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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Coisas que Odeio XVI

Se há coisa que anda a pôr-me louca é o facto de tanta, tanta, tanta gente fugir dos livros como quem foge da cruz e da água benta, mas depois andar a partilhar frases (profundas) literárias por esse Facebook fora como se fossem verdadeiros entendidos e apreciadores de palavras, de frases, de textos, de livros. Do que quer que seja que envolva letras sem serem publicações nas redes sociais.
 
Ele é Neruda, ele é Nabokov, ele é Gabriel García Márquez, ele é Saramago... Frases que andam na boca do mundo e que só não se vulgarizam mais porque saíram da mão de génios que conseguem sobreviver à constante banalização de que vão sendo alvo. Quem os cita podia, pelo menos, dedicar-se a lê-los. Nem que fosse só um dos livros, só para saberem do que falam. É como o «Ser ou não ser: eis a questão.», dito por Hamlet, citado milhões de vezes e sobejamente mal interpretado.
 
Perdoem-me todos os que gostam de ler e que recorrem a umas citações de vez em quando. Isto não é para vocês. É apenas para quem quer esconder o vazio aparentando profundidade ao recorrer a frases de gente que escreveu para ser lida e não repetida até à exaustão por papagaios ocos.

sábado, 31 de março de 2012

Coisas que Odeio XV

Sou só eu que odeio o anúncio da "Idealina" que utiliza a música do «Parabéns a Você» para publicitar uma coisa que diz que faz bem à pele? Eu achava que nunca nenhum ódio musical seria superior ao que sentia pela famosa música do Pingo Doce, mas enganei-me. A banda sonora da publicidade à "Idealina" (que eu nem sei o que seja) arrepia-me dos pés à cabeça. Então quando os alunitos mais pequenos se lembraram de começar a cantarolar aquilo pelos corredores, juro que me senti doente. Enfim, é esperar que a moda passe e que os senhores que fazem aqueles anúncios se lembrem de fazer uma publicidade menos enervante.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Coisas que odeio XIV

E os nervos que dá ouvir-se uma música na rádio, gostar-se dela e não sabermos de quem é e o título que tem? Ando aqui feita tonta a esmiuçar os tops das rádios para ver se descubro o nome de uma canção que ouvi ontem e não vejo jeitos. Odeio isto!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Coisas que odeio XIII

Ah, a calçada portuguesa... A calçada portuguesa, tão lindinha e tradicional. Que bonita! Só é pena ser irregular e escorregadia, esburacada e perigosa. Não sei quem a inventou, mas sei que foi um excelente negócio para as pedreiras e que é um elemento da nossa cultura muitíssimo apreciado por quem nos visita, e tal... Agora, santa paciência, que lógica tem um chão que é muito bonito mas que, depois de chover (e mesmo quando está sequinho) se torna tão escorregadio como o gelo? E qual o sentido de andarmos sobre um pavimento que raramente é direito e que nos deixa os pés feitos numa papa, andemos nós de saltos altos ou de ténis? E por que raio os buracos que a falta de algumas pedras causam nunca são tapados e lá vão ficando, lindos e airosos, prontinhos a fazerem-nos ir de trombinhas ao chão?

Enfim, é uma daquelas coisas de que me custa falar mal por ser, efectivamente, bonita e um traço português que fomos deixando um pouco por todo o mundo. Ainda assim, não consigo evitar um certo ódio pela calçada portuguesa, principalmente quando ando a patinar em cima dela, a agarrar-me aos prédios para não me destrambelhar para o meio do chão. Para breve falarei dos paralelos, o meu outro inimigo, que degraçaram o metatarso do meu pé direito durante uma visita a Guimarães (cidade, a meu ver, campeã no uso desse flagelo de granito).

