sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um trabalho e pêras (em cama de chocolate com crocante de amêndoa e calda de rum reduzida com...)

Vocês já imaginaram o que seria ter de lavar a louça usada no Masterchef Austrália?! Devia ser um trabalho e pêras (com ganache de chocolate, sorvete de pepino e favo de alho francês). 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Diz que é moda, mas a outra ficou para tia



A minha irmã, que sabe bem o quanto gosto de sapatos (embora ande muito controlada), enviou-me este link com uma galeria de imagens contendo os sapatos mais excêntricos desta estação. Este azulinho que aqui vos deixo, e que é coisinha para qualquer bobo da corte se sentir ricamente vestido, custa, por exemplo, 995€. Coisa pouca. Perante tamanha beleza e graciosidade, quem se põe a contar tostões?

Se percorrerem as imagens, vão tê-los para todos os gostos. Altos, rasteiros, com cano, sem cano, com atacadores, com pêlo... Há de tudo, que todo o pé precisa do seu sapatinho. Por exemplo: para quem quer um pouco de altura, mas também quer sentir nos pés a sensação de os ter enfiados num coelho fofinho, há esta hipótese:


Depois também há a bota elegante, preta, nada a fazer recordar as bruxas das bandas desenhadas e dos filmes da nossa infância:

E o melhor é que podem ser vossas por apenas 790€. Como o Halloween vem a caminho, talvez seja melhor apressarem-se.

Enfim, há quem não veja grande importância nos sapatos, há quem ache que as mulheres que adoram sapatos não têm juízo nenhum, há quem ache que os sapatos são só aquela coisa que se põe nos pés para as pedras do chão não nos magoarem e para não apanharmos pé de atleta. Não, meus caros. Tudo errado! Os sapatos mudam a vida de uma pessoa. Ora imaginem...

Está a Gata Borralheira em casa a limpar a chaminé, a ser escravizada pela madrasta e pelas irmãs feias. Quer ir ao baile, mas não tem como. Não pode ir de avental e com umas chanatas velhas. Não é assim que se vai a um baile oferecido por um príncipe. Pois bem, lá lhe aparece a Fada Madrinha, dá-lhe um vestidinho dos bons e completa a toillete com isto:


Lá vai ao baile, dança kizomba com o príncipe e, à meia-noite, ouve as badaladas e começa a correr escada abaixo para apanhar a Uberabóbora. Pelo caminho cai-lhe o sapatinho peludo. Chega a casa, enfia-se na cama e no dia seguinte pega ao serviço outra vez com o balde e a esfregona. 

Como já leu umas coisas, sabe que o mais certo é o príncipe andar à procura da moçoila que dançou com ele na noite anterior. Andará pelo reino, armado com o sapato e a tentar enfiá-lo no pé que o aceite como uma luva. A Gata Borralheira, por isso, espera, enquanto lava o chão da cozinha. E espera, e espera, e espera. O príncipe não chega naquele dia. Virá no próximo, pensa ela. Espera, espera, espera. Não lhe aparece na semana toda. Uns tempos depois anuncia-se o casamento do príncipe com outra moça da zona. A Gata Borralheira fica passada e resolve escapar à limpeza da caixa de areia dos gatos da família para ir até ao palácio tirar satisfações. É que não se muda uma história com séculos assim sem mais nem menos! Chega lá, manda dois berros ao secretário do príncipe até que o jovem aparece e lhe explica que NUNCA na vida iria procurar uma alma que usasse um sapato peludo. Diz-lhe mesmo:

- Filha, tu até nem és mal apanhada, mas a pantufa não dá. 

- Ah, mas tu tinhas de ir à procura porque é o que está no guião e só te casavas quando o sapato servisse! É o que diz a história!

- Pois... Mas há limites que nem a história permite ultrapassar. E espera lá: o sapato não devia ser de cristal???

- . . .

E assim ficou a Gata Borralheira para tia. Tudo por causa dos sapatos. Fica, pois, provado que o que se põe nos pés faz toda a diferença. 


Boas férias!

A Sábado consegue com duas palavras na capa responder à ex-Ministra da Administração Interna e ao seu disparate monumental. Tantas das asneiras ditas por esta gente (não só por ela, mas por outros) ficarão sem resposta. Mas pelo menos ao problema das férias "que não" teve, a resposta serve-se em letras grandes e vermelhas na capa de uma revista. De vez em quando o sarcasmo cai bem.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Um cheirinho / fedor do nosso Mundo

Eis o que li agora no Notícias ao Minuto (reparem no excerto que destaquei):


É bonito, não é? A discussão nas redes sociais em torno da roupa de uma miúda que já fez mais pelo Mundo do que aqueles comentadores furiosos todos juntos é mesmo digna de reflexão. Atenção, Universo: a Malala vai às aulas em Oxford vestida como quer! O choque! O horror! Vamos já todos comentar a fotografia, dizendo que ela é hipócrita e que nos andou a enganar este tempo todo. Palavra que quanto mais penso nisto, mais me apetece distribuir chapadas. 

A fotografia que levantou a celeuma foi esta:


Para muitos foi, pelos vistos, ofensivo não ver a moça com as tradicionais vestes indianas enquanto anda pela Universidade. Foi o suficiente para receber o epíteto de hipócrita e para passar a ter merecido uma arma apontada à cabeça. Isso mesmo: devido à roupa que veste (e que está muito bem, diria eu), passou a merecer uma pistolita encostadinha à têmpora. 

Para muitos, a Malala deve ter passado a ser uma propaganda ambulante às vestes tradicionais que costumava usar. Só isso poderia explicar a estupidez da decepção. É que não perceber que, apesar do que tem feito pelo direito à educação, não deixa de ser uma jovem a fazer aquilo com que sempre sonhou é de asno. O que me importa que use agora calças de ganga e saltos altos? Se a fazem feliz, que use e abuse de umas e de outros. Desde que continue a fazer-se ouvir e a mostrar a mais e mais meninas que há outros caminhos na vida, que estudar e contrariar tradições bizantinas é possível, quer se vá às aulas com as vestes indianas, com um pijama, com umas calças de ganga ou com uma saca de serapilheira presa com uma corda. 

As redes sociais têm muitas coisas boas, mas acho que as têm sobretudo más. Dão voz aos idiotas que, de outra forma, teriam de falar para o tecto até ele lhes cair em cima. E depois, claro, vai-se espreitando como param as modas nas redes sociais para pespegar a última polémica no noticiário ou no jornal. E assim os asnos vão tendo mais voz. No fundo, nem eu devia trazer para aqui isto, que asnos neste blogue só mesmo o burrico do Sancho Pança. Mas não consegui deixar de vos brindar logo pela manhã com mais uma evidência da estupidez, pequenez e falta de horizontes de umas quantas bestas que se julgam seres humanos, mas que não o são mais do que qualquer jumento deste mundo. 

Espero não vos ter inquietado muito e tirado o sono para esta noite ao vir mostrar-vos a Malala de calças de ganga e botas. É que é muuuuuuuito chocante! Eu até estou a tremer por ela não ser como a Madre Teresa de Calcutá, que era coerente e usava sempre a mesma farda. Será que o facto de ser uma jovem que até está a viver a alegria de chegar agora a Oxford tem alguma relação com isso?!... Dúvidas, dúvidas... 

Agora que penso nisso, nem imagino o que será se e quando arranjar um namorado. 


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Da ironia

Quando o despertador do meu moço toca para ele se levantar e ir trabalhar, a música que se ouve é... "Dia de Folga", da Ana Moura.

Dolorosa ironia. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Chove!

Nunca fiquei tão feliz por ouvir o som da chuva como agora. Que caia, pois faz muita falta. 

(Acho que pela primeira vez ninguém vai reclamar por estar a chover.)

Liderança e insensibilidade

Além da desgraça que se passa no terreno com os incêndios, ainda temos de ouvir as enormidades que têm sido ditas pelo Secretário de Estado da Administração Interna (que acha que as populações têm de ser proactivas, pegar na mangueira e irem apagar os fogos porque não podem estar à espera dos bombeiros e dos meios aéreos), da Ministra da Administração Interna, que no meio deste gigante e gravíssimo problema, resolve dizer que se se demitisse ia ter as férias que não teve, ou pelo Primeiro Ministro que, basicamente, diz que temos de nos ir habituando a isto. Mas está tudo doido?

