domingo, 5 de abril de 2020

Para o que estávamos guardados V

Estou há vinte dias em teletrabalho e, portanto, em isolamento. Há dias em que, confesso, me apetece esconder-me debaixo da cama e ficar por lá. Felizmente, há outros em que até me abstraio da realidade e entro de tal forma no livro que estou a rever que o tempo chega a passar depressa.

Entretanto, quase vinte dias depois, voltei a ver embalagens de álcool à venda e por um preço normal. Acho que se tivesse visto um unicórnio vestido de cabedal e plumas não teria ficado tão espantada. Fora isso, acho que o que me chocou mesmo a sério foi o facto de ter pago quase cinco euros por uma couve-flor que nem era assim tão grande. Ou eu tenho muito azar, ou os estabelecimentos onde vou às compras têm sempre pouca oferta de frutas e vegetais e o que têm está caríssimo. No resto das coisas nem noto grande diferença nos preços. 

Noto, sim, que tenho jogado mais no tablet e que tenho optado por livros divertidos. Para seriedade já chega o que estamos a viver. A ideia é mesmo desligar e ocupar a cabeça com... Nada. Acho que é fácil cair na tentação de seguir as notícias quase ao minuto, mas não é boa ideia. Estamos, cada um de nós, a cumprir a nossa parte e isso já é imenso. Parecendo que não - porque, afinal, só nós mandam estar em casa -, estamos aterrados e cada dia que passa é mais um que vivemos com o coração na mão e a perguntar-nos quando chegará o dia em que saíremos sem medo para a vida de todos os dias.

Medo do vírus, por nós é pelos que amamos; pelo que Portugal ainda tem pela frente; uma dor sem descrição possível pelo que sabemos de outros países, alguns tão próximos, tão nossos conhecidos; o pânico de que a economia nos leve o trabalho e nos devolva à situação que julgávamos ter deixado para trás. Enfim... Temos tanto em que pensar que se torna importante escapar um bocadinho a isto tudo. Por isso, leiam livros que vos levem para histórias completamente diferentes daquelas a que assistimos actualmente, vejam filmes que vos ocupem a mente, ouçam boa música e batam o pezinho ao som dela. Cantarolem, aproveitem as idas à janela para verem as estrelas que, ironicamente, voltaram ao nosso céu. Façam bolos e bolachas: é relaxante e comê-los sabe bem. Teremos tempo para dietas depois disto tudo (e quando uma couve-flor não custar cinco euros...). Aproveitem para fazer algo que quisessem fazer há muito tempo, mas que nunca tivessem começado. O que quiserem. Mas tentem, como eu tento, pensar noutras coisas e fugir ao medo. Havemos de superar isto e precisamos de chegar sãos a esse dia. Oxalá, ele chegue depressa. 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Para o que estávamos guardados IV

Estou com aquele autarca italiano que se questiona sobre os eventuais problemas de próstata que possam justificar tantos passeios caninos. Neste momento, acho que até algumas fêmeas podem estar com a próstata aumentada... Há por aí canídeos que já devem verter uma lagriminha cada vez que vêem os donos pegar na trela para novo passeio. Alguns vão ficar com as patas bastante musculadas, mais ou menos uns popeyes caninos. Se isto não acaba, não sei. Somos bem capazes de vir a assistir a casos de exaustão canina por excesso de voltas ao quarteirão.

Outra coisa de que gosto muito, além dos súbitos problemas de próstata de cães e cadelas europeus, é das operações para perguntar aos condutores aonde vão. Faz-me sempre lembrar a Capuchinho Vermelho. O Lobo Mau parou-a, perguntou-lhe para onde ia e ela, tontinha que dói, contou tudo: «Ah e tal, vou levar uma marmita à minha avozinha que está de cama, coitadinha.» Bom, todos sabemos como isto acabou.

Ora, nos dias que correm, todos podemos levar a marmita à avozinha (chama-se assistência a familiares incapacitados ou coisa parecida). E imagino que cada condutor mandado parar responda (com a prancha de surf a espreitar na bagageira enquanto tenta passar a Ponte 25 de Abril) «Vou ali levar o farnel à minha avozinha que tem noventa anos. Agora deixe-me lá seguir que levo aqui feijoada para ela e não vá a coisa azedar-se-me.» O senhor guarda lá faz continência e manda seguir. 

