sábado, 29 de abril de 2017

Abram alas que eles querem passar!

Mais estes para as estantes (sabe Deus onde os vou enfiar...):

(Infelizmente, ficou a faltar-me o volume III, que terei de procurar para completar a colecção. A menina quer o terceiro volume! Já agora: não me apeteceu fotografar os meus livros, por isso esta imagem saiu daqui.)







(E estas capas saíram, como se vê, da página da Wook.)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Sugestões (horríveis) para o Dia da Mãe

Fico doente quando vejo as sugestões de presentes para o Dia da Mãe, principalmente no que se refere a livrarias. Fico enjoada, muito, muito enjoada. 

Já o conceito de «Literatura no Feminino», usado por algumas livrarias, deixa-me a pontos de arrancar cabelos! O que raio são livros para mulheres? E por que motivo livros com histórias de amor delico-doces (Sparks, Modignani, Steel e quejandos) são o que ocorre aconselhar às mães? Será que as têm por tão apoucadas que a leitura que se lhes associa é essa? Já para não falar quando no fundo da lista aparecem livros de culinária e semelhantes lavores...

Não sei que raio de ideia se faz das «mães» portuguesas, mas se calhar carimbá-las com a marca de dona de casa desesperada que lê sobre amores porque é uma romântica incorrigível é para lá de estúpida. A minha mãe, uma das mais vorazes leitoras que conheço, lê policiais (e consegue perceber quase desde o início quem é o assassino), lê clássicos (ingleses, russos, alemães, franceses... não é esquisita), lê romances históricos, lê biografias, lê livros de história. Mas a minha mãe, tal como eu, não lê Sparks, não lê Steel, nem Modignani e achou o bestseller A Rapariga no Comboio uma porcaria (eu li os primeiros três capítulos e concordei com ela: fraquinho, fraquinho). Por isso, as sugestões medíocres que tendem a fazer-se para oferecermos às nossas mães envergonham-me. Não porque a minha mãe seja um espécime estranho que deve ser estudado, pois haverá por aí muitas mulheres com um cérebro composto por dois hemisférios inteiros que lêem mais do que os romances cor-de-rosa de história formatada para ser sempre igual. Todavia, invariavelmente, ano após ano lá vêem as brilhantes sugestões para o Dia da Mãe. Para sugerir-se o que se sugere, mais vaia estar-se calado. 

Eu já nem aprecio muito isto do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia dos Avós, mas sobre isso falarei noutra altura. Agora, que estes dias sirvam para recordar-nos que ainda existem maneiras muito estereotipadas para olhar mulheres e homens parece-me bastante idiota. Acho que a esta altura, já estas distinções ridículas, estas maneiras de carimbar eternamente as mulheres (e os homens porque quando chega o Dia do Pai a coisa não é muito melhor) não deveriam existir, mas pelos vistos «mudam-se os tempos», contudo não se mudam as vontades.

Mais quatro





Sou pessoa para lamentar a proximidade de uma loja que, entre outras coisas, vende livros em segunda mão a preços fofos. O que faço à minha vida, senhores? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

E eis que chega outro...


Comecei a fazer um curso livre sobre imagens da Europa na literatura do século XX. Começamos com Zweig e acabamos com Mário de Carvalho e com este romance. Pelo meio passamos por Calvino e por Le Clézio. O tema do curso é muito interessante e o cérebro já precisava destes miminhos porque uma das coisas que mais me entristecia enquanto professora de horário (mais que) completo era a impossibilidade de fazer fosse o que fosse porque se numa semana talvez pudesse ir, bastava haver uma crise qualquer para marcar-se uma reunião e todos os planos irem ao ar. Como o tempo livre agora permite estas coisas, além de poder ler, também posso ir ouvir falar quem sabe e passar eu ao lugar de aluna.

Penso que de Mário Cláudio só li o conto «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho» e o livro Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. Será a primeira vez que lerei um romance seu. E eis que assim se alargam horizontes literários...

domingo, 23 de abril de 2017

Manual de sobrevivência para quem vive com gatos

Depois destes anos a conviver com dois gatos absolutamente loucos, resolvi partilhar com o mundo um breve, porém estupidamente útil, manual de sobrevivência para humanos que convivem com estes felinos. No fundo, são algumas regras que devem ser seguidas de modo a que não passemos a vida mordidos, arranhados ou, quem sabe, assassinados por gatinhos numa das esquinas da nossa casa. Se tem gatos, esta quixotada é para si. Aproveite-a que é de graça e inclua-a na sua vida: ela pode prolongá-la. Muito.

Ora bem, vamos então às regras que, se devidamente observadas, tornarão a convivência entre humano e gato numa coisa mais ou menos pacífica (dependemos sempre do humor deles). Grafarei doravante o nome do animal em causa com letra maiúscula, pois refiro-me aos gatos em geral e também porque tenho um medo tremendo de lhes faltar ao respeito e acabar chacinada.

1.ª Regra - Ter sempre plena consciência de que quem manda é o Gato. Nós limitamo-nos a viver em casa dele e a desempenhar o papel de escravos das divindades felinas.

2.ª Regra - Quando o Gato quer, o Gato tem. Seja comida, festinhas ou brincadeira: não há cá «Agora não posso, Tareco.». O não cumprimento desta regra pode causar dores excruciantes.

3.ª Regra - Mudar os lençóis da cama com o Gato no quarto pode ser giro, mas também extremamente perigoso. Para evitar males maiores, utilize umas luvas próprias para a falcoaria ou um fato de apicultor. Nunca, repito, NUNCA opte por deixar sua majestade fora do quarto ou ao abrir a porta pode ter uma surpresa.

4.ª Regra - Evite vestir ou transportar coisas que tenham penduricalhos, sob pena de ganhar um penduricalho novo que tem dentes aguçados e unhas capazes de tornarem as dores de parto em algo para rir. Cerifique-se de que não «deixa pontas soltas». Se não o fizer, não se queixe, pois o Gato terá o direito de exercer o seu poder (que é imenso).

5.ª Regra - Não tente mexer em atum sem utilizar a frase «Eu já dou!», seguida do efectivo acto de dar um prato bem composto com esse peixe delicioso. A observância desta regra pode evitar um ataque do Gato e já sabe que ele ganha sempre. A propósito: o ataque por privação de atum é o pior.

6.ª Regra - Abanar o pratinho da ração não é dar ração. Nunca pense que pode enganar o Gato. Ele tudo sabe e tudo vê. Quando menos esperar, tê-lo-á a roer-lhe os pés ou a afiar as unhas na sua perna esquerda.

7.ª Regra - Aprenda o mais rapidamente possível que o seu conceito de «prato com comida» não é o mesmo que o do Gato e ele é que sabe. Se tem um buraco no meio e muita comida à volta, encare isso como sendo um prato vazio que tem obrigatoriamente de ser enchido. Recorde a regra anterior: abanar o recipiente não chega. O Gato é um ser superior e ele sabe como dar cabo de si sem deixar vestígios.

8.ª Regra - Se vir o Gato de barriga para cima, não ceda à tentação de meter a mão naquele pêlo fofinho. Provavelmente, tratar-se-á de uma armadinha urdida pelo Gato: mostrar a sua zona mais fofa com todo o descaramento, sabendo que o dono não resistirá a fazer umas festas. O que se seguirá envolve lágrimas e gritos de dor, já que o Gato enrolar-se-á sobre si próprio, tornando a sua mão refém das suas múltiplas unhas e dentes.

9.ª Regra - Aprenda a manipular o Gato. Atenção que «manipular» tem aqui o sentido de mexer. Recorde a regra anterior e lembre-se que embora o todo seja perfeito, há partes do Gato em que não se deve tocar, pois não é suficientemente bom para o deus felino e porque pode gerar a ira dele. Acredite: preferirá cuspir bolas de pêlo em vez de sentir a ira do Gato.

10.ª Regra - Se o Gato tiver de tomar comprimidos, converta-se a uma religião, se não tiver, e comece por rezar. Talvez até por fazer uma promessa à divindade da sua devoção. Dar um comprimido ao Gato pode ser tão perigoso como colocar a mão numa hélice em funcionamento. Assim, recorrer à Fé pode ser mesmo a sua única solução.

11.ª Regra - Cortar as unhas ao Gato, dar-lhe banho e penteá-lo podem ser as últimas tarefas que fará na vida. Certifique-se de que tem um testamento válido antes de realizar qualquer uma destas actividades. Se o Gato lhe permitir alguma delas sem luta, verifique com atenção se se trata mesmo de um gato. Pode ser um gerbo e nunca ter notado.

12.ª Regra - Saiba que o Gato é um ser superior. Se ele se deitar sobre a roupa escura que vai vestir nesse dia e que deixou disponível em cima da cama enquanto foi tomar banho, aguente e não chore. Pense que assim todos saberão que tem um deus peludo em casa e admirá-lo-ão pela bravura com que enfrenta o desconhecido (e o terror) diário. Um rolo autocolante pode, em todo o caso, auxiliar bastante. Evite apenas que o Gato veja que se descarta assim do pêlo que ele, tão atenciosamente, quis colocar na sua roupa com o fim único de melhorá-la.

13.ª Regra - Se o Gato dormir consigo, adopte uma postura passiva e nada territorial relativamente ao espaço ocupado por cada um. Embora o Gato consiga ficar muito compacto ao enrolar-se de modo a reservar todo o calor, se lhe for possível ocupar 3/4 da cama e deixá-lo destapado, ele fá-lo-á só porque pode. Aguente resignadamente, pois o Gato é o dono de tudo o que possui, mesmo que lhe tenha sido oferecido pela sua mãe. A cama é dele, o colchão é dele, o cobertor é dele, você é dele. O caminho da resignação é o menos doloroso. O outro envolve arranhões e dentadas, por isso dói mais.

