terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Injustiça carnavalesca


Irrita-me no Carnaval este seu estatuto de coisa só para alguns. Não é feriado, mas uns têm tolerância de ponto e os outros não. Há pouco precisei de sair e vi algumas famílias a andarem no seu passeio da tarde. Por cá, o moço foi trabalhar e conheço mais uns quantos casos assim. 

Ok, o Carnaval não é feriado, como já disse, não é festa religiosa nem nada que se pareça. Mas acho que se é para uns, devia ser para todos e, assim, ou deixa de merecer a tolerância de ponto que muitos recebem ou passa a feriado e chega a todos. Não ser carne nem ser peixe é que não tem sentido nenhum.

A Menina Quer Isto LXXXV


Na actual edição da revista Ler (Inverno 2016/2017), surge um enorme texto de Timothy Garton Ash sobre privacidade e liberdade de expressão. No final do artigo, percebemos que o que ali está reproduzido corresponte ao prefácio e ao séptimo capítulo do seu novo livro intitulado Liberdade de Expressão, publicado este mês pela Temas & Debates.

O texto que surge na revista ocupa um total de vinte e oito páginas, o que parece inicialmente um exagero num periódico, tornando-se depois numa leitura inquietante e muito interessante. Obviamente, no final surge a vontade de continuar a ler mais e para isso aí está o livro, quentinho ainda. 

O texto é inquietante na medida em que aborda questões actualíssimas, muitas delas presentes de alguma forma no nosso dia-a-dia, mas nas quais tendemos a pensar pouco. As redes sociais são mesmo o aspecto mais referido pelo autor para ilustrar a perda de privacidade a que nos temos sujeitado, bem como ao mau uso da liberdade de expressão, que culmina muitas vezes num ataque e em danos à nossa reputação. Ilustrando o que vai dizendo com exemplos, uns mais conhecidos do que outros, o autor vai procurando mostrar que o mundo em que vivemos e a nossa ingenuidade conduz-nos muitas vezes a partilharmos mais do que seria vantajoso, alertando para as consequências que daí podem surgir. Cada vez mais o ser humano é penalizado em algum momento da vida por coisas ditas, feitas e publicitadas no passado. Mais: recorda-nos que tudo o que entra na internet fica lá para sempre e que a nossa reputação pode restaurar-se (ainda que em processos longos e difíceis), mas jamais a nossa privacidade. 

É, portanto, um texto que inquieta porque expõe com exemplos factuais, acontecidos num passado mais ou menos distante, o que esta cosmópolis, como lhe chama o autor, pode fazer por nós. Se por um lado nos permite a ligação a pessoas que nunca conheceríamos de outra forma, também nos expõe mais do que aquilo que sonhamos. E pior: quando pensamos que está tudo controlado, que só dizemos o que queremos, que só sabem o que queremos que saibam, estamos normalmente muito enganados. Facebook e quejandos sabem mais sobre a maioria de nós do que seria desejável. A verdade é que contribuimos e muito para que tal aconteça. Pensamos que estamos a partilhar uma coisa sem maldade alguma com os nossos amigos e acabamos a fornecer dados sobre nós à empresa e ao mundo. Acredito que se o Facebook fizesse um dossiê com as informações que recolheu sobre cada utilizador, não havia sala neste mundo capaz de albergar tamanha quantidade de informação. E nós, inocentes, lá vamos mexendo nas definições de privacidade, achando que assim nos protegemos mais. Como explica Timothy Garton Ash, somos pequenos ratos nesta luta contra grandes gatos e cães.

