuguesa. Além disso são muito quentinhas porque o forro é de lã. Mas o melhor de tudo é que nem chegaram aos vinte euros...)
 
 
 
(Embora a foto não permita perceber, estas são castanhas. São, também, muito confortáveis. Descobri-o porque saí da loja com elas calçadas. A sola é de borracha e, ao que parece, não escorrega nada. Além disso, são de salto em cunha, o que adooooro!)
 
 
(Adoro estes botins pretos, ainda que não possam sair à rua em dias de chuva. Gosto muito do aspecto deles e do facto de serem confortáveis à brava. Também são em cunha, como se quer, e a sola em borracha evita cenas ridículas em pavimentos escorradios e cobertos de folhas mortas. Só não trouxe em mais cores porque estou curada. Vêem?!)


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Recorde

O Outono não começou nem há uma semana e já me constipei. Boa!
 
 

«Cizerão»

Quantos erros consegue um aluno dar a escrever uma palavra? A resposta é: muitos.
 
Tenho alguns alunos novos este ano que dão muitos, muitos, muitos erros quando escrevem. Isso, tendo em conta que não sou professora do primeiro ciclo, choca-me bastante já que não era suposto que chegassem até mim assim, com estas dificuldades. Perante uma situação destas, comecei a fazer uma coisa que ensinam na formação de professores não dever ser feita nos dias de hoje: ditados. Supostamente são qualquer coisa como «pouco pedagógicos» (sim, porque a escola tem de ser sempre uma rambóia: coisas chatas nem pensar), mas não quis saber e fiz na mesma. E continuarei a fazer. E exigirei que escrevam muitas vezes cada palavra em que errarem. E depois de receberem os ditados corrigidos, ainda vou exigir que o tornem a copiar, sem erros, para o caderno. Pareço exagerada? Talvez. Mas sabem uma coisa? A palavra entre aspas que dá título a esta quixotada foi o modo como uma aluna escreveu a palavra «quiseram». Ainda acham que exagero?...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Medo

Hoje soube que a mãe de um dos meus alunos está... com piolhos. Gentes, eu não estou com medo: estou em pânico! Pondero seriamente começar a ir trabalhar de touca.
 
Por enquanto a costa está livre e espero que se mantenha assim. Também não me faltava mais nada...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Para quê?

Eu não sou economista, nunca estudei economia nem nada que se parecesse, porém parece-me óbvio que, com as medidas de austeridade que estes senhores andam a impor, a despesa e o défice aumentem. Pois se aumentam a carga fiscal e reduzem o poder de compra, pondo alegremente tudo e todos a pão e água, como pode o défice recuar? Não há dinheiro, não há consumo. Sem ele as empresas não funcionam e fecham, despedindo muita gente. Gente que vai pedir subsídio de desemprego, que, por sua vez, sai directamente do bolso do Estado. Além disso, empresas fechadas significam menos receita fiscal para o Estado. Resultado: não saímos da cepa torta. Lindo.
 
Solução para isto? Ir inventando mais medidas de austeridade que vão directamente ao bolso do pessoal que trabalha. Ah, dirão alguns, mas a receita não funciona! Não faz mal: carreguemos nisso e depois, quando apetecer, olhamos para as fundações e outros Triângulos das Bermudas do dinheiro português. Gosto da lógica.
 
Entretanto vamos vendo o nosso poder de compra ir pelo cano abaixo, vamos vendo uma geração inteira de gente que estudou imenso a arrastar-se por aí sem emprego nem perspectivas e vamos vendo o buraco a aumentar, aumentar, aumentar... E no fim fica sempre a pergunta que nos consome: mas se afinal nada muda, tanto sacrifício para quê?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Decisão tomada

Depois de muito pensar sobre o assunto decidi que a ideia de voltar a estudar ficará adiada por, pelo menos, mais um ano. Neste momento impera a lógica da poupança e, com delirantes medidas de austeridade a pulularem pela nossa realidade todos os dias, é preciso muito cuidado. Seria bonito regressar aos estudos, fazer a pós-graduação cujo programa me aqueceu o coração, mas parece-me que neste momento tudo deve ser bem ponderado. Importa, creio, olhar para o futuro e ser capaz de ver que agora não seria a melhor das ideias. Atrás de tempo, tempo vem. Esperemos que seja bem melhor o que está para vir e que um dia regresse, enfim, aos meus cadernos, aprendendo coisas novas e trabalhando para conseguir uma nova profissão. Por agora importa trabalhar e ainda bem que isso me é possível.
 
Obrigada, ainda assim, a quem simpaticamente me aconselhou.

Um bicho em extinção

É paradoxal: em Portugal a população é cada vez mais qualificada, porém cada vez menos pessoas são capazes de escrever um texto em Português sem dar erros de algum tipo. É coisa que começa a fazer-me confusão. Quanto mais estudamos, pior se está a tornar o nosso domínio de uma língua que devíamos amar e dominar na perfeição. São erros que ferem a vista, que chocam a alma, que colocam questões assustadoras com respostas ainda mais terríveis. Quando não conseguimos sequer dominar a nossa língua materna ao ponto de sermos capazes de escrever um texto sem erros, que saberemos nós? Independentemente da área profissional em que nos movamos, saber falar, saber escrever, saber fazer um uso correcto das palavras é essencial e devia ser condição sine qua non para tudo o que viéssemos a fazer neste país. Devia mesmo ser proibido o final do percurso escolar sem que o aluno soubesse produzir um texto sem falhas sintácticas, sem erros ortográficos, sem problemas na acentuação. Porém, tal não acontece e todos os anos saem dos ensinos básico, secundário e superior muitos alunos incapazes de escrever correctamente (já para não mencionar o facto de serem incapazes de falarem com correcção).
 
Seria admissível se estes fossem uma minoria, mas não são. Atrevo-me a dizer que são, sim, a maioria. Faz-se uma voltinha pela internet e vêem-se textos e textos e mais textos em que encontramos, quanto ao conteúdo, muita parra e pouca uva. Quanto à forma erros sobre erros: preposições misteriosamente desaparecidas, acentos gráficos omitidos, clíticos mal colocados, duplos «s» e cês cedilhados trocados. Encontramos estrangeirismos sem aspas ou itálico, citações por assinalar (o que, não raras vezes, roça o plágio), vírgulas desaparecidas ou, por outro lado, numa fartura assustadoramente aleatória. No fim, por vezes, um pedido de desculpa do tipo «perdoem os erros, mas não tive tempo de corrigir», manifestando uma profunda falta de brio e de preocupação com um uso correcto das palavras. Assiste-se a um enorme desrespeito pela nossa gramática e a uma desdramatização do problema: «não corrigi o que escrevi e publico com erros, mas não faz mal porque é perceptível». A questão é que passar a mensagem não chega. O nosso namorado pode dizer que nos ama enquanto está sentado na sanita: isso satisfaz-nos? Não: a mensagem passa, é verdade, porém o modo como como ela é transmitida retira-lhe muito do que poderia ser. Provavelmente ninguém levaria a sério as palavras do namorado numa situação tão pouco romântica como a que evoquei. No entanto muitos seriam os que, perante um texto profundamente mal escrito, prefeririam ocupar-se apenas da mensagem, ignorando a sua forma.
 