14.ª Regra - O Gato, ao contrário do cão, desconhece o advérbio de negação. Aliás, o Gato, quando ouve a palavra «Não!», padece de surdez temporária. Por isso, nem se esforce: deixe-o partir tudo. Uma decoração minimalista está sempre na moda e o Gato é que sabe. Alguma vez viu um gato fora de moda? Ora aí está.

15.ª Regra - Se vir o Gato em posição de ataque, barrique-se e ligue para um dos seus contactos de emergência: pode estar em perigo de vida. Se ele estiver em posição de ataque e o rabinho abanar de um lado para o outro, saiba que será imediatamente atacado sem qualquer misericórdia. Nesse momento, já não estando a tempo de fugir, limite-se a encomendar a sua alma ao criador, pois o Gato fá-lo-á em fanicos.

16.ª Regra - Se gosta de uma cama limpinha, de um chão imaculado, de um sofá sem cocós, limpe cuidadosa e diariamente a caixa de areia do Gato. Se não o fizer, estará implicitamente a conferir-lhe o direito de se aliviar na sua camisola favorita, na sua almofada, nos seus ténis ou na sua cara se o apanhar a dormir. Se não limpar a caixa de areia, evite dormir de boca aberta.

17.ª Regra - Não assuste o Gato. Além das pontas aguçadas, existem outras armas letais escondidas no Gato. Saiba que na parte traseira da entidade felina existem umas glândulas que expelem um pivete nauseabundo quando, por exemplo, o Gato é vítima de um susto. Se não quer ir trabalhar fedendo a bacalhau podre (o cheiro não sai facilmente), evite os sustos. Lembre-se de que ninguém acreditará quando disser «A culpa é do Gato.», pois todos sabem que ele é um ser superior e muito asseado.

18.ª Regra - Se não queria o sofá arranhado, não comprasse um. É do conhecimento geral que os sofás são arqui-inimigos do Gato e séculos de História têm mostrado batalhas infindas em que o Gato domina o sofá com o poder das suas unhas. Se o seu Gato descobriu o sofá, em vez de o trancar fora da sala, agradeça aos céus ele não ter descoberto as suas costas.

19.ª Regra - Certifique-se sempre de que o seu relógio não está a fazer reflexos na parede. Caso isso aconteça, tire o relógio ou ampute já a mão. Mais tarde ou mais cedo o Gato arrancar-lha-á.

20.ª Regra - Respeite o espaço do Gato. Se ele está a dormir, deixe-o dormir. Se ele está na caixa de areia, deixe-o estar. Faça-lhe festas quando ele pedir e apenas nos sítios certos. Brinque com ele e proporcione-lhe exercício que o deixe cansado, mas não prestes a cair para o lado. Dê-lhe água fresca todos os dias e comida, porque caso não tenha notado, ele não tem mãos para ir servir-se sozinho. E já que você mora em casa dele, então que sirva para alguma coisa e que trate daquela divindade peluda.

Cumpra escrupulosamente estas regras e ambos viverão em paz. Ou talvez não porque com o Gato nunca se sabe.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Prendas de casamento

Estive num autocarro onde duas senhoras com idades a rondar os sessenta anos conversavam sobre como a vida estava difícil. Uma delas, pelo que percebi, tinha inclusivamente o marido desempregado e queixava-se de que este mês estava a ser muito difícil porque apareceram despesas extraordinárias que a obrigaram a mexer nas poupanças que fizeram quando o marido ainda trabalhava. 

Ora, ambas as senhoras afirmaram que, ainda por cima, teriam dois casamentos este mês e que, embora não fossem gastar em roupa porque tinham de outros casamentos, precisariam de dar a prenda (dinheiro) aos noivos. A senhora que parecia passar mais dificuldades começou a dizer que não sabia quanto havia de dar, mas que menos de setenta ou oitenta euros por pessoa não podia ser, já que os noivos deveriam pagar em torno disso por cada convidado e se dessem menos, imagine-se o despautério, acabariam os noivos por estarem a pagar para os convidados irem ao casamento! Isto, para a senhora, não podia ser de modo algum e, portanto, chegou à conclusão de que menos de duzentos e cinquenta euros não poderia dar (por ela, pelo marido e pela filha, já emancipada e a viver com o namorado...). Terminou esta conversa dizendo que duzentos e cinquenta euros é muito dinheiro e que nesta altura da vida lhe fazem muita falta. 

O que eu vou dizer pode ir contra o que muitos pensam sobre presentes de casamento, mas é a minha opinião desde sempre e, por isso, a que tenho  aplicado ao longo do tempo (independentemente do que pensem de mim). Quando me convidam para um casamento, deduzo que seja por quererem ver-me lá. Muitas vezes vamos a festas a que nem apetece muito ir, porém vamos porque gostamos das pessoas que nos convidam. Ora, todos temos certamente outras coisas em que preferiríamos gastar o dinheiro: belas almoçaradas, viagens, roupas de que gostamos... Ou podemos, simplesmente, querer poupar o nosso dinheiro. 

Se um casal nos convida para um casamento e tem por intuito que cada um pague o seu lugar, isso pode levar a que acabemos a pagar umas centenas de euros, pois nós só pagamos, não vamos com os noivos aos restaurantes e quintas para escolher o que é mais barato. Portanto, é o sistema "eu-gosto-de-ti-e-quero-que-vás-ao-meu-casamento-mas-paga-o-que-o-restaurante-pede-e-não-bufes". Não concordo com isto e, portanto, não dou mais do que aquilo que quero e posso dar no momento, sendo que nunca chega sequer perto da centena de euros. Às vezes nem a metade. 

A meu ver e como disse, se me convidam é porque me querem ver lá e não é à espera de que lhes pague a festa e muito menos os devaneios que possam levá-los a optar por almoços de cem euros por pessoa. Porque se assim for, então prefiro pegar no dinheiro, no grupo das pessoas que me são mais próximas, e ir almoçar ou jantar onde mais quisermos. Não concordo que os convidados tenham implicitamente de pagar o que consomem. São convidados e os valores não são lá muito razoáveis. Principalmente quando se trata de uma família de três ou quatro pessoas. Os ordenados não são assim tão altos para que tenhamos vontade de entregar metade (ou mais) do salário de um mês aos noivos que nos convidaram para o seu casamento. Por isso, não dou mesmo aquilo que outros costumam oferecer, fazendo tantas vezes sacrifícios inaceitáveis. Prefiro nem ir do que fazer isso. Há muitos projectos que fazemos para o nosso dinheiro e por vezes até os vamos adiando, adiando porque não queremos gastá-lo. Ora, parece-me
injusto que não façamos aquilo que gostaríamos de fazer para depois pagar o nosso lugar quando fomos convidados para estar lá. 

Podem até dizer-me "Ah e tal, mas nas festas de aniversário acontece o mesmo."  Pois, mas geralmente um jantar de aniversário não chega nem ultrapassa os oitenta euros por pessoa, como a maior parte dos casamentos. Se der na cabeça dos noivos de fazerem a festa num local que peça duzentos euros por pessoa (baseando-se na ideia de que os convidados pagam) tenho de pagar e calar? Não. Prefiro pegar nos duzentos euros e fazer outra coisa com eles, então. Algo comigo ou com os que me são mais próximos. 

Bem sei que a minha opinião vai contra o que é costume, mas não me importa. O dinheiro custa a ganhar e pagar as festas de outros não me parece forma de gastá-lo. Dar alguma coisa, tudo bem. Pagar integralmente o que consumo numa festa para a qual fui convidada e sobre a qual não tive voto na matéria é coisa com a qual não concordo. E muita gente também não aprecia por aí além este sistema, mas não vai contra ele porque parece mal dar menos do que aquilo que os noivos vão pagar. Não me levem a mal, mas se não há dinheiro para casar, não casem. Não acho bem é que o façam a contar que os convidados paguem a boda. Então as pessoas andam a evitar tantas despesas para depois acabarem a entregar centenas de euros para pagar um almoço em que nem a ementa puderam escolher? Parece-me que essa forma de pensar implica contar com o ovo naquela parte da galinha. Tantas vezes que já me perguntaram quando casaria e me disseram que o que os convidados dão paga o casamento e ainda sobra dinheiro! Como não concordo com isso, não caso, a menos que tenha dinheiro para pagar tudo e que os convidados não se sintam obrigados a pagar o que consomem. 

Portanto, não há casamento no horizonte. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Destruidores implacáveis

À tarde passei na loja da clínica veterinária onde levo os meus miaus para comprar o desparasitante, pois amanhã é dia de correr esta gente a pipetas (e em Julho é a nossa vez, coisa que TODA A GENTE DEVIA FAZER, já que não são só os animais que precisam de desparasitar-se). Ora, a veterinária, sabendo que a minha gatica tinha feito dois anitos, resolveu dar-lhe um presente e ofereceu-lhe um brinquedo daqueles que consiste numa cana com um boneco e um guizo na ponta. Trouxe o brinquedo para casa, desembalei-o e... Cinco minutos depois estava assim:


Cana e fio para um lado, rato para o outro, guizo completamente solto. Quando eu digo que estes tipos peludos são dois bulldozers destruidores, as pessoas riem-se. É que quem olha para eles vê poços  de fofura sem fim. Pois, mas também são duas bestas. Nada lhes sobrevive. Admira-me ainda ter paredes, portas e tecto! São dois gatos que me parecem doze e cada vez mais acho que um dia me darão uma sova de chinelo. Dali já espero tudo.

Bom, agradecemos muito à veterinária. Amanhã pego em agulha e linha e tento solucionar esta morte prematura de um peixinho recheado de catnip.