Foram vinte e oito páginas que se leram de uma assentada e que mostram que a liberdade de expressão colide, muitas vezes, com a nossa privacidade. Atenção que o autor não defende que se devia limitar a liberdade de expressão. No fundo o que faz é mostrar que tem de existir sensatez no que se diz e no que se faz de modo a preservar-se aquilo que de mais nosso temos: o direito à paz, a só revelarmos o que queremos, a podermos manter como privado aquilo que não desejamos dar a conhecer. O que é complicado é manter essa privacidade quando escancaramos a boca para o mundo e contamos sobre nós o que devemos e o que não devemos contar. É complicado exigir respeito pela nossa privacidade quando somos os primeiros a espalhar por aí tantos pormenores sobre as nossas vidas (mesmo que nem demos conta de que o fazemos). No fundo, falamos tanto que quando desejamos silêncio, o nosso e o dos outros, pode ser já tarde para consegui-lo. E, neste sentido, o caso dos jovens e crianças que utilizam as redes sociais também é abordado pelo autor, na medida em que as consequências para o que é dito e feito podem ser imensas. Como exemplo ilustrativo, o caso de um jovem que se suicidou quando viu tornar-se viral um vídeo seu que foi alvo de chacota pela internet fora. Como este caso, tantos outros. O facto de muitos ainda não olharem para a internet como um oceano sem fim, cheio de tubarões e onde somos apenas uns marinheiros de água doce é preocupante. Este mundo virtual não tem fronteiras e quem acha que tem está redondamente enganado. Julgamos que é algo facilmente controlável, mas frequentemente nós e os nossos dados é que estamos a ser controlados, sendo material precioso para quem deles vive. Por isso, saber o que se diz é fundamental, saber a quem se diz e como nos apresentamos também. Não é à toa que muitos blogues e páginas do Facebook funcionam sob pseudónimo. Ainda que continuemos a ser muito indefesos para lutar contra os grandes perigos deste mundo em linha, são pequenas precauções que talvez dilatem a nossa liberdade de expressão. Se vou dizer mal do meu trabalho, é bom que não saibam quem eu sou, sob pena de um dia ter uma má surpresa. Se não quero que uma parte dos meus amigos saiba que escrevo num blogue para poder ter a liberdade de dizer o que quiser, então convém tomar precauções nesse sentido. Enfim, não é fácil viver com olhos na nuca e com receio de tudo, mas é preciso ter cuidado. É preciso, sobretudo, ter a consciência de que temos de ter cuidado. A Capuchinho Vermelho, neste mundo, não sobrevivia meio minuto: o Lobo Mau nem lhe daria tempo de chegar perto da casa da Avozinha.

Por tudo isto, quero continuar a ler este livro. O tema é interessante e actual. É inquietante, mas real e os exemplos são alertas para o que a internet já conseguiu. É um facto de que nos divertimos muito com ela e que, se de repente a eliminassem da nossa vida, pareceríamos tontos sem saber muito bem como viver a partir de então. No entanto, e como em tudo na vida, o facto de ser divertido não faz significar que possa fazer-se tudo. Nem o facto de termos liberdade de expressão deve querer dizer que devemos dizer a totalidade do que nos passa pela cabeça. Há coisas que são nossas e que ficando para nós contribuem e muito para que a nossa querida privacidade se mantenha tanto quanto desejamos.

A carta

Estimada escrava,

Serve a presente para informar-te de que estou a ver o fundo da minha tigela. Isso, em boa linguagem felina, significa que estás a expor-me à morte por inanição. Não me interessa que digas que há comida à volta nem que venhas cá abanar o pratinho (coisa que me eriça os pelinhos todos, ficas já a saber, ó parvalhona). Interessa-me que te chegues à frente e que faças "refill" à tigela. É o mínimo que podes fazer por mim, que sou um deus nórdico extremamente bonito e atraente. 

Aguardo junto à despensa que cumpras o teu dever. A propósito: roubei-te o multibanco e escondi-o. Se queres reaver o teu cartãozinho fofinho, sabes o que tens de fazer. Depois vai buscar o que é teu ao fundo da caixa de areia. Boa sorte nisso. 

Saudações cordiais,

Senhor Gato


#vejoofundoaoprato
#vingancadefelinos
#multibancofedorento
#aseguirraptoagatica
#quemmandaaquisoueu
#deusnordicoisinthehouse
#mcaw

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXXIV

Isto agora não pára com coisinhas que a menina quer. Acabei de saber agora pelo Facebook do próprio autor que este livro, tão esperado e tão desejado, já se encontra à venda:


Como podem ver, já está à venda aqui e em promoção pelo que não há desculpas possíveis.

A. M. Pires Cabral é autor de vários outros livros como o romance O Cónego, um dos melhores livros portugueses que já li e que aconselho a todos, O Porco de Erimanto, Os Anjos Nus, A Navalha de Palaçoulo (todos estes publicados pela Cotovia), A Loba e o Rouxinol (Círculo de Leitores), O Diabo Veio ao Enterro e Aqui e Agora Assumir o Nordeste (Âncora). Tenho ainda uma edição de O Homem que Vendeu a Cabeça, de uma editora de que não recordo o nome. E agora uma confissão: tenho todos estes livros do autor, mas não os li todos. Porquê, se gosto sempre tanto do que escreve? Porque faço com os seus livros aquilo que faço com os do Saramago: vou guardando para ler aos poucos. São sempre tão bons que não quero perder em pouco tempo o prazer da primeira leitura. Sim, há sempre a hipótese de os reler, de voltar a eles as vezes que quiser, mas a primeira leitura, e a surpresa sempre agradável que permite, não se repete e por isso é um gosto que se vai saboreando aos poucos para que não desapareça de uma só vez. 

