domingo, 26 de agosto de 2012

"Pirandellando" um pouco

Depois do Servidão Humana e de ter andado a folhear A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, segue-se o Ele Foi Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. É editado pela Cavalo de Ferro.

sábado, 25 de agosto de 2012

O fim da "Servidão"

Ontem acabei de ler o Servidão Humana, de Somerset Maugham, e tenho sobretudo coisas boas para dizer. Foi um livro de que gostei e que se mostrou interessante do início ao fim. Muito do que apreciei neste livro deveu-se ao facto de a personagem principal, Philip, ter uma personalidade muito parecida com a minha (o que nem sempre foi uma descoberta que me deixasse satisfeita, diga-se). A sua veia solitária, a incapacidade para compreender atitudes bondosas que lhe eram dirigidas, o gosto pelos livros e, não raras vezes, o facto de os preferir como companhia em vez de desejar rodear-se de conhecidos foram aspectos que me levaram a crer que, de certa forma, temos personalidades parecidas. Contudo, houve imensos aspectos das sua maneira de ser que me deixaram à beira de um ataque de nervos (ainda que os tenha compreendido quase sempre). A sua relação com a personagem feminina pela qual se apaixona ainda antes de a história chegar a meio é capaz de enlouquecer o mais estóico dos leitores. Momentos houve em que pouco faltou para gritar com o livro. Via o nome da Mildred numa página e começava a abanar a cabeça «Não, não, não!». Foi, julgo, uma das personagens mais irritantes, mais nojentas e mais reles que encontrei numa obra literária. Podia bem juntar-se ao Heathcliff de O Monte dos Vendavais: só se estragava uma casa.
 
Este Servidão Humana é um livro extremamente bem escrito que evoca, sobretudo, as relações entre as pessoas e o modo como elas podem ser livres e saudáveis ou, por outro lado, verdadeiros grilhões castradores de uma liberdade que se suporia inerente a qualquer ser humano. Nele encontramos, também, as alterações que a convivência com diferentes tipos de personalidades pode gerar e o modo como o crescimento e a chegada à idade adulta acontecem. É fácil perceber que Philip, um miúdo adorado pela mãe, foi aquilo e não outra coisa devido à educação que recebeu, à frieza com que foi acolhido, ao desgosto pela sua pequena diferença (sofre de pé boto) e ao pânico de que a realidade desse problema de saúde se sobrepusesse a tudo o que ele poderia ser. Philip é como é porque foi assim que o mundo foi com ele e o facto de o conhecermos desde pequenino permite-nos ter consciência das mudanças que se operam na sua personalidade e no modo como observa o que o rodeia. É, aparentemente, um rapaz frio, um pouco revoltado, desagradável e bastante calculista. Contudo, isso não nos soa estranho: Philip não podia ser de outra maneira. Julgo que não faria sentido, tendo em conta a vida que teve. Tanto foi um tipo com muito azar como um tipo com muita sorte: depende do momento e do ponto de vista. É também, não podemos esquecer, fruto de uma época que permitia atitudes que hoje não podemos imaginar. O modo como Philip encara a necessidade de escolher um caminho que lhe permita, um dia, deixar de viver do que os pais lhe deixaram e que passe a garantir-lhe o seu sustento é hoje um pouco difícil de compreender. Porém, é motivo para se recordar a questão da liberdade (ou da falta dela) e o modo como somos todos, muitas vezes, conduzidos para aqui ou para ali não porque nos amarrem, mas porque os conselhos, as palavras que nos dirigem e os comentários que nos fazem funcionam tão bem quanto cordas e correntes. No livro Servidão Humana, todos são um bocadinho servos de qualquer coisa, seja ela a religião ou o dinheiro, o amor ou a obsessão, o medo ou a vergonha.
 
Assim, é uma leitura que sugiro. São setecentas páginas que valem bem a pena, escritas numa prosa fluida (mesmo quando se abordam questões ligadas à arte, à filosofia ou à religião) e fácil de ler. Além disso, e mesmo sendo irritante, vale a pena ler este livro para que fiquem a conhecer a famigerada Mildred: far-vos-á, certamente, agradecer aos céus o facto de nunca terem topado com tamanha víbora.
 
 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

RTP2

Duas perguntinhas singelas:
 
1. Se a RTP2 fechar, o que acontece ao programa Câmara Clara (o único que fala de literatura, pintura, cinema, entre outros temas, no canal público)?
 
2. Se a RTP2 fechar, para onde vão os desenhos animados sem porrada que passam todas as manhãs e tardes para deliciar os miúdos (e, confesso, a mim própria...)?
 
Enfim...

Listas

O Expresso publicou no Sábado passado uma lista de cinquenta livros que toda a gente deve ler (podem consultá-la aqui). Destes, tenho vinte e três e de todos os cinquenta já li dezasseis. Tenho muito trabalhinho pela frente, portanto.
 
Logicamente uma lista implica sempre uma escolha e, portanto, nenhuma lista pode ser unanimemente perfeita. Todos nós saberemos de livros que, provavelmente, deveriam estar ali. O facto de Os Lusíadas não entrarem nesta lista pode fazer alguma confusão, mas é mesmo assim: todos nós teríamos algo a acrescentar. Pela minha parte, acho estas listas sempre muito úteis porque me levam a outros livros, porque me fazem novas sugestões. E se eu sei que falta ali esta ou aquela obra é bom sinal: é sinal de que a li e de que lhe vejo qualidade suficiente para figurar numa lista deste tipo.
 
Normalmente estes elencos de textos a não perder levam-nos aos clássicos, aqueles livros a que importa voltar sempre. Também o cânone acaba por ser uma lista de fronteiras incertas que nos pode guiar na escolha do que é muito bom e que não se pode, de forma alguma, deixar de conhecer. A minha preferência vai sempre para estes livros. Raramente desiludem, são intemporais, apresentam-nos frequentemente um uso e domínio da linguagem que vai muito além daquilo a que estamos habituados. Claro que também leio outras coisas, também embarco em algumas modas (não todas, felizmente), mas estes são os textos a que interessa voltar, são as obras que importa mesmo conhecer. Não somos os mesmos depois de lermos um clássico e essa é uma mudança pela qual vale bem a pena passar.

Auto-de-Fé

Já namorava este livro há muito tempo. Agora também entrou na lista do Expresso dos cinquenta livros que devemos ler antes da negra senhora da foice nos levar. Ontem topei com ele e não resisti.

Mildred

A cento e cinquenta páginas de acabar de ler o Servidão Humana, de Somerset Maugham, tenho para dizer que:
 
a. Teria todo o gosto em espancar a Mildred, aquela fútil aproveitadora que vai, neste momento, no terceiro ataque à carteira limitada do Philip, a personagem principal. Já dei por mim a dizer «não» para as páginas do livro a cada vez que ela aparecia e que ele, por bondade ou estupidez, abria os cordões à bolsa para a ajudar. No fim de contas acaba sempre por levar um real chuto no traseiro e é bem feito que é para não ser parvo.
 
b. Apetece-me ir lá para dentro do livro acabar o curso de Medicina pelo Philip, que parece-me que aquilo anda a ser demasiado arrastado (fora o facto de já ser o terceiro curso em que se mete). E depois, com aquela gibóia da Mildred sempre a aparecer, a coisa só se complica.
 
c. Tenho ganas que fechar a carteira ao Philip. O narrador bem nos recorda que ele tem de viver com o que tem durante os próximos três anos, já que só conseguirá receber pelo seu trabalho depois do curso e do estágio, mas passa a vida a escancarar a carteira por tudo e mais alguma coisa. Está nas lonas, ganha algum dinheiro na Bolsa e pimba: leva a Mildred de férias. Ai os meus frágeis nervos...
 
Posto isto, devo dizer que estou a gostar bastante do livro. Geralmente só me separo dele entre as duas e as três da manhã. Ainda me faltam umas cento e cinquenta páginas, por isso vou parecer um guaxinim com olheiras por mais um dia ou dois.

A colecção III

Ora bem, depois de um suspense absolutamente insustentável, depois de vos deixar à beira da loucura por não saberem o que raio colecciono eu, depois de ocupar as vossas mentes dia e noite e de vos ter tirado o sono (sim, sim...), segue a foto daquilo que compõe um dos amontoados cá de casa.