Outra questão muito séria

E uma pessoa ir à mercearia, comprar uma viçosa alface toda verdinha e mesmo a pedir para transformar-se em saladas, ir utilizá-la no dia seguinte e perceber que tem mais piolhos do que seria desejável? É ou não um problema bastante sério no mundo?! Para mim é, pois estive ali mais tempo do que aquele que esperava perder a lavar meia dúzia de folhas com maior densidade populacional do que a Amadora. Desalojei uma vasta família de piolhos e temo uma revolta dos que ainda sobraram no resto da alface. 

Amigos, se alguém me fizer mal, sabem onde procurar os culpados: no meu frigorífico. Temo o pior. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Um novo nível de estupidez

Esta quixotada podia transformar-se em três ou quatro diferentes, nas quais destilaria sobre cada um dos elementos que aqui vou enfiar no mesmo saco: o merecidíssimo saco da estupidez. É um presidente americano que deseja tanto criar uma guerra que até está a ver se a inicia em três frentes distintas (depois estou para ver como se desenrasca. Faz-me lembrar a Espanha dos Reis Católicos, com tantas frentes de guerra em aberto que depois nem sabiam como manter-se, como manter as guerras, e como manter o seu povo sem uma revolta); são claques de futebol que demonstram que o desporto não é o que os move, mas sim a vontade de ferir a claque rival numa falta de respeito e de humanidade que transtorna até o mais pacífico dos seres; são os idiotas dos pais que se recusam a vacinar os filhos porque meteram na cabeça que as vacinas são prejudiciais e blá blá blá e depois põem os filhos deles e os dos outros em risco; é o doido americano que mata um homem e publica o vídeo no Facebook (entretanto retirado pela empresa, mas visualizado por muitos antes disso) e que aproveita para dizer que afinal já matou mais treze pessoas e que o fez por sentir-se frustrado; é um responsável pela Casa Branca que se esquece de uma das mais conhecidas técnicas de homicídio em massa durante o holocausto e que tenta fazer o Hitler parecer um santo ao lado da outra besta da Síria; são pais que acham que o facto de um hotel não ter cumprido com os serviços contratados desculpabiliza os actos de vandalismo supostamente realizados pelos filhos e o seu grupo... Parece uma competição de estupidez!

Juro-vos: ligar a televisão e ver notícias, ler jornais, percorrer o mural do Facebook, enfim, viver num mundo onde a informação quase arromba a porta para nos entrar em casa está a tornar-se doloroso. A vontade que tenho é de desligar tudo e viver só a ler ficção porque é, certamente, menos assustadora do que a realidade. Eu, desde que faço uso dos meus dois neurónios, sempre disse que vivíamos na pior das épocas, na mais desinteressante (sim, para mim o ritmo da vida de hoje e todas as possibilidades que temos acabam por desgastar-nos e tornar-nos apáticos para coisas que exigiriam muito mais do que apatia), na mais perigosa de todas. Nem imaginava que as coisas ainda piorariam ao ponto de estarmos no século XXI a cair nos mesmos erros (mas com dimensões provavelmente maiores) em que já nos espalhámos no passado. E tudo porque somos terrivelmente, vergonhosamente, monstruosamente estúpidos. Estúpidos e esquecidos. Estúpidos, mas com a mania de que sabemos (os pais que se recusam a vacinar os filhos fazem-no porque supostamente sabem que as vacinas lhes farão mal... e agora assistimos ao regresso da filha da mãe de uma doença que ainda há um ou dois anos se considerava erradicada, até se considerou retirar a vacina do plano nacional de vacinação!). Estúpidos, estúpidos, estúpidos! É impossível não pensar isso quando vemos e ouvimos aquilo que tem sido notícia nos últimos tempos. Como é que aquele tipo nos Estados Unidos, desejoso de ter o seu nome nos anais da História Militar norte-americana, desata a bombardear à esquerda e à direita, a provocar até ao limite um país que ele sabe bem que tem poder (e loucura suficiente) para carregar num botãozinho e varrer uma vasta região da face da terra??? Como é que claques rivais não percebem que há coisas que não se dizem nem ao rival? Como é que gozam com mortes, com o sofrimento dos outros? Eu, benfiquista, tive vergonha de ouvir a porcaria de cântico sobre a morte de um adepto sportinguista com um very light em 1996. E não me venham dizer que eles também gozaram com a morte de um benfiquista num acidente há muitos anos. Ninguém tem desculpa! Há limites no que se diz e torcer por uma equipa não é isto. É absolutamente nojento e vergonhoso. É baixo, é reles, é cruel, é desumano. 

Mas desumanidade é mesmo o que mais abunda. Infelizmente, até aquilo que nos torna diferentes dos animais - a razão - vai desaparecendo ao ponto de lamentarmos não sermos, pelo menos, inocentes como eles, que não ameaçam com forças nucleares, que não decidem contribuir para a propagação de doenças para as quais a ciência têm há muito solução, que não partem hotéis porque o bar fechou mais cedo, que não se esquecem das câmaras de gás nazis, que não se filmam a matar alguém para depois porem o vídeo no Facebook... Desumanos e estúpidos: até aqui chegámos.

Os gatos e a iCloud

Definitivamente, o espaço disponível na iCloud devia ser maior para pessoas que têm gatos. É que é impossível não encher a memória dos telemóveis e do iPad com fotos dos peludos e das graçolas que fazem ao longo do dia. Parece que fazem de propósito para criarem momentos dignos de registo para memória futura. Então hoje a minha gatica está TÃO inspirada que até me faz confusão. Rainha do disparate, é o que é. Mas, enfim, as fotografias no meu telemóvel são tal e qual como no cartoon de Cat Versus Human que aqui vos deixo. Com a única (grande) diferença de que se passa o mesmo no telemóvel do moço...


domingo, 16 de abril de 2017

Boa Páscoa!

Ainda nem tive oportunidade de pintar as unhitas, mas o calor não dá trégua e chegou a altura de render os pés às sandálias. Estou a estrear as que o moço me deu e juro que chego a ter medo de partir uma perna se despencar daqui de cima. Uma pessoa ganhar assim uns dez centímetros de uma vez é actividade de grande risco, sobretudo para quem passou o inverno em botas rasteiras e ténis. Mas é Páscoa e o dia merece este perigo iminente. Boa Páscoa, queridos quixoteiros!


sábado, 15 de abril de 2017

A Menina Quer Isto LXXXVI

A menina acha que tem poucos livros para ler e então quer mais uns quantos. O do João Tordo é novo e ainda nem chegou às livrarias, mas encerra uma trilogia e como tenho os outros dois preciso mesmo de ter este à mão. Os restantes também são fofinhos, porém talvez esperem pela Feira do Livro, ainda que este ano tenha de ser mais comedida nos dinheiros gastos na feira. Bom, em todo o caso, a menina quer isto:




sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pára tudo!!!

PÁRA TUDO!!!

Parece que ontem este cantinho pequerrucho da blogosfera atingiu as cem mil visitas. Oh, coisinha mais fofa de sua autora! Aos poucos, aos poucos lá chegaste. Umas vezes quase parado (como no último mês), noutras acelerando perigosamente, lá conseguiste granjear uns fiéis visitantes e outros que aparecem quando se lembram, sendo todos sempre bem-vindos.

Há blogues que recebem este número (e até mais) de visitantes num só dia, mas eu sei bem a casinha que aqui tenho e sei que o que por aqui se passa não é o tipo de coisa que mobilize multidões. Nem quero, pois acredito que pelo meio do gozo que isso dá, também deve garantir muitas dores de cabeça e as visitas e comentários de gente que apenas sabe vir falar mal. Gosto deste cantinho como está e, acreditem, está como nasceu. Tem o mesmíssimo aspecto que tinha no dia em que foi criado em dois mil e onze. Nunca lhe alterei a imagem e não tenho planos para fazê-lo. O aspecto é importante, mas mais importantes são as palavras: as minhas e as vossas que vão deixando as vossas pegadas em forma de comentários que são sempre muito apreciados. Tenho demorado a publicá-los e a responder-lhes porque a inspiração tem sido pouca e mal tenho passado por cá, mas não deixo de agradecer-vos cada minuto dispendido numa visita a este blogue.

Por isso esta quixotada pretende agradecer todas as já mais de cem mil visitas recebidas. Quem sabe se chegaremos a duplicar este número? Não importa. Interessa, sim, que até aqui chegámos e que cada passo foi muito saboroso. Assim sendo, voltem sempre e obrigada pela confiança.


Para a pilha

Hoje o moço ofereceu-me umas sandálias liiiiiiindas e bastante perigosas: se caio de cima de tais andas, mato-me provavelmente. Mas são maravilhosas e já sobejamente namoradas. Devo ter, portanto, atingido agora os setecentos e oitenta e sete pares de sandálias (e depois passo o verão de sabrinas...).

E hoje, também, juntam-se à minha enorme pilha de livros por ler estes três fofinhos. O do Gabo vem, na realidade, numa edição mais antiga, mas não encontrei imagem da capa e não me apeteceu fotografá-la. A propósito deste fantástico autor, esta semana (penso que na quarta-feira, mas não tenho a certeza), a RTP2 transmitiu pelas onze horas da noite um documentário sobre ele e o seu realismo mágico. Ainda que já soubesse muito do que lá é dito sobre o autor (quem já leu a sua fabulosa autobiografia lembra-se da vida rica e atribulada de Gabriel García Márquez), aprendi mais algumas coisas sobre as suas vivências e algumas histórias picarescas que fizeram parte dos seus dias. Gabo é, para mim, um daqueles escritores tão magníficos que não parecem deste mundo. Por isso, cada livro seu que se soma à minha modesta biblioteca é mais uma possibilidade de boas leituras e uma garantia de horas bem passadas.




Nota: As primeiras duas capas foram retiradas da página da Wook.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

[A terrível falta da] Memória

No mesmo dia em que um representante da Casa Branca esqueceu que Hitler matou milhões de seres humanos em câmaras de gás e usou esse terrível termo de comparação para mostrar que Assad, na Síria, é um monstro, ficamos também a saber que na Líbia, por exemplo, migrantes estão a ser aprisionados e vendidos como escravos para trabalhos forçados ou para escravatura sexual. 