Vivemos numa época em que abrir um blogue e publicar para o mundo é fácil. Toda a gente pode, hoje, fazer uma espécie de diário online onde fala do que apetece: moda, desporto, a vida privada, a vida profissional, os livros favoritos, os filmes de uma vida, a música que se ouve, tudo. Mas são tantos os blogues onde proliferam orgulhosamente erros que além do primeiro ciclo do Ensino Básico deixam de fazer sentido. Escrever não pode ser despejar apenas, no papel ou no ecrã, uma sequência de palavras que se espera que seja compreendida. Não: escrever obedece a regras que devem ser seguidas e respeitadas. Somos todos tão expeditos a encontrar gralhas nos rodapés dos telejornais e depois preocupamo-nos tão pouco com o uso diferenciado de maiúsculas e minúsculas ou com as regras de pontuação. Assusta-me pensar que um bom domínio da língua portuguesa, da nossa língua, será, daqui a alguns anos, capacidade reservada a uns poucos. Tremo só de imaginar que esta lógica do «escrevi à pressa, mas que se lixe: vocês percebem o que quero dizer» não morra e tenha, até, longa vida.
 
Escrever é um processo complexo. Importa planificar, realizar e rever. E isto, minha gente, não é mariquice de uma professora de Português que voltou agora a fazer ditados porque conclui que os meninos não sabem escrever sem dar erros. Isto é preocupação séria e já uma boa dose de revolta pela leviandade com que a língua é tratada. É já uma certa raiva pela constante omisão da preposição «de» em expressões como «ela tem o desejo de que tudo corra bem»; ou pelo aparecimento de vírgulas a separar o sujeito do predicado; ou, ainda, pela inexistência da básica divisão do texto em parágrafos, sendo estes tão essenciais quanto as vírgulas e os pontos finais. Muitos são os que enchem a boca para criticar quem escreve de forma diferente da canónica, como Saramago, esquecendo que o autor o fazia seguindo uma lógica que fazia, efectivamente, sentido. Muitos dos que criticam a escrita saramaguiana esquecem, depois, que o sujeito deve concordar com o predicado, que não podemos escrever «é vários dias» ou que é errado dizer «este problema é derivado ao...» porque derivar, deriva o leite da vaca.
 
São tantos os exemplos e tantos os nervos que isto me dá que passaria a noite numa quixotada infinita sobre o ataque constante que é feito à língua portuguesa. Se um jornalista se engana, toda a gente que ouve passa automaticamente a ser um Camões pronto a chamar energúmeno ao dito. Mas se for esse «pseudo-Camões» o detentor de um blogue alegadamente escrito à pressa e sem tempo para revisão, aí já há desculpa, já não há dedos para apontar. Do modo como isto anda, talvez haja, sim, palmadinhas nas costas e um «deixa lá: nós percebemos na mesma». Não pode ser. Não podemos exigir que miúdos de dez anos escrevam sem erros, não podemos pedir a meninos de quinze que saibam produzir textos exemplares se nós, adultos, arranjamos desculpas que perdõem erros imperdoáveis e facilmente evitáveis. Não podemos rir com os disparates que os meninos escrevem quando nem nos esforçamos por evitar os nossos próprios disparates.
 
Todos nós aprendemos a escrever. Uns vêm a ter mais talento do que outros: isso é óbvio. Contudo, o esforço para melhorar essa capacidade que, muitas vezes, usamos diariamente devia ser de todos. Saber escrever é hoje uma aptidão desvalorizada. É actividade executada em cima do joelho, sem esmero nem brio. Escreve-se porque sim, porque todos aprendemos a fazê-lo nos bancos da escola. As regras ficam lá para a professora, uma vez que fora do recinto escolar e do percurso académico a vida é diferente, mais rápida e sem espaço para figuras de estilo ou para correcções. Errado. A professora fica com as regras, sim, depois de as ter partilhado com os alunos que virão a ser homens e mulheres de muitas profissões diferentes, possíveis autores de livros e de blogues. Porém a vida não deixará de conter muitas palavras a pedir papel, caneta e cuidado. A ele chegam cada vez menos e a mensagem, minha gente, já não passa.

Professora ou dinossauro?

Hoje, surpreendentemente, um aluno pergunta-me:
 
- Quando a professora andava na escola já havia livros?
 
- Não: eu ainda estudei por papiros. - respondi. - E até ajudei a carregar pedras para a construção das pirâmides no Egipto.
 
Depois da gargalhada geral, o aluno desculpou-se pela pergunta, dizendo «Então, como a professora nasceu no século XX...». Palavra que até congelei. Como é que é possível alguém julgar que no final do século passado não havia livros? E não digam que a criança devia estar a brincar porque não estava: falava bastante a sério. 
 
Portanto, gentes, ficam a saber: esta que aqui vos escreve não é mais do que um dinossauro velho como o tempo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fome no Superior

Saber que, neste momento, tantos alunos do Ensino Superior passam FOME deixa-me um nó na garganta que nada consegue desatar. Esta gente, tal como eu e os que já passaram por aqueles bancos, é o futuro e é assim que este está a ser tratado. Todos sabemos que este ensino, mesmo o público, é pago e que não é barato. Ainda assim não é justo nem pode ser compreensível que num mundo em que somos cada vez mais obrigados a estudar, depois se permita que existam alunos com fome a ter de escolher entre um livro e um prato de comida. Isto é inaceitável e uma vergonha. É embaraçoso e profundamente triste que se ofereça tão pouco a quem tem o futuro para nos dar. Lamento muito que tenhamos chegado a este ponto e espero sinceramente que se consiga pôr os olhos nestas situações e que, de algum modo, elas possam ser resolvidas. Ninguém merece ter de passar fome para poder estudar. Mais: este país não merece tal sacrífício.

Afirma Pereira

Encontrei este, finalmente. De O Jogo do Mundo, de Cortázar, é que nem sinal. Bolas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Vicky Pollard lusitana


Hoje viajei de autocarro com um clone da Vicky Pollard (para quem não conhece, é uma personagem da série britânica «Little Britain» e aparece na foto com o seu mui célebre casaco cor-de-rosa). A figurinha era gorda, mas estava espremida numas calças rosa de cintura descida que ela insistia em puxar pomposamente para cima. A camisola era curta, ficando boa parte do abdómen da fofa adolescente de fora. A mala minúscula, como se quer, tinha as fuças da Hello Kitty na frente. O decote era suficiente para se formar uma nova aldeia de estrumpfes.
 
A criatura estava à porta da escola com as amigas, mas depois resolveu baldar-se e ir para o Colombo. Importa dizer que eram oito e trinta da manhã e que o centro comercial abre às dez horas... Bom, apanha então o autocarro onde desaba no assento (sim, porque o que ela fez não foi sentar-se: foi mesmo desabar com pompa). Puxa do telemóvel e, porque àquela hora ainda está tudo muito mono, resolve pôr uma batida em volume espampanante para todos poderem disfrutar de tão belo som. Podia jurar que o velhote sentado atrás da menina ia batendo o pé ao som daquela musicazinha africana. Segurando o telemóvel à frente da cara, começa a dançar no banco enquanto masca a sua pastilhazinha de forma pouco elegante (elegância? O que é isso?). Ao lado dela a amiga, escanzeladíssima e bastante despida, enviava SMS's. A Vicky Pollard portuguesa resolve então virar-se para a amiga, fazendo assim uma pausa na sua dança, e berrar:
 
- Acaba com o gajo, c******!
 
Não sei se a outra desfez ali mesmo uma relação que se crê bonita, mas se não o fez não foi certamente por falta de um conselho sapiente vindo de uma amiga capaz de pronunciar tão belas palavras de apoio.
 
Continua, depois deste dito, a mexer a cabeça ao som da música. De repente diz com gáudio à amiga:
 
- Ó coisa, ontem fui à Damaia!
 
Assim, com a mesma alegria que eu teria se dissesse:
 
- Cara patroa, obrigada pelo aumento de 200% no meu vencimento!
 
Desfia, enfim, a descrição da sua viagem àquela maravilhosa zona, acrescentando uma série de vocábulos provavelmente crioulos ou, quem sabe, apenas próprios de um clone da Vicky Pollard. Sai, depois, na paragem junto ao centro comercial, pelo meio de mais umas palavras cheias de elegância e de risadas pouco costumeiras a tal hora matinal.
 