Não consigo imaginar alguém ingénuo o suficiente para responder ao polícia que lhe pergunte que destino leva qualquer coisa como «Olhe, está um sol do caraças, a Primavera começou, eu quero apanhar já uma corzinha e toda a gente sabe que as praias da Fonte da Telha são fantásticas. Deixe lá passar, vá lá.»

Considerando que, dentro da estupidez de quem sai quando pode ficar em casa, ninguém é tão burro que responda algo assim a um agente da autoridade, não deixa também de ser engraçado o facto de a intervenção das autoridades neste momento ser meramente pedagógica. Portanto, mandam-me parar, eu paro, o senhor guarda pergunta para onde vou e eu digo que vou ali ao pão. Posso ir, posso não ir... Ele não me vai seguir, portanto... Mas pode dar-me conselhos: ah e tal, higienize as mãos, mantenha a distância social, não beba água gelada depois de comer pão quente... Tudo conselhos úteis, claro.

Para terminar, só um pormenor: quem conseguiu atravessar a ponte para levar o leitão à avozinha que mora em Albufeira com vista para o mar deve estar chateado que nem um peru. É que depois de tantos dias de sol, hoje chove. Chama-se karma.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Para o que estávamos guardados III

Estou há dez dias em casa. Há dez dias que não vou à editora, que não me sento na minha cadeira e que não vejo os meus colegas, o que é uma treta. Há dez dias que não me maquilho, o que até sabe bem. A minha roupa de trabalho passa por calças confortáveis e sweatshirts, o que também é agradável. Boa parte do meu dia é passado na varanda (fechada, pois de outra forma hoje já teria morrido de frio), onde a luz é melhor para ler. De vez em quando vou ao escritório para usar o computador. Aí acabo por ter de lutar com patas peludas que teimam em passar sobre o teclado sempre que estou a fazer alguma coisa. Ou que passam e param teimosamente diante do ecrã, num claro exercício de narcisismo felino. Também tenho de me esquivar à monomania da Cão: a sua decrépita bola de ténis.

De vez em quando levanto-me a correr porque o apocalipse chegou na forma de um gato que atira coisas ao chão ou de uma gata que suja o hall com uma bola de pêlo. Ir buscar o balde e a esfregona é, posso dizer, o ponto alto do meu dia.

Os meus pés já não sabem o que são umas botas e temo que se recusem a voltar a entrar numas. Os chinelos com raposinhas são agora os seus melhores amigos e não sei como é que isto vai acabar. O meu cabelo, que está a ganhar proporções alarmantes, anda preso com um pauzinho. Julgo que, quando puder sair de casa, o primeiro sítio aonde irei será ao cabeleireiro. Até ia a correr, mas tenho medo de tropeçar no cabelo ou de torcer um pé com os chinelos das raposinhas.

Entretanto, no tempo que me sobra, várias questões assolam a minha desocupada cabeça. Uma delas é: será que as mulheres que estão em isolamento social em casa estão a usar sutiã? Bem sabemos que quando estamos por casa é artigo que dispensamos frequentemente. Mas se isto dura muito... Só nos faltava acabarmos este inferno todas descaídas! 

terça-feira, 24 de março de 2020

Para o que estávamos guardados II

Hoje, enquanto fazia o passeio matinal com a Cão, notei o enorme silêncio daquela praceta onde, normalmente, se ouvem os sons da pastelaria (encerrada ainda antes de o Governo o ter decretado), alguns carros que passam, pessoas que se cumprimentam, que conversam, enfim, o som da vida de todos os dias. Durante aqueles dez minutos não ouvi praticamente nada que não fosse o som dos meus passos e isso nesta cidade é, diga-se, bizarro. Além disso, vi em várias janelas desenhos infantis de arco-íris. Uns em janelas de andares mais altos, outros mais perto do chão, todos teriam, na verdade, a mensagem em que queremos mesmo acreditar: «Vai correr tudo bem.»

