terça-feira, 29 de agosto de 2017

Quixotes e mais Quixotes

Como disse na quixotada anterior, as viagens a Madrid estão quase a ser responsáveis pela criação de um museu espanhol cá em casa. Ora, se em 2011 trouxe comigo uma tela de um pintor de rua que continua a ser, ainda hoje, o meu quadro favorito cá de casa, desta vez trouxe uma pintura muito mais pequenina, também realizada por um daqueles artistas que vendem o seu trabalho na rua, e com o mesmo tema que a de 2011: Dom Quixote e Sancho Pança. Isto de gostar de uma obra literária que tem uma componente pictórica tão forte vai arruinar-me! Qualquer dia terão de retirar-me de debaixo de toneladas e toneladas de Quixotes (livros, pinturas, bonecos...) que por aqui pululam alegremente. Mas o que hei de fazer? Há paixões assim.


Em busca de lugar na estante IV

Andei mais caladinha nos últimos dias porque não estive por cá. Estivemos em Madrid para uma semaninha de férias com muitas tapas à mistura. Mas Madrid não seria Madrid se a mala não regressasse a tocar os limites de peso permitidos pela TAP, bem cheia de livros e de Quixotes que por lá abundam. Desta vez até o meu moço trouxe uns livros, pois está decidido a desenferrujar o seu espanhol. O meu está bom e por isso mesmo aproveitou certas oportunidades para ter livros que por cá não se encontram ou que são mais baratos por lá. Alguns, que não estão na foto, sobretudo edições do Quixote, já estão arrumadinhos nas respectivas prateleiras. Estes ainda estão aqui ao meu lado a aguardar a entrada na lista e a posterior arrumação. Por enquanto ainda estou na fase de namorá-los muito.

Há muitas coisas de que gosto em Madrid. Duas delas consistem no facto de ser aqui ao lado e de não ser uma cidade muito cara. Por isso dá para trazer estes livrinhos e outras tralhas que quase fazem desta casa um museu espanhol. Os livros de bolso que por lá se editam são de uma qualidade que, infelizmente, nós por cá não conhecemos em edições portuguesas. Torna-se absolutamente indiferente comprar a edição normal ou a sua versão de bolso porque esta última, muito mais pequena e barata, tem praticamente a mesma qualidade que a primeira. Por isso é de aproveitar. Isso e a possibilidade de aceder a títulos que ainda não chegaram a Portugal e que se calhar nem chegarão. Assim, a entrada nas livrarias da capital espanhola torna-se uma tentação e é precisa muita força de vontade para resistir. Como no Verão passado também estivemos em Madrid, e apesar de a mala ter vindo cheia de livros, alguns ficaram debaixo de olho para quando regressássemos. Vieram este ano. Outros ficaram na lista para uma futura escapadela. Podia ir cem vezes a Madrid que conseguiria sempre arranjar com o que encher os meus dias e as malas.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XII


Os leitores conhecem bem o problema da escolha do(s) livro(s) para levar de férias. Fazem-se as malas, prepara-se tudo, mas depois surge o dilema da escolha. Levamos um maior ou vários mais pequenos? Estaremos dispostos a arrastar um livro muito pesado durante as nossas férias? E mesmo que fiquemos em casa, queremos um livro grande que leve muitos dias a ler (os dias que, frequentemente, ao longo do ano não estão disponíveis) ou queremos «dar andamento» à biblioteca lendo vários livros menos extensos? Problemas, problemas. 

Lembro-me do ano em que escolhi ler o Tom Jones nas férias. Como não passava os dias a ler, a leitura arrastou-se por todos os meus dias de férias. Fiquei com uma sensação agridoce: se por um lado tinha lido um bom clássico, por outro também não havia conseguido ler mais nada num mês inteiro. Mas se não escolhermos o Verão para estas leituras mais longas, quando as faremos? Estes problemas são mesmo peculiaridades nossas. Muita gente limita-se a comprar a Maria ou a TV Guia e a levá-las para a praia. Ou então nem levam nada.

Mas este é um problema que levamos bastante a sério. Escolher um livro que levamos para férias (no caso de sairmos de casa) e ele revelar-se mau é suficiente para deixar um leitor muito maldisposto. Se ficarmos em casa, sempre podemos ir buscar outros que pareçam mais promissores. Porém, longe das nossas prateleiras, a solução é comprar outro livro ou aguentar aquele que escolhemos. 

