quinta-feira, 13 de maio de 2021
Maria João Abreu
quarta-feira, 5 de maio de 2021
Hannibal Lecter das cutículas
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Um miminho para vocês
segunda-feira, 26 de abril de 2021
Os 84 anos de Guernica
Em busca de um lugar na estante XX
terça-feira, 20 de abril de 2021
A Menina Sugere Isto XLI
segunda-feira, 19 de abril de 2021
Os ensinamentos da Covid-19 I
quarta-feira, 14 de abril de 2021
A Menina Sugere Isto XL
Não é preciso vivermos num regime fascista para convivermos com políticas fascistas. Este livro, Como Funciona o Fascismo, de Jason Stanley, ajuda-nos a perceber isso mesmo. É fácil pensar que, de facto, o tema não interessa assim tanto já que vivemos numa democracia e o fascismo ficou algures no passado. Nada mais errado. A leitura deste livro permite perceber com clareza que estamos rodeados de políticas fascistas. Olhamos para outros países europeus e elas pululam, olhamos para o que dizem algumas criaturas do nosso meio político e, voilà, lá estão elas. Recordamos o desempenho de Trump enquanto presidente dos Estados Unidos e ei-las. O regime pode ser democrático, mas o fascismo anda por aí.
O que o autor, professor em Yale, faz neste livro é dedicar um capítulo a cada um dos pilares do fascismo como a criação de um passado mítico, a propaganda, o anti-intelectualismo, a irrealidade, a vitimização, entre outros. Desenvolvendo cada um dos temas, o leitor vai percebendo a forma velada escolhida por quem defende estas políticas para com elas ir ocupando um lugar cada vez maior, cada vez mais destacado na sociedade. Por exemplo, torna-se claro o modo como através do discurso que louva um passado mítico (que na maior parte das vezes nem sequer aconteceu), se consegue chegar a uma marginalização das minorias. Como se no passado um determinado povo ou nação tivesse sido brilhante porque era genuíno, e agora estivesse em decadência por ter sido maculado com a chegada daqueles que, alegadamente, trouxeram todos os males do mundo na bagagem. Se para quem me está a ler isto parece ridículo, lembrem-se do «Make America Great Again», que remetia para uma época que nunca percebemos bem qual foi (o tal passado mítico), e a questão do muro na fronteira com o México e das políticas de imigração.
O anti-intelectualismo é outra das características das políticas fascistas. Calar as universidades, os cientistas e os meios de comunicação social é urgente para quem quer governar sozinho, sem ouvir ninguém. Para isso recorre-se muitas vezes a uma espécie de psicologia invertida. Algo como: não queremos ouvir as universidades porque elas são de esquerda e só veiculam aquilo que os outros querem ouvir. Isso limita a nossa liberdade de expressão porque as nossas ideias não são divulgadas e portanto somos censurados. Assim sendo, fechamos a porta à ciência. E já agora aos media que não têm um tom laudatório para connosco porque isso certamente significa que são pelos outros. Isto não vos lembra nada? Bastante atual, não?
E com frases curtas, com ideias básicas para serem entendidas pelo mais jumento dos destinatários (é mais ou menos o que Hitler diz no Mein Kampf), lá se vão minando as cabeças alheias, enchendo-as de ideias ridículas contra minorias, contra direitos que nunca se deviam pôr em causa, contra avanços científicos importantes. E assim se controlam pessoas. Com certeza todos vocês conhecem alguém que, nas redes sociais, papagueia ideias de base fascista, achando-se inclusivamente mais inteligente do que os outros por ver o que eles não veem (geralmente usam palavras como «desgoverno» e «jornalixo», duas idiotices que me causam urticária). É o pão nosso de cada dia. E em plena pandemia isso multiplicou-se ad nauseam.