Segui o meu caminho rindo para mim própria: é ou não é incrível que existam seres reais tão chocantemente parecidos com figuras de ficção? E é ou não extravagante que estes clones tenham um orgulho desmesurado em serem tão caricatos? Melhor: é ou não engraçado que, para estas figuras, ridículos sejam os outros, os monos calados que não ouvem música aos berros e que não incomodam toda a gente pela manhã? Bem, desinteressantes não são certamente: animaram bastante a minha manhã. A Vicky Pollard lusitana é que não acharia muita graça a isso se soubesse...

Então e agora?

 
A menina queria muito isto. Há uns anos viu-o em espanhol na FNAC, mas armou-se em parva e não comprou. Resultado: agora não encontro a edição espanhola e a portuguesa, editada pela Cavalo de Ferro, está esgotada. E agora, como faço? Este livro é diferente de todos e, por isso, tenho de ter uma boa edição que me permita fazer uso de todos os truques narrativos que o autor escondeu no texto. Por isso um ebook também não me serve neste caso. E agora, como me desenrasco? Este é um livro que queria mesmo ter. O exemplar da biblioteca não me encherá as medidas. Alguém ajuda?...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dilema

Gasto os olhos da cara numa pós-graduação que me pode dar acesso a outra área de que também gosto muito ou poupo o dinheiro para pôr a vida a mexer no futuro? Ai que é tão difícil decidir...

Jornal explosivo

Parece que hoje saem, num jornal francês, mais umas caricaturas de Maomé. Prevê-se, portanto, grande confusão.
 
Nunca deixo de ficar espantada pelo facto de a religião ser o maior motivo de guerras e ataques terroristas neste mundo. Chega mesmo a ser irónico.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ego espigado

'Diz' que o autor Paulo Coelho, que escreveu coisas como O Alquimista e As Valquírias, afirmou numa entrevista que é «o intelectual mais importante do Brasil». Tendo já feito furor por afirmar que Ulisses, de James Joyce, tido como uma das melhores obras de sempre da literatura, podia ser reduzido a um tweet (pérola a que acrescentou outras igualmente boas), vem agora mostrar que tem um ego do tamanho das terras de Vera Cruz. Acho bem: ego é coisa que faz falta a muita gente. Mas de vez em quando é bom aparar-lhe as pontas para não espigar.

Educação à lambada

Na paragem do autocarro há um banco. Sentada numa ponta desse banco estava uma senhora e na outra ponta estavam dossiês e malas. No meio havia um lugar vazio. Sentei-me nele. Ao lado do banco, em pé, estava uma mãe que tinha ido buscar o filho pequeno à escola. Pouco depois de me ter sentado, aparecem duas alunas do nono ano a comer uns gelados que haviam ido comprar. Dirigem-se às malas e aos dossiês que estavam em cima do banco da paragem para guardarem as suas carteiras. Aquelas parafernálias ali esquecidas eram, afinal, delas. Voltam a deixar tudo em cima do banco da paragem e vão comer o gelado para cima de um muro que estava à sombra. A senhora com o filho têm de continuar de pé porque as duas idiotas com a mania são tão estúpidas que não percebem que as malas delas estão a ocupar os lugares em que mais do que uma pessoa se poderiam sentar. Mais: onde pessoas mais velhas, mais cansadas, menos estúpidas e, certamente, mais educadas poderiam descansar um pouco depois de um dia de trabalho e enquanto esperam pelo transporte para casa. Já nem falo da parvoíce que é deixar assim as malas ao abandono: basta-me referir a falta de cuidado para com os outros demonstrada por estas duas parvinhas que só pensam nelas próprias e no seu bem-estar. Primeiro largam as malas, depois voltam para guardar as carteiras e fingem que não vêem as pessoas que por ali gostariam de se sentar e não podem porque umas cansadas mochilas repousam naqueles lugares e, por fim, deixam a bagagem confortavelmente instalada enquanto vão descansar os rabos seminus (a sério, minha gente, vejam bem os calções que as miúdas andam a vestir e pensem se é assim que se deve ir para a escola...) para cima de um muro à sombra, lambendo sossegadamente os seus gelados, como se o resto do mundo não existisse. Os outros que criem varizes: as mochilas de marca das meninas é que não podem mesmo cansar-se de pé.

Desabafozinho da autora: Duas lambadas em cada uma ainda era poupança!

Má língua

Diz João Casanova de Almeida sobre o arranque do ano lectivo e referindo-se ao número de professores que ficaram de fora dos concursos: «Nós fizemos as contratações necessárias às necessidades do sistema educativo». Pois claro. Aumenta-se o número de alunos por turma, diminui o número de professores necessários. É básico. Porém, arrisco-me a dizer que diminui também a qualidade do ensino,  mas isso digo eu, que sou uma má língua...

O telemóvel

Há já dois dias que acordo com o telemóvel da vizinha de cima a despertá-la... às seis da manhã (ou talvez um pouco antes, nem sei). Só preciso de saltar da cama uma hora mais tarde, por isso tem sido um bocado frustrante desperdiçar uma hora de soninho por causa de um aparelho que parece o Rambo dos telemóveis. Mas, enfim, até já me devia ter habituado uma vez que estes vizinhos têm a delicadeza de um elefante numa loja de cristais.
 
E assim lá vou eu, hoje, com umas olheiras capazes de fazer inveja a um panda e com ganas de escavacar um certo telemóvel que eu cá sei.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O copo de água

Mas onde, em que terra, em que planeta, em que mundo me atreveria eu a perguntar o seguinte a um professor:
 
- 'Stôra, pode ir buscar-me um copo de água?
 
Obviamente respondi:
 
- Não, não sou tua criada.
 
- Então pode dizer ao contínuo para ir buscar?
 
Gentes, gritei tanto, mas tanto que tive de ir comprar pastilhas para a garganta. Começa bem...

domingo, 16 de setembro de 2012

Quero mais «Balas e Bolinhos»!

 
Hoje fomos ver o último «Balas e Bolinhos». Já aqui disse que sou fã do filme, que adorei os outros dois e que andava ansiosa para ver este. Pois hoje foi o dia e, minha gente, foi muito melhor do que aquilo que imaginava! Como os dois primeiros filmes foram feitos com um orçamento para lá de limitado, tinha receio que este, feito com muito mais dinheiro e um elenco mais vasto, perdesse aquilo que faz do «Balas e Bolinhos» a comédia que é. Mas não. Apesar de ser muito diferente do primeiro filme, é fantástico! Chorei a rir três vezes e houve ali uma parte em que foram tantas as razões seguidas para rir que já não sabia como havia de me compor. Não fosse o intervalo a meio e julgo que me teria dado uma coisinha má. O filme é genial, os actores estão, como sempre, perfeitos e cada personagem à sua maneira contribui para a loucura que o filme é. Adoro-os a todos, mas o Rato... Ai o Rato! Só lembrar-me do Rato já é motivo de riso, quanto mais vê-lo em trajes menores a correr por uma espécie de deserto.
 
Minha gente, se ainda não viram os outros dois capítulos desta fantástica trilogia, vejam. E depois corram para ver este que vai valer bem a pena. Pode ser que assim se anime aqueles meninos a fazerem um «último capítulo - parte 2».

Nova companhia

Terminei o Jacques o Fatalista há uma semana. Gostei de ler aquele texto que, no fundo, é um diálogo entre um amo e um empregado muito espirituoso, muito esperto e muito crente no destino. Atravessam-se no decorrer do diálogo muitas outras histórias que vão surgindo, umas mais a propósito que outras e, ainda, a voz do próprio autor/narrador que de repente nos vem recordar que quem manda é ele e que se lhe apetecer altera o curso da conversa e pronto. É, portanto, um texto muito moderno e que brinca com as supostas regras da narrativa, à boa maneira de Cervantes e de Sterne.
 