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Coisas que odeio XII

E o que eu odeio expressões como «és simplesmente linda», ou «és simplesmente fantástica», ou ainda «esse livro é simplesmente maravilhoso». A sério, o advérbio está lá a fazer o quê? Basicamente estão a dizer «és de modo simples linda», «és de modo simples fantástica» e «este livro é de modo simples maravilhoso». O «simplesmente» faz falta à frase? Não, não faz. Mas ainda me irrita mais quando dizem porcarias doces como «és uma amiga simplesmente especial», que leva a pensar, devido ao advérbio, que nada mais se dirá sobre a amiga, e depois continuam em divagações sobre o quão fantástica é a dita. Então se era para dissertar sobre a fofa, o redutor «simplesmente» foi para a frase fazer o quê? O mesmo se aplica aos livros, filmes, músicas, entre outras coisas, que muitos tendem a classificar como «simplesmente» não sei quê, embora depois continuem animadamente a falar sobre eles. Credo! Usar o raio do advérbio antes de um adjectivo muito elogioso já é tão batido, tão batido, mas tão batido que vai consumindo tanto o sistema nervoso como a boa da expressão «certas e determinadas coisas». Mas «certas» não vai dar ao mesmo que «determinadas»? Enfim, isso daria outro texto e agora tenho as mãos frias.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Coisas que odeio XI

Não consigo perceber a piada que as pessoas parecem encontrar no programa da SIC intitulado «Alta Definição». Nunca consegui ver uma coisa daquelas do início ao fim porque, aquilo a que chamam entrevistas profundas, parece-me muito uma competição para ver quanto tempo se leva a pôr o entrevistado a chorar. E, convenhamos, ver o Quim Barreiros verter umas lagrimitas não é, de todo, a minha ideia de entretenimento de qualidade.

Pelo que me apercebi, a ideia é pôr os entrevistados a falarem mesmo daquilo de que não deviam falar. Pretende-se que as questões façam o convidado mostrar o que traz dentro de si, ou seja, deseja-se que aquela entrevista seja marcante por dar a conhecer o ser humano por trás do actor, do apresentador, do cantor, ou o que seja. Portanto, julgo eu, as pesquisas sobre a vida do entrevistado devem ser orientadas no sentido de serem descobertos todos os aspectos mais íntimos e dolorosos que possam, pelo menos supostamente, dar profundidade à coisa. Agora, como é que a pergunta «O que dizem os teus olhos?» pode pôr alguém a chorar é coisa que não entendo, a menos que a mesma venha acompanhada pela acção de descascar cebolas. Aliás, a pergunta nem faz grande sentido e pronto. «O que dizem os teus olhos?» Olha, que estão a precisar de uma ida urgente ao oftalmologista que isto dos computadores e dos livros acaba por fazer mossa. Ou então que preciso de trocar de rímel porque aquele já vai com mais de seis meses e diz que isso  não é saudável.

Detesto esta mania de tornar tudo muito profundo e odeio ainda mais a moda de que a boa televisão só acontece quando os filmados se emocionam e choram ali como se alguém lhes tivesse batido. Cada vez me convenço mais de que o que faz falta são bons livros para entretenimento a sério...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Coisas que odeio X

A sério, o que é isto? O regresso do Batatinha, mas em mau? Pela minha rica saúde alguém me explica como é que meio mundo feminino anda profundamente enlouquecido por isto? Juro que não identificaria isto com sapatos, não fosse o facto de terem atacadores! A meu ver parecem-se mais com armas de arremesso concebidas para fazer mossa no cocuruto de alguns incautos. Acho mesmo que mais depressa me apanham de galochas do que com estes tijolos altos debaixo dos pés. A sério, minha gente, acham mesmo que uma mulher fica mais elegante com uma coisa tão pouco bonita nos pés? A mim davam-me jeito uns dez centímetros a mais, mas se os puder ganhar de uma forma esteticamente mais agradável ficarei bastante mais satisfeita.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Coisas que odeio IX


Ai gente, o que me enervam as pessoas que, para ouvirem música na rua ou nos transportes públicos, põem os telemóveis a berrar o hit pretendido para quantos o queiram (e mesmo que não queiram, azar) ouvir. Headphones? Viste-os? Não. Para quê guardarmos a música para nós quando toda uma carruagem do Metropolitano de Lisboa a pode ouvir? Por que raio haveremos de nos ralar com o cansaço e o pouco desejo dos outros de ouvir música azeiteira em volume exacerbado, se o mundo é consideravelmente mais giro com uma boa pimbalhada em pleno transporte público?