Pois é: lápis. Por um lado gosto de coleccionar os que têm bonecadas empaladas na ponta, mas também não deixo de comprar os simples, com uma borrachinha, por exemplo quando vou a um monumento com uma loja própria. Já é uma espécie de tradição ir a algum lado e voltar de lá com um lápis (e com um artigo para enriquecer a terceira colecção). Também a minha irmã tem contribuído muito para esta tontice. Vieram das mãos dela alguns dos lápis com os bonecos mais ridículos (que é o que se quer). Não sei muito bem quantos tenho, mas uma coisa é certa: nunca mais precisarei de comprar um lápis na vida.

A Menina Quer Isto XXI

Descobri que quero muito isto. Ontem nem sabia que existia e agora tenho este livro no topo da lista de coisinhas que quero. Ai vida...
 
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O parágrafo

Já li muita coisa. Já conheci livros muito bons, outros mauzinhos, já li frases mal escritas, já li frases extraordinariamente bem pensadas. Li algumas das melhores coisas que a literatura já produziu. Li aquele que é e provavelmente nunca deixará de ser o livro da minha vida. E li o parágrafo que mais me emociona e que me parece, de entre tudo o que já tive a oportunidade de ler, o mais perfeito de todos.
 
Há alguns anos li o livro Platero e Eu, de Juan Rámon Jiménez, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 1956. Lembro-me de ter ficado muito comovida com aquela prosa poética onde o narrador falava do seu burrinho chamado Platero, utilizando metáforas de uma beleza indescritível. Ainda cheguei, durante a Licenciatura, a reler o livro para um trabalho que, por motivos alheios, nunca vim a apresentar. Depois passei anos sem voltar a pegar naquele texto, não voltei a lembrar-me de Platero, não tornei a reler o parágrafo mais bonito que os meus olhos já viram.
 
Esta semana encontrei o livro num alfarrabista que o vendia por um euro. Trouxe-o para casa, embora tivesse já uma edição desta obra. Sucedia que esta era ilustrada e muito, muito bonita. Ao folheá-la para ver todas as imagens que a decoravam, deparei-me com o tal parágrafo e resolvi deixar-vo-lo aqui. Esta podia bem ser uma daquelas quixotadas com o título «A Menina Sugere Isto», de tão bonito que é o livro, de tão diferentes que ficamos depois de o termos lido. Espero que este parágrafo, que tanto me aquece o coração, seja tão apreciado por vocês como foi por mim e espero, também, que esta quixotada vos leve a procurarem conhecer Platero, o burrinho mais doce que a literatura já viu.
 
 
«Sim. Eu sei que, ao cair a tarde, quando, entre os verdilhões e a flor das laranjeiras, chego, lento e pensativo, pelo laranjal solitário, ao pinheiro que lamenta a tua morte, tu, Platero, feliz no teu prado de rosas eternas, me vês parar junto dos lírios amarelos que brotaram do teu coração decomposto.»

 

Livros usados

Tenho vindo a esquecer-me de mostrar as últimas aquisições. Adoro livros usados!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Não percebi...

Portanto a ver se percebo: aquela cadeia de supermercados que no dia 1 de Maio fez uma promoção que, pelo que a investigação apurou, incluiu a venda de produtos abaixo do valor da compra (ou seja, com prejuízo), concluiu agora que, para não pagar muito pelas taxas do multibanco, deve reduzir as transacções, passando a poderem ser pagas por multibanco apenas as contas que ultrapassem os vinte euros.

Sou só eu que não compreendo a passagem brusca de uma atitude «mãos largas» que ofereceu tantos produtos grátis no primeiro dia de Maio, ao ponto de as prateleiras ficarem vazias, para uma outra atitude de «ah e tal, temos de poupar nas taxas pagas aos bancos, blá blá blá»?

A ordem depois do caos

Ontem, com a ajuda do meu moço, andei a arrumar as estantes e a tentar arranjar algum espaço para os milhentos livros que sempre vão aparecendo cá por casa. A tarefa foi concluída com sucesso, já que consegui libertar duas prateleiras e meia. Depois de ter mudado de sítio uns materiais dos tempos da licenciatura que estavam a ocupar à grande uma prateleira, consegui:

1. Mudar a literatura lusófona para uma prateleira só para si (na fotografia só aparece a brasileira: a africana não se deixou apanhar pela objectiva devido ao meu tremendo jeito para isto):


2. A literatura infanto-juvenil abandonou a sala, mudou-se para uma prateleira privativa na estante onde estão os manuais escolares de que preciso para a escola:


Deste modo, a literatura do mundo ganhou duas novas prateleirinhas (e mesmo depois da arrumação, uma delas permanece vazia):


A literatura portuguesa que já não cabia nas prateleiras dedicadas aos autores portugueses também ganhou um novo espaço:


Ah, fiquei tão satisfeita por finalmente deixar de ver pilhas de livros a crescerem loucamente por todo o lado. Não deverá demorar muito até que voltemos à confusão do costume, mas por agora é assim que estamos. E acho que estamos bastante bem, não vos parece?...

E o bem que soube...?


E o bem que soube ontem o belo do pastelinho de Belém? Mas esta caixinha ficou intacta e foi oferecida, que também não sou nenhum ogre guloso. Eheh...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Inquilino novo

No fim-de-semana que passou, o meu cunhado falou-me deste livro e deixou-me muito curiosa com a história de um diabo que vem à terra pregar umas partidas... Estava em promoção na Bertrand e, por isso, veio comigo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Lanche calórico

Hoje fizemos panquecas. Esta nova receita é muito melhor do que aquela que tinha, por isso a coisa correu bem. Têm bom aspecto e souberam lindamente com um belo gelado de baunilha e uma cobertura de chocolate de fondue. Nham Nham...





A colecção II

E dentro deste saquinho do Panteão Nacional está um artigo que enriquecerá a minha segunda colecção. O que será, gentes?...

A colecção I

Há uns dias falei nas minhas três colecções e disse-vos que adivinhassem em que consistiam. Duas pessoas disseram que uma delas era composta por livros. Bom, isso é um território demasiado vasto para ser coleccionável. Uma das ideias que devemos ter presentes ao iniciarmos a colecção é que o universo de objectos deve ter fronteiras limitadas ou a colecção não passará de uma pequena amostra de qualquer coisa. Assim, uma pessoa pode ser dona de muitos livros. Daí a coleccioná-los vai um passo muito grande. Tenho já bastantes (principalmente se pensarmos que só tenho vinte e seis anos), mas não os colecciono. Não os arrumo numa caixinha para os adorar só de vez em quando. Não: tenho-os nas estantes, empilhados por aqui e por ali e sempre disponíveis para serem lidos, sublinhados, folheados, anotados. Não se faz isso com uma colecção e, tanto por isso como pelo facto de o mundo dos livros ser demasiado vasto para formar uma com pés e cabeça, não é essa uma das minhas colecções.

Agora, é verdade que colecciono um tipo de livros. Disse-o na quixotada sobre a Feira da Ladra. Colecciono edições do Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes. Pronto, assim colecciono apenas um título, mas nas várias formas que tem assumido ao longo do tempo. Monetariamente a colecção não deve valer um caracol, mas afectivamente vale muito e eu gosto muito de namorar os meus Quixotes.




Esta é uma das minhas edições. Comprei-a numa Feira do Livro de Lisboa, talvez há uns seis anos, no pavilhão do El Corte Inglés. Creio que esta edição foi uma das que em 2005 comemoraram os quatrocentos anos da publicação da primeira parte do Quijote. É da Editorial Everest e as ilustrações são de Vela Zanneti.

Panteão Nacional

No Sábado, além da visita à Feira da Ladra, fomos ao Panteão Nacional. Já não ia lá desde os anos do ensino secundário. É ali que encontramos os túmulos de algumas das figuras mais importantes da cultura e da política portuguesas. Algumas das trasladações foram polémicas e nada unânimes, mas no fim de contas todas aquelas figuras ilustres fazem sentido ali. E mesmo assim faltam lá tantas...

Ficam as fotos que pecam por falta de talento.








Mesmo que não adorem o interior, vão certamente adorar a vista.

domingo, 19 de agosto de 2012

Feira da Ladra


Ontem foi um dia cheio, muito cansativo, mas bem divertido. Entre outras coisas, fomos à Feira da Ladra, onde já queríamos ir há bastante tempo. Não fomos em busca de bugigangas mas sim de livros e, minha gente, livros a um euro é o que se quer. Ficámos fãs. Cheira-me que em breve voltaremos.