Entretanto comecei a ler o Carnaval e Outros Contos, de Joaquim Paço d'Arcos, autor que não conhecia e que fiquei a conhecer numa das banquinhas da Feira da Ladra, onde vi vários livros do autor. Os contos têm sido a minha companhia no autocarro e nos minutos antes de dormir. Textos simples, com histórias pouco complexas e muito realistas são o que compõe este livro.
 
 

Presentinho

Ontem cobicei um livro que o meu moço comprou. Sim, sou uma pessoa do pior, mas não consegui evitar. Há já muito que queria comprar O Retrato de uma Senhora, de Henry James, mas odiava a capa da edição da Relógio d'Água, com a foto da Nicole Kidman. Aparece sempre à venda a sete euros e meio na Feira do Livro de Lisboa, porém não consigo gastar esse dinheiro num volume com uma capa tão feia (o que chega a ser estranho porque a Relógio d'Água faz sempre livros bonitos). Normalmente não sou esquisita e desde que a letra tenha um tamanho decente e que não seja publicado por uma editora conhecida por fazer maus livros (há duas de que fujo como o diabo da cruz), compro sem problemas. Compro livros velhos (desde que não estejam a desfazer-se) sem me preocupar com o facto de não estarem tão lindinhos como os que por agora vão sendo publicados. Não me interessa: a mim importa-me o texto e sei que se não me render a edições antigas, ficarei sem conhecer muitos textos que gostaria de ler. Contudo, há capas que Deus me livre. Enfim, conversa de moça viciada em livros.
 
Mas ia dizendo que o meu moço comprou um livro que cobicei. O livro era precisamente O Retrato de uma Senhora, de Henry James, numa encadernação toda catita. Custou cinco euros. Não sei se foi por me babar em cima dele ou se ele já planeara oferecer-me o livro, a verdade é que mo deu (e eu não lhe dei nada: sou um nojo de pessoa). E portanto tenho ali um O Retrato de uma Senhora muito pouco portátil, mas muito bonito. Obrigada, fofo!



A beleza dos livros

Há livros em que a beleza não está apenas no texto e, assim como rapidamente largamos um livro de cuja capa não gostamos, rapidamente somos atraídos por aqueles que têm um aspecto que nos agrada. Na última vez que tinha ido à Feira da Ladra, vi à venda num alfarrabista (por dois euros) um livro que achei muito bonito e, posso dizê-lo, muito diferente dos que costumo ver. Na altura, por não conhecer o autor nem o tema, acabei por não o comprar. Apenas anotei os dados necessários para poder fazer uma pequena pesquisa sobre ele.
 
Ontem, já sabendo um pouco do que tratava o texto, reencontrei o volume e comprei-o. Ao vivo é mesmo bonito e é pena que as fotos não lhe façam justiça. A mim este caso fez-me pensar que o trabalho de quem faz os livros (capa e contracapa, lombada, ilustrações, entre outros) pode tornar-se mesmo na diferença entre comprar e não comprar um livro.
 
 
(Nunca tinha visto uma capa que fosse apenas uma imagem, sem qualquer outro paratexto como título ou nome do autor...)
 
 
 

Normalizando

Bom, este blogue bibliófilo criado por uma bibliófila louca tem, nas últimas semanas, andado muito arredado dos livros. Foram as mini-férias, foi o fim das férias, foi o regresso ao trabalho, foi o início das aulas e, verdade seja dita, o blogue anda apagadito. As leituras têm continuado, claro, mas não tenho falado sobre isso. Mea culpa.
 
Ora, vamos lá tentar voltar à normalidade. Ontem foi dia de Feira da Ladra e, adivinhe-se, lá fomos nós exercitar as pernocas para aqueles lados. Porém, em dia de manifestação pela situação estranguladora em que estamos, impusemos um limite ao dinheiro que gastaríamos e cumprimo-lo. Eu trouxe para casa mais de dez livros e não gastei mais de doze euros. Assim vale a pena. Ora, e que trouxe eu? Coisinhas boas. Na foto vão faltar dois dos que trouxe, um porque irá para uma das próximas quixotadas e outro porque, tendo um cantinho da capa meio dobrado, foi já entalado entre outros volumes para ficar direito.


Nó Cego, de Tomaz de Figueiredo;
Férias de Natal, de Somerset Maugham;
Liza a Pecadora, de Somerset Maugham;
Bestiário, de Julio Cortázar;
As Vozes de Marraquexe, de Elias Canetti;
Os Melhores Contos Portugueses, vários autores;
A Boa Terra, de Pearl S. Buck;
Bastardos do Sol, de Urbano Tavares Rodrigues;
Gaibéus, de Alves Redol;
Contos, de Vergílio Ferreira (não está na foto).

sábado, 15 de setembro de 2012

Manifestação em Lisboa


Nunca tinha ido a uma manifestação: hoje fui pela primeira vez. Resolvi sair com o resto da multidão porque me parece que chegámos ao limite. É impossível pagar mais e não ver mudança nenhuma, é impossível continuar a viver com tão pouco num país onde constantemente nos pedem (ou exigem) muito. A fotografia não faz jus ao que se via na Praça de Espanha, mas foi a que consegui tirar. Nunca tinha visto tanta gente junta na minha vida, porém ainda bem que todas estas pessoas saíram à rua neste Sábado quente. Não podemos continuar calados, não podemos continuar a sujeitar-nos a tudo. Não podemos e não conseguimos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Bom senso e canetas

Depois de pagar dois euros e quarenta por uma caneta e um afia metálico, envio daqui as minhas palavras de solidariedade para os pais que têm nas mãos, neste momento, uma lista de material escolar a comprar com, na melhor das hipóteses, quilómetro e meio. Julgo que deviam existir medidas de austeridade nas listas de itens pedidos pelas escolas porque, honestamente, parece-me que se verificam exageros absurdos em algumas escolas deste país. E quando não são as listas estabelecidas pelas escolas que se esticam para lá do razoável, são os meninos que não sabem reciclar nada de um ano para o outro. Lembro-me de que a borracha que me compraram na primeira classe acompanhou-me até ao décimo primeiro ano. Nenhum aluno deste país ou de outro gasta uma borracha das grandes em menos de três ou quatro anos (e mesmo em cinco ou seis acho difícil). Muitas vezes limitam-se a cortá-las ou a perdê-las, como estou fartinha de ver. Os estojos também não têm de ser novos todos os anos. Pois eu tenho alunos que têm dois em cima da mesa e diferentes dos do ano anterior. Assim como têm embalagens de canetas que custam o que muita gente não chega a ganhar à hora neste país e que passam por todas as tonalidades do arco-íris (e mais ainda).
 
Como em tudo tem de haver bom senso e este deve vir da parte das escolas, mas também da dos pais que não raras vezes se sujeitam a vontades e caprichos que mal podem pagar. Eu que vejo o que muitas vezes acontece ao material escolar ao longo do ano afirmo: tem mesmo de haver bom senso para que não haja desperdício de dinheiro e de materiais.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Palavrão

Ontem um aluno dos meus mais pequenitos vem ter comigo, trazendo na mão um livro que ele próprio escolhera na biblioteca para ajudar a passar os tempos mortos. Diz ele, muito chocado e como se eu lhe pudesse resolver o problema:
 
- Professora, este livro tem uma palavra feia!
 
E coloca-me o livro diante do nariz. Lá, estava escrita qualquer coisa como «filho de uma cabra!». Respondi-lhe, encolhendo os ombros:
 
- Bom, deixa lá. O livro também já é velho...
 