A menina quer isto e sugere isto aos «quixoteiros» que se passeiam por estas paragens. Ainda não li os contos de Singularidades, mas duvido que desiludam. São de A. M. Pires de Cabral e isso é garantia de qualidade. 

Boas leituras!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Só mais uma para deixar entrar o sol

Só mais esta quixotada por hoje e prometo que me calo, que três já é muito.

De vez em quando dou uma voltinha pela blogosfera e visito blogues que estão nas listas de favoritos de outros blogues que gosto de ler e deparo-me com cada guerra, com cada salganhada nas caixas de comentários, com cada coisa mais feia de dizer-se (tanto da parte do bloguer como da do comentador), que agradeço aos céus este cantinho cor-de-rosa que aqui tenho. 

Com tanta guerra parva e prepotência pela blogosfera fora, mais vontade me sobra para vir aqui, abrir a janela e deixar entrar o sol.

É uma solução, é...


O Vermeer é que a sabia toda! Provavelmente o meu problema é mais antigo do que eu...

Então vejamos: quando faço um rabo de cavalo, rapidamente fico com uma espécie de auréola de cabelos louros pequenitos que se soltam à volta da minha testa. Ao fim de uma hora estou bastante esguedelhada e parece que andei à porrada com um guaxinim enraivecido e que ele ganhou. Gostava, que gostava mesmo, de conseguir um rabo de cavalo sem cabelitos a soltarem-se por todos os lados, mas parece que o fado não mo permite. Camões seria menino para deixar este problema imortalizado num soneto (já não é a primeira nem a segunda vez que me dizem que tenho uma beleza renascentista e se vos contasse que já uma pintora já me parou na rua para dizer-me isto e dar-me um cartão seu para me fazer um retrato um dia...), mas, infelizmente, já por cá não anda e, portanto, os meus revoltados cabelos doirados ficarão no esquecimento, ocupados apenas a enervar-me quando faço um rabo de cavalo.

Ora, este quadro de Vermeer, intitulado «Rapariga com brinco de pérola», retrata uma moça que resolveu bem a coisa: espetou com um lenço na zona problemática et voilà! Nem um pelinho se lhe solta por ali! Eu gostava de algo mais fresquinho, mas como tenho um cabelo mais indomável do que o presidente Trump (ainda que mais sensato... o meu cabelo, claro), talvez só mesmo imitando esta menina deixe de parecer uma figura divina num retrato medieval com uma auréola douradinha a proteger a cabeça em jeito de capacete. Isto uma pessoa tem de valer-se do que há, não é verdade? Pois se esta moça está a mostrar o caminho, é só enfiar um brinquinho de pérola e esperar mais convites para posar para um quadrinho catita.

Nota: Nunca compareci para ser pintada pela senhora. Mas agora reparem na coincidência: sem que alguma vez eu tivesse contado isto a algum dos meus antigos colegas de trabalho, vim a saber que uma antiga colega de História me usava como exemplo para explicar aos alunos o ideal de beleza renascentista. E agora um bocadinho de gabarolice: usava-me a mim e ao quadro «O Nascimento de Vénus». Assim dá gosto!

A Menina Quer Isto LXXXIII



Gosto muito de ler Pirandello. É um autor capaz de tratar temas sérios e intemporais criando situações cómicas ou ridículas que nos fazem rir. Rimos, todavia acabamos por pensar no que acabámos de ler e inevitavelmente temos de reflectir sobre aquele problema que é da personagem, mas que é também de todos nós. Talvez não tão exagerado como no livro, mas muitas vezes aquilo que as personagens vivem, nós também vivemos, ainda que de forma mais saudável. Estou, por exemplo, a pensar na personagem do romance Um, Ninguém e Cem Mil: um marido que ouve a esposa dizer-lhe que tem o nariz ligeiramente torto. Esse comentário da mulher vai encher a cabeça do protagonista até à loucura, mostrando-nos pelo caminho que nunca sabemos como os outros nos vêem. Nós temos uma ideia de nós próprios, mas os outros enxergam-nos de outra maneira e nunca chegamos verdadeiramente a saber o que vêem eles afinal quando nos olham. Bom, pensando assim isto é um bocadinho inquietante, mas acho que ninguém são enlouquecerá a pensar nisto. Ninguém à excepção da personagem de Pirandello que, incapaz de conseguir digerir o comentário da esposa e os muitos pensamentos que dele derivam, entra numa espiral de acções loucas que terminam com um protagonista completamente aniquilado pelas preocupações provocadas por um nariz torto e pelo medo de não saber o que dele pensam os outros. Ou seja: Pirandello pega em aspectos muito humanos e exagera-os, expõe-nos ao ridículo de modo a que nós, depois de rirmos, também digamos «Mas espera lá: isto faz sentido e eu nunca tinha pensado nisso!».