Será que estes líderes lêem as mesmas notícias que eu? Será que a eles não lhes custa ler que finalmente apareceu o corpo de um bebé de um mês, cujos pais já tinham falecido num incêndio? Um mês! Este bebé nem tinha ainda nascido quando sessenta e cinco pessoas morreram em Pedrógão Grande e, mesmo assim, já perdeu a vida em mais um fogo. Já se percebeu que não podemos contar com o Governo para solucionar este problema. Bastou vez que quando os fogos de Verão serenaram um pouco, rapidamente o tema dos fogos florestais deixou de ser discutido. Até que chegou o relatório relativo ao sucedido em Pedrógão e lá se voltou a falar no tema, mais para arranjar um ou outro bode expiatório do que para solucionar o problema. Contudo, além de não resolverem, mandam as populações mexerem-se e irem ajudar a apagar os fogos; dizem-nos para nos irmos habituando a estas catástrofes; atribuem a culpa às alterações climáticas, como se fôssemos só nós a sofrer com elas (que eu saiba, há muitos países com floresta e altas temperaturas e não ardem assim); que falam nas suas feriazinhas num momento como este. Se não está tudo louco, não sei o que se passa. Sei apenas que assistimos boquiabertos ao repetir de qualquer coisa que não devia ter acontecido nem uma primeira vez quanto mais duas. O que se fez por evitar a tragédia? Por que foram retirados meios finda a «Fase Charlie» sabendo que o país ia continuar com altas temperaturas e em seca extrema? 

Não há respostas porque quem manda sacode a água do capote. Costuma até dizer-se popularmente que «Quem manda está calado». Melhor fora porque por cá quem manda só diz asneiras e, mesmo assim, continua pomposa e alegremente a mandar. 

Não imagino a revolta e a dor das populações afectadas e, sobretudo, dos que perderam familiares e amigos nesta vergonha com que ninguém consegue acabar. Os meus pensamentos estão com essas pessoas. A minha raiva está com os outros, os que deviam agir e não falar por falar.


domingo, 15 de outubro de 2017

Inadmissível

E eis que parece que estamos novamente em pleno Verão, com incêndios incontroláveis e assassinos por todo o país, a deixarem populações em pânico e os bombeiros sem mãos a medir para a dimensão dos fogos. 

Neste momento as televisões noticiam a morte de mais três civis nos incêndios. Se na época de Verão isto já é inadmissível, agora é o quê?!

Kindles, Kobos e afins

O diário espanhol El País publicou na sexta-feira passada um trabalho em que comparava os vários leitores de ebooks disponíveis no mercado, seguindo parâmetros como a autonomia, o conforto, o peso, entre outros. Em Portugal vejo poucas pessoas a utilizarem estes dispositivos (e a ler, em geral), mas em Espanha vê-se muita gente nos transportes públicos a lerem no seu Kindle ou no seu Kobo. E o melhor: são pessoas das mais variadas idades, o que é realmente fascinante. Considerando que estes aparelhos permitem geralmente o aumento do tamanho de letra, acabam por ser muito bons para quem tem problemas de visão que dificultem a leitura do livro no seu formato tradicional.

Este artigo conclui que no que diz respeito à relação qualidade/preço, o Kindle Paperwhite é a melhor escolha. É aquele que uso há talvez uns três anos e, de facto, recomendo-o. É leve, não cansa a vista e permite ler em condições de luminosidade baixa. Como o ecrã tem luz própria, podemos ler na cama sem incomodar quem está ao lado. 

Mas este artigo ainda refere outras marcas. Há quem prefira os Kobos por aceitarem o famoso formato EPUB que o Kindle não lê (algo que um conversor como o Calibre resolve facilmente), ou mesmo por existirem modelos com ecrãs bem grandes. Enfim, é um excelente texto para quem ande a pensar na possibilidade de arranjar um aparelho destes, mas não sabe bem por qual optar. Além disso, deixa bastante claro que ler nestes dispositivos é possível. Ainda existem muitas pessoas que acham que este tipo de leitura cansa a vista ou que é como ler num tablet (o que é muito pouco confortável, diga-se). Por experiência própria digo-vos que não é o mesmo que ler num iPad, por exemplo. O Kindle, que foi o que sempre usei, é confortável, não causa dores de cabeça e, tanto quanto me tenho apercebido, não dá cabo da nossa visão. Claro que é necessário algum hábito para estes dispositivos ocuparem um lugar confortável nas nossas vidas. Inicialmente, pode ser um pouco estranho. Está provado que temos menos atenção durante a leitura de um livro digital do que de um livro em papel. Porém, pela minha experiência, posso assegurar-vos de que com o tempo, com o uso, os níveis de atenção e de concentração aumentam. O aparelho, ou melhor, a sua qualidade também têm grande influência sobre a leitura. Em 2012 eu ainda usava o velhinho Kindle sem luz e com teclado (vejam aqui a quixotada sobre ele nessa altura). Já o tinha desde 2010 e confesso que não estava tão habituada a ele como estou agora ao modelo Kindle Paperwhite. A qualidade de um e de outro é incomparável e isso afecta a comodidade da leitura. Se na altura, como disse na tal quixotada, nunca lia dois livros seguidos no Kindle porque me cansava, agora posso dizer-vos que estou sempre a ler em simultâneo um livro em papel e um livro no Kindle. Leio todas as noites no Kindle antes de dormir e nem por isso perco o sono. Muito menos chego ao fim do livro com a sensação de que não lhe prestei a devida atenção. As coisas evoluem e, neste caso, os leitores de ebooks têm melhorado consideravelmente com o tempo, tornando a leitura mais confortável do que o que sucedia com os modelos mais antigos e sem o ecrã luminoso. 

Mas melhor do que o que eu possa dizer aqui, já que só conheço Kindles, é lerem as conclusões a que chegaram na redacção do El País e que estão bem descritas aqui. Opções não faltam, mas o mais importante é mantermos na mente o seguinte: ter um e-reader não implica deixar de ler os livros em papel. Uma coisa coexiste com a outra. O Kindle é perfeito para levar em viagens e para ler de noite. Contudo, para a praia levo sempre um livro em papel, já que a areia far-lhe-á menos estragos do que num dispositivo electrónico. Não temos de escolher um e deixar o outro: livros em papel e ebooks podem fazer parte da nossa vida ao mesmo tempo, enriquecendo-a e não o contrário.

Ana Moura no Coliseu


Se o concerto no Meo Arena em Abril de 2016 já me tinha arrebatado, este no Coliseu dos Recreios foi absolutamente avassalador. Foi mais intimista, teve uma selecção de músicas que abrangeu não apenas o último álbum, Moura, mas trabalhos mais antigos da cantora e exibiu um enorme equilíbrio entre temas mais alegres e outros mais emotivos.

Ana Moura enche um palco com o sorriso. Mas também com a ginga da anca num fado dançado que o refrão de uma das suas canções comprova: «Se o Fado se canta e chora / também se pode dançar.». E ainda com a alegria que dedica aos temas mais mexidos e com a emoção que coloca nos outros. Para mim é, neste momento, a melhor voz portuguesa no que ao Fado diz respeito (e ao resto, provavelmente, também). Só lamento que os seus concertos durem duas horas e não cinco ou seis. Por mim podia ter continuado pela noite dentro que não me importaria nada: ficaria colada à cadeira com todo o gosto.

Além disso, desta vez estive na segunda fila, mesmo à frente do palco, o que me permitiu viver o concerto ainda mais de perto. Tão de perto que pude fotografar alguns momentos bonitos, como este que vos deixo em que a Ana Moura agradece ao público que encheu todos os lugares disponíveis no Coliseu. Uma casa cheia e feliz com o concerto que foi apresentado. Penso que até a Madonna, no camarote presidencial, deve ter gostado.

E agora resta-me esperar ansiosamente por um novo concerto seu em Lisboa. 



PS.: E deixo, também, a canção com que o concerto abriu. Tão, mas tão bonita.



sábado, 14 de outubro de 2017

A Menina Quer Isto C

(Ena pá: é o centésimo «A Menina Quer Isto». Mas que pedinchona!)


Esta é a época do ano em que a família não se importa nada que eu coloque estas coisas no blogue, já que vêm aí o meu aniversário e o Natal. Portanto, cá vai: parece que vai chegar às livrarias uma nova aventura dos irredutíveis gauleses. Então, à semelhança dos outros anos, a menina gostava de acrescentar este à colecção que ainda está LONGE de se encontrar completa. 

Muit’agradecida pela atenção.

Empurrando com a barriga

No meio da confusão toda que tem dividido e exaltado o país vizinho, não pude deixar de me rir com o facto de as palavras de Puigdemont serem tão pouco claras que o Primeiro-Ministro espanhol lhe deu um prazo para dizer se declarou a independência da Catalunha ou não. 

Chama-se a isto dar a volta às palavras para ir "empurrando com a barriga". 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Já é Natal???!

Uma das lojas da cadeia VIVA já tinha hoje árvores e enfeites de Natal à venda. Não sei se os puseram na montra hoje ou antes, mas caramba: ainda nem chegámos a metade do mês de Outubro! A Popota ainda nem se sente pronta e no espírito. Ainda nem se vestiu a rigor para a época!