Por isso, meus caros, ler sobre o fascismo não é regressar às aulas de História do secundário. É perceber os meios que alguns usam para se imiscuir na nossa democracia, por um lado, e nos regimes políticos de muitos outros países por outro. Negar o Holocausto, negar factos históricos que embaraçam a história de um país, lançar a dúvida sobre uma minoria com base em casos isolados ou mesmo em... nada... Tudo isto acontece e o saber ainda é uma das melhores formas de enfrentar estes perigos. Não é à toa que quem defende tais políticas não deseja gente informada e instruída. Pelo contrário... Assim, só posso sugerir-vos este livro. Não é uma leitura pesada, é tudo muito acessível e com exemplos de políticas que vigoram ou vigoraram um pouco por todo o mundo ao longo do tempo. É bastante interessante e, assim sendo, a menina sugere mesmo mesmo isto. Boas leituras!
segunda-feira, 12 de abril de 2021
É começar a fazer a lista!
terça-feira, 6 de abril de 2021
Arbitrariedades e pãezinhos
segunda-feira, 5 de abril de 2021
Os Despojos do Dia - o balanço
Ontem fechei este livro e pensei que já não lia um livro tão bom há algum tempo. A seguir, fui à Wook encomendar outro do mesmo autor porque queria continuar. É tão bom encontrar livros assim, que nos abanam, nos deixam a ansiar por mais. E este, na sua simplicidade, é de uma beleza comovente. Além de que levanta algumas questões que sem dúvida ficam a flutuar dentro de nós. É isso o que se quer: livros que nos acrescentem alguma coisa, que nos façam pensar em coisas que até podem parecer óbvias, mas com as quais tendemos a não perder muito tempo.
O protagonista deste livro é Mr. Stevens, um mordomo britânico que trabalhou durante muitos anos para um aristocrata inglês, dono de uma daquelas propriedades enormes, onde decorrem festas e outros encontros entre gente importante. Porém, tudo o que sabemos sobre os tempos de «Sua Senhoria» chega-nos através de reminiscências de Mr. Stevens, o fiel mordomo. Na realidade, o presente da narrativa é um tempo posterior ao da morte deste aristocrata, e o mordomo, embora mantendo o seu trabalho na mesma casa, tem agora um novo patrão a quem servir: um americano de gestos e carácter bem diferentes. Depois de duas guerras mundiais, a realidade é outra e o tempo das casas e das famílias ao estilo de Downton Abbey passou. Mr. Stevens reconhece agora no seu trabalho erros impensáveis nos tempos áureos do serviço prestado a «Sua Senhoria». Mas as exigências são outras e é com saudade que recorda o espírito de missão com que enfrentou cada um dos dias enquanto mordomo de uma casa tão distinta como Darlington Hall.
O novo patrão vai ausentar-se e propõe a Mr. Stevens que goze uns dias de férias. Para isso até lhe disponibiliza o seu Ford e compromete-se a custear os gastos com combustível. A princípio, Mr. Stevens não vê qualquer necessidade de abandonar a casa que é, no fundo, a sua vida, no entanto, a bem do futuro do serviço, resolve aceitar a proposta: usará a viagem para visitar uma antiga governanta de Darlington Hall que, ao que parece, se separou e deseja voltar a trabalhar na propriedade. Ainda que as receções sejam hoje poucas e a equipa de serviçais seja muito menor do que nos tempos de glória, talvez os erros de Mr. Stevens deixem de acontecer se conseguir aquela ajuda extra, que ainda por cima ele conhece tão bem. E assim parte em viagem pelas aldeias e vilas britânicas, vendo paisagens que nunca viu, conhecendo pessoas tão diferentes de si próprio, e aproveitando o tempo para refletir sobre o que foi a vida em Darlington Hall antes de «Sua Senhoria» cair em desgraça.
Se viram Downton Abbey, recordar-se-ão de Mr. Carson, o mordomo que nunca saía desse papel, que era o exemplo acabado da lealdade, que dedicava cada segundo da sua vida ao serviço da casa para que os seus senhores e a propriedade brilhassem e mantivessem a melhor reputação possível. Pois bem, Mr. Stevens é um desses mordomos à antiga, mas durante esta viagem, devido ao tempo que passará sozinho e afastado dos seus afazeres habituais, vai pensar e vai dar a conhecer as suas memórias e o modo como foi entendendo certos acontecimentos vividos em Darlington Hall. Aquilo a que o leitor assiste então é de uma profunda tristeza: a inocência deste homem e a sua devoção ao trabalho impediram-no de ler a real gravidade do que se passava à sua volta. A lealdade a uma pessoa impediu-o de compreender o enorme erro que «Sua Senhoria» estava a cometer. E pior: a devoção cega à profissão impediu-o de viver a sua própria vida, de cometer os próprios erros, de amar quando teve a oportunidade, de se despedir do pai quando o momento chegou... Mr. Stevens era o homem que estava sempre lá, que via e ouvia tudo - das reuniões entre figuras políticas importantes até aos desabafos do patrão -, mas que não entendeu nada. E, claro, quando lhe chega um lampejo do que perdeu, tem um momento de fraqueza. Porém, a dignidade que se exige a um bom mordomo não deixa que dure muito. Rapidamente reúne os cacos e torna a pensar em como poderá melhorar enquanto mordomo de um cavalheiro americano com usos, costumes e gracejos diferentes daquilo a que estava habituado.
