domingo, 25 de junho de 2017

Boçalidades

Ao que parece, mais uns génios, desta vez em Benavente, resolveram fazer a festa à conta de um animal. Segundo o que está a sair na comunicação social, a proeza consistiu em pegar fogo aos cornos de um touro. Não sei se é tradição habitual ou se deu na cabeça de alguém fazer isso este ano, mas a verdade é que tem de existir anualmente pelo menos uma prova de que há seres humanos completamente acéfalos. 

Não consigo imaginar que tipo de gozo se pode tirar de um feito destes. Imagino os trolls a falarem uns com os outros "Ó Zé, vai lá buscar o touro do teu tio para lhe chegarmos fogo aos cornos porque é muita fixe!". E lá partem para o espectáculo, achando-se possivelmente muito machos por fazerem isto a um animal grande e forte como um touro. 

Há muita gente que acha que quem defende os animais enlouquece facilmente e perde a noção do que diz porque o ser humano tem de estar sempre acima dos animais. Pois. Mas depois vemos coisas destas e, desculpem-me, mas neste caso não me importam nada os humanos que pegaram fogo aos cornos de um touro apenas por diversão. Importa-me o animal que sofreu sem razão nenhuma e sem poder defender-se. Lamento imenso que não tenha corrido aquela porcaria de gente à cornada. 

Bem sei que uns não devem pagar pelos outros, mas em coisas assim não consigo ter meia medida. Benavente pode até ser muito bonito, ter lugares espectaculares para visitar que eu, enquanto quem fez isto não for punido (incendiar-lhes o rabo era capaz de ser giro), não tenciono pôr os meus pés nesse lugar e gastar um cêntimo que seja na região. Infelizmente, nestas coisas paga o justo pelo pecador. 

Rotações

Eu a tentar desesperadamente adormecer pareço várias coisas. Vou desde um tradicional pião ao extraordinariamente estúpido spinner. Lá pelas três da manhã estou transformada no Taz, o diabo da Tasmânia. 

Cada vez odeio mais as noites. 

sábado, 24 de junho de 2017

Água

Há uma coisa que sempre me causou estranheza: as pessoas que dizem que não gostam de água. Não consigo compreender como é possível não se gostar de uma coisa que não tem sabor, odor (espera-se), que constitui uma grande percentagem do nosso corpo e que, além disso, temos de consumir em quantidades significativas para estarmos bem. Ainda percebo menos as pessoas que estando cheias de sede vão beber uma imperial ou um refrigerante. Posso beber uma Coca-Cola se tiver calor, mas se estiver com sede a coisa só se resolve com água. 

Conheço casos de pessoas que mal bebem água. Dizem que não gostam e acho que o corpo vai sobrevivendo com a que retira das sopas, das frutas e de outros alimentos que, obviamente, contenham água. Conheço pessoas que se obrigam a beber água porque não sentem vontade de consumi-la, mas são aconselhadas pelos médicos a aumentar a quantidade de água ingerida. 

Para mim que, desde pequena, sou uma sedenta, isto é coisa que causa espécie. Tenho uma garrafa de água em cada divisão da casa e estou constantemente a beber uns golinhos. Considero impensável sair de casa sem uma garrafa de água: já me conheço e sei que vou precisar provavelmente até nos primeiros cinco minutos após ter saído. Posso até beber outra coisa à refeição, mas há grandes probabilidades de à minha frente existir também um copo de água. Não existe bebida de que goste mais, mesmo adorando chás (sem açúcar) e sumos naturais. Quem quiser ver-me louca, possuída, armada em diva alucinada ponha-me a passar sede. Não aguento: fico histérica e em verdadeiro sofrimento. Já quando era mais nova, miudinha ainda, saía com a minha mãe e quando chegava a casa atirava-me à torneira como se não houvesse nada mais precioso na vida além da água que bebia. A minha mãe avisava-me sempre para beber menos água e mais devagar, que ainda me ia sentir mal. Nunca senti. O que sempre tive foi essa necessidade de beber água mal regressava a casa. Acho que depois de uns anos disto a minha mãe percebeu a ideia e até já me perguntava antes de eu sair se levava uma garrafa de água comigo. Caso me esquecesse era o inferno. E note-se que era assim em qualquer estação do ano. 

Quando um médico me pergunta se bebo água com frequência quase estouro a rir. Mais frequência é difícil. Quanto à quantidade, não sei ao certo quanto bebo, mas num dia normal devo beber sem dificuldade uns dois litros. Isso adicionado à água que ingiro através da alimentação acho que faz de mim uma pessoa hidratada. Mas, lá está, bebo sem dificuldade. Adoro água, considero-a a melhor bebida do mundo, a que mais me satisfaz e nunca, mas nunca precisei de obrigar-me a bebê-la. 

Mas há quem não goste e há quem não sinta tanta vontade de consumi-la quanto eu. Se andar por aí alguém que seja assim, mesmo sem sede, que faça o esforço de ir engolindo uns golinhos. Passámos alguns dias de calor extremo e o corpo perde muitos líquidos nessas alturas. Precisamos sempre de água, mas mais ainda agora, durante o verão, em que a transpiração aumenta e é necessário recuperar o que se perde. Bebam água, façam esse esforço até passar a ser um hábito. Ponham-lhe uma saqueta de chá ou uma rodela de limão de vez em quando para variar o sabor, se preferirem, mas bebam. A vossa pele, os vossos rins, o vosso cérebro, enfim, todo o vosso corpo vai agradecer.

Nota: Mas vejam lá se também não bebem um garrafão de cinco litros de água por dia, que o que é em excesso também faz muito mal. 

«Ana Paula» - o balanço


Ana Paula é o primeiro romance que compõe este conjunto de três livros publicados pela Guimarães Editora. Cada volume contém dois romances e todos eles têm por espaço a Lisboa do século XX durante a ascenção e declínio do período salazarista. Como o próprio nome dos volumes indica, Crónica da Vida Lisboeta, estes romances acabam por funcionar como crónicas dos costumes e não só de uma cidade que se perdeu no tempo. Assim, o enredo aborda questões próprias da época que saem reforçadas pelo cenário de uma cidade profundamente marcada pelas desigualdades sociais, onde enquanto a burguesia desfilava pelo Chiado e enchia as casas de chá, as varinas andavam de canastra à cabeça olhando para todos os lados para ver se a polícia não vinha lá. Ao mesmo tempo que passavam belíssimos automóveis, em alguns espaços andavam galinhas pelas ruas. Enfim, uma cidade cheia de contrastes, irremediavelmente marcada por códigos de conduta que, em boa parte, a religião ditava e que iam travando a vida de muitos, sobretudo a das mulheres, sempre consideradas menos importantes, mais fracas, obrigatoriamente submissas.

Ana Paula foi dos melhores e mais cativantes romances escritos em português que já li. Já para não falar do brilhante domínio da língua que marca a escrita do autor, Joaquim Paço D’Arcos, e que é coisa de que se sente uma certa saudade, o enredo é tocante, mas é tal e qual o que esperamos da época histórica retratada. A protagonista, que dá nome ao romance, cresce na Graça no início do século XX. Provém de uma família abastada cujo título já vem de longe e se deve a uma propriedade no norte do país. É a filha mais velha de um casal no qual a mulher é absolutamente submissa, sem opiniões, sem voz, que tudo aceita tacitamente e que casa quando já ninguém o esperava e apenas porque os seus bens ajudarão a situação económica do futuro marido, prejudicado ainda pela lei que retira aos morgados a totalidade da herança paterna. Não é mais do que uma transação comercial, mas sente-se feliz por casar porque, afinal, era isso o que qualquer moça desejava. O pai de Ana Paula, o Conde da Balsa, é um tipo de causas, desde que lhe dêem jeito. Luta pelas partes que crê poderem trazer-lhe vantagens, até que percebe que mais vale manter-se à margem dessas lutas antes que lhe saia o tiro pela culatra. Filha destes dois, Ana Paula cresce, ainda assim, saudável e feliz com as temporadas que passa na propriedade junto ao Tua. É livre, curiosa e até um pouco pespineta. É, portanto, uma criança absolutamente normal. No entanto, o pai considera que deve ser domada e, assim, levá-la-á para um colégio religioso na Galiza, onde será educada por freiras, tendo sempre em vista o temor a Deus. É assim que Ana Paula perde todo o viço e encanto da infância, trocando-os pelos limites impostos pelo divino. Sairá do colégio aos dezasseis anos completamente diferente. Aprendeu aquilo que uma menina precisava de saber. Também aprendeu o que era o pecado e que Deus não gosta de pecadores. Aprendeu a rezar. Foi, enfim, domada pela religião. Foi toda a educação que teve.