E o que comprei eu? Muitos livros. E para o que trouxe acho que gastei pouco. Hoje, por exemplo, é dia de feira de antiguidades em Belém e provavelmente gastaria lá muito mais em livros do que gastei ontem na Feira da Ladra. Não porque comprasse mais, mas apenas porque, mesmo sendo baratos, conseguem ser mais caros, o que se compreende. Por isso, hoje não há barraquinhas em Belém para mim já que ontem trouxe livros suficientes para ainda ir hoje arranjar mais (ainda há uma réstia de juízo nesta cabeça). Assim sendo, apresento-vos os novos moradores desta humilde casa:


Vejamos de baixo para cima. Os Irmãos Karamazov custou dois euritos ao meu fofo e foi-me oferecido por ele. Gracias, fofo! Os dois volumes de Um Mundo Sem Fim, de Ken Follet, custam nas livrarias mais de vinte e seis euros (por cada volume). Ontem, na Feira da Ladra, dei dez euros por cada um. Estão em perfeitas condições e até trazem o marcador respectivo. Foi ou não foi uma sorte? Bom, continuando... Já procurava uma edição baratinha do romance Gabriela, Cravo e Canela há algum tempo. A Dom Quixote lançou uma edição há uns meses, mas não me apetecia dar dezasseis euros por ela, principalmente quando tenho quase toda a obra de Jorge Amado em edições que me custaram muito pouco. Assim, ontem encontrei esta da Europa-América (do tempo em que ainda faziam edições que se podiam ler com gosto) a um euro. Nice! Da Maria Alberta Menéres, autora que muitas vezes se lê nas escolas, trouxe este À beira do lago dos encantos também por um euro. De Steinbeck trouxe A Pérola, por um euro (isto parece a "europoupança" do McDonalds), e deixem-me dizer-vos que traz na folha de rosto a dedicatória mais curiosa que já vi num livro usado. Diz assim: «Para a Tatiana, aluna que tem desempenhado o seu cargo de Delegada de Turma de forma exemplar. Obrigado! Gonçalo M.». Será que o Gonçalo M. sonha que a exemplar Delegada de Turma despachou o livro na Feira da Ladra?...

Por um euro cada trouxe ainda Os Cadernos do Major Tompson (análise caricata do povo francês na década de cinquenta, feita por um suposto jornalista inglês: pareceu-me ter piada, embora acredite que esteja datadíssimo), Contos a Ninon, de Zola, A Fidalguinha da Levada (para oferecer à mãe), O Regabofe, de Zola também, e um volume de Histórias Fantásticas de Charles Dickens e Walter Scott.

Mas a coisa não ficou por aqui. Comigo, por dois euros, veio também uma recolha de contos espanhóis (me gustan mucho) que não entrou na foto anterior por ter a lombada um pouco danificada.


Todavia, "a coisa preferida" que trouxe da feira ainda não vos foi apresentada. É mais um item para enriquecer uma das colecções que faço (pronto, ficam a saber de que trata uma das minhas colecções) e corre o sério risco de vir a tornar-se um dos meus objectos favoritos dessa colecção. Assim, de um dos alfarrabistas que estão junto à Feira da Ladra trouxe, por uma bagatela, uma edição do Quixote de 1905 (do tempo em que Quixote se escrevia ainda com «ch»). O que me fez apaixonar-me por ela, para além do facto de ser uma edição antiga do meu livro favorito, foi o facto de trazer uma anotação na folha de rosto magnificamente desenhada pela caligrafia perfeita do primeiro dono desta edição, o senhor Plínio Ventura, de Coimbra. Diz assim (transcrevo tal como está): «Começou de se annotar a 1 de setembro de 1905, levando 147 horas de trabalho. Coimbra, 28 de Setembro de 1906. Plínio Ventura». Este senhor, minha gente, anotou cuidadosamente todo o livro! Lindo!




E pronto. Cheira-me que não devemos demorar muito a voltar à Feira da Ladra...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Calvin & Hobbes


Adorei esta banda desenhada desde o dia em que alguém ofereceu um dos livros à minha irmã e eu espreitei a primeira tira. Lembro-me perfeitamente de falar dela à minha colega de carteira da época, andaria eu no meu sétimo ano. Desde aí, li tudo o que foi publicado e até achei curioso o rapaz e o boneco terem nascido no mesmo ano, no mesmo mês e por pouco no mesmo dia que eu. Mas, em 1995, Bill Waterson parou de desenhar as tiras e as pranchas que tanto gozo davam a quem comprava o jornal Público na década de noventa, onde apareciam na contracapa. Restam-nos os livros e esses são para guardar e para voltar a eles de vez em quando, tal e qual como se toma café com um bom amigo.

Hoje descobri que uns cartoonistas americanos resolveram, à semelhança do que muitos já fizeram, imaginar como estariam Calvin e o seu tigre, Hobbes, no presente. O resultado pode ser visto, já traduzido, aqui. Aviso já que no Brasil (o texto das pranchas está em português do Brasil) o tigre é chamado de Haroldo. Por isso não estranhem. Fora isso, esta homenagem às personagens e ao seu autor está uma ternura. E é mesmo muito merecida.

Mentes brilhantes

Quando penso que já nada no mundo dos livros me pode espantar, eis que surge uma ideia supostamente brilhante que me deixa de queixo caído. Ora, uma editora lembrou-se de fazer umas alteraçõezinhas a alguns clássicos de modo a torná-los mais interessantes para um certo tipo de público. Bom, isto só por si não é grave se tivermos em conta que, por exemplo, existem adaptações destes livros para que também as crianças possam conhecer as suas histórias. A questão é que estes senhores querem pegar em clássicos da literatura como Jane Eyre, Orgulho e Preconceito ou Sherlock Holmes e acrescentar-lhes um "picantezinho". Sendo concreta, pretendem acrescentar-lhes as cenas de sexo que os autores nunca lá colocaram. Pretendem, portanto, colocar os pormenores escaldantes que estariam behind the scenes, que nunca poderiam aparecer no texto final. Não querem, segundo a editora, reescrever os clássicos. Querem apenas torná-los apelativos a outro público que não aquele que já lê estas obras pelo que elas são.

Não consigo, por muito que tente, ver a utilidade de tal coisa. Quem queira efectivamente ler estes livros fá-lo-á pelo que eles são e não pelas cenas que muito posteriormente lhe foram acrescentadas. A meu ver isto é o mesmo que tentar passar um atestado de incompetência ao autor e aos eventuais leitores. Ao autor porque não acrescentou aquelas partezinhas calientes que supostamente fazem tanta falta e, por sua vez, aos leitores porque são tão totós que precisam de escritos apócrifos para conseguirem suportar certos clássicos. Repare-se: não falamos de um romancezinho de cordel, mas sim das obras maiores que a literatura já produziu, de textos que pertencem ao cânone há demasiado tempo para que agora alguém considere que precisam de um acrescentozinho para se tornarem interessantes. As adaptações, muitas vezes, já me enervam um pouquinho, porém com jeito entende-se o seu propósito. Mas isto não consigo compreender. Bem sei que o sexo vende, contudo não me parece bem incluí-lo à força onde ele não existe. Não vejo como pôr o detective Sherlock Holmes em cenas íntimas com o Dr. Watson possa acrescentar o que quer que seja de bom à história. Além de que, convenhamos, esta ideia de incluir cenas gays nem sequer tem muito que ver com a história: desde quando as duas personagens demonstraram terem mais do que uma grande amizade a uni-los? Mistérios...

Enfim, há uns anos assistimos à lógica de um professor americano que queria fazer alterações ao clássico de Mark Twain leccionado nas escolas, Huckleberry Finn, por considerar que a palavra niger, sendo hoje um insulto, não deveria figurar num texto lido por crianças e adolescentes. Assim, a solução seria substituí-la por outra menos ofensiva, como slave. Tudo seria muito lindo, não fosse o facto de, no tempo em que Mark Twain escreveu o romance, a palavra niger ser a que se usava comummente e de ter sido o correr do tempo o responsável por hoje ser um grave insulto. Isso dá-nos o direito de alterar um original com muitos anos de vida? Não me parece. Assim como o facto de textos escritos noutras épocas não incluírem aquilo que hoje vende não dever ser razão para que alguém pegue neles e acrescente o que julga que falta. A literatura, embora muitos se esqueçam disso, também é arte e sabendo nós isso teremos de ter em consideração que os clássicos são os exemplos maiores nesse domínio. Fazer o que esta editora pretende é extravagante e não serve, a meu ver, para nada. Quem não lê o Jane Eyre pelo que vale a obra, também não lerá pela expectativa de a imaginar a experimentar todas as posições do Kamasutra com o Mr. Rochester.

Quanto tempo faltará até que alguém se lembre de que uma Aldonza Lorenzo feia e a cheirar a cebola não vende e que o melhor é inventar uma Dulcineia del Toboso capaz de figurar nas páginas centrais das revistas masculinas, sempre preparada para arrancar a armadura do D. Quixote com os dentes? Mas deixem-me cá estar calada para não dar ideias...