De repente, no meio do silêncio e de desenhos infantis, é inevitável pensar que antes de tudo correr bem, corre mal. E foi precisamente por isso que não ouvi nada, não senti o aroma dos bolos ainda quentinhos, do café acabado de tirar, das pessoas que conversam sobre futebol: porque subitamente correu tudo mal e, para não correr pior, estamos a fazer a nossa parte e a contribuir com o nosso próprio silêncio, fechando-nos em casa. No fim espera-se o arco-íris, mas por agora não se sabe muito bem quando ou como chegaremos ao dia em que ele aparecerá.

O inimigo é silencioso, oportunista, e faz-nos desconfiar. Outro vizinho passeava o cão à mesma hora, regressámos ao prédio ao mesmo tempo e parecia que fazíamos uma dança bem ensaiada e coordenada, mantendo sempre uma distância que nunca diminuiu. Os pobres animais bem queriam aproximar-se, mas os seus humanos não podiam. Eu subi pelas escadas e o vizinho foi de elevador.

A Cão dormiu durante boa parte do dia, os gatos fizeram o mesmo e eu trabalhei. De vez em quando os olhos saltavam do papel para a janela, olhavam lá para fora e procuravam indícios de normalidade ou, mais provavelmente, do seu contrário. E encontravam. Os estacionamentos cheios porque as pessoas estavam em casa; mais janelas abertas e mais roupa nos estendais; menos carros a circular; menos gente a passar; mais crianças à janela com os pais em horas que seriam, em dias comuns, passadas na escola. Voltaram os olhos ao trabalho e assim passou o tempo até ao noticiário e aos números do dia. O arrepio diário quando chegaram as novidades, quando assisti às imagens dos que ainda não perceberam a gravidade do problema e querem continuar a passear aos magotes. O murro no estômago quando saltamos da realidade nacional e passamos para Espanha e para Itália. A dor de cerrar os punhos com toda a força e o desejo enorme de que nunca sejamos nós. De que o arco-íris, que tarda tanto, chegue depressa.

Engole-se em seco e engole-se o almoço. Mais horas de trabalho com espreitadelas rápidas às notícias mais recentes. Cada vez menos espreitadelas porque, a certa altura, é preciso não ceder à tristeza. Convém não esquecer que as fronteiras são as minhas paredes e só isso é suficiente para cansar a alma. Acaba o dia de trabalho, come-se qualquer coisa e chega mais um noticiário. Só os primeiros quinze minutos. Depois um livro, uma revista, um jogo, o branco do tecto, qualquer coisa. O dia acaba e o próximo será igual. Falta-me fazer este risco no calendário, mas nem me preocupo: tenho tempo e não me vou esquecer dos dias em que ficar em casa foi a solução possível.

Amanhã o dia será assim também. Ainda não veremos o arco-íris, parece-me que ele se fará esperar. Amanhã serão apenas mais umas horas em casa, fazendo sem companhia o que normalmente faço rodeada de gente. Será um dia com outras notícias, o mesmo arrepio na espinha, o costumeiro murro no estômago, o medo e a saudade daqueles que não posso ir ver. Será mais um dia para ir à janela e ver a vida diferente dos que só a querem igual ao que sempre foi, mesmo que não fosse perfeita. «Éramos felizes e não sabíamos», dizia-me alguém num destes dias. Nunca a frase me pareceu tão certa.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Para o que estávamos guardados I

Realmente... Não passava por aqui por falta de tempo, de vontade, de inspiração... Parecia-me que já tinha dito tudo, feito todas as piadas e que já não tinha nada para vos dar. Bom, provavelmente continuo a não ter. Contudo, agora poupo o tempo das viagens para o trabalho já que estou a trabalhar a partir de casa há uma semana. Ou seja: há oito dias que não saio a não ser para ir à mercearia, à farmácia e para passear a Cão. Resultado: agora tenho mais um bocadinho para vir aqui delirar. 