O livro é fenomenal. A escrita é belíssima e o jogo entre o que o narrador inocentemente conta e o que o leitor interpreta, à luz de conhecimentos históricos que tem, mas também enquanto ser humano capaz de perceber o desajuste em muitas das atitudes deste mordomo, é feito de forma magistral. Estou ansiosa por ler outros livros de Kazuo Ishiguro, Nobel de Literatura de 2017. Para já vem a caminho Um Artista do Mundo Flutuante, mas não vou descansar enquanto não os tiver a todos. Leiam este livro. Vão gostar muito.
sexta-feira, 2 de abril de 2021
Para o que estávamos guardados VI
Um diálogo provável nos dias que correm*:
- Ena pá, fim de semana prolongado. Vai saber tão bem!
- Também acho. Já estava a fazer falta. O que vais fazer?
- Hum... Acho que vou passar os três dias no sofá. E tu?
- Ah, eu também. Quer dizer, tenho de limpar a casa, mas estarei maioritariamente no sofá.
- Pois, claro. Limpar a casa e lavar a roupa. Mas depois sofá, sem dúvida.
- Siiiiim, ver séries no sofá...
- Sim! E ler! Ah, e tenho uma esfregona nova! Da Vileda, com aqueles baldes todos XPTO que escorrem automaticamente. Vou estreá-la durante o fim de semana.
- ...
- Pois...
* Baseado numa conversa real. Para que conste, amanhã experimento a esfregona nova.
terça-feira, 30 de março de 2021
O Círculo - o balanço
Imaginem o seguinte cenário: uma empresa tecnológica, fundadora de uma rede social que procura constantemente novas formas de se atualizar e de se fazer presente na vida dos seus seguidores; com um campus maravilhoso que de tal forma oferece tudo aos seus funcionários que, em bom rigor, eles nunca precisam de sair de lá para suprir qualquer necessidade; uma empresa que incentiva práticas continuadas de socialização e de transparência entre as pessoas; uma empresa que quer opiniões, que deseja ver as opiniões a circular e a influenciarem outros; que procura a partilha constante de informação e as interações entre usuários das ferramentas por ela disponibilizadas.
Imaginaram esse lugar onde tudo é novo e bonito? Onde se pode fazer carreira com um monitor em cada pulso e uma câmara ao pescoço. Onde os segredos não têm lugar porque vão contra a transparência que aquela rede social e seus satélites promovem. Onde a privacidade é tida como egoísmo, pois a informação deve correr livremente a fim de chegar aos curiosos e aos que não a teriam de outra forma. Um mundo que vos tira a possibilidade de sussurrar, de passear sem que tenham de partilhar a paisagem que veem, que para seguir os vossos passos enquanto influencers, limita fortemente a liberdade e a privacidade de todos os que convosco interagem, desejem eles a exposição ou não. Imaginem uma vida cheia de monitores, imaginem-se a ter de registar cada passo que dão, a não poderem ir dar um passeio para espairecer sem terem de partilhar com outros o que viram, cheiraram, ouviram, porque não o fazer seria errado, seria privar outros das sensações que nós tivemos e, portanto, seria egoísta.
Se conseguiram imaginar tudo isto, ficaram com uma pálida ideia do que é descrito neste romance. E se sentiram a mínima vontade de viver numa realidade assim, devem mesmo dedicar algum tempo às suas páginas. Se depois disso mantiverem esse desejo, sugiro-vos a lobotomia e a oferta do cérebro à ciência para estudos.
Não vou alongar-me muito sobre o livro porque, como já perceberam, sou dada a escrever em demasia e depois acabo por afugentar os leitores. Vou apenas dizer-vos que este livro vale pela realidade extrema que apresenta. Uma realidade em que, de repente, passa a parecer normal que o direito de voto fique vinculado à presença numa determinada rede social e em que uma câmara ao pescoço durante todo o dia faz sentido porque «as pessoas têm o direito de saber». E em que um chip no corpo faz todo o sentido se isso ajudar a diminuir a criminalidade, ainda que a contrapartida seja a perda total do que conhecemos como vida privada.