Um selito

Ontem recebi um selo que me foi entregue pelo blogue da aNa, «a linha recta», a quem agradeço a entrega. Ao colocá-lo aqui tenho de apresentar:

a) três factos sobre a minha mui excelsa pessoa:
         - gosto de coleccionar coisas e faço três colecções diferentes (aceitam-se apostas para o que colecciono eu...);
         - gosto de livros narrados na primeira pessoa (ai, David Copperfield...);
         - o bicho que mais odeio e que mais me assusta são as centopeias.

b) o meu maior medo:
         - espaços pequenos, fechados e quentes.

c) blogues a quem passo o selo:
         - gentes, passo-o a todos! Apanhai-o se quiserdes!


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Remédio santo

Hoje fiz o pior almoço de que me recordo. Aliás, deve mesmo ter sido o pior prato da história do mundo! A culpa não foi minha, que normalmente até tenho jeito para cozinhar, mas da javardice do molho de soja que comprei que parecia mais uma bebida alcoólica do que aquele líquido em que embebemos tudo no restaurante chinês. Até juntar o molho de soja ao que tinha na frigideira, a coisa corria bem. Tinha peito de frango, tinha legumes, tinha cogumelos, tinha um temperozinho agradável. Depois de lhe misturar aquela javardice engarrafada a coisa descambou. Se o molho fosse igual ao que encontramos nos restaurantes chineses, a coisa teria futuro. Contudo, e embora até nem tenha comprado o mais barato, aquele líquido sabia a álcool e tinha um cheiro horrendo. Era tão molho de soja quanto eu sou um papa-formigas em biquíni. Resultado: tudo no lixo e eu a comer o arroz que teve a sorte de não apanhar com gotas de molho. Detesto mandar comida fora e cá em casa quase nunca se põe comida no lixo, mas, gentes, se eu comesse aquela mistura nojenta, morria. E morria em grande agonia, acreditem. O frasco do molho de soja só não foi para o lixo a pontapé porque tive medo de o partir e de sujar a cozinha toda. Aquela nojeira na frigideira já era panorama mau o suficiente para depois ainda acabar a espalhá-la pela casa

Por isso agora devorei uma singela sopa e quase chorei de alegria ao verificar que pelo meu palato já não passava uma gororoba nojenta como a do almoço (que não chegou a ser almoço, já que só catei uns pedacinhos de frango e comi o arroz que se mantivera sequinho). Soube-me pela vida e serve de lição: come sopa e não inventes.


Personagens que lêem

«Inconscientemente, desenvolveu o hábito mais encantador do mundo, o hábito da leitura: não sabia que, assim, estava a construir o seu refúgio para todas as agruras da vida; também não sabia que estava a criar para si próprio um mundo irreal que iria tornar o mundo real do quotidiano numa fonte de amargas desilusões. Entretanto começou a ler outras coisas. A sua inteligência era precoce. O tio e a tia, vendo como se entretinha sem dar trabalho nem fazer barulho, deixaram de se preocupar com ele. Mr. Carey tinha tantos livros que não os conhecia todos e, como lia pouco, esquecia-se das montanhas de livros que tinha comprado várias vezes por grosso por serem baratos. [...] Philip tinha poucos amigos. O hábito da leitura isolava-o das outras pessoas, sendo uma necessidade tão premente que ao fim de algum tempo de convívio começava a ficar impaciente e cansava-se da companhia; sentia vaidade na vasta cultura adquirida no contacto com tantos livros, possuía um espírito observador e faltava-lhe talento para esconder o seu desprezo pela estupidez dos colegas. Estes queixavam-se de que ele era presunçoso e, como só se destacava em assuntos que para eles não eram importantes, perguntavam trocistas o porquê de tanta presunção.»


in Servidão Humana, de Somerset Maugham.



«Uma única coisa me impedia de entristecer absolutamente. Meu pai tinha deixado num gabinete, no segundo andar, uma pequena colecção de livro; o meu quarto ficava paredes meias e ninguém pensava nessa biblioteca. Pouco a pouco, Roderick Random, Peregrine Pickle, Humphrey Clinker, Tom Jones, O Vigário de Wakefield, Dom Quixote, Gil-Brás e Robinson Crusoé saíram, glorioso batalhão, desse precioso gabinete para me fazerem companhia. Eram eles que me tinham a imaginação alerta, davam-me a esperança de um dia poder fugir desse lugar. Nem esses livros, nem As Mil e Uma Noites, nem as histórias dos génios, me faziam mal, porque o mal que aí podia encontrar-se não me atingia; eu não compreendia patavina. Espanto-me hoje de como tinha tempo para ler esses livros, no meio das minhas meditações e dos meus desgostos sobre motivos bem mortificantes. Espanto-me ainda da consolação que eu encontrava no meio das minhas pequenas provações, que eram grandes para mim, a identificar-me com todos quantos eu amava nessas histórias, onde, naturalmente todos os maus eram para mim um Mister e Miss Murdstone. Fui durante mais de oito dias Tom Jones (um Tom Jones infantil, a mais inocente das criaturas). Durante todo um mês julguei-me um Roderick Random. Eu tinha a paixão das narrativas de viagem; havia algumas nas prateleiras da biblioteca e recorda-me que passei dias inteiros a percorrer o adar em que eu habitava, armado com a tala de umas estopas, a fazer de capitão da marinha real, em grande perigo de ser atacado pelos selvagens e resolvido a vender muito caro a vida. [...]

Era a minha única e fiel consolação. Quando nisso penso, torno a ver sempre diante de mim uma linda noite de Verão; as crianças da aldeia brincavam no cemitério e eu lia na cama como se a minha vida disso dependesse. Todas as herdades da vizinhança, todas as pedras da igreja, todos os cantos do cemitério tinham, no meu espírito, alguma associação com esses famosos livros e representavam algum lugar célebre das minhas leituras. Vi Tom Pipes subir ao campanário da igreja; reparei em Strass, com o seu saco às costas, sentado na barreira a descansar, e sei que o comodoro Trunnion presidia ao Club com Mister Pickle na sala da pequena taberna da nossa aldeia.»


in David Copperfield, de Charles Dickens.


 
Deixo-vos aqui dois bons exemplos de duas personagens, ambas em tenra idade, que descobrem o poder animador da leitura e que a tomam como um refúgio para as terríveis realidades das suas vidas. É uma pena que cada vez menos as crianças, não as literárias, mas as de carne e osso, descubram o gosto pela leitura e os seus benefícios. Perdem experiências que só um leitor pode viver e verão, certamente, o mundo de um modo muito distinto e, talvez, menos rico do que o vêem aqueles que têm os livros por companhia.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

À cabeceira agora


Ontem comecei este. São setecentas longas páginas, mas o livro tem fama de ser fantástico. Vamos lá a isso, então.

Camões e os lacticínios ou um pequeno diálogo


Ontem mantive este curto diálogo com o meu moço:

Eu: - Sabias que na Bélgica há uma livraria que se chama «La Vache que Lit» («A Vaca que Lê»)?

Ele: - Bom, isso é o equivalente a termos uma queijaria com o nome «O Camões que dá Queijo».

. . .

Posto isto, nada mais há a acrescentar.

O poder de uma rua

Terminei há pouco de ler o livro El Mundo, de Juan José Millás e gostei bastante. Primeiramente porque é um livro que se lê com um gosto enorme. Ainda que a infância e juventude do autor contenham uma série de episódios bastante complexos, o modo como o narrador os conta e os encadeia uns nos outros é encantadora e viciante.

No centro deste texto está a rua da infância do autor, a "Calle" (assim mesmo, com maiúscula por ser tão única), aquela em que viveu depois da mudança de Valência para Madrid. Uma rua da qual não avistava o mar e onde a sua casa era velha e pequena para uma família tão numerosa quanto a sua. Foi nessa rua que o pequeno Juanjo cresceu e, parece-me que muito em parte pelo pouco que por ali havia, desenvolveu uma imaginação admirável ao ponto de me ter levado a pensar que as histórias que ali conta só podem ser irreais. Note-se que não duvido de que o que ali é narrado seja verdade. Não duvido de que sejam episódios verdadeiros pertencentes a uma vida que, embora tenha parecido pobre de tudo à criança que foi, aparece como riquíssima ao leitor adulto que a observa. Cada infância parece única para quem a viveu e há episódios que só nós podemos assegurar como verdadeiros de tão diferentes que foram. A outros olhos só podem mesmo parecer produtos de uma imaginação imparável. Mas mais: percebemos, pois também fala de si enquanto adulto, o quanto aquela infância o influenciou e influencia ainda. Compreendemos até aquilo que a nossa própria meninice contribuiu para o que hoje somos. Muitos dos episódios contados por Juan José Millás fizeram-me recordar a minha própria infância e procurar perceber quanto do que sou hoje passa pelo que fui e vivi. E ainda, voltando à "Calle", o quanto o nosso meio, a rua em que habitámos, habita em nós anos depois de a termos deixado.