Pirandello recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1934. É muito conhecido como dramaturgo, mas escreveu também contos e romances. Dele já li três livros e garanto-vos que todos eles são inquietantes, ainda que bastante capazes de nos arrancar uma gargalhada. Tenho por ali mais dois em lista de espera (contos e duas peças de teatro). No entanto, ontem fiquei a saber que a Cotovia publica estes pequenos volumes com algumas peças do autor (penso que há um terceiro livro da mesma colecção, mas que está esgotado). Fiquei interessada, até porque o preço é simpático. Pirandello é daqueles autores que jamais desilude, pelo que podemos comprar todos os seus livros com a certeza de que será dinheiro bem gasto. Por isso, a menina quer mais isto. Como são pequenitos, encontram bem espaço onde se enfiar e se não encontrarem, a pilha da mesa de cabeceira ainda não chegou ao tecto e poderão sempre ir para lá.

Nota: As imagens, como bem se vê, saíram da página da Wook.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O beneficiário

Ainda nem vos contei quem beneficiou imenso desta minha vida desafogada de horas que parece não ter fim à vista. Foi, sem dúvida, o Senhor Gato. O meu Senhor Gato (quando ele ficar mais velho, à semelhança do gato de Os Maias, passará a Monsenhor Gato) tem um pelo tramado. Parece de peluche e faz nós que até assustam. Também não gosta lá muito de ser penteado, pelo que antes, com um trabalho que não acabava nas horas de um dia, penteá-lo não era tarefa diária.

Como agora sou uma desocupada, penteá-lo diariamente passou a ser mais fácil. Infelizmente, continuo a precisar de apanhá-lo a dormir para poder enfiar-lhe o pente e o Furminator no pêlo, mas se estiver para aí virado, acaba por deixar. E depois é vê-lo diminuir, diminuir... O Senhor Gato até perdeu as anquinhas! Parece que afinal era pêlo morto. Agora até percebo que é magrinho, apesar dos seus seis quilinhos. Está tudo muito bem distribuido, é o que é. Mas tem barriguinha. Tem ali umas «gorditas» que lhe apareceram depois da castração.

Agora o Senhor Gato já só tem um nó. É um senhor nó, diga-se, mas está no peito, numa zona que ele se recusa a deixar pentear. Aquele já só lá vai com uma tosquiazita, mas tenho esperança de que este ano, em vez de ter de despi-lo todo, possa tosquiar apenas a barriguita e essa parte do peito. Pode ser que depois ele consiga ganhar alguma tolerância ao pente naquela zona e para o ano nem precise de tosquia nenhuma.

E agora o serviço público: está aberta a época da mudança de pêlo. Vejo cada ninho a voar por aqui que nem imaginam. Sacai dos vossos aspiradores todos os dias e limpai, limpai, limpai. O meu já não aspira nada de jeito. Por dentro deve ter pêlo suficiente para vestir meia dúzia de gatos. Vejam a foto e imaginem todos os dias tirar qualquer coisa do género de cima de um gato... 


De génio, Sr. Ministro!

Parece que o senhor Ministro da Educação anda com ideias de dar mais uma reviravolta às escolas e consta que uma das medidas passará por tirar tempos de aula ao Português e à Matemática. 

Acho que sim. Ele já são tão proficientes a ler e compreender o que lêem, a escrever com lógica e eficácia comunicativa, a falar, seja uma oralidade preparada ou espontânea, que se calhar até pode é eliminar mesmo o Português do Currículo dos alunos. Substitua a disciplina por, sei lá, Introdução ao Estudo da Língua dos P's, PlayStation e Cidadania, Técnicas Laboratoriais de Linguados e Apalpões. Na loucura podem substituir o Português por Ciências do WhatsApp e do Snapchat. Português, que coisa mais estúpida para se ensinar a quem já lê tanto (mensagens do WhatsApp e feed do Facebook), a quem fala tão bem ("hadem de ver: é as melhores mudanças c'a gente já vimos na escola! Assim não haverão percas de tempo nas aulas secantes de Português.") e a quem escreve ainda melhor ("derrepente o menistero acabava era mazé com a xcola. Poriço bora tod@s fazer 1 manif a ver se deicham a jente ir sossegados para caza que temos jogos e cenas + fixes pa fazer"). 

