quarta-feira, 7 de março de 2012

Rocinante

Na aula com os mais pequenitos fazia-se a introdução à leitura de um excerto do Quixote que eu havia preparado. Ia fazendo perguntas, a ver o que sabiam sobre o clássico e a dada altura perguntei-lhes se sabiam o nome do cavalo de D. Quixote. Responderam todos que não e começaram a virar as páginas para verem se o encontravam. De repente, um deles exclama:

- Já sei! É «Rocinante»!

Um outro colega, que é daqueles miúdos hilariantes que dizem as maiores piadas do mundo sem se rirem e que sonha ser lutador de wrestling, levanta os olhos da ficha e com um ar entre o espantado e o sarcástico exclama:

- «Rocinante»??? Mas esse é o nome do pónei do meu tio!

Ora eu, que tenho um amor arrebatado por póneis e outro ainda maior pelo «Rocinante», segurei-me para não me rir a imaginar um cavalo em miniatura, barrigudo como costumam ser os póneis, a ostentar um nome tão famoso (e característico de pilecas magras e ossudas) quanto o do nobre «Rocinante».

Da irresponsabilidade

Ando perplexa com a irresponsabilidade de uma turma que tenho. São miúdos que sabem o peso da minha disciplina, que sabem bem que com menos de oito valores reprovam logo (sem precisarem de outra negativa) e que, mesmo assim, vão para as aulas insultar-se e gozar uns com os outros. Engonham a tal ponto que duas horas de aulas não rendem aquilo que noventa minutos rendem com miúdos muito mais novos e, para cúmulo, inscreveram-se para fazer o exame nacional (que não precisavam de fazer) porque assim podem, crêem eles, seguir no ensino regular. Eu e os outros professores ficamos boquiabertos com a incapacidade daqueles miúdos para perceber que o ensino regular não está feito para eles e que, com o que eles se esforçam, atrevo-me a dizer que não há escola nenhuma onde eles encaixem bem.

Enfim, este é cada vez mais um problema vulgar porque também se deve muito às novas formas de educação que desresponsabilizam os miúdos e lhes dão uma ideia de impunidade muito errada. De alguma forma, estes alunos sabem que têm as costas muito quentinhas. Porquê? Só posso dar a minha opinião, mas acho que será porque em casa não lhes exigem grande coisa e porque provavelmente os pais demonstram que cá estarão para resolver as asneiras dos filhos. A coisa funciona mais ou menos assim: «deixa lá, filho, que se chumbares ali, para o ano vais para outra escola melhor» (isto acontece mesmo, que eu já ouvi!). E vão. Às tantas há alunos que já fizeram uma espécie de «Volta a Portugal em Escolas» e não há meio: reprovações atrás de reprovações. Chega a dar para rir.

Depois, parece-me, há um outro problema que é grave e que tem grandes consequências a longo prazo, tal como o anterior. É que sei que há escolas que não admitem que os professores reprovem alunos e que há docentes incapazes de chumbar alguém. Coitadinhos, são tão queridos e fixes e dão-se tão bem com os meninos que as notas são todas niveladas por cima, ainda que calmeirões de dezassete anos cheguem ao terceiro período do 12.º ano sem saberem desenhar as letras do alfabeto. Acho que todos os professores já deram, uma ou outra vez, uma oportunidade a um aluno, mas há quem faça disso regra. E assim eles vão passando, passando, passando até me aparecerem à beira dos exames nacionais sem nem sequer saberem marcar um parágrafo!

O ensino precisa de uma volta e a cabeça dos miúdos também. Em casa e na escola têm de ser responsabilizados pelo que fazem e punidos quando erram ou quando não se esforçam nem um pouco. Se assim não for, vão continuando a fazer o mesmo e vamos todos enterrando a cabeça na areia para fingir que não vemos nada.

terça-feira, 6 de março de 2012

A Menina Quer Isto VIII


Hoje vi este na Bertrand do Chiado e namorisquei-o um pouco. Mas queria levar esta relação mais longe, por isso a menina quer mesmo muito isto.

Lembram-se?

Lembram-se de, há umas semanas, ter deixado aqui uma quixotada que piscava o olhinho à Feira do Fumeiro de Vinhais? Pois bem, hoje uma amiga que andou ali pela zona presenteou-me com um saco cheio de coisinhas boas (para mim, porque para os porcos são simplesmente nojentas, o que é compreensível).

