quinta-feira, 9 de março de 2017

A vaidosa sem jantar

Esta noite sonhei que ia jantar fora com o moço, mas que para ir tinha mesmo de levar um colar de pérolas que tinha pertencido à boa da Marilyn Monroe. Foi porque o Senhor Gato deu início ao seu toque de alvorada, senão julgo que ou me tornaria ladra profissional em sonhos ou bem que virava esqueleto antes de ter direito ao jantar.

Uma pessoa sonha com cada coisa... Para onde havia de dar-me!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Da ternura

E o que dizer de um gato que se deita SEMPRE nas costas do sofá em que estou sentada com uma das patas da frente sobre o meu ombro? Mesmo que eu me mexa, a pata volta a apanhar-me. Digo apenas que é uma companhia e um amigo sem igual. 

Primeiro sol

Está sol em Lisboa. E o que eu já vi de nalgas mal entaladas em cuecas de ganga (há quem lhes chame "calções")?!?

terça-feira, 7 de março de 2017

Novas formas geométricas

Eu, moça de Letras, proponho às ciências exactas a inclusão nos cartapácios de Geometria e de Matemática de duas novas formas geométricas por mim descobertas. E são elas:

1.ª - A semicircunferência felina*:


2.ª - A circunferência felina perfeita:


*Esta figura só não recebe o epíteto de «perfeita» porque levantou a cabeça no momento da foto. Estas formas geométricas que se mexem são uma chatice...

Mute

Algures no meio daquele pelito todo que reveste a minha gatica haverá, espero eu, um botãozinho que diz «Mute». Eu é que, desafortunadamente, ainda não o encontrei, pelo que a minha vida passa por ser assombrada por um «miau miau» constante e agudo. Ora é o «miau miau» de quem não sabe onde anda o Senhor Gato e quer saber; ora é o «miau miau» repetido e ainda mais agudo de quem anuncia ao mundo que precisa de se aliviar; ora temos o «miau miau» de quem exige festinhas, sendo este geralmente seguido de um corpo felino a atirar-se para o chão; ora temos o «miau miau» ansioso de quem quer atum ou saquetas; ora ouvimos o «miau miau» alegre de uma parolita bem disposta que anda pela casa a correr e a brincar com a própria sombra.

Eu já a apalpei a ver onde está o botão, mas ainda não o encontrei. Se alguém souber como configurar estes aparelhos modernos a que chamam «gatinhos», agradeço o auxílio. Já tentei contactar o Apoio a Clientes, mas quando atendem dizem «miau miau» e eu desligo logo com os nervos em alta e a respiração acelerada. Penso até que estou traumatizada.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Este meu espelho

Este blogue nasceu no final de 2011, depois de uma estada em casa com varicela. Já era professora, na altura ainda não estava desencantada com a profissão e com a realidade terrível vivida pelos docentes nas escolas portuguesas. Em Novembro, no dia dois, mantendo-se aberto, este blogue celebrará meia dúzia de anos de existência.

Muito mudou de lá para cá, no mundo, no nosso país, mas sobretudo na minha vida. A primeira quixotada foi escrita no sofá da sala da casa dos meus pais, onde então vivia. Agora escrevo-as maioritariamente na minha própria casa. O trabalho daquela altura já não o tenho porque assim o quis. Já conhecem a história, não vo-la voltarei a contar. Desencantei-me com a profissão, mas aproximei-me ainda mais dos livros, precisamente porque voltei a ter mais tempo para eles. Passei os últimos meses a descansar esta cabeça que estava esgotada de tanto stresse, de tanta pressão diária, com uma medíocre pausa no mês de Agosto (que nem era bem pausa porque, mal o colégio reabrisse em meados do mês, recomeçava a chuva de emails e lá se iam as férias tranquilas...). Enfim, tudo mudou e eu sobretudo.