Um dia, enquanto tomava chá com a irmã e uma prima numa casa de chá do Chiado, conhece Jorge, um oficial conhecido em Lisboa por feitos de guerra importantes. Era admirado por todos pela coragem e pela bravura. Mas também era sobejamente conhecido por ser um estroina, um bon vivant que gostava de gastar o que tinha e o que não tinha. Gastou em três meses a herança que o pai lhe deixou e que foi criada ao longo de uma vida inteira de trabalho. Conhecia de olhos fechados o caminho para o Casino do Estoril. Contudo, obviamente, Ana Paula só sabia da primeira parte: que Jorge era um herói a quem o país devia muito. Casou e rapidamente travou conhecimento com a segunda. Não gostou, mas aguentou.

Esta última frase poderia sintetizar o livro: não gostou, mas aguentou. Ana Paula poderia ter sido diferente, não tivesse sido a sua educação como foi, no sentido de lhe impor limites que eram os esperados na sociedade lisboeta da época. Talvez se tivesse continuado a crescer livremente... Mas não sabemos. O que o romance nos conta são as provações de Ana Paula que, a determinada altura, se verá a braços com a possibilidade de cortar as amarras, libertando-se de um casamento que a humilha, que não lhe traz já qualquer felicidade, que a apequena todos os dias. Assistimos à luta interior de Ana Paula, luta essa muito condicionada pelo temor a Deus e pela sociedade que não aceita mulheres que, ainda que sofrendo, abandonem os seus maridos. Assistimos a um diálogo entre três pessoas, sendo uma delas a prima de Ana Paula, no qual percebemos bem o pensamento da época: «mulher que se separe do marido jamais entrará na minha casa», que é o mesmo que dizer que será excluída da sociedade pela própria sociedade. 

O final é o único que poderia ser, ainda que gostássemos de ver outro. Mas este é um romance que não permite que nos esqueçamos de que estamos da primeira metade do século XX, ali pelo ano de 1936. À luz do século XXI, não aceitamos as escolhas da protagonista, mas ela não é do nosso tempo e isso diz tudo. Perante uma sociedade que manda aguentar, quem tem força para remar contra a corrente? Quando Deus serve para condicionar os actos dos seres humanos, sobretudo os das mulheres, como conseguir a força para quebrar esse medo e seguir o caminho desejado? Quando se acredita mesmo que os pecados desta vida se pagam na outra, quem se atreve a escolher a felicidade em vez do que é moralmente certo? Quando a sociedade espera das mulheres espírito de sacrifício e quando é isso o que ouvem nos sermões e nos confessionários, como agir de modo contrário?

Por tudo isto, aconselho-vos a lerem este romance, do qual não vos desvendarei mais nada. Joaquim Paço D’Arcos não é o mais conhecido escritor português, mas merece ser lido. Tem mais livros além dos romances que compõem esta Crónica da Vida Lisboeta. Estes volumes da Babel são um pouco caros. Só os comprei na Feira do Livro porque me fizeram um desconto de 40% no penúltimo dia do evento. Pelos três paguei à volta de quarenta euros. Mas se puderem, requisitem-nos ou aproveitem as promoções que sempre vão aparecendo para irem comprando um de cada vez. Terão um enorme prazer a ler este maravilhoso uso da língua portuguesa aliado a uma história tocante e muito bem contada.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Menina Quer Isto XC


Na Feira do Livro enamorei-me deste menino. Todavia, por ter sido editado no mês passado, o preço ainda é proibitivo, pelo que terei de esperar por outra altura. No entanto, parece-me um ensaio muito interessante, com um tema excelente para quem adora livros, livrarias e afins. São mais de trezentas páginas sobre o papel das livrarias ao longo dos tempos, desde pontos de encontro até locais de tertúlia e de reunião de resistentes políticos. Ainda que hoje as livrarias passem por uma fase muito negra, a verdade é uma parte da nossa História passou por elas e, tanto ou mais, pelos livreiros que por elas deram a cara. É, com certeza, um livro a não perder, mas num mês já mais distante dos recentíssimos desatinos da Feira do Livro...

Excesso de mimo felino

Fui acordada pelo mau humor nocturno do Senhor Gato perto das cinco da manhã. Já sei que esse mau humor tende a piorar enquanto eu ficar no quarto e por isso saí da cama e fui para o sofá do escritório para continuar a dormir. O problema é que entretanto despertei e até às oito horas não consegui dormir. Resolvi tentar o sofá da sala, com a porta fechada e os felinos do lado de fora. Mas eis que anos de mimo se manifestaram e fui impedida de dormir por uma hora seguida de intensos miados em coro. Só se calaram quando eu desisti e voltei ao escritório para ser lambiscada, roçada, ronronada e sei lá mais o quê. Escritório esse onde, aliás, agora dormem os dois a sono solto. Eu permaneço acordada.

Tenho dois gatos absolutamente mimados que não suportam que me separe deles por uma parede e uma porta. Mea culpa: fui eu que os mimei. 

Coisas que não entendo IV

Aquelas sopas que são feitas a partir de um refogado e que levam manteiga e natas de forma a ficarem "aveludadas", acabando a serem mais assassinas do que um bitoque gorduroso ali da tasca da esquina. E depois o pessoal que está em dieta e diz "Vou só comer uma sopinha que fiz ontem." e enfia uma pratada daquilo como se se tratasse da coisa mais saudável do universo. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

É muita burrice, senhores!

Estão a ver quando estão a registar-se em algum lado e vos colocam um desafio de modo a provarem que não são um robô? Pois bem, surgiu-me a pergunta «Qual é a capital do Brasil?». Escrevi «Brasília» e, surpresa das surpresas, a resposta foi considerada errada. Foi-me colocada outra pergunta, uma subtracção, que acertei. Depois o formulário voltou ao formato inicial com a mesma pergunta que me havia sido colocada em primeiro lugar. Por teimosia experimentei escrever «Rio de Janeiro». E não é que a resposta foi aceite???

Portanto, ou a capital mudou e eu não sei ou a burrice que por aí anda é ainda maior do que aquilo que eu imaginava. Eu provo que não sou um robô e a página em questão mostra que quem a fez tem a cultura de uma ostra morta e em decomposição na montra de uma marisqueira a precisar de ser encerrada pela ASAE.

Quixotada a meter nojo

E a grande, mas mesmo muito, muito grande, sesta que eu dormi hoje? Ah... Acho que teve início ali a seguir ao almoço, pela uma e meia, e acabou às cinco e picos. Com a ventoinha ligada, que a casa ainda não arrefeceu, foi maravilhosa para compensar a má noite que tive.

Talvez amanhã haja mais. Estou tentada a repetir a façanha, até porque desconfio de que tão cedo não volto a conseguir dormir... Mas, acreditem, são anos de sono em falta que imploram por ser respostos. E acho mesmo que vou aproveitar este verão para tratar disso.

Memorial de desparasitação dos gatos

Mês sim mês não lá vem o momento de desparasitar os felinos cá de casa. Este mês coincide com a desparasitação dos donos também*. Todo um acontecimento, portanto. O problema é que desparasitar o Senhor Gato implica uma estratégia aprimorada ao longo dos anos. Ele é lindo e muito meiguinho, mas não suporta sentir-se agarrado ou preso de alguma maneira. Desparasitá-lo está, em dificuldade, quase ao nível daquela maratona que se faz no deserto. Pior só mesmo dar-lhe um comprimido. Aí só me apetece chorar e encomendar a alma ao Criador.

Inicialmente, sem a tal estratégia, limitávamo-nos a segurá-lo enquanto ele se tentava soltar. A pipeta parecia não ter fim e os nossos nervos ficavam esfrangalhados. Já a Gatica é uma santa: basta pegar-lhe ao colo enquanto o outro despeja a pipeta no cachaço. Paralisa de medo e permite tudo, a pobrezinha.

Assim, desenvolvemos um método que hoje vos revelarei. Duvido que alguém precise de passar por este tormento, mas se der jeito a alguém, melhor. Tudo começa com uma lata de atum ao natural (embora aqui eu e o outro dono discordemos relativamente à ordem dos acontecimentos porque eu preferia que a Gatica fosse desparasitada antes da emoção do atum). Abre-se a lata e despeja-se metade em cada pratinho. Colocam-se os pratitos no chão e permite-se aos felinos que comecem a comer. Quando o Senhor Gato já está a sentir-se no paraíso felino e a lamber-se todo com atum, o dono começa a fazer-lhe umas festas e a separar-lhe o pêlo na zona do cachaço de maneira a deixar pele à mostra. O bicho vai desconfiando e o dono pára e põe-se a olhar para o tecto (como se o gato interpretasse isso como «Ah, afinal ele não está a meter-se comigo: está só a admirar o candeeiro. Posso comer descansado.»). O gato torna ao prato e o dono torna a proceder à separação do pêlo. Quando a coisa está a jeito, pimba: começa-se a descarregar a pipeta. Conforme o gato vai parando de comer e olhando para o dono, este também pára e torna a olhar para o tecto, enquanto esconde a pipeta atrás das costas. A dança segue até que esta fique vazia e o gato devidamente untado.

