sábado, 19 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XI


Há alguns anos passei pela situação descrita acima e pensei que só eu é que sentia aquilo. Na altura fiquei mesmo preocupada porque não percebia como poderia ser possível alguém que lia tanto ver-se, de repente, incapaz de ler. Na verdade, era como se não conseguisse concentrar-me para ler, por pouco tempo que fosse. Pegava num livro e nada. Não sentia nada e, mesmo quando me esforçava para conseguir concentrar-me, era impossível e acabava por distrair-me. Somava-se a isso a culpa por continuar a comprar livros, embora fosse difícil ler mais do que uma página. 

Um dia li num blogue a descrição que alguém fazia do mesmo problema. A autora estava a atravessar a mesma fase de bloqueio que eu vivera antes. Foi aí que percebi que é algo que acontece. É chato, mas acontece. É como se de repente um hábito nosso se tornasse estranho para nós mesmos. Parece que há duas partes do cérebro em conflito: aquela que sabe que adoramos ler e conhecer novas histórias através dos livros e a outra, a que, subitamente, é incapaz de fixar uma página por mais de cinco segundos sem desatar a pensar noutras coisas.

Ando novamente numa fase destas. Não tão grave como noutros tempos porque está a acontecer apenas com livros. Continuo a ler revistas e, mesmo não estando concentrada como seria de esperar, pelo menos estou a ler. E tenho tantas em atraso que bem posso dedicar-me aos periódicos. Mas com os livros a coisa está meio parada. Parece mesmo que só quero é ver o livro acabado, ainda que não me esteja a apetecer muito viver o processo necessário para chegar ao fim. É estúpido, mas é mesmo tal e qual o que está descrito na imagem. Encontrei-a no Facebook há uns tempos e, somando-a à minha experiência e à da blogger que li e de que já falei, sou levada a crer que isto não é assim tão raro. 

Noutros tempos atribuí a culpa ao cansaço. Agora não tenho nada que culpar. Simplesmente o meu cérebro não está com vontade de dedicar-se com afinco a um livro. Parece que olha para ele e acha-o muito grande e muito cansativo ainda antes de pegar-lhe. É um cérebro leitor que mostra a sua vontade de parar um bocado, de olhar para outras coisas, de passear em vez de ler; de ir à praia em vez de ficar a ler; de estar a olhar para ontem em vez de prestar atenção às páginas de um livro. Isto acaba por passar, claro. Acho que o calor também não ajuda. Mas esta é mais uma das nossas peculiaridades. Adoramos os livros, adoramos ler, mas por vezes até este amor tem de ficar pendente porque não se consegue concretizar com a qualidade a que estamos habituados. Há males maiores, por isso pode conviver-se com este durante uns tempos. Ainda assim não posso deixar de pensar que tenho tanto para ler e que assim estou a perder tempo... 

Portanto, verão ali durante uns tempos os mesmos livros nas leituras que presentemente faço. Vou aproveitar a fase para dedicar-me às revistas já que parece que o meu cérebro está cansado de ficção, mas não de reportagens e de entrevistas. Espero, no entanto, que esta «peculiaridade» não dure muito tempo porque a biblioteca está sempre à espreita.

Em busca de lugar na estante III


Custa originalmente 25€, mas consegui-o por 7.50€ numa promoção da Bertrand online. Tenho tudo e mais alguma coisa de Saramago, inclusivamente entrevistas, mas queria ter esta selecção de excertos seus, compilados a partir de muitas entrevistas dadas por ele. E fico ainda mais contente por ser uma edição da Caminho, que assim não destoa dos outros livros todos que tenho. Na realidade, livros de Saramago nunca procuram lugar na estante, pois têm-no sempre garantido.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

É mesmo isso

A The New Yorker continua a acertar em cheio nas capas. Infelizmente. 


In Memoriam

Todos sabemos o que foi o 11 de Setembro. Todos nos lembramos do que aconteceu a 11 de Março. Todos recordamos as Torres Gémeas e Atocha pelo que de pior ali aconteceu. 

Mas muito mal vai o mundo quando já não há memória suficiente para tantas datas, para tantos lugares, para um tão grande número de vítimas. O terrorismo tomou conta da nossa realidade e está por isso mesmo a adormecer-nos a memória. Quando Nice já se confunde com Londres, quando Barcelona se confunde com a Suécia, quando Boston e Paris não se distinguem, muito estranho e horrendo está este nosso mundo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando penso que já vi de tudo...

... apercebo-me de que ainda sou um bambi muito pequenito e com muito para me surpreender. O que se segue existe e peço-vos que, além de todo o evidente disparate, reparem bem no nome da editora que publica o livro. Isto já não é novo, mas só hoje dei de caras com tal coisa. 


Já agora apreciem também aqui a entrevista à autora por alturas da publicação disto

Nota: Desculpem-me a falta de formatação desta quixotada, mas escrevi-a na aplicação do Blogger no telemóvel e não dá para mais. Logo que possa, dou-lhe um jeito. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os pastores do «shopping»

Se há coisa que me deixa à beira da loucura é ir ao centro comercial e ter pela frente aquilo que chamo um «pastor do shopping». E o que é isso? São pessoas que andam tão lentamente, mas tão lentamente que nos colocam a dúvida de estarmos no Colombo ou na procissão do Senhor dos Passos. Há pessoas que vão para o centro comercial ver as vistas como fariam numa caminhada à beira-mar. E os desgraçados que vão atrás e que sabem bem para onde querem ir têm de abrandar a marcha para não varrer estes pastores desprovidos de gado.

O problema aumenta quando acontece em lugares estreitos ou com muita gente e onde não podemos desviar-nos destes caracóis do comércio. Imaginem: saem do cinema, querem ir jantar e levam mais de meia hora para chegar ao restaurante porque ali na zona há gente que anda tão devagar que têm de olhar com muita atenção para ver se estão realmente a mexer-se. 

Por isso, pastores do shopping, deixo a seguinte sugestão: se, qual Caeiro ou Cesário, aquilo de que gostam mesmo é de deambulações, façam como os poetas e vão até ao campo (ignorem a veia citadina do Cesário, que era muito dada à fealdade), arranjem um rebanho a sério e ponham-no a pastar. Aproveitem e caminhem atrás da ovelha mais velha e manca que tiverem, olhando à esquerda e à direita, olhando as árvores e as ervinhas, desfrutando da paisagem bucólica que vos rodeia. Se quiserem, podem imaginar que estão diante da Zara a olhar para a última sandaloca feia da moda ou que estão diante da loja da Apple a namorar iPhones e iPads, não me interessa, o rebanho é vosso. Mas deixem os caminhos dos centros comerciais desimpedidos para quem não tem como objectivo de vida a deambulação em catedrais do consumo.

A chegada à idade adulta

E pronto. A praticamente três meses de chegar aos 32 anos, atingi a idade adulta: comprei uma capa discreta (tanto que não se vê) para o telemóvel e dei a reforma ao unicórnio cujo corno o Senhor Gato tentou comer. 

Ontem fui à farmácia e ao mostrar à farmacêutica a mensagem com o código para dispensa de medicamentos ela pediu para ver a minha capa. Hoje, o grande unicórnio entregou a alma ao criador e eu fiquei logo mais velha. Que pena: dava uma eterna teenager tão porreira. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Eu é mais Continente"

Mas quantas mensagens ou e-mails consegue o Pingo Doce enviar aos clientes numa única semana?! Acho que não existe dia em que não receba qualquer coisa vinda de tal cadeia de supermercados. Algo que, diga-se, chega a ser irónico uma vez que decidi não voltar lá mais, especialmente depois de ter visto várias situações que me deixaram profundamente descontente com a loja onde costumava ir. Entretanto, vou aturando os muitos contactos do Pingo Doce. Além de serem demasiados e maçadores, conseguem o efeito oposto: tirar-me ainda qualquer resquício (inexistente, julgo) de voltar às suas lojas. 

A traição dos sapatos

Estão a ver aqueles sapatos, ténis, sandálias, o que seja, que nunca vos magoaram? Preparem-se, pois um dia tudo mudará e eles comerão os vossos pés. É sempre assim: é a traição dos sapatos.

Há umas duas semanas saímos para uma caminhada com corridinha incluída. Calcei uns ténis Nike que SEMPRE foram confortáveis e que nunca me magoaram. Pois não é que ao fim de uns dez minutos de caminhada já tinha uma bolha no calcanhar? Note-se que tenho aqueles ténis há uns oito anos, que são daqueles que durarão uma vida inteira e que estão em excelente estado.

Na semana passada fomos ao Colombo comprar qualquer coisa e levei umas sandálias que são muito confortáveis. Ou eram. Eis que, pela primeira vez, me magoaram os pés. Eu bem os tentava ajeitar lá dentro, mas o mal estava feito. Ontem calcei outras, até as usava para dar aulas de tão confortáveis que eram, mesmo sendo altas. Pois... Esqueçam. Tenho bolhas em três sítios dos pés. Uma desgraça.