Sim, porque isto está é para uma pessoa ensandecer. Acordo meia hora antes de me sentar diante das provas que tenho para rever, trato dos animais e faço questão de vestir uma roupinha que não o pijama. Ao menos isso! Tomo o pequeno-almoço já a trabalhar, faço uma pausita de meia hora para almoçar e sigo as leituras pela tarde fora. Aí pelo meio, ouço o noticiário, reviro os olhos cento e oitenta vezes e atiro a bola de ténis para a Cão ir buscar cerca de novecentas e trinta e oito. Ela agora aprendeu a tocar-me na perna quando me faço de esquecida por isso não há como escapar à bola babada. Entre as seis e as sete da tarde arrumo as minhas coisinhas (leia-se: deixo-as fora do alcance dos dentes caninos) e dou o dia de trabalho por terminado. Tudo somado e foram oito horinhas. Mas sem colegas, sem piadas, sem gargalhadas, sem pausas para café, sem tudo aquilo a que nos habituámos e que faz parte da nossa rotina.

Se ainda desse aulas, estaria neste momento a arrancar cabelos. Imagino a pilha de nervos que professores, pais e alunos devem estar a sentir sem saberem o que vai acontecer até ao final do ano e com as candidaturas ao superior (já para não falar dos Exames Nacionais que são a dor de cabeça mor). Imagino os professores a terem de imaginar aulas à distância que efectivamente ensinem alguma coisa, pensadas e concretizadas de um dia para o outro sem qualquer período experimental. E também os imagino super elegantes da cintura para cima, mas com as calças do pijama da cintura para baixo. Essa parte é hilariante, na verdade.

Certo é que por ora é esta a nossa realidade. Resguardar-nos e proteger aqueles de quem tanto gostamos e que são, cruelmente, os mais vulneráveis, os mais atacados por este vírus bizarro que veio transformar a nossa existência num mau filme de Hollywood. No fundo, temos de aprender a viver como gatos, tal como tanto temos visto por essas redes sociais fora. Lavar as mãos, comer, dormir, mexer um bocadinho e, ao contrário deles, trabalhar em casa para lhes continuar a pagar a ração. E o nosso papel higiénico.


(Na dúvida, o Simon’s Cat ensina a viver estes dias insanos de isolamento.)



(Lady Gatica tenta substituir os meus colegas de trabalho. Mas larga mais pêlo do que eles.)



(Mas por vezes tenta sobrepor-se ao próprio trabalho. 
A ração que o meu trabalho lhe paga não lhe deve fazer falta, parece-me...)




(E depois de um dia de trabalho, vou para a cozinha espairecer e fazer coisas que NUNCA faço: doces. 
Eis umas bolachas de coco e aveia feitas hoje. Eu estava a fazer dieta, sabiam?)



(Na porta do frigorífico tenho um calendário onde vou riscando os dias de isolamento. 
Ainda não risquei o de domingo e o de hoje, mas amanhã trato disso. Sou capaz de ter tempo que chegue.)



(A foto é péssima, mas a ideia é dizer-vos que a realidade é tão má, tão estranha, tão inimaginável 
que precisei de recorrer à literatura infanto-juvenil para descansar as ideias. 
Até agora está a ser uma excelente leitura. Quando a Feira do Livro decorrer,
 lá para o final de Agosto, corram e comprem-no!)

Por hoje é isto. Talvez amanhã haja mais. Não me comprometo porque, ainda que os dias agora pareçam todos iguais, a verdade é que são mais diferentes do que nunca. Até lá, cuidem de vocês e dos que vos são queridos. Como agora vamos dizendo, à laia de mantra, vai correr tudo bem. Vamos  todos ficar bem.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Raivinhas

E aquelas pessoas que vão à caixa Multibanco e, quando acabam a transacção, ficam paradas em frente dela a analisar o talão e a impedir que outros a utilizem?

Ah, a raivinha que me sobe nesses momentos... 

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A desaparecida regressa

Primeiro fiquei sem ideias e fui de férias. Depois, voltei de férias e senti uma preguiça maior que eu. Quando dei conta, havia passado mais de um mês. Então deixei seguir, sem saber bem o que fazer ao blogue.