A seguir passa-se à Gatica, que só precisa de colinho porque é um doce e deixa que lhe façam tudo. Por isso é que eu defendo que ela seja a primeira, para depois comer o merecido atum sem interrupções, como se fosse uma compensação pela paciência que tem.

Bom, é este o extenso memorial da desparasitação felina. É uma actividade que vivemos no limite do perigo. O Senhor Gato transforma estas coisas numa aventura. O mais curioso é que, simultaneamente, é mesmo o gato mais meigo e doce que conheço. Não há animal mais apegado aos donos do que este. Contudo, pegar-lhe ou agarrá-lo é impossível. Bem, não se pode ser perfeito, não é verdade?


*Todas as pessoas, donas de animais ou não, deviam desparasitar-se uma vez por ano. Nós fazêmo-lo agora, no verão, todos os anos pela mesma altura, fazendo coincidir a desparasitação deles com a nossa para evitar novos contágios que pudessem existir. Mas é importante que todos tenham consciência disto: qualquer pessoa deve desparasitar-se uma vez por ano. Perguntem aos vossos médicos e farmacêuticos. Não custa nada. É só um comprimido de toma única que não tem efeitos secundários e que pode ser tomado a qualquer hora.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Apitem, miem, qualquer coisa!

Parece que de ontem para hoje perdi um seguidor. Eram uns estrondosos 33 e agora tenho menos um.

Isto uma pessoa quando tem toda uma legião de seguidores nem dá conta da coisa, mas sendo uma casita modesta, qualquer lugar vazio faz-se notar.

Posto isto, à pessoa que se foi embora, espero que pelo menos tenha gostado dos tempos que por aqui passou. O blogue «As Minhas Quixotadas» permanece de bracitos abertos a todos os que queiram vir aqui ler o que por cá se vai espalhando. Mas deixem a vossa pegada, pelo menos para eu saber que existem: tornem-se seguidores, comentem (nem que seja a dizer «Olá, estive aqui!»), apitem, miem, mostrem-se, apareçam, façam qualquer coisa! Gosto tanto de saber que existe alguém desse lado que tenho pena quando percebo que alguém desaparece, ou porque deixa de comentar, ou porque o número de seguidores diminui, ou porque deixo de ver o endereço do seu blogue nas estatísticas de entrada... 

Enfim, já aqui disse isto, mas esta coisa dos blogues cria uma espécie de relação estranha entre as pessoas. É distante, mas existe e, como em todas as relações, é sempre triste quando se acaba.

A imbecilidade e o Exame de Português

Li esta tarde várias notícias que davam conta de uma aparente fuga de informação relativa ao conteúdo do Exame Nacional de Português do Ensino Secundário. Estará a ser investigada, mas a comprovar-se poderá conduzir à anulação das provas realizadas e ao atraso de todo o calendário de candidaturas ao Ensino Superior, prejudicando ainda as férias de muitas famílias.

Todos os anos há uma coisa do género e, curiosamente ou não, é sempre com o Exame Nacional de Português. Saber que autor sai parece uma necessidade premente. Mas saber que autor será objecto de exame não é saber que texto será escolhido nem que perguntas serão feitas. Mais: eu jamais me ficaria por uma informação veiculada pelo Whatsapp, como parece ter sido o caso, indo para o exame tendo apenas estudado aquilo que me tinham dito que ia sair. Neste caso em particular, o facto de a menina ter acertado em tudo o que saiu (os dois textos literários e o tema da produção escrita) levam-me a sentir algum cheiro a esturro e a temer mesmo pelos outros desgraçados todos que poderão ter as suas provas anuladas e o verão comprometido.

Bem sei que a aura de mistério que paira sobre os Exames dá azo a estas coisas. Mas isto é escusado. Fazer circular pelo Whatsapp uma mensagem em que se acusa uma explicadora que será presidente do sindicato dos professores e que sabe sempre o que sai (note-se que estou apenas a reproduzir a mensagem) é de uma tontice sem explicação. Esperar que isto ficasse no segredo dos deuses é mesmo ingenuidade. E além da menina que fez passar a mensagem por toda uma rede social e que, sendo descoberta, poderá não estar em boa situação, o que dizer da suposta explicadora que terá revelado o conteúdo da prova? A ser verdade que o sabia isto é muito, muito grave. Ajudar os alunos a obterem bons resultados é uma coisa, ir contra a ética profissional é outra. Mas também o IAVE terá de saber explicar o que aconteceu aqui. Sempre achei que isto dos Exames Nacionais devia ser como a receita dos Pastéis de Belém ou a da Coca-Cola: um dos segredos mais bem guardados. Afinal e em aparência parece que não é nada disso. 

Vamos ver no que isto dá. Espero, sinceramente, que se apurem responsabilidades, embora também deseje que os desgraçados que não tiveram nada que ver com este disparate todo vejam os seus exames tranquilamente classificados e que possam candidatar-se ao Ensino Superior nos prazos previstos. Uns não deveriam pagar pela suposta imbecilidade de outros. Mas geralmente essa é mesmo a regra que domina o mundo.

Peculiaridades de um leitor VIII

Li há pouco este artigo do The Guardian sobre gralhas que se tornaram famosas e, em alguns casos, extremamente valiosas. Já quando li o livro O Bibliófilo Aprendiz fiquei a saber que certas edições, precisamente pelos erros que escaparam, acabaram por tornar-se mais valiosas do que as que foram corrigidas.

Ora, acho que nisto das gralhas todos os leitores estão de acordo: preferem um livro que tenha pouquíssimas ou nenhuma. Inevitavelmente passa sempre uma ou outra, porém o problema começa quando de facto o livro está pejado delas ou quando as gralhas alteram o sentido do texto. Há uns anos, por exemplo, li O Monte dos Vendavais numa edição tão terrível que me livrei dela depois. As gralhas eram tais e tantas que chegavam a colocar personagens já mortas a conversar sentadinhas numa poltrona, numa clara troca de nomes. Está bem que o romance tem ali umas partes em que realmente parece andar por ali um espírito a fazer bater as portadas das janelas, mas o erro ia além disso e era inconfundível com qualquer elemento sobrenatural adicionado à história.

A primeira vez que li o Quixote, aos dezoito anos, foi inesquecível. Não só porque encontrei ali o MEU livro, mas também porque cheguei ao ponto de pegar num lápis e ir corrigindo as gralhas, que eram imensas. Para terem uma ideia, foram dezenas as vezes em que a palavra «urna» apareceu em vez do determinante artigo indefinido «uma». Está bem que graficamente até são parecidos, mas imaginem o significado que certas frases tinham...

Como disse acima, um leitor (e aqui nem precisa de ser dos melhores: basta mesmo gostar de ler) dispensa bem as gralhas que perturbam a leitura e que dão um ar desmazelado ao livro. Irritam ainda mais quando o mesmo nos custou mais dinheiro do que aquele que deveríamos pagar por livros, mas enfim. O trabalho de revisão devia, por isso, ser objecto de maior consideração. No entanto, a crise provocou o oposto e livros, jornais e revistas surgem pejados de erros que afligem os leitores e que conseguem mesmo, por vezes, afastá-los deles.

Ainda assim, certas gralhas, propositadas ou não, dão boas histórias. Quem leu o romance de Saramago História do Cerco de Lisboa recordar-se-á, certamente, da premissa que cria toda a acção. O revisor de um livro de História sobre a ajuda dos cruzados a Portugal na luta contra os mouros resolveu acrescentar a palavra «não» a uma frase, criando novos acontecimentos históricos e alterando para ficção aquilo que se queria real num livro de História. Ora, o próprio Saramago, que imaginou uma narrativa em torno de uma única palavra acrescentada às provas tipográficas, teria adorado estas gralhas referidas pelo The Guardian no já citado artigo: numa edição da Bíblia do século XVII, alguém fez o contrário e esqueceu-se da palavra «não» nos diferentes mandamentos. Assim, segundo aquela edição, matar, roubar, cometer adultério e cobiçar as coisas alheias passaram a ser permitidos e, inclusivamente, um dever. Essa mesma edição passou, por isso mesmo, a ser tida como «The Wicked Bible». 

Qualquer leitor detesta gralhas, mas acho também que qualquer leitor gostaria de ser dono de uma destas peculiares edições em que uma palavra muda tudo. O artigo do The Guardian refere outros exemplos curiosos que vale a pena conhecer. 