Mas porquê isto agora? Porque ontem precisei de encontrar uma quixotada antiga e isso deu-me ensejo para reler algumas das coisas que escrevi no final de 2012 e no início de 2013. Notei grande diferença no tom e no tamanho das quixotadas que escrevi naquela altura. Eram muito mais curtas do que são hoje, eram mais sarcásticas e mordazes, e também tinham mais humor. Falava muito mais do que vivia no trabalho do que nos anos seguintes. Ou seja: mesmo os disparates engraçados que os miúdos me diziam foram perdendo lugar no blogue à medida que ia percebendo a toxicidade que o trabalho estava a ter na minha vida. Parece-me que me tornei mais séria no tom, mas também nos temas abordados nos textos (salvo algumas excepções em que a parvoíce vem ao cimo e sai com estrondo). Senti, confesso, algumas saudades daquela capacidade para fazer humor relativamente a algumas situações do dia-a-dia. Parece-me que estes anos trouxeram e levaram muitas coisas, mas felizmente nem tudo se perdeu e ficou o blogue como testemunha disso tudo. Bem a calhar, ontem dei por mim a pensar que quando tiver um filho ele vai acabar por poder ler o que a mãe escreveu durante vários anos e publicou online para quem quisesse ler. Tem a sua piada. É como se fosse uma espécie de diário cuja leitura é consentida pelo autor. Não digo que o desgraçado não morra de vergonha com alguma coisa que tenha dito (embora ache que fui sendo cuidadosa com as palavras e considere que não expus assim tanto a minha privacidade). Seja como for, esquecemo-nos frequentemente de que o que aqui criamos todos os dias quando escrevemos em blogues será eterno na internet e, ainda que interesse a poucos, é uma parte muito significativa da nossa vida que aqui se encontra espelhada. Serve para os outros nos conhecerem (ou conhecerem apenas o que queremos mostrar, já que a realidade, a verdadeira, é só para quem está deste lado do monitor), mas serve também para que nós, volvidos alguns anos, possamos olhar para um outro «eu» que já foi, que cresceu para se tornar no «eu» de agora até que também ele ceda o seu lugar a outro. Quem leu o Harry Potter recorda-se bem do Dumbledore e dos seus frasquinhos onde guardava memórias e pensamentos que depois podia revisitar. Um blogue, como um diário, é a nossa forma de o fazer sem recurso à magia. É, ainda assim, uma experiência singular.

Aos meus alunos costumava dizer para escreverem um diário. Nem que fosse durante um ano, que o fizessem, pois um dia, passados muitos anos, iriam tropeçar nele e gostariam de reler o que haviam contado sobre si e sobre os seus dias. Ririam, provavelmente, mas de qualquer modo seria uma experiência curiosa. Alguns ficavam entusiasmados, contudo não sei se algum aceitou o desafio. Quando lhes dizia isto, sabia do que falava, já que além dos diários da infância e adolescência, tenho agora quase seis anos de um outro suporte, este, que espelha perfeitamente aquilo que fui fazendo com o tempo que passou. Consegui ontem, ao ler o que ficou para trás, encontrar-me no que li, mas perceber inúmeras diferenças entre o que escrevo e como escrevo agora e o modo como o fazia antes. Se o As Minhas Quixotadas durar mais meia dúzia de anos, quem sabe o que encontrarei depois? O que sei é que isto dos blogues, bem espremido, torna-se coisa séria, mas mais que isso, coisa pela qual ganhamos grande afecto, uma estranha forma de carinho. No fim de contas, por trás deste rosa todo e dos textos que já não sabem ser pequenos, sou eu e a minha vida que aqui estamos.

Nota: Mais seis anos disto e cada quixotada terá cerca de metro e meio de comprimento.

domingo, 5 de março de 2017

A biblioteca que somos

No último livro de Alberto Manguel lemos sobre bibliotecas. A Biblioteca à Noite, publicado pela Tinta da China, evoca as públicas e as particulares, mas não fica por aí. Alberto Manguel diz ao leitor que além sermos a nossa própria biblioteca, já que os livros que temos dizem muito sobre nós, somos também as bibliotecas que não temos. Ou seja, segundo o autor, os livros que não temos também dizem muito sobre nós. Não só os que não temos porque não queremos ter, mas também os outros: aqueles que gostaríamos de possuir e que, por algum motivo, ainda não estão na nossa biblioteca e aqueles que queremos, mas que ainda nem foram escritos.