Há uns anos tudo me magoava. Tudo. Não fazem ideia de quão frustrante era ter sapatos e sandálias lindíssimos e todos me aleijarem os pés. Perdi a conta às vezes em que um dia ficou completamente arruinado com feridas monumentais nos pés. Cheguei a pesquisar sobre o assunto e parece que há quem tenha pés hipersensíveis, não adiantando de nada serem sabrinas ou sapatos de salto alto: tudo vai magoar os pés e era precisamente isso o que me acontecia. Repentinamente, isso acabou e só de quando em quando ficava com os pés magoados por algum tipo de calçado. Receio, portanto, que aqueles tempos de má memória estejam a regressar e que os muitos pares de sapatos que tenho fiquem para ali, postos perenemente em descanso. Mesmo os ténis, o que é verdadeiramente incrível (os Adidas ainda se vão safando). Pelos vistos, estou condenada a botas rasteiras no Inverno e sandálias Havaianas no tempo quente. Logo eu que adoro sapatos...

domingo, 13 de agosto de 2017

A Vida Secreta dos Livros - o balanço


De vez em quando, pelo meio de tantos livros bons com que nos cruzamos, lá aparece um que é completamente «meh». E este é assim, muito «meh». Meeeesmo «meh». E só não digo que é «meh meh» para não soar a «ovelhês».

É um livro sobre livros, é um facto. Conta algumas histórias sobre autores e sobre obras conhecidas, como a recusa de várias editoras ao primeiro livro da saga Harry Potter ou a morte e ressurreição de Sherlock Holmes por pedido dos leitores. O problema é que tirando uma ou outra, são todas mais do que conhecidas. A sensação com que fiquei foi que, sem pesquisa, até eu podia escrever este livro e atrevo-me a dizer que ele sairia melhor. E não sou eu que estou a ser convencida: é o tom que o autor usa que é francamente mau. Vejamos: todos os leitores gostam de saber cusquices em torno das obras conhecidas que já leram ou que ainda querem ler, mas nenhum leitor gostará lá muito que esses episódios sejam contados recriando conversas que ninguém estava lá para ver, estados de espírito que são fruto da imaginação do autor e não factuais. Eu quero que me contem o que sabem da história e não que tentem recriar personagens e ambientes porque isso dá ao texto um carácter ficcional que lhe tira a verosimilhança que, neste caso, faz falta por serem precisamente acontecimentos reais. Se tudo aquilo fosse imaginação, se a recusa do primeiro romance de Jane Austen fosse ficção e parte da acção de um livro, claro que as conversas teriam de ser recriadas, claro que os buracos teriam de ser preenchidos. Se se tratasse de um romance histórico, esse tom teria de existir. Todavia, este livro apresenta-se como pretendendo contar histórias peculiares sobre livros, autores e personagens que se tornaram conhecidos. Não como uma série de ficções em torno desses três aspectos. Até admito que os diálogos pudessem existir se fossem feitos a partir de cartas ou de diários conhecidos, mas não assim. Porém, para perceberem melhor o que quero dizer, deixo-vos um exemplo retirado da história relacionada com o Lazarilho de Tormes:

     «D. Diego voltou a ler aquela missiva do rei. Não havia dúvidas. Não importava o ter acabado de regressar do seu posto de embaixador de Roma: o imperador instava-o a aceitar um novo cargo, e com urgência. D. Diego pousou a carta em cima da secretária e ficou a meditar em silêncio. Por fim, tomou uma decisão. Abriu uma gaveta, tirou de lá um monte de folhas escritas, envolveu-as com cuidado numa pele de couro para as proteger da chuva... e dos olhares indiscretos.
      Levantou-se e chamou um dos criados da casa.
      - A minha capa - pediu. Quando lha trouxeram, D. Diego Hurtado de Mendonza embuçou-se nela e saiu para a rua.
      Estava frio e uma chuva fina caía insistentemente, embora o pior fosse o vento. D. Diego ia armado e era um homem decidido, pelo que não se preocupava com o facto de a noite ter já tomado conta da cidade. [...]» (sublinhados meus nos excertos em que me parece que a imaginação do autor dá completamente cabo do texto)

Isto é o início do texto dedicado ao que se presume ser a história do surgimento de Lazarilho de Tormes, famosa novela pícara espanhola de autor anónimo (editada por cá pela Sistema Solar, podem ver a edição aqui). Se o autor se limitasse a contar-me o que se sabe sobre a obra e aquilo que as investigações têm revelado, ainda entendia. Até podia ter um tom divertido que não me importava. Agora, imaginar dias de chuva e secretárias e gavetas e atitudes que são pura imaginação distrai do que importa e até lhe retira interesse.

Há livros sobre livros e sobre leitura que são muito, muito bons. Este parece ter sido escrito para quem não sabe nada de nada ou então para ser lido em duas horas de almoço para empurrar um hamburguer ou outra fast food qualquer. Porque, para mim, este A Vida Secreta dos Livros é fast food e nem sequer é da que sabe bem. Não recomendo nem um pouco, mas se quiserem ver como é um livro «meh», espreitem-no.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor X


Um leitor que tenha já uma biblioteca considerável acabará um dia por viver o mesmo problema que eu experimento desde ontem: o de um livro desaparecido. E sabe que é um pesadelo!

Tenho por aqui uma lista de livros em que há precisamente um livro no centro da acção. É difícil ser-se mais rato de biblioteca do que isto, mas je m’accuse: eu sou um grande, um enorme, um descomunal «fuçador«» de livros. Nada a fazer. Então ontem, um bocadinho farta de ler no Kindle, resolvi ir aos livros do moço e retirar de lá O Livro das Ilusões, do Paul Auster, um dos que consta da tal lista. Contudo, corri a prateleira de ponta a ponta mais de dez vezes e do livro nem sinal. Depois fui à antiga lista de livros do moço (ando a juntar os dele à minha para a coisa ser mais fácil) e ele constava da mesma, ou seja, o livro já existiu cá em casa e por cá deveria estar. Considerando que todos os livros desse autor estão juntos, que não havia motivo para separá-lo dos outros e que não foi emprestado, a questão que se coloca é: onde anda o danado do livro???

Estou farta de tentar puxar pela cabeça para reconstituir o rasto ao bicho, mas não há rasto possível: o livro devia estar na prateleira a menos que andasse a ser lido, coisa que não está a acontecer. E eu, como qualquer ratinho de biblioteca, já desejei que os livros tivessem microchip, que gritassem, que respondessem pelo nome, que se atirassem aos nossos pés... Enfim, já desejei uma série de situações muito «potterianas» e, portanto, impossíveis. Mas lá está: isto só acontece aos leitores. A angústia do livro sumido só apoquenta essa minoria da população que venera o deus Gutemberg e o cheiro a papel. Não conheço muita gente que queimasse os seus neurónios por desconhecer o paradeiro de um livro que tem de estar cá em casa (o moço gosta de Paul Auster e tem os livros todos, por isso é que a falta se tornou ainda mais evidente). Conheço até muita gente que se perguntaria como raio alguém perde tempo à procura de um livro em particular se tem tantos. Simples: para um leitor amante dos seus livros, eles não são todos iguais nem cada um é apenas mais um entre tantos. Um livro é um livro e há alguns que podem fazer-nos mais falta do que outros, mas todos têm de estar por perto, de preferência onde sabemos que os deixámos. Um pastor não gosta de perder uma ovelha e um leitor não gosta de livros tresmalhados. Principalmente quando são os que compõem as suas prateleiras. Por isso, esta é talvez uma das nossas maiores peculiaridades. Uns sofrerão porque não sabem de uns brincos ou de uma mala; nós sofremos por esses desaparecimentos e também pelo dos livros que ganham perninhas e vão fazer vida para longe da nossa vista.

Agora ando aqui em modo «Sherlock Books» (é primo afastado do «Holmes»). Vou olhando para as estantes todas (embora saiba que não pode estar em mais nenhuma porque sou eu que as organizo e  ainda não estou louca para separar um volume de todos os outros do mesmo autor), cirando pela casa a ver se o moço lhe pegou e o deixou por aí, esforço a memória visual para tentar recordar onde o vi pela última vez, procuro perceber por que razão nem o seu espaço vazio está na estante (o que explica que até ontem não tivesse dado pela sua falta), enfim, investigo, quase de lupa em punho. Para o que um leitor está guardado!

Notita: A imagem saiu daqui

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chora, Camões, chora... XII

Ora apreciem lá a "beleza" do seguinte parágrafo sobre a vitória de um atleta norueguês nos Mundiais do Atletismo. Foi retirado de uma notícia do Observador. Observem, portanto. Podem fazer uma caça ao disparate. Não ficarão de mãos a abanar. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As Coisas que Ele Diz III

O meu moço gosta muito de ver a série Flash e deu em cantar o genérico do famoso filme: «Flash, oooh oooh». Eu resolvi fazer uma variante do mesmo e deu algo como «Flash, oooink oooink». Perante este meu belo refrão, o moço afirma:

- Esse é Flash, o porco que rapidamente se transforma em bacon!