Por aqui recordo-me da gralha na contracapa da minha edição de Os Buddenbrook, de Thomas Mann, na qual está escrito que «Thomas Mann iniciou a escrita do seu primeiro romance - Os Buddenbrook - em 1986, com apenas 21 anos de idade, terminando-o cinco anos mais tarde.». Ora, Thomas Mann nasceu em 1875 e faleceu em 1955... Na altura a gralha irritou-me, mas agora até lhe acho graça. O resto do livro, felizmente, está livre de disparates assim e esta edição da Dom Quixote tem qualidade. Isto mostra-nos que, de facto, se de um modo geral dispensamos gralhas, em certas circunstâncias elas acrescentam qualquer coisa ao livro. Claro que quando até tomamos a iniciativa de pegar num lápis para as corrigir é porque a situação é ridiculamente desproporcional e prejudicial à leitura e compreensão do texto. Nem todas são como a celebérrima gralha da primeira edição do Memorial do Convento, na qual o autor, falando de música conhecida por Baltasar e Blimunda, a descreveu como «estridor operático», transformando-se isto em «escritor operário» depois da revisão. Quem sabe se o revisor pensaria no próprio Saramago ao realizar tal transformação no texto?...

domingo, 18 de junho de 2017

Pedrógão Grande e uma dor que é nossa

Temos sempre a sensação de que as grandes tragédias acontecem longe daqui. Achamos que em Portugal nada acontece e que só aos outros estão destinados os acontecimentos trágicos que nos consternam, mas sem chegar verdadeiramente ao mais fundo de nós, porque a distância, queiramos ou não, sempre atenua estas coisas. Fomos Charlie, fomos Paris, fomos Londres, fomos Manchester... Hoje somos portugueses que não sabemos entender nem lidar com esta dor, com este choque tremendos. Como entender que um fogo florestal leve dezenas de vidas? Como suportar que gente nossa tenha morrido carbonizada nas suas viaturas, apanhada na mais terrível das armadilhas enquanto fugia de outras chamas? Custa a entender. Não estamos habituados a sentir isto, a perceber algo assim, a lidar de perto com isto. Hoje não há distância que atenue nada, hoje não nos metamorfoseamos para «sermos» o outro. Hoje somos nós próprios, despidos de tudo, e mais humanos não poderemos ser.

A todos os que perderam os seus familiares, amigos, conhecidos na tragédia de Pedrógão Grande, o blogue «As Minhas Quixotadas» envia as mais sinceras condolências. Aos bombeiros e a todos os que mais do que promete a força humana lutam contra um fortíssimo elemento, desejamos coragem e agradecemos, do fundo do coração. Portugal hoje não é nada que não seja português, sentindo-se pequenino de tanta tristeza, enlutado até à alma. 

Soube que os bombeiros precisam de água, frutas e outros alimentos. Se viverem por perto, poderão entregá-los em qualquer quartel de bombeiros da zona de Leiria, principalmente em Pedrógão, Castenheira e Figueiró dos Vinhos. Obrigada, desde já, por qualquer ajuda que possam facultar.

sábado, 17 de junho de 2017

Poluição sonora

O que o Peter Griffin faz neste vídeo é mais ou menos o que as rádios nos andam a fazer com aquela coisa a que chamaram «Despacito» e que é... como direi... pior que má. Juro: a música anda pelas ruas da amagura.


Coisas que não entendo III

Já me cruzei, especialmente nas últimas semanas, com umas cinco pessoas que calçavam uma coisa deste género, embora todas na versão cor-de-rosa:


Note-se que calçavam isto na rua e não no recatozinho do lar. Estas, pelos vistos, são da Stradivarius e custam quase trinta euros. Vi-as aqui porque me limitei a pesquisar por sandálias peludas. Confesso que da primeira vez achei que eram chinelos daqueles que se usam em casa quando ninguém tem a decência de nos oferecer umas pantufas giras pelo Natal. Mas ao segundo e ao terceiro avistamento comecei a ficar muito preocupada e a pensar que isto devia ser a nova aberração da moda.

Não me interessam as da foto em particular, mas todo o conceito de chinelos com pêlo para usar na rua e em época quente, como usamos outras sandálias. Quem é que se lembrou disto? Quem é que considerou isto bonito? A quem é que ocorre que isto é uma coisinha bem gira para calçar e dar umas voltinhas? Aparentemente a umas quantas pessoas, já que tive a oportunidade de ver mais de um par de pezinhos enfaixados num texugo rosado em dias de grande calor. Bem sei que os gostos não se discutem, mas também tenho olhos na cara para ver que... bom... como dizer isto? Esta é capaz de ser das modas mais parvas que já vi. E é feia. É dolorosamente feia.

Palavra que às vezes gostava de estar na cabeça dos designers que se lembram destas coisas. Como chegam a isto? Fazem um brainstorm e pensam «O que é que nos falta fazer?». E pumbas: alguém se lembra de criar uma variante dos chinelos felpudos das donas de casa da década de cinquenta para usar com uns vestidinhos e uns tops. Faz todo o sentido. Chinelos de pêlo para épocas quentes é do melhor. Aliás, perdoem-me, melhor mesmo é o pessoal que gosta disto começar a achar que pêlo é mesmo melhor no outono e no inverno, embora depois o calcanhar fique a apanhar um fresquinho desagradável. Daí a começarmos a ver isto com meias é um pulo. Melhor ainda é ver isto com as meias da raquete. E já que estamos na temática do pêlo, para quê depilar as pernas? Bom mesmo é deixar ficar os pêlos, calçar a meia branca da raquete e enfiar a chinelufa peluda para aconchegar e ala para o trabalho. Ou para a escola, onde há um «damo» todo grosso que é preciso impressionar. Bom, lá impressionado ele haverá de ficar. Não sei é se no fim isso será realmente bom...

Não sendo designer, deixo a minha ideia: para quando uma batinha a condizer com a «sandalufa»? É que uma pessoa gosta de reviver e se já temos o chinelinho a recordar a avozinha, por que não investir na bata traçada? Acaba por ser em modo Dom Quixote: onde ele via gigantes, outros viam moinhos; onde uns vêem sandálias, outros vêem chinelos (feios); e onde uns vêem um elegante vestido, outros vêm as batas traçadas usadas há umas décadas por respeitosas mães de família nos parques de campismo deste país enquanto desfiavam os pimentos para a salada. Mas «diz» que é moda e sendo moda o pessoal compra, portanto venham as batas porque os chinelos já temos.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Planos para hoje

Está tanto, mas tanto calor que os meus planos para o dia se hoje passam por... ficar no fresquinho dos lençóis a ler. Já fui ao Continente de manhã e quase morri de calor, por isso tenciono não ter mais aventuras radicais hoje. Serei, doravante, uma jibóia. 

Amanhã conto despedir-me da Feira do Livro. Foi o ano em que lá fui mais vezes e, ao contrário do que imaginava, fartei-me de comprar livros. Se ainda não passaram por lá, aproveitem para fazê-lo até domingo à noite. Depois acaba-se e só para o ano regressa a maior concentração de livros por metro quadrado. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Os melhores da Feira

Já aqui falei muito da Feira do Livro, tanto este ano como nos anteriores, e hoje volto ao mesmo, desta vez para falar-vos dos pavilhões onde senti que era mesmo uma leitora a ser tratada como tal. Com simpatia e atenção, com mais interacção do que a mera troca comercial que acontece em qualquer loja (ainda que existam livreiros extraordinários, parece-me que o espírito da Feira é diferente do dos estabelecimentos comerciais comuns), com sugestões e conselhos, enfim, editoras cujos pavilhões é um gosto visitar. Algumas estão nesta minha lista de ano para ano, mas este ano entraram duas novas.

A Cavalo de Ferro é, como já aqui disse muitas vezes, uma das minhas editoras favoritas. Além de ter um catálogo extraordinário, faz umas edições bonitas e cuidadas. Do que já li deles, as gralhas são poucas e a parte gráfica permite uma agradável experiência de leitura. Além dos livros que vou comprando ao longo do ano, passo sempre, mas sempre pelo pavilhão da Cavalo de Ferro na Feira do Livro de Lisboa e a cada ano sou agradavelmente surpreendida pelo atendimento dos livreiros que ali estão (alguns são os mesmos de ano para ano, como é o caso da livreira Ana Maurício que tão bem me atendeu há uns anos e que, pelos vistos, por ali continua a espalhar simpatia). Este ano tenho sido atendida por um rapaz de quem não sei o nome, mas que é mais um excelente representante desta belíssima casa editorial. Simpático, atento e pronto para dar sugestões ou tirar dúvidas, tem feito do pavilhão da Cavalo de Ferro um espaço a visitar. Se ainda não foram à Feira, é favor irem e visitarem a Cavalo de Ferro. Além de terem sempre muitos livros por onde escolher, serão certamente muito bem atendidos.