Ou melhor: ainda andamos de sandálias e t-shirts...

domingo, 8 de outubro de 2017

La Mula - o balanço


La Mula é um livro do autor espanhol Juan Eslava Galán, conhecido entre outros aspectos por dotar os seus textos de humor e ironia. Neste caso, a acção decorre durante a Guerra Civil Espanhola que opôs republicanos e falangistas. O protagonista é um homem chamado Castro, que iniciou a sua vida militar pelos «rojos», mas que optou por mudar de lado e combater ao lado das tropas de Franco. Era responsável pelas mulas da sua companhia, às quais cabia a missão de transportar material bélico de umas trincheiras para outras. 

Um dia, Castro, enquanto andava a apanhar espargos, encontra uma mula perdida. Mansinha, dócil, resolve levá-la para junto das restantes de que toma conta e levá-la consigo para casa quando tudo terminar. Dá-lhe o nome de Valentina, pois era muito valente por andar pelos campos junto a um cenário de guerra sem se assustar, e faz dela uma amiga. Valentina torna-se o símbolo de uma vida pós-guerra na paz do lar. Castro era um homem de aldeia, trabalhador rural, quase analfabeto. Consigo, o destino de Valentina seria o de trabalhar no campo, mas isso também significaria que o conflito terminaria e que poderia regressar a casa. Ao longo do livro falará muitas vezes com a mula, sempre com um carinho enorme e a esperança de que ela venha a ficar com ele. Para que isso aconteça, vai constantemente adulterando os formulários que preenche: em vez das vinte e cinco mulas que se encontram ao seu cuidado, apenas dá conta de vinte e quatro, mantendo Valentina em segredo para que não seja tomada por mais um dos animais pertencentes ao exército.

Mas Castro e os seus companheiros de guerra também servem para mostrar como era a vida destes soldados, como se trocava facilmente de lugar entre republicanos e falangistas porque num dos lados a comida era melhor do que no outro; como as cidades e aldeias ficaram destruídas ao mesmo tempo que outros negócios floresciam, como a venda de objectos roubados às vítimas da guerra (há inclusivamente uns brincos de ouro ainda sujos de sangue) e as casas de «meninas»; como a propaganda falangista distribuía medalhas a uns quantos heróis de guerra (sendo Castro, por um equívoco, um deles), mandando-os novamente para o perigo da frente de batalha; como algumas meninas casadoiras procuravam esquivar-se aos avanços de soldados sem futuro, aceitando apenas os que pretendessem continuar a carreira militar após a guerra, pois esses poderiam fazer delas umas «señoras» com bons vestidos e uma boa vida (o amor pouco importava nestes casos); como as populações espanholas ficaram numa miséria tão grande que é mais do que óbvio o contraste ente as cerimónias de propaganda ou de celebração da vitória dos falangistas e os pobres desgraçados famélicos que continuam a tentar subsistir nos campos, rezando por um pedaço de pão duro; como amigos se viram separados por uma ideologia política que muitas vezes nem seguiam, mas pela qual se viram obrigados a lutar; como os próprios soldados, carne para canhão, viviam em condições tão miseráveis que um banho era um luxo desconhecido, ao contrário dos piolhos que eram o que mais tinham sobre si. Ou seja: entre o humor da escrita do autor, conseguimos perceber uma série de situações que nada têm de risível e que são provocadas pela guerra.

O protagonista ver-se-á, em determinado momento, coroado como um herói de guerra, sem perceber muito bem como. Todavia, na verdade o que lhe importa mesmo não é a medalha que Franco lhe coloca no peito: é a mula Valentina e o facto de poder ou não levá-la consigo quando o conflito terminar. Pelo meio tem uma noiva, mas até ela se vai ao trocá-lo por outro militar com maiores hipóteses de ter um futuro risonho. Assim, só lhe resta mesmo a mula. A guerra não lhe trouxe mais nada além da medalha (de que não fazia questão) e de Valentina, a quem quer muito. 

Um dia declara-se no rádio a rendição dos «rojos» e vitória dos nacionalistas. Terminou a guerra, será tempo de regressar a casa. Mas antes ainda é necessário ir mostrar o triunfo em algumas povoações. Castro bem pede licença para ir ver a família, já que o comboio passará junto à sua aldeia, mas não lhe é concedida. De coração nas mãos, passará esses dias a pensar no modo como poderá levar Valentina para longe dos outros animais do exército. Quanto ao fim da história, não conto mais nada.

Quando pensamos que a Guerra Civil Espanhola aconteceu aqui ao lado há menos de um século, instala-se uma sensação de estranheza. Mas este conflito existiu mesmo e foi muito dramático. Em La Mula, Galán procurou dar ao leitor uma história meio anedótica que consegue simultaneamente deixar perceber o que a guerra fez à vida de todos: soldados e suas famílias, populações locais e, no fim de contas, ao próprio país. Castro, por exemplo, fica a saber que o pai foi preso e que a mãe e a irmã passam muitas dificuldades, algo que até aí nunca tinha acontecido. Por isso, no meio do humor, da comicidade da linguagem tão vernácula dos combatentes, há uma tristeza que nunca desaparece. Como diria Pessoa, são «Malhas que o Império tece» e que sempre acabam por enredar os mesmos.



sábado, 7 de outubro de 2017

O roubo do tempo

Ultimamente tenho recordado muito as palavras de um dos melhores professores que tive na Universidade. Dizia ele que nos zangamos com quem nos rouba o dinheiro, mas que não nos inquietamos com quem nos rouba o tempo. Cada vez mais penso que o acto de nos fazer perder tempo em vão devia mesmo zangar-nos e devíamos impedir que tal acontecesse. 

Além disso, devemos zangar-nos com quem julga que pode pôr e dispor do nosso tempo. Quem, para servir os seu próprios interesses, quer submeter-nos a situações que nos roubam horas de tempo de qualidade, quando poderíamos fazer exactamente a mesma coisa noutras horas mortas. Quando digo que devíamos zangar-nos, quero na realidade dizer que devíamos impedir tais abusos, precaver-nos, defender-nos deles e não, para "fazer o jeitinho", aceitar cegamente tudo o que querem que façamos. 

É que o professor tinha razão. Ninguém nos devolve o tempo que se vai, que se perde, que se gasta e nos desgasta quando não o usamos com lógica. Roubar-nos tempo é grave e a verdade é que quanto mais ele passa, mais grave isso se torna. 

Em busca de lugar na estante VIII


Balanço da coisa: já tenho um livro do novo Nobel da literatura para ler (e, felizmente, a hedionda sobrecapa sai e dá lugar a uma capa aceitável; já tenho o primeiro volume de Os Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado, portanto agora faltam os volumes II e III, que são mais fáceis de encontrar; corrigi uma terrível falha na biblioteca cá de casa e que consistia na inexistências do Almas Mortas; e trouxe o meu segundo livro do Afonso Cruz (dele só li e tenho Os livros que Devoraram o Meu Pai)

Ainda fiquei com uns livrinhos debaixo de olho, mas tive de ter juízo. Já não vim mal acompanhada, pois não?


Ps.: A propósito do Gógol, lembrei-me de que a Visão História que saiu este mês trata do tema da Revolução Russa, ocorrida há cem anos. Estou a lê-la e, fora umas gralhitas que gastar dinheiro com um revisor resolveria, é bastante interessante. Também o Courrier Internacional do mês passado tratou o mesmo tema. No primeiro artigo da Visão História fala-se, precisamente, do significado do termo "almas" naquele contexto.  

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Em busca de lugar na estante VII


Não vi o filme baseado no livro de Roald Dahl, mas vou fazer muito melhor do que isso e ler o livro. Felizmente, a imagem do filme está apenas na sobrecapa. A verdadeira capa é muito mais gira e ilustrada. 

O livro A Morte Madrinha, Polegarzinho foi cortesia do meu moço. Agora já só me falta um volume para completar esta colecção que recolhe contos maravilhosos subordinados a determinados temas. Neste livro o tema é o da morte "amiga", por um lado, e dos que morrem na floresta, por outro. Agora, se não estou enganada, já só me falta o volume que trata da boa da Branca de Neve. Haverá de vir juntar-se aos seus congéneres. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O novo Nobel da Literatura

Afinal não foi o Coentrão nem o Jorge Jesus (Miss Pipeta, acho que a votação não foi nada honesta). O Nobel de 2017 foi para Kazuo Ishiguro. 

E como sou pouco dada a letras asiáticas, vou agora ali ao Google ver quem é o senhor e o que escreveu. 

Ps.: Correcção: o autor nasceu no Japão, mas tem nacionalidade britânica. E as suas obras estão de momento pouco disponíveis em Portugal, embora existam em português. Provavelmente isso resolver-se-á rapidamente. Pronto, já fui ao Google. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Os cuscos de balcão

Primeiro vi na farmácia e depois nos correios e ambos no mesmo dia. Na farmácia a senhora foi-se chegando até que se encostou mesmo ao balcão, segurando a cabeça com a mão, a assistir ao atendimento de outra senhora. É que nem disfarçava: pregou ali os olhos e ficou a ouvir e a ver o que a farmacêutica dizia à cliente, que medicamentos ela ia levar, enfim, tudo o que se dizia.