Deixo aqui o meu agradecimento à P. A. que garantiu um pneu sobresselente para o carro em que me estou a tornar e que promoveu umas refeições de alegria profundamente nacionalista (que é nacional é boooom). Provarei com todo o gosto do mundo e fiquei muito contente por te lembrares deste meu apetite cavalar. Muchas gracias!

Notinha: Ah, e também recebi uma canequinha de barro da Feira do Fumeiro de Vinhais para juntar à minha já vasta colecção de púcaros. Estou uma mimada!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Feira do Livro

Já há datas para a Feira do Livro de Lisboa e para a do Porto. A da capital abrirá portas a 24 de Abril e encerrará a 13 de Maio (será uma feira abençoada, portanto). A da invicta será de 31 de Maio a 17 de Junho (lá irão os meninos das escolas comemorar o Dia Mundial da Criança na feira, junto dos livrinhos).

Ao que parece, até agora inscreveram-se para participar menos editoras do que no ano passado, mas seja como for há-de ser a maravilha que é todos os anos. Pretendo desgraçar-me por lá... como de costume.

Grande verdade


Grande verdade em mais um magnífico cartoon de Alberto Montt, que esteve de férias, mas que já voltou a desenhar estas pérolas.

Notinha: Conheço tanta cabeça vazia...

Coisa mais estranha

Ontem assisti a uma reportagem num noticiário que me deixou arrepiadíssima. Parece que agora existem uns bonecos que pretendem assemelhar-se a bebés verdadeiros e cujos rostos são esculpidos de acordo com o gosto de quem os vai adquirir. O próprio material de que são feitos pretende ser o mais próximo possível daquilo que seria o corpo de um bebé. Mas o pior é o público a quem isto se dirige: consiste em mulheres adultas que queiram, julgo eu, reviver as alegrias de ter um bebé a sério.

A reportagem apresentou a dona de uma dessas bonecas e a coisa ficou ainda mais esquisita, já que a senhora andava com a boneca ao colo e olhava para ela embevecidíssima, dizendo que tinha um gosto pela boneca que nem sabia explicar! Não sei se aquela senhora encaixava no que vou dizer, mas fiz uma pequena pesquisa na internet e percebi que há até quem passeie estes bonecos pela rua, dentro de carrinhos como os que usam os bebés de carne e osso. Mas mais: um boneco daqueles pode chegar a custar quinhentos euros, na medida que é todo esculpido ao gosto da cliente. Tem lógica: se os filhos nos podem calhar feios, Deus nos livre de que um boneco de quinhentos euros seja menos do que lindíssimo!

Na reportagem apareceu, também, o psicólogo clínico Eduardo Sá, que eu geralmente acho demasiado benevolente com tudo. Todavia, até ele achou a coisa um bocado esquisita e chegou a afirmar que quando estes bonecos surgem para colmatar processos de luto, então a coisa entra mesmo no domínio do mórbido.

Há uns tempos tinha visto uma reportagem parecida num canal por cabo. Nessa altura, falou-se de homens que em vez de arranjarem companheiras de carne e osso, compravam, por quantias exorbitantes, bonecas que procuravam imitar o corpo feminino. Eram feitas num material que pretendia parecer pele, o cabelo era humano e as proporções eram as de uma mulher comum. O que esses homens faziam era o que as mulheres que compram os «reborn babies» fazem: dar-lhes um nome e tratá-los como se de seres humanos se tratassem. Lembro-me de algumas imagens da reportagem em que um homem sentava a sua boneca no banco do pendura e passeava com ela de automóvel. Chegavam a um parque e ele sentava-se ao lado dela num banco, apreciando a paisagem.

Enfim, que vivemos numa sociedade onde a solidão é o prato que mais se serve, ninguém dúvida. Contudo, esta substituição de relações humanas por relações artificiais não me parece nada saudável. Uma coisa é ser-se criança e brincar às bonecas, recriar o mundo através da vida da Barbie e amigas. Outra coisa é ser-se adulto e tratar objectos inanimados como se de seres humanos se tratassem. Todos nós temos objectos que adoramos, que protegemos, que guardamos com carinho. Daí a andarmos aos beijos a eles e a levá-los a passear vai um passo de gigante! Os próprios anúncios a estes bonecos (encontrei vários na internet) são assustadores, pois prometem um «bebé quase real». Perdão? Aquela parte a que chamam «quase» é suficiente para se fazer a diferença entre um ser humano e um boneco. Por muito que tentem que o boneco tenha uma superfície macia, aquilo nunca será pele. Por muito que recriem as manchinhas na pele que os recém-nascidos apresentam, aquilo jamais será um bebé. E por muito que as respectivas donas os vistam e dispam, mudem fraldas, passeiem ou perfumem, nunca receberão qualquer tipo de apreço ou reconhecimento porque aquilo não passa de um boneco. É, aliás, tão boneco quanto aqueles com que todas brincámos em crianças. A diferença é que nós estávamos na idade em que ainda podíamos achar que aquele pedaço de plástico era mesmo um bebé.