Hoje fui brindada com um medley de lixo musical que vinha algures do fundo do autocarro. Normalmente gosto de transportes públicos, mas quando isto acontece acabo a imaginar-me transformada numa Lara Croft que se levanta de repente e não descansa enquando não escavaca o prevaricador telemóvel à murraça. E o respectivo dono, já agora.

Ainda sobre uma das coisas mais ridículas que já vi, alguém me explica por que razão esta gente nunca tem bom gosto musical? Na minha modesta opinião, se não têm um Rodrigo Leão ou um Michael Bublé para pôr a bombar no telemóvel de última geração, mantenham-se em sossego. Contudo, ninguém liga nenhuma à minha opinião e, por isso, hoje vim a ouvir Emanuel e por momentos senti-me num bailarico de Verão, só que sem o cheiro a frango assado (o aroma do autocarro nunca é o de um apetitoso e suculento franguito na brasa...). Ora, no fim de contas, para que raio vai esta gente a ostentar orgulhosamente a falta de gosto perante todo um autocarro enfurecido e a desejar um bloqueio auditivo temporário? É coisa que me ultrapassa e que me irrita muito. Há tantas outras maneiras de uma alma infeliz dar nas vistas e mostrar-se disponível para o acasalamento. Aconselho tais pseudo-melómanos a darem uma vistinha de olhos pelo Zoo e a aprenderem umas coisas com os bichinhos que por lá andam que, sabe Deus como, conseguem ser muito menos azeiteiros e fazer muito menos barulho.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Coisas que odeio VIII


Eu até percebo que os comerciantes torçam o nariz a certas transacções por multibanco. Todos sabemos que eles pagam uma taxa de cada vez que nós usamos o cartão, mas há limites para o ridículo. Estava num centro comercial e entrei na papelaria para comprar uma revista e um livro que saía com um jornal. Não tinha levantado dinheiro e como sabia que a loja permitia pagamentos por multibanco ia pagar com o cartão. Não podia ser. Disse-me a senhora que só podia pagar se "consumisse" no mínimo dez euros. Respondi à senhora, incrédula, que isso não estava na lei e que é uma ilegalidade. Resmordeu que ou é isso ou tiram o multibanco porque não conseguem haver-se com as despesas. Disse-lhe, já saindo da loja, que assim não lhe levava nada e que entre pedir consumos mínimos astronómicos para a utilização do multibanco numa loja que vende artigos de baixo valor e não ter multibanco, a diferença não era nenhuma.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Coisas que odeio VII

E para começarmos um Sábado frio e chuvoso, que tal mais uma coisa que odeio? Pois aí vai ela.

Sinto cada vez mais inveja do pessoal que mora em aldeias, nas suas casinhas distantes das dos vizinhos, sem prédios que partilhar com vários habitantes por andar, sem uma escada interior utilizada por todos os que vivem naquele edifício. Enfim, tenho uma pena enorme de ter de viver na cidade e de ter de aturar uma série de vizinhos que devem ter problemas auditivos, uma vez que só isso justifica não se aperceberem da barulheira que fazem a qualquer hora do dia ou da noite. Desde pequena que sei subir escadas normalmente, tendo cuidado extra quando as subo ou desço a meio da noite ou numa hora em que já não se espere barulho. Contudo, parece que isto não funciona com todas as pessoas. Aliás, é incrível o talento que alguns têm para fazer barulho. Até rodar a chave na fechadura da porta de casa é, para algumas almas, uma espécie de competição ou de tarefa a realizar em um terço de segundo. Claro que a coisa faz barulho, não é? Alguém se rala? Não.