Se quiserem, partilhem nos comentários as vossas experiências de leitura em férias. Contem-me tudo! Eu revelo já que, ficando em casa, leio livros em papel, mas que se sair, levo o Kindle. É mais leve e lá dentro cabem muitos livros: se me fartar de um, mudo para outro. 

Nota: A imagem saiu daqui.

sábado, 19 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor XI


Há alguns anos passei pela situação descrita acima e pensei que só eu é que sentia aquilo. Na altura fiquei mesmo preocupada porque não percebia como poderia ser possível alguém que lia tanto ver-se, de repente, incapaz de ler. Na verdade, era como se não conseguisse concentrar-me para ler, por pouco tempo que fosse. Pegava num livro e nada. Não sentia nada e, mesmo quando me esforçava para conseguir concentrar-me, era impossível e acabava por distrair-me. Somava-se a isso a culpa por continuar a comprar livros, embora fosse difícil ler mais do que uma página. 

Um dia li num blogue a descrição que alguém fazia do mesmo problema. A autora estava a atravessar a mesma fase de bloqueio que eu vivera antes. Foi aí que percebi que é algo que acontece. É chato, mas acontece. É como se de repente um hábito nosso se tornasse estranho para nós mesmos. Parece que há duas partes do cérebro em conflito: aquela que sabe que adoramos ler e conhecer novas histórias através dos livros e a outra, a que, subitamente, é incapaz de fixar uma página por mais de cinco segundos sem desatar a pensar noutras coisas.

Ando novamente numa fase destas. Não tão grave como noutros tempos porque está a acontecer apenas com livros. Continuo a ler revistas e, mesmo não estando concentrada como seria de esperar, pelo menos estou a ler. E tenho tantas em atraso que bem posso dedicar-me aos periódicos. Mas com os livros a coisa está meio parada. Parece mesmo que só quero é ver o livro acabado, ainda que não me esteja a apetecer muito viver o processo necessário para chegar ao fim. É estúpido, mas é mesmo tal e qual o que está descrito na imagem. Encontrei-a no Facebook há uns tempos e, somando-a à minha experiência e à da blogger que li e de que já falei, sou levada a crer que isto não é assim tão raro. 

Noutros tempos atribuí a culpa ao cansaço. Agora não tenho nada que culpar. Simplesmente o meu cérebro não está com vontade de dedicar-se com afinco a um livro. Parece que olha para ele e acha-o muito grande e muito cansativo ainda antes de pegar-lhe. É um cérebro leitor que mostra a sua vontade de parar um bocado, de olhar para outras coisas, de passear em vez de ler; de ir à praia em vez de ficar a ler; de estar a olhar para ontem em vez de prestar atenção às páginas de um livro. Isto acaba por passar, claro. Acho que o calor também não ajuda. Mas esta é mais uma das nossas peculiaridades. Adoramos os livros, adoramos ler, mas por vezes até este amor tem de ficar pendente porque não se consegue concretizar com a qualidade a que estamos habituados. Há males maiores, por isso pode conviver-se com este durante uns tempos. Ainda assim não posso deixar de pensar que tenho tanto para ler e que assim estou a perder tempo... 

Portanto, verão ali durante uns tempos os mesmos livros nas leituras que presentemente faço. Vou aproveitar a fase para dedicar-me às revistas já que parece que o meu cérebro está cansado de ficção, mas não de reportagens e de entrevistas. Espero, no entanto, que esta «peculiaridade» não dure muito tempo porque a biblioteca está sempre à espreita.

Em busca de lugar na estante III


Custa originalmente 25€, mas consegui-o por 7.50€ numa promoção da Bertrand online. Tenho tudo e mais alguma coisa de Saramago, inclusivamente entrevistas, mas queria ter esta selecção de excertos seus, compilados a partir de muitas entrevistas dadas por ele. E fico ainda mais contente por ser uma edição da Caminho, que assim não destoa dos outros livros todos que tenho. Na realidade, livros de Saramago nunca procuram lugar na estante, pois têm-no sempre garantido.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

É mesmo isso

A The New Yorker continua a acertar em cheio nas capas. Infelizmente. 


In Memoriam

Todos sabemos o que foi o 11 de Setembro. Todos nos lembramos do que aconteceu a 11 de Março. Todos recordamos as Torres Gémeas e Atocha pelo que de pior ali aconteceu. 

Mas muito mal vai o mundo quando já não há memória suficiente para tantas datas, para tantos lugares, para um tão grande número de vítimas. O terrorismo tomou conta da nossa realidade e está por isso mesmo a adormecer-nos a memória. Quando Nice já se confunde com Londres, quando Barcelona se confunde com a Suécia, quando Boston e Paris não se distinguem, muito estranho e horrendo está este nosso mundo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando penso que já vi de tudo...