Viagens com o Charley - o balanço


Terminei ontem a minha primeira leitura de um livro de Steinbeck. Neste caso, a narrativa de uma longa viagem que o autor fez pela América na companhia de Charlie, um Cão de Água de doze anos.

Steinbeck, autor já reconhecidíssimo no momento em que resolve escrever este livro, percebe que passou a vida a escrever sobre a América sem que, na realidade, a conhecesse assim tão bem. Por isso mesmo, decide arranjar um veículo grande que lhe permitisse dormir e cozinhar lá dentro e partir para um périplo que lhe permitisse chegar ao fim conhecendo melhor o seu país e as suas gentes.

O objectivo da viagem é nobre e admirável: depois de uma vida a escrever sobre um país, Steinbeck decide ir tomar o pulso às diferenças entre estados, paisagens, povos americanos. Contudo, fica sempre a dúvida: será que no final da viagem conhece melhor os americanos e o próprio país do que ao partir da sua casa em Nova Iorque? É que, se por um lado, esteve em lugares por onde nunca havia passado e falou com gentes com quem nunca tinha trocado duas palavras, o que viu na viagem foi apenas uma amostra. E assim, seguindo este raciocínio, uma viagem nunca está verdadeiramente terminada nem um país fica completamente esgotado. Mais ainda um país tão grande e variado quanto aquele. 

Mais: o autor-narrador conseguiu traduzir nas suas palavras a ideia de que podemos viajar sem ficar a conhecer rigorosamente nada dos lugares por onde passamos e onde paramos. Um dos exemplos que ilustram tal ideia prende-se com as vias rápidas, no sentido em que passamos por elas em direcção a um destino e sem nada para ver à volta. A velocidade é maior do que nas estradas mais pequenas, mas a paisagem é outra assim como é outra a atenção prestada. As estações de serviço são iguais e por muito que converse com quem lá pára, tal não chega para perceber como é aquele país, qual a realidade norte-americana. Como disse anteriormente, o autor admite ter chegado ao fim com a sensação de que não respondeu a todas as perguntas que tinha quando partira e que regressa a casa com ainda mais questões.

A escrita é bonita e oscila de forma interessante entre o humor, o sarcasmo e as descrições mais poéticas de paisagens, lugares e maneiras de existir com as quais o narrador se cruzou. Não aborrece: é cativante. Por isso mesmo, enquanto a viagem prossegue, nós viajamos também e qualquer livro de viagens que o consiga é um bom livro. Quilómetros percorridos, páginas viradas e a viagem continua.

Podia falar-vos de vários momentos do livro, mas vou escolher aquele que me pareceu mais significativo e talvez a parte da viagem que mais terá mostrado ao autor que por muito que percorra milhas e milhas de chão, nunca conhecerá verdadeiramente nem a terra nem as pessoas. Aliás, creio que será o episódio mais tocante de toda a obra. No sul, e tratando-se de uma viagem feita na década de sessenta do século XX, o autor toma conhecimento de umas mulheres a quem chamavam as «Chefes de Claque» e que mais não eram do que pessoas desprezivelmente racistas que diariamente se plantavam à porta de uma escola onde tinha sido aceite a matrícula de dois meninos negros. Assim, o que faziam era esperar a chegada das duas crianças e dos adultos que as acompanhavam para soltarem a língua e insultarem-nos odiosamente. O insulto estendia-se aos poucos pais de crianças brancas que insistiam em ter os seus filhos na mesma escola que as outras duas crianças. A actividade matinal daquelas mulheres já era uma espécie de atracção local que conseguia até ser espalhada pelos jornais, atraindo os olhares de todos os que não queriam perder tal espectáculo. 

O autor assistiu, então, à tal degradação da humanidade, mas pôde ainda conhecer o medo que os negros sentiam, o terror em que viviam. Mesmo quando conheciam alguém que não os via como diferentes, era praticamente palpável o pânico sedimentado por anos de racismo, de segregação. Pôde ainda falar com alguns daqueles racistas e num dos casos não conseguiu esconder a sua revolta, o que culminou num confronto que não acabou pior porque aconteceu em terreno dominado por si. 

Quando o assunto é uma viagem, nem sempre o que há para mostrar é bom ou completamente bom. Infelizmente, quando se conhece uma determinada realidade existe por vezes um choque. Perante isso, há duas opções: guardar essa má experiência para si mesmo ou contá-la ao mundo. Steinbeck, que afirma peremptoriamente o desejo de conhecer melhor o seu país, revelou mesmo no final do seu livro uma das facetas mais cruéis e desprezíveis daquele lugar. O facto de não se limitar a falar da paisagem outonal, da beleza dos lugares visitados, das peculiaridades deste ou daquele estado confere verosimilhança à narração, já que uma viagem é isso mesmo: uma porção de experiências que podem ser melhores ou piores, mas que olharemos de fora até nos deixarmos apanhar por elas. O olhar do autor-narrador foi, por isso, um olhar estrangeiro até certo ponto. Mesmo sendo um americano a conhecer terras americanas, adoptou um olhar distanciado, crítico. Tentou conhecer as gentes tão americanas como ele, mas de outros pontos do país, com outras vivências, maneiras de estar, crenças e, por isso mesmo, diferentes. Um outro episódio curioso que mostra este afastamento do estranho que chega relativamente a quem está é visível quando o autor visita a zona onde cresceu e se cruza com alguém com quem manteve amizade noutra fase da vida. Instado a regressar ao lugar que já foi o seu, tentou simpaticamente explicar que nem ele nem o amigo de infância eram as mesmas pessoas que haviam sido, que muito já tinha sido vivido e que agora os separava. Tentou explicar que não se regressa ao lar precisamente porque não voltamos os mesmos. Todavia, não foi entendido e esta sua forma de perceber a mudança que o tempo provoca em nós foi entendida como soberba, como mania de grandeza e desprezo pelos que outrora foram os seus amigos. E eis que assim a viagem até um lugar que foi o seu mostrou ao autor como os lugares acabam e nos expulsam tal como certos bivalves cospem o que não lhes interessa reter.

Por fim, importa-me dizer-vos que há momentos em que a gargalhada sai de cá do fundo. Certas aventuras do Charlie, o modo como o narrador descreve alguns episódios, o sarcasmo com que encara aquele cão que por vezes parece ter comportamentos humanos são muito divertidos. Por isso disse anteriormente que a escrita oscila deliciosamente entre o humor e a seriedade com que certas coisas são descritas e narradas. É curioso o modo como pelo menos uma vez o autor se serve do cão para conhecer as gentes de um determinado lugar por onde passa, como o Charlie cumpre precisamente a sua missão. Estão bem um para o outro podemos dizer. Aliás, toda esta viagem mostra uma sintonia tocante entre cão e dono e uma amizade bonita, mesmo que o dono por vezes se refira ao Charlie com muito sarcasmo. A verdade é que se o cão não tivesse tido um papel importante neste périplo, o seu nome nem figuraria no título. 

Viagens com o Charley abriu-me as portas para um autor de quem nunca tinha lido nada, mesmo tendo vários livros seus. Gostei tanto que sei que vou continuar a querer conhecer esta obra que foi galardoada com um Prémio Nobel da Literatura. Serão textos de outro tipo nos quais a viagem não será propriamente o tema principal, mas quero lê-los mesmo assim. Assim, se para iniciar uma viagem só é preciso dar o primeiro passo, também para chegar a um autor só é preciso ler um livro seu. Depois virão outros passos e outros livros até chegarmos gloriosamente ao final do caminho.

«Sou eu!»

Quando alguém toca à porta de alguém que conhece, à pergunta «Quem é?» responde normalmente com um muito elucidativo «Sou eu!». Ora, o problema é que «eu» somos todos e, portanto, a boa da resposta que abre tantas portas, na realidade, não devia servir para abrir porta nenhuma. Mas embora já todos tenhamos pensado nisto alguma vez na vida, a verdade é que quando tocamos à porta dos nossos pais ou dos nossos irmãos não respondemos com o nosso nome, nem com o nosso número de informação fiscal, nem com uma senha previamente combinada por motivos de segurança. Nada disso. Vem sempre de lá o pronome pessoal tónico de nominativo na primeira pessoa. Uma seca!