Os livros falam de nós: esta é uma ideia bonita, mas ao mesmo tempo inquietante. Depois de ler este livro de Manguel, entre o final do ano passado e o início deste, fiquei a pensar que se é bonito ter à minha volta livros que me apresentam ao mundo, é também estranho que neles esteja tanto sobre mim. Inclusivamente aquele tanto que posso não querer partilhar com os outros e guardar só para mim. E depois, além de os meus livros revelarem muito do que sou, ainda há a outra parte que ajuda a completar o meu retrato: a dos livros que cá não estão. Sem dúvida, Manguel tem razão: os livros dizem mesmo muito sobre nós. Mas feliz ou infelizmente, esqueceu-se de um pormenor: a maior parte das pessoas não liga nada aos livros e não percebe que para conhecer bem uma pessoa, ver a sua biblioteca e pensar sobre os seus haveres e faltas é fundamental. Está diante da vista, porém não se vê. O Principezinho explica, pois no seu entender «O essencial é invisível aos olhos.».

Foi a pensar nisto que Alberto Manguel diz sobre o facto de sermos a nossa biblioteca, mas também a biblioteca que não temos (inclusivamente porque podemos desejar livros que ainda nem foram escritos, como já disse), que resolvi pensar na biblioteca que não possuo. A que tenho conheço bem e, se vista com atenção, diz mais sobre mim do que aquilo que gostaria. Está cheia de clássicos, tem poucos livros contemporâneos. Vive e aumenta-se muito com livros que sobreviveram ao escrutínio do tempo. Vai crescendo também com a História do que fomos e a análise do que somos. Mas tem falhas. Falhas que tento tapar por vezes, quando tropeço nos livros que não estão e que deveriam estar. Ainda assim, um bom leitor sabe reconhecer três ou quatro (ou dezenas ou centenas) de livros que não estão e deveriam estar junto de si. Isto até poderia dar uma daquelas quixotadas com o título «A Menina quer Isto», mas não vai dar. Porquê? Porque embora sejam livros que gostaria de ter, são livros que não estão na minha biblioteca pessoal porque outros sempre se colocaram em bicos de pés na frente deles. Estes são, considero, básicos que têm, infelizmente, ficado esquecidos. Provavelmente, mesmo que me saísse agora o Euromilhões, não seria estes aqueles que correria a comprar porque, lá está, arranjaria sempre outros muitos para trazer primeiro. Estes acabam por ser valores certos que estão lá, que nunca desaparecerão, mas que enquanto aqui não estiverem serão ausências ruidosas, falando muito sobre o que sou. Assim, esta é uma parte da biblioteca que não tenho, não porque não a queira, e que ao mesmo tempo sou:






Nota: Todas as capas foram retiradas do catálogo da Wook.

Os livros de viagens

Há alguns dias li as primeiras linhas de um texto sobre livros de viagens. Nem consigo dizer-vos onde o li porque não me recordo mesmo. É que foi numa visita muito rápida à internet entre uma coisa e outra que tinha para fazer. Por isso não li o texto todo e tenho pena. Mas sei do que falava. Colocava a seguinte questão: numa época em que viajar é mais fácil e barato, continuará a valer a pena escrever (e ler) sobre viagens?

Na minha opinião, vale. Mesmo que eu tenha agora mais possibilidade de correr o mundo do que teria há cinquenta ou cem anos, não significa que possa ou queira privar-me dos relatos dos outros. Quantas vezes vamos a algum lado com ecos de quem lá foi antes e vamos aqui ou ali porque lemos sobre esses espaços? E esse relato anterior à própria viagem não lhe retira a surpresa, pois uma coisa são as palavras que correspondem à visão que outro teve do lugar e outra muito diferente é a forma como eu mesma vejo o espaço para onde viajei. Mais: há relatos de viagens que ultrapassam e muito o mero relato. São verdadeira poesia. Há autores que são capazes de verter no papel experiências que podemos não ter, mesmo que viajemos para o mesmo lugar que ele. Que sabem contá-las de uma forma única. Posso ir ao mesmo sítio e experimentar algo parecido: ler é e será sempre diferente de viver. Uma coisa pode preparar para a outra, mas nunca o faz completamente. Há sempre uma boa dose de desconhecido que não vem nos livros e ainda bem. Ler a experiência dos outros não empobrece a minha, pelo contrário: enriquece-a. 