Também já disse que consta que querem tirar horas à Matemática. 

2 + 2 = 5

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXXII


Li uma entrevista do autor na última edição da revista LER e fiquei com muita vontade de ler este livro. António Araújo começou por querer ver as diferenças na cultura de esquerda e de direita, até que se apercebeu que maior do que essa diferença era a que existia (e existe) entre a cultura das elites e a cultura das não elites. Gosto de ler sobre este tema, sobre o modo como a cultura é entendida por intelectuais e pelas massas, bem como o modo como uns tendem a ignorar os gostos culturais dos outros. Lipovetsky tem trabalhado muito o tema da cultura que se alarga a outros que não os do costume e Mario Vargas Llosa também já fez a sua reflexão sobre as mudanças que têm acontecido no âmbito cultural, no modo como alguma coisa é considerada bem cultural (algo que deixou Llosa louco por lhe parecer que basicamente se anda a ver como cultura aquilo que está bem longe de o ser). Neste livro, a questão é tratada do ponto de vista português, o que lhe confere alguma graça. Gostei de ler a entrevista porque referia, por exemplo, o fenómeno José Rodrigues dos Santos por ser constantemente ignorado pelos intelectuais (cultura das elites), querendo ele entender-se a si próprio como um intelectual, embora pretenda também ser um best seller e, assim, chegar e muito às não elites. Ou seja: é como se isto da cultura fosse um jogo em que participam duas equipas que nem sequer querem jogar uma com a outra. As elites querem continuar com as suas óperas, os seus clássicos, as suas visitas aos museus onde estão as melhores obras de arte e as não elites querem estar sossegados com o Tony Carreira no Meo Arena e com o José Rodrigues dos Santos e o Domingos Amaral na mala (a propósito, na entrevista, o autor do livro conta uma história deliciosa sobre o escritor Domingos Amaral, autor de alguns romances históricos, e que nos leva a pensar em algumas coisas que os romances deste tipo nos tentam vender como verdades). Por isso a menina quer isto porque tem muita piada ver como (e contra mim falo) tendemos sempre a olhar de lado as escolhas dos outros, achando que as nossas são melhores e que o resto nem interessa.

Há algo de podre no reino do Arco do Cego

O Daniel Oliveira (um dos comentadores do programa «Eixo do Mal» publicou na sua página de Facebook uma fotografia do Jardim do Arco Cego, tirada ontem à noite. O grande problema do Jardim é que está completamente conspurcado com copos e mais copos de imperial que foram para ali esquecidos depois do que parece ter sido uma valente festivalada de verão. Mas não, não houve festival nenhum, nem bandas conhecidas a actuar: houve apenas mais um dia de um costume que deve saber muito bem, mas que não justifica a miséria em que fica aquele espaço público. 

Se algum de vocês já teve a oportunidade de passar naquela zona depois das dezasseis horas, mais ou menos, verificou com certeza que existem muitos jovens espalhados pelo Jardim do Arco do Cego e concentrados no passeio em frente a dois cafés que, pelo que percebi, vendem copos de imperial a cinquenta cêntimos. São mesmo muitos, acreditem. Já lá passei algumas vezes depois dessa hora e é um local que chama a atenção de quem passa por estar tanta gente concentrada no mesmo sítio ao mesmo tempo e geralmente segurando a mesma coisa: um (ou mais) copo(s) de cerveja.

Vejamos: não tenho nada contra este tipo de convívios. Todos nós no tempo em que estudávamos participámos em convívios destes, provavelmente com menos gente do que acontece ali, mas participávamos. Acho muito bem que se encontrem durante a tarde para conversarem e para beberem uma cerveja. O que não me parece normal é que o espaço por eles ocupado termine assim:


Nota: A foto foi retirada da página de Facebook do jornalista Daniel Oliveira, depois de já ter sido partilhada por outros utilizadores da rede social.

Nos comentários à publicação em que o Daniel Oliveira chama a atenção para este problema já há de tudo. Desde moradores indignados que dizem que lutam contra esta situação há muito tempo, passando por gente que aproveita isto para atacar os universitários e pelos próprios estudantes que, não raras vezes, se manifestam querendo mostrar que este país não é para jovens porque se critica um encontro saudável ao final da tarde. Também já houve muita gente a ir dizer que os serviços da Câmara, pagos com os impostos de todos nós, servem é para limpar isto e quem, dando uma lição de civismo, afirma que, para não abandonar o seu lixo à sua sorte, anda com um saco de plástico para apanhar tudo antes de ir embora. Claro que com uma coisa destas nunca poderia haver apenas uma interpretação das coisas. Quem ali comprou casa e vive com isto à porta do prédio nunca imaginou que tal viesse a acontecer. Para muitos dos alunos que ali se reunem, isto só acontece porque há poucos caixotes do livro. Há quem até já pergunte, bastante estupidamente diria eu, se quando vamos ao restaurante também levamos sacos para o lixo. Enfim, quando não há argumentos que justifiquem esta javardice, vale tudo...

