sábado, 24 de outubro de 2015

Eu sou velha o suficiente para... IV

Quando eu era pequenita, a televisão era um caixote enorme com vários botõezitos para apenas dois canais. Sim, ainda sou do tempo em que ou víamos a RTP1 ou víamos a RTP2. Se não quiséssemos assistir a nenhum dos dois, não víamos nada. Também me lembro de que não existia telecomando, pelo que mudar o canal (e, sim, mesmo com dois canais os pais gostavam de mudar de canal) consistia num eterno “senta/levanta”, geralmente protagonizado pelos mais novos. A mim calhava-me muitas vezes essa tarefa.

Também ainda sou do tempo dos programas especiais de desenhos animados durante a tarde, apresentados por pessoas que parecem ter desaparecido dos ecrãs, mas não das memórias dos miúdos daquela altura. Quem não se lembra da Vera Roquete ou do José Jorge Duarte, vulgarmente conhecido por Lecas? É que os desenhos animados eram bons e chegavam-nos pelas mãos destas pessoas, não eram apenas despejados na programação. São dessa altura ícones como Bocas, A Ana dos Cabelos Ruivos, Tom Sawyer, Sindbad, o Marinheiro, entre outros. Não vinham em HD nem em digital, mas eram maravilhosos (a prova é a de que muitos deles ainda hoje são conhecidos e saudosamente recordados). 

Com o tempo lá chegámos aos quatro canais nacionais. Mais desenhos animados, mais caras novas, mais zapping e, portanto, mais “senta/levanta” protagonizado pelos mais jovens da família. Sim, sou velha o suficiente para lembrar-me de que os “Jogos Sem Fronteiras” eram o delírio nacional no período do verão. Os jogos eram delirantes e a vista daquelas piscinas em tempo quente era muito relaxante.E também sou tão velha que me lembro de que era normal, normalíssimo, haver apenas uma televisão por casa. Só mais tarde, já na década de noventa e não nos seus primeiros anos, começaram a chegar novos aparelhos às casas portuguesas, sobretudo, parece-me, aos quartos dos pais e às cozinhas.

Mas agora esta é uma memória longínqua. As televisões são enormes, mas fininhas. Não raras vezes temo-las e acabamos a comprar umas colunas extra (de nome estrangeiro e pomposo) porque queremos uma qualidade de som superior. O tempo dos dois canais cuja emissão encerrava cedo e onde diariamente um boneco (que mudava de tempos a tempos) mandava os mais novos para a cama parece coisa de há muitos séculos. No entanto eu, que roço os trinta anos, lembro-me desse tempo e quase lhe tenho saudades quando me vejo de comando na mão a correr perto de duzentos canais para conseguir descobrir o que vou ver afinal. Chego ao fim da lista e nada encontro que mereça o meu tempo. Por vezes desisto amaldiçoando os malditos duzentos canais que todos juntos não chegam a fazer uma RTP1 dos anos oitenta e inícios de noventa. Noutras vezes, já passou tanto tempo desde que comecei a correr os canais que outros programas já tiveram tempo de terminar e de dar lugar a um melhor.

E os comandos, senhores! Se para mim permanecem um mistério todos os pequenos botões que a velha televisão tinha se apenas havia dois canais, não menos misteriosa é esta nossa necessidade de ter comandos para tudo. Ao meu lado, neste momento e apenas relativamente a um espaço de pouco mais de dois metros quadrados, estão o comando da televisão (que apenas serve para ligá-la, desligá-la e configurar qualquer coisa nela), o comando da box da NOS, o comando do leitor de DVD e o comando das colunas. Às vezes, quando alguém me pede “Sobe aí o som depressa!” porque quer ouvir algo em particular, transformo-me naquela deusa que tem não sei quantos braços, mas a minha versão é a da pessoa que enrola os braços todos e que pega sempre na coisa errada perante a estupefacção do desgraçado que só queria ouvir melhor determinada informação.

E já agora, falemos do número de televisões. Nós, os putos dos idos de oitenta e inícios de noventa, sabíamos que a coisa funcionava assim: o pai vê o que quer, a mãe vê quando o pai não quer ver nada e a nós sobram-nos os momentos em que nenhum pode ou quer ver televisão. Era premissa aceite, ainda que enraivecesse um pouco. A vida levava-se nestes moldes e o resultado era que ou a família via a mesma coisa ou então tínhamos de arranjar outras atividades para fazer. Muitos jogos joguei eu com a minha mãe enquanto o meu pai via o futebol! Agora resolve-se tudo com uma televisão cheia de canais em cada divisão. Depois um dia alguém reclama que a família nunca está junta... Bom, se de repente faltar a luz talvez voltem a unir-se novamente.

Os desenhos animados já não são como eram. Agora são quase sempre digitais. Perdeu-se essa simplicidade que existia nas animações dos idos de oitenta e noventa, ganhou-se a espampanância do digital e das dobragens para tudo, mesmo para o que não precisava de as ter. A minha mãe convenceu-me a querer ir à escola precisamente porque assim poderia ler as legendas dos desenhos animados. Provavelmente agora a minha mãe teria uma tarefa muito mais árdua para incentivar-me a ir aprender a ler.

Enfim, eu sou velha o suficiente para conhecer estas coisas e para falar aos meus alunos sobre elas. E sou velha o suficiente para me sentir ainda mais velha com o ar que eles fazem ao olhar para mim enquanto procuram imaginar uma vida tão diferente daquela que eles conhecem. Mas acreditem que apesar da simplicidade e da estranheza que causava um televisor enorme e sem comando, a exibir dois singelos canais, gostava muito de dar um pulinho a esses tempos e a poder voltar a espreitar a Vera Roquete anunciando que a seguir ia ver o Bocas ou a assistir ao momento em que o Vitinho chegava com o recado de que estava “na hora da caminha”. Caramba, como a vida mudou!

3 comentários:

  1. Eu tenho boas recordações de quando me sentava a ver Os Amigos do Gaspar ou a Rua Sésamo.

    Os Amigos do Gaspar parece ter desaparecido da memória de todos os que partilham a minha faixa etária (nossa vá). Esse e o Mascarilha.

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  2. Não via algumas dessas coisas na tv, mas bem que me lembro de umas situações bem engraçadas. Lembro-me dos Jogos Sem Fronteiras. Era um delírio, nem consigo perceber muito bem porquê. Eu nunca sabia como as pessoas que lá estavam a competir tinham sido seleccionadas, e isso para mim era um grande mistério =P
    Mas vi montes de desenhos animados que adorava voltar a ver. Anda hoje, rever do meu tempo de infância é um momento super especial.
    Agora que penso em tudo isso, lembro-me que, à hora da refeição, a minha avó desligava a tv (eu vivia com ela), porque era o momento de comer e de falar/conviver
    ****

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  3. O que eu adoro mesmo é que se naquela altura me dissessem que iria ter mais de cem canais, comandos para nunca ter de levantar a peida e desenhos animados com imagens completamente diferentes daqueles a que estava habituada, quereria com certeza experimentar tudo e depressa. Contudo, agora que já vivi as duas realidades, não deixo de ter algumas saudades dos tempos em que só se via um daqueles dois canais: caso não passasse programa nenhum de jeito, teríamos de inventar algo para fazer. Agora, e eu nem vejo muita televisão, sinto-me uma asna a olhar para os lados e sem saber muito bem o que devo fazer se nenhum dos duzentos canais está sem alguma coisa interessante. Felizmente há os livros e as revistas!

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