Hoje fui a casa dos meus pais e pus-me a pensar nisto. Cheguei à conclusão de que realmente o que nos abre a porta é o nosso tom de voz, reconhecido através do intercomunicador. Portanto, em vez de dizer «Sou eu!», poderia cantarolar uma música do Quim Barreiros ou dizer uma oração que a porta deveria abrir-se na mesma. Se a coisa funciona verdadeiramente por comando de voz, então até podia ler um poema ou o rótulo da caixa dos cereais, que a minha mãe abrir-me-ia a porta na mesma. Ou então não e eu ficaria na rua porque ela consideraria que a doida a cantar o «Vira Minhoto» junto à porta do prédio nunca poderia ser a sua respeitável filha. Mas ela que fique sabendo que sempre é mais seguro descobrir que sou eu assim, do que através de um mísero pronome que, ao fim e ao cabo, se aplica a todos os seres humanos do planeta Terra. E convenhamos que também tinha muito mais graça.

Abusos felinos

Passam vinte minutos da uma da manhã e concluo que a Miss Gatica é abusada, pois:

1. Esqueceu-se de que estamos no Verão e de que tem muito pêlo, o que faz com que dormir encostada a mim não seja espectacular. Para mim. Ela está a adorar. 

2. Esqueceu-se de que, a adormecer na cama, deve ao menos não se esticar na diagonal como se isto fosse tudo dela. 

3. Esqueceu-se de que é uma menina e está a dormir em modo "frango assado", ocupando ainda mais espaço. E está a sorrir e a mexer as patas. Provavelmente sonha que corre atrás de uma lata de atum. 

Posto isto, acho que vou dormir para o sofá. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Desenferrujando

Estou a tentar desenferrujar o meu francês, que ficou algures perdido nos bancos do ensino secundário. Para me ajudar na tarefa, trouxe ontem da FNAC um livro que me pareceu suficientemente simples para dar início à tarefa (e barato: estava em promoção e veio por 3,98€). Vamos lá ver no que dá. Depois começo a desenferrujar o inglês.

Isto das línguas tem que se lhe diga: passamos anos na escola a estudá-las e até sabemos umas coisas, depois saímos de lá, pômo-las de lado se o nosso trabalho não exigir o seu uso e quando damos conta temos apenas uma pálida ideia do que em tempos soubemos de uma língua. Não pode ser. Comecemos pelo francês e pela leitura, então. E, para desenferrujar em grande, começo com um Nobel. 


sábado, 5 de agosto de 2017

Viajar pelas Letras II

De facto, o tema parece que não nos larga. Reparem bem na capa da revista Estante n.º 14, disponível gratuitamente nas lojas FNAC:


Ainda não li a revista, até porque só a trouxe hoje, mas já vi que há alguns textos sobre livros e viagens na página online da revista, para cujo link remeti acima. Espreitem. É sempre bom obter novas sugestões e nesta época em que parece que comemos livros à colherada, novas ideias vêm bem a calhar.

Boas leituras!

Adendazita: E já que estamos a falar de revistas sobre livros, já saiu a edição da revista LER relativa ao Verão de 2017. Corram, corram!


Decisões matinais

Acordámos bastante, BASTANTE, cedo para irmos para a praia. Preparámo-nos. Olhámos para o céu. Franzimos a testa. Vimos o AccuWeather no telemóvel. Assustámo-nos. Despimo-nos, voltámos para a cama. 

Acordei agora (10:15 H) e ainda não há sol. Boa decisão, portanto. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Dilemas e palhaçadas

De tanto me acordarem cedo, eu própria já o faço sem precisar muito da ajuda dos felinos. Assim, às 5:47 da manhã pulei da cama já fartinha de estar lá. Vi as capas dos jornais, vi as notícias, já tomei o pequeno-almoço, já fiz zapping... E foi precisamente nesta última actividade matinal que topei com o MARAVILHOSO programa da SIC «O Dilema». Maravilhoso em mau, mas com certeza muito divertido. Juro-vos que estou farta de rir e vão perceber porquê.

Portanto, o panorama geral é este: num cenário muito colorido, um homem está sentado à mesa rodeado de baralhos de cartas. Percebe-se que o talento para a apresentação de um programa em directo não abunda, mas isso até é perdoável. O resto é ainda mais ridículo. De poucos em poucos minutos anuncia-se o típico número de telefone para que as pessoas liguem de modo a terem uma consulta com o tarólogo. Quando este atende o telefone para «resolver» o dilema de quem está em linha, pára a conversa com o interlocutor para informar o espectador de que a partir daquele momento «o computador apagou todas as outras chamadas» (sic) e, por isso, se quiserem falar com ele têm de voltar a ligar. Depois deste recadinho, retoma a conversa por telefone e responde à dúvida da pessoa. Mas enquanto deita as cartas faz tantas perguntas relacionadas com o problema da pessoa que me pergunto como é que alguém engole que as cartas respondam ao que quer que seja. 

Nos intervalos das chamadas, vai tirando uma carta para cada signo de modo a sabermos o que nos está reservado para esse dia. Agora imaginem a risada que dei quando olhei para a televisão e vi isto:


Isso mesmo, meus caros: «Gêmeos». Com um belíssimo acento circunflexo. Realmente o português correcto não abunda por ali... Tanto na vertente oral quanto na escrita. Ou se calhar estamos no Brasil e eu não percebi. Assim sendo, vou só ali a Copacabana e já volto.

Fora o mau uso da língua pátria, há vários momentos que são comédia pura. O apresentador, que afirma ser neto de alguém que foi vidente durante cinquenta anos, promete que na consulta seguinte oferecerá um ritual. Então liga-lhe uma senhora que não estará contente com a casa onde vive, dizendo que se sente lá sozinha, embora viva com o marido e com os filhos. Ele lá lhe deita as cartas para ver se ela vai conseguir mudar de casa e, rejubilemos, parece que sim. Como bónus, dá-lhe o ritual: pegue numa taça com água, ponha num local alto e dentro da água coloque uma clara de ovo (imaginem o fedor num dia quente de Verão...). Depois deve acender uma vela BRANCA (que isto é importante) e pedir à Santa Clara (aqui achei que morria a rir) que lhe aCLARe as ideias. Portanto, recapitulando: clara na água, Santa Clara, aclarar as ideias. Mas a senhora não percebeu bem e perguntou se podia pôr a taça em cima da mesa. «Não, é num lugar alto que é para elevar as suas ideias.». A proposta do senhor apresentador foi que a colocasse em cima do frigorífico. Mas a senhora continuava com dúvidas e perguntou sobre a vela, se tinha mesmo de ser branca. Claro que sim! Mas e tinha de ser uma vela, não podia ser um círio? NÃO!!! VELA! E põe-se onde? Por baixo da taça? Neste momento quase cuspi o chá de tanto rir ao imaginar uma taça com água e uma clara de ovo empoleirada em cima de uma vela acesa, estanto tudo isto, por sua vez, sobre o frigorífico. O senhor lá lhe explicou que não, que era ao lado da taça que se punha a vela. Sim, meus caros, isto passa na televisão e a julgar pelo ruído matinal, a minha vizinha de baixo é fã.

Outro dos rituais que foi dado a uma senhora de 63 anos que trabalha, mas que dá o seu dinheiro para ajudar os filhos porque gosta de o fazer e que queria saber se conseguiria poupar alguma coisa para ela e para a sua velhice (sim, alguém perguntou isto), consistia num banho: a senhora devia aquecer água com paus de canela lá dentro e depois despejar aquela água pelo pescoço abaixo. Isto, dizia o tarólogo/apresentador, porque a canela atrai o dinheiro. Pensei logo em ir ali rebolar-me num pacote de canela que me sobrou do Natal já que a minha lista de livros desejados é longa e uns trocos extra para estourar na livraria vinham a calhar, mas depois lembrei-me de que não gosto de tal especiaria e mudei de ideias. Uma coisa é certa: já vi muito arroz doce com canela e nunca vi aparecer dinheiro no fundo da taça. Nem nunca apareceram moedas no meio das rabanadas. Mas vá, pensemos positivo, podia ser um banho com uma infusão de cebola ou de alho. Isso não só não atrairia dinheiro como também não atrairia nada nem ninguém. Concluindo: já sabem, se quiserem aclarar as ideias é uma clara em água e se quiserem dinheiro é um banho com paus de canela. Com a gema que sobra e com um restito da canela sempre podem fazer um docito conventual qualquer.

Mas aquilo que me fez chorar de tanto rir, aquilo que me deixa a rebolar só de o recordar aconteceu num momento de enchimento de chouriços. Eu explico: o apresentador/tarólogo estava a anunciar pela 589782.ª vez o número de telefone para lhe colocarem um dilema e ainda não havia chamadas em linha. Vai daí e resolve falar dos diferentes «oráculos» que utiliza, explicando que usa diferentes baralhos para diferentes tipos de problemas: dinheiro (Canela! Canela!), amor, saúde... Cada baralho adequar-se-á melhor a determinado tema. Então, vai daí, como o programa ainda estava a manter uma altíssima qualidade, resolve mostrar os baralhos e vai levantando cada um enquanto explica para que os utiliza. E é aí que percebemos que as nossas dúvidas, não me perguntem se de amor, saúde ou dinheiro (Canela, gente, muita canela!) podem ser respondidas com isto:


...