Percebemos que a "Calle" nunca deixou o autor, embora ele a tenha deixado fisicamente. A impressão que fica é a de que acaba sempre por voltar a ela (ou ela a ele, depende da perspectiva). Aquela rua em que a criança vivia e que observava todos os dias está, pelo que vamos percebendo através das suas palavras, nos textos que hoje produz enquanto escritor. As pessoas com quem conviveu, as personagens daquele cenário com o qual parece manter uma relação de amor/ódio nunca o abandonam definitivamente e por isso acabam a habitar os seus contos e romances. As experiências de descoberta que foi vivendo são constantemente evocadas e ainda hoje parecem ser lembradas com um deslumbramento semelhante ao sentido naquela época. A visão da rua numa perspectiva diferente da habitual é, para a criança, um fenómeno que tem de ser repetido de tão mágico que é. Juan José Millás, o adulto, evocará essa descoberta muitas vezes e em todas encontramos a mesma euforia. Como seria ele se nunca tivesse tido tal experiência? E como seríamos todo nós se a nossa rua tivesse sido outra? Se o nosso lugar fosse diferente? Se as pessoas não fossem aquelas com quem nos cruzámos tantas e tantas vezes?

Enfim, este não é livro que tenha enredo para apresentar. É simplesmente (ou não tão simplesmente assim) um homem que conta como foi em menino e que, assim, procura explicar com o passado aquilo que vive e sente no presente. Há episódios cheios de uma magia tão profunda que só uma criança os poderia viver. Contudo, claro, não vos vou contá-los porque julgo que só perderiam força e encanto (ainda que alguns sejam mais incómodos do que encantadores já que não nos deixam indiferentes). Este é um livro que merece ser lido pelo que é, pelo que o compõe, pelo que representa e pelas reflexões que permite. Creio que todos os que nele pegarem vão dar por si a recordar pormenores da sua infância que os marcaram (ainda que não costumem pensar muito neles) e a procurar perceber de que modo ainda hoje são aquilo que no passado viveram. Pensarão nos lugares e nas pessoas, na mãe e no pai, nos amigos, nos vizinhos, nas lojas, nas histórias, nas palavras, e até no céu da infância. Há viagens que vale a pena fazer e esta é uma delas.


Nota: Desafio-vos a não sentirem um carinho particular pela personagem Vitaminas e um ódio secreto pela sua irmã, Maria José. E desafio-vos a não se recordarem da vossa veia exploradora quando lerem o passeio pelo "Bairro dos Mortos". E ainda vos desafio a não recordarem os vossos desesperos infantis quando virem as promessas que o narrador faz a Deus em situação de aperto. Pronto, não revelo mais nada.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ironia

Uma pessoa trabalha que se desunha durante o ano lectivo, passa os dias com o nariz enfiado em fichas, manuais, relatórios, testes e mais o diabo a sete, mas nas férias, NAS FÉRIAS, é que os olhos ficam com monumentais derrames. É ou não é uma ironia bem grande?

Tenho o olho esquerdo num estado miserável. Ah, e para os espertalhões que dizem que não dói, fica a notinha: eu estava deitadinha no sofá, bem sossegadinha da vida, e senti uma dor no canto do olho. Nesse momento pensei "Ai cacete, eu já senti isto uma vez e fiquei com o olho transformado em sangue. Deixa-me ir ali ao espelho ver o que se passa." Chego ao espelho e, tcharaaaaaaaaaaaaaaan, derrame! Bom, importa ver as coisas pelo lado positivo: pelo menos desta vez não tenho um coágulo insuportável a fazer-se sentir quando pisco o olho, como em tempos aconteceu.

Parte positiva da coisa: ao fim de uns quatro pomposos derrames, já não me assusto nem vomito ao ver-me ao espelho, e muito menos corro velozmente para o oftalmologista.

Ai vida, vida...


Outono, já?

Já estamos no Outono e ninguém me disse nada?... Que dia esquisito aqui para estes lados.

domingo, 12 de agosto de 2012

Em que se tiram conclusões

Depois de ver vários thrillers e filmes de terror, hoje, enquanto via mais um, cheguei à conclusão que sucintamente apresentarei de seguida.

Viver em vivendas só traz problemas, a saber:

- Falta de segurança;
- Soalho velho e barulhento;
- Portas empenadas;
- Humidade e problemas de canalização;
- Correntes de ar de origem desconhecida;
- Fantasmas ou espíritos mal resolvidos (geralmente de raparigas muito brancas, vestidas de branco, com cabelos pretos compridos e a aparentar sérios problemas de locomoção) provenientes da [ver ponto seguinte]:
- Frequente construção sobre antigos cemitérios índios, orfanatos ou hospitais que faziam uso de métodos experimentais geralmente pouco ortodoxos.

Note-se, ainda, o facto de ter percebido que os espelhos das vivendas também apresentam defeitos, uma vez que ou reflectem gente a mais ou reflectem gente a menos. Deve depender do fabricante, não sei...

Assim sendo, depois de uma vida a ver filmes de terror, concluo que jamais morarei numa vivenda.


Um casamento e três anos lectivos

Num ano lectivo pode caber muita coisa, mas em três anos lectivos caberá muito mais. Especialmente se tivermos entre catorze e dezassete anos, altura em que todo o mundo parece encaixar na duração de um ano escolar. Por isso, quem connosco partilha esse tempo, quem se mantém ao nosso lado durante tantos meses e na memória durante os anos que se seguem merece um lugar especial no nosso coração.

Ontem estive no casamento daquela que foi a minha colega de carteira durante todo o ensino secundário. Quando éramos miúdas, falámos tanto sobre o futuro, sobre os sonhos, sobre rapazes, sobre tantos disparates que não consegui deixar de sentir um nó na garganta quando a vi vestida de noiva a tirar fotografias. O tempo passou e a minha colega já não estava sentada comigo na aula de Francês a trocar bilhetinhos A4 (não éramos lá muito discretas...), esperando que a professora não visse. Estava ali, linda, sorridente, vestida de noiva, pronta para dar um passo novo na sua vida. Mas, minha gente, fiquei tão feliz por ela, tão alegre pela alegria dela que até fiquei espantada. Foi um nó na garganta, uma nuvenzinha nos olhos, mas foram sensações boas.

O casamento foi maravilhoso, como os noivos bem mereciam. Por muitos anos que viva nunca esquecerei o momento em que o padre resolveu cantar o «Aleluia» de um modo peculiar, deixando metade da assistência a segurar o riso até às lágrimas. Assim como não esquecerei a sensação boa que é ver duas pessoas cujo namoro vimos começar (e até demos um empurrãozinho) dizerem o tão esperado «sim». Foi, em meu entender, um casamento perfeito como nunca tinha visto.

Por isso e por tudo o que ficou para trás algures entre os muros da escola secundária, só posso desejar-lhes uma vida tão bonita quanto foi o seu casamento. Só posso desejar-vos (na esperança de que venham a ler esta quixotada) que o futuro vos traga apenas coisas boas. Eu cá estarei, como ontem, para vos aplaudir.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

El mundo



«El mundo es la calle de tu infancia.»

Ontem, depois do Hotel Majestic, ainda consegui começar este. Nele, o autor Juan José Millás conta-nos como foi sua infância e conta-nos os seus medos, os seus anseios, as suas dúvidas, os seus lugares e as suas brincadeiras desse tempo. Do pouco que já li ocorreu-me que conhecer o menino é conhecer o homem. E parando um bocadinho para pensar em algumas pessoas que com quem me fui cruzando, verifico que não raras vezes isto é mesmo verdade.

Na edição portuguesa o livro chama-se, obviamente, O Mundo e é públicado pela editora Planeta.

A carteira

Fui agora abrir a porta à "carteira" aqui da zona e deixem-me que vos diga: é tão simpática, diz um "bom dia, é o correio" tão entusiástico que, além de lhe abrirmos a porta do prédio, apetece ir lá abaixo trocar dois dedinhos de prosa com ela. Numa cidade onde cada vez mais as pessoas são carrancudas, esta simpatia toda é uma brisa. Ponho, por isso, um "like" na "carteira" aqui do burgo!