Parece-me que os cidadãos, porque é de cidadãos que falamos sempre, que tentam fazer passar esta situação por algo normal que acontece porque os caixotes estão cheios não estão bem a perceber o que se lhes quer dizer. Levam a fotografia e o que ela procura mostrar como um ataque pessoal sem pararem para pensar que não há nada de pessoal nisto. O Jardim do Arco do Cego é tão público para eles estarem, como para os moradores da zona estarem com as suas crianças, os seus cães ou sozinhos. Ou mesmo para outros cidadãos passarem por lá. Só porque custa muito ir procurar outro caixote do lixo ou guardar os copos vazios num saco levado para o efeito, as outras pessoas têm de aturar isto? Querem encontrar-se? Façam-no! Querem imperial barata? Encham-se dela até deitarem fora, mas não lixem os outros. E, sobretudo, sejam todos homens e mulherzinhas e assumam que este panorama é nojento e só contribui para dar má imagem aos estudantes do superior (que, felizmente, não são, nem de perto nem de longe, um bando de javardos inconscientes como alguns parecem pensar). Imaginem uma coisa destas à porta da vossa casa e digam-me se gostariam de uma paisagem assim.

Saúdo, claro, todos os que são diferentes e procuram limpar o seu próprio lixo. Ainda que muitos queiram pôr todos os estudantes no mesmo saco, as coisas não são bem assim. Há quem limpe e não bufe. É como com os donos de cães: a maioria dos donos que vejo apanha as cacas dos cães, mas há sempre quem ache que a vida são só direitos e nenhuns deveres. 

O que é importante é que isto pare. Há quem diga que são precisas campanhas de sensibilização para que os meninos e meninas que frequentam o Jardim do Arco do Cego tenham a hombridade de colocar o lixo que fazem nos caixotes do lixo. Eu acho um bocado ridículo ter de andar a fazer campanhas de sensibilização como se faz com as crianças pequeninas, mas desta vez dirigidas a gente que anda de traje académico. Acho que até o mais apoucado dos estudantes sabe que o lugar do lixo é no lixo. Mas há quem avance com outras ideias. Cheguem a que solução chegarem, acho que importa ver que a cidade não é um caixote do lixo e que é de muito mau tom ou mesmo de grande prepotência deixar um jardim todo sujo só porque a Câmara tem a obrigação de limpar. Se evitarem esta bagunça, os serviços de limpeza não precisarão de dedicar tempos infindos ao jardim, podendo passar mais rapidamente para outras zonas da cidade. É só pensar um bocadinho que se chega lá. Acredito que ao fim da quarta imperial já custe um bocadinho, mas vá: muitos deles até devem ser bastante bons a matemática*. 


*Pelo menos percebem que imperial a cinquênta cêntimos é uma pechincha!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Tempo português ou um regresso a casa

Tenho andado a ler o primeiro volume do Diário de Miguel Torga. A bem dizer, o primeiro volume publicado há uns anos pela Dom Quixote compreende os diários I, II, III e IV. Este foi um daqueles amores nascidos na livraria e que um outro amor resolveu: vi, há uns dois ou três anos, os quatro livros em que a editora da Leya arrumou os diários deste autor, acomodados numa caixinha especial preparada pela Dom Quixote para quem quisesse comprar todos os volumes em conjunto e não um a um, e um dia eles apareceram num restaurante, durante um jantar, como presente do meu moço, sempre atento aos meus desejos. Têm estado na estante e agora o primeiro volume dorme na minha cabeceira. 