... apercebo-me de que ainda sou um bambi muito pequenito e com muito para me surpreender. O que se segue existe e peço-vos que, além de todo o evidente disparate, reparem bem no nome da editora que publica o livro. Isto já não é novo, mas só hoje dei de caras com tal coisa. 


Já agora apreciem também aqui a entrevista à autora por alturas da publicação disto

Nota: Desculpem-me a falta de formatação desta quixotada, mas escrevi-a na aplicação do Blogger no telemóvel e não dá para mais. Logo que possa, dou-lhe um jeito. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os pastores do «shopping»

Se há coisa que me deixa à beira da loucura é ir ao centro comercial e ter pela frente aquilo que chamo um «pastor do shopping». E o que é isso? São pessoas que andam tão lentamente, mas tão lentamente que nos colocam a dúvida de estarmos no Colombo ou na procissão do Senhor dos Passos. Há pessoas que vão para o centro comercial ver as vistas como fariam numa caminhada à beira-mar. E os desgraçados que vão atrás e que sabem bem para onde querem ir têm de abrandar a marcha para não varrer estes pastores desprovidos de gado.

O problema aumenta quando acontece em lugares estreitos ou com muita gente e onde não podemos desviar-nos destes caracóis do comércio. Imaginem: saem do cinema, querem ir jantar e levam mais de meia hora para chegar ao restaurante porque ali na zona há gente que anda tão devagar que têm de olhar com muita atenção para ver se estão realmente a mexer-se. 

Por isso, pastores do shopping, deixo a seguinte sugestão: se, qual Caeiro ou Cesário, aquilo de que gostam mesmo é de deambulações, façam como os poetas e vão até ao campo (ignorem a veia citadina do Cesário, que era muito dada à fealdade), arranjem um rebanho a sério e ponham-no a pastar. Aproveitem e caminhem atrás da ovelha mais velha e manca que tiverem, olhando à esquerda e à direita, olhando as árvores e as ervinhas, desfrutando da paisagem bucólica que vos rodeia. Se quiserem, podem imaginar que estão diante da Zara a olhar para a última sandaloca feia da moda ou que estão diante da loja da Apple a namorar iPhones e iPads, não me interessa, o rebanho é vosso. Mas deixem os caminhos dos centros comerciais desimpedidos para quem não tem como objectivo de vida a deambulação em catedrais do consumo.

A chegada à idade adulta

E pronto. A praticamente três meses de chegar aos 32 anos, atingi a idade adulta: comprei uma capa discreta (tanto que não se vê) para o telemóvel e dei a reforma ao unicórnio cujo corno o Senhor Gato tentou comer. 

Ontem fui à farmácia e ao mostrar à farmacêutica a mensagem com o código para dispensa de medicamentos ela pediu para ver a minha capa. Hoje, o grande unicórnio entregou a alma ao criador e eu fiquei logo mais velha. Que pena: dava uma eterna teenager tão porreira. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Eu é mais Continente"

Mas quantas mensagens ou e-mails consegue o Pingo Doce enviar aos clientes numa única semana?! Acho que não existe dia em que não receba qualquer coisa vinda de tal cadeia de supermercados. Algo que, diga-se, chega a ser irónico uma vez que decidi não voltar lá mais, especialmente depois de ter visto várias situações que me deixaram profundamente descontente com a loja onde costumava ir. Entretanto, vou aturando os muitos contactos do Pingo Doce. Além de serem demasiados e maçadores, conseguem o efeito oposto: tirar-me ainda qualquer resquício (inexistente, julgo) de voltar às suas lojas. 

A traição dos sapatos

Estão a ver aqueles sapatos, ténis, sandálias, o que seja, que nunca vos magoaram? Preparem-se, pois um dia tudo mudará e eles comerão os vossos pés. É sempre assim: é a traição dos sapatos.

Há umas duas semanas saímos para uma caminhada com corridinha incluída. Calcei uns ténis Nike que SEMPRE foram confortáveis e que nunca me magoaram. Pois não é que ao fim de uns dez minutos de caminhada já tinha uma bolha no calcanhar? Note-se que tenho aqueles ténis há uns oito anos, que são daqueles que durarão uma vida inteira e que estão em excelente estado.

Na semana passada fomos ao Colombo comprar qualquer coisa e levei umas sandálias que são muito confortáveis. Ou eram. Eis que, pela primeira vez, me magoaram os pés. Eu bem os tentava ajeitar lá dentro, mas o mal estava feito. Ontem calcei outras, até as usava para dar aulas de tão confortáveis que eram, mesmo sendo altas. Pois... Esqueçam. Tenho bolhas em três sítios dos pés. Uma desgraça.

