segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ainda antes das oito

Ainda antes das oito da manhã lembrei-me de que o Sr. Gato precisava de tomar o comprimido desparasitante no início desta semana. Vai daí e lanço-me sozinha nessa missão épica.
 
Em primeiro lugar, devo informar que foi a primeira vez que o bichano tomou um comprimido, já que até aqui sempre foi desparasitado com uma pasta nojenta que vinha numa bisnaga e cuja aplicação era igualmente espectacular. Bom, mas como dizia, o fofinho tinha de tomar um comprimido e eu achava desde o início que essa tarefa seria tramada. Perante tal pressentimento, comecei a engendrar formas de pôr aquele Bosques da Noruega a desparasitar-se sem grandes sofrimentos. O que se segue é, pois, a sequência dos oito minutos matinais mais alucinantes da minha vida:
 
Dia sim dia não, o Sr. Gato tem de tomar um pouco de uma pomadinha de malte que serve para evitar as bolas de pelo. E eu penso «Aquilo é castanho escuro e tu costumas lamber aquilo do meu dedo, por isso é só pôr mais um bocadinho e esconder o comprimido no meio. Lamberás tudo. Que esperta que sou!». Ora lá ponho eu uns dois ou três centímetros daquilo no dedo, espeto com o comprimido lá no meio e chamo-o. Ele cumpre a habitual missão de lamber aquela papa nojenta. Contudo, deixa-me o comprimido colado ao dedo.
 
Continuando a considerar o Sr. Gato como sendo fraco de espírito e, portanto, fácil de enganar, deito mais um bocado daquela mistela no dedo, mesmo por cima do comprimido. O nojentinho lambeu a nhanha toda, mas o comprimido permaneceu agarrado à minha pele. Enquanto eu constatava esse facto, já o amorzinho tinha ido à vida dele.
 
Sem entrar em pânico, lembrei-me de que os gatos costumam gostar de fiambre. Vai daí e tiro um pouco do frigorífico. Enrolo o comprimido (já sem cor, de tanta lambidela) no fiambre e chamo o Sr. Gato. Ele vem, cheira, lambe e, Deus saberá como, consegue comer o fiambre e deixar o comprimido.
 
Gemendo de raiva e vendo a hora de sair de casa para o trabalho a aproximar-se, enrolo o comprimido (que por esta altura já parecia tudo menos um comprimido) em mais um bocado de fiambre e coloco-o mesmo em frente do nariz cor-de-rosa do pequenito. Ele cheira, lambe e... vira costas. Já nem o fiambre queria!
 
Nesta altura começo a ver o caso mal parado e a pensar que se calhar tinha sido má ideia lançar-me sozinha em empresa tão complicada. Começava já a considerar que um dos doze trabalhos de Hércules podia bem ter sido o de dar um comprimido a um gato. Mas não desisti, até porque não tinha outro comprimido para dar-lhe.
 
Recorri, depois, à alternativa desesperada: enfiar-lhe o comprimido pela goela abaixo, fechar-lhe a boca e contar até dez, esperando que durante esse tempo o desgraçado deglutisse aquela porcaria. Tinha ele trepado para a bancada da cozinha, passado por cima do micro-ondas, torradeira, cafeteira eléctrica, máquina de café e fazendo ranger todos estes electrodomésticos sob o seu amoroso peso de quase cinco quilos quando começo a tentar fazê-lo abrir a bocarra. Lá consigo, enfio o peganhento comprimido, fecho-lhe a boca e é aí que aquele bicho, o mais simpático que já conheci, começa a espernear e a dar à cauda, atirando ao chão boa parte dos objectos que se encontravam ao seu alcance na bancada da cozinha. Para evitar cacos, largo o focinho do bicho de maneira a agarrar o que ele ia tombando e, nesse momento, o malfadado comprimido é cuspido. O gato, esse, levanta a cauda e pira-se exibindo um ar que era uma mescla de altivez com parvoíce. Por essas alturas também já alguém gritava do quarto «Mas que raio estás tu a fazer ao gato??!».
 
Já com pouco tempo disponível e um comprimido babado, sem cor, e que era filho único cá em casa, resolvo chamar a mim a artilharia pesada: uma saqueta de comida húmida. O Sr. Gato adora-a e, assim, havia a esperança de que papasse o comprimido ali pelo meio dos pedaços suculentos e gelatinosos das suas saquetas favoritas. Lá despejo o conteúdo de uma embalagem no seu pratinho e escondo o desparasitante no meio. Chamo a bolinha de pelo e lá começa a sessão de lambidelas-sugadoras-do-molho-das-saquetas. Trinca três ou quatros pedaços enquanto eu, à mesa, tomava o pequeno-almoço e aparentava um total desinteresse pela refeição felina. Pelo rabinho do olho, claro, ia controlando a coisa. Estava cheia de expectativas. 
 
Mas a porra do comprimido continuou no prato.
 
Nisto, o outro habitante cá de casa levanta-se e, qual estrumpfe moralista, diz «Nunca se fazem estas coisas com tempo contado. Tem de ser com tempo!».
 
Bufando, levanto-me da mesa, agarro num garfo e no prato onde estava a mistela com o comprimido e aproveito o facto de este já estar completamente amolecido para o esmagar e misturar com a comida, rezando a todos os santinhos para que o amorzinho comesse aquela restumenga durante o dia. Enfim, deixando tudo em mãos divinas, saio para ir trabalhar. Durante o dia lembrei-me muito do Sr. Gato, esperando que tanta porcaria de tanto come isto, lambe aquilo, abre a boca, engole isto, agora come aquilo se fazes favor não lhe tivesse feito mal. Ansiava, também, por ver se ao chegar o pratinho estaria já totalmente lambido
 
Lá chego a casa a meio da tarde e deparo-me com um prato ainda com bastante comida. À rasquinha para fazer um xixi (que não fazia desde as sete da manhã), lá me encho de paciência e, depois das festinhas próprias da chegada a casa, agacho-me junto dele apontando para o pratinho. O desgraçado come mais um bocado. Não me levantei dali enquanto não parou porque se o fizesse, ele como gato arraçado de cão que é, viria atrás de mim e lá se ia a paparoca. Esperei, apontei para o pratinho, esperei, voltei a apontar para o pratinho quando a convicção começou a faltar-lhe. Enfim, fiz o que qualquer maluco faria.
 
Para concluir esta aventura que já vai longa, devo dizer-vos que são agora nove horas e vinte minutos e o amorzinho ainda não comeu aquilo tudo. O pratinho vai comigo de divisão em divisão para ver se o Sr. Gato tem a decência de lhe pegar enquanto anda atrás de mim. A veterinária, quando lhe liguei para combinar uma consulta, soltou uma audível gargalhada perante esta história e sugeriu-me o uso de ampolas na pele nas próximas desparasitações. E afinal teria sido tudo tão mais fácil...
 
Nota: Quem nunca leu deve ler o conto «Múrio e os Comprimidos», de Ondjaki. Palavra que hoje passei a compreendê-lo muito melhor.

2 comentários:

  1. É um drama. Já tive alguns gatos e o meu pai dava-lhes os comprimidos sempre da mesma maneira: tens que lhe abrir bem a boca e pousar o comprimido na parte mais de trás da língua, vai engolir quando fechar a boca, mas tem que ser mesmo atrás, se colocares mais na frente ele cospe. :)

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    1. Obrigada pelo conselho, mas vou demitir-me dessas funções. Alguém passará a dar o comprimido ao gato e não serei eu. É um desporto demasiado violento.

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