Torga é Torga. Frase parva, eu sei, mas o que dizer de um escritor que da simplicidade dos seus montes e fragas escreveu linhas de enorme beleza, criou poemas que nos levam por ribeiros e árvores, por caminhos de pó junto de rebanhos e produziu reflexões que continuam a dar muito em que pensar? Torga é, para mim, um dos nossos maiores. Já o havia conhecido na prosa, depois na poesia, e agora conheço esta sua vertente diarística que conjuga escrita ficcional, poesia e impressões que as coisas do mundo lhe provocavam, levando-o à reflexão. Note-se que ele sabia bem que os seus diários seriam publicados, até porque Miguel Torga publicou os seus livros em edições de autor. Portanto, quem espera inconfidências amorosas e coisas parecidas esqueça. O que vemos é a mente de um escritor, a mente de um poeta e apenas conhecemos dos seus dias e dos seus pensamentos aquilo que nos quis mostrar. Mas aquilo que mostra é muito bom. Ver como uma qualquer data do calendário foi aquela em que nasceram versos únicos na nossa literatura é saboroso: parece que vemos o poema nascer em directo. Assim senti a leitura de "Ariane", poema que já conhecia, mas que nunca deixa de inquietar. É um poema sobre liberdade quando o seu autor estava privado dela, preso na cadeia do Aljube durante o Estado Novo. 

Mas os diários de Torga são para ser saboreados. Não são, parece-me, livros que se devorem, como sucede com outros que têm enredos alucinantes que somos incapazes de largar. Estes diários lêem-se com o mesmo vagar com que passavam os dias do autor e cada reflexão sua deve ser calmamente saboreada. Sim, porque Miguel Torga nunca nos entrega tudo de mão beijada. Pelo contrário: deixa-nos sempre a meditar sobre as suas palavras. Por isso, embora já vá no segundo diário, leio pacatamente porque cada dia de Torga é um mundo, mesmo que se resuma a uma impressão, a um desabafo, a um pequeno poema. 

Ora, se os diários de Miguel Torga pedem tempo e reflexão, sobram, ainda assim, minutos para encher com outras leituras. Podia dedicar-me à pilha de revistas por ler que vivem cá em casa, mas não seria a mesma coisa. Por isso, entre os dias do Torga, misturo o livro Astronomia, de Mário Cláudio. Recebi-o no meu aniversário, em Novembro, e como não andava muito voltada para autores portugueses, deixei-o parado desde então. Hoje fui buscá-lo para o tomar como intervalo para os passeios em São Martinho de Anta, em Leiria e em Coimbra pela mão de Miguel Torga (a propósito, sabiam que Adolfo Rocha adoptou este pseudónimo em homenagem a dois outros autores que muito admirava: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno?). Duas boas leituras em bom português, proporcionadas por dois grandes escritores. De vez em quando sabe bem regressar a casa. 



Nota: As imagens das capas saíram da página da Wook. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Coisas simples, boas e peludas

Eu estou no sofá a ler e o meu gato vem deitar-se nas costas do sofá com a cabeça junto à minha cara. Conforme o tempo passa, ele deixa-se dormir e começa aquela respiração profunda e ritmada de um gatinho que anda pela terra dos sonhos. De vez em quando, uma patinha adormecida estica-se para tocar-me no ombro. Dorme, mas não se esquece que tem ali companhia. Mas o melhor é encostar a minha cara à sua cabeça fofinha e falar com ele em voz baixa. Não interessa o que lhe digo e, desde que lhe fale, começa logo a ronronar, mesmo sem deixar de dormir. Gosta que lhe sussurrem, que lhe dêem atenção, ainda que esteja em modo «belo adormecido». E eu adoro ouvi-lo ronronar e vê-lo abrir e fechar as os deditos das patinhas da frente como só faz quando está muito satisfeito. E tudo porque ouve a minha voz enquanto dorme. Depois acorda e semicerra os olhinhos para mim. São os beijinhos que sabe dar. 

Ter um animal de estimação é isto: são estes pequenos momentos que transformam uma casa num lar e um animal num dos melhores amigos que se pode ter.

(Quase) memórias

Ufa, já nem me lembrava de ter um dia tão atarefado, sem direito a almoço de gente de tão pouco tempo que tenho. Este dia quase chega para trazer à minha memória aqueles outros tempos em que se podia sempre acrescentar mais um apoio ou mais uma coisa no horário da professora de Português até ela passar umas belas doze horas (ou mais em dia de formações ou de reuniões) na escola. Quase trouxe à memória porque, felizmente, o facto de andar pela rua e de não estar fechada num edifício é suficiente para bloquear essa maldita lembrança e o cansaço extremo que tal vida originou. De caminho, continuo desempregada, mas bem. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Nem sei que título dar a isto

Doze anos, mãe ao lado. Ele fala português sem pronúncia, mas a mãe tem sotaque de algum país de leste, embora se perceba bem o que diz. O miúdo vai tagarelando pelo caminho. A determinada altura, o arrazoado chama-me a atenção. Aqui ficam algumas das pérolas que uma pessoa ouve num autocarro.