Nos correios assisti a cena parecida. Desta vez um homem, que conhecia o que estava a ser atendido, foi cumprimentá-lo e lá ficou, especado também, a assistir avidamente a tudo. O que estava a ser atendido ainda olhou para ele, meio constrangido (provavelmente porque estava a ser atendido no balcão que dizia respeito às aplicações financeiras, coisa bastante privada, diria eu), mas nada. O cusco lá ficou.

Noutros tempos já assisti a uma cena destas no próprio banco. Uma coisa inacreditável e de uma incrível falta de educação e de respeito. Bem sei que todos temos o nosso quê de voyeur, mas por amor de Deus controlem-se! Ainda existe o direito de sermos atendidos nos diferentes serviços sem ter um abutre sobre o ombro a saber tudo o que dizemos e ouvimos. O mais idiota (se tudo isto não o fosse já em boa quantidade) é que muitas vezes o cusco ou a cusca nem conhecem a pessoa que estão a cuscar! Portanto cuscam só porque sim. E, por isso, dirigir-me-ei agora a essa gente que claramente tem problemas de cusquice:

Senhores cuscos desta vida, façam um favor à humanidade e vejam reality shows. Podem cuscar essa gente à vontade, mas deixem as outras pessoas fazerem a sua vidinha à vontade sem terem a sensação de que há um par de olhos e um par de ouvidos demasiadamente concentrados na vida alheia e um corpo que não sonha o que seja a distância social minimamente aceitável.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Estão abertas as apostas

Começaram a ser entregues os famigerados Prémios Nobel. Vamos abrir apostas com o nome do jogador de futebol que vai ganhar o da Literatura deste ano? Eu aposto no Fábrio Coentrão, e vocês?

sábado, 30 de setembro de 2017

O vício da Gatica

Espalhei catnip no tapete da entrada. Para quem não sabe, catnip é aquela erva que deixa os gatos loucos de alegria (nem todos: o Senhor Gato, por exemplo, é imune). Bom, como ia dizendo, espalhei essa erva no tapete do hall e agora estou a assistir na primeira fila à desgraça da Gatica. Ela rebola-se, ela estica-se, ela pula, ela deixa-se ficar deitada de lado com um ar muito zen... Toda uma festa. 

Diverte-te, Gatica. Até que venha o "Monstro dos Aspirador" e te leve o estupefaciente.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Menina QUERIA Isto, Mas Já Tem IX


Cortesia do meu moço, que é um anjo.

Dúvidas que me assolam IV

O que leva uma senhora a especar-se em frente à entrada da Worten do Colombo com um sorriso de orelha a orelha para o marido lhe tirar uma fotografia? Não sei, mas vi isso a acontecer. Caríssimos leitores, a coisa foi de tal forma evidente e espalhafatosa (e bastante ridícula) que o segurança foi lá informar a "modelo" de que era proibido tirar fotografias naquela zona. 

Já vi muita gente a tirar fotografias à família no Colombo. Mesmo na época em que as placas a informar que era proibido fotografar eram tão grandes que até de olhos fechados se viam! Mas em frente a uma loja de electrodomésticos e tecnologia foi a primeira vez. Em frente à entrada onde estão os robôs de cozinha e as batedeiras mais caras, nunca imaginaria que alguém gostaria de ser fotografado. O que dirão à família quando chegarem a casa? "Olha para  mim nesta fotografia quando fomos ao Colombo e passámos pela Worten!" Sim: "passámos", porque depois de corridos pelo segurança, nem sequer entraram na loja. Foram directos para o Continente! E note-se que não era nenhum casal de adolescentes acéfalos. Nop. Era gente bem mais crescida. 

Enfim, continuará a ser uma dúvida para mim: quem é que, não tendo batido na cabeça, quer uma foto de si sorridente tendo a Worten como pano de fundo?!

Uma valente confusão

Na FNAC ouço alguém perguntar a uma funcionária:

- Bom dia. Onde tem O Crime do Padre Amaro, do Camilo? Já procurei e não está na prateleira. 

Pudera. Bem podia procurar eternamente na prateleira do Camilo que nunca iria encontrar. Que dor de alma!

Ps.: Admito que não me segurei e disse à senhora, que estava mesmo ao meu lado, que não é do Camilo: é do Eça...

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O esplendor de Portugal

A minha médica de família reformou-se. Já ia sendo tempo e está no seu direito. A questão é que tanto quanto sei, desde que se efectua o pedido de reforma até que este saia, passam-se uns quantos meses. Custa-me a crer que a médica não tenha informado o Centro de Saúde de que se ia reformar e, sabendo como ela era certinha, acredito que o tenha feito com muito tempo de antecedência. Então o que explica que não tenham arranjado mais cedo um substituto? O que explica que só agora esteja a decorrer o concurso para ocupar a vaga que ela deixou? Não me digam que nos meses em que a reforma esteve pedida, mas ainda não concedida não foi possível adiantar serviço e pôr lá um médico. É anedótico. 

Melhor só mesmo aqueles colégios privados que sabem que um dos seus docentes vai ter um filho para aí seis ou sete meses antes de o bebé nascer e não fazem nada para assegurar a substituição. Depois, quando o pai ou a mãe se ausentam do trabalho devido ao nascimento, é que andam a correr atrás dos outros professores para ver se podem trabalhar horas a mais (a custo zero e por pura camaradagem) e tapar os buracos deixados por uma ausência mais do que anunciada. Até que alguém aponta o ridículo da situação (para mais num colégio privado) e, a contragosto, lá aparece um substituto com uma semana ou mais de atraso. 

Que fazer? Em Portugal somos assim: gostamos de ir empurrando com a barriga e de tapar buracos feitos por estupidez. 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Os elefantes voam?

Há uns anos contaram-me uma história verídica sobre uma criança que era tão objectiva, mas tão objectiva que era incapaz de imaginar qualquer coisa que não pudesse ser factualmente verificável. Um dia, na escola, contavam-se histórias. Uns alunos começavam, outros iam continuando e, a certa altura, o protagonista da narrativa, que era um elefante, já voava. Quando chegou a vez de a tal criança pegar na ponta solta e continuar a história, dirigiu-se à professora e disse que não o podia fazer porque os elefantes não voam. E por muito que ela tentasse explicar-lhe que era apenas uma história, que era imaginação, o menino não conseguiu colaborar na tarefa. Com o tempo, revelou-se um magistral aluno a Matemática e Ciências, mas tinha notas péssimas a Português. Os textos quase nunca lhe faziam sentido, interpretá-los era impossível.

Foi, talvez, o mais grave caso que conheci até hoje de incapacidade para imaginar, para compreender uma história que desafia a realidade. Se o texto se limitasse ao que pode e deve mesmo acontecer, tudo bem. Mas se uma flor nascesse ao contrário, se um gato falasse, se um tapete voasse, estaria tudo estragado porque isso simplesmente não é possível.

Estou, como podem ver ali ao lado, a ler o livro Matilda, um clássico da literatura infantil. Quando fui ao Goodreads colocar o livro como leitura actual, verifiquei que na ficha da edição estavam algumas perguntas que leitores colocaram sobre a obra. A primeira de todas questionava a capacidade que a protagonista tem de ler, uma vez que tem menos de cinco anos e nunca foi à escola. Alguém se dá ao trabalho de responder que o próprio livro explica que aquela menina, Matilda, é uma criança especial e com características únicas. 

Ou seja: alguém que usa o Goodreads leu a história e considerou inverosímil o facto de Matilda ser uma ávida leitora tendo quatro anos, mesmo depois de o narrador explicar explicitamente que aquela não era uma menina normal, mas sim muito especial e curiosa. Alguém perdeu a capacidade de imaginar, alguém perdeu o jeito para fazer de conta.

Vivemos tempos em que temos de ser sempre sucintos e objectivos, em que temos de ir direitos ao ponto, sem rodeios e, sobretudo, sem perder tempo. Estes mundos alternativos em que elefantes voam e meninas de quatro anos sabem ler sem que lho ensinem acabam por ser, para quem gosta de ler, lufadas de ar fresco, escapes para uma realidade apressada que não tem tempo para imaginar. Perder essa capacidade que quase todos temos desde pequeninos de imaginar animais a conversarem, de viajar para outros mundos em cima de um unicórnio é triste e torna o mundo mais cinzento. E existem pessoas assim, como a criança de que comecei por falar-vos ou como a pessoa que colocou a questão no Goodreads. Pessoas que não imaginam, que não fazem de conta, que acham que a ficção tem de reger-se pela realidade quando ela é maravilhosa precisamente porque pode, em muitas circunstâncias, fugir disso tudo e ser outra coisa muito melhor. Alguns livros não podem fugir à verosimilhança e se o fizerem serão maus livros. Mas outros podem e fazem-no maravilhosamente. Obviamente, no meu perfeito juízo e com mais de trinta anos, não vou achar que tudo tem de ser real ou obedecer às regras da realidade, mas sei perceber quando estamos noutro domínio, quando tenho de, enquanto leitora, entrar no jogo e deixar-me levar pela imaginação do autor. Enquanto leio, a sua capacidade de fazer de conta também é minha e a leitura faz-se da cooperação entre estas duas capacidades de escapar para o irreal, para o que seria impossível (ou quase) no mundo que conheço.