Mas devo dizer que achei uma ternura o menino ir avisar-me daquele "problemazinho" literário. Aposto que se fosse mais velho, não o faria: sairia, sim, a correr para o pátio a gritar a nova expressão feia que tinha aprendido. Ah, a inocência é uma coisa linda!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Espreitadelas furtivas

Oito e meia da manhã. Estou no autocarro a pensar se tenho ânimo para tirar o meu livro da mala e ler umas páginas antes das aulas quando percebo que estou num lugar privilegiado para observar à socapa a revista da senhora que está à minha frente. E assim fui até ao meu destino a deitar um olhinho à boa da revista cor-de-rosa, estupidificando um cérebro que, acordado desde as sete da manhã, não é muito melhor do que um saco de ervilhas congeladas.
 
Porém, o que aqui interessa não é a minha falta de actividade cerebral no período matinal. O que aqui importa é isto: toda a gaja que aparece nas revistas de tom rosado ou «apresenta um corpo invejável» ou «apresenta um corpo invejável e quer ser mãe». Toda. Minha gente, em seis ou sete páginas que a senhora virou, observei quatro figuras públicas portuguesas e uma norte-americana em alegada excelente forma física, sendo que, dessas, algumas diziam que queriam ser mães. E quando não diziam, a própria revista referia o facto de que já eram mães precisamente para destacar ainda mais a sua invejável forma física. Não estivesse eu tão aparvalhada com sono e teria ficado enjoada logo ali. É que já é estúpido que a todo o instante e que para toda a gente se saque da frase feita sobre o corpo de fazer inveja. Porém, a treta do «quero ser mãe» ou «ser mãe mudou-me» ainda me enjoa mais. É uma moda que está pegada há alguns anos e que toca o ridículo dos ridículos. A gaja pode ser a mais porca que o mundo já viu, mas depois de ser mãe adquire o estatuto de respeitável matrona que lhe confere o direito a umas quantas páginas cheias de legendas onde são ditas coisas como «mãe há dois meses, Maria Dulvina mostra a sua invejável forma física» ou de citações do género «desde que fui mãe tornei-me uma pessoa melhor». Ou ainda, para ser mais bonito, um título em letra de tamanho trinta e seis a dizer «já penso em ser mãe». Que lindo!
 
Toda a gente, mais tarde ou mais cedo, quererá largar a sua prole pelo mundo (ainda que os impostos sejam tão demovedores que se tornaram melhor contraceptivo do que a pílula e o preservativo juntos), mas daí a esfregar-se isso na cara dos outros dia sim, dia também é demasiado, não? Para as revistas, isto é um filão porque, por alguma razão que desconheço, as pessoas gostam das barrigas das grávidas famosas, gostam de as ver gordas nos últimos meses de gravidez e gostam de poder dizer «viste a Maria Dulvina? Ficou gorda que nem um perú desde que teve o puto». Assim como depois gostam de as voltar a ver magrinhas e de olhar com um enorme brilho de inveja a mudança física das ditas madames. E portanto, de forma estranha, isto da maternidade deixa algumas pessoas loucas. Como duas «mães» são sempre melhores do que uma, vai de encher as revistas de mães babadas, mães que hoje estão mais completas, mães que se sentem melhores pessoas, mães que agora sabem o que é o amor, mãe que só vivem para os príncipes e as princesas, mães que lambem as crias de manhã à noite, mães que não eram nada antes de serem mães, mães que têm conselhos para dar, mães que ainda não são mas já pensam em ser, mães, mães, mães...
 
Minha gente, acredito que ter um filho (e reparem que não digo «ser mãe» porque a expressão já me causa urticária, de tanto que a ouço) seja uma grande mudança e que apresente situações muito diferentes de todas as que se vivem até que um filho surja. Acredito também, que a maneira de ver o mundo mude, assim como a organização do tempo e o modo como se encara o futuro. Acredito que se perca muito do egoísmo próprio da juventude, ou por outras palavras, da fase pré-rebentos. Ainda assim: as mulheres têm filhos desde que o mundo é mundo e só agora se faz alarido por isso. Só agora correm rios de tinta sobre esse facto. Aliás, às tantas a imprensa e a sociedade quase fazem com que uma mulher sem filhos se sinta amputada ou, melhor, a única desgraçada que não possui a última peça da moda. Mas isso não é assim. Não querer ter filhos ou adiar a sua vinda não é mostra nem de egoísmo nem de nada anti-natura, como alguns possam pensar. É tão somente uma decisão pessoal que, felizmente, o avanço dos séculos e das mentalidades nos permite tomar. Embora muitos pensem que sim, nem «toda a mulher é uma Virgem Maria à espera do seu Menino Jesus», como ouvi uma rapariga que não queria ter filhos dizer há algum tempo sobre o papel que a sociedade entrega às mulheres.
 
Enfim, esta tara da maternidade nas revistas parece ter vindo para ficar. Para mim que não leio essas publicações e que já mudo de canal quando ouço uma tipa começar com a história de «ser mãe é...», a coisa não incomoda tanto. Incomoda-me, sim, quando o discurso é proferido por aí, nas paragens dos autocarros, em conversas entre amigas, entre vizinhas, na vida normal e entre gente nada famosa. Incomoda-me quando me enchem os ouvidos com uma conversa que, invariavelmente, termina com «enquanto não fores mãe, não vais saber». Bem, minha gente, a essas pessoas posso dizer muita coisa (ainda que quase todas elas sejam palavrões). Mas por exemplo, posso dizer que nem todos são professores, mas isso não faz com que não tenham muitas postas de pescada para lançar sobre a profissão e sobre as capacidades dos docentes. Posso dizer que poucos são médicos, mas que toda a gente tem a mania de atirar curas e mezinhas para o ar. Eu hei-de chegar a ter filhos quando quiser e tiver de ser. Entretanto, por favor: não me moam a cabeça com isso do «não és mãe, por isso não sabes», como se eu fosse um útero ignorante com pernas. Quanto às revistas e às famosas mães de «invejável forma física» só posso dizer o seguinte: só mesmo com os neurónios dormentes às oito da manhã é que troco os contos do Joaquim Paço D'Arcos que transporto na mala pelas espreitadelas furtivas às revistas alheias.
 
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Nojo

A ver se percebo... Um trabalhador a recibos verdes (precário, portanto) desconta 21,5%  do que ganha para o IRS. A partir de agora, a esse valor, vai somar-se o desconto de 30,7% para a Segurança Social. Ou seja: descontará 52,2% do que ganha. Imaginando que até aufere uns mil euros, levará para casa menos de quinhentos. Como? Perdão?
 
Esse trabalhador não tem direito a nada. Para chegar a um subsídio de desemprego tem de preencher uma série de requisitos que são difíceis de preencher. Subsídios de férias ou de Natal? Sabe lá ele o que é isso. Além de que conta sempre com a incerteza da continuidade do trabalho. Mas o que interessa isso afinal? Eu não sinto a fome no estômago destas pessoas, por isso arranjem-se, comam sopinhas ou então não comam. Vivam do ar ou vasculhem nos caixotes! Calma, eu não penso isto. Mas pergunto-me se é isto o que os Ministros pensam das pessoas que votaram neles, se é o que desejam a quem trabalha já não para luxos, mas para sobreviver. Isto, minha gente, enoja-me. Assim como me enojou um Primeiro Ministro que lança uma pesada medida de austeridade a uma hora e que daí segue para um espectáculo musical, onde se senta em bom lugar e faz coro com o restante público.
 
Este ano deixarei, em princípio, de ser uma trabalhadora independente, daquelas que não chegam a perceber muito bem se o trabalho se manterá ou não. Ainda assim não deixo de ficar revoltada com o que vejo, até porque tenho a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, voltarei a passar os miseráveis recibos. E aí não haverá como enganar: mais de metade do meu rendimento servirá para engordar um governo que corta no músculo em vez de eliminar as gorduras. Se o fizessem, eliminavam-se a eles próprios.