Notinha: "Carteira" vai entre aspas porque não sei se existe feminino de carteiro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Desapontamento


Acabei hoje de ler o Hotel Majestic... finalmente. Não me interpretem mal: a história do hotel outrora de luxo que se vai desmoronando à mesma medida que a situação no seu próprio país (Irlanda) se vai degradando com movimentos como o Sinn Fein e o IRA é interessante. Principalmente os momentos em que assistimos à convivência entre os hóspedes que teimam em permanecer no Majestic mesmo correndo o risco de levar com o tecto na cabeça. Há vários passos em que soltamos uma ou outra risada perante as situações em que certas personagens se colocam (ri bastante quando as parvas e ingénuas gémeas, filhas do dono do hotel, pediram dinheiro emprestado a um dos hóspedes para poderem ir a Dublin para serem violadas como toda a gente... o problema é que as duas parolas ali encerradas no hotel desde o dia em que nasceram não sabiam o que significava ser violada e pensavam que era um tipo de moda nova...). Também a saga dos gatos que proliferam pelo hotel em decadência e a extrema necessidade de os fazer desaparecer para que se possa organizar um baile em condições acaba por ter graça. Especialmente quando, pela falta dos muitos gatos, começam a surgir ratazanas na pista de dança, junto dos convidados ilustres. Enfim, a degradação do Majestic gera momentos de leitura muito divertidos porque poucos conseguem realmente perceber o que se passa à sua volta. Vivem no hotel como se este ainda merecesse cinco estrelas. Porém o Major, personagem principal, percebe bem o que o rodeia (no que diz respeito ao hotel porque quanto ao amor é mais cego do que uma toupeira) e é o único sensato que, aos poucos, toma para si a função de salvar o Majestic. A noite do baile que já referi é, para mim, o momento mais empolgante no livro pela quantidade de "fogos" que se acendem devido a bebedeiras e a que o Major tem de acorrer de modo a minimizar os estragos.

Contudo não amei o livro. Estava muito curiosa para lê-lo, mas, no fim de contas, não o adorei. Os momentos em que surgem documentos sobre as questões entre católicos e protestantes e aqueles em que a acção gira em torno dessa luta foram, para mim, um pouco custosos, já que é uma parte da História que não domino muito bem. Assim, acabei por ir aprendendo umas coisas enquanto lia, mas creio que não foi o suficiente para apreender devidamente toda a acção. Mea culpa. Também não criei empatia com as personagens, que me foram parecendo todas muito superficiais sendo, por isso, difícil criar qualquer ligação com elas. Parece que as olhei sempre de cima, sem procurar percebê-las realmente e sem sentir a necessidade de o fazer. Resumindo: em determinada altura só queria ler para despachar o livro. Nada a fazer: estes desapontamentos também fazem parte da vida de um leitor.

Fim de tarde

O fim de tarde com o moço desenvolveu-se da seguinte forma:


Um prato de caracóis (e um "fixe"!)...


...Uma travessa de picapau (carregadinho de pickles)...


... Imperiais e Coca-cola Zero.

Estou jantadíssima!

Glória

No outro dia vi este livro na Fnac, li umas páginas e achei que era uma boa forma de gastar um vale que tinha para estourar. Nunca li nenhum livro do Vasco Pulido Valente, mas pareceu-me que esta biografia, cuja abertura consiste num crime, tinha potencial. Assim, está ali precariamente amontoada na pilha de volumes que já não têm lugar na estante e que aguardam a sua vez de serem lidos.


Notinha: E o meu nenhum talento para a fotografia, han? Maravilhoso.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Nervos

E o que me enervam as pessoas que, perante a medalha de prata ganha na canoagem por Emanuel Silva e Fernando Pimenta, dizem «Tanto alarido pela prata: ainda se fosse o ouro.». Olhem, por que não vão lá remar um bocado a ver se fazem melhor? Quando é no futebol o segundo lugar é sempre uma maravilha, mas fora do "desporto rei", para muitos, já não vale nada. Que gente tão pequenina, credo...


Parabéns aos vencedores e obrigada pelo esforço olímpico!

Chegadas

Ontem estes chegaram cá a casa, um vindo da Wook e os outros dois da Porto Editora. Até gosto de fazer compras nestes sítios, mas já não é a primeira vez que os livros me chegam de capa sujita e com cantos meio dobrados. É pena porque realmente é uma forma cómoda de fazer compras. Nem exijo livros completamente imaculados, mas ter de os estar a esfregar com um pano do pó e limpa-vidros logo que me chegam a casa parece-me demasiado.


Notinha: Tenciono pôr os meninos a lerem o clássico de Robert Louis Stevenson, A Ilha do Tesouro, no próximo ano lectivo.

Crise, crise, crise e... crise

Mas quantas notícias sobre a crise consegue a SIC desenterrar numa semana? A cada dois dias lá vão eles para as praias do país mostrar que estamos em crise e o mais incrível é que abordam a coisa sempre de uma maneira nova, que é para ver se não damos pela repetição do tema, provavelmente. Num dia vão para a praia, vêem geleiras no areal e pronto: os portugueses estão a sentir cada vez mais a crise porque já levam as sandes feitas de casa e não vão ao restaurante. Ó senhores, palavra de honra, uma pessoa que queira aproveitar a sério o dia de praia, virar uma uva passa de tanto tempo que fica dentro de água vai enfardar uma refeição de faca e garfo no restaurante para quê? Para depois passar as três horas da digestão a amaldiçoar o calor e a impossibilidade de entrar na água?

Dois dias depois vão até ao Algarve e vêem que nem todos os toldos estão alugados. Pronto, crise. Se há toldos por alugar é porque somos uns desgraçados a quem a crise caiu em força na cabeça. Não se coloca a hipotese de agora quase toda a gente ter um chapéu-de-sol privado e gratuito. Não: somos pobrezinhos e desgraçados, acabou a conversa. Hoje lá vem a notícia: os toldos na Nazaré também não estão esgotados. E assim voltamos a ouvir falar na crise.

Se num dia a praia não está cheia: crise. Se o vendedor das bolas-de-berlim acaba o dia sem as ter vendido todas: crise. Se os transportes públicos para a Caparica não vão a abarrotar: crise. Se, por outro lado, vão a abarrotar: crise (porque as pessoas já não se deslocam nos seus veículos particulares). Se há fila na ponte: crise (não há dinheiro para ir para fora). Se não há fila na ponte: crise (já nem para ir à Caparica há dinheiro).

Já percebemos que a situação é de crise e também já notámos que estamos na silly season. Mas por amor de Deus, tem de haver um ponto que sirva de limite às notícias que encontram na praia todos os sinais possíveis e imagináveis de uma crise terrível que nos assombra a vida. Não há semana nenhuma em que não vá um jornalista pôr o pezinho no areal e perguntar às pessoas se estas férias vão ser diferentes por falta de dinheiro. Todos sabemos que estamos em crise, mas não precisam de no-lo esfregar na cara até à exaustão. Credo, estou a pontos de desligar a televisão até Outubro!

O balanço dos anjos


Acabei ontem de ler o livro Os Anjos Nus, de A. M. Pires Cabral que tinha começado no Sábado (sim, ainda estou a ler o Hotel Majestic, mas o apelo dos anjos foi mais forte do que eu, mea culpa).

Nesta obra encontramos oito contos, sendo que o último surge dividido em duas partes muito distintas. Todos eles representam uma realidade trasmontana sobretudo de outros tempos. Encontramos as crendices populares, os trabalhos do campo, os namoricos às escondidas, a emigração para França e Luxemburgo no século passado e a não raras vezes consequente "viuvez em vida", o vocabulário tão próprio do norte do país e muitos outros aspectos relacionados com uma realidade que me é querida e que é, por vezes, tão pitoresca que só pode ser um gozo ler sobre ela.

Um dos aspectos que mais aprecio na escrita deste autor é, já o disse aqui quando falei do romance O Cónego, o humor que nos chega tanto pela linguagem quanto pelas próprias situações em que as personagens são colocadas. Os narradores destes contos dão às suas narrativas um toquezinho de comicidade e, não raras vezes, de ironia que, em meu entender, enriquecem muitíssimo o texto. Mais: para quem conhece as gentes do norte do país, a sua fala e os seus hábitos, estes textos tornam-se viciantes. Para mim, que passei muitas vezes férias no norte, tanto na Beira Alta quanto no Minho, este jeito de ser das personagens e este modo de falar evocam gentes que conheci e situações a que assisti. Apesar de representar Trás-os-Montes nos seus textos, creio que A. M. Pires Cabral pinta a cor local de boa parte do norte do país e fá-lo de forma magistral.