Enfim, um dos meus sonhos é largar Lisboa e mudar-me para Viana do Castelo que, não deixando de ser uma cidade, sempre me parece mais sossegada. Vizinhos barulhentos há em todo o lado, mas aqui sucedem-se a uma velocidade estonteante.


Devaneio extra da autora: Em Viana do Castelo, até um dia frio, feio e chuvoso como este é maravilhoso. Aquele rio Lima com um céu cinzento a emoldurá-lo é tão bonito quanto num esplêndido dia de sol em Agosto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Coisas que odeio VI

Há uns tempos ouvi uma discussão entre um professor mais velho e um professor mais jovem sobre o «despir da camisola de professor», tema que todos sabemos dar polémica com fartura (recordem-se, por exemplo, da professora de Mirandela que posou para a Playboy). Rapidamente a conversa foi parar às redes sociais e ao quanto um professor é vulnerável nesse mundo virtual.

Isto leva-me a uma das coisas que mais detesto saber que acontece pela enormidade do ridículo em que consiste: um professor ou uma professora do ensino básico e secundário que se torna amigo/a dos alunos na sua página pessoal do Facebook. No que respeita ao ensino universitário, não me manifesto porque a idade é outra e a relação entre os professores e os alunos é, também ela, de outro tipo. Mas com alunos de uma faixa etária que abrange idades que podem ir dos nove ou dez anos até aos dezoito, parece-me manifestamente pouco inteligente da parte do professor fazê-lo. E porquê? Por várias razões.

Qualquer professor sabe que, a partir do momento em que começa a exercer, está a vestir uma «farda» que não voltará a despir até ao fim dos seus dias. Ainda que dê poucos anos de aulas, haverá sempre por aí alguém que foi seu aluno. Mas para quem segue essa profissão ao longo da vida, mais a farda pesa e tem de ser respeitada. Há um papel que é assumido e que temos de seguir. Ora, os nossos alunos conhecem-nos como professores e é essa a única vertente em que nos devem conhecer enquanto somos docentes deles. Assim, parece-me totalmente disparatado levá-los para um mundo tão particular quanto o da minha página pessoal do Facebook. O que de bom poderá trazer à relação professora-alunos o facto de me verem em biquini nas minhas férias? Ou de me verem com os meus amigos num jantar? Ou de me verem com o meu cão? Consigo conceber que os professores criem uma página do Facebook diferente daquela que usam com os seus amigos e familiares. Quase como o email de trabalho que hoje em dia todos temos. Agora, partilhar com os meus alunos a minha vida privada e as minhas fotos particulares é o maior disparate que já vi. É ridículo, infantil e, acima de tudo, perigoso. Uma turma pode ter até trinta pessoas, todas elas muito diferentes umas das outras e uma coisa é tão certa quanto eu gostar de palmiers cobertos: podemos dar aulas àquela gente um ano inteiro e correr tudo muito bem, mas basta um dia e uma palavra para a relação azedar. E aí, minha gente, o nosso Facebook pessoal, se cairmos na asneira profundamente idiota de ter os nossos discentes como amigos, torna-se uma arma que pode perfeitamente ser utilizada por gente que ainda não tem noção das consequências. Em suma: quem o faz vive num mundo cor-de-rosa que facilmente pode mudar de cor.

Adenda da autora: Além do perigo que é, que interesse pode haver em ter os alunos a comentarem a nossa vida social ou a nossa boa forma física (tudo informação apreendida nas redes sociais) no início das aulas ou pelos corredores da escola? Alguém me explica isto????

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Coisas que odeio V

Nunca conseguirei perceber a razão que leva as pessoas a falarem ao telemóvel com os decibéis completamente alterados enquanto viajam nos transportes públicos. Santo Deus! Serei obrigada a saber que o irmão do senhor que viaja ao meu lado ganha mil e quinhentos euros por mês, mas que a cunhada só ganha seiscentos e que, portanto, «ele é um encargo maior para empresa do que ela»?