Nem listas para o Pai Natal, nem erros que fariam Camões arrancar o outro olho, nem sugestões de leitura, nem votos de festas felizes. Nada. O blogue parou num dia qualquer e assim tem estado. 

Regresso hoje (oxalá que seja para continuar e que vocês ainda estejam desse lado) para desejar-vos um 2020 extraordinário. Espero que as boas leituras, as viagens, os petiscos, enfim, tudo seja absolutamente fantástico. E, claro, que sejam brindados com muita saúde e paz. 

Ultimamente só peço para mim anos tranquilos. É isso o que vos desejo: 366 dias sem nada que vos perturbe, que vos traga surpresas desagradáveis, que vos deixe de coração nas mãos. Apenas um ano tranquilo, sereno, em que saibam ser sempre felizes. E se puderem acompanhar esses dias que agora parecem infinitos com bons livros... Pois façam-no. Assim o tempo sabe muito melhor. 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Menina Quer Isto CXXII


Ainda não está traduzido em português, mas já estou em ânsias. Sim, o próximo romance de Salman Rushdie é um Quixote dos tempos modernos e faz uma viagem pela américa num tempo em que «tudo pode acontecer». É, por isso, um texto pleno de peripécias picarescas que acabam por, tal como o clássico de Cervantes no início do século XVII, mostrar o que se passa num país onde os valores morais são constantemente postos em causa.

Sim, o espaço nas prateleiras já não existe; sim, preciso de estantes novas; sim, tenho muitos livros (mas não livros a mais, que isso não existe). E, SIM, este vai morar lá para casa logo que saia em português. 

sábado, 27 de julho de 2019

Livrinhos para as férias - a vida

Biografias, autobiografias, diários, memórias... Enfim, há muitos livros em que o próprio ou outro contam uma vida. E há algumas que são tão ou mais empolgantes e emocionantes que muitos romances. Há muitas pessoas que não gostam destes livros porque consideram, à partida, que serão aborrecidos. Não sabem o que perdem porque, se uns poderão efectivamente ser desinteressantes, há um sem-fim de livros muito bons que evocam a vida de um «eu» real e que vale a pena ler. E as férias também podem ser o tempo ideal para isso. Por isso, seguem algumas sugestões de bons livros deste género.


Wook.pt - Viver para Contá-la

Gabo teve uma vida extraordinária e um talento desmedido para contar histórias. Escreveu esta sua autobiografia que, com muita pena minha, não chegou a ter a tão anunciada continuação. Acredito que, se ela tivesse sido escrita, seria extraordinária, como tudo aquilo que escreveu. Mas este livro já acompanha uns bons anos da sua vida. Do nascimento aos primeiros anos da vida profissional, o leitor pode espreitar a infância do pequeno Gabo, perceber onde, como e com quem cresceu, quem foi fundamental na sua formação, como chegou ao jornalismo e, logo a seguir, à ficção. Como viveu anos conturbados na Colômbia, como sobreviveu quase sem dinheiro no bolso, que amigos teve e que importância tiveram na sua existência. E tudo isto com o estilo incomparável de um dos melhores escritores de todos os tempos. Eu li este livro durante umas férias de Verão, por isso é possível, minha gente.



Wook.pt - Agatha Christie

Falei deste livro aqui quando o li. Não vou repetir-me. Esta autobiografia de Agatha Christie é tão boa ou melhor do que os seus policiais. É que esta foi uma mulher de vida cheia numa época em que não se esperava assim tanto das mulheres. Deitou mãos à obra e aprendeu o que precisava de aprender para ajudar o seu país em guerra e esse conhecimento farmacêutico deu-lhe muito jeito quando precisou de envenenar personagens. Escreveu para sobreviver, mas não apenas por isso. O talento estava lá e a prova disso é que tantos anos depois continua a ser uma das nossas autoras preferidas no que respeita aos policiais. Este grande livro permite-nos conhecer os bastidores de uma vida que já sabíamos ter sido repleta de aventuras. Tem muitas páginas, mas lê-se de uma assentada.