Medo

Estou ouvindo o Vitor Gaspar e a tremer de medo. Vocês também?...

domingo, 9 de setembro de 2012

Mundo louco

Estando a acabar de almoçar, tenho a televisão ligada na SIC e vejo o início do "Fama Show". Notícia inicial: Diana Chaves está em Londres para uma mudança de visual. E eis que entra a reportagem. Uma das meninas do programa aparece, então, a andar por Londres e a dizer que estão ali para assistir à mudança de visual da actriz. É que Diana Chaves vai... mudar a cor do cabelo!
 
A sério? Mas cabe na cabeça de alguém que isso seja assunto de interesse? Com tantas coisas verdadeiramente importantes para serem faladas, o que interessa é a mudança de visual, ou melhor, o novo tom de cabelo de uma actriz. Este mundo anda louco mesmo...
 

sábado, 8 de setembro de 2012

Quando eu desenhava sóis amarelos

Para grande felicidade minha, ainda faço parte das pessoas que trabalham neste país. Não deve haver dia nenhum em que não excomungue com afinco o dia em que escolhi ser professora num país que  não tem lugar para esta classe profissional. Contudo, também não há dia nenhum em que não agradeça aos santinhos todos o facto de ainda ter trabalho, numa nação onde isso é cada vez mais uma recordação de outros tempos melhores.
 
Ora, creio que neste momento esta é uma sensação partilhada por todos os que percebem a situação complicada que atravessamos e que notam bem as enormes e avassaladoras dificuldades pelas quais muitos passam. Ainda assim, e seguindo o provérbio que diz que «Quem não se sente não é filho de boa gente», é difícil não pararmos durante alguns momentos a perguntar-nos «Mas afinal eu trabalho para quem?». Bom, se não trabalharmos, não comemos: é mais do que sabido. Porém, a toda a hora medidas, aumentos de impostos, uma quantidade descomunal de dinheiro que nunca nos chega a passar pelas mãos e que vai directamente não sei bem para onde (já que vemos poucos benefícios daquilo que pagamos) é coisa que mói muito. De tempos a tempos vêm mais medidas e o que vemos nós? A Educação a piorar, a Saúde a piorar, a Segurança Social sem dinheiro para ajudar quem precisa mesmo (e nós a vermos a nossa contribuição a aumentar, mas sem percebermos muito bem porquê e por que razão não optaram por outro caminho), a Justiça a fugir com os tribunais sabe Deus para onde... E nós a abrirmos os bolsos, as carteiras, todo e qualquer buraquinho onde existam cêntimos para "ajudar" a nação a endireitar-se. Muito bonito. Especialmente para mim, que tenho vinte e seis anos, que não considero que tenha contribuído para o buraco em que estamos enterrados, que não vivi acima das possibilidades, que andava, provavelmente, a aprender a desenhar casinhas com chaminés a deitar fumo quando uns e outros andariam a gastar os tão famosos dinheiros que vinham de fora. Eu não tenho culpa nenhuma disto que agora está a acontecer, não tenho culpa nenhuma desta crise resultante de erros de governação em cima de erros de governação porque estava capaz de apostar que, enquanto por aqui se desistia da pesca, da agricultura, de tudo, eu andaria alegremente a desenhar sóis amarelos e pássaros pretos em folhas de papel que a professora fazia render até à exaustão, em admiráveis manobras de poupança muito consciente. Pois, eu tenho vinte e seis anos e não tenho culpa. Mas sou uma trabalhadora precária, assim como muitos da minha geração. Pior: boa parte dos jovens da minha geração nem sequer encontram trabalho, não vêem um tostão no final do mês. E pior ainda: pertencem, talvez, à geração mais qualificada que este país já viu. Ainda assim ninguém os quer, ninguém arranja lugar para eles e, maravilha das maravilhas, de vez em quando são pouco delicadamente convidados a emigrar. Não fui eu que esbanjei dinheiro, não fomos nós que demos cabo da indústria e do comércio, não fomos nós que rebentámos com a economia. Mas somos nós que passamos os dias a ver ofertas de empregos em que não nos querem porque temos estudos a mais, somos nós que todos os meses passamos o recibo que nos leva quase um quarto do pouco que recebemos, somos nós que de tempos a tempos somos convidados a agarrar na tralha e a ir pregar para outra freguesia porque «o contrato acabou», somos nós que andamos de curso em curso, de pós-graduação em pós-graduação, de mestrado em mestrado e de doutoramento em doutoramento numa vã tentativa de adiar a entrada num mercado de trabalho que há já muito tempo nos fechou as portas. Eu só tenho vinte e seis anos, não tenho filhos, não saí da casa dos meus pais e ajudo a pagar esta palhaçada toda de «com esta austeridade a coisa vai ao sítio ou então talvez não e para o mês que vêm anuncio-vos mais medidas». Eu não vejo jeitos de ter uma vida independente, longe dos que me pagaram cursos superiores para que um dia me saísse bem. E sabem o que é que ainda me dana mais? É que eu nem sou das pessoas que se encontram em pior situação. Há por aí muita gente, da minha geração e de outras, a viver um martírio diário e sem lhe espreitar o fim. Eu só tenho vinte e seis anos e palavra de honra que não percebo como é que se chegou a este ponto. O que sei, com toda a certeza que vinte e seis anos podem dar, é que tenho cada vez mais saudades dos dias em que desenhava sóis amarelos e pássaros pretos.

Descoberta curiosa

Estava aqui a preparar as primeiras aulas do ano lectivo que começa para a semana quando me apercebi de um facto interessante. Este ano, ao contrário dos últimos seis anos, foi o primeiro em que não «fui de férias». Ou seja: pela primeira vez desde 2006, não marquei estadia em lado nenhum, não planeei uma viagem, não fui passear para longe de casa ou de qualquer casa da família (sim, saí durante uns dias, mas para visitar familiares). No fundo, não paguei para dormir em lado nenhum, não fiz uma viagem nem passei pelo nervozinho da véspera do passeio, não fiz malas para duas semanas. Nada disso. Este Verão foi o primeiro em muito tempo em que o plano era ficar em Lisboa, divertir-me por cá e não pensar em viagens longas nem em dias em sítios maravilhosos (ai Viana...). Isto não aconteceu devido à crise, mas sim porque esperava ser sujeita a uma cirurgia que não veio a verificar-se. Contudo, na dúvida, não pude marcar férias em lado nenhum.
 
Ora, por que me lembrei eu disto enquanto preparava o regresso ao trabalho? Por uma razão curiosa: é que pela primeira vez não estou com uma neura do tamanho do mundo por ter de regressar à vida de sempre. Minha gente, normalmente quando chego a Lisboa depois de umas férias de Verão fantásticas em algum lado, no dia seguinte ao meu regresso ninguém pode comigo. Melhor: nem eu posso comigo! Fico irritada, irritante, furiosa, carrancuda, maldisposta, danada. Então passam-se uns dias tão bons em sítios tão bonitos e depois regressa-se assim, de forma tão pouco gradual, à vida do costume, aos lugares feios de sempre, ao trânsito infernal e à esgotante rotina? É coisa que mata. Ora, parece-me que a cura para estes dias de neura reside precisamente no acto de nem sequer sair. Se me mantiver no sítio do costume, se a rotina só se alterar para um longo giboiar pelos sítios do costume, embora livre do trabalho e da rotina a que o mesmo obriga, a coisa corre bem e não viro um bicho na hora de regressar à labuta.
 
Claro que houve alturas durante o Verão, especialmente antes de chegar a altura em que normalmente viajava, em que me sentia claustrofóbica nesta Lisboa que me enerva até mais não. Porém, depois a coisa fez-se bem e folgo em saber que desta vez regresso ao trabalho sem parecer um ciclope em fúria e a escoicear para a direita e para a esquerda. Neste momento devem todos estar a pensar que estou louca e que a falta de viagens deste Verão me afectou o encéfalo. Pois até pode ser, mas a verdade é que estou descansadíssima, relaxadíssima e até bem disposta. Conclusão: as férias fora fazem mal.
 