A Antígona é aquela editora que me enlouquece todos os anos. Felizmente, isso acontece por bons motivos. Aquela banquinha de livros manuseados (em que às vezes nem se nota nenhum defeito) leva os leitores à loucura. Já lá consegui muitas coisinhas boas. Mas, mais uma vez, além das pechinchas, o atendimento tem sido extraordinário. Mais uma vez, falamos de uma editora com um bom catálogo e com edições cuidadas, quase sem gralhas, com bom grafismo, enfim, edições que valem a pena. Juntando isso à simpatia e consideração com que tenho sido atendida, a visita torna-se perfeita. A propósito, trouxe de lá este por cinco euros: estava na banca dos manuseados e o único defeito que tem é uma página na qual a guilhotina não deve ter trabalhado muito bem, o que faz com que tenha sido rasgada à mão. Fora isso, está impecável e trata-se de uma edição bastante recente. Mais ninguém o queria e olhem... está ali à espera da nova estante. Visitem a Antígona e encham as vossas prateleiras!

A E-Primatur tem, pela primeira vez, pavilhão próprio na Feira do Livro. O trabalho desta editora já era admirável antes da Feira do Livro: publica os seus livros com o investimento dos leitores. Na página da editora existem vários projectos à espera de apoio. Aqueles que o conseguem são publicados e o leitor que contribuiu com um valor previamente estipulado para a realização do livro recebe-o em casa. O catálogo está a pôr-se jeitoso e as edições são bonitas. Na Feira, atendem-nos com um sorriso, com sugestões e dando-nos a conhecer projectos que estejam para sair. Fazemos uma compra e dão-nos um catita saco de pano e uns marcadores (sem regatear e sem precisarmos de pedir, como temos de fazer noutros pavilhões...). Não sei se a Feira termina sem que lá volte, que tenho a prosa do Mário Henrique-Leiria debaixo de olho.

A Letra Livre é uma livraria/alfarrabista com loja na Calçada do Combro. Consegui comprar no seu pavilhão a obra completa do Borges, esgotadíssima, por dez euros cada volume. Consegui, ainda, que me arranjassem o terceiro volume da História das Mulheres no Ocidente, o único que me faltava. Vinha sem sobrecapa, mas o livreiro teve a simpatia de me arranjar uma sobrecapa e levá-la para a Feira uns dias depois. Muitos ter-se-iam esquecido ou nem sequer se tinham comprometido em arranjá-la, mas na Letra Livre as coisas não funcionam assim e os livros são levados a sério, assim como os leitores que os compram. O pavilhão da Letra Livre está na zona dos alfarrabistas à vossa espera porque de mim já devem estar fartos. 

A Feira tem de tudo, como acontece sempre. Encontram-se boas pechinchas e gente simpática. Encerra no Domingo e depois já só em 2018. Por isso, aproveitem enquanto ainda dá. É sempre bom celebrar o livro e trazê-lo para casa, se possível.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Paradoxos desta vida

Ontem fui com o moço à Feira do Livro. Já sabia que seria o dia em que iria ao pavilhão da Tinta da China, pois iriam estar como Livro do Dia dois livros que eu queria da colecção de viagens: o Espanha e o Sibéria. Como têm a promoção "Leve 4, pague 3" e como também queria o do Somerset Maugham da mesma colecção, trouxe-o também e escolhi ainda o livro Os Bebés de Água para ter acesso à promoção. Assim, o Sibéria viria gratuitamente. 

No fim, a conta (já sem o livro de oferta) era de 42€ e uns cêntimos. Pedi ao senhor que me estava a atender uns marcadores. Vem logo de lá depresaa uma colega mais velha para dizer que todos aqueles livros tinham "fitilhos". Tive de explicar-lhe que não gosto de fitilhos e que prefiro marcadores. O rapaz, meio aflito, lá pediu ao colega do pavilhão em frente, pertencente à mesma editora, para me dar uns marcadores, coisa que ele fez, embora fizesse questão de notar que não tinha muitos.

Fiquei muito mal impressionada com este pavilhão que, ano após ano, revela ser uma desilusão. Por um lado os descontos mal se notam, a menos que usufruamos da referida promoção, por outro, acho incrível estar quase a negar uns reles marcadores a quem deixou mais de quarenta euros na editora. Os livros podem todos ter fitilhos, que a mim pouco me importa  já que nunca os uso. Perante a minha pergunta sobre se tinha marcadores, só havia duas respostas que me fariam sentido: ou sim ou não. Agora, salientar que os livros já vêm com fitilhos para marcar as páginas dando implicitamente a entender que não precisaria dos marcadores para nada pareceu-me feio. 

O paradoxo, para mim, está no facto de se tratar de uma editora de grande qualidade, que faz livros capazes de deixar os leitores a babarem-se, tanto sobre os títulos como sobre a parte gráfica dos volumes. Não são, por isso mesmo, livros baratos, mas faz-se o esforço para comprá-los. E depois ficamos a sentir que estamos a fazer um grande favor ao fazer compras. Tanto que até um marcador parece ter de ser regateado. Não gostei da atitude da funcionária, fiquei mal impressionada. Mas pronto, lá trouxe os livros e os marcadores e isso é que importa. Para o ano há mais Tinta da China. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A Menina QUERIA Isto, Mas Já Tem VII


O que seria da minha vida sem os alfarrabistas? Faltava-me este volume. Pedi-o num alfarrabista e ele apareceu no dia seguinte e em excelente estado. Vinha apenas sem sobrecapa. O livreiro disse que talvez ma conseguisse arranjar. Pensei que fosse esquecer-se, mas hoje lá estava ela à minha espera. Magnífico!

Na editora, o livro custar-me-ia mais do dobro do que paguei e estava em pior estado. Dito isto, consegui todos os cinco volumes da História das Mulheres por um total de... 25€. Ide lá ver quanto custaria ela originalmente e pasmem-se. Até eu me pasmo com estes achados.

Aviso aos loucos por pechinchas

Estimados quixoteiros, informo-vos que o Grupo Porto Editora reforçou hoje os stocks de pechinchas. Os caixotes das promoções voltaram a estar cheios de livros a 3.50€ (e outros preços). Alguns dos livros podem nem ser do vosso agrado, mas não custa espreitar. Além disso, voltam a estar disponíveis os Raymond Carvers a preços catitas. Mas vindo aí o fim-de-semana, a coisa não deve durar muito, por isso despachem-se. Não digam que eu não avisei, seus bibliófilos empedernidos. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O penduricalho

Acordar às cinco e pouco da manhã com uma cauda farfalhuda pousada na cara é qualquer coisa digna de uma quixotada. E digno de gargalhada foi o facto de eu ter apalpado a cauda e seguido por ela a cima até apalpar o gato que lhe está agarrado. Neste caso era uma gata que tinha resolvido descansar em cima da minha mesa de cabeceira, sobre os livros e revistas que lá estão. Como o seu adorno felino em modo penduricalho é muito impertinente, lá tive eu um despertar único. O pior é que já não consegui dormir mais. Gatos... Sempre a proporcionarem experiências únicas. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Feira do Livro - rondas... Já lhes perdi a conta!

E mais estes:







Tenho passado pela Feira. O facto de ter tempo livre ajuda bastante. Além disso aproveito o Parque Eduardo VII nesta altura de maior movimento para ficar a ler um bocadinho à sombra e, acreditem, sabe tão bem fazer isso. Com o ritmo de vida que temos, com o pouco tempo que sobra depois do trabalho (coisa de que sofri durante anos), poder ter esses momentos nossos é precioso.

Contudo, não escrevo esta quixotada só para dizer-vos isto. As minhas voltas pela Feira já me permitiram tirar algumas conclusões e partilhá-las convosco aqui. No fundo, são factos e opiniões sobre esta edição do evento, à semelhança do que já tinha feito no ano passado. Aí vão elas.

1. Parece que este ano quem foi à Feira antes do primeiro fim-de-semana pôde encontrar pechinchas que depois disso desapareceram e não foram repostas. Na quixotada anterior mostrei-vos os livros do Raymond Carver e da Nelida Piñon que vieram a preços de saldo (3.50€) do espaço Porto Editora. Pois... Passei ontem pela Feira e não havia nem um para amostra. Agora nos caixotes só estão livros mais caros. Espero que até ao fim da Feira possam voltar a disponibilizar aqueles e outros títulos a preços tão simpáticos como aqueles que consegui.