Wook.pt - Cadernos de Lanzarote - Diário I

Eram cinco volumes, mas no ano passado chegaram a seis. Nestes cadernos, José Saramago foi escrevendo sobre os seus dias em Lanzarote ou noutras paragens, foi falando sobre livros e autores, sobre os seus cães... Em entradas maiores ou mais curtas, partilhou um pouco da sua vida com os leitores. Assim, fica o testemunho que quis deixar dos seus dias (sim, porque num diário que acaba publicado durante a vida do autor, claro que não podemos deixar de pensar que escreveu aquilo que quis que lêssemos). É uma parte importante da sua obra e é delicioso vê-lo chegar ao famoso dia em que sabe em pleno aeroporto de Frankfurt que ganhou o ansiado prémio Nobel.



Wook.pt - Diário - Volumes I a IV

Miguel Torga, um dos nossos maiores, foi escrevendo um diário ao longo da vida. Alguns dos seus poemas nasceram ali, embora estes fossem volumes que iriam acompanhar também os acontecimentos do seu país e as reflexões que sobre eles fazia. Quando foram publicados pela primeira vez, estes diários resultaram em dezasseis volumes. Há uns anos, a Dom Quixote compilou-os em quatro livros de tamanho simpático. Com as palavras de Torga, vamos assistindo às mudanças de um país que parecia estagnado e vamos vendo como um grande escritor pensa e muda à medida que os anos vão avançando. São livros de uma beleza extraordinária, como tudo o que saiu da pena de Torga.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A Menina Quer Isto CXXI


A Dom Quixote publicará a 27 de Agosto aquela que está a ser apresentada como a mais completa biografia de Jorge Amado. Para a escrever, a autora teve acesso a documentos importantes como manuscritos inéditos e cartas escritas a outros autores, amigos e familiares. São cerca de 600 páginas que procuram acompanhar o percurso de um autor brasileiro que foi lido em todo o mundo.

Como fã de Jorge Amado, não posso perder esta oportunidade de conhecê-lo melhor. Por isso, a menina quer isto. Mas muito!

Nota: Sobre este livro, mais informações aqui.

Para as olimpíadas, já!

Vestir umas skinny jeans lavadas depois de tomar banho num dia de muito calor devia ser modalidade olímpica. Ou forma de tortura.

tight jeans

Nota: A imagem saiu daqui.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Livrinhos para as férias - a infância

Para muitos as férias já começaram, mas para outros (como eu), os dias de dolce fare niente ainda vêm longe. Claro que vamos fazendo planos, imaginando que faremos isto ou aquilo, que visitaremos aquele lugar de que nos falaram, que nos banharemos na praia X ou Y, que vamos jantar ao restaurante onde queremos ir há tanto tempo ou que vamos ler isto e aquilo. Aliás, o Verão é mesmo a estação do ano em que as pessoas (pelo que dizem...) procuram pôr as leituras em dia. É aquela velha história de que no resto do ano não dá para ler e de que só as férias de Verão trarão esse luxo que é... ter tempo para ler um livro.

Mas escolher o que ler não é fácil e, portanto, nesta altura do ano acumulam-se as sugestões, geralmente de livros recentes. Parece que se parte do princípio de que todos os outros já estão lidos. Ora, como o blogue As Minhas Quixotadas é uma «maria-vai-com-as-outras», resolvi também fazer algumas sugestões, embora com uma diferença: os livros sugeridos não são necessariamente recentes. Podem até ser bem antigos, que isso não me importa nada. Além disso, vou dividir as sugestões por temas. Hoje vamos à infância.

Há poucos temas que me deliciem mais na literatura do que o da infância. O romance de formação, ou bildungsroman, é aquele que se foca na educação, crescimento e processo de auto-conhecimento de uma personagem. Centra-se, sobretudo, na infância precisamente porque essa será a fase da vida em que formamos muito do que seremos no futuro. Ora, com tal importância, a literatura não poderia deixar de querer retratar esse período pelo qual todos passamos. Daí que muitas sejam as obras que se dedicam totalmente a esses anos ou que, pelo menos, decorrem em grande parte nessa fase da vida. O mundo e as experiências que ele nos proporciona serão responsáveis pelo carácter que desenvolveremos e é do eterno conflito entre o «eu» e o meio em que se move que nascerá um novo adulto. Mas antes passará, como todos passamos, pelos anos de aprendizagem e, se o destino for simpático, de brincadeira e ilusão. 