Talvez devêssemos explorar mais o lado imaginativo das crianças, em vez de as mandarmos para tantas actividades extracurriculares. Talvez as devêssemos deixar brincar mais, fazer mais de conta em vez de só querermos que participem em competições com regras, que aprendam coisas com regras. Os pais e as escolas têm de perceber que imaginar não é perder tempo, mas que é importante e que ajuda inclusivamente no futuro. A criatividade nasce daí, dessa capacidade de sair fora da caixa, de ver além do horizonte. Enquanto só se pensar em tempo como dinheiro ou como algo que tem de ser aproveitado ao nanossegundo em coisas sérias, a imaginação perderá terreno e os elefantes não mais voltarão a voar.

domingo, 24 de setembro de 2017

A ver vamos

Durante dois anos estudar-se-á nas nossas escolas O Ano da Morte de Ricardo Reis em vez do habitual Memorial do Convento. Foi a decisão do Ministério e aos professores não cabe mais do que cumpri-la, como sempre...

Agora, eu até entendo que esta troca vá dar MUITO jeito a MUITA gente, mas parece-me que os alunos vão enlouquecer. Saramago é sempre bom, não há dúvidas. Falhou pouquíssimo no que escreveu e é e será, sem dúvida, um dos nossos maiores. Muitos dos seus livros poderiam ser estudados nas escolas, mas a escolha era o Memorial do Convento. Geralmente, havia duas dificuldades: a primeira, acontecia porque a maioria dos alunos não lê nada; a segunda porque já levam ideias feitas de que Saramago é impossível de ler, que não faz parágrafos (o que é mentira). Os professores aprenderam a dar a volta ao assunto e no fim muitos acabavam a gostar de conhecer a obra. A sua componente fantástica, a imagem inicial de um Rei e de uma Rainha que seguem um protocolo em vez de viverem o casamento de forma espontânea acabavam por conseguir agarrar alguns alunos. Não todos nem muitos, mas alguns acabavam por perceber que havia ali uma crítica social importante, que o Memorial tem personagens de uma força imensa, que Saramago podia escrever de forma diferente, mas com sentido.

Estou a ler agora O Ano da Morte de Ricardo Reis e a gostar. Mas enquanto leio a descrição das deambulações do protagonista não consigo deixar de pensar nos adolescentes nas escolas e de comparar a abertura deste livro com a do Memorial, chegando sempre à mesma conclusão: parece-me muito mais difícil conseguir agarrar os alunos com este romance do que com a história de Baltazar e Blimunda. Não sei como vai correr a experiência, nem tenho uma turma para assistir in loco ao que vai acontecer, mas algo me diz que o ensino de Saramago vai ser ainda mais difícil. 

Porém, nem tudo é mau. Vão vender-se muitos livros e parece-me que isso, mais do que qualquer outra coisa, é o que se quer.

Um problema que eu tenho


Dúvidas que me assolam III

Sempre que acabo de pôr a louça suja na máquina para ser lavada, começam imediatamente a aparecer pratos e canecas sujos que voltam rapidamente a encher o lava-louças. Como é isto possível?! Acho que só consigo ter a louça toda lavada durante cerca de dez minutos por dia. Mais alguém padece deste problema?

sábado, 23 de setembro de 2017

Desafio terminado (por agora)

Abri o Goodreads e parece que já está. Cumpri o desafio que me tinha proposto este ano.


Vou pensar se acrescento mais umas dezenas ao desafio.

Desistências

Andava a ler dois livros que não estavam a deixar-me lá muito contente. Um deles era um thriller que recorria muito à velha técnica do «enchimento do chouriço». Primeiro que acontecesse alguma coisa, era preciso virar muitas páginas. A ânsia do autor de fazer render o peixe deve ter sido tanta que descreveu tudo e mais alguma coisa e deu a conhecer longos pensamentos de personagens em momentos que não eram mais que fracções de segundo. Lá se vai a verosimilhança. E lá se fecha o livro. Desisto.

Estava também a ler um do Erico Veríssimo que até era interessante. Consistia numa espécie de diário escrito durante a estadia na California para ensinar na Universidade. E se muito do que ele diz é interessante, muito também está datado e não me permitiu estabelecer propriamente uma relação com o livro. Ainda assim li mais de duzentas páginas. Contudo, depois, começou aquela sensação que me diz que a vida é muito curta para andar a ler um livro que não me aquece nem arrefece só com o intuito de o terminar, sabendo que há por aí mais e melhor à minha espera. A culpa não é do autor, mas do tempo que passou entre a sua experiência narrada e a minha existência. Fechei o livro, devolvi-o à estante. Desisti.

Tendo deixado os dois livros que andava a ler, resolvi procurar qualidade inegável para não haver motivos para não ler até ao fim o próximo livro. E eis que cheguei a Saramago e a um dos seus romances que ainda não li: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Por coincidência, este livro começa este ano a ser estudado nas escolas. Tenho muita pena de que durante dois anos substitua o Memorial nas aulas de Português. Mas pronto, alguém lucrará com a mudança. Comecei a lê-lo ontem e... bem, Saramago é um génio por isso tem tudo para correr bem.


Nota: Tenho sorte por ainda o ter nesta velha edição da Caminho!

Em busca de lugar na estante VI

A Fnac está hoje com um desconto de 20% em todos os livros. Mas fora isso, alguns livros do Lipovetsky estavam com desconto e, como tinha pontos acumulados, trouxe este por quase nada. Ainda lá ficou o Da Leveza, o mais recente do autor, a chamar por mim, mas a leveza da minha carteira manda-me ser contida nos gastos. Ainda assim, este jeitoso busca o seu lugar na estante.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Electrodomésticos «stalkers»

Temos cá em casa três electrodomésticos que nos perseguem até começarmos a arrancar cabelos de tanta raiva que a coisa provoca: a máquina de lavar roupa, o microondas e a fritadeira Actifry. Mas antes que comecem a imaginar que acordo com o microondas a olhar para mim ou que a máquina de lavar anda atrás de nós pela casa, coisas que dariam belos filmes de terror para serem passados nas salas de cinema do Colombo, já que estão sempre cheias de adolescentes que engolem qualquer guião ridículo deste que lhes digam que é de «terror», eu explico-vos de modo eles nos perseguem.

A máquina de lavar a roupa apita quando acaba. E apita, e apita, e apita, e apita... até ser desligada. Só que por vezes não podemos ir logo acudi-la, então ela fica naquela tortura sonora, a lembrar ao mundo que existe, enquanto eu lhe chamo vários nomes feios. O microondas faz exactamente o mesmo: apita quando acaba o seu serviço e fá-lo até que abramos a porta. O que nem sempre acontece logo, também. Aliás, não conheço muita gente que se plante à frente do microondas à espera que ele acabe de aquecer comida. Geralmente, vamos fazendo outras coisas. Pois ele chama-nos. Mas chama-nos muito! E até faz mais: se for programado para descongelar, pára ao fim de um ou dois minutos e apita, apita, apita para irmos ver se ele está a cumprir bem a sua função. Temos de ir lá, abrir a porta e voltar a fechar, em jeito de «muito bem, microondas, estás a fazer tudo lindamente!», para o bicho voltar ao trabalho. Nunca pensei que viesse a experimentar o reforço positivo com um electrodoméstico, mas aquele apito domina-nos a vontade e dá-nos cabo dos nervos.

Por fim, a fritadeira Actifry. Bom, essa é simplesmente maluca. Apita quando acaba, mas não pára de trabalhar. Ou seja: quando ela apita temos de ir a correr antes que ela carbonize o que lá está dentro. E às vezes, mesmo depois de desligada, volta a apitar. Com aquela não dá para perceber a lógica. Só acho que seria um ponto de partida excelente para o Stephen King escrever mais um bestseller: «A Fritadeira Satânica», ou «A pilha de batatas fritas assassinas», ou ainda «O apito da morte sem cheiro a fritos». Enfim, o céu é o limite.