Um palhaço. A carta 16 deste baralho consiste num nada infantil palhaço. Vou repetir a ver se isto me entra: um palhaço. Portanto, a pessoa coloca uma questão e o tarôt responde com... um palhaço. Outra vez: um palhaço. Palavra que quanto mais repito mais me rio. É um palhaço! Imaginem assistir a isto em directo. A coisa já estava a ser maravilhosa, mas quando ele levantou o baralho e me salta dali o primo do Batatinha, julguei que morria a rir. Acho que os meus abdominais renasceram de tanto que mexeram hoje! Vou passar a assistir diariamente a este programa para ver se ainda consigo uma barriga invejável para esta época de praia.

Portanto, é isto, meus caros. É isto que a SIC nos propõe para de manhã, enquanto outros canais generalistas passam os seus noticiários. Uns apresentam o «Minuto Verde» e o «Bom Português», outros o trânsito e a meteorologia, outro os desenhos animados e outros... o temível palhaço. Acompanhado, claro, de claras de ovos, canela e velas que têm de ser brancas e não podem ser círios, que horror! 

Podia dissertar sobre o que penso acerca de tudo isto, mas não vale a pena. Creio que ficou bem claro. Alguém perguntará por que raio perdi tempo de vida a ver isto. Respondo já: no fim-de-semana, num almoço de família, o meu cunhado dizia-me que apanhou isto a dar numa sala de espera de um sítio qualquer e que ficou siderado com o disparate. A minha mãe acrescentou mais uns pormenores supimpas. O mais próximo que eu tinha estado do programa tinha sido através do chão da minha casa já que o som da televisão da vizinha chega cá acima logo de manhãzinha com isto. Resolvi que um dia veria um bocadinho para poder perceber a dimensão da coisa. Hoje foi o dia e acreditem que não me arrependo! Há lá coisa melhor do que começar o dia a rir?

E para que o vosso dia seja tão divertido quanto o meu está a ser, fiquem com a paródia do Joaquim Monchique a um programa «gêmeo» (ahn, que tal a piada?) deste e que terá passado na SIC em tempos. Divirtam-se!




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Menina Quer Isto XCVIII

A menina quer este novo número da edição especial História da National Geographic. Revoluções parecem-me um excelente tema para ir devorando pacatamente por Agosto fora...


Muito bonito, Gatica, muito bonito!

Depois de ter a sua participação no episódio que me arrancou da cama às 4:48 da manhã sem que conseguisse voltar a adormecer, Madame Gatica foi resguardar-se lá no alto da estante para, tal como o Charley no livro de Steinbeck, poder dormir depois do pequeno-almoço. Ali sabe que não será incomodada por mim, que não poderei vingar-me miando-lhe aos ouvidos. Raça da gata que é esperta...


Ainda assim, estava desconfiada no momento da foto, não fosse eu perturbar-lhe o sono de beleza. Abriu um vigilante olhinho. Sonsa. 

Actualização: Já depois de publicada esta quixotada, fui dar com o outro todo cheio de sono também. Dormissem de noite, seus parvalhões!


Se não é cão, é gato!

Ontem comecei a ler, como vos disse na última quixotada, o livro Viagens com o Charley, de John Steinbeck. Depois daquele delicioso primeiro parágrafo, pereceu-me uma excelente leitura de Verão. Ora, o Charley é um cão-de-água que o narrador levou consigo para companheiro de viagem. Umas trinta páginas depois do início, encontramos um outro parágrafo que... bem... qualquer semelhança com os meus felinos (que hoje me acordaram às 4:48 horas da manhã) é pura coincidência. Contudo, é uma coincidência mesmo muito muito igual. Ora vejam, que talvez «gastem do mesmo» nos vossos lares:

     «O Charley gosta de levantar-se cedo e gosta que eu também me levante cedo. Pois por que não haveria de gostar? Logo a seguir ao pequeno almoço deita-se a dormir outra vez... Aperfeiçoou ao longo dos anos um certo número de formas aparentemente inocentes de me fazer levantar. Pode sacudir-se e à sua coleira, com um barulho suficientemente alto para acordar os mortos. Se isso não resulta, tem um acesso de espirros. Mas o seu método talvez mais irritante é o de sentar-se muito quieto ao lado da cama e ficar a olhar para a minha cara com um ar doce e indulgente no focinho; acordo de um sono profundo com a sensação de estar a ser observado. Mas aprendi a conservar os olhos apertadamente fechados. Se tiver um simples piscar, ele espirra, espreguiça-se, e essa noite de sono está acabada para mim. Muitas vezes, a guerra das vontades continua durante bastante tempo, eu a manter os olhos fechados e ele a perdoar-me, mas quase sempre é ele que ganha. Gosta tanto de viajar que quer partir cedo, e cedo, para o Charley, é o primeiro encontro da escuridão com a aurora.»

in Viagens com o Charley, de John Steinbeck, 
Livros do Brasil, (s/d), (pp. 36-37).

Infelizmente, por aqui eles também ganham sempre. Nem que seja pelo cansaço que ainda se sente às quatro e tal da manhã...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Viajar pelas Letras I

O tema das viagens na literatura e da literatura de viagens (são coisas diferentes) tem estado em voga aqui no blogue. Tanto que vou dar início a mais uma sequência de quixotadas relacionadas com ambos os temas e a que chamarei «Viajar pelas Letras». E isto porque uma pessoa, por vezes, está fadada a tropeçar em coisas parecidas num curto período de tempo. Parece-me que depois do Courrier Internacional de Agosto e do romance Leão o Africano, mais um tropeço aconteceu.

Estava eu a olhar para as estantes para escolher a próxima leitura quanto topo com a volumosa «secção Steinbeck». Faço mea culpa: ainda não li nada deste senhor. Um título saltou à vista: Viagens com o Charley. Por ser uma edição antiga da Livros do Brasil, não tem sequer sinopse. Assim, submeti o livro ao teste do primeiro parágrafo (algo que os editores fazem muito, embora por vezes alarguem a um pouco mais do que apenas o primeiro parágrafo). Ora, a surpresa foi tão boa, gostei tanto do que li e achei que vinha tão a propósito do que temos falado aqui que vo-lo deixo. Antes deixem-me apenas dizer que há uma nova edição deste livro de Steinbeck. Se passarem por aqui, poderão vê-la. Assim, se gostarem do que vão ler a seguir, nem tudo está perdido, pois o livro é fácil de encontrar e poderão continuar a leitura fazendo deste, quem sabe, um dos livros do vosso Verão. Mas agora, vamos ao que interessa. Deixemos falar o senhor narrador.

     «Quando eu era muito novo e sentia em mim o impulso irreprimível de estar em qualquer outro sítio, foi-me assegurado por pessoas de idade madura que a maturidade curaria este desejo ardente. Quando os anos me indicavam como amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Na meia-idade, asseguravam-me que uns anos mais acalmariam a minha febre, e agora, que tenho cinquenta e oito, talvez a senilidade o consiga. Nada surtiu efeito. Quatro sopros roufenhos do apito de um navio ainda arrepiam o cabelo da minha nuca e põem os meus pés a sapatear. O som de um avião de jacto, de um motor a aquecer, até o bater de cascos ferrados no pavimento, provocam o antigo estremeção, a boca seca e o olhar vago, o calor das palmas das mãos e a agitação violenta do estômago, aos pulos sob a caixa das costelas. Por outras palavras, não melhoro, ou, indo mais longe, quem foi vadio é sempre vadio. Receio que a doença seja incurável. Menciono este assunto, não para ensinar aos outros, mas para me informar a mim mesmo.»

(Meus caros «quixoteiros», o que vem a seguir é tão bom ou ainda melhor e vai ao encontro do que já tem sido referido aqui como «a arte de viajar», mas para saberem mais pormenores importa ler o livro, que é o que eu vou fazer agora. Até amanhã!)

Leão o Africano - o balanço


Leão o Africano é uma autobiografia ficcional escrita pelo libanês Amin Maalouf. O protagonista existiu de facto e teve uma vida fascinante, tendo publicado em 1555 uma longa descrição de África que, durante muito tempo, foi importante para o conhecimento do continente, especialmente antes das grandes expedições que aconteceram séculos mais tarde. A sua Descrição de África só pôde ser escrita porque este homem viajou muito, conheceu muitíssimas cidades, atravessou desertos, viu o melhor e o pior de cada lugar, estabeleceu relações comerciais, observou credos, batalhas, enfim, tudo o que havia para ver no riquíssimo século XVI.

Na realidade, o protagonista e narrador deste livro nasce em Granada, pouco tempo antes da conquista da cidade pelos Reis Católicos. Assiste à expulsão dos judeus e, algum tempo depois, também a sua família se vê impelida a fugir. Hassan, o primeiro nome que este homem terá na sua vida, pertence a uma família muçulmana que vivia uma existência confortável em Granada e que vê tudo desmoronar-se à sua volta antes de, finalmente, tomar a decisão de partir.