As encomendas

Hoje o senhor carteiro tocou mesmo duas vezes para me trazer duas encomendas. O total são três livrinhos novos. Embora um deles seja um manual escolar, tendo em conta o que faço da vida, também é uma chegada apreciada.

Os dois romances são o resultado da promoção de 29 de Fevereiro da Wook. E com isso ajudei a abater os pedidos de um par de «A Menina Quer Isto».

domingo, 4 de março de 2012

Compras de Domingo no alfarrabista

Hoje trouxe estes para casa. Já li e já tinha O Monte dos Vendavais, mas a edição era tão má que vou mesmo mandá-la fora (e acreditem que para eu fazer isso a um livro é porque a edição é, efectivamente, para lá de péssima). Andava, também, com vontade de conhecer a escrita do senhor Fernando Campos e este livro, que estava a bom preço, veio a calhar. O outro é uma biografia de Cervantes. Não conheço o autor, por isso vamos lá ver o que sai dali...


O tempo

Hoje passeava-me pelos blogues do costume e por mais alguns em que vou tropeçando alegremente e a determinada altura começou a surgir-me uma questão que não sei se também atormenta os quixoteiros que param aqui nesta esquina da blogosfera. A minha pergunta é a seguinte: como é que estas meninas que passam a vida a cuidar da imagem têm tempo/paciência (e ia acrescentar dinheiro, mas é preferível não o fazer) para passar a vida em salões de cabeleireiro, massagistas (está bem, essas aguentam-se facilmente...), manicures, pedicures e o diabo a sete? Não o pergunto por mal, nem para escarnecer de actividades que por vezes me parecem excessivas, mas sim porque para mim passar quatro horas no cabeleireiro a arranjar as madeixas é uma tortura. Aliás, no que toca a manicures, pedicures, depilações e afins, procuro tratar de tudo em casa, por minha conta, que sempre sai mais baratito (e ao mesmo tempo posso ir ouvindo como ruído de fundo os desenhos animados que a RTP2 passa todos os dias).

Fui pensando nisso e do tempo e da paciência comecei a entrar pelo caminho dos resultados. Sim, acredito que as pessoas que cuidam assim tão afincadamente da imagem tenham muito melhor aspecto do que eu, cujo grande luxo são as madeixas no cabeleireiro. Contudo, não será demasiado? Não andarão as pessoas a perder demasiado tempo a montar uma imagem que, no final de contas, se desmonta em peças e tem como resultado uma pessoa completamente diferente? Não andaremos a fugir em demasia daquilo que somos? Não digo, obviamente, que deixemos de nos cuidar e que comecemos a parecer meninas das cavernas, mas pelo que vou vendo na blogosfera, parece-me que isto da aparência exterior está muito sobrevalorizado. Perigosamente sobrevalorizado, aliás. São as roupas da moda (moda essa que está sempre a mudar e que nos vai obrigando a puxar da carteira mais vezes do que gostaríamos), são os tratamentos estéticos milagrosos, são as unhas de gel e as cores quentes e frias, são as mil e uma coisas que se podem fazer com o cabelo, são as aplicações disto e daquilo ali e além, são tantas coisas a pedir manutenção que às tantas parecemos carros a precisar de inspecções periódicas e de quem dê uma mãozinha para afinar isto tudo.

Enfim, como em tudo na vida, quem gosta e pode faz e quem detesta e não pode fica quieto. Tudo isto só é possível porque cada vez mais o ser humano quer atingir uma espécie de perfeição (pelo menos externa) e, portanto, as pessoas submetem-se ao que tem de ser para lá chegarem. A mim parece-me tudo demasiado exagerado, tanto do ponto de vista do tempo que se gasta nestas tarefas e que tanta falta faz para outras que julgo mais produtivas (mas, lá está, cada um gere o seu tempo e cada um sabe de si), quanto dos recursos gastos a montar uma mulher fantástica que na realidade é um amontoado de peças da indústria estética. E com isto a simplicidade perde-se e ganha terreno, muitas vezes, a futilidade e o que não interessa para nada.

Com isto lembrei-me de uma história que faz parte de O Principezinho em que um comerciante lhe tenta vender umas pílulas e em que a simplicidade se perde (embora aqui seja com o objectivo de economizar tempo). Deixo-a aqui.