Nunca a frase batida que cedo nos davam para digerir na escola e que dizia que "não devemos esquecer as atrocidades cometidas ao longo da História para que jamais se repitam", nunca, repito, fez tanto sentido como agora. Gente que morre novamente com armas químicas (e gente que esquece que isso já sucedeu em grande escala no passado) e ainda gente que se aproveita da miséria dos outros para "reabrir" os mercados de escravos... Quem queremos enganar? Já está tudo esquecido e a História já se repete. O tempo, afinal, só curou algumas feridas. A memória continua sem uso. 

Chora, Camões, chora... VIII

Ora apreciem lá a publicação da Sic Notícias no Facebook e façam a caça ao erro. Mas levem muitas munições. 




terça-feira, 11 de abril de 2017

Ya ya quê?

O Mickael Carreira tem um novo single, intitulado "Yayaya" (não sei se tudo junto ou não). Estou sem palavras, mas não faz mal: ele também. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Destruidores implacáveis lusos

Já ando há tanto tempo sem escrever uma quixotada composta que vamos lá ver se ainda sou capaz de o fazer. Perdoem-me qualquer coisinha, está bem?

Ora, nos últimos dias tem-se falado muito da expulsão de uma pomposa quantidade de estudantes portugueses que estavam em viagem de finalistas (há tanto a dizer sobre isto) em Espanha. Segundo é dito pela comunicação social e pelo comunicado do hotel onde estavam alojados os fofinhos, eles saíram e deixaram um rasto de destruição no hotel, que inclui - imagine-se! - uma televisão dentro da banheira. Claro que depois de se saber disto, começou a sessão de esgrima: ora são os pais que contam outra versão, ora é o hotel que diz que nem o seguro da empresa que organizou a viagem chega para pagar os estragos, ora são os alunos que dizem que havia falta de higiene e que a alimentação era racionada (ainda há pouco vi um menino na televisão dizer que havia muita fruta, mas pouco variada... Atrevo-me a achar que estava toda nas sangrias.). E a esgrima vai além dos envolvidos: a opinião pública também se divide entre os que vão passando a mão pelo pêlo dos jovens e entre os que querem as suas cabeças servidas numa bandeja e que anseiam por ver os pais que os (des)educam lapidados em praça pública. Pelo caminho ainda ouvi, embora com perplexidade, alguém de uma associação de pais dizer que tem de se repensar o sistema educativo. Já cá faltava dizer que a culpa é da escola. De facto existem disciplinas que ensinam a pôr aparelhos eléctricos em banheiras: chamam-se Introdução ao Suicídio I ou Estupidez Aplicada.

E agora o que eu acho. Com isto tudo, dei por mim a fazer o mesmo que muitos outros: a pensar na minha própria adolescência. Era estúpida, mas estúpida todos os dias. Não tive viagem de finalistas no secundário. Aliás, continuo a achar as viagens de finalistas a coisa mais estúpida deste mundo. Então quando vejo viagens de finalistas para TODOS OS CICLOS DO ENSINO, BÁSICO E SECUNDÁRIO até me benzo (sim, meus caros, há escolas em que os alunos do 4.º, 6.º, 9.º e 12.º partem em viagens de finalistas... E se houver poucos inscritos, alarga-se a viagem a outros anos, dando-lhe outro nome qualquer porque o de «finalistas» já não serve). Mas mesmo sem viagem, era uma adolescente bastante idiota. Ainda assim, nunca me deu para destruir nada que não fosse meu. Como dizia uma amiga minha que considera ter sido também uma jovem profundamente idiota, havia um limite que não se pisava. As asneiras eram nossas e não deviam lixar nada que não fosse nosso. Contudo, como bem sabem, convivi com muitos adolescentes até ao final do ano lectivo passado e digo-vos que o desrespeito pelo que era de outros era uma constante. Partir, queimar, inutilizar objectos de colegas ou mesmo do estabelecimento de ensino era o prato do dia. Fosse caro ou barato, desde que dar cabo dele significasse diversão, destruia-se. Acreditem quando vos digo que houve uma fase (o que ajuda a explicar também o meu cansaço e descontentamento profissional) em que coisas dessas eram diárias. 

E o que acontecia, perguntam vocês. Nada. Não havia punições, ninguém se responsabilizava por nada, os acontecimentos abafavam-se o melhor possível. 

Ouvindo o que alguns pais dizem sobre o que supostamente aconteceu em Espanha com os nossos jovens finalistas, concluo que afinal o problema não estava apenas naquele colégio que eu tão bem conhecia. Está tristemente disseminado por aí. Aliás, qualquer dia podemos criar a modalidade olímpica de «passar a mão pelo pêlo dos meninos» e seremos medalha de ouro todos os anos. 

«Ah e tal, nós partimos porque estávamos descontentes com o hotel, mas não foi assim tão grave.», «Ah, eles são jovens e precisavam de divertir-se, mas o hotel não teve o bar aberto como contratado.» são frases criadas por mim, mas que se assemelham a muitas das que tenho ouvido. É a boa da cultura do «mas», muito enraizada também nos nossos meninos. Fazem porcaria, MAS há sempre uma razão para isso. Meus caros, a ser verdade aquilo dos azulejos e da televisão na banheira «não há mas, nem meio mas». Se estavam descontentes com o hotel, manifestavam-se junto dos responsáveis pela organização da viagem. Olhem se todos desatássemos a partir os quartos de hotel por onde já passámos e que não nos agradaram muito... Não haveria hotéis.

Gerir a frustração não é o forte destes miúdos que por agora vivem as suas adolescências. Mais uma vez, falo do que sei e não apenas do que me parece estar por trás desta viagem de finalistas. E não é só a frustração: tendem a perder noção dos limites durante a diversão. Mas também, voltando a este caso, o que esperar quando os pais pagam viagens que incluem bar aberto para miúdos do décimo segundo ano? Não tenho filhos, mas cheira-me que não teriam muita sorte nisto de gastar quase seiscentos euros para estarem uma semana a matarem neurónios. Tal como os meus pais não o fariam se a questão lhes tivesse sido colocada em dois mil e três, quando concluí o secundário. 

Enfim, a apurar-se que aqueles estragos foram realmente feitos pelos estudantes portugueses, acho bem que os pais sejam responsabilizados e que os meninos também sintam na pele que fizeram porcaria. Como disse Daniel Sampaio, os pais devem responsabilizar os meninos, embora o especialista duvide da autoridade que eles ainda tenham para isso. Eu também tenho algumas dúvidas porque já vi tantos, mas tantos pais encolherem-se diante da (fraca) argumentação dos filhos ou de um tom de voz mais elevado que sou pouco crente nesse caso. Agora, mesmo achando que há uma crescente desresponsabilização dos jovens, que cada vez se lhes desculpabilizam mais os disparates e até mais tarde (daqui a pouco é-se adolescente até aos trinta...), também acho que não foram todos os mil alunos que partiram e estragaram. Generalizar também não é bom. Há miúdos parvos que não têm qualquer travão, mas há muitos miúdos que têm noção das coisas e, felizmente, também têm pais que estão lá para ensinar, para educar e para castigar se preciso for. Podem não ser a maioria, mas existem e isso é bom. Por isso, dizer «tenho vergonha dos alunos portugueses», como já ouvi, parece-me um erro. Não concordo com as viagens de finalistas do básico e do secundário, como já afirmei, mas calculo que pelos pecadores tenham pago muitos justos. E que metidos no mesmo saco de gatos estão miúdos com juízo que até estavam apenas a divertir-se e que não destruíram nada a ninguém. Viram, contudo, esta viagem destruída. 

No fim de contas, gostaria que isto servisse para pensarmos todos na educação que por agora se dá aos jovens, mas também nas experiências que lhes proporcionamos e que são, tantas vezes, desapropriadas. Muitos pais não deixam os filhos sairem de casa sozinhos para irem ao café do fundo da rua, mas pagam e permitem estas viagens. Muitos miúdos são extremamente imaturos e irresponsáveis no final do décimo segundo ano e estas viagens com pouca supervisão e muito álcool não ajudam em nada. Quem convive diariamente com adolescentes como eu convivi sabe que os dezassete de hoje são os catorze de há uns dez anos e a tendência é para piorar. Há, como disse, honrosas excepções, mas para quê facilitar? Depois acontecem coisas destas e acabamos a ter tudo no mesmo saco, bons e maus, comportados e mal comportados. Há um desequilíbrio entre a hiperprotecção e a permissividade em que os pais oscilam, entre o que lhes ensinam e a desresponsabilização que demonstram ao tentarem desculpar tudo, mesmo o que não é desculpável. E para ilustrar isto, antes de ir, deixo-vos com uma situação que mostra os pontos absurdos de desculpabilização em que os pais caem na procura de proteger (acham eles) as suas crias, mostrando ser incapazes de ver que eles também têm defeitos e provando que não sabem o que fazer quando é preciso disciplinar. Há poucos anos um jovem do oitavo ano partiu uma câmera de vigilância. Após visualização das imagens, verificou-se perfeitamente quem a tinha arrancado do sítio (junto ao telhado) e partido. Quando a mãe foi chamada para se falar no sucedido e quando lhe foi dito que estava gravada a imagem do filho a tirar a câmera do sítio, a resposta foi um espantoso «Não foi ele.». Perante isto, como podemos esperar que os miúdos não partam tudo à sua passagem?

Mais depressa veremos unicórnios.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

Chora, Camões, chora... VI

É notícia de última hora a explosão numa fábrica de pirotécnia de Lamego. Por agora fala-se em três vítimas mortais, mas o número pode aumentar uma vez que há funcionários que não responderam a nenhuma das tentativas de contacto que já foram efectuadas. É grave, é de lamentar e sempre que isto acontece não evito pensar que para termos diversões como fogos de artifício, muitos acabam por perder a vida em acidentes como este. Por isso, o blogue As Minhas Quixotadas está com todos os familiares e amigos que vivem neste momento horas de dor e de incerteza. 