Gosto muito de livros de viagens. Gosto de ver o modo como os autores olham para os lugares para onde se deslocam e o que lhes merece digno de ser partilhado ou não. Já me aconteceu ir a lugares sobre os quais li anteriormente e, acreditem, ler primeiro sobre eles não diminuiu nada o prazer da visita. Os olhos dos outros não substituem os meus, ainda que, numa primeira instância, possam servir para informar-me e espicaçar a minha curiosidade sobre determinado lugar. Além disso, há sempre muitos olhares diferentes e possíveis para ver a mesma coisa. Uma viagem feita em trabalho não é igual a uma viagem feita por lazer, assim como um livro de viagens encomendado por uma editora será diferente de um que nasceu espontaneamente da vontade do autor. Assim sendo, por muito que hoje seja mais acessível e fácil correr pelo mundo fora e ver o que antes só poderia imaginar, os livros de viagens continuarão a fazer sentido, não só para despertar a vontade, mas também para permitir o confronto de impressões. Creio que nunca deixarão de fazer sentido e há livros de viagens que são verdadeiros monumentos, alguns tão maravilhosos e firmes quantos os de pedra e cal que eles mesmos descrevem.

sábado, 4 de março de 2017

A Menina QUERIA Isto, Mas Já Tem VI


O resto do saldo do cartão de oferta da FNAC que recebi no Natal aliado ao Dia do Aderente permitiram-me trazer este livro para casa sem ter de pagar mais nada. Já vos falei dele. Pelo que li na revista Ler vale bem a pena. E dá-nos muita matéria em que pensar.

O meu primeiro soneto

Ah! Como é bom ao sábado acordar
C'o Continente Online a descarregar
Paletes de gostosas iguarias:
Chocapic e Cerelac para todos os dias.

E também rolos de papel de cozinha,
Desodorizantes, feijão, farinha,
Cogumelos, atum, aveia e cevada:
Tudo para ter uma despensa recheada.

Ao acordar também pão fresco chegou.
Ainda estaladiço: muito bem marchou!
Barrado com manteiga como se quer

E empurrado com um fumegante café.
Soube muito bem e assim o dia arrancou:
Espero que estejam bem, pois eu estou!

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Senhor Gato é afinal um bebé

O Senhor Gato apanhou-me desprevenida e há umas semanas lambiscou o meu prato de Cerelac do pequeno almoço. Dei-lhe um ralhete, mas como genuíno gato que é não ligou um caracol a isso.

Porém, deve ter gostado. Embora já tenha lido que os gatos não sentem o doce, deve ter gostado da consistência porque agora, sempre que lhe cheira a Cerelac, vem ter comigo e pede um bocadinho. Como aquilo tem lactose (embora o faça com água, não deixa de ser farinha láctea), só o deixo dar três lambiscadelas.  O bicho fica contente e vai dormir enroladinho a seguir, como está a fazer agora. Portanto, revisão da matéria dada: o Senhor Gato gosta de sopa e de Cerelac. É um bebé!

Nota: Antes de me chamarem gorda deixem-me explicar-vos que normalmente como Cerelac quando sei que vou ter de passar várias horas sem voltar a comer. É o único pequeno almoço capaz de me deixar saciada a manhã inteira sem o estômago começar com aqueles lindos roncos de fome. E antes que digam "Que nojo, deixa o gato lambiscar do prato!", olhem, o que não mata engorda e o bichano está vacinadíssimo, desparasitamo-lo mês sim, mês não, anda sempre limpinho e eu não tenho nojo dele. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns I

E o que me enerva pôr o desodorizante num sovaco e quando vou pôr no outro... pfffff: acaba-se? E o que me enerva chegar à despensa, com um sovaco devidamente untado e o outro à espera do seu quinhão, para rapidamente constatar que não tenho outro desodorizante igual? E que hipóteses considero eu?

A) Deixar um sovaco como está e pôr o outro desodorizante, com outro cheiro, no outro. 

B) Lavar o sovaco já perfumado e pulverizar os dois com o mesmo cheiro. 

C) Pôr-me em posições idiotas para tentar que o maldito spray, que ainda consegue borrifar um sovaco, chegue também para o outro. 