De um modo geral, posso dizer que gostei de todos os contos, embora por razões distintas. Dos dois primeiros («Os Anjos Nus» e «Uma cruz na testa, outra nas costas da mão») gostei pelo retrato de uma religiosidade caída em ridículo pelo excesso. Se num deles salta à vista a castidade exacerbada de uma beatona incapaz de enxergar para além dos preceitos da igreja, no outro são postos a nu os engodos de muitas santinhas forjadas apenas para encher os bolsos de uns quantos. Em ambos percebemos o papel central da religião na vida das pessoas das aldeias nortenhas (coisa que se vai perdendo) e os ridículos a que o exagero facilmente leva.

Nos dois contos seguintes, «Acender o cigarro no lampadário da igreja» e «Uma carta ao Menino Jesus», encontrei uma situação menos risível (excepção feita à linguagem usada por algumas personagens no primeiro destes contos) e mais moralista. E digo-o não num mau sentido, mas sim querendo salientar o facto de que estes dois contos (especialmente o «Uma carta ao Menino Jesus») podem conduzir a uma reflexão sobre alguns aspectos aflorados nos textos, nomeadamente os olhares que podemos deitar sobre a religião, sobre a existência (ou não) de Deus.

O terceiro conto, «O salvo-conduto», foi talvez aquele de que menos gostei. Também aqui percebemos que as crenças pesam muito no quotidiano das personagens, ainda que Leonardo (uma das personagens principais) não embarque nelas. As suas explicações para o que sucede são puramente racionais e não há padre nem Deus que as mude. Em boa verdade quase me parece que ele é que mudaria as convicções do padre, mas isso são outro assuntos...

Adorei os dois contos seguintes. Em «Para além das águas» percebemos uma tragédia iminente pela epígrafe que o precede e pelo nome da personagem feminina. É uma história de amores difíceis, testados pela distância e pelas permissões paternas. No fim de contas vence o amor e supera-se a distância. Retorna-se às origens por teimosia. Mas se as origens já não existem como se conheciam, ao que se pode regressar? Os lugares acabam, como dizia Jorge de Sena, e o lugar daquele amor acabou. O que espera, então, Ofélia? O que pode salvar a situação sui generis em que a teimosia do pai da rapariga (com a sua concordância) coloca aquele casal? No fim de contas, nada. Há nomes que carregam o signo da tragédia e o daquela noiva é um deles. Leiam, pois, o conto que vão gostar bastante. Tanto quanto gostarão do conto seguinte, intitulado «Vilar Frio», o nome da aldeia onde ocorre a acção. Nele encontramos o problema da emigração para França na década de sessenta do século passado. Um marido que parte, uma mulher que fica, uns olhos que não vêem, um coração que não sente, uns olhos que vêem, um coração que volta a sentir. Foi assim que vi este conto. Porém a história não se resume a isto. Há a questão da honra que importa lavar, da vergonha, do medo, do casamento que tem de ser para a vida e que não se dissolve nem que a partida do marido transforme a mulher numa, como outra personagem sugere, viúva em vida. Há a questão da lealdade, dos amores contrariados pela vontade paterna, do desejo contido e recalcado porque nunca poderá cumprir-se, do desejo que afinal se cumpre, embora tal não devesse suceder, do despeito e mesquinhez dos seres abjectos que se vingam quando não satisfazem as vontades. E há, por fim, o problema de não se saber viver com uma marca, com a vergonha. E por isso morre-se. Naquele tempo e em outros, essa foi uma realidade.

Este foi o conto de que mais gostei neste livro. Os sentimentos que o atravessam são tão complexos e tão actuais (já que estamos novamente em época de emigração) que é difícil não sentirmos algumas das dores daquela personagem feminina que, primeiramente, nunca quis colocar-se na situação de mulher de um marido ausente. Ela viu-se, não por sua vontade, naquela situação e em outras, caminhando inexoravelmente para um desfecho duro, trágico, mas comum num Portugal de outros tempos (e, infelizmente, também nos de hoje: veja-se a quantidade de mulheres que morrem ou que são maltratadas pelas mãos dos que mais amam). Todo o livro vale bem a pena, mas este conto em particular tocou-me o coração e, por isso, só posso aconselhar-vos a sua leitura. Não se esquecerão tão cedo da personagem Marta.

O último conto deste livro chama-se «O Diário de C*» e divide-se em duas partes. Na primeira é-nos descrito um objecto de grande valor para o narrador. Na segunda assistimos à análise de um diário que permite várias interpretações. Em meu entender, este é o conto em que o autor brilha mais. Ainda que todos os outros estejam incrivelmente bem escritos e sejam retratos fantásticos de um mundo que, feliz ou infelizmente se vai perdendo, creio que é aqui que o autor mostra realmente que merece um lugar de destaque na literatura portuguesa. O modo como domina as palavras, como mistura o sério com o risível, saltando de um para o outro com enorme mestria, o modo como mistura o erudito com o popular, como demonstra um profundo conhecimento dos seres e dos saberes de outros tempos, como constrói uma história com base em excertos de um diário e as conjecturas que estes permitem, enfim, tudo isto mostrou-me que este autor é muito mais do que um singelo pintor de um Portugal interior. Não é que não soubesse já que A. M. Pires Cabral é um autor merecedor de aplausos pela literatura que produz. O que aconteceu foi que o rendilhado deste conto, ao ter uma construção tão diferente da de todos os outros, me surpreendeu precisamente no final do livro. Creio que qualquer crítico literário terá muito para dizer sobre este conto, sobre a sua construção, sobre o narrador (ao fim e ao cabo a personagem mais fascinante de todo o conto), sobre a importância do documento quase descodificado que é este diário. Sentimos o cheirinho do topos literário do manuscrito encontrado, só que em vez de sair dele um Alonso Quijano, sai dele um C* humilde mas de vida cheia e de gozos infindos. Eu, enquanto leitora, posso apenas dizer que me surpreendeu bastante e que gostei muito de o encontrar no final deste livro.

Este é, então, um livro que recomendo. Creio que todos gostarão do uso que o autor faz desta língua lindíssima que temos e das suas variedades nortenhas. Creio que gostarão dos enredos tão simples, porém tão ricos e cativantes que constrói. Creio que todos admirarão os narradores dos vários contos, mestres no contar histórias utilizando todas as palavras de que dispõem, sem filtro nem censura, que assim é que tem de ser. Creio que adorarão as personagens, desde a beata até à pobre mulher vítima da emigração do seu homem. Creio que admirarão a construção do último conto, cuja primeira parte nada revela do que será a segunda. Creio que amarão aquele Portugal castiço de crenças, de encostos, de códigos de honra, de trabalho, de suor e de vida. Sim, porque esta gente que povoa os contos de A. M. Pires Cabral é gente de vida cheia. Quem disse que em Trás-os-Montes nada acontece?...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O "Top 3" ou o terror na forma de papel

E são estes os livros no "Top 3" de uma grande superfície de um centro comercial da capital. A mim mete-me medo, arrepia-me, põe-me as pernas bambas. Mas pelos vistos estes livros enchem as medidas a muita gente, já que só isso explica o facto de serem os mais vendidos.


Nota: Um livro cheio de sexo sado-maso ao lado do do menino que foi ao céu e um outro cautelosamente isolado num saco de tule rosa porque não quer misturas nem com o libidinoso nem com o religioso. Eu cá também não quero misturas com nenhum deles, tule incluído.

Os livros e as modas

Isto dos livros é de modas, já toda a gente percebeu. É por isso que tremo só de imaginar a moda que pode estar para vir. Vejamos: mais ou menos pelos idos de mil novecentos e noventa e nove, começámos a conhecer em Portugal os livros da série Harry Potter. Espantaram e fizeram sucesso pela muita imaginação da história e pela qualidade da escrita. É inegável que a J. K. Rowling sabe realmente escrever, por isso os sete livros da série foram devorados por miúdos e graúdos ou, como no meu caso, por quem começou a ler o primeiro volume ainda com treze ou catorze anos e acabou de ler o sétimo aí pelos vinte e dois, quando ele finalmente saiu.