Jornais e canais de televisão vão fazendo chegar cada vez mais informação, embora alguns, como é o caso do Público, sejam dedicados ao paradoxo, matando quem já morreu. Ora leiam lá o seguinte parágrafo, retirado de uma notícia de última hora que apareceu no meu mural do Facebook. 



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Missão Soninho

No sábado tivemos uma festa cá em casa e a sua preparação foi tão trabalhosa que eu, pessoa pouco dada ao sono e que acorda geralmente bastante cedo, dormi dezoito horas e meia entre a meia-noite e as nove da noite de domingo. Basicamente só acordei para ajudar a dar cabo dos restos que nos povoam o frigorífico. 

Isto foi o mais perto da hibernação que já estive. Compreendi melhor os ursos e desenvolvi até um sentimento fofinho de solidariedade por aqueles peludos gigantes que se retiram do mundo para passarem o tempo a dormir. Eu fiz o mesmo este domingo e soube-me pela vida. Mais ainda se considerarmos que não sou muito dada ao sono; que raramente o sinto; que chego a acordar às cinco da manhã prontinha para começar o dia (o problema é que a meio da manhã acaba-se-me a pilha); que tenho um sono muito perturbado por sonhos e por pesadelos, lembrando-me sempre daquilo com que sonhei; que não "desligo" verdadeiramente durante o sono, chegando a dar por mim a pensar e a ter ideias enquanto durmo. Nunca fui dorminhoca, nem em pequenina. Sempre me levantei cedo sem dramas. Mas também sempre achei que perdíamos demasiado tempo a dormir e que esse tempo seria óptimo se fosse passado a fazer outras coisas. Mesmo pensando assim, dormia. Sonhando sempre, lembrando sempre na manhã seguinte aquilo com que sonhara, acordando cansada por nunca ter "desligado" verdadeiramente. Mas dormia. O problema maior surgiu talvez uns dois anos antes de despedir-me. A pressão era tanta, o volume de trabalho tão insano que a qualidade do meu sono veio por aí abaixo até me deixar à beira das lágrimas quase todos os dias. Eu deitava-me cedíssimo para aproveitar a noite, já que acordava pouco depois das seis, mas acordava de madrugada e não conseguia dormir mais porque inevitavelmente começava a pensar em trabalho e no que tinha para fazer, nos prazos para isto e para aquilo... Até que chegavam as seis da manhã e, se fosse preciso, a minha cabeça já estava a trabalhar havia quase duas horas. Pior: teria de continuar a trabalhar até ao final do dia e, se fosse dia de reuniões ou de eventos idiotas marcados em cima do joelho pela instituição, esse final do dia poderia ser às oito da noite. Imaginem isto durante dois anos, sensivelmente. Não mata, mas mói. E os fins de semana não serviam para recuperar porque havia sempre muito para fazer, inclusivamente coisas relacionadas com o trabalho. O sono foi ficando cada vez mais para trás. Cheguei a um ponto em que o via como um luxo a que achava que não tinha direito. Por isso, estes últimos meses também têm sido de aprendizagem nessa área. Continuo a achar que o tempo que passamos a dormir dava jeito para fazer tantas outras coisas... Mas claro que estes anos de inferno me ensinaram que sem dormir (e bem) nada se faz. Assim, dias como este em que a ocupação foi dormir, coisa rara na minha vida, são fundamentais. Tenho anos de sono em atraso. Preciso de recuperá-los. Hoje dei um avanço de quase dezanove horas a essa "Missão Soninho". Boa! 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Chora, Camões, chora... V

Parágrafo retirado de uma notícia de ontem de O Observador. Os destaques são da minha responsabilidade. Apreciai:

"O JN recorda ainda que, em 2012, Luísa Beirão afirmou publicamente que foi vítima de violência doméstica por parte do ex-marido, o ex-jogador Miguel Pedrosa. A ex-modelo chegou a apresentar queixa na Justiça contra o ex-jogador, com quem esteve casada durante 11 anos e com quem teve dois filhos."

quarta-feira, 29 de março de 2017

Brincadeirinha, afinal vai ser "Aeroporto __________" (complete, por favor)

Eu tenho de vir cá falar sobre a mudança de nome do aeroporto da Madeira para "Aeroporto Cristiano Ronaldo". Estou só à espera de que alguém venha dizer "estávamos a brincar, somos uns chalaceiros do pior, pá!" para ver se vale a pena ou não. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Chora, Camões, chora... IV

Numa paragem de autocarro junto à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, alguém pegou num marcador preto e escreveu um chorrilho de disparates. Em determinado ponto do discurso, e em jeito de finalização, escreveu:

ÓTÁRIOS

Hoje fiquei a olhar para aquilo. O mais certo seria interpretar a coisa como sendo um insulto aos portugueses, aliás já supostamente bastante maltratados nas linhas anteriores (se o que alguém escreve sobre os portugueses numa paragem de autocarro for capaz de ferir quem quer que seja...). Mas dada a burrice de quem escreveu tal disparate gramatical só posso acreditar que muito mais do que um insulto, é uma assinatura.

As newsletters

Neste infinito mundo que é a internet, as newsletters são uma realidade e todos convivemos com elas. Gostamos de qualquer coisa, aderimos à newsletter e, de tempos a tempos, vamos sabendo as últimas de uma determinada marca ou serviço. De um modo geral não chateiam muito e, de qualquer forma, podemos sempre desistir de recebê-las, ainda que por vezes não seja fácil descobrir como... O que incomoda é quando uma determinada empresa não se enxerga e começa a enviar newsletters TODOS os dias, por vezes mais de uma em vinte e quatro horas. Aqui sim, parece-me, existe um abuso da paciência e começa-se a fazer algo contraproducente, já que até o mais paciente dos consumidores tende a detestar a marca que tal coisa faz.

Acontece-me isso com uma empresa que vende brinquedos. Todos os dias chegam dois emails, de vez em quando só vem um, e acho que é muito raro o dia em que não vem nenhum. Inicialmente nem ligava, até via alguns dos emails, mas com o tempo fui dando conta da tendência e perguntava-me qual era a ideia. Se nem os hipermercados, com produtos alimentares que consumimos todos os dias, fazem um assédio tão grande, por que raio uma loja que vende produtos importantes, mas de compra esporádica, haveria de o fazer? Pois, não sei. Talvez a ideia seja a de vencer o consumidor pelo cansaço. No meu caso não tem resultado. Vencer-me não têm vencido, mas têm-me cansado ao ponto de andar à procura do modo de «desligar» a newsletter.

Entendo que a comunicação com o consumidor, num mercado tão cheio de oferta, é importantíssima. Mas comunicar é uma coisa e chatear é outra. E, convenhamos, a internet já tem que chegue para nos aborrecer para depois ainda virem estas notícias constantes encher-nos a caixa do correio. Não há carteira que chegue para tanta oferta. Mas pior: não há paciência que suporte tanto assédio.

quinta-feira, 23 de março de 2017

A gargalhada final

Diz o provérbio que quem ri por último ri melhor. Hoje, pela primeira vez, tive a oportunidade de sentir na pele tal dito popular. Ri, e ri com gosto perante alguém que me fez mal, que foi uma das responsáveis pela porcaria de vida profissional que tive nos últimos anos. Vi-a perder um processo provocado por ela e pela sua maldade e pude, felizmente, olhá-la de frente e rir à gargalhada diante da justiça feita e da desilusão dos que sempre acharam que podiam tudo contra todos. O processo não era meu, eu era uma das testemunhas, mas fiquei feliz como se fosse eu a vencer. Já não via aquela gente há muitos meses e nestes meses vivi uma situação nem sempre fácil do ponto de vista da adaptação à mudança, ao desconhecido e à enorme ansiedade desenvolvida ao longo de anos de trabalho num local que não me merecia. Voltar a ver aquela arrogância deu-me gozo. Apresentar-me perante gente que me fez mal com um enorme sorriso, com bom aspecto e feliz foi um presente que a vida me deu. A gargalhada final gostosa, nascida bem cá dentro e espalhada bem para fora, acompanhada pela de outras pessoas que viveram o mesmo inferno, pagou tudo e, para mim, encerra o caso. As contas nem ficaram bem feitas, mas olhem... Acabou. Siga a vida, venha a mim o que for para ser meu e mais nada. Hoje pude dar um final gostoso a isto. Sempre achei que teria coisas para dizer àquelas pessoas e afinal não tinha: só precisava de saber que estava bem, que estava ainda melhor do que eles e a gargalhada mostrou-mo. 

Hoje foi um excelente dia e a prova de que de vez em quando os bons também ganham. E com o riso final, bem diante de quem sempre fez questão de me deitar abaixo, encerrei de vez o assunto. Agora venha o resto da vida e que seja bem boa. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

A morte da gramática

"O suspeito e a vítima mortal são vistas a discutir."

Acabei de ouvir isto na SIC dito numa peça sobre o homicídio à porta da discoteca Luanda. Um capítulo inteiro da gramática portuguesa suicidou-se. Os restantes estão às portas da morte. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Copos e mulheres, diz ele

O Presidente do Eurogrupo disse que os países do sul da Europa não podem gastar o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda.

Bom, quanto aos copos confesso: nunca me dei ao trabalho de juntar os dezasseis selos do Continente para obter copos gratuitos. Quando consegui oito selos, paguei três euros e trouxe logo os copos. Por isso, confesso: gastei dinheiro em copos, mas nunca pensei que isso prejudicasse o continente (o europeu, não o do Belmiro).