Ele é a senhora que conta do frango que vai fazer para o almoço da filha que vai nesse dia comer a casa porque teve uma consulta no dótor; ele é a querida que vai berrando pelo telefone as inimizades que tem no local de trabalho, mais o facto de não ser parva e de já cá andar há demasiados anos para que ainda lhe façam o ninho na cabeça; ele é o doce do adolescente que fala do último engate; ela é a jovenzita que berra para outra jovenzita como foi engatada na festa do Sábado anterior, o que vestiu e o sucesso que fez; ela é a senhora que grita para o telefone a necessidade de ver resolvida a sua situação na Segurança Social porque o filho precisa do abono... E por aí fora.

Não compreendo esta necessidade que algumas pessoas têm de incomodar os outros ao imporem aspectos da sua vida particular aos desgraçados que viajam, como eles, nos autocarros, comboios e metros deste mundo. Claro que são livres de o fazer, mas é uma questão de civismo e este, como bem sabemos, não anda de transportes públicos há muito tempo.

domingo, 20 de novembro de 2011

Coisas que odeio IV

Esta aura de fascínio em torno da maternidade que teve início com as "famosas", mas que já alastrou a muitas mulheres tão pouco conhecidas como eu é coisa que não compreendo. Não tenho filhos e isso é argumento que algumas mulheres poderão usar contra esta minha falta de sensibilidade para o entender. Até admito que um dia possa vir a mudar ligeiramente de opinião. Contudo, não acredito que venha a passar vinte e quatro horas do meu dia a falar do meu rebento, das estrias que ele me rendeu, do regresso à minha «antiga forma física», e das reais borradas que ele faz.

Minha gente, admito que um rebento nos mude a vida, a torne mais rica e nos faça aprender coisas que nunca julgámos vir a saber. Ainda assim, custa-me a perceber esta "moda" (porque me parece que é mesmo de uma moda que se trata) que faz as "famosas" passarem as entrevistas a falar sobre o modo como a gravidez está a ser vivida ou sobre as riquezas da maternidade ou, melhor ainda, sobre como os seus principezinhos são melhores do que os das outras. E os senhores que entrevistam adoram e exploram o assunto até ao enjoo. Correm atrás das figurinhas que estão grávidas para saberem como está a correr a coisa. Elas, babadas, derretem-se todas «Está a ser uma gravidez muito calma e vivida intensamente» (enjoo). Sabem que elas deram à luz e lá vão eles verificar se já estão boazonas outra vez. Caso estejam, pedem o segredo para tal feito, vindo de lá vem o invejável «Como de tudo: amamentar fez-me perder peso». Mas se, por outro lado, continuarem gordas que nem ursos antes do Inverno, logo vem a manchete «Não sei quantas está triste por ainda não ter voltado à antiga forma física» ou «Fulana, mais feliz do que nunca, luta para perder o peso da gravidez". Se já não lhes interessam as banhas da tipa, então voltam-se para as mudanças sentimentais que o rebento provocou, acabando por obter as lindas respostas «Ser mãe mudou a minha vida. Agora sou uma mulher completa. O meu filho ensina-me muitas coisas.» (vómito).

Mas o pior, o que é terrivelmente exasperante, é que há quem beba estas notícias e adore estes lugares-comuns sobre uma coisa que, ao fim e ao cabo, nos toca a todas mais ou menos do mesmo modo. Ou seja: ainda que o meu filho venha a ser único para mim, a experiência pela qual eu passarei será, no fundo, a mesma pela qual a senhora dona apresentadora, actriz ou manequim passaram. Contudo, não tenho de encher o saco dos outros com isso. O problema é que isto se alastrou e nos dias que correm vamo-nos apercebendo de que muitas mulheres desconhecidas adquirem este tipo de discurso e resumem a sua vida às "profundas mudanças espirituais" que o filho lhes trouxe. E acrescentam que nós, as pobrezinhas que nunca o viveram, não sabemos o que isso é e que, portanto, temos mais é que estar caladinhas.