« - Bom dia, disse o principezinho.
  - Bom dia, disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas aperfeiçoadas que acalmam a sede. Toma-se uma por semana e deixa-se de sentir qualquer necessidade de beber.
  - Por que é que vendes isso? disse o principezinho.
  - É uma grande economia de tempo, disse o mercador. Os peritos fizeram as contas. Poupam cinquenta e três minutos por semana.
  - E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
  - Faz-se aquilo que se quer...
"Eu, disse para si mesmo o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia muito lentamente para uma fonte..."»

Saint- Exupery, Antoine (1996). O Principezinho. Lisboa: Relógio D'Água.



 

sábado, 3 de março de 2012

Vai uma voltinha?

Li agora uma notícia da revista Visão que dá conta de uma montanha russa prestes a ser inaugurada no Reino Unido que, no momento dos testes de segurança, desfez os manequins utilizados. Pelo que é dito, arrancou-lhes membros e deixou-os feitos numa miséria. Pediu-se, depois, a uns corajosos pilotos para que testassem a infra-estrutura. Estes, no final, deram o seu testemunho sobre uma viagem angustiante, com várias tangentes e a parecer «que iam colidir com as estruturas».

Bem, eu sei que a ideia é a de que uma montanha russa seja vertiginosa, que provoque descargas de adrenalina e que deixe as pessoas meio enlouquecidas, mas não sabia que era suposto arrancar braços e pernas! A mim não me dava jeito nenhum ficar sem cabeça a meio de um looping, nem lamber os carris a meio da voltinha. Só me pergunto é como raio os pilotos aceitaram o pedido para testarem a boa da diversão, depois de os manequins de TESTE terem voltado como se tivessem tido um encontro com meia dúzia de rottweillers em fúria. Vá-se lá entender...

Crises

Ontem soube de um problema pelo qual uma aluna está a passar e fiquei de queixo caído. No fundo, boa parte das dificuldades são financeiras e devem-se à situação que estamos a viver em Portugal. O problema maior é que se partiu de uma vida demasiado privilegiada, com tudo aquilo que possam imaginar, com acesso a tudo o que o dinheiro pode comprar, para uma situação em que já vai faltando o mais básico.

Enfim, tudo isto é chocante porque convivemos com estes miúdos e não sabemos (não temos como) o que se passa na vida deles quando saem da escola. E por muito que já sejam crescidos e que possam tentar ajudar arranjando um trabalho em part-time, da revolta já não se livram. E é aqui que alguns miúdos e miúdas se perdem se não forem agarrados como aquela, felizmente, está a ser. Aquilo que ela, que sempre teve muito mais do que aquilo que eu poderei imaginar vir um dia a ter, está a passar é um fruto do tempo e não é, como bem se sabe, a única a sofrer pelos cortes salariais, encerramentos de empresas, dívidas que se amontoam e dinheiro que de súbito deixa de entrar.

Todavia, não vivemos só uma época de desgraça financeira. Atravessamos, também, uma profunda crise de valores que se comprova pelo modo como um dos membros da família da referida aluna conseguiu aumentar o problema, ao arranjar outra mulher, desligando-se do resto da família. Assim, aqueles miúdos acrescentam às dificuldades financeiras a visão do desmoronamento de uma relação que ainda os ia amparando. Como é óbvio, estão revoltadíssimos e precisam de apoio. Mas de onde ele mais devia vir, é de onde chegam os maiores problemas.

A Troika, o Passos Coelho, a senhora Angela Merkel podem tentar arrumar-nos a casa do ponto de vista das contas, mas cabe-nos a nós arrumá-la do ponto de vista dos valores. A um problema que já é gigante, não se deve somar outro igualmente grande e que empata bastante a resolução do primeiro. Por muito que se imponham medidas de austeridade, elas nunca poderão levar-nos a evitar atitudes que demonstram a profunda crise de valores em que estamos mergulhados. E enquanto os adultos andam nisto, dão o pior dos exemplos aos mais novos, que crescem vendo que tudo é possível e natural. Se quem os devia educar pode, no meio de um problema já demasiado grave, arranjar mais problemas e mostrar que se pode tudo, então a lição que eles tirarão será a pior e depois não haverá escola nenhuma que consiga repor os valores que pelo caminho se perderam. Já alguém o disse e eu concordo: vivemos duas grandes crises, a económica e a dos valores. Estamos a tentar que uma se resolva, mas e a outra?

sexta-feira, 2 de março de 2012

A espátula

Estão a ver aquelas espátulas que usamos para virar ovos e hamburgueres e coisas afins? Pois bem, amanhã para me arrancarem da cama terão de usar isso e duas dúzias de baldes de água porque me parece que de outra forma não sairei de lá. Este corpinho santo tem uma canseira tão grande em cima que acho que ela até cartão do cidadão deve ter para atestar a sua existência!