Agora, estou fartinha de dar voltas à cabeça para lembrar-me de quando gastei dinheiro em mulheres e não consigo lembrar-me. Estou a ponderar escrever uma carta ao Presidente do Eurogrupo para ver se me ajuda nisso. Entretanto já corri toda a página do «e-factura» a ver se, por acaso, tive o bom senso de pedir factura da última vez que gastei dinheiro em moças, mas não encontro nada. Porém, se o Presidente do Eurogrupo diz que gastamos dinheiro em mulheres, é porque gastamos, pois claro, que ele é que sabe! E eu, que sou uma «maria vai com as outras» também devo ter gastado a minha somazinha para justificar o pedido de ajuda externa. Espero lembrar-me depressa, que não gosto nada de perder o norte aos meus dinheiros...

O quê?????

« - Eu este ano constipei-me num ouvido.»

Sim, eu ouvi isto hoje. Não, não sei como a coisa se processa. Sim, foi num espaço público para quem quisesse ouvir. Não, não foi dito por uma criança. Sim, vou passar a noite a pensar nisto.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Teimosia felina

Uma pessoa compra uma alcofa para o seu gatinho bebé para ser estreada no dia em que ele se muda cá para casa. Pequeno felinito ignora airosamente a alcofa, parece até soltar um «pfff» quando olha para ela, como quem diz «O filho da minha mãe jamais se aninhará aí!». E durante anos a alcofa fica ali esquecida, lavada de tempos a tempos na esperança de que o bicho acabe por apaixonar-se irremediavelmente por ela. Mas nada acontece. Entretanto a irmãzinha aparece cá em casa e sempre lhe vai dando algum uso, pouco, mas ainda assim algum. E a alcofa ali, a ocupar espaço e a desafiar a paciência de gatos de donos por ser mais um mono comprado ao qual os peludos tendem a virar as suas reais caudas.

Mas eis que aos três anos e quatro meses de vida, Senhor Gato descobre a pólvora! Certo dia, começa à porrada com a alcofa (julgo que ela o provocou...) e a dita acaba virada de pernas para o ar. Então, nesse momento, o Senhor Gato deu o golpe de misericórdia: deitou-se em cima dela, afundando-se na sua base fofinha que, recordo, estava virada para cima. Aninhou-se, o fundo da alcofa ganhou o formato do seu corpinho peludo e agora é o melhor lugar para estar. 

Há quem diga que as mulheres são difíceis de entender, mas então e os gatos?

domingo, 19 de março de 2017

Detalhe

Moro num prédio alto, onde a maior parte das pessoas não se conhece. Mas este prédio tão grande e que, por ser enorme, não fomenta as relações humanas tem uma particularidade muito interessante e poética: tem um pianista.

Não sei onde ele (ou ela) vive, só sei que deve ser num andar acima do meu, pois o som parece-me vir de lá. O que sei é que de tempos a tempos, quando menos se espera, lá toca durante um bocado, parando e recomeçando (e foi assim que percebi que era um pianista in loco e não um CD). Toca música clássica e durante o tempo em que o faz o prédio parece deixar de ser só mais um para passar a ter uma identidade muito própria que, desconfio, poucos tenham desta maneira. Quando ele pára, voltamos a estar todos enfiados num edifício igual a tantos outros. Aquele pianista muda durante alguns minutos a nossa realidade e torna-a mais bonita. Parece que eu e os outros moradores entramos de repente numa soirée do século XIX, longe dos barulhos da modernidade. É, no fundo, um pequeno detalhe que enche de beleza o nosso dia. 

Bom domingo soalheiro, fiéis quixoteiros!


quinta-feira, 16 de março de 2017

Casa à deriva e o cúmulo da ignorância

Tenho estado com uma profunda falta de inspiração, pelo que esta modesta casinha tem andado ao desamparo. Isto ou bem que se diz alguma coisa de jeito ou bem que mais vale estar calado, por isso não me tenho arriscado muito e vou andando calada.

Mas já que aqui estou, deixem-me partilhar convosco uma daquelas coisas que faz ignorantes. Isso mesmo. É uma coisa que, para quem não saiba mais do que aquilo que é evidente, cria preconceitos onde eles não devem existir. Apresento-vos a capa do Jornal I do Dia da Mulher (8 de Março):


Estão a ver ali do lado direito onde diz «Frases de homens contra mulheres que ficaram célebres» (frase, aliás, muitíssimo ambígua e mal escrita, mas pronto, já é pedir de mais...)? A frase escolhida para a capa é do Cervantes e, caso não consigam ver bem, deixo-a aqui: «Faz parte da natureza das mulheres desprezar quem as ama e amar quem as detesta».

Portanto, quem viu a capa deste jornal naquele dia ficou a pensar que o Cervantes era uma besta que dizia coisas contra as mulheres. Pois... A frase (além de não ser necessariamente má para com as mulheres: muitas vezes é simplesmente um facto, já que não se escolhe quem se ama) está COMPLETAMENTE fora de contexto. Digo-vos eu que já li o Quixote, livro de onde esta frase foi retirada, e o que lá está é outra coisa muito diferente. A frase é, de facto, de Cervantes e saiu da sua obra-prima, mas é dita num contexto muito favorável à defesa das mulheres perante os abusos dos homens. Uma personagem feminina lindíssima desperta várias paixões, mas não está interessada em nenhuma. Por causa dela, morre um homem e a moça, que causou um desgosto ao rapaz, é apelidada de cruel, de não ter coração, entre outros epítetos. Durante as cerimónias fúnebres do jovem que morreu por amor, a rapariga, que vive uma vida bucólica pelos campos, deixa-se entrever e dá-se início a uma série de impropérios contra ela. Alguns homens querem, inclusivamente, ir atrás dela, ou para vingarem a morte do amigo ou porque também eles estão apaixonados. É o louco Dom Quixote que os ameaça fisicamente e impede de perseguirem a bela donzela, fazendo um discurso sobre a liberdade das mulheres. Pelo meio diz aquela frase que está totalmente descontextualizada na capa do I, prosseguindo o seu discurso num sentido que diz sensivelmente isto: as mulheres têm o direito de amar quem querem e não têm de se sentir obrigadas a aceitar um marido só porque ele sofrerá se não as tiver. Alguma semelhança com o que está na capa do jornal? Rigorosamente nenhuma!

E assim os dois leitores do I ficaram a pensar que o Cervantes era uma besta. Na altura até espumei da boca precisamente porque sabia muito bem que as palavras daquele génio no início do século XVII eram exactamente no sentido oposto e eram até demasiado modernas para a época. Enfim, é uma tristeza. Só mesmo isso: uma enorme tristeza e o sinal de que a ignorância é perigosa, pois pode deixar a sua semente em todos os que não têm espírito crítico, vontade e tempo para buscar a verdade. Felizmente, eu sabia o contexto real da frase, senão talvez também me sentisse desiludida com o Cervantes. Assim não... Só acho aquele jornal uma leitura ainda menos adequada do que já  antes achava.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Murchando

Acabei de ouvir uma repórter da SIC, que entrevistava uma encarregada de educação de uma escola onde os alunos se sentiram indispostos, dizer «Então não terá sido uma intoxicação derivado do que comeram na escola?».

Sinto-me a murchar aos poucos.

terça-feira, 14 de março de 2017

Voltar

Dizem-nos que não devemos voltar aos lugares onde já fomos felizes. Tretas. Hoje voltei a um dos lugares onde mais feliz fui e não o lamento, ainda que agora lá regresse com uma saudade imensa. Voltar é bom, traz memórias felizes, o que é muito bom sinal. As boas memórias são sinal de que as vivências foram boas. Claro que não posso esperar viver tudo novamente e da mesma maneira nos lugares onde fui feliz. Mas também não tenho de ir para lá carpir porque agora tudo é diferente. A vida altera-se: isso faz parte. E eu agora só não vos ponho aqui o poema «Noutros Lugares», do Jorge de Sena, aquele que é o meu poema favorito, porque já o copiei tantas vezes para este blogue que qualquer dia alguém dá por isso e manda-me calar. 

Mas digo-vos, tal como Sena, que «Apenas sei que as circunstâncias mudam / e que os lugares acabam. E que a gente / não volta ou não repete, e sem razão, o que / só por acaso era a razão dos outros.». Os lugares acabam, mas as memórias ficam e são elas que nos fazem ser o que somos. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

A floresta

Se por cada mola que deixo cair para a rua nascesse uma árvore, eu já era responsável pelo aparecimento súbito de uma floresta.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A vaidosa sem jantar

Esta noite sonhei que ia jantar fora com o moço, mas que para ir tinha mesmo de levar um colar de pérolas que tinha pertencido à boa da Marilyn Monroe. Foi porque o Senhor Gato deu início ao seu toque de alvorada, senão julgo que ou me tornaria ladra profissional em sonhos ou bem que virava esqueleto antes de ter direito ao jantar.

Uma pessoa sonha com cada coisa... Para onde havia de dar-me!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Da ternura

E o que dizer de um gato que se deita SEMPRE nas costas do sofá em que estou sentada com uma das patas da frente sobre o meu ombro? Mesmo que eu me mexa, a pata volta a apanhar-me. Digo apenas que é uma companhia e um amigo sem igual. 

Primeiro sol

Está sol em Lisboa. E o que eu já vi de nalgas mal entaladas em cuecas de ganga (há quem lhes chame "calções")?!?

terça-feira, 7 de março de 2017

Novas formas geométricas

Eu, moça de Letras, proponho às ciências exactas a inclusão nos cartapácios de Geometria e de Matemática de duas novas formas geométricas por mim descobertas. E são elas:

1.ª - A semicircunferência felina*:


2.ª - A circunferência felina perfeita:


*Esta figura só não recebe o epíteto de «perfeita» porque levantou a cabeça no momento da foto. Estas formas geométricas que se mexem são uma chatice...