Além do bildungsroman, muitos outros livros retratam esta fase da vida. Alguns foram escritos a pensar precisamente num público leitor ainda muito jovem. Aí costumam destacar-se as aventuras, aquelas asneiradas em que todos nos metemos uma vez ou outra, ou ainda outras totalmente inventadas e impossíveis, mas que deleitam o leitor. Enfim, a infância permite tudo: desde o seu retrato aproximado até à viagem pela imaginação que tão bem combina com esses anos em que tudo é possível. 

Por isso, por ser tão delicioso ler sobre este período e observar o modo como ao longo dos tempos a infância seduziu escritores e os levou a procurar retratá-la, as minhas primeiras sugestões serão livros que, no todo ou em parte, evocarão os primeiros anos de uma personagem. São livros que eu li e que me ficaram na memória pelo modo mais ou menos alegre como o tema foi tratado. São infâncias de personagens mais ou menos sortudas, mas que em todo o caso cresceram e aprenderam. São livros que, na minha opinião, são boas leituras para a época preguiçosa do Verão.



Quem nunca se perguntou se determinada memória de infância não passa, de facto, de imaginação? Isso acontece com o narrador de O Mundo. Aqui encontramos a Espanha do pós-guerra, mas também uma infância diferente da que hoje vivem as nossas crianças. Brinca-se, imagina-se, contudo também se conhece a dor e a perda. Não é, por isso, uma efabulação que só se fica pelo que é bonito. Nada disso: é a infância como ela pode ser. 



Sim, todos nós conhecemos o Tom Sawyer. Sim, todos vimos a série e ainda cantarolamos que ele anda sempre descalço. Mas quantos lemos este livro e as aventuras deste malandro de fio a pavio? Poucos. Pois o fenómeno é este: eu vi a série, li o livro muitos anos depois e fiquei espantada pelo facto de o livro ser melhor, muito melhor, que a série que devorei em criança. As aventuras que Tom e os seus amigos vivem são tão possíveis e divertidas que esta é uma leitura compulsiva. Mas às vezes as coisas complicam-se e é aí que a infância é posta à prova. É um clássico e isso diz tudo.



Aos 32 anos regressei a estes livros e voltei a assistir ao crescimento do jovem Adrian Mole. Vá, já está mais para adolescente do que para criança, mas isso não importa. Nestes livros assistimos às vicissitudes da vida de um teenager com borbulhas, apaixonado, nascido numa família altamente disfuncional, que quer ser escritor e que é de uma ingenuidade desarmante. Mesmo tendo a sua acção nos anos 80 do século passado, é impossível não soltar uma sonora gargalhada com o pobre Adrian e todos os que fazem parte da sua desgraçada existência.



Quando penso neste livro, recordo sobretudo a beleza da escrita. É tão maravilhoso e ao mesmo tempo tão triste. A protagonista, Adriana, cresce diante dos nossos olhos e vai, aos poucos, ingressando num mundo de crescidos. Mas a sua imaginação, as brincadeiras que inventa e a amizade que vai conhecer nunca nos deixarão esquecer que é no reino da infância que nos movemos. Todavia, este livro não se fica pelo idílio dos primeiros anos. Vai muito além disso, sempre com grande beleza. Este é um dos melhores livros que li sobre a infância e, sendo sincera, um dos mais fabulosos romances que tive a oportunidade de ler.



Agora alguém estará a reclamar que este é um calhamaço e que ninguém vai ler tal coisa numas férias. Bom, meus caros, eu li isto em meia-dúzia de dias. Um bom livro é um bom livro seja em que estação for e, que eu saiba, o cérebro não tira férias no Verão.