Esta é apenas a primeira das muitas viagens que fará ao longo dos quarenta anos de vida que vão do seu nascimento até ao final do livro. A família procura reiniciar a sua vida no norte de África, em Fez, mas a curiosidade de Hassan leva-o a querer participar de uma embaixada que o seu tio fará a Tombuctu a mando do novo sultão de Fez para entregar uma mensagem de amizade ao novo sultão do Sudão. A viagem será uma aventura que mudará a sua vida e que marcará definitivamente a sua entrada na idade adulta. Depois disto, começará também uma actividade comercial que parece votada ao sucesso, mesmo num mundo onde os saques das caravanas eram uma constante. Hassan parece ter ou um talento inato para o comércio ou uma enorme sorte de principiante. Mas a vida trocar-lhe-ia muitas vezes as voltas e, como disse, os seus primeiros quarenta anos de vida exigirão mais de si do que as viagens com fins comerciais. Também ele terá um papel diplomático que o fará viajar, mas além disso, ver-se-á envolvido em confusões várias que o levarão a ser banido da sua cidade. Nova viagem se inicia e, após uma peregrinação a Meca, vê-se sequestrado e levado para a Europa, para Roma, onde será entregue ao Papa Leão X. Diz, nesse momento o narrador, que «Teria eu podido adivinhar que era a mais extraordinária das minhas viagens que assim começava?». 

A verdade é que que a este rapto se sucede uma série de peripécias que passam pelo seu baptismo cristão, desejado pelo seu protector em Roma, nada mais nada menos do que o próprio Papa. Ganhará o seu nome, Leão, e o apelido da família a que pertence o Sumo Pontífice: Médicis. Porém, pelo seu passado por terras africanas, mesmo tendo nascido em Granada, será para sempre conhecido como Leão o Africano e será com esse mesmo nome que assinará a sua obra Descrição de África. Aí, entre outras aventuras e viagens (Nápoles, Bolonha, Florença...), assistirá ao Renascimento italiano e às desavenças entre Roma e o imperador Carlos V, que culminarão no saque da cidade. Leão o Africano regressará, assim, ao norte de África e é ali, falando ao seu filho, que termina a narrativa desta vida tão cheia de deambulações e de aventuras em que as fronteiras parecem diluir-se, bem como os credos, que têm muitas vezes de ajustar-se aos infortúnios do destino. Leão, nascido Hassan, vê-se baptizado e protegido pelo chefe da Igreja Católica. Não combate o que o destino lhe traz: deixa-se ir, sabendo que a sua fé e o seu amor ao Islão estão dentro de si e continuarão a acompanhá-lo para sempre.

Muitas vezes dei por mim a pensar, enquanto lia, que é possível encontrar pontos de comparação entre o que é narrado e aquilo que vivemos hoje supostamente por causa das religiões. Mas isso deixo para vocês pensarem também quando lerem o livro. O que me fica mesmo é a experiência de uma leitura que se torna viciante, pois percebemos desde o início pelas palavras de Hassan que nada será fácil, garantido ou eterno na sua existência. Sabemos desde a primeira linha que vamos assistir a viagens por um mundo tão diferente do que conhecemos e que religião e política estarão sempre presentes para movimentar as suas peças e fazer mexer as personagens. Mais: a época de que se fala e os lugares representados são também muitíssimo interessantes. Todos sabemos mais ou menos alguma coisa sobre a conquista de Granada. Mas ler a descrição feita do que se sentiu e viveu por aqueles dias é completamente diferente. Para quem assistiu à série espanhola Isabel, sobre a Rainha Católica, é uma nova forma de ver o passado: na série vimo-lo pelos olhos dos vencedores e aqui lemos a versão dos vencidos, dos expulsos, dos que se tornam «estrangeiros» em todo o lado. Depois, a passagem por Roma e Florença e a presença nesta cidade de artistas protegidos por mecenas, a referência à cultura que era tão valorizada pela família Médicis e pelo Papa Leão X leva-nos directamente ao Renascimento nos locais onde atingiu todo o seu esplendor, legando-nos obras que ainda hoje têm o dom de deslumbrar até os mais empedernidos dos olhos.

Assim, neste livro, o protagonista viaja e nós, leitores, vamos com ele, mas vamos ainda mais longe, pois viajamos com Hassan pelo espaço e pelo tempo, para séculos longínquos dos quais sabemos menos do que gostaríamos. Até custa imaginar que fosse possível viver tanta instabilidade e tanta violência, tantos saques, tantas lutas, tanta sede de poder. Mas depois lembramo-nos do século XX e mesmo deste em que vivemos e pensamos que não estamos assim tão longe do passado. É curioso que os livros também nos consigam ensinar isto.

Autor: Amin Maalouf
Tradutora: Maria da Graça Morais Sarmento
Editora: Quetzal
Edição: Janeiro de 2010
414 páginas

Belo Adormecido

O felino hoje deixou-se dormir. Só me acordou violentamente às sete e dez. Devia estar cansado, pobrezinho. Ou isso ou entrou em "modo Agosto". Amanhã já vejo se continua benevolente, o cretino peludo.

Promoções na Bertrand

Ora, enquanto o Senhor Gato me ressona aos ouvidos, convido-vos a passarem por aqui e por aqui para espreitarem os preços mínimos na Bertrand. O primeiro link leva-vos às pechinchas abaixo de 7.50€ e o segundo a livros em promoção com preços que vão dos dez aos vinte euros. Não vos diria nada se não tivesse visto que ali pelo meio há alguns livros bons que estão, de facto, a preços convidativos. Quem ainda não foi de férias e procura leituras para o Verão que estejam em conta e que não tragam pesos na consciência quando ficarem cheios de areia e de creme das bolas de berlim pode ver o que encontra na Bertrand. Não sei quando terminam estas promoções, por isso corram. 


Nota: O logo foi retirado da própria página da Bertrand.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Peculiaridades de um leitor IX


Uma das coisas que influencia os leitores a comprar ou a deixar um livro para trás é a sua capa. Há capas lindíssimas (algumas delas até em livros muito maus) e há capas terríveis, demasiadas vezes em livros muito bons. Também há quem queira saber apenas do conteúdo do livro e conviva bem com qualquer capa. Porém, dos bons leitores que conheço, todos ficam eriçados como um gato zangado quando vêem uma capa feia num livro que queriam comprar.

Claro que, tirando as capas inequivocamente más como a da fotografia que acima coloquei (e que saiu daqui, onde há outras que vale a pena ver), este conceito de capa bonita ou feita é subjectivo. O que para uns é bonito, para outros é feio e será sempre assim ao longo dos tempos. Contudo, seja como for, a partir do momento em que eu, de acordo com os meus gostos, considero uma capa desajustada a um determinado livro, estou no meu direito de querê-lo ou não na minha estante. Já me aconteceu não comprar uma certa edição porque, por exemplo, tem na capa imagens da sua adaptação cinematográfica, uma mania que considero perfeitamente idiota. Principalmente quando se trata de clássicos, textos que sobreviveram ao tempo, datar as edições com imagens que provavelmente serão engolidas pelo mesmo tempo que consagra o livro é ridículo. Um filme é um filme, um livro é um livro e obrigar os leitores a conviverem com as caras dos actores que protagonizaram a adaptação mesmo quando já passaram trinta anos e já ninguém se lembra dela é, a meu ver, escusado.

Um leitor que se dirija a uma livraria sabe perfeitamente que o que verá em primeiro lugar serão as capas dos muitos livros disponíveis. Inicialmente esse é o elemento que os distingue uns dos outros. As outras diferenças vêem-se com uma análise mais aprofundada: a leitura da sinopse, das primeiras linhas do livros, de paratextos como o nome do autor e os prémios já recebidos (informações que costumam constar da capa e das cintas que por vezes acompanham os volumes). Quantas vezes na história do livro o design das capas de uma determinada edição ou colecção distinguiu e ajudou a tornar ainda mais conhecidos os próprios livros? Quem não recorda a especificidade dos livros da «Biblioteca de Babel», com autores e textos escolhidos por Borges? E a colecção «Vampiro»? E os famosíssimos romances da Livros do Brasil que, durante muitos anos, nos trouxeram clássicos que mais ninguém editava? E hoje, quem não reconhece à distância um livro da Tinta da China ou da Cavalo de Ferro? Quem não reconhece facilmente pela capa um livro da Quetzal? Ou da Relógio D’Água? É que se é verdade que os leitores ainda julgam muitos livros pela capa, então as editoras têm de ter um cuidado redobrado com elas. As capas deixaram de ser apenas aquele componente do livro físico que servia para proteger o miolo para passarem a fazer parte da identidade de uma editora. Cada livro publicado partilha com os outros da mesma chancela ou da mesma colecção, além do logótipo, alguns aspectos gráficos que fazem com que sejam facilmente identificáveis. Assim, as capas ganharam importância ao longo dos tempos. Inicialmente os livros nem as tinham. Havia uma página que funcionava como frontispício e onde surgiam informações como o nome do autor, o título da obra e a casa onde foi impresso. O efeito de protecção não existia e muito menos existia a componente publicitária que as capas hoje têm. Os livros eram comprados pelo que eram e pelo que se dizia sobre eles. Não imagino alguém no século XVII a não comprar o Quixote por não gostar do frontispício do livro... Os encadernadores ainda ganharam algum dinheiro com isto, pois quem o tinha pagava para encadernar faustosamente as edições que comprava. 