Mute

Algures no meio daquele pelito todo que reveste a minha gatica haverá, espero eu, um botãozinho que diz «Mute». Eu é que, desafortunadamente, ainda não o encontrei, pelo que a minha vida passa por ser assombrada por um «miau miau» constante e agudo. Ora é o «miau miau» de quem não sabe onde anda o Senhor Gato e quer saber; ora é o «miau miau» repetido e ainda mais agudo de quem anuncia ao mundo que precisa de se aliviar; ora temos o «miau miau» de quem exige festinhas, sendo este geralmente seguido de um corpo felino a atirar-se para o chão; ora temos o «miau miau» ansioso de quem quer atum ou saquetas; ora ouvimos o «miau miau» alegre de uma parolita bem disposta que anda pela casa a correr e a brincar com a própria sombra.

Eu já a apalpei a ver onde está o botão, mas ainda não o encontrei. Se alguém souber como configurar estes aparelhos modernos a que chamam «gatinhos», agradeço o auxílio. Já tentei contactar o Apoio a Clientes, mas quando atendem dizem «miau miau» e eu desligo logo com os nervos em alta e a respiração acelerada. Penso até que estou traumatizada.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Este meu espelho

Este blogue nasceu no final de 2011, depois de uma estada em casa com varicela. Já era professora, na altura ainda não estava desencantada com a profissão e com a realidade terrível vivida pelos docentes nas escolas portuguesas. Em Novembro, no dia dois, mantendo-se aberto, este blogue celebrará meia dúzia de anos de existência.

Muito mudou de lá para cá, no mundo, no nosso país, mas sobretudo na minha vida. A primeira quixotada foi escrita no sofá da sala da casa dos meus pais, onde então vivia. Agora escrevo-as maioritariamente na minha própria casa. O trabalho daquela altura já não o tenho porque assim o quis. Já conhecem a história, não vo-la voltarei a contar. Desencantei-me com a profissão, mas aproximei-me ainda mais dos livros, precisamente porque voltei a ter mais tempo para eles. Passei os últimos meses a descansar esta cabeça que estava esgotada de tanto stresse, de tanta pressão diária, com uma medíocre pausa no mês de Agosto (que nem era bem pausa porque, mal o colégio reabrisse em meados do mês, recomeçava a chuva de emails e lá se iam as férias tranquilas...). Enfim, tudo mudou e eu sobretudo.

Mas porquê isto agora? Porque ontem precisei de encontrar uma quixotada antiga e isso deu-me ensejo para reler algumas das coisas que escrevi no final de 2012 e no início de 2013. Notei grande diferença no tom e no tamanho das quixotadas que escrevi naquela altura. Eram muito mais curtas do que são hoje, eram mais sarcásticas e mordazes, e também tinham mais humor. Falava muito mais do que vivia no trabalho do que nos anos seguintes. Ou seja: mesmo os disparates engraçados que os miúdos me diziam foram perdendo lugar no blogue à medida que ia percebendo a toxicidade que o trabalho estava a ter na minha vida. Parece-me que me tornei mais séria no tom, mas também nos temas abordados nos textos (salvo algumas excepções em que a parvoíce vem ao cimo e sai com estrondo). Senti, confesso, algumas saudades daquela capacidade para fazer humor relativamente a algumas situações do dia-a-dia. Parece-me que estes anos trouxeram e levaram muitas coisas, mas felizmente nem tudo se perdeu e ficou o blogue como testemunha disso tudo. Bem a calhar, ontem dei por mim a pensar que quando tiver um filho ele vai acabar por poder ler o que a mãe escreveu durante vários anos e publicou online para quem quisesse ler. Tem a sua piada. É como se fosse uma espécie de diário cuja leitura é consentida pelo autor. Não digo que o desgraçado não morra de vergonha com alguma coisa que tenha dito (embora ache que fui sendo cuidadosa com as palavras e considere que não expus assim tanto a minha privacidade). Seja como for, esquecemo-nos frequentemente de que o que aqui criamos todos os dias quando escrevemos em blogues será eterno na internet e, ainda que interesse a poucos, é uma parte muito significativa da nossa vida que aqui se encontra espelhada. Serve para os outros nos conhecerem (ou conhecerem apenas o que queremos mostrar, já que a realidade, a verdadeira, é só para quem está deste lado do monitor), mas serve também para que nós, volvidos alguns anos, possamos olhar para um outro «eu» que já foi, que cresceu para se tornar no «eu» de agora até que também ele ceda o seu lugar a outro. Quem leu o Harry Potter recorda-se bem do Dumbledore e dos seus frasquinhos onde guardava memórias e pensamentos que depois podia revisitar. Um blogue, como um diário, é a nossa forma de o fazer sem recurso à magia. É, ainda assim, uma experiência singular.

Aos meus alunos costumava dizer para escreverem um diário. Nem que fosse durante um ano, que o fizessem, pois um dia, passados muitos anos, iriam tropeçar nele e gostariam de reler o que haviam contado sobre si e sobre os seus dias. Ririam, provavelmente, mas de qualquer modo seria uma experiência curiosa. Alguns ficavam entusiasmados, contudo não sei se algum aceitou o desafio. Quando lhes dizia isto, sabia do que falava, já que além dos diários da infância e adolescência, tenho agora quase seis anos de um outro suporte, este, que espelha perfeitamente aquilo que fui fazendo com o tempo que passou. Consegui ontem, ao ler o que ficou para trás, encontrar-me no que li, mas perceber inúmeras diferenças entre o que escrevo e como escrevo agora e o modo como o fazia antes. Se o As Minhas Quixotadas durar mais meia dúzia de anos, quem sabe o que encontrarei depois? O que sei é que isto dos blogues, bem espremido, torna-se coisa séria, mas mais que isso, coisa pela qual ganhamos grande afecto, uma estranha forma de carinho. No fim de contas, por trás deste rosa todo e dos textos que já não sabem ser pequenos, sou eu e a minha vida que aqui estamos.

Nota: Mais seis anos disto e cada quixotada terá cerca de metro e meio de comprimento.

domingo, 5 de março de 2017

A biblioteca que somos

No último livro de Alberto Manguel lemos sobre bibliotecas. A Biblioteca à Noite, publicado pela Tinta da China, evoca as públicas e as particulares, mas não fica por aí. Alberto Manguel diz ao leitor que além sermos a nossa própria biblioteca, já que os livros que temos dizem muito sobre nós, somos também as bibliotecas que não temos. Ou seja, segundo o autor, os livros que não temos também dizem muito sobre nós. Não só os que não temos porque não queremos ter, mas também os outros: aqueles que gostaríamos de possuir e que, por algum motivo, ainda não estão na nossa biblioteca e aqueles que queremos, mas que ainda nem foram escritos.

Os livros falam de nós: esta é uma ideia bonita, mas ao mesmo tempo inquietante. Depois de ler este livro de Manguel, entre o final do ano passado e o início deste, fiquei a pensar que se é bonito ter à minha volta livros que me apresentam ao mundo, é também estranho que neles esteja tanto sobre mim. Inclusivamente aquele tanto que posso não querer partilhar com os outros e guardar só para mim. E depois, além de os meus livros revelarem muito do que sou, ainda há a outra parte que ajuda a completar o meu retrato: a dos livros que cá não estão. Sem dúvida, Manguel tem razão: os livros dizem mesmo muito sobre nós. Mas feliz ou infelizmente, esqueceu-se de um pormenor: a maior parte das pessoas não liga nada aos livros e não percebe que para conhecer bem uma pessoa, ver a sua biblioteca e pensar sobre os seus haveres e faltas é fundamental. Está diante da vista, porém não se vê. O Principezinho explica, pois no seu entender «O essencial é invisível aos olhos.».

Foi a pensar nisto que Alberto Manguel diz sobre o facto de sermos a nossa biblioteca, mas também a biblioteca que não temos (inclusivamente porque podemos desejar livros que ainda nem foram escritos, como já disse), que resolvi pensar na biblioteca que não possuo. A que tenho conheço bem e, se vista com atenção, diz mais sobre mim do que aquilo que gostaria. Está cheia de clássicos, tem poucos livros contemporâneos. Vive e aumenta-se muito com livros que sobreviveram ao escrutínio do tempo. Vai crescendo também com a História do que fomos e a análise do que somos. Mas tem falhas. Falhas que tento tapar por vezes, quando tropeço nos livros que não estão e que deveriam estar. Ainda assim, um bom leitor sabe reconhecer três ou quatro (ou dezenas ou centenas) de livros que não estão e deveriam estar junto de si. Isto até poderia dar uma daquelas quixotadas com o título «A Menina quer Isto», mas não vai dar. Porquê? Porque embora sejam livros que gostaria de ter, são livros que não estão na minha biblioteca pessoal porque outros sempre se colocaram em bicos de pés na frente deles. Estes são, considero, básicos que têm, infelizmente, ficado esquecidos. Provavelmente, mesmo que me saísse agora o Euromilhões, não seria estes aqueles que correria a comprar porque, lá está, arranjaria sempre outros muitos para trazer primeiro. Estes acabam por ser valores certos que estão lá, que nunca desaparecerão, mas que enquanto aqui não estiverem serão ausências ruidosas, falando muito sobre o que sou. Assim, esta é uma parte da biblioteca que não tenho, não porque não a queira, e que ao mesmo tempo sou:






Nota: Todas as capas foram retiradas do catálogo da Wook.

Os livros de viagens

Há alguns dias li as primeiras linhas de um texto sobre livros de viagens. Nem consigo dizer-vos onde o li porque não me recordo mesmo. É que foi numa visita muito rápida à internet entre uma coisa e outra que tinha para fazer. Por isso não li o texto todo e tenho pena. Mas sei do que falava. Colocava a seguinte questão: numa época em que viajar é mais fácil e barato, continuará a valer a pena escrever (e ler) sobre viagens?