Há uns anos tudo me magoava. Tudo. Não fazem ideia de quão frustrante era ter sapatos e sandálias lindíssimos e todos me aleijarem os pés. Perdi a conta às vezes em que um dia ficou completamente arruinado com feridas monumentais nos pés. Cheguei a pesquisar sobre o assunto e parece que há quem tenha pés hipersensíveis, não adiantando de nada serem sabrinas ou sapatos de salto alto: tudo vai magoar os pés e era precisamente isso o que me acontecia. Repentinamente, isso acabou e só de quando em quando ficava com os pés magoados por algum tipo de calçado. Receio, portanto, que aqueles tempos de má memória estejam a regressar e que os muitos pares de sapatos que tenho fiquem para ali, postos perenemente em descanso. Mesmo os ténis, o que é verdadeiramente incrível (os Adidas ainda se vão safando). Pelos vistos, estou condenada a botas rasteiras no Inverno e sandálias Havaianas no tempo quente. Logo eu que adoro sapatos...

domingo, 13 de agosto de 2017

A Vida Secreta dos Livros - o balanço


De vez em quando, pelo meio de tantos livros bons com que nos cruzamos, lá aparece um que é completamente «meh». E este é assim, muito «meh». Meeeesmo «meh». E só não digo que é «meh meh» para não soar a «ovelhês».

É um livro sobre livros, é um facto. Conta algumas histórias sobre autores e sobre obras conhecidas, como a recusa de várias editoras ao primeiro livro da saga Harry Potter ou a morte e ressurreição de Sherlock Holmes por pedido dos leitores. O problema é que tirando uma ou outra, são todas mais do que conhecidas. A sensação com que fiquei foi que, sem pesquisa, até eu podia escrever este livro e atrevo-me a dizer que ele sairia melhor. E não sou eu que estou a ser convencida: é o tom que o autor usa que é francamente mau. Vejamos: todos os leitores gostam de saber cusquices em torno das obras conhecidas que já leram ou que ainda querem ler, mas nenhum leitor gostará lá muito que esses episódios sejam contados recriando conversas que ninguém estava lá para ver, estados de espírito que são fruto da imaginação do autor e não factuais. Eu quero que me contem o que sabem da história e não que tentem recriar personagens e ambientes porque isso dá ao texto um carácter ficcional que lhe tira a verosimilhança que, neste caso, faz falta por serem precisamente acontecimentos reais. Se tudo aquilo fosse imaginação, se a recusa do primeiro romance de Jane Austen fosse ficção e parte da acção de um livro, claro que as conversas teriam de ser recriadas, claro que os buracos teriam de ser preenchidos. Se se tratasse de um romance histórico, esse tom teria de existir. Todavia, este livro apresenta-se como pretendendo contar histórias peculiares sobre livros, autores e personagens que se tornaram conhecidos. Não como uma série de ficções em torno desses três aspectos. Até admito que os diálogos pudessem existir se fossem feitos a partir de cartas ou de diários conhecidos, mas não assim. Porém, para perceberem melhor o que quero dizer, deixo-vos um exemplo retirado da história relacionada com o Lazarilho de Tormes:

     «D. Diego voltou a ler aquela missiva do rei. Não havia dúvidas. Não importava o ter acabado de regressar do seu posto de embaixador de Roma: o imperador instava-o a aceitar um novo cargo, e com urgência. D. Diego pousou a carta em cima da secretária e ficou a meditar em silêncio. Por fim, tomou uma decisão. Abriu uma gaveta, tirou de lá um monte de folhas escritas, envolveu-as com cuidado numa pele de couro para as proteger da chuva... e dos olhares indiscretos.
      Levantou-se e chamou um dos criados da casa.
      - A minha capa - pediu. Quando lha trouxeram, D. Diego Hurtado de Mendonza embuçou-se nela e saiu para a rua.
      Estava frio e uma chuva fina caía insistentemente, embora o pior fosse o vento. D. Diego ia armado e era um homem decidido, pelo que não se preocupava com o facto de a noite ter já tomado conta da cidade. [...]» (sublinhados meus nos excertos em que me parece que a imaginação do autor dá completamente cabo do texto)

Isto é o início do texto dedicado ao que se presume ser a história do surgimento de Lazarilho de Tormes, famosa novela pícara espanhola de autor anónimo (editada por cá pela Sistema Solar, podem ver a edição aqui). Se o autor se limitasse a contar-me o que se sabe sobre a obra e aquilo que as investigações têm revelado, ainda entendia. Até podia ter um tom divertido que não me importava. Agora, imaginar dias de chuva e secretárias e gavetas e atitudes que são pura imaginação distrai do que importa e até lhe retira interesse.