Olhando para uma parede do outro lado da estrada, o miúdo lê uns rabiscos pintados a spray.
- «Passos Coelho é ladrão.». Quem é o Passos Coelho, mãe?
- Então, foi primeiro ministro há pouco tempo. Mas tu não te lembras de ouvir falar no Passos Coelho???
(Alguns momentos de silêncio, pensei que já nem fosse dizer nada. Enganei-me.)
- Eu não sei disso de «primeiros ministros». Eu sou mais de ciências, de inventar coisas, de ganhar o Prémio Nobel da Física.

Falando de uma colega que, pelo que dizia, teria algum tipo de necessidade especial.
- Mãe, ela é deficiente e a avó dela chateou-se e disse às raparigas da minha turma que elas todas deviam ter filhos deficientes para verem como era. 
A mãe tenta perceber que história é esta e vai puxando pelo filho a ver o que dali sai. Ele vai acrescentando informação.
- Ela não tem o direito de falar assim com elas. Ofendeu-as... Ofendeu-as um bocadinho. Ela é deficiente, mas ela podia estar a usar livros do oitavo e anda a usar livros do terceiro!
- Como???
- Pois. E ela se andasse numa escola de deficientes já teria filhos. Se calhar já tinha dois ou três. Talvez já tivesse netos! Não, netos também não...
- Mas que idade tem ela? Dezasseis?
- Então, eu tenho doze e ando no sexto ano. No sétimo vou ter treze... Ora, ela devia estar no oitavo... Sim, tem dezasseis.
(Lá se vai o Nobel da Física, pensei eu.)
A mãe tenta explicar-lhe que devem dar-se bem com a colega, falar com ela, andar com ela. Mas o menino não está pelos ajustes.
- Eu só simpatizei com ela um dia. Foi no dia do baile. Depois não simpatizei mais. 
- Mas que tipo de problema tem ela? É mental? É físico?
- É deficiente. É um atraso. É atrasada mental. Mas eu fui o único rapaz da minha turma que dançou com uma rapariga no baile, mãe.
- Não estou a ver quem é essa tua colega. Como era o vestido que usou no baile?
- Não me lembro.
(A mãe continua a tentar recordar a colega de que o filho falava antes. Tenta conseguir uma descrição.)
- Ela é magra ou é «forte»? - perguntou a mãe. Recordem-se de que o Português não era a língua materna dela.
- Ela é gorda, mãe. Mas não é forte.
...

Ora bem, eu podia esmiuçar isto, mas preferi recordar os meus colegas de escola quando tinham doze anos. Eram tontos, eram, mas não eram assim tão parvos e tão ignorantes. Nem tão imaturos no que diziam, como este menino que é de uma falta de coerência no discurso que dá dó. O menino foi o caminho todo a armar-se em janota, mas a dizer disparates que só ouvidos. Depois, cada vez que ele repetia «atrasada» para referir-se à tal colega que teria um problema... Eu até tremia. Nunca ninguém explicou àquele génio que não deve falar assim dos seus colegas??? Aparentemente não. Assim como ninguém o ensinou a contar, nem a conhecer a História recente do seu país ou, pelo menos, o nome dos protagonistas. Eu lembro-me de ser bem pequenita e saber na ponta da língua que o Presidente era o Mário Soares e o Primeiro Ministro era o Cavaco Silva (credo). Podia não saber mais nada sobre eles, mas sabia isso. Ao que parece, esperar ganhar o Nobel da Física excluí a possibilidade de saber outras coisas. Mas pior que não saber é procurar desculpas para a ignorância, coisa que agora abunda, não apenas em miúdos. Há coisas que todos temos a obrigação de saber. Quanto mais crescidos, mais temos de conhecer. Arranjar desculpas para o desconhecimento de coisas óbvias é hoje quase uma espécie de desporto nacional prestes a ser parte das modalidades olímpicas, cujas provas ganharemos com orgulho porque muito provavelmente estaremos sozinhos nelas. Ganharemos por falta de comparência de putativos adversários. É o que temos, minha gente, é o que temos. 

Como este menino há muitos adultos. Adultos que justificam o injustificável, que vivem da maledicência sem um pouco de compaixão pelo próximo, sem procurarm «calçar os seus sapatos», que nem sequer sabem que «atrasada» não é palavra que deva ser utilizada para designar ou descrever alguém. Isto devia corrigir-se em pequeno e o miúdo, apesar de parvo, ainda tem alguns anos para arrepiar caminho e mudar. Os adultos que permanecem nestes erros é que já não têm solução possível e isso é triste. Triste e terrível.