Na minha opinião, vale. Mesmo que eu tenha agora mais possibilidade de correr o mundo do que teria há cinquenta ou cem anos, não significa que possa ou queira privar-me dos relatos dos outros. Quantas vezes vamos a algum lado com ecos de quem lá foi antes e vamos aqui ou ali porque lemos sobre esses espaços? E esse relato anterior à própria viagem não lhe retira a surpresa, pois uma coisa são as palavras que correspondem à visão que outro teve do lugar e outra muito diferente é a forma como eu mesma vejo o espaço para onde viajei. Mais: há relatos de viagens que ultrapassam e muito o mero relato. São verdadeira poesia. Há autores que são capazes de verter no papel experiências que podemos não ter, mesmo que viajemos para o mesmo lugar que ele. Que sabem contá-las de uma forma única. Posso ir ao mesmo sítio e experimentar algo parecido: ler é e será sempre diferente de viver. Uma coisa pode preparar para a outra, mas nunca o faz completamente. Há sempre uma boa dose de desconhecido que não vem nos livros e ainda bem. Ler a experiência dos outros não empobrece a minha, pelo contrário: enriquece-a. 

Gosto muito de livros de viagens. Gosto de ver o modo como os autores olham para os lugares para onde se deslocam e o que lhes merece digno de ser partilhado ou não. Já me aconteceu ir a lugares sobre os quais li anteriormente e, acreditem, ler primeiro sobre eles não diminuiu nada o prazer da visita. Os olhos dos outros não substituem os meus, ainda que, numa primeira instância, possam servir para informar-me e espicaçar a minha curiosidade sobre determinado lugar. Além disso, há sempre muitos olhares diferentes e possíveis para ver a mesma coisa. Uma viagem feita em trabalho não é igual a uma viagem feita por lazer, assim como um livro de viagens encomendado por uma editora será diferente de um que nasceu espontaneamente da vontade do autor. Assim sendo, por muito que hoje seja mais acessível e fácil correr pelo mundo fora e ver o que antes só poderia imaginar, os livros de viagens continuarão a fazer sentido, não só para despertar a vontade, mas também para permitir o confronto de impressões. Creio que nunca deixarão de fazer sentido e há livros de viagens que são verdadeiros monumentos, alguns tão maravilhosos e firmes quantos os de pedra e cal que eles mesmos descrevem.

sábado, 4 de março de 2017

A menina queria e já tem


O resto do saldo do cartão de oferta da FNAC que recebi no Natal aliado ao Dia do Aderente permitiram-me trazer este livro para casa sem ter de pagar mais nada. Já vos falei dele. Pelo que li na revista Ler vale bem a pena. E dá-nos muita matéria em que pensar.

O meu primeiro soneto

Ah! Como é bom ao sábado acordar
C'o Continente Online a descarregar
Paletes de gostosas iguarias:
Chocapic e Cerelac para todos os dias.

E também rolos de papel de cozinha,
Desodorizantes, feijão, farinha,
Cogumelos, atum, aveia e cevada:
Tudo para ter uma despensa recheada.

Ao acordar também pão fresco chegou.
Ainda estaladiço: muito bem marchou!
Barrado com manteiga como se quer

E empurrado com um fumegante café.
Soube muito bem e assim o dia arrancou:
Espero que estejam bem, pois eu estou!

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Senhor Gato é afinal um bebé

O Senhor Gato apanhou-me desprevenida e há umas semanas lambiscou o meu prato de Cerelac do pequeno almoço. Dei-lhe um ralhete, mas como genuíno gato que é não ligou um caracol a isso.

Porém, deve ter gostado. Embora já tenha lido que os gatos não sentem o doce, deve ter gostado da consistência porque agora, sempre que lhe cheira a Cerelac, vem ter comigo e pede um bocadinho. Como aquilo tem lactose (embora o faça com água, não deixa de ser farinha láctea), só o deixo dar três lambiscadelas.  O bicho fica contente e vai dormir enroladinho a seguir, como está a fazer agora. Portanto, revisão da matéria dada: o Senhor Gato gosta de sopa e de Cerelac. É um bebé!

Nota: Antes de me chamarem gorda deixem-me explicar-vos que normalmente como Cerelac quando sei que vou ter de passar várias horas sem voltar a comer. É o único pequeno almoço capaz de me deixar saciada a manhã inteira sem o estômago começar com aqueles lindos roncos de fome. E antes que digam "Que nojo, deixa o gato lambiscar do prato!", olhem, o que não mata engorda e o bichano está vacinadíssimo, desparasitamo-lo mês sim, mês não, anda sempre limpinho e eu não tenho nojo dele. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns I

E o que me enerva pôr o desodorizante num sovaco e quando vou pôr no outro... pfffff: acaba-se? E o que me enerva chegar à despensa, com um sovaco devidamente untado e o outro à espera do seu quinhão, para rapidamente constatar que não tenho outro desodorizante igual? E que hipóteses considero eu?

A) Deixar um sovaco como está e pôr o outro desodorizante, com outro cheiro, no outro. 

B) Lavar o sovaco já perfumado e pulverizar os dois com o mesmo cheiro. 

C) Pôr-me em posições idiotas para tentar que o maldito spray, que ainda consegue borrifar um sovaco, chegue também para o outro. 

D) Sentar-me no chão a chorar perante tão complicado problema, esperando que alguém me salve. 

E) Ficar em casa a feder de um sovaco, sozinha, sem ninguém para partilhar a minha dor. 

F) Esquecer que tenho dois sovacos e sair para a rua com um perfumado e o outro não, na esperança de, qual princesa, cheirar sempre a lírios do campo. 

G) Dar um tiro na cabeça e resolver de vez estes horríveis problemas com desodorizantes parvos que não sabem contar sovacos. 

O que fariam vocês? É difícil, não é? Enfim, são problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns.  

Peculiaridades de um leitor V

A leitura, para os verdadeiros leitores, é um prazer que tem de repetir-se. Lemos como respiramos, como andamos, como fazemos qualquer uma das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia. É coisa de que sentimos falta quando, por algum motivo, ficamos impedidos de a praticar. E como prazer que é, não raras vezes vamo-nos a ele em várias frentes. Que quer isto dizer? Que em simultâneo lemos um, dois ou três livros, que lemos ainda umas revistas e uns jornais e o que aparecer pela frente. Ou então não e somos uns «monógamos» livreiros que mantêm a fidelidade à leitura do momento sem a misturar com qualquer outro texto.

De forma sucinta: nisto da leitura, há as pessoas que nunca lêem mais do que um livro ao mesmo tempo e há as que lêem os que lhes apetecerem, nem que sejam dois, três, quatro ou mais em simultâneo. Mais uma vez, nenhum método é melhor do que o outro. A leitura é muito democrática. É uma espécie de medicamento que se pode tomar de todas as formas possíveis, causando benefícios óbvios a quem usa e abusa desse tratamento. A leitura é quase uma panaceia que, se não cura, pelo menos alivia muito. E inquieta, também, mas de um modo salutar, pois faz pensar e crescer, e ser capaz de ver além da ponta do próprio nariz.

Mas voltemos ao tema: leitura única versus leituras múltiplas em simultâneo. Eu faço parte do grupo dos que lêem dois livros ao mesmo tempo. Geralmente não leio mais do que isso porque além dos livros tenho sempre várias revistas (algumas delas já atrasadas) na mesinha de cabeceira. Acabo por ir intercalando tudo. Muitas vezes, também, acontece-me andar a ler um livro, precisar de me deslocar e considerá-lo demasiado volumoso e pesado para desejar transportá-lo comigo. Nessas alturas dá-me sempre jeito estar a ler outro mais pequeno que se deixe levar mais facilmente sem ser responsável pelo deslocamento de um ombro. Há quem diga que quando lê mais do que um livro em simultâneo, acaba por misturar as histórias e as personagens de um e de outro volume. Não me lembro de alguma vez isso me ter acontecido. No fundo, acho que o treino dos anos de Faculdade num curso de Línguas e Literaturas ajudou a desenvolver esta capacidade (se é que se lhe pode chamar isso). Nas várias cadeiras de literatura que tinha num único semestre tinha de ler tantas obras literárias em simultâneo que precisava de desenvolver «compartimentos estanques» no meu cérebro para não confundir o Moby Dick com o Austerlitz, nem O Anjo Ancorado com Os Pequenos Burgueses. Não me dava muito jeito confundir as Memórias Póstumas de Brás Cubas com As Memórias de João Miramar. Por isso, mesmo que antes de dormir lesse um bocadinho de um e um bocadinho de outro, tinha sempre de arrumar tudo muito bem arrumadinho na minha memória. Sempre o consegui com facilidade, felizmente. Agora já ninguém me obriga a ler vários livros ao mesmo tempo, mas continuo a fazê-lo de vez em quando porque quero. 

Claro que compreendo quem gosta de dedicar-se a apenas um livro de cada vez. Já aqui disse que na leitura tudo (ou quase) é possível. São escolhas. Até pode ser não porque temam misturar histórias, datas, personagens, mas sim porque gostam de manter a concentração num único livro, pensar apenas nas questões que ele suscita e, quando o acabam, passar ao próximo quando apetecer, sem pontas soltas. Às vezes também me apetece ser assim e nessas alturas leio um único livro (quando muito intercalo com revistas), noutras vezes apetece-me ser «assado» e ando com dois volumes debaixo do braço, lendo meia dúzia de páginas de um e meia dúzia de páginas de outro. É para onde me dá.

Depois há, infelizmente, os que não lêem nem um, nem dois, nem três: enfim, os que não lêem mesmo nada. Mas desses não reza a história porque aqui fala-se das peculiaridades dos leitores e não dos que ainda não começaram a sê-lo. Esses não perdem tempo com livros, o que é uma pena. Não sonham o que perdem.