Há livros sobre livros e sobre leitura que são muito, muito bons. Este parece ter sido escrito para quem não sabe nada de nada ou então para ser lido em duas horas de almoço para empurrar um hamburguer ou outra fast food qualquer. Porque, para mim, este A Vida Secreta dos Livros é fast food e nem sequer é da que sabe bem. Não recomendo nem um pouco, mas se quiserem ver como é um livro «meh», espreitem-no.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Peculiaridades de um leitor X


Um leitor que tenha já uma biblioteca considerável acabará um dia por viver o mesmo problema que eu experimento desde ontem: o de um livro desaparecido. E sabe que é um pesadelo!

Tenho por aqui uma lista de livros em que há precisamente um livro no centro da acção. É difícil ser-se mais rato de biblioteca do que isto, mas je m’accuse: eu sou um grande, um enorme, um descomunal «fuçador«» de livros. Nada a fazer. Então ontem, um bocadinho farta de ler no Kindle, resolvi ir aos livros do moço e retirar de lá O Livro das Ilusões, do Paul Auster, um dos que consta da tal lista. Contudo, corri a prateleira de ponta a ponta mais de dez vezes e do livro nem sinal. Depois fui à antiga lista de livros do moço (ando a juntar os dele à minha para a coisa ser mais fácil) e ele constava da mesma, ou seja, o livro já existiu cá em casa e por cá deveria estar. Considerando que todos os livros desse autor estão juntos, que não havia motivo para separá-lo dos outros e que não foi emprestado, a questão que se coloca é: onde anda o danado do livro???

Estou farta de tentar puxar pela cabeça para reconstituir o rasto ao bicho, mas não há rasto possível: o livro devia estar na prateleira a menos que andasse a ser lido, coisa que não está a acontecer. E eu, como qualquer ratinho de biblioteca, já desejei que os livros tivessem microchip, que gritassem, que respondessem pelo nome, que se atirassem aos nossos pés... Enfim, já desejei uma série de situações muito «potterianas» e, portanto, impossíveis. Mas lá está: isto só acontece aos leitores. A angústia do livro sumido só apoquenta essa minoria da população que venera o deus Gutemberg e o cheiro a papel. Não conheço muita gente que queimasse os seus neurónios por desconhecer o paradeiro de um livro que tem de estar cá em casa (o moço gosta de Paul Auster e tem os livros todos, por isso é que a falta se tornou ainda mais evidente). Conheço até muita gente que se perguntaria como raio alguém perde tempo à procura de um livro em particular se tem tantos. Simples: para um leitor amante dos seus livros, eles não são todos iguais nem cada um é apenas mais um entre tantos. Um livro é um livro e há alguns que podem fazer-nos mais falta do que outros, mas todos têm de estar por perto, de preferência onde sabemos que os deixámos. Um pastor não gosta de perder uma ovelha e um leitor não gosta de livros tresmalhados. Principalmente quando são os que compõem as suas prateleiras. Por isso, esta é talvez uma das nossas maiores peculiaridades. Uns sofrerão porque não sabem de uns brincos ou de uma mala; nós sofremos por esses desaparecimentos e também pelo dos livros que ganham perninhas e vão fazer vida para longe da nossa vista.

Agora ando aqui em modo «Sherlock Books» (é primo afastado do «Holmes»). Vou olhando para as estantes todas (embora saiba que não pode estar em mais nenhuma porque sou eu que as organizo e  ainda não estou louca para separar um volume de todos os outros do mesmo autor), cirando pela casa a ver se o moço lhe pegou e o deixou por aí, esforço a memória visual para tentar recordar onde o vi pela última vez, procuro perceber por que razão nem o seu espaço vazio está na estante (o que explica que até ontem não tivesse dado pela sua falta), enfim, investigo, quase de lupa em punho. Para o que um leitor está guardado!

Notita: A imagem saiu daqui

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chora, Camões, chora... XII

Ora apreciem lá a "beleza" do seguinte parágrafo sobre a vitória de um atleta norueguês nos Mundiais do Atletismo. Foi retirado de uma notícia do Observador. Observem, portanto. Podem fazer uma caça ao disparate. Não ficarão de mãos a abanar.