Pois eu cá fico caladinha no meu canto desde que não me enfiem gravidezes felizes, partos idílicos, bebés de sonho e crianças perfeitas pelos olhos dentro quase diariamente. É que já não chegavam as senhoras que aparecem na televisão, para agora ter de comer esta papinha até nos transportes públicos. É dose!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Coisas que odeio III


Chamem-me insensível, mas tenho problemas em aguentar aquilo que apelido de "ternurices" (eu sei que a palavra não existe, acalmem-se!). E o que é isso, perguntam vocês? Eu explico com todo o gosto. As "ternurices" são aquelas coisas que nasceram há uns anos entre amigas e que consistem em coisas mais doces que o gelado de stracciatella que tenho ali no congelador.

A "ternurice" mais óbvia, e que até os homens já devem ter percebido que existe, manifesta-se pela repetição do adjectivo "linda" durante um diálogo entre amigas, sendo utilizado com as mais variadas funções sintácticas: desde vocativo até predicativo do sujeito, serve para tudo. Essa "ternurice" é mãe de frases cheias de significado como «Ai linda, esse vestido faz-te tão linda! Aliás, tu és linda sempre.». Uma pérola, portanto.

Depois também temos a "ternurice" que faz com que o vocabulário português tenha sido enriquecido com mais uma palavra: 'miga. Desenganem-se os homens que visitam este blogue e que podem estar a pensar que me refiro a um acompanhamento preparado com pão e muito apreciado no Alentejo. Não. 'Miga é uma forma fofinha (porque o objectivo de tudo isto é ser-se o mais fofinha possível) de dizer "amiga". Ou seja, como se a palavra "amiga" não fosse já ela cheio de significado, inventa-se uma mais curtinha, porque toda a gente sabe que o que é mais pequeno é mais querido e pronto. Então podemos ficar com frases como: «Ai linda, esse vestido faz-te tão linda, 'miga. Aliás, 'miga, tu és linda sempre.». Uma frase destas é, sem dúvida, um banho de amor.

Outra "ternurice" que vale a pena evocar consiste na praga dos beijinhos. Os beijinhos são uma coisa que algumas raparigas ou, pasmem-se, mulheres acham que são como os vírus: para espalhar o mais possível. Então imaginem a seguinte troca de mensagens escritas entre duas amigas:

A.: «Oi linda, está tudo bem contigo? Tenho-te achado triste e não te quero assim, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Oi linda, tudo bem? Sim, linda, tenho andado chateada com umas coisas. Mas não te preocupes, 'miga. Beijinhos.»
A.: «Linda, não fiques assim porque tens um sorriso lindo e eu gosto de te ver sorrir, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Tens razão, linda, mas isto nem sempre corre como queremos, não é, 'miga? Beijinhos.»
A.: «Pois é, linda. Olha, queres ir tomar um café, linda? Tenho saudades tuas, 'miga. Beijinhos.»
B.: «Olha, pode ser, linda. És tão querida. Hoje às três dá para ti, 'miga? Beijinhos.»
A.: «Querida és tu, linda. às três não me dá, 'miga. Pode ser às seis, linda? Beijinhos.»
B.: «Oh linda... :( Às seis tenho ginecologista, 'miga. Podes noutra hora, linda? Beijinhos.»
A.: «Depois de jantar, linda. Beijinhos, 'miga
B.: «Por mim pode ser, 'miga. Onde, linda? Beijinhos.»
A.: «Linda, no café do costume. Beijinhos.»
B.: «Combinado, 'miga. Estou lá às nove, linda. Beijinhos.»
A.: «Está bem, linda. Beijinhos.»
B.: «Beijinhos, linda.»