Nota: E depois de ser descolada da cama, espera-me um Sábado cheio de trabalhinho. Ai vida, vida...

Um bom exemplo

Hoje ouvi a melhor história da semana, do mês e provavelmente do ano. Uma pessoa que conheço bem comprou um telemóvel que não tinha acentos agudos nas vogais "a" e "o". Insatisfeita, e em vez de se conformar, foi à loja e reclamou com a funcionária, dizendo que tinha comprado um telemóvel que a obrigava a dar erros ortográficos. A empregada olhava para a cliente como se estivesse perante o alienígena mais estranho da galáxia e lá lhe disse que os Blackberry também não têm acentos, ao que a dona do "telemóvel burro" respondeu que não lhe interessava porque não tinha nenhum Blackberry. Resultado da situação? A cliente insatisfeita trocou o aparelho que a obrigava a dar erros por um de outra marca que lhe permite a escrita irrepreensível pela qual é sobejamente conhecida (acreditem, é mesmo).

Adendazita que fica aqui a matar: O meu telemóvel também não permite pôr acentos agudos nessas letras e subitamente sinto-me muito burra...

A Menina Sugere Isto II

Hoje sugiro um livro de um Prémio Nobel da Literatura: Mário Vargas Llosa. Quando era mais nova, vi uma edição oferecida por uma revista na montra de uma papelaria e o título do livro interessou-me. A Tia Júlia e o Escrevedor tem hoje uma capa muito mais bonita e uma edição mais cuidada (regalias que o Nobel confere) e é um livro que enlouquece.

Marito gostava de ser escritor, mas apenas lhe cabia um modesto trabalho na rádio Pan-Americana onde devia recortar as notícias interessantes que saíam nos jornais, dar-lhes um ar pomposo para que fossem lidas como se fossem da autoria daquela estação. Nos tempos livres, Marito gostava de ir até à Rádio Central, que funcionava na mesma rua e que pertencia ao mesmo dono, ainda que tivesse umas instalações muito pobres e proporcionasse uma programação muito diferente daquela em que trabalhava. Ligavam pouco às notícias e davam primazia à música peruana. Contudo, o prato forte dessa estação eram mesmo as peças radiofónicas, compradas ao quilo sem qualquer critério e sem serem lidas antes da aquisição. O dono da rádio confiava aos seus santinhos o milagre de cada peça compensar com audiências o dinheiro gasto. Por vezes, no transporte, perdiam-se capítulos inteiros e como ninguém se dava ao trabalho de ler aqueles setenta quilos de papel antes de se iniciar a transmissão, muitas vezes tinham de remendar os seus buracos à última hora.

No dia em que Marito vê a tia Júlia, por quem se apaixona, ouve falar de Pedro Camacho, famosíssimo e conceituadíssimo autor de peças radiofónicas e contratado pela estação onde trabalha. A partir daí, o que acontece no livro é que um capítulo será dedicado às peças de Pedro Camacho e o seguinte à vida de Marito, e assim sucessivamente até ao final da obra. Com o avançar da leitura, vamo-nos apercebendo de que alguma coisa se passa com Pedro Camacho, pois as personagens das suas novelas radiofónicas começam a misturar-se, a ressuscitar, a contradizer-se... E para saberem por que razão isso acontece, leiam o livro.


Deixo-vos o início do texto, retirado da edição que tenho em casa e não desta cuja capa aqui deixo. Espero que vos aguce a curiosidade.

«Nesse tempo remoto, eu era muito jovem e vivia com os meus avós numa quinta de paredes brancas da Rua Ocharán, em Miraflores. Estudava em San Marcos, Direito, creio, resignado a mais tarde ganhar a vida com uma profissão liberal, ainda que, no fundo, tivesse gostado mais de chegar a ser um escritor. Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas, horário elástico: director de informação da Rádio Pan-Americana. Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual. Havia noticiários de hora a hora, de um minuto cada, excepto os do meio-dia e das nove, que eram de quinze, mas nós preparávamos vários ao mesmo tempo, de modo que eu andava muito na rua, a tomar cafezinhos na Colmena, às vezes ia às aulas, ou então estava nos escritórios da Rádio Central, mais animados do que os do meu trabalho.»