Notinha: Não esperem é que isto se volte a repetir durante muitos Verões, que a pessoa também não é de ferro, sim?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Cursos

Mas o que é feito daqueles cursos de pós-graduação que todos os anos eram realizados pelas universidades públicas de Lisboa na área de Letras? Já vi as listas de duas universidades e estou a pontos de ter uma coisinha. Depois não digam que uma pessoa não estuda porque é calona: a oferta é que deixa muito a desejar. De qualquer forma, resta-me a hipótese sempre adiada de um curso de Espanhol no Instituto Cervantes. Mas parecem-me tão caros...

Em ruptura

Estão a ver aquele anúncio do regresso às aulas em que um rapazola canta a famosa música do Boss AC sobre um certo dia da semana que por acaso até é hoje? Estou a pontos de me exterminar a mim própria se ouço aquilo mais uma vez que seja. Agora é que eu percebo a atitude do Stewie perante o terrível «Bird is the word»...

Apostamos?

Diz o ministro da educação que há professores a mais e que importa começar a reduzir o número de docentes. Já era de esperar uma pérola assim... Mas e então, vamos a apostas? Medidas que o ministro poderia adoptar no sentido de reduzir o número de professores:
 
- Pelotões de fuzilamento por áreas disciplinares: encostam-se todos os de Português que estão a mais a uma parede onde previamente foi pintado um mui nacional verso de Camões e depois PUM! A seguir vem alguém que pinta a parede e que depois escreve a Lei de Lavoisier. Encostam-se a ela os professores de Física e Química e depois PUM! E assim sucessivamente até só restar o ministro;
 
- Envenenamento dos professores gulosos durante as celebrações das "lições cem";
 
- Descargas de "charters" cheios de professores em pleno oceano Atlântico ou, para ter mais piada, numa ilha deserta ao bom estilo "Survivor". Uma espécie de reality show com docentes que estão a mais... Ainda ninguém se lembrou disto, aposto.
 
- Confiscação dos diplomas dos professores que estão a mais e permuta por outros de profissões em que falte gente. Que profissões, perguntam vocês? Pois, não sei. Parece-me que mesteres com falta de gente é coisa tão difícil de encontrar como o unicórnio fêmea;
 
- Extinção dos cursos que conferem habilitação para a docência e substituição por outros de lavores ou de realização de pequenos pavões em origami;
 
- Envio de autocarros cheios de docentes em excesso para latifúndios alentejanos com a missão de encontrar animais míticos como quimeras e centauros. Existirá, claro, a promessa de um bom prémio: receberá um horário completo todo o professor que avistar (e provar de forma inequívoca o avistamento) qualquer um destes bichos e, ainda, o de um outro ser mítico ainda mais raro: um senhor ministro que não lixe os professores.
 
E pronto, minha gente, façam as vossas apostas. A mim, que pertenco à classe, só me resta rir desta situação. Primeiro transformamos as turmas numa multidão muito anti-pedagógica e depois dizemos que há professores em excesso. Primeiro abrimos as vagas nas universidades e politécnicos do país, recebemos as propinas dos alunos ingénuos e com vontade de fazer a diferença numa profissão nada fácil e depois dizemos que estão a mais. Primeiro gritamos com os governos, depois passamos a fazer parte de um e esquecemos tudo o que dissemos antes. Como é que ainda não nos habituámos a isto?...

Conselhos no top

Palavra de honra que gostava de saber se o pessoal que leu O Segredo, realmente enriqueceu ao passar um cheque a si próprio e guardá-lo sob a almofada. Por outro lado, gostava de saber em quanto aumentou a fortuna de quem escreveu o livro. Na altura em que foi publicado, ouvi falar muito sobre ele e, honestamente, não acreditei numa única palavra do que sobre ele era dito. Faça assim ou assado que será rico e feliz, aja desta ou daquela maneira que será bem sucedido, acredite nisto ou naquilo que as coisas acontecerão são conselhos que não me convencem. Sempre me perguntei quem havia dado a estas pessoas a sabedoria suficiente para saberem como agir de forma a que tudo corra sempre pelo melhor. Mas espanta-me ainda mais que haja quem realmente acredite em tudo isto e o siga cegamente.
 
Lembrei-me disto quando fazia a ronda matinal pelos blogues que sigo e, no Blogtailors, encontro um post sobre os livros mais vendidos. Fui até à página que continha a informação mais desenvolvida e eis que aqui ficamos a saber que o livro mais vendido dos últimos cinco anos foi O Segredo. Enfim, o resto da lista, na maioria, também assusta um bocadinho, contudo é mesmo este campeão das vendas que me custa a engolir. Quão desesperado é preciso estar para se começar a precisar dos conselhos de outros que nem sabemos quem são e que os fornecem por intermédio de livros que nos custam dinheiro que lhes cairá directamente nos bolsos? Muito, creio eu, ou então não percebo mesmo nada.
 
Sem nenhum estudo muito apurado sobre o assunto, vejo muito frequentemente mulheres agarradas a livros deste tipo. Normalmente fico contente por ver que as pessoas lêem nos transportes, mas depois quando vejo que vão lendo estas coisas pergunto-me se é melhor ler aquilo em vez de não ler nada ou se mais valia mesmo que não lessem nada. É uma pergunta que me coloco muitas vezes e para a qual não encontrei ainda resposta. Ainda assim o que me parece mesmo é que se perde muito tempo a ler os conselhos dos outros e talvez ainda mais a publicá-los.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Menina Quer Isto XXII

A menina tem vindo a perceber que quer muito este livro. Porém, este singelo volume (nem tanto, porque tem quinhentas e trinta e duas páginas), "custa muito caro". Ah Natal, Natal... Te quiero mucho!

 
Notinha: Um dos meus sonhos de consumo (e profissionais, vá) é um dia ter um qualquer tipo de trabalho que leve as editoras a enviarem-me livros e a pedirem-me para os ler. Note-se que por estes dias, as editoras já me enviam livros, o problema é que são só manuais escolares...

Jerónimo Pizarro em Pessoa

Não sei se já aqui contei esta história, mas é daquelas de que me lembro de vez em quando e que me fazem rir. Há mais de dois anos tinha eu a tese de mestrado escrita e andava na fase de revisão e de caça à gralha. Havia escrito um dos meus resumos em Espanhol, mas não tinha encontrado ninguém que mo corrigisse. Ainda andei a ver se encontrava um antigo professor daquela disciplina pelos corredores da faculdade, mas o homem tinha desaparecido e não o encontrei. Ora, por aqueles dias trabalhava numa livraria. Numa bela tarde, entram dois senhores jovens a falarem em Espanhol um com o outro. Eu, bandida, penso «E se lhes pedisse uma ajudinha? O resumo é pequenino, como se quer...». Do pensar ao fazer foi um pulo: quando demos por nós, tínhamos feito do balcão uma mesa e estava um deles de lápis em punho a corrigir o Espanhol do meu trabalho. O amigo, português que também sabia Castelhano, dava uma ajuda porque o outro era colombiano e convinha que o meu texto fosse em Espanhol de Espanha... 
 
