terça-feira, 1 de setembro de 2015

O quarto de queijo flamengo

Quem é que, pelo menos na infância, não viu no seu frigorífico um quarto de queijo flamengo? Acho que era parte de uns tenros anos felizes aquele queijinho mole com uma carapuça cor-de-rosa. Até hoje achei que toda a gente sabia o que era um quarto de queijo flamengo. Mas num minimercado conhecido cujo início do nome é, precisamente, "mini", tudo mudou.

Na vinda para casa resolvi passar pelo tal minimercado para comprar pão, pois adoro o que por lá vendem. Mas, ao entrar, lembrei-me de que o queijo flamengo já estava a acabar e fui procurá-lo. Ao chegar junto dos quartos de queijo flamengo Limiano, o meu favorito, deparo-me com um que estava embalado, mas cheio de bolor. Recuei furiosa: já não é a primeira vez que aquele espaço comercial em particular tem nas prateleiras produtos com prazos de validade ultrapassados ou que já não têm o aspecto que deviam ter para serem vendidos. Aliás, desde que a gerência mudou, isso passou a acontecer com maior frequência do que seria tolerável. Encontrarmos numa loja um produto fora do prazo, ainda que mau, deixa-se passar, mas ver isso acontecer repetidamente já me parece demasiado.

Desisti do queijo e fui aos iogurtes. Contavam-se pelos dedos de uma mão os tipos de iogurte que por lá havia. Desisti deles também. Resolvi não me desviar mais e fui ao pão: também só havia um saquinho. Contudo, no corredor da padaria, encontrei um funcionário da loja e disse-lhe:

- Desculpe, mas ali na secção dos queijos tem um quarto de queijo flamengo da Limiano com bolor.

- A sério?! Obrigada por avisar. Vou lá retirá-lo.

E assim foi. O menino saiu de ao pé de mim e eu fui para a caixa para pagar o meu singelo pãozito. Quando ainda esperava para ser atendida, o mocinho aparece ao pé de mim, estende-me um requeijão embalado e diz-me, com um ar condescendente:

- Olhe, não é bolor: são ervas.

Ao que respondo:

- Ok, mas isso também não é um quarto de queijo flamengo. 

Silêncio constrangedor. Continuo:

- Não é esse. É o quarto de queijo flamengo da Limiano.

O menino lá foi novamente para a parte dos queijos. Eu continuei na fila e quando olhei para trás enchi-me de nervos: lá estava ele em frente ao frigorífico a pegar em tudo quanto era embalagem de queijo fatiado... menos no raio do quarto de queijo. Desisti: saí da fila e fui lá dar-lhe o referido queijo com bolor, acrescentando:

- Isto é que é um quarto de queijo.

Ele olha para mim, meio confuso, e diz:

- Ah... Não sabia. E tem bolor.

- Pois.

Fiquei em choque. Em primeiro lugar pela falta de cuidado da loja uma vez que, como já disse, isto não aconteceu hoje pela primeira vez desde que a gerência mudou (ainda há pouco tempo tive de chamar a atenção a uma funcionária porque tinham na padaria um bolo já passado do prazo e uns meses antes disso tive de avisar outro empregado sobre uma embalagem de cápsulas Delta Q também com a validade expirada). Já praticamente reduzi as minhas compras naquele espaço ao pão e a alguma outra coisa que me faça mesmo muita falta em casa (vendo sempre o prazo de validade e o aspecto do produto, claro). Depois, também fiquei parva de todo por ver que o moço (ali pelos vinte anos) não fazia ideia NENHUMA do que raio é um quarto de queijo. Nem toda a gente tem de saber tudo, mas eu achava que o quarto de flamengo era um clássico. Bom, pelos vistos enganei-me. Mas vá: ao menos aquele queijo bolorento e o pouco conhecimento do menino deram uma quixotada que já vai longa. Não fosse isso e estaria calada.

6 comentários:

  1. Não somos muito de ir ao Mini mas da próxima vez que por lá passarmos, teremos em atenção a validade.

    Parece que quartos de queijo já não são tradicionais. Já nem queijo sequer.

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    1. Ali o problema não me parece ser do lugar (podia acontecer em mini, PD, Cont ou outro qualquer) até porque já fui a outros estabelecimentos da mesma cadeia e não dei conta de algo assim. Mas desde que há uns dois anos, talvez, recebeu obras e passou a ser gerido por outras pessoas (suponho que em franchising) tem vindo a tornar-se nesta maluqueira. Inicialmente correu bem, mas no último ano tem ficado mais descuidado. Para veres, só eu já dei por três produtos estragados em poucos meses. Imagina o que faz à confiança de um consumidor...

      Quanto ao quarto de queijo... Que mundo este!!! O quarto de queijo é mítico!

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  2. Má gerência do estabelecimento, parece-me. Talvez tenham pouco capital inicial para investir e estejam a entar escoar os produtos mais antigos (não que isto desculpe a falta de qualidade, claro; perder clientes é garantia de barco afundado...)

    Quanto ao moçoilo, há que ver as coisas pelo lado positivo: nesse dia aprendeu algo novo sobre o vasto mundo dos queijos e de certeza que não se vai esquecer. Se calhar passou um bocado a pensar porque raio é que se chama quarto de queijo, mas isso já é outra história :D

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    1. Acredito mais que seja falta de cuidado porque acho impossível que acreditem que alguém seja capaz de levar aquele queijo descaradamente bolorento. Parece-me o típico caso (tão português) do "ganha a fama e deita-te a dormir". Esta gerência começou bem, mas está a descarrilar. Deve achar que já tem os compradores bem agarrados e fiéis à loja. Esquecem-se de que existe uma coisa chamada concorrência bem perto...

      Relativamente ao facto de agora o menino ter a obrigação de saber o que é um quarto de queijo, acho que prestei serviço público. :P

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  3. Oh-meu-deus-nosso-senhor! (E eu nem sou de dizer estas coisas).
    Nem vou falar do prazo de validade e do bolor, porque acho que isso nem tem assunto. Mas quem diabo não sabe o que é um quarto de queijo?! Isso é contra natura! Logo eu, que adoro queijo... Isso é uma coisa que sempre existiu. Não percebo. E as ervas?! Senhores. Acho que vou precisar de terapia depois disto, eu e os meus queijos! =P
    ****

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    1. Também não esperava que o quarto de queijo flamengo fosse desconhecido para alguém, mas parece que sim. Ah, o momento do "isto não é bolor: são ervas" vai ficar-me na memória. Precisarei de terapia também.

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