2. Há muitas editoras que estão a fazer descontos tão pequenos, mas tão pequenos que mal nos apercebemos deles. Quando torcemos o nariz aos preços alguém nos diz “Mas esse vai estar na Hora H”. Ok, bom para ele. Mas se é possível ir para mais de metade do preço entre as 22 e as 23 horas, por que motivo não está pelo menos com trinta ou quarenta por cento durante o dia? Não se compreende. E já cheguei a ver livros do dia com descontos de vinte por cento. Não percebo a ideia. Com tantos livros que podemos comprar naquela feira, a coisa mais fácil do mundo é virar as costas a um preço pouco simpático e passar ao próximo. 

3. É a Relógio D’Água com a Elena Ferrante e a Gradiva com o José Rodrigues dos Santos: não saem do livro do dia. Portanto, quem gosta de outras coisas e espera que elas também cheguem a ser livro do dia lixa-se. Já se percebeu que são autores que vendem, mas assim também se perdem hipóteses de vender outros. Note-se que a Relógio D’Água tem vários livros em promoção diariamente. Mas na parte literária a Elena Ferrante tem estado sempre como livro do dia. Outros livros que até costumavam passar por essa distinção em anos anteriores não tiveram ainda hipótese. Ok, ainda há muita feira pela frente, mas confesso que já enerva isto de pôr sempre os mesmos best sellers em destaque.

4. É capaz de ser o ano em que vejo mais novidades a serem lançadas na época da feira. São apetitosas, é certo, mas estando ainda quentinhas, mal têm descontos. Ficamos a babar-nos para cima delas, porém acabamos por não comprar porque custa comprar na Feira do Livro edições praticamente ao preço de capa. Nos outros anos anteriores não me apercebi tanto deste fenómeno. Se calhar começou este ano, não sei.

5. Algumas editoras (nomeadamente da Porto Editora) optaram por não levar vários livros para a Feira. Por exemplo: têm colocado tantas vezes aqueles livros grandes com os contos dos Grimm e do Hans Christian Andersen como livro do dia que já enjoa e nem sequer disponibilizaram na feira aqueles livros do Francisco Vaz da Silva com as versões dos diferentes contos. Faltam-me dois volumes e pelos vistos vão continuar a faltar. Fiquei um pouco desiludida com esse aspecto. Até percebo que não possam levar tudo, mas estamos a falar de livros recentes, fazia sentido que lá estivessem. Enfim, tenho de desenrascar-me noutro sítio.

6. Parece que o El Corte Inglés resolveu não estar na Feira do Livro este ano. Uma pena. Os livros em espanhol são mais baratos e compravam-se uns livros de bolso de edição espanhola baratíssimos com o desconto da feira. Além disso, era um pavilhão que tinha sempre objectos giríssimos relacionados com livros e com a leitura: candeeiros, marcadores, suportes para livros... Este ano temos de passar sem esse pavilhão. Até me doeu na alma, pois era um dos meus favoritos.

E pronto, por hoje fica assim. Mais umas 476 rondas pela feira e regresso. Hasta luego!

Ps.: Ainda não revi esta quixotada. Depois volto para fazer isso, que agora tenho pressa. Perdoem as gralhas. Serão corrigidas.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Feira do Livro - 2.ª Ronda

Segundo dia, segunda ronda. Isto de ter tempo livre é do caraças. Trouxe de lá umas coisinhas porreiras. Aproveitei três livros do dia, mas depois encontrei também vários livros bons a preços de uva mijona na praça da Porto Editora. Resultado: desgracei-me. Agora a ver se passo uns dias sem pôr lá os pés senão arranjo um sarilho. A ver se me aguento até ir com o moço, embora ele não me trave os ímpetos livrescos e ainda os incentive. Mas assim ajuda-me a carregar os sacos...

Hoje trouxe isto:










(A imagem vê-se mal, mas o livro chama-se Autobiografia do General Franco e é de Manuel Vásquez Montalbán. Esta edição era caríssima e está esgotada. Encontrei-a a cinco euros num alfarrabista.)

Ontem trouxe:



(Era uma das promoções do dia no pavilhão da Cavalo de Ferro e era um livro que eu já queria havia muito tempo.)


(Não sendo livro do dia, o Sinais de Fogo estava, todavia, a metade do preço.)



Note-se que os livros da Nova Vega saíram da lateral do pavilhão, onde encontramos exemplares manuseado e muitíssimo mais baratos. Não têm qualquer problema (o da última imagem parece ter uma etiqueta, mas não é o meu, pois não me apeteceu fotografar os livros). Aliás, em alguns pavilhões, visitar as partes dedicadas aos livros manuseados pode mesmo ser a melhor ideia. Se em alguns casos os defeitos são visíveis, noutro vive-se bem com eles e o preço é menor. Enfim, quem quer uma biblioteca tem de saber dar a volta à questão. Agora só me pergunto como vou contornar a necessidade de ter uma nova estante...

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Feira do Livro - 1.ª Ronda


Claro que tinha de ir à Feira no primeiro dia. Mas só vos mostro as compras depois porque hoje estou que não posso com uma gata pelo rabo (calma, Gatica: é só uma expressão feita!). 

Confesso que não está a Feira mais deliciosa de sempre, mas dá para matar as saudades e, acreditem, consigo sempre encontrar por lá qualquer coisinha... 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Amanhã


Começa amanhã! Vamos?

A Menina Sugere Isto XXX


Gosto muito da marca La Roche Posay. Passei a conhecê-la quando o meu dermatologista me receitou um creme hidratante para melhorar as irregularidades na pele. Hidrata que é uma coisa parva, mas eu é que não tenho muita paciência para me untar nele. O problema é meu, que saio a perder.

Depois, a conselho da minha farmacêutica, comecei a usar o Óleo Lavante Lipikar em vez do comum gel de banho e a minha pele notou bem a diferença. Ainda que continue seca, já não parece que estou constantemente a escamar. Sinto-me muito mais confortável e vale bem a pena o investimento.

Agora comecei também, depois das duas experiências bem sucedidas com o creme e o óleo lavante, a usar o champô da La Roche Posay que podem ver na imagem, o Kerium, entendido pela marca como um champô-gel fisiológico. Não tem parabenos e para mim, que sofria com os champôs normais (ultimamente usava o Ultra Suave), tem um benefício maravilhoso: diminui a irritação e a comichão no couro cabeludo. Além disso, o cabelo fica com bom aspecto na mesma. Faço, então, uma pausa nos típicos champôs que compramos nos hipermercados e que, por algum motivo, me deixavam o couro cabeludo irritado.

Sugiro-vos que experimentem o óleo lavante e o champô. Para quem dá prioridade aos cheirinhos, então ficam já avisados de que estes produtos não são cheirosinhos como os que por aí encontramos. Ou não têm cheiro ou têm muito pouco. Mas são bons e fazem bem à nossa pele. Aparentemente podem parecer caros, mas duram bastante tempo porque com pouca quantidade de produto conseguimos tomar duche ou lavar o cabelo. Se comprarem nas Farmácias e tiverem o Cartão das Farmácias, vão conseguir juntar pontos com estes produtos. Devem também estar atentos porque de tempos a tempos as farmácias fazem promoções nos produtos da La Roche Posay. Se comprarem na Well’s, lembrem-se de usar o cartão Continente e os vales de desconto que mensalmente recebem. Mas não deixem de experimentar porque se eu, a rainha da pele esquisita, estou satisfeita, como ficarão então os comuns mortais?!

Quixotada que não o foi

Eu gostava muito de vos escrever uma quixotada na qual ia partilhar convosco uma coisa de que gosto muito. Mas parece que o router que foi colocado na semana passada deve ser arraçado de preguiça e não consigo abrir a página do produto em questão. Pelo menos parece-me que não vou conseguir abri-la nesta vida. 

Um dia, minha gente, um dia a página abrirá e eu conseguirei escrever a quixotada que queria. Haja fé!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Os espantalhos

Os espantalhos são criaturas que parecem estar mortas estando vivas. Pior: que nos fazem morrer um bocadinho cada vez que temos o azar de cruzar-nos com elas. Bem, cruzar-nos nem é bem o termo certo já que eles não nos dão lá muito a hipótese de nos cruzarmos...

Os espantalhos são aquelas pessoas que andam pelo passeio a pisar ovos e que nem dão por nós quando já estamos mesmo atrás deles e a implorar para nos deixarem passar. Ou se calhar até percebem que estamos ali e simplesmente escolhem continuar a morrer pelo passeio e a matar-nos de nervos. Também há a versão colectiva dos espantalhos. É visível quando mais do que um espantalho forma uma linha horizontal que ocupa todo o passeio. Se já o Espantalho de O Feiticeiro de Oz era desprovido de miolos, estes seres estranhos do século XXI seguem o paradigma e não percebem que o mundo não é só deles.