A certa altura o rapaz que falava português pergunta-me se sei quem é o seu colega. Eu digo que não e ele aponta para um volume que eu tinha em destaque na livraria naquele momento. O livro intitulava-se A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa e um dos responsáveis por ele era Jerónimo Pizarro. Ora, era precisamente este o rapaz que estava a fazer-me o favor de corrigir o resumo da tese. Ele tem sido um estudioso da obra pessoana e é o responsável pela publicação de muitos títulos deste grande autor português, garantindo ainda que há muitos textos inéditos que verão a luz do dia. Este mês surge na capa da revista Ler e ao constatar isto não pude deixar de recordar aquele episódio caricato. Aproveito aqui, mesmo sabendo que o Jeronimo Pizarro provavelmente nunca se cruzará com este blogue, para agradecer a simpatica com que me ajudou. Agradeço também ao seu amigo, de quem nunca soube o nome. E já agora peço desculpa pela quantidade de tempo que os fiz esperar pelo troco...

Nova leitura


Comecei a ler este ontem. Um criado e um amo numa conversa frequentemente interrompida pelo próprio autor ou pelo narrador (sabe-se lá...). Parece-me, pelas quarenta páginas que li, que o Sr. Diderot era genial e que, à boa maneira de Cervantes, brinca com as supostas regras do romance, transgredindo o que há para transgredir e fazendo do texto um jogo a que o leitor assiste de boca aberta.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Com os dedos

Tenho para mim, dada a velocidade com que o Benfica está a despachar bons jogadores (e jogadores bons também...), que a próxima época será jogada com os dedos. O que vale é que também ninguém vai ver os jogos...

Caim: o balanço

Acabei hoje de ler o Caim, do José Saramago. Não foi, de forma alguma, o livro deste autor de que mais gostei (continua a ser o Todos os Nomes). Contudo, gostei de o ler. É bastante óbvio o que Saramago pretendeu fazer com este livro: colocar à vista de quem o lê uma profunda injustiça e arbitrariedade nas supostas acções do «senhor*» do Antigo Testamento. Fazendo Caim saltar de cenário bíblico em cenário bíblico, somos confrontados com um outro modo de contar histórias tão conhecidas como o sacrifício que «deus*» exigiu a Abrãao (para quem não se recorda, mandou-o sacrificar o filho para provar a sua fé), a destruição de Sodoma, o drama de Job, a torre de babel e o dilúvio. Em todas elas percebemos, porque Saramago constrói a narrativa de modo a isso fique evidente, que a suposta entidade divina age de modo injusto e com pouca bondade. Eu, que até conhecia esses episódios bíblicos, nunca tinha verdadeiramente olhado para as coisas por esse prisma, porém Saramago constrói a narrativa de modo a que seja impossível não perceber aquilo que quer transmitir: aquele «deus» é mau, é rancoroso, é vingativo, é egocêntrico (tanto quanto uma entidade divina o possa ser, não sei...) e é, no fim de contas, tão culpado pelo mal como os homens que tanto condena.
 
Este livro, quando foi publicado, causou grande polémica, como todos sabemos. Realmente, ao lê-lo, percebi que existem lá algumas frases capazes de ofender aqueles que acreditam em Deus e que não toleram que alguém profira palavras mais ofensivas sobre Ele. Contudo, e tal como para a maioria dos livros, é preciso que exista espírito crítico. Eu sou católica, andei na catequese uma série de anos (por fim já só andava porque a minha mãe fazia questão) e passei por todos os sacramentos até ao crisma, mas não deixo de ter espírito crítico e de não entender como lindas e perfeitas todas as histórias que encontramos no Antigo Testamento. Por isso, embora até compreenda que muitas pessoas não tenham visto com bons olhos este romance do nosso Nobel, custa-me a crer que haja criado tamanha confusão. O espírito crítico e o distanciamento é necessário para qualquer leitura, sob pena de andarmos sempre ofendidos com o que se escreve ou de acreditarmos em tudo sem pormos nada em causa. Neste livro, essa capacidade crítica é necessária de modo a percebermos a mensagem que o autor procurou passar. Seguir uma religião até pode ser bonito e reconfortante, mas não devemos ficar cegos com ela ou com as histórias que ela nos apresenta. Li o Caim, gostei, e continuo a ser católica. Não passei a achar o Saramago a pior das pessoas, bem longe disso: cada vez me convenço mais de que era um génio.
 
 

O meu moço e os livros

O meu moço gosta de ler, o que me deixa muito contente. O problema é que o meu moço gosta muito de comprar livros (começo a achar que até já gosta mais disso do que eu). Só que o meu moço adora não ser o único a comprar: convence-me sempre a comprar também e num valor semelhante ao que ele vai gastar. A biblioteca do meu moço está a crescer. A minha também. A conta dele fica mais magra. E a minha também. Mas eu gosto muito dele assim, a gostar de livros como eu, por isso não me importo. Não tarda começam as aulas e eu deixo de ter tempo para gastar os meus míseros tostões. E acabam-se também as idas semanais à Feira da Ladra. Vou chorar.
 
Ontem fomos ao Colombo porque eu precisava de fazer uma troca e ele de comprar uma coisa (que não era um livro). Eu ainda não tinha bebido café e tinha uma dor de cabeça do tamanho do mundo simpaticamente provocada por três horas de espera na Loja do Cidadão. Ora, ele lá se lembrou de que a FNAC também tem café. Vamos lá e sentamo-nos com vista para os livros. Depois damos uma voltinha no meio deles. A seguir estamos nos sofás a folhear uns quantos.  Quando damos por nós estamos a dizer «este vai, este fica» a caminho da caixa. Ele levou uns três livros. Eu trouxe dois. Estes dois:

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A espera

Eu, tontinha, pensava que as Lojas do Cidadão serviam para nos facilitar a vida. Mas parece que não: aparentemente servem, sim, para nos dar cabo da paciência e para nos fazer rugas. Atura-se a má educação de outros utentes, por vezes também a dos funcionários (embora hoje não tenha sido esse o caso, já que fui atendida por um senhor muito simpático), os tempos de espera infindos, a falta de espaço, todo um mundo de pérolas boas de que facilmente abdicaríamos.
 
Lá fui eu pedir o excomungado registo criminal à Loja do Cidadão das Laranjeiras. Normalmente ia à dos Restauradores, mas qual não foi o meu espanto quando há uns meses constatei que o balcão do Ministério da Justiça havia sido fechado naquele edifício da Baixa. O balcão mais próximo encontrava-se nas Laranjeiras e, a substituir o que fechara, estava o de Marvila, na Belavista. Ora, este último fica fora de mão e o outro está entupidíssimo. Na última vez que fui às Laranjeiras estive duas horas à espera. Hoje estive três, tendo por única companhia o Sr. Saramago na figura do Caim. Eu, que até sou lenta a ler, tive tempo de ler metade do livro enquanto estive naquele inferno na terra. Quando cheguei, às duas da tarde, tinha umas módicas cento e trinta pessoas à minha frente. Fui atendida às cinco horas. Pelo meio tive tempo para fazer um lanchinho e para observar o ser humano no que tem de mais deselegante e egocêntrico. Foi uma viagem ao estilo National Geographic.
 
Não percebo que lógica existe em fechar-se um balcão tão central quanto o dos Restauradores e substituí-lo por um tão distante quanto o de Marvila que, segundo os funcionários das Lojas do Cidadão das Laranjeiras e dos Restauradores, está às moscas. Pedir o registo criminal em Marvila é coisa para levar cinco minutos, enquanto que nas Laranjeiras demora três horas. E antes que me digam que as pessoas da zona oriental da cidade também têm direito a ter este serviço sem necessidade de atravessar a cidade, deixem-me dizer que essas pessoas têm à disposição o balcão do Campus de Justiça, no Parque das Nações, onde também se pode obter o registo criminal. Por isso, e mesmo achando injusto, creio que da próxima vez prefiro passar o tempo em transportes em vez de passar tempo infinito numa sala de espera apinhada. É que depois de tanto tempo a aguardar pela minha vez, já me custa ouvir a conversa que se resume a um «Ó menina, se tivesse ido a Marvila já estava despachada há mais de uma hora!».