Nos dias em que estive em repouso devido à pomposa cólica renal que se fez sentir no final da semana passada, caiu-me no colo um tema curioso que tem que ver com hábitos de leitura, particularmente aqueles que temos quando ficamos doentes.
Este blogue nasceu em 2011, mesmo no final de um período em que estive em casa devido à varicela que apanhei num casamento (sim, uma mãe genial achou que levar o filho em fase de contágio para um casamento era o melhor a fazer, mas enfim). Nesses dez dias em que estive trancada em casa para não contagiar mais ninguém (embora a minha irmã não tenha escapado), li muito. A leitura de que me recordo imediatamente é Atribulações de um Chinês na China, de Júlio Verne. Foram horas e horas de leitura para despachar numa noite ou duas aquelas aventuras tão típicas na escrita do autor. Era, ao mesmo tempo, um livro divertido, leve e envolvente, muito apropriado para uma altura em que ora se lê, ora se dorme e em que a concentração pode não estar no seu melhor. Por isso mesmo, perto do final da minha querida varicela, peguei num portento que se tornou num dos meus livros favoritos: David Copperfield. Aliás, uma das primeiras quixotadas que escrevi foi, precisamente, sobre esse romance de Dickens. Já estava melhor, mais concentrada, mais capaz de me lançar a largos voos e aquelas centenas de páginas foram percorridas a grande velocidade.
Mas desta vez, com as dores da cólica renal e, sobretudo, as imensas náuseas que ela causava, a vontade de ler foi-se. Consegui ver séries e outros programas, mas não consegui ler grande coisa. Mesmo andando com o Tennessee Williams debaixo do braço (já agora, uma vénia para ele que é absolutamente brilhante e, talvez, a minha melhor descoberta de 2017), só pensar em ler era causa de enjoo. E foi assim que me caiu no colo o tal tema desta quixotada e que é mais uma peculiaridade dos leitores.
Falando com uma Professora universitária de quem gosto muito e perguntando-me ela como estava a minha saúde, disse-lhe como me sentia e, inclusivamente, que não conseguia ler nada há vários dias, mesmo passando o tempo aninhada no sofá ou na cama. Disse-lhe que não querer ler era muito invulgar em mim, mas que mostrava bem o estado em que estava. A isto ela respondeu com alguma graça que sempre que sentia que vinha lá uma gripe, pegava invariavelmente num Eça que a acompanhava até ao final da doença. Na última vez que tal aconteceu leu A Capital.
Fiquei a pensar nisso, naquilo que entendi como «leituras de conforto»: naqueles livros que sabemos que não nos vão falhar, que não vamos ficar desapontados com eles. Para esta Professora, a leitura que nunca a deixa mal e que pode acompanhá-la num período de maior fragilidade passa pelos vários livros de Eça de Queirós. Já eu não tenho uma leitura de conforto propriamente dita, embora tenha percebido, depois de pensar no assunto, que normalmente escolho livros infanto-juvenis ou livros mais humorísticos. Não foi afinal à toa que, no segundo ou terceiro dia de dores, peguei no quinto volume do Manolito Gafotas. Para a Professora, Eça tem aquilo de que precisa quando se sente pior; para mim o que me importa é que o texto seja leve, engraçado e que não exija muito de mim. Ainda que as peças de Tennessee Williams se leiam muito bem e sejam muito fluídas, os temas sérios nelas abordados eram demasiado para um cérebro mais concentrado nas dores e na falta de posição para estar do que propriamente naquilo que estava a ler.
Portanto, acredito que cada leitor tenha as suas preferências quando está doente. Talvez uns prefiram abandonar os livros e optar pelos periódicos; outros largam todo o material de leitura e entregam-se à televisão e às séries e filmes; outros ainda optam por um determinado autor ou género; alguns pegarão em BD e infanto-juvenil e outros poderão manter-se como sempre e ler o que apetecer sem pensar mais no assunto. A verdade, é que mesmo sem darmos muita conta disso, os livros que nos acompanham combinam muitas vezes com o modo como nos sentimos: se mais tristes, tendemos a fugir de dramas; se estamos felizes, já podemos ler um dramalhão; se aborrecidos, venham as aventuras; se cansados, a leveza de alguns livros infanto-juvenis ou de algumas bandas desenhadas ajuda imenso. Cada leitor é um mundo e agirá de acordo com o que sente. Chegados à décima quarta «Peculiaridades de um leitor» creio que já ficou bem claro isso mesmo: que são peculiaridades e não regras. Alguns de nós temos uma ou outra esquisitice, outros temos muitas das que já referi nesta onda de quixotadas. Com isto dos «livros de conforto» passa-se o mesmo, mas uma coisa é certa: só os leitores, só os amantes dos livros param para pensar nisto. E isso torna-nos peculiares e peculiarmente felizes.