É importante ter consciência de que as personagens não estão ali para criarmos laços com elas. Na verdade, a protagonista é até bastante ranhosa e não era alguém que eu gostasse de conhecer. Mas é a realidade tentacular de uma empresa tecnológica que oferece tudo, TUDO, o que os jovens funcionários podem desejar... a troco da sua disponibilidade constante, partilha de dados constante e lealdade constante a um projeto que leva o orweliano Big Brother a extremos nunca vistos aquilo que realmente interessa.
Houve momentos em que achei algumas ideias e discursos meio descabidos ou fora de tom. Não pareciam fazer muito sentido em personagens com aquelas idades. Mas, superando isso e atentando simplesmente na escalada de voyerismo e de diluição das fronteiras pessoais, o livro lê-se bastante bem e coloca algumas questões interessantes, sobretudo para quem utiliza muito as redes sociais. Nos dias que correm, vale a pena pensar na exposição que queremos fazer da nossa vida e no que podemos ou não fazer para nos protegermos destas realidades virtuais que dizem ter nascido para fazer maravilhas por nós, mas que nos lembram de vez em quando que não há almoços grátis e que para tudo há um preço.
Uma leitura interessante para o fim de semana prolongado que se aproxima.
PS.: Não ganho nada com as sugestões que aqui faço, por isso o que vos digo sobre os livros é aquilo que verdadeiramente penso sobre eles. Sempre foi assim, sempre será assim. Boas leituras.
segunda-feira, 29 de março de 2021
Escondam as carteiras...
...pois a Wook está a fazer aquela promoção em que devolve cem por cento do que gastarmos. Mas leiam bem as letras pequenas, pois há algumas regras para a utilização do saldo acumulado com esta campanha.
sábado, 27 de março de 2021
Ler nem sempre significa compreender
No passado dia 22 de março, o jornal El País publicou um artigo sobre os maus resultados das crianças espanholas no que à compreensão da leitura diz respeito. Ou seja: concluiu-se que os miúdos até leem, mas não compreendem o que leem. Este não é um problema exclusivamente espanhol, como bem sabemos. Por cá passa-se o mesmo e, se nada se fizer para inverter a situação, as consequências serão dramáticas. É que se para muitos os livros são coisa de outros tempos com a qual não vale a pena «perder» tempo, a necessidade da leitura e da compreensão do que se lê fará parte da vida futura dos miúdos que hoje leem um texto e não o compreendem. Pensem na quantidade de vezes em que ler e perceber o conteúdo lido foi fundamental para resolverem um problema. Desde o mais simples manual de instruções, passando pelas linhas de um contrato que temos de assinar (de preferência entendendo bem onde estamos a deixar a nossa assinatura), a leitura faz parte da nossa vida. E podem vir os computadores que vierem, as inovações de que ainda se vão lembrar para encher a nossa vida: da necessidade de ler e de compreender o que se lê ninguém se livra. Se puxei a importância da leitura para aspetos tão prosaicos quanto os das burocracias que, infelizmente, marcam a idade adulta, foi apenas porque, como disse, muitos imaginam que contornarão as dificuldades afastando simplesmente da sua existência o objeto de leitura por excelência: o livro. Podem fazê-lo, ainda que percam um mundo imenso que, cliché ou não, os empobrecerá muito. Contudo, as letras a exigirem ser compreendidas vão esconder-se e aparecer quando mais for preciso ter estaleca para se perceber o que nos querem dizer.
Como devem lembrar-se os mais antigos seguidores deste blogue, antes de decidir pôr um ponto final na minha carreira docente e enveredar por outros caminhos, fui professora de Português. Saí do ensino com a certeza de que o maior problema que as crianças e jovens portugueses enfrentam é o da dificuldade na compreensão e interpretação textual. E desengane-se quem, ingenuamente, acredita que isso só interfere na disciplina de Português. Esse é um problema transversal a toda a escolaridade. Quantos alunos não conseguem responder com correção a uma pergunta num teste de História, por exemplo, porque não compreenderam o que leram num documento ou, mais flagrante ainda, no enunciado da própria pergunta? Até em Matemática: quantos falham na tarefa proposta porque não perceberam o que era para fazer? Mesmo assim, mesmo sendo do conhecimento geral a existência desta dificuldade, a compreensão textual só está verdadeiramente presente nas aulas de Português. Nas outras disciplinas não existe ou é residual.