E é isto. Nada mais a acrescentar.

Para finalizar a lista de ternurices (acreditem que são muitas) temos os inúmeros elogios. Esta classe de amigas acha que deve elogiar as amigas mais vezes por dia do que aquelas em que eu penso em sapatos. Uma doçura! Desde o simples «És linda, 'miga.» até ao mais elaborado «És uma amiga linda, 'miga.» (aparentemente são coisas diferentes...).

Juro que não compreendo isto. Tenho amigas e não faço isto. Acho desgastante e enervante que alguém me apelide de "linda", mesmo quando pareço um parente do Alf acabado de acordar. Aliás, estas manifestações tão exacerbadas de ternura normalmente fazem-me desconfiar das pessoas que as proferem pelo simples facto de que nem sempre podemos estar de acordo com os nossos amigos, nem sempre achamos que merecem elogios (e quem acha que merecem é porque não é um bom amigo), nem sempre lhes podemos dizer o que eles querem ouvir porque isso muitas vezes não corresponde à verdade. Mas infelizmente há quem ache que ser amigo é espalhar açucar e doçuras afins em cima do outro, e dizer-lhe para ir em frente mesmo que isso seja uma descomunal asneira ou uma queda certa num daqueles abismos que nos vão surgindo. Há pessoas que acham que ser amigo é apoiar incondicionalmente, contudo esquecem-se que o bom amigo é o que nos abana quando precisamos de ser chamados à razão. Não quero amigos que me digam que faço sempre tudo bem. Não quero amigos que me digam a toda a hora que estou linda ou que sou linda, mesmo quando eu sei que fiz uma coisa errada ou que estou tudo menos linda. Quero quem me diga a verdade. Esse sim é o bom amigo, ainda que menos doce. Mas eu, quando quiser uma overdose de doçura, vou à Haagen Dazs e encho-me daquelas maravilhosas panquecas da semana passada.  

Nota da autora: Já que estou numa de odiar coisas, também odeio discursos muito lindos e cheios de lugares-comuns sobre a amizade. Poupem-me a isso!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Coisas que odeio II

Há uma atitude humana que me deixa furiosa: o plágio. O roubo de propriedade intelectual, seja uma reles ideia (coisa de que já fui vítima) ou seja já um trabalho completo é uma atitude execrável e que diz muito sobre a personalidade de quem rouba.

Já vi as ideias de muita gente serem roubadas com um sorriso por parte do ladrãozeco que via assim a forma de salvar o couro. Assisti a isto tanto no mundo universitário quanto no dos alunos do ensino secundário. De ambas as vezes fiquei agoniada e a pensar nas diferenças entre roubar um fio de ouro ou uma ideia de outra pessoa. Se a comparação vos parecer descabida, imaginem o trabalho que dá escrever um texto, conseguir fazer um bom trabalho académico ou ter uma ideia diferente das dos outros e depois vir alguém que, com a maior das latas, se assume como autor daquilo que tanto trabalho vos deu a conseguir.

Pois existe gente assim e é desprezível. Não podemos achar que temos de conseguir tudo a todo o custo. Se não temos capacidade para produzir a nossa própria obra, devemos mudar de vida e não insistir numa área em que não temos sucesso. Mas enfim, a consciência disto é fruto de valores que apreendemos com o crescimento e infelizmente há quem seja como o Peter Pan: sempre criança.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Coisas que odeio I


(ilustração do capítulo VI de D. Quixote de la Mancha,
no qual o cura, o barbeiro, a ama e a sobrinha queimam os livros de Alonso Quijano)


Sou uma criatura de amores e ódios. Amo os clássicos da literatura moderna, mas odeio o lixo light e de auto-ajuda que hoje em dia enche os tops das livrarias desta vida. E ainda consigo detestar mais as frases profundíssimas (not) que algumas almas retiram desse lixo e espalham em mensagens escritas enviadas em cadeia ou que pespegam nos murais do Facebook.