Há poucos anos não comprei um livro de Thomas Hardy por considerar que a capa parecia um misto de romance cor-de-rosa com um daqueles livros que têm muitas «Sombras». Prefiro encontrar um dia uma edição mais antiga, mas mais bonita do que conviver com aquela monstruosidade. Para muitos leitores isto é apenas uma mania parva, uma picuinhice. Contudo, para quem vê os livros como um objecto que vai além do texto que traz no seu interior, a capa faz diferença. É verdade que hoje existem belíssimas capas em tecido para protegermos os nossos livros e, se quisermos, escondemos as capas de olhos mais abelhudos. Todavia, o que queremos em primeiro lugar, é que os livros sejam bonitos, atraentes, e que não precisem de ser escondidos. O miolo é muito importante, mas assim como deixo de comprar um livro se a letra for demasiado pequena ou demasiado grande, também deixo de o fazer se a capa for terrivelmente idiota. 

No curso de Edição de Texto que fiz, um dos professores contou várias vezes o episódio que levou a que Lídia Jorge quebrasse o contrato com a Europa-América e tal deveu-se a uma capa que a autora considerou desajustada para um livro seu. O editor não terá tomado em conta esta opinião e insistiu na sua proposta. O caso foi para tribunal e assim a editora perdeu uma das autoras que mais vendia. Esta história foi-nos contada muitíssimas vezes para ilustrar a ideia de que a capa faz toda a diferença e que são muitas, mesmo muitas, as pessoas que se preocupam com elas, por serem precisamente as primeiras coisas que vêem quando encontram um livro à venda. São estas peculiaridades que levam as editoras a valorizar cada vez mais o design dos seus livros porque se elas querem vender, nós queremos comprar e com os livros, como com todas as outras coisas que se transaccionam comercialmente, os olhos também comem. E os dos bons leitores, ao contrário dos dos meros compradores, comem muito mais.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Adenda a "Para quem gosta de ler e de viajar"

Ontem escrevi aqui uma quixotada a partir da capa do Courrier Internacional de Agosto, que foi hoje para as bancas. Já corri a comprá-lo e ao ler o editorial percebi que um dos viajantes que falará sobre a "arte de viajar" é, precisamente, o americano Paul Theroux, autor de livros de viagens já muito referido aqui no blogue. 

Eu não passo de uma turista. Vou aos sítios ver o óbvio, mas há quem procure outras experiências, quem anseie por encontrar a verdadeira cor local de cada país visitado. É isso que Paul Theroux faz nos seus já muitos livros. Caso a revista vos aguce a curiosidade pela obra deste autor (que também inclui alguns romances, embora estes não larguem a ideia de viagem, de fuga, de partida), aqui ficam alguns dos seus títulos em formato "eis o Paul Theroux na minha estante". É publicado (e muito bem) pela Quetzal. Escreveu ainda outros livros que, infelizmente, ainda não foram publicados em Portugal. Mas com estes já têm muito com que entreter-se. 


A Menina Quer Isto XCVII

Isto em português e pela mão da excelente Cavalo de Ferro é outra coisa. Parece que ainda está quentinho, acabadinho de sair:

(Pai Natal, não queres vir cá já em Agosto para depois não vires tão carregado? É só uma sugestão. Pensa nisso.)

Para memória futura dos "felineiros"

Este tipo de móvel de gavetas do IKEA...

...é um constante convite à asneira felina. Aquelas patinhas de algodão enfiam-se nas aberturas das gavetas e quando acordamos de manhã (perdão: quando eles nos acordam com altos miados de madrugada), verificamos não só que as gavetas mais baixas foram abertas como que o seu conteúdo foi saqueado. Vivo, portanto, com dois meliantes!

São agora seis e um quarto da manhã, já fui acordada com grande brutalidade felina há meia hora para vir descobrir no escritório as malfadadas gavetas abertas e uma embalagem de canetas totalmente vilipendiada por seres com unhas e que não têm problemas em usá-las. Bem, pensando de forma positiva: antes no saco das canetas do que na minha pele, que viver com dois pequenos tigres impõe estas concessões. Mas vá, pelo sim pelo não, comprem coisas com puxadores anti-patinhas-ninja. Ou então ponderem, como eu, regressar ao IKEA para trazer de lá as famosas protecções de gavetas... para crianças. Já vale tudo no mundo da anarquia peluda!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Para quem gosta de ler e de viajar

Amanhã estará nas bancas a edição de Agosto do Courrier Internacional e capa já está prontinha para ser namorada:


Embora eu não conheça os leitores do blogue, conheço os blogues de alguns e há duas coisas que têm normalmente em comum: gostam de ler e de viajar. Portanto parece que a edição de Agosto do Courrier Internacional junta ambas as coisas: a leitura e a viagem.

Já há algum tempo escrevi uma quixotada sobre livros de viagens e há poucos dias voltaram a gerar agradável conversa nas caixas de comentários do blogue. É um género de que nem toda a gente gosta. Em parte, creio, pelo facto de ser muito descritivo. É normal: por muito que o autor comente alguns acontecimentos ou passe algum tempo a narrá-los, terá inevitavelmente de escrever momentos de descrição para poder dar a ver ao leitor aquilo que ele encontrou nas suas viagens. E se alguns vêm acompanhados de fotografias que sempre ajudam a entender melhor as palavras do autor, outros nem isso trazem. São, por isso, livros exigentes. É necessária concentração, capacidade de abstracção, imaginação. Muitas vezes faz mais falta um mapa do que as próprias fotografias que frequentemente os acompanham. Aconteceu-me há pouco tempo ler um livro de viagens que não o tinha e cujo itinerário percorria o globo de norte a sul. Os países até nem eram o maior dos problemas. A dificuldade estava mesmo na quantidade de cidades atravessadas pelo viajante, muitas delas pequenas e pouco conhecidas.

Contudo, se lhes dedicarmos tempo, revelam-se livros maravilhosos. Só o facto de descreverem diferentes modos de viajar, desde os projectos mais simples até às iniciativas mais loucas, já os torna ricos e interessantes. Tenho livros cujas longas viagens foram feitas apenas de comboio, atravessando continentes inteiros. Outros há em que a viagem decorre em cargueiros. Alguns recorrem a motas para percorrer África de norte a sul, outros preferem fazê-lo de bicicleta. Muitos recusam-se a usar o avião. Outros partem com um orçamento tão mínimo que começamos o livro a perguntar-nos como não morreram de fome. Alguns autores preferem traçar rotas famosas como a conhecida viagem de circum-navegação. Outros ainda seguem os passos de escritores como Hemingway ou Fernão Mendes Pinto. Existem livros de viagens que já aconteceram há muito tempo e cujas paisagens descritas provavelmente já nem encontraremos. Enfim, existem para todos os gostos. Com jeito dava para termos o globo inteiro representado em livros de viagens pousados na nossa estante.

Para mim, os livros de Paul Theroux são absolutamente encantadores já que juntam a viagem a referências culturais e a uma escrita muitas vezes poética e belíssima. Também gosto dos do eterno Monty Python, Michael Palin, embora sejam sínteses dos programas feitos para a BBC e, portanto, mais apressados do que os de Paul Theroux. Bill Bryson também tem alguns, embora não sejam os meus favoritos, pois escolhe geralmente um tema relativo ao povo que visita e é em torno desse tema que se desenrola a viagem. Como vos disse, há para todos os gostos e podem sempre ler um. Se não vos agradar o género, abandonem-no. Eu gosto porque sei que há experiências que não me arriscaria a ter (sou pouco aventureira) e porque gosto de ver outros pontos de vista tanto sobre lugares onde nunca fui como sobre viagens que também já fiz. Gosto de reconhecer numa descrição alguma coisa que já vi e perceber que há muitos olhares possíveis sobre a mesma coisa.

Viajar é hoje algo que fazemos com relativa facilidade. Felizmente, a viagem através dos livros não impede a viagem física. Pode influenciá-la, pode proporcionar novas ideias, mas jamais se excluirão. Não conheço ninguém que diga «Não vou a Paris porque li um livro sobre essa cidade!». Estes livros são, sim, uma janela para o mundo e para várias formas de o ver. Valerão sempre a pena, mesmo que as viagens estejam cada vez mais baratas e a outra ponta do planeta cada vez mais ao nosso alcance. 