Perguntamo-nos há muito tempo por que motivo estão os alunos sem conseguir desenvolver esta competência tão fundamental ao longo da escolaridade, mas também fora dela. Levantam-se muitas hipóteses, e também um dos professores citados no artigo do El País avançou a sua teoria:
«El profesor de Lengua y Literatura de Secundaria y Bachillerato Juan Santiago Mellado nos habla claro: “Los niños y los adolescentes tienen tan mala comprensión lectora porque cada vez nos resulta más innecesaria en nuestra vida cotidiana. En realidad nos basta con dejar en visto libros, artículos, mensajes de texto o hilos de Twitter, para pasar a otra cosa. Pararse a comprender un texto es un ejercicio de estilo muy siglo XX, como escuchar un disco completo o ir al cine. Experiencias ya para académicos o snobs. Hoy en día nos han convertido en unos yonquis del impacto. No es raro que vaya consolidándose una neolengua plagada de oxímoron: hechos alternativos, posverdad, fake news, feminismo liberal, crecimiento negativo, inmigración ilegal”.» Ou seja: a leitura, a compreensão da leitura são tidas como peças empoeiradas num museu que não interessa visitar. Porém, outro professor citado no artigo diz-nos que «“El tiempo libre de los más jóvenes es muy limitado entre las clases de chino, los entrenamientos, ir a pintura o piano, pero entre todas esas actividades la lectura debe estar presente. La lectura debe estar presente en nuestras casas como un hábito recurrente, al igual que comer frutas y verdura, estar en contacto con la naturaleza o visitar a la familia y amigos”, concluye el profesor José Luis Merino.». Também isto é verdade: as crianças e jovens têm centenas de atividade que os chamam. Atividades atrativas, que implicam movimento e grande dispêndio de energia. Onde ficam os livros e a leitura numa competição com todas as solicitações que são feitas a estes miúdos ao longo do dia? E mesmo que até sejam jovens motivados e com gosto pela leitura, que tempo lhe poderão dedicar se todo o seu horário está preenchido (muitas vezes até mais do que o nosso, adultos que trabalhamos)?
A realidade que tomou conta dos nossos dias no último ano pode até ter dado mais tempo às crianças para a leitura e para o desenvolvimento da compreensão da leitura. Porém, os dois anos letivos atribulados que lhes calhou viver também as prejudicaram no desenvolvimento dessas atividades a nível escolar. Ao mesmo tempo, as crianças que estiveram com aulas em casa enquanto os pais «teletrabalhavam» estiveram a navegar à vista, muitas delas por conta própria porque os pais ou não podiam ou não conseguiam ajudá-las. E assim, quando os horários se esvaziaram de atividades extracurriculares e a leitura podia ter ocupado algum tempo, o meio envolvente não o permitiu verdadeiramente. Sobretudo não o permitiu a todos. Como disse o professor José Luis Merino, a leitura devia ser um hábito recorrente nos nossos lares, tão importante como outros que vemos como imprescindíveis. Não somos tão inocentes que não saibamos que muitos, mesmo muitos adultos não leem, não compram livros e, como tal, não podem ou não conseguem depois pôr os filhos a ler. Muita da aprendizagem que fazemos ocorre por exemplo. No caso da leitura (e sobretudo quando tantos ecrãs lutam pela nossa atenção), esses modelos são fundamentais. Quando não existem, o trabalho necessário para a criação de leitores e, principalmente, de leitores capazes de compreender o que leem, aumenta bastante.
Deixei o ensino, mas não deixei de ser professora e este tema preocupa-me. É muito difícil fazer nascer um leitor e sobretudo é muito difícil fazer nascer um bom leitor. Exige tempo que muitas vezes os programas escolares não permitem que exista; exige trabalho continuado e empenho dos docentes, dos alunos e dos pais. Encontrar uma sintonia entre estas três partes é mais difícil do que possa parecer. Motivar para a leitura é fundamental, não é um luxo. Infelizmente, muitas vezes a leitura transforma-se apenas em mais um trabalho escolar, o que lhe tira toda a graça e mata qualquer vontade que possa existir. Sem leitura não se desenvolve a compreensão do conteúdo lido, não se formam leitores funcionais. O problema é grave, é enorme e aumenta a cada dia que passa. Não é um problema exclusivamente espanhol: é de todos, e urge resolvê-lo. Não o fazer terá consequências gravíssimas para todos.