Hoje em dia existem livros que, se realmente servissem para alguma coisa, já teriam conseguido fazer com que fôssemos criaturas perfeitas, sem colestrol, podres de ricas, com a melhor das memórias e com uma esperança média de vida de pelo menos mil e duzentos anos. Pois lamento informar que não somos nada disto, o que me leva a crer que tais leituras são uma profunda perda de tempo e de dinheiro. Ainda assim, são textos que cativam, sabe Deus como, muitas e muitas pessoas, que acreditam que poderão realmente ser melhores com os ensinamentos deste ou daquele autor. Não compreendo: pois se estou desempregada vou gastar dinheiro num livro que alegadamente tem o segredo de me tornar rica? Isto não cheira a esturro? Se isto fosse assim tão limpinho, não seríamos todos Tios Patinhas a acender charutos com notas de cem euros?

A questão é que muitos acreditam. Todos os meses vejo os livros que estão nos tops das grandes livrarias portuguesas e arrepio-me. Ele é miúdos que vão ao céu e voltam, ele é ser feliz em dez passos, ele é aprender a ouvir o meu «eu» interior (seja lá quem esse senhor for...): é todo um mundo de aberrações que convencem quem precisa de ser convencido de qualquer coisa, mas que, espremida a laranja, não tem qualquer sumo. Quem ensinou os autores destes textos a viver de uma forma mais perfeita e cheia de significado do que a dos restantes mortais para eles se tornarem professores de um modo de vida que os leitores nem conseguem provar que existe realmente? Como é que a senhora A ou o senhor B podem tomar a liberdade de dizer que andamos todos a viver mal e que eles é que sabem porque viram a luz? Uns viram Deus, os outros descobriram a pólvora numa peregrinação pelo mundo enquanto enfardavam que nem gente grande em Itália, outros descobrem o poder da meditação. O que têm eles em comum? O conhecimento de que os livros, pouco ou muito, ainda rendem dinheiro e de que há editoras que adoram esse tipo de assuntos pelo simples facto de que existe público para estes textos. Nos entretantos há quem não saiba quem foi Aquilino Ribeiro ou Miguel Torga. E é isto o que temos.

Quando leio uma frase pseudoprofunda arrepio-me. O que quer aquilo dizer? Eu própria consigo inventar frases dessas sem grande esforço... mas também sem qualquer significado. Querem ver? Ora: «Às vezes basta um sorriso para percebermos a importância da nossa vida.» Uoooooooou! Estou siderada! Agora a minha vida faz todo o sentido. Obrigada, profundidade do meu ser, por me teres mostrado a luz! Agora sim sei o que ando a fazer neste mundo.

Não, não sei porque estou constantemente a aprender e, muito sinceramente, não passo os meus dias a pensar nisso. E também não vou comprar nenhum livro que me ajude a conhecer-me porque isso tem tanta serventia quanto dar murros na ponta de uma faca. Tiro as minhas próprias lições das minhas próprias vivências e do que me rodeia: não pago a ninguém para me ensinar a viver e muito menos serei a mensageira das frases pretensamente profundas que outros produzem.

Note-se que cada um lê o que quer. Se os livros de auto-ajuda vos fazem feliz, força. Mas esta é a minha opinião: a de que vale mais passar uma boa tarde enrolada num cobertor e entregue a um clássico que sobreviveu a centenas de anos e ao julgamento de inúmeros leitores, do que ler durante cinco minutos uma página em que alguém (que eu nem sei quem seja) me tenta meter na cabeça que ando a fazer tudo mal e que me vai ajudar a encontrar o meu caminho.

Caso se perguntem por que razão coloquei aquela ilustração de uma edição do Quixote neste texto, a resposta é simples: é que o que os amigos de D. Quixote fazem aos livros era o que eu adorava fazer ao lixo que enche as prateleiras da livrarias (uma fogueirinha no quintal e os ditos livros a voarem pela janela direitinhos para o fogo).