Ora bem, David Copperfield... É verdade que o protagonista cresce, que a infância passa e que os problemas dos adultos chegarão à sua vida. Mas também é verdade que os problemas dos adultos chegam à vida do pobre David quando ele é ainda muito pequeno. Talvez nunca tenham estado longe dele, na verdade. É um romance de Dickens, é óbvio que este miúdo vai comer o pão que o Diabo amassou. Contudo, também vai saber dar a volta às situações e seguir em frente. Construirá a sua vida sem que alguma vez se esqueça do que viveu em criança. É um livro extraordinário, uma obra-prima, uma verdadeira maravilha.



Li este livro no final do ano passado e falei dele aqui no blogue. O protagonista é um rapaz que perder a mãe num atentado terrorista e que guarda «dela» um objecto. Será, no fundo, um novo cordão umbilical que o ligará à mãe, mas que, a determinada altura, mais parece uma brasa quente que lhe queima a pele. Porém, é tarde de mais. Esse objecto acompanhá-lo-á enquanto anda para cá e para lá, como um boneco, à mercê das decisões de adultos que pouco querem saber da sua vontade real. O tal objecto torna-se um fardo para o próprio fardo que é esta criança para os outros. E quando no fim esperamos que a felicidade aconteça, recordamos que a arte imita a vida... com tudo o que ela é. Leitura longa, mas maravilhosa do início ao fim.



Também os nossos autores falaram sobre a infância. Por cá, o livro que mais rapidamente recordo é este Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira. O protagonista mudar-se-á da sua pequena aldeia para o seminário quando conta apenas doze anos. Por lá conhecerá o mundo, mesmo estando dentro de quatro paredes de pedra. A par da sua educação formal, o leitor assiste às vivências próprias da infância bem como à consciencialização de que o mundo é muito mais complexo do que aquilo que os tenros anos nos podem levar a crer. Este protagonista perceberá que existe pobreza, que existe dor, desigualdades várias, mas também amor, amizade e um sem-fim de experiências para viver.


domingo, 21 de julho de 2019

Chora, Camões, chora... XXX



"[...] esfaqueou a mãe com a namorada"... Hum... 

Noutros tempos, esfaqueava-se alguém com uma faca. Agora parece que as namoradas também servem. A menos que a moça seja um espadarte, não estou a ver como é que a coisa se deu... 

sábado, 20 de julho de 2019

Um enorme orgulho

Uma aluna que acompanhei como professora de Português do 5.º ao 9.º ano fez recentemente o exame nacional de Português e teve 19 valores. 

E assim, na mesma semana em que deitei fora tudo o que ainda tinha dos anos em que dei aulas, fecho a etapa com a sensação de que dei o meu melhor e de que marquei a vida de alguém. Fazer parte da alegria desta aluna é maravilhoso e o que de mais bonito os professores recebem. É um orgulho e a certeza de que, apesar de tudo o que aconteceu, era uma boa professora. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Retrocesso

Ouvir uma multidão gritar, num comício de Trump, qualquer coisa como «Mandem-na de volta!», referindo-se a um membro da Câmara dos Representantes natural da Somália, recorda outros comícios, num século que passou, mesmo antes de um acontecimento que jurámos não repetir. Aliás, todos os que nascemos depois da Segunda Guerra Mundial ouvimos, na escola, aquela máxima de que a História não deve ser esquecida para não ser repetida. Talvez as palavras tenham sido ditas tantas vezes que perderam o sentido, como quando repetimos o nosso nome e chegamos a um ponto em que já nem nos parece o nosso nome. 

Eis-nos chegados a 2019, mas voltados para a década de 30 do século passado. Deixamos morrer gente em botes no Mediterrâneo; assistimos à luta entre países para ver quem é que NÃO ajuda aqueles que fogem à guerra e à miséria; impávidos e serenos jantamos diante de uma televisão que mostra um suposto líder político escudado por uma multidão acéfala que repete palavras xenófobas com ecos de outros tempos; bocejamos perante actos óbvios de falta de empatia entre seres humanos; observamos o crescimento das nossas unhas quando sabemos que os mais básicos direitos humanos estão a ser pisados e repisados...

 Quando tudo devia soar a perigo, quando todos os nossos alarmes deviam estar a soar, não estão. E assim retrocedemos décadas e vamos voltando placidamente ao que jurámos não repetir.