Entretanto, e um bocadinho a reboque do sucesso de J. K Rowling, começaram a aparecer imensos livros que incluiam magia e feiticeiros e miúdos com talento para poções e palavras mágicas. Aos poucos aquilo que era delicioso na série Harry Potter tornou-se numa náusea causada pela repetição. Também nesses anos e depois do sucesso de vendas que foi O Código Da Vinci, começa a aparecer (e esses continuam, embora em menor quantidade) aquela enxurrada de romances sobre códigos e coisas escondidas e mistérios. Jesus Cristo não tinha parança nessa altura. Ou era porque num livro se matavam três ou quatro pessoas para se apanhar um pedaço da vera cruz, ou porque lhe arranjavam uma esposa e prole, ou porque um códice antigo revelava que Jesus tivera más notas a Matemática no quinto ano... Uma festa.

Uns tempos depois começa (e creio que, também, a reboque do Harry Potter) a saga dos vampiros. De repente todos os livros tinham capas pretas e gente de trombas com caninos sobredesenvolvidos. Um susto! A saga Twilight destacou-se das outras e chegou ao cinema, trazendo para as luzes da ribalta dois ou três actores com uma manifesta falta de expressões faciais, parece-me... O certo é que durante uns tempos tudo metia vampiros. Estes apaixonavam-se por gente normal e era uma chatice porque ninguém quer que a filha case com um gajo que chucha sangue aos outros e que tem horror a cabeças de alho. E segundo julgo saber, na saga Twilight o problema para os pais da protagonista era ainda maior já que ela atraira não só um vampiro, mas também um lobisomem. Ainda eu me queixo de ter tido maus pretendentes. Bolas...

Aos poucos isto dos vampiros apaixonados vai perdendo o fôlego. E eis que agora, pelo meio de uma plantação de livros lindos e cheios de amor cautelosamente isolados em saquinhos de tule de cores catitas, surge um de capa cinzentona que parece estar a vender muito: As Cinquenta Sombras de Grey. A história, pelo que li sobre a trilogia, resume-se a sexo. Uma mocinha virgem vai entrevistar um tipo muito sabido e bem na vida. Passados uns dias voltam a encontrar-se e ele já está com ela fisgada. Mas, se de um lado temos a pobre virgem Anastacia, de outro temos um fã de bondage, disciplina, sadismo e masoquismo. E deste improvável "casamento" saem três grossos volumes cheios de descrições que, seguindo a máxima de que o sexo vende, ajudam a despachar os livros. Eu, minha gente, não os li nem tenciono ler, assim como também não li os dos vampiros e também não embarquei na onda dos códigos e do esmiuçar da vida de Cristo. Apenas li a série Harry Potter e gostei. Esperei ansiosamente o lançamento de cada um dos volumes e devorei-os (esses e o Quixote foram dos poucos para os quais fiz maratonas de leitura: normalmente sou mais lentinha a ler). Lembro-me que li também O Código Da Vinci, mas que fiquei por aí. Contudo, quanto a estes que agora estão em lugar de destaque em todas as livrarias, não me parece que venha a olhar para eles. Em primeiro lugar porque o enredo não parece capaz de me convencer a perder tempo de vida a ler o livro; em segundo lugar porque das críticas que já li, nenhuma apresentava nada de positivo sobre a obra; em terceiro porque em quase todas elas se falava no facto de ser um texto mal escrito. E, se ainda fosse necessário um quarto lugar, então teria de dizer que três grossos volumes a descreverem sexo, sexo e mais sexo não batem o volume único do Opus Pistorum, de Henry Miller. E ficamos assim.

Porém, minha gente, gosto sempre de ser democrática e deixo-vos, por isso, um bombom. Para todos os que queiram conhecer um cheirinho desse texto e verificar o modo como está escrito, sugiro que assistam ao vídeo que abaixo vos deixo. O fantoche Marcelinho, pelos vistos já muito versado em literatura erótica, lê-vos um trecho. Aguentem o riso se conseguirem.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Clássicos para todos

Se há bandeira que agito nesta vida é a da promoção da leitura dos clássicos da literatura universal. Comecei com a tese de mestrado e acho que continuarei pela vida fora, assim vá tendo oportunidade para tal. Não consigo conceber o que seja uma vida sem ler os livros que fizeram a nossa identidade e que são, de entre o que já se escreveu, considerados os melhores. Sei bem que o que por aí não falta são pessoas que saltam essas obras, a meu ver incontornáveis, porque têm sobre elas demasiados preconceitos. Julgam-nas extensas, aborrecidas, ultrapassadas e não se dão sequer ao trabalho de as espreitar para verificarem se estão certos nas suas opiniões ou não. Também as escolas falham muito nesse campo. Segundo Ítalo Calvino, as escolas deviam apresentar os clássicos aos jovens. Só depois de estes tomarem contacto com os textos dos maiores durante o seu percurso escolar poderão, com conhecimento, decidir se pretendem continuar a lê-los ou não. E com isto pretendia Ítalo Calvino mostrar que só se pode rejeitar o que se conhece, coisa que poucos fazem, diga-se.

Ora, também é bem sabido de todos que os miúdos esquivam-se cada vez mais da leitura e mais ainda dos textos considerados clássicos. Por isso e em desespero, muitas estratégias aparecem (eu própria inventei a minha quando trabalhei na tese de mestrado), umas melhores do que outras, mas quase todas com pouca visibilidade e sabe-se lá com que resultados. A adaptação dos clássicos escritos inicialmente para um público mais crescido, mas nos quais se verifica potencial para que venham a ser lidos por crianças e jovens tem sido um dos caminhos trilhados. No Brasil as adaptações têm já uma história longa. Quem nunca ouviu falar de O Quixote das Crianças, uma adaptação do texto de Cervantes pelo brilhante autor de O Sítio do Picapau Amarelo, Monteiro Lobato? Há já neste momento um mundo de trabalhos sobre as adaptações dos clássicos da literatura universal, no sentido de poderem ser apreciados pelos mais novos. Se as adaptações valem a pena ou não, é coisa sobre a qual não reflectirei agora, até porque julgo ser tema espinhoso. O que me interessa mesmo é dar-vos conta de um projecto que desconhecia e que me parece interessante.

Hoje em dia, nisto da promoção da leitura, vale tudo. Os miúdos não lêem, os pais não sabem o que lhes devem fazer, os professores vêem-se e desejam-se para lhes ensinarem o que os programas prevêem, quanto mais para os porem a ler algo que preste... Por isso a leitura vai ficando muito pelas ruas da amargura e a dos clássicos pior ainda. Todos os meus alunos conheciam, no ano passado, os Diários de um Banana, mas muito poucos conheciam o Quixote. Isto leva-me a crer que se calhar não temos assim tanta promoção dos clássicos quanto eu gostaria. Estes livros, que valem pela sua incomensurável qualidade literária, precisam de empurrõezinhos maiores para que possam chegar aos miúdos e para que os miúdos também consigam chegar a eles (que nisto da leitura dos clássicos, a contribuição tem de vir de ambas as partes: livro/edição e leitor).

E assim, desta necessidade de levar os melhores textos a um público que precisa de ficar a conhecê-los, nasce um projecto de que só hoje tomei conhecimento. É, no fundo, o casamento entre o antigo e o novo. A empresa Media Minds, pela mão de Helena Díez-Fuentes, tem vindo a criar aplicações com adaptações de clássicos da literatura universal, lançando assim a série «Touch of Classic». Incluindo sons, ilustrações, diálogos, passatempos, entre outros aspectos, estas adaptações levam histórias de outros tempos (embora intemporais) a crianças e jovens que hoje lidam melhor com os ecrãs do que com o velhinho papel. Assim, num ipad (tecnologia que os miúdos dominam melhor com apenas um dia de convivência do que eu com um mês de treino), os mais jovens poderão conhecer, por exemplo, as aventuras de D. Quixote, ouvindo a narração da história, brincando com a sua imagem, abrindo portas fechadas que fazem parte das ilustrações incluídas na aplicação ou fazendo as muitas outras actividades que lhes vão sendo propostas ao longo da leitura.

Se isto é ler? Bom... Haveria muito para dizer sobre isso. Se este modo de travar conhecimento com um clássico é equiparável à leitura do original ou mesmo de uma adaptação em papel, também é assunto que merece discussão noutro momento. Aqui o que quero mesmo é deixar-vos este exemplo de esforço feito em prol dos clássicos e de junção entre aquilo que o tempo imortalizou e as tecnologias muito recentes. A mim parece-me uma ideia interessante e, por isso, deixo-vos o vídeo que serve de amostra para o potencial deste projecto. Se eu, a fervorosa adepta do papel que leu as novecentas páginas do Quixote em sete dias de uma semana quente de Verão, fiquei com vontade de arranjar um ipad só para ter esta aplicação, então tudo é possível...