Mas enquanto começam e não começam a ler um livrinho destes, têm sempre este número do Courrier Internacional cujo artigo de destaque partilha o mesmo nome que um livro de Alain de Botton. Viajar já não é só ir do ponto A ao ponto B para fazer qualquer coisa. Já é muitas vezes uma arte que exige conhecimento, muita planificação e uma boa componente de sonho e de vontade. 

E como a partir de tudo o que aqui foi dito se prova que viagem e escrita sempre deram muito bem as mãos, deixo-vos com a famosíssima abertura de um dos nossos mais conhecidos romances, uma verdadeira apologia à viagem, por mais pequena e próxima que seja, e à crónica da mesma. Porque se ler e viajar ainda não são exactamente o mesmo, mas apenas duas coisas que podem complementar-se na perfeição, viajar sem ficar com um registo do que se viu hoje nem sequer é concebível. Actualmente, nós temos as fotografias: o autor tinha a pena e usou-a com grande mestria. 

    «Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

    Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, (Capítulo I)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ler com a Quetzal e outras promoções

Eu sei que estou um bocadinho atrasada e que a promoção acaba hoje, mas quem não conseguiu aquelas pechinchas da Quetzal dos caixotes das promoções na Feira do Livro tem até ao final do dia de hoje para consegui-las na página da FNAC. Clicando aqui, chegarão a uma selecção de livros da Quetzal em desconto. Aí encontrarão, por exemplo, os Raymond Carver a preços fofinhos, como na Feira. Mas, atenção, porque a promoção termina mesmo hoje.


Nota: Ah, e já que estamos a falar de promoções, a FNAC está hoje com 20% em todos os livros, incluindo novidades, e a Wook estará também com 20% e portes gratuitos amanhã. Encham as vossas prateleiras e leiam muito!

Já só faltam nove!

Faltam nove livros para concluir o desafio anula do Goodreads. Começo a pensar que quando chegar aos cinquenta vou ter mesmo de alterar o desafio. O que sugerem? Oitenta? Noventa? Cem até ao final do ano? Vá, sejam meiguinhos a solicitar que eu só tenho dois olhinhos e não vou para nova. 

terça-feira, 25 de julho de 2017

A minha desgraça deste Verão

Eu, que nem costumo gostar de jogos no telemóvel, confesso: estou viciada nisto. Desde os tempos do "Candy Crush", nos idos de 2013, que não passava por tal fixação por um jogo. Ainda por cima mete gatos. Aaaaaai, vida!



Questões de agenda

Ontem à noite vi na RTP3 um documentário sobre cesarianas. Falou-se do procedimento, dos prós e dos contras, dos avanços que a técnica sofreu ao longo dos tempos, mas também da moda em que se tornou. A comunidade médica alemã, por exemplo, mostrava-se preocupada com o aumento drástico do número de cesarianas realizadas sem que houvesse verdadeira necessidade disso. 

O documentário é bastante interessante, porém o que me leva a escrever esta quixotada tem que ver com dois casos apresentados, representativos de tantos outros e por isso mesmo um pouco assustadores. 

Na China, uma mulher de 22 anos começou a pesquisar na internet mal soube que estava grávida. Pelo que leu e pelo que as amigas lhe diziam, o parto natural era muito doloroso e ela não estava para isso. Escolheu marcar e pagar uma cesariana para a qual toda a família contribuiu. Ora, por um pagamento extra, podia escolher a data da mesma. Lá foi ela para a internet procurar dias entendidos como sendo "de sorte" para o bebé nascer. Optou pelo dia dos namorados na China, 7 de Julho. A sogra, ao lado dela enquanto falava para a reportagem, disse que as mulheres agora eram "muito mimadas", que faziam tudo para escapar à dor que sempre tinha sido inevitável nos nascimentos. Eu fiquei a perguntar-me se a sorte que o nascimento naquele dia poderia trazer ao miúdo (caso se acredite nessas coisas) não ficou anulada pelo facto de o nascimento ter acontecido naquela data apenas porque a mãe assim escolheu e pagou para isso. Fiquei a pensar que já nem se tem direito a nascer quanto o corpo assim o pede. Agora vai-se ao Google e escolhe-se o dia em que a cegonha faz a entrega. Enfim...

A outra situação passa-se no Brasil, mas pelo que percebi acontece em vários outros países. Exitem clínicas sem equipas médicas próprias que alugam os blocos operatórios para os médicos fazerem lá os partos das suas pacientes. Ou seja: um obstetra segue uma paciente no seu consultório, mas não trabalha num hospital. Existe a hipótese de alugar um bloco operatório para fazer cesarianas às suas pacientes. Nesses lugares não se fazem partos normais, apenas cesarianas. O documentário explica porquê. É que um parto normal pode acontecer a qualquer momento e prolongar-se por horas. Porém, o médico tem mais que fazer e não pode parar o resto da sua vida profissional apenas para fazer o parto de uma única parturiente. Além de que, se se tratasse de um parto normal, ele poderia ocorrer num momento em que o médico nem pudesse deslocar-se à clínica. Por isso, para rentabilizar o tempo do médico, programam-se as cesarianas para a noite, para quando os obstetras já fecharam os seus consultórios e podem finalmente ir fazer nascer uns bebés. Pior: fazem-no duas semanas antes daquela que seria a data provável do nascimento, quando, segundo a reportagem, ainda faltam alguns dias para os pulmões do bebé estarem completamente  prontos para o nascimento. Não sei que consequências isso pode trazer, mas não me pareceu grande prática. Além de que tudo aquilo era impessoal, na medida em que a parturiente tem de esperar horas até que o médico termine as suas consultas, chegue à clínica com a sua equipa e tenha, então, a disponibilidade para trazer o bebé ao mundo. Mais: ainda existe a possibilidade de ter um fotógrafo a filmar a cesariana. Por um filme de dez minutos e setenta fotografias pagam mais qualquer coisa que não é assim tão pouco. A reportagem dizia que as cesarianas também estão a ser boas para os fotógrafos. Nem consigo comentar isto. 

Eu acho e já o disse aqui várias vezes que vivemos tempos terríveis. Temos acesso a tantas coisas que estamos a desumanizar-nos. O nascimento sempre foi aquele momento natural em que o corpo dava o seu sinal e começava um processo incrível que culminava com uma nova vida neste mundo. Não acho que, existindo anestesias, as mulheres tenham de sofrer tanto como no passado. Se há epidurais que facilitem a coisa, usem-nas. O que me parece de doidos é usar as cesarianas como forma de escolher dias de sorte para os nascimentos dos filhos, pagar para ter o bebé quando dá jeito ao médico, mesmo que umas semanas antes do que seria suposto. Pensei, enquanto via a reportagem, que o mundo é realmente muito triste quando um bebé já nem pode nascer quando assim tem de ser, quando a sua data de nascimento foi previamente escolhida por outros, quando até nasce antes da data prevista por questões de agenda. Parece-me tudo muito estranho, muito pouco natural relativamente a uma coisa que sempre foi tão natural.  Pensei até que os animais chegam a ter mais sorte do que muitos bebés: pelo menos ainda nascem quando assim tem de ser, sem pesquisas prévias no Google e sem fotógrafos profissionais a vender vídeos e fotografias no bloco operatório. 

Eu nasci de cesariana porque achei por bem enrolar-me toda no cordão. A minha mãe conta que lhe rebentaram as águas e que tudo começou naturalmente (ela nem sabia se ia ter uma menina ou um menino). Já no hospital perceberam que eu estava em risco e avançaram para a cirurgia. Na altura ainda a faziam com anestesia geral, portanto a minha mãe nem deu por nada. 

Neste caso, a cesariana salvou-me a vida e eu sempre a entendi assim: como um procedimento utilizado quando o nascimento não pode acontecer pela via normal. Sempre entendi que primeiro se tentasse o parto normal e só depois a cesariana. Ou que, havendo já razões médicas para crer que um parto normal não correria bem, se partisse logo para a cesariana. Nunca vi a cesariana como uma comodidade de agenda ou como uma maneira de um filho nascer num dia considerado de sorte em vez de estar sujeito ao aleatório da coisa e nascer quando tem de ser e pronto. 

A nossa humanidade, capaz de grandes invenções, está a desumanizar-nos e a conseguir tornar pouco natural aquilo que de mais natural existe nas nossas vidas: o nascimento. Vivemos tempos inacreditavelmente paradoxais: sabemos tanto sobre tantas coisas e mesmo assim optamos por deixar de lado o que é mais natural e fisiológico para nos rendermos ao que dá jeito. Camões é que sempre o disse bem: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e até muda a própria mudança. Nem sempre para melhor, diria eu.