Dito isto, eu até percebo a utilidade dos apitos nos electrodomésticos. Facilmente nos esquecemos de desligar a máquina da roupa quando acaba. Também acontece aquecermos qualquer coisa e esquecermo-nos dela dentro do microondas até que volta a ficar tudo frio e temos de gastar electricidade novamente no reaquecimento. Mas um apito ou dois bastariam. Não é preciso sentirmos que estamos a ser vítimas de um stalker ligado à corrente! Nunca poderei pôr a máquina da roupa a lavar de noite porque já sei que vou acordar toda a gente quando ela acabar o seu trabalho. Somos verdadeiras vítimas das máquinas que nos facilitam a vida. É este o preço a pagar pela modernidade: apitos e mais apitos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Dúvidas que me assolam II

Serei eu a única pessoa no mundo que aquece a gelatina no microondas durante 15 segundos antes de a comer, de modo a não ficar maldisposta? É uma dúvida que me assola fortemente. 

Ah, também aqueço gelado, mas é porque gosto dele quase derretido. Mais alguém? 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O demónio e os livros ou A Menina Sugere Isto XXXII

Falei-vos há uns dias do demónio que se mudou cá para casa. Pois bem, o dito bicho tem um belíssimo e muito útil suporte para livros ou para tablets, de modo a podermos ver séries ou ler enquanto pedalamos.

Livros em papel não coloco lá porque não tenho paciência para virar as páginas quando a única coisa que quero é cair para o lado acabar o raio do programa seleccionado rapidamente. Mas o Kindle tem cumprido lindamente a sua função. E tendo luz no ecrã até posso estar com o quarto quase às escuras que leio na mesma. É maravilhoso.

Com isto tudo, li dois livros desde que o demónio se mudou cá para casa. Ambos de literatura infanto-juvenil, mas de duas colecções de que gosto bastante e que são para lá de conhecidas: Crónicas de Nárnia e Manolito Gafotas. Da primeira li o segundo volume, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, e da segunda colecção li o quarto livro, intitulado Trapos Sucios. Este tipo de literatura é óptimo para o contexto de leitura de que falo. Enquanto suamos as estopinhas, apetece qualquer coisa que nos agarre sem exigir muito do cérebro, que está concentrado em maldizer a vida realizar o exercício.

Ambas as colecções são muito boas, ainda que completamente distintas. Das Crónicas de Nárnia penso que nem seja preciso falar muito. C. S. Lewis é o autor e os vários volumes desta colecção de literatura infanto-juvenil / fantasia mostram ao leitor dois mundos: aquele de que partem as personagens e que corresponde à vida de todos os dias e o de Nárnia, um mundo completamente diferente, com tudo para ser perfeito, mas frequentemente ameaçado por forças malignas. Este segundo volume é o mais conhecido de todos, até pelas adaptações cinematográficas a que teve direito. Curiosamente gostei mais do primeiro, talvez pelo facto de o enredo ser, para mim, totalmente desconhecido e também por haver uma intrusão da magia no primeiro mundo, no da realidade que conhecemos. São livros bons para oferecer aos nossos miúdos, até por se tratarem de clássicos. É claro que há lá aspectos que são próprios da época da escrita (como os meninos receberem espadas para batalhar a torto e a direito e as meninas só poderem lutar em casos muitíssimo excepcionais, coisa para deixar os fanáticos pela igualdade de cabelos em pé), mas a literatura tem de ter a marca do tempo em que foi criada. Quem não gosta não lê e não chateia. Aos que sobrevivem a estas coisinhas que andam a secar o cérebro de quem tem pouco para fazer, fica a informação de que os sete livros estão publicados pela Presença.


Já para os livros que contam as aventuras de Manolito Gafotas é que não encontrei tradução em Português. Mas, a menos que sejam crianças que não sabem espanhol, lê-los-ão muitíssimo bem na língua original. Manolito Gafotas é uma das personagens literárias mais conhecidas do país vizinho. Elvira Lindo é a autora, mas o narrador é Manolito, uma criança dada aos azares, com uma família perfeitamente normal (dentro da anormalidade) de um bairro de Madrid: Carabanchel Alto. O que este miúdo nos vai contando são as trapalhadas que lhe acontecem, mas fá-lo de tal forma que é impossível não acabar à gargalhada. Desde o irmão pequenino que só é conhecido como «Imbécil» e que apenas fala na terceira pessoa («El nene quiere con Manolito!»), passando pela mãe que tem a mão pesada e não se coíbe de espalhar palmadas a torto e a direito cada vez que há disparate e chegando ao avô que é um excelente companheiro de Manolito, mas que não tem problemas nenhuns em embaraçar a família com os seus «pasodobles», tudo tem graça. Talvez vá dizer uma heresia, mas estes livros lembram-me os primeiros volumes dos diários de Adrian Mole. Embora os livros de Elvira Lindo não sejam diários, mas mais as memórias (o que de si já tem graça) de um garoto espanhol de uma família de classe média-baixa, a inocência com que algumas situações são descritas, o tom coloquial utilizado, as expressões tão engraçadas e tão próximas da oralidade recordam algumas das personagens que conhecemos com Adrian Mole. Manolito faz disparates imensos sem ter consciência deles (as palmadas da mãe acabam por mostrar-lhe o que fez), porém, noutras ocasiões é simplesmente levado para situações risíveis e os seus comentários ao que lhe acontece, o modo como interpreta as suas vivências são absolutamente deliciosos. São livros viciantes. Ao estilo Menino Nicolau, estão divinamente ilustrados e é impossível largá-los. Eu terminei o quarto volume enquanto pedalava no demónio e estou a segurar-me para não me atirar aos volumes que me falta ler.


Nota: A quem também choque muito a mãe do Manolito distribuir sopapos quando ele faz disparate, talvez seja melhor não ler esta colecção. A essas pessoas aconselho... sei lá... olharem para uma parede branca durante todo o dia. Só assim vão garantir que não toparão na literatura com coisas que podem ser entendidas como violência infantil, discriminação racial / sexual / ________ (preencham com o que quiserem), palavras desadequadas a mentes tão puras quanto uma parede branca e outras porcarias que só chocam quem quer ser chocado.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ryanair

Pergunto-me quantas das pessoas com voos cancelados a poucos dias da viagem continuarão a querer viajar com a Ryanair. Eu não quereria, certamente. Mesmo sendo low cost, há coisas que ultrapassam os limites, na minha opinião. 

E já agora: já alguém percebeu realmente a razão de tantos cancelamentos?!

domingo, 17 de setembro de 2017

O demónio

O meu moço comprou uma bicicleta estática para fazermos exercício. Ontem estive meia hora naquilo. Isso e uma ligeira constipação foram os responsáveis por uma noite em que mexer as pernas foi um fartote. Acho que estavam em modo anárquico e não respondiam aos comandos do cérebro. Estou até a sentir músculos que julgava não ter. Dói-me o rabiosque devido ao banquinho daquela entidade demoníaca. 

Sem dúvida: entrou-me o demónio em casa na forma de bicicleta. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Uma simpática lembrança


A Inês, do blogue Sempre em Viagens, foi uma querida e lembrou-se de mim nas suas andanças asiáticas. Fez-me chegar o belíssimo marcador pintado à mão que vêem na fotografia. A acompanhá-lo vinha um postal da sua terra, Vila Praia de Âncora (por onde só ainda passei de comboio, mas que tenho de visitar), no qual me explicava que teve a oportunidade de assistir à produção da folha na qual pintaram os monges que podem ver no marcador. E isto aconteceu numa aldeia do Laos (eu tive de ir ao mapa para encontrar o Laos...).

Gostei bastante desta lembrança e vou guardá-la com todo o carinho numa das prateleiras de literatura portuguesa. E a homenagear as raizes minhotas da Inês, o postal e o marcador descansarão junto a um «cabeçudo» em miniatura que trouxe de Viana do Castelo há uns anos e que é lourinho e clarinho como eu. Muito obrigada, Inês!

«Nárnia», versão subúrbios

C. S. Lewis criou, em meados do século passado, o universo de Nárnia. Em sete livros de fantasia, nasceu um mundo completamente novo para o qual se poderia entrar através de um roupeiro. Aliás, dos sete volumes, o que se tornou mais conhecido do público foi mesmo o que se intitulou O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. O Leão é, no fundo, um representante da sabedoria que acaba por ajudar as crianças que visitam Nárnia a livrar-se da bruxa que espalha o mal por todo o lado. Para chegarem a esse maravilhoso mundo fantástico, as crianças (são-no quase sempre) descobriram uma passagem no fundo de um guarda-roupa.

Ora bem, tenho uma versão das Crónicas de Nárnia cá em casa. Vejamos como.

O Senhor Gato está, desde que fomos de férias, mais dengoso e mimado. Parece que tem medo de que fujamos e, portanto, tem dormido no quarto porque a outra hipótese é... ouvi-lo chorar como nunca ouvimos antes. É estranho porque a minha mãe veio tratar deles na nossa ausência e eles estavam sempre animados e a brincar. Mas parece que a saudade bateu fortemente e o bicho não se afasta de mim mais de metro e meio. Assim, tem dormido no quarto e arranjou um esconderijo debaixo da cama. De vez em quando ouço-o ressonar e suspirar. Porém, o Senhor Gato é dado a dormir sestas e não noites inteiras. Isso faz com que acorde a meio da noite e queira que todos acordem para o mimar. Ultimamente a festa tem acontecido às quatro da manhã e com grande pompa. Passei, por isso, a apelidá-lo de «Rambo das Quatro da Manhã». É que ele acorda em modo «Eu vou partir esta m**** toda se não se levantarem para me adorar!». E eu levanto-me antes que ele cumpra.