Mas o que ainda me espanta mais é que, de um modo geral, os espantalhos andam muito, mas mesmo muito devagar. E mesmo quando dão por alguém que quer ultrapassá-los demoram a reagir e a desviarem-se para cederem passagem. Parecem apoucados de todo. Mas muitas vezes parecem ainda mais mal educados porque colocam o ar de quem vai fazer um extenuante favor à Humanidade quebrando a tal fila horizontal de converseta para deixarem passar o comum mortal. Chega a ser inacreditável a quantidade de gente que anda pela rua em modo de emplastro, sem rota certa, pelo meio dos passeios, em velocidade para lá de lenta. Meus amigos, querem deambular? À vontade! Mas encolham-se e deixem o resto do passeio livre para quem não quer andar a apalpar o chão com a sola dos sapatos. Um bocadinho de bom senso seria mais do que suficiente. Se o passeio tem gente a percorrê-lo nos dois sentidos, por que raio o ocupam todo horizontalmente apenas para conversarem melhor? Não podem, pelo menos, ir aos pares? Irra!

Não vejo fim à vista para os espantalhos. Por isso, ou eu me transformo também num e submeto-me ao «Se não podes vencê-los, junta-te a eles.», ou continuo a aguentar este inferno até que um meteorito estoure com a raça humana como fez com os dinossauros. Já estive mais longe de soltar audíveis palavrões no meio de um passeio, mas tenho-me segurado. Sei lá se vou conseguir fazê-lo da próxima vez que tope com um gangue de espantalhos em rodinha para a converseta pós-almoço no meio da rua. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Promoções e uma parceria

É a rambóia anual: nos dias antes da Feira do Livro, as livrarias grandes começam a fazer descontos. Por isso, meus caros quixoteiros viciados em livros, ficam aqui dois recadinhos com cheirinho a papel impresso.

Ali no lado direito do blogue encontram uma referência à Wook e à campanha que fará amanhã: 20% de desconto em livros (respeitando a Lei do Preço Fixo) e portes grátis. Eu já estou a preparar os dedinhos para mandar vir o volume que me falta da História das Mulheres no Ocidente. Podem clicar sobre o banner neste blogue e vão parar directamente à página da Wook. Sim, é a primeira e única parceria deste blogue com uma marca. É uma parceria modesta, mas sempre deixei aqui claro que gosto da Wook e que nunca tive qualquer razão de queixa. Por isso, depois de alguns anos de «namoro», acabei por aceitar associar-me à livraria.



Também a FNAC terá promoções nos próximos dias, tendo ainda os famigerados Dias Aderentes de 2 a 4 de Junho. Visitem a página e vejam se há alguma coisa que vos interesse.

Bem sei que num mundo justo e ideal, iríamos todos a livrarias de rua, livrarias que não conseguem fazer estas promoções estrondosas e que lutam para subsistirem. Mas, infelizmente, o dinheiro não abunda e os livros que queremos são muitos. Acabamos por tentar poupar o máximo que conseguimos e, infelizmente, pelo caminho fica quem não merece. Também nisto dos livros, um mundo tão maravilhoso, encontramos as injustiças de quem sabe que o bom é inimigo do óptimo.

domingo, 28 de maio de 2017

Babelia grátis nos tablets

No país ao lado, aos sábados, sai com o El País o conhecidíssimo suplemento literário chamado Babelia. É excelente e até há algum tempo, se quiséssemos lê-lo, tínhamos de comprar o jornal (que nem se vende por cá em todo o lado) ou pagar quase um euro pela sua edição digital. Mas desde há algum tempo isso mudou. Tendo a aplicação da Babelia, podemos descarregar nos nossos tablets ou telemóveis a última edição ou mesmo edições mais recentes do suplemento. Na última vez em que quis ler uma das edições ainda paguei, mas hoje andei a espreitar os temas das edições seguintes e apercebi-me de que todas estavam sem preço e disponíveis para transferência. Com uma rápida pesquisa descobri aqui que afinal agora o Babelia é mesmo gratuito e isso, caros amantes de livros, é uma daquelas generosidades que o universo nos concede de tempos a tempos e que nos sabem pela vida! É um bom suplemento, muito rico, muito bem escrito e editado que nos faz lamentar a pobreza de espírito que faz com que em Portugal os livros tenham desaparecido quase totalmente dos jornais. Enfim, vale-nos o país vizinho que nisto da cultura é mais inteligente que nós. Aproveitemos todos! Eu já fiz o download de duas edições para ler em tempos mortos (já que nem é preciso acesso à internet uma vez feita a transferência). É aproveitar, minha gente!

E já que estamos (mais uma vez) numa de livros, lembrai-vos de que na próxima quinta-feira, dia 1, abre a Feira do Livro de Lisboa. Não aconselho uma visita logo no primeiro dia porque a Feira abre em pleno Dia Mundial da Criança e deve estar cheia de escolas, tendo ainda a programação voltada para os pequenotes. A menos que tenham filhos e queiram acompanhar os vossos petizes nesse dia e assim esse será o dia ideal. Mas se esse não for o caso, aguardem. Informação útil: a Hora H só terá início na semana seguinte. 

Boas leituras, meus queridos quixoteiros!


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peculiaridades de um leitor VII


Há dois tipos de leitores: por um lado, os que têm grande controlo sobre a sua estante e que conseguem ter uma lista relativamente pequena e comedida de livros por ler (às vezes até os têm bem contadinhos); por outro, os que querem lá saber se têm uma grande ou pequena fila de livros em espera e que compram mais e mais e mais e mais livros. Pertenço claramente ao segundo grupo.

Eu tento, tento, tento, mas não há maneira: basta cheirar-me a livros que eu vou, qual perdigueiro na caça! Ainda ontem, depois de tomar um simpático pequeno-almoço na Padaria do Bairro, vou a atravessar a estrada e bato com os olhinhos na Leituria. Lá fui eu e lá descobri os livros da colecção da quixotada anterior a um preço fofinho de mais para não virem comigo. Mais cinco, portanto.

Já passei por épocas com muito trabalho em que quase deprimia ao olhar para as estantes. Ficava até um bocadinho ansiosa por pensar que à velocidade a que lia, nunca conseguiria ler nem metade da minha própria biblioteca. Escolher o livro seguinte era, por isso, também motivo de ansiedade, imaginem só (acho que já perceberam que tive problemas de ansiedade, cortesia da minha antiga vidinha profissional). Agora, com mais tempo e uma cabeça mais tranquila, já não é bem assim. Leio mais do que um ao mesmo tempo e despacho-os à velocidade da luz. Como este ano resolvi dar uso ao Goodreads, sei o que já li e o que anda pendurado e a custar a engolir. O número de livros começados e terminados desde o início do ano já vai nas três dezenas, o que não me parece mal.

Mas estou a fugir ao tema. Conheço casos de quem só compra à medida que lê e que não quer ter livros parados na estante, eternamente à espera de que chegue a sua vez. Admiro o racionalismo dessas pessoas porque eu sou totalmente desprovida dessa capacidade. Sou mais uma espécie de lobo esfaimado dos livros. Não sei controlar-me assim. E nem sonham o gozo que me dá quando se fala de um livro (e mais ainda quando não é de literatura) e penso «Já tenho.», podendo por isso chegar a casa e lê-lo se assim o entender. No curso livre que frequento isso já aconteceu algumas vezes.

Quando era mais miúda, também tinha as filas de espera controladas e não gostava. Por isso relia muito. Hoje não o faço tanto porque sei que ainda tenho muito por ler e não preciso de ir repetindo leituras. Quando o faço é porque adorei mesmo o livro ou por motivos profissionais, problema que por agora não se coloca. Hoje não sou controlada porque tenho um grande apetite e mais ou menos variado, tanto que não posso ver uma boa oportunidade e passar ao largo. Há quem consiga. Há quem consiga não ir à Feira do Livro, por exemplo, porque tem ainda muito por ler em casa. Eu consegui comprar uns quarenta livros na Feira de 2016... Enfim, são novamente peculiaridades de leitores capazes de agirem de formas diferentes relativamente ao mesmo objecto. Há os descontrolados e os que seguram bem as rédeas da sua biblioteca. Esses são os que à típica pergunta «Mas tu já leste isto tudo?» podem responder que sim. Eu nunca o poderei fazer, a menos que me torne imortal.

Nota: A imagem saiu daqui.