D) Sentar-me no chão a chorar perante tão complicado problema, esperando que alguém me salve. 

E) Ficar em casa a feder de um sovaco, sozinha, sem ninguém para partilhar a minha dor. 

F) Esquecer que tenho dois sovacos e sair para a rua com um perfumado e o outro não, na esperança de, qual princesa, cheirar sempre a lírios do campo. 

G) Dar um tiro na cabeça e resolver de vez estes horríveis problemas com desodorizantes parvos que não sabem contar sovacos. 

O que fariam vocês? É difícil, não é? Enfim, são problemas prosaicos de pessoas irritantemente comuns.  

Peculiaridades de um leitor V

A leitura, para os verdadeiros leitores, é um prazer que tem de repetir-se. Lemos como respiramos, como andamos, como fazemos qualquer uma das coisas que fazemos no nosso dia-a-dia. É coisa de que sentimos falta quando, por algum motivo, ficamos impedidos de a praticar. E como prazer que é, não raras vezes vamo-nos a ele em várias frentes. Que quer isto dizer? Que em simultâneo lemos um, dois ou três livros, que lemos ainda umas revistas e uns jornais e o que aparecer pela frente. Ou então não e somos uns «monógamos» livreiros que mantêm a fidelidade à leitura do momento sem a misturar com qualquer outro texto.

De forma sucinta: nisto da leitura, há as pessoas que nunca lêem mais do que um livro ao mesmo tempo e há as que lêem os que lhes apetecerem, nem que sejam dois, três, quatro ou mais em simultâneo. Mais uma vez, nenhum método é melhor do que o outro. A leitura é muito democrática. É uma espécie de medicamento que se pode tomar de todas as formas possíveis, causando benefícios óbvios a quem usa e abusa desse tratamento. A leitura é quase uma panaceia que, se não cura, pelo menos alivia muito. E inquieta, também, mas de um modo salutar, pois faz pensar e crescer, e ser capaz de ver além da ponta do próprio nariz.

Mas voltemos ao tema: leitura única versus leituras múltiplas em simultâneo. Eu faço parte do grupo dos que lêem dois livros ao mesmo tempo. Geralmente não leio mais do que isso porque além dos livros tenho sempre várias revistas (algumas delas já atrasadas) na mesinha de cabeceira. Acabo por ir intercalando tudo. Muitas vezes, também, acontece-me andar a ler um livro, precisar de me deslocar e considerá-lo demasiado volumoso e pesado para desejar transportá-lo comigo. Nessas alturas dá-me sempre jeito estar a ler outro mais pequeno que se deixe levar mais facilmente sem ser responsável pelo deslocamento de um ombro. Há quem diga que quando lê mais do que um livro em simultâneo, acaba por misturar as histórias e as personagens de um e de outro volume. Não me lembro de alguma vez isso me ter acontecido. No fundo, acho que o treino dos anos de Faculdade num curso de Línguas e Literaturas ajudou a desenvolver esta capacidade (se é que se lhe pode chamar isso). Nas várias cadeiras de literatura que tinha num único semestre tinha de ler tantas obras literárias em simultâneo que precisava de desenvolver «compartimentos estanques» no meu cérebro para não confundir o Moby Dick com o Austerlitz, nem O Anjo Ancorado com Os Pequenos Burgueses. Não me dava muito jeito confundir as Memórias Póstumas de Brás Cubas com As Memórias de João Miramar. Por isso, mesmo que antes de dormir lesse um bocadinho de um e um bocadinho de outro, tinha sempre de arrumar tudo muito bem arrumadinho na minha memória. Sempre o consegui com facilidade, felizmente. Agora já ninguém me obriga a ler vários livros ao mesmo tempo, mas continuo a fazê-lo de vez em quando porque quero. 

Claro que compreendo quem gosta de dedicar-se a apenas um livro de cada vez. Já aqui disse que na leitura tudo (ou quase) é possível. São escolhas. Até pode ser não porque temam misturar histórias, datas, personagens, mas sim porque gostam de manter a concentração num único livro, pensar apenas nas questões que ele suscita e, quando o acabam, passar ao próximo quando apetecer, sem pontas soltas. Às vezes também me apetece ser assim e nessas alturas leio um único livro (quando muito intercalo com revistas), noutras vezes apetece-me ser «assado» e ando com dois volumes debaixo do braço, lendo meia dúzia de páginas de um e meia dúzia de páginas de outro. É para onde me dá.