Mas o felpudinho diabólico tem outro sistema para arrancar-me da cama ainda antes das cinco: tenta insistentemente abrir o roupeiro. Vejamos: ele sabe abri-lo e fá-lo ao longo do dia, mas de madrugada o barulho ganha outros decibéis. Portanto, a cena que se segue envolve a bruxa (eu) a levantar-se da cama para impedir o leão (que tem juba e tudo) de entrar no guarda-roupa (pirando-se para Nárnia ou simplesmente para o reino do toalhão de banho). A arte imita a vida e vice-versa. Este gato deve ter andado a ler C. S. Lewis durante a nossa ausência e agora acha que no fundo do roupeiro há um portal que o levará a um reino de atuns ou de tigelinhas de sopa. 

Resultado: lá vai a bruxa cheia de sono dar umas festas e comida (de que não precisava, mas pronto) ao pequeno leão chato que não sabe que a Nárnia-dos-Subúrbios só abre às nove.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dúvidas que me assolam I

Quem terá sido a pessoa que olhou para um ovo de galinha e, mesmo depois de ver de onde ele saía, decidiu que pô-lo em água a ferver poderia dar um bom jantar?

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Chora, Camões, chora... XIV

Gastaria as minhas palavras para quê? Leiam e chorem, como Camões faria. Saiu da página do Facebook da revista Visão. Acho que nem vale a pena sublinhar os disparates: são demasiado evidentes. 




sábado, 9 de setembro de 2017

Chora, Camões, chora... XIII

No Expresso Curto de Sexta-Feira, dia 8 de Setembro:


"Cabra Cega Literária"

Ontem acabei (finalmente) o livro Um Quarto Com Vista e precisei de escolher outro livro porque costumo ler dois ao mesmo tempo. O meu moço foi dar comigo no escritório com ar de cão triste sem saber no que pegar. Até que resolveu o problema, baseando-se num jogo infantil. 

Lembram-se da "Cabra Cega"? Pois. Portanto, de olhos fechados fez-me dar umas voltas até já não saber para onde estava virada. Depois só me permiia dar cinco passos nas direcções que quisesse. Três para a frente, dois para o lado e preparei o indicador para, ainda de olhos fechados, escolher um livro. Baixei o braço, puxei um livro et voilà: problema resolvido. Estou a ler, porque a sorte assim o determinou, o livro A Volta do Gato Preto, de Érico Veríssimo (O Mesmo Senhor do Acidente em Antares, de que aqui falei). É um livro em que o autor fala da sua visão da América do Norte e dos seus habitantes, nascida a propósito do tempo que lá passou enquanto professor convidado de uma universidade. No fundo, acaba por ser um livro de viagens e vem bem a calhar pouco tempo depois do Viagens com o Charley, de Steinbeck, no qual o autor também viajava pela América do Norte e observava gentes, lugares e costumes. Steibeck levava o cão, Veríssimo levava a mulher e os dois filhos. 

Fiquei contente com a primeira edição da "Cabra Cega Literária". Acho que vou passar a escolher assim todos os livros que vou ler. É meio excêntrico e trabalhoso (já para não dizer perigoso porque há fortes probabilidades de se embater em qualquer coisa e dar cabo do dedo mindinho do pé), mas é engraçado e resulta, que é, no fim de contas, o que se quer. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Botas brancas

Não há nada mais feio do que botas brancas. Mas confesso que adoro estas:


Fazem um belo contraste com as collants mais escuras do Senhor Gato. E a posição das patinhas?! É um verdadeiro modelo fotográfico de pés. Uma sensualidade supimpa!


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Procura-se brancura

Depois das férias em Madrid e de muitos quilómetros palmilhados, os meus ténis Adidas Superstar, branquinhos, ficaram um nojo. Precisam desesperadamente de ser lavados. Resolvi pesquisar na internet sobre o melhor modo de lavar tais preciosidades (até porque imaginei que espetar com eles na máquina não seja a melhor das decisões). Meus caros, o que descobri com a minha pesquisa foi que é mais fácil construir um Airbus A380 apenas com o auxílio de um pau de gelado do que lavar os benditos ténis! Experimentem pesquisar e vejam se não é assim. Há páginas que até dividem o processo de lavagem por passos, portanto imaginem o que é necessário para devolver a brancura aos ténis. Deixo-vos aqui a página de que mais gostei por ser tão exaustivamente completa, mas cujos conselhos não vou seguir de certeza. Está bem que sou uma pessoa com muito tempo livre, porém, daí a passar um dia inteiro a limpar uns ténis vai um enorme passo...

domingo, 3 de setembro de 2017

A Menina QUERIA Isto, Mas Já Tem VIII


Gosto muito dos livros do João Tordo. Tenho-os todos, só me faltava este, problema que foi resolvido há pouco. Dos que já li, o meu favorito é o Três Vidas. Na minha opinião, João Tordo é, neste momento, um dos melhores autores portugueses desta nova geração. Cria enredos envolventes, misteriosos e que conseguem suscitar sempre uma sensação de estranheza que acaba por ser agradável ao longo da leitura. Como se nunca nos conseguíssemos esquecer de que estamos perante ficção e isso nos permitisse um olhar ainda mais incisivo sobre a acção e as personagens.

O Deslumbre de Cecília Fluss encerra a sua trilogia que começou com O Luto de Elias Gro. Ainda não li nenhum dos três. Antes quero passar por outros como o Hotel Memória ou O Ano Sabático. Este é daqueles autores que quero ter sempre totalmente na minha estante e ler devagarinho para saborear bem as suas palavras. Que continue, por isso, a escrever muito, sempre e bem.

Em busca de lugar na estante V


As prateleiras dedicadas aos livros de viagens ficaram mais compostas por estes dias. E tudo por um preço de amigo. Bons livros por poucos euros. O que mais poderíamos querer?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A Menina Quer Isto XCIX


Parece que a partir do dia 4 de Setembro este menino estará à venda nas livrarias. A Cavalo de Ferro anda imparável e ainda vai dar cabo de mim. Por agora vou ter de resistir porque vim de férias com uma biblioteca na mala, mas pronto... Fica o registo: a menina quer isto. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Quixotes e mais Quixotes

Como disse na quixotada anterior, as viagens a Madrid estão quase a ser responsáveis pela criação de um museu espanhol cá em casa. Ora, se em 2011 trouxe comigo uma tela de um pintor de rua que continua a ser, ainda hoje, o meu quadro favorito cá de casa, desta vez trouxe uma pintura muito mais pequenina, também realizada por um daqueles artistas que vendem o seu trabalho na rua, e com o mesmo tema que a de 2011: Dom Quixote e Sancho Pança. Isto de gostar de uma obra literária que tem uma componente pictórica tão forte vai arruinar-me! Qualquer dia terão de retirar-me de debaixo de toneladas e toneladas de Quixotes (livros, pinturas, bonecos...) que por aqui pululam alegremente. Mas o que hei de fazer? Há paixões assim.


Em busca de lugar na estante IV

Andei mais caladinha nos últimos dias porque não estive por cá. Estivemos em Madrid para uma semaninha de férias com muitas tapas à mistura. Mas Madrid não seria Madrid se a mala não regressasse a tocar os limites de peso permitidos pela TAP, bem cheia de livros e de Quixotes que por lá abundam. Desta vez até o meu moço trouxe uns livros, pois está decidido a desenferrujar o seu espanhol. O meu está bom e por isso mesmo aproveitou certas oportunidades para ter livros que por cá não se encontram ou que são mais baratos por lá. Alguns, que não estão na foto, sobretudo edições do Quixote, já estão arrumadinhos nas respectivas prateleiras. Estes ainda estão aqui ao meu lado a aguardar a entrada na lista e a posterior arrumação. Por enquanto ainda estou na fase de namorá-los muito.