A Menina Quer Isto LXXXIX



A menina quer especificamente estes dois porque entretanto conseguiu os outros cinco volumes a cinco euros cada um (ora espreitem aqui, embora eu tenha conseguido os meus na Leituria). Mas, não sei bem porquê, estes dois livros mantêm-se a 16.60€, mesmo tendo edições de 2013. Enfim, resta-me esperar que o preço desça, tal como desceu o dos restantes volumes ou que alguém seja fofo e mo ofereça. Tendo em conta que ainda faltam muitos meses para o meu aniversário e para o Natal, não me parece que vá conseguir grande coisa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Menina Sugere Isto XXIX


Tenho andado meio desaparecida do blogue (muitas celebrações: ele é o campeonato, ele é a Eurovisão, eles são os doze anos de namoro...), mas as leituras não param. 

Nos últimos dias, tenho lido as aventuras do celebérrimo Manolito Gafotas, muitíssimo conhecido e adorado pelos nuestros hermanos. Lembro-me de na cadeira de Espanhol, durante a Licenciatura, o professor nos dar um excerto do primeiro volume da colecção. Foi o suficiente para nunca mais me esquecer da existência do Manolito e do significado da palavra "gafas". Mas, mesmo assim, nunca me tinha dedicado realmente às aventuras deste pequeno. 

Agora que comecei a lê-las digo-vos que são tão viciantes que só hoje e em poucas horas li todo o segundo volume. Agora vou ver se faço uma pausa para não acabar os livros e ficar sem nada (embora sejam oito no total). 

Manolito Gafotas é uma criança nascida pela mesma altura que eu, mas em Madrid. Vive em Carabanchel Alto e é prodigioso a fazer disparates. Conta-os nos seus livros com uma ironia e um sarcasmo inigualáveis. O humor desta personagem que viveu uma daquelas infâncias que nos provocam saudades chega para arrancar sorrisos e até gargalhadas. Tem um irmão pequeno que só trata por "imbécil" e que tem um problema de ranhos. Tem uma mãe com a mão pesada e um avô adorável. O Manolito (e os disparates em que se mete) poderíamos ser todos nós, especialmente os que cresceram e frequentaram a escola nos anos noventa e com a liberdade que ainda existia para bricarmos na rua com os nossos amigos ou para irmos sozinhos às suas casas. 

E se isto não chegar para convencer-vos, digo-vos que estes livros, ou melhor, que esta colecção venceu o Prémio Nacional de Literatura Juvenil, o que sempre pode querer dizer alguma coisa. Também o ilustrador recebeu, pelo conjunto da sua obra, o Prémio Nacional de Ilustração. Por tudo isto, porque são bons livros de literatura infanto-juvenil e porque ler livros  escritos originalmente para os mais jovens só nos faz bem, a menina sugere isto. Todos nós já fomos (ou ainda somos) um pouco Manolitos. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Menina Sugere Isto XXVIII


Para quem gosta, saiu um novo número da Edição Especial História da National Geographic. Já tenho a minha revista e vou lançar-me a ela esta tarde.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Menina Quer Isto LXXXVIII


A menina não sabia que este livro tinha saído. É um livro robusto, mas - pasmem-se - é apenas o primeiro volume da obra completa de Mário-Henrique Leiria! Os seguintes tratarão da sua poesia, das suas cartas e outros textos dispersos. Por isso este, que reúne a ficção do autor, é mesmo o que mais me interessa. A menina quer, porém o livro não é lá muito barato (se bem que se trate de uma edição vistosa, grande e bem cuidada). Enfim, acho que vou esperar por uma promoção fofinha. 

Que difícil é ser livrólica!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A tarde de ontem


Aqui na zona existe uma loja que vende CD’s, vinis, DVD’s e livros em segunda mão. Há umas semanas vi lá esta série completa por um preço simpático. Trouxe-a na semana passada e ontem dediquei-me aos três primeiros episódios. Ao ver o segundo senti músculos que nem sabia que tinha de tanto que me ri. O John Cleese, o eterno Monty Python, é um actor fenomenal. Esta sua personagem de dono de hotel completamente descompensado, rodeado por uma esposa autoritária, um empregado espanhol que não fala inglês e uma funcionária que só é competente quando quer é do mais hilariante que podemos imaginar. Além de descompensado e preguiçoso, anseia por encher o seu hotel de gente de classe alta, no entanto gosta pouco de investir nele... O resultado é, normalmente, a asneira.

Lembro-me de ver esta série na televisão há muitos, muitos anos. Contrariamente a muitas comédias, esta não perdeu a piada com o tempo. É absolutamente deliciosa. Tanto que esta quixotada podia chamar-se «A menina sugere isto».

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Peculiaridades de um leitor VI


Emprestar livros. Duas palavras que, quando juntas, são o terror de muitos apaixonados pelos seus livros. Lembrei-me de falar disto porque na aula da semana passada, a professora que está a falar sobre o Se numa noite de inverno um viajante, do Calvino, falou sobre o facto de ter emprestado a sua primeira edição desse livro e de nunca mais o ter visto. Lembrou, a propósito, as sábias palavras de uma maravilhosa filóloga já falecida que tive como docente no meu curso, Maria Lúcia Lepecki: «Mas você não sabe que nunca se empresta um livro!». Concordo inteiramente com ela.

Abro algumas excepções: a minha mãe e a minha irmã. E fico por aí. Empresto-lhes porque sei que as vejo com frequência e que o livro volta (no caso da minha irmã corro o risco de ele ser tão bem arrumado que leva anos a reaparecer, mas pronto). Mas não empresto a mais ninguém. Isto perturba algumas pessoas que acham de um egoísmo enorme não permitir que outros leiam os meus livros e depois os devolvam. Mas vamos ver: já emprestei livros que não voltaram e outros que regressaram em mau estado. Cheguei a um ponto em que disse que bastava: não andava a comprar livros e a estimá-los tanto para depois não os voltar a ver ou reencontrá-los sujos e muito diferentes do estado em que os emprestei. Quem me conhece bem nem me pede livros emprestados (muito menos os Quixotes). Quem não me conhece assim tão bem distrai-se e solta um «A ver se me emprestas um livro para eu ler nas férias.». Nunca se concretiza.

Há, portanto, dois tipos de donos (e amadores) de livros: os que emprestam e os que se recusam a fazê-lo. Respeito os dois. O que não respeito é a mentalidade de tantas e tantas pessoas que se «esquecem» de devolver aquilo que pedem emprestado. Se alguém me empresta alguma coisa, devolvo o mais depressa possível. Aliás, até evito pedir coisas emprestadas precisamente para não sentir a pressão da devolução. Mas cada vez me acho mais um bicho raro porque me parece que eu e a minha mãe somos as únicas a pensar assim. A minha irmã disse-me há uns tempos que tinha ficado sem dois dos seus livros favoritos porque os emprestara sem que os devolvessem. Um deles está esgotadíssimo e nunca mais conseguiu um exemplar. Isto faz sentido? Para mim não.

Claro que tudo isto depende do grau de desprendimento que temos em relação às nossas coisas e eu sou muito picuinhas. Há quem não se importe assim tanto com o facto de o livro não voltar ou com a possibilidade de ele não regressar exactamente como foi. Afinal, os livros são para ler e não para adorar as suas páginas imaculadas. Contudo, eu não consigo ser assim. Acho que se me esforço para ter a minha biblioteca ideal, não mereço depois que alguém me desapareça com os livros ou que os trate mal. Provavelmente até paga o justo pelo pecador, mas infelizmente não vejo como possa ser de outra maneira. Abro as já referidas excepções e fico-me por aí.

A relação de um apaixonado por livros com a sua biblioteca pessoal é difícil de compreender e varia muito de pessoa para pessoa. Acho que um verdadeiro leitor cria com o objecto uma relação de empatia que dificilmente se repete. Tendemos a ter os livros de que gostamos e, por isso mesmo, custa-nos mais perdê-los. Não é justo que a perda surja precisamente depois de um acto generoso quanto o de emprestar um livro. Como no caso da minha irmã, em que emprestou os seus livros favoritos e foram precisamente esses que se foram. Imaginem-me a coleccionar Quixotes para depois ficar sem eles ou vê-los voltarem em mau estado. Acho que me tornaria numa pessoa violenta. Mesmo muito violenta.

Por isso não pude evitar sorrir quando ouvi citada a teoria da Prof.ª Maria Lúcia Lepecki, pois é também a minha há já muito tempo. Já cheguei a pensar que era mesmo má pessoa por não emprestar os meus livros, mas afinal não sou a única. Até os professores universitários vão chegando à mesma conclusão. Infelizmente, não podemos achar que todos são certinhos como nós e, como costumo dizer, «bondade a mais é burrice». 

E vocês, «quixoteiros», emprestam os vossos livros? Contem-me tudo. Falem lá das vossas peculiaridades enquanto leitores. 

Nota: A imagem saiu daqui.