Depois há, infelizmente, os que não lêem nem um, nem dois, nem três: enfim, os que não lêem mesmo nada. Mas desses não reza a história porque aqui fala-se das peculiaridades dos leitores e não dos que ainda não começaram a sê-lo. Esses não perdem tempo com livros, o que é uma pena. Não sonham o que perdem.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Aviso aos ratos de feira como eu!!!

Caríssimos ratos de feira,

Não estou equivocada com a expressão «ratos de biblioteca». Desta vez é mesmo «ratos de feira» que quero dizer, pois pretendo avisar-vos, qual flautista de Hamelin, que já há datas para a Feira do Livro de Lisboa. Terá início no dia 1 de Junho e encerrará no dia 18 do mesmo mês.

Assim, para quem, como eu, gosta de exercitar as pernocas no Parque Eduardo VII, subindo e descendo, subindo e descendo em busca da melhor das pechinchas, marcai as datas nos vossos calendários. A brincar a brincar o tempo voa e não tarda estamos debaixo de um sol simpático a ouvir a voz do costume a anunciar as sessões de autógrafos daquele dia na Feira do Livro, enquanto devoramos gelados, bolas de berlim, farturas e imperiais (como diria o Carlos da Maia enquanto petiz «É festa, vovô, é festa!», por isso pode-se tudo).

Mais pobrezinha este ano, mas mais serena, feliz e com mais tempo disponível, lá estarei. Alguma coisa haverá de vir comigo para casa. Talvez não os quarenta livros do ano passado, mas nem espaço nas estantes havia para isso... E aquele passeio ninguém me rouba. Marquem-no nas vossas agendas também!

Hasta luego, quixoteiros.


Nota: A imagem do Firmin, o ratito leitor, saiu daqui.

A limpeza e a pena

Fiz uma limpeza na barra lateral, aquela em que indico os blogues que gostava de ler. Tinha por lá imensos que já não viam novos textos há meses ou anos. Fui deixando ficar na esperança de que os seus autores voltassem, mas acabei por desistir.

Já aqui falei disto noutros tempos, desta empatia que ganhamos com certos blogues e com os seus autores, da rotina que nasce e que nos leva a visitar diariamente ou quase as mesmas páginas para ler o que alguém que não conhecemos quer partilhar com os outros. É uma ligação curiosa que é fruto da época em que vivemos, na qual não precisamos de conhecer alguém para o admirar. Podemos fazê-lo à distância. Mas mais curioso ainda é que quando essas pessoas desaparecem sem qualquer aviso, quando abandonam as suas páginas sem que, contudo, as encerrem em definitivo, fica-nos uma certa preocupação e alguma pena. Não éramos amigos, não nos reconheceríamos na rua ainda que nos cruzássemos diariamente, e ainda assim perguntamo-nos o que terá sido feito daquele bloguer que seguíamos com gosto e que, de um dia para o outro, deixou de publicar. Estará bem? Por que nunca mais disse nada? No fim, acabamos invariavelmente por esquecer o blogue e o autor, sendo o passo seguinte o da limpeza da lista, como agora fiz.

São curiosos estes laços que a internet consegue criar. Por vezes gostava mesmo de conhecer as pessoas que me visitam e de trocar ideias com elas durante um apetitoso cappuccino. Depois penso que é melhor não: o mistério faz parte dos blogues e às vezes o conhecimento traz a desilusão. Estaremos juntos por aqui até que o «As Minhas Quixotadas» tenha fôlego e perninhas para andar. Quando não tiver, espero conseguir avisar-vos de modo a que não fiquem com o travo amargo que tive ao eliminar tantas páginas que me proporcionaram muito tempo de boas leituras quase diárias. Sobretudo para que não vos fique aquela dúvida que acho que, inevitavelmente, tem de aparecer nas relações humanas (mesmo que só existam atrás de um computador) quando deixamos de saber de alguém: estará essa pessoa bem?