Há muitas coisas de que gosto em Madrid. Duas delas consistem no facto de ser aqui ao lado e de não ser uma cidade muito cara. Por isso dá para trazer estes livrinhos e outras tralhas que quase fazem desta casa um museu espanhol. Os livros de bolso que por lá se editam são de uma qualidade que, infelizmente, nós por cá não conhecemos em edições portuguesas. Torna-se absolutamente indiferente comprar a edição normal ou a sua versão de bolso porque esta última, muito mais pequena e barata, tem praticamente a mesma qualidade que a primeira. Por isso é de aproveitar. Isso e a possibilidade de aceder a títulos que ainda não chegaram a Portugal e que se calhar nem chegarão. Assim, a entrada nas livrarias da capital espanhola torna-se uma tentação e é precisa muita força de vontade para resistir. Como no Verão passado também estivemos em Madrid, e apesar de a mala ter vindo cheia de livros, alguns ficaram debaixo de olho para quando regressássemos. Vieram este ano. Outros ficaram na lista para uma futura escapadela. Podia ir cem vezes a Madrid que conseguiria sempre arranjar com o que encher os meus dias e as malas.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XII


Os leitores conhecem bem o problema da escolha do(s) livro(s) para levar de férias. Fazem-se as malas, prepara-se tudo, mas depois surge o dilema da escolha. Levamos um maior ou vários mais pequenos? Estaremos dispostos a arrastar um livro muito pesado durante as nossas férias? E mesmo que fiquemos em casa, queremos um livro grande que leve muitos dias a ler (os dias que, frequentemente, ao longo do ano não estão disponíveis) ou queremos «dar andamento» à biblioteca lendo vários livros menos extensos? Problemas, problemas. 

Lembro-me do ano em que escolhi ler o Tom Jones nas férias. Como não passava os dias a ler, a leitura arrastou-se por todos os meus dias de férias. Fiquei com uma sensação agridoce: se por um lado tinha lido um bom clássico, por outro também não havia conseguido ler mais nada num mês inteiro. Mas se não escolhermos o Verão para estas leituras mais longas, quando as faremos? Estes problemas são mesmo peculiaridades nossas. Muita gente limita-se a comprar a Maria ou a TV Guia e a levá-las para a praia. Ou então nem levam nada.

Mas este é um problema que levamos bastante a sério. Escolher um livro que levamos para férias (no caso de sairmos de casa) e ele revelar-se mau é suficiente para deixar um leitor muito maldisposto. Se ficarmos em casa, sempre podemos ir buscar outros que pareçam mais promissores. Porém, longe das nossas prateleiras, a solução é comprar outro livro ou aguentar aquele que escolhemos. 

Se quiserem, partilhem nos comentários as vossas experiências de leitura em férias. Contem-me tudo! Eu revelo já que, ficando em casa, leio livros em papel, mas que se sair, levo o Kindle. É mais leve e lá dentro cabem muitos livros: se me fartar de um, mudo para outro. 

Nota: A imagem saiu daqui.

sábado, 19 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XI


Há alguns anos passei pela situação descrita acima e pensei que só eu é que sentia aquilo. Na altura fiquei mesmo preocupada porque não percebia como poderia ser possível alguém que lia tanto ver-se, de repente, incapaz de ler. Na verdade, era como se não conseguisse concentrar-me para ler, por pouco tempo que fosse. Pegava num livro e nada. Não sentia nada e, mesmo quando me esforçava para conseguir concentrar-me, era impossível e acabava por distrair-me. Somava-se a isso a culpa por continuar a comprar livros, embora fosse difícil ler mais do que uma página. 

Um dia li num blogue a descrição que alguém fazia do mesmo problema. A autora estava a atravessar a mesma fase de bloqueio que eu vivera antes. Foi aí que percebi que é algo que acontece. É chato, mas acontece. É como se de repente um hábito nosso se tornasse estranho para nós mesmos. Parece que há duas partes do cérebro em conflito: aquela que sabe que adoramos ler e conhecer novas histórias através dos livros e a outra, a que, subitamente, é incapaz de fixar uma página por mais de cinco segundos sem desatar a pensar noutras coisas.

Ando novamente numa fase destas. Não tão grave como noutros tempos porque está a acontecer apenas com livros. Continuo a ler revistas e, mesmo não estando concentrada como seria de esperar, pelo menos estou a ler. E tenho tantas em atraso que bem posso dedicar-me aos periódicos. Mas com os livros a coisa está meio parada. Parece mesmo que só quero é ver o livro acabado, ainda que não me esteja a apetecer muito viver o processo necessário para chegar ao fim. É estúpido, mas é mesmo tal e qual o que está descrito na imagem. Encontrei-a no Facebook há uns tempos e, somando-a à minha experiência e à da blogger que li e de que já falei, sou levada a crer que isto não é assim tão raro. 

Noutros tempos atribuí a culpa ao cansaço. Agora não tenho nada que culpar. Simplesmente o meu cérebro não está com vontade de dedicar-se com afinco a um livro. Parece que olha para ele e acha-o muito grande e muito cansativo ainda antes de pegar-lhe. É um cérebro leitor que mostra a sua vontade de parar um bocado, de olhar para outras coisas, de passear em vez de ler; de ir à praia em vez de ficar a ler; de estar a olhar para ontem em vez de prestar atenção às páginas de um livro. Isto acaba por passar, claro. Acho que o calor também não ajuda. Mas esta é mais uma das nossas peculiaridades. Adoramos os livros, adoramos ler, mas por vezes até este amor tem de ficar pendente porque não se consegue concretizar com a qualidade a que estamos habituados. Há males maiores, por isso pode conviver-se com este durante uns tempos. Ainda assim não posso deixar de pensar que tenho tanto para ler e que assim estou a perder tempo... 

Portanto, verão ali durante uns tempos os mesmos livros nas leituras que presentemente faço. Vou aproveitar a fase para dedicar-me às revistas já que parece que o meu cérebro está cansado de ficção, mas não de reportagens e de entrevistas. Espero, no entanto, que esta «peculiaridade» não dure muito tempo porque a biblioteca está sempre à espreita.

Em busca de lugar na estante III


Custa originalmente 25€, mas consegui-o por 7.50€ numa promoção da Bertrand online. Tenho tudo e mais alguma coisa de Saramago, inclusivamente entrevistas, mas queria ter esta selecção de excertos seus, compilados a partir de muitas entrevistas dadas por ele. E fico ainda mais contente por ser uma edição da Caminho, que assim não destoa dos outros livros todos que tenho. Na realidade, livros de Saramago nunca procuram lugar na estante, pois têm-no sempre garantido.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

É mesmo isso

A The New Yorker continua a acertar em cheio nas capas. Infelizmente. 


In Memoriam

Todos sabemos o que foi o 11 de Setembro. Todos nos lembramos do que aconteceu a 11 de Março. Todos recordamos as Torres Gémeas e Atocha pelo que de pior ali aconteceu. 

Mas muito mal vai o mundo quando já não há memória suficiente para tantas datas, para tantos lugares, para um tão grande número de vítimas. O terrorismo tomou conta da nossa realidade e está por isso mesmo a adormecer-nos a memória. Quando Nice já se confunde com Londres, quando Barcelona se confunde com a Suécia, quando Boston e Paris não se distinguem, muito estranho e horrendo está este nosso mundo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando penso que já vi de tudo...

... apercebo-me de que ainda sou um bambi muito pequenito e com muito para me surpreender. O que se segue existe e peço-vos que, além de todo o evidente disparate, reparem bem no nome da editora que publica o livro. Isto já não é novo, mas só hoje dei de caras com tal coisa. 


Já agora apreciem também aqui a entrevista à autora por alturas da publicação disto

Nota: Desculpem-me a falta de formatação desta quixotada, mas escrevi-a na aplicação do Blogger no telemóvel e não dá para mais. Logo que possa, dou-lhe um jeito. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os pastores do «shopping»

Se há coisa que me deixa à beira da loucura é ir ao centro comercial e ter pela frente aquilo que chamo um «pastor do shopping». E o que é isso? São pessoas que andam tão lentamente, mas tão lentamente que nos colocam a dúvida de estarmos no Colombo ou na procissão do Senhor dos Passos. Há pessoas que vão para o centro comercial ver as vistas como fariam numa caminhada à beira-mar. E os desgraçados que vão atrás e que sabem bem para onde querem ir têm de abrandar a marcha para não varrer estes pastores desprovidos de gado.

O problema aumenta quando acontece em lugares estreitos ou com muita gente e onde não podemos desviar-nos destes caracóis do comércio. Imaginem: saem do cinema, querem ir jantar e levam mais de meia hora para chegar ao restaurante porque ali na zona há gente que anda tão devagar que têm de olhar com muita atenção para ver se estão realmente a mexer-se. 

Por isso, pastores do shopping, deixo a seguinte sugestão: se, qual Caeiro ou Cesário, aquilo de que gostam mesmo é de deambulações, façam como os poetas e vão até ao campo (ignorem a veia citadina do Cesário, que era muito dada à fealdade), arranjem um rebanho a sério e ponham-no a pastar. Aproveitem e caminhem atrás da ovelha mais velha e manca que tiverem, olhando à esquerda e à direita, olhando as árvores e as ervinhas, desfrutando da paisagem bucólica que vos rodeia. Se quiserem, podem imaginar que estão diante da Zara a olhar para a última sandaloca feia da moda ou que estão diante da loja da Apple a namorar iPhones e iPads, não me interessa, o rebanho é vosso. Mas deixem os caminhos dos centros comerciais desimpedidos para quem não tem como objectivo de vida a deambulação em catedrais do consumo.