
Ana Paula é o primeiro romance que compõe este conjunto de três livros publicados pela Guimarães Editora. Cada volume contém dois romances e todos eles têm por espaço a Lisboa do século XX durante a ascenção e declínio do período salazarista. Como o próprio nome dos volumes indica,
Crónica da Vida Lisboeta, estes romances acabam por funcionar como crónicas dos costumes e não só de uma cidade que se perdeu no tempo. Assim, o enredo aborda questões próprias da época que saem reforçadas pelo cenário de uma cidade profundamente marcada pelas desigualdades sociais, onde enquanto a burguesia desfilava pelo Chiado e enchia as casas de chá, as varinas andavam de canastra à cabeça olhando para todos os lados para ver se a polícia não vinha lá. Ao mesmo tempo que passavam belíssimos automóveis, em alguns espaços andavam galinhas pelas ruas. Enfim, uma cidade cheia de contrastes, irremediavelmente marcada por códigos de conduta que, em boa parte, a religião ditava e que iam travando a vida de muitos, sobretudo a das mulheres, sempre consideradas menos importantes, mais fracas, obrigatoriamente submissas.
Ana Paula foi dos melhores e mais cativantes romances escritos em português que já li. Já para não falar do brilhante domínio da língua que marca a escrita do autor, Joaquim Paço D’Arcos, e que é coisa de que se sente uma certa saudade, o enredo é tocante, mas é tal e qual o que esperamos da época histórica retratada. A protagonista, que dá nome ao romance, cresce na Graça no início do século XX. Provém de uma família abastada cujo título já vem de longe e se deve a uma propriedade no norte do país. É a filha mais velha de um casal no qual a mulher é absolutamente submissa, sem opiniões, sem voz, que tudo aceita tacitamente e que casa quando já ninguém o esperava e apenas porque os seus bens ajudarão a situação económica do futuro marido, prejudicado ainda pela lei que retira aos morgados a totalidade da herança paterna. Não é mais do que uma transação comercial, mas sente-se feliz por casar porque, afinal, era isso o que qualquer moça desejava. O pai de Ana Paula, o Conde da Balsa, é um tipo de causas, desde que lhe dêem jeito. Luta pelas partes que crê poderem trazer-lhe vantagens, até que percebe que mais vale manter-se à margem dessas lutas antes que lhe saia o tiro pela culatra. Filha destes dois, Ana Paula cresce, ainda assim, saudável e feliz com as temporadas que passa na propriedade junto ao Tua. É livre, curiosa e até um pouco pespineta. É, portanto, uma criança absolutamente normal. No entanto, o pai considera que deve ser domada e, assim, levá-la-á para um colégio religioso na Galiza, onde será educada por freiras, tendo sempre em vista o temor a Deus. É assim que Ana Paula perde todo o viço e encanto da infância, trocando-os pelos limites impostos pelo divino. Sairá do colégio aos dezasseis anos completamente diferente. Aprendeu aquilo que uma menina precisava de saber. Também aprendeu o que era o pecado e que Deus não gosta de pecadores. Aprendeu a rezar. Foi, enfim, domada pela religião. Foi toda a educação que teve.
Um dia, enquanto tomava chá com a irmã e uma prima numa casa de chá do Chiado, conhece Jorge, um oficial conhecido em Lisboa por feitos de guerra importantes. Era admirado por todos pela coragem e pela bravura. Mas também era sobejamente conhecido por ser um estroina, um bon vivant que gostava de gastar o que tinha e o que não tinha. Gastou em três meses a herança que o pai lhe deixou e que foi criada ao longo de uma vida inteira de trabalho. Conhecia de olhos fechados o caminho para o Casino do Estoril. Contudo, obviamente, Ana Paula só sabia da primeira parte: que Jorge era um herói a quem o país devia muito. Casou e rapidamente travou conhecimento com a segunda. Não gostou, mas aguentou.
Esta última frase poderia sintetizar o livro: não gostou, mas aguentou. Ana Paula poderia ter sido diferente, não tivesse sido a sua educação como foi, no sentido de lhe impor limites que eram os esperados na sociedade lisboeta da época. Talvez se tivesse continuado a crescer livremente... Mas não sabemos. O que o romance nos conta são as provações de Ana Paula que, a determinada altura, se verá a braços com a possibilidade de cortar as amarras, libertando-se de um casamento que a humilha, que não lhe traz já qualquer felicidade, que a apequena todos os dias. Assistimos à luta interior de Ana Paula, luta essa muito condicionada pelo temor a Deus e pela sociedade que não aceita mulheres que, ainda que sofrendo, abandonem os seus maridos. Assistimos a um diálogo entre três pessoas, sendo uma delas a prima de Ana Paula, no qual percebemos bem o pensamento da época: «mulher que se separe do marido jamais entrará na minha casa», que é o mesmo que dizer que será excluída da sociedade pela própria sociedade.
O final é o único que poderia ser, ainda que gostássemos de ver outro. Mas este é um romance que não permite que nos esqueçamos de que estamos da primeira metade do século XX, ali pelo ano de 1936. À luz do século XXI, não aceitamos as escolhas da protagonista, mas ela não é do nosso tempo e isso diz tudo. Perante uma sociedade que manda aguentar, quem tem força para remar contra a corrente? Quando Deus serve para condicionar os actos dos seres humanos, sobretudo os das mulheres, como conseguir a força para quebrar esse medo e seguir o caminho desejado? Quando se acredita mesmo que os pecados desta vida se pagam na outra, quem se atreve a escolher a felicidade em vez do que é moralmente certo? Quando a sociedade espera das mulheres espírito de sacrifício e quando é isso o que ouvem nos sermões e nos confessionários, como agir de modo contrário?
Por tudo isto, aconselho-vos a lerem este romance, do qual não vos desvendarei mais nada. Joaquim Paço D’Arcos não é o mais conhecido escritor português, mas merece ser lido. Tem mais livros além dos romances que compõem esta Crónica da Vida Lisboeta. Estes volumes da Babel são um pouco caros. Só os comprei na Feira do Livro porque me fizeram um desconto de 40% no penúltimo dia do evento. Pelos três paguei à volta de quarenta euros. Mas se puderem, requisitem-nos ou aproveitem as promoções que sempre vão aparecendo para irem comprando um de cada vez. Terão um enorme prazer a ler este maravilhoso uso da língua portuguesa aliado a uma história tocante e muito bem contada.