terça-feira, 13 de março de 2012

De ovelhas e de audiências

Mas quantas mais vezes vão os canais de televisão ocupar parte do telejornal a carpir a mudança no sistema de medição de audiências? Desde há umas duas semanas que não há dia nenhum em que não veja o José Rodrigues dos Santos apresentar um novo problema relacionado com o novo método e a empresa que o utiliza.

Eu percebo que isto das audiências incomode muito os canais. Precisam da publicidade para se aguentarem e se as audiências não forem famosas, os anunciantes piram-se para onde elas sejam apetitosas e garantam muita gente de olhinhos postos nos anúncios. Mas santa paciência: todos os dias? Resolvam lá as vossas quezílias ou então substituam os telejornais por episódios da «Ovelha Choné»: aposto que as audiências aumentam.


Amados e leais

NUM EXEMPLAR DAS GEÓRGICAS

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

                               Eugénio de Andrade


in Andrade, Eugénio (2005). Antologia Breve. Porto: Fundação Eugénio de Andrade.

O «Pai Nosso»

Hoje soube que um aluno meu, dos mais pequenitos, desesperado por não conseguir fazer nada no teste de História, resolveu virar o enunciado ao contrário e escrever um «Pai Nosso» no verso da folha. A professora, ao ver aquilo, disse-lhe para se deixar de orações e para começar a fazer o teste.

Enfim, a fé do desgraçado foi abalada: teve negativa.

Haja paciência

Há uns tempos falei de vizinhos e do quanto podiam incomodar com as suas manias esquisitas e a sua costumeira falta de cuidado com o bem-estar dos outros. Bem, mal podia adivinhar que ainda aí viria coisa pior... Ora se antes acordava com alguém que saía muito cedo e que galopava escada abaixo, agora acordo (como hoje) com gente que tem ânimo para discutir aos gritos às seis da manhã, E, aparentemente, não adianta nada dizer aos senhores que se ouve tudo porque eles acham inevitável discutir. Agora, o que raio tem mesmo de ser discutido a essa madrugadora hora é já coisa que me ultrapassa. Mas poderia não ser razão desconhecida: bastava eu tirar a almofada que tinha a tapar os ouvidos e creio que perceberia o motivo para tanto berro matinal.

Sinceramente, não sei onde nos vai levar este desrespeito pelos outros. Moramos todos em sociedade, mas parece que este mundo é mais de um do que de outros. Cada vez que chega um vizinho novo até já temos medo da monomania que de lá vem. Aqui por casa já chegamos a imaginar que existe um casting antes da mudança que faz com que só venham para cá pessoas apoucadas (que me perdoem os vizinhos simpáticos e nada incomodativos que ainda vão ficando por cá). Enfim, hoje vou trabalhar com olheiras. Haja paciência.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Brinquedos

Estava há pouco a ler a crónica do João Miguel Tavares na revista do Correio da Manhã e não consegui evitar vir aqui aplaudir o que por lá diz. No seu espaço, intitulado «Os homens precisam de mimo», falou do seu reencontro com caixas que continham os seus brinquedos de infância e do seu espanto por verificar o desgaste que aqueles objectos tinham, não por serem velhos e estarem guardados há bastante tempo, mas pelo muito uso que lhes deu. Diz ele que «Aquele era um tempo em que as coisas que se partiam ainda eram coladas; em que se voltava a agrafar cuidadosamente uma capa que desabara; em que o conceito de reciclagem era inexistente porque as coisas simplesmente não se deitavam fora. Não quero parecer velhinho (embora vá parecer velhinho), mas tenho pena de não ver nos meus filhos a mesma dedicação aos seus livros e brinquedos.»

Compreendo perfeitamente o que ele diz, embora não tenha filhos. Lembro-me de tratar os meus brinquedos como se fossem preciosidades e é muito por causa desse cuidado que hoje ainda guardo  várias coisas com que passei horas a brincar quando era mais pequena. Livros, jogos, peluches, Legos: guardo com muita estima aqueles pedaços da minha infância de que nunca me quererei desfazer. E vejo com pena, tal como o autor da crónica, a falta de cuidado e mesmo de amor da maioria dos miúdos de agora para com os seus brinquedos. Na altura, partir qualquer coisa era desolador, mas buscava-se uma solução. Quantas vezes se procurou cá em casa a solução para um brinquedo a precisar de ajuda! E hoje? Hoje a norma é deitar fora porque as coisas valem pouco e, mesmo quando foram bastante caras, não têm o valor sentimental que tinham antes. Aqueles brinquedos eram o nosso mundinho, eram nossos, nossos, nossos. Muitas vezes nem sequer eram muitos e, como tal, as razões para os estimarmos aumentavam.

Hoje parece-me tudo mais descartável. Vejo pelos meus alunos que atrás daquilo que têm virá sempre mais e, portanto, o apego é menor e o cuidado também. Lembro-me de um aluno pequenito, no ano passado, que se apaixonou por uma metralha com tripé que era caríssima. Não descansou enquanto a mãe não lha comprou. Na semana seguinte estava desiludidíssimo porque aquilo não fazia barulho como ele queria. Então convenceu a mãe a comprar-lhe uma outra pistola que vira à venda e que seria «melhor». Às compras com eles ia a irmã mais nova que tinha, aos cinco anos, uma colecção de bonecas que devia ser maior do que as das seguidoras deste blogue todas juntas. E, portanto, a cada nova ida à loja, vinha de lá mais uma boneca que a miúda, nas palavras do próprio irmão, ignorava desde o momento em que abria a caixa.

Contudo, discordo do João Miguel Tavares no que ele diz sobre a sensação de posse: «Há um lado bom nisso: ao serem mais desligados, eles não são tão possessivos como eu era. Naquele tempo, emprestar um livro era para mim um sofrimento tremendo, porque tinha uma ligação quase fetichista às minhas coisas. Mas na cultura do "partiu-se vai para o lixo" perde-se a erosão dos objectos amados.». Não creio que hoje os miúdos sejam menos possessivos do que aquilo que nós éramos: acho que são iguais ou piores. Acho que o sentimento de posse é próprio da infância e não me parece mesmo que fosse um exclusivo nosso (colheita dos anos 80). Pela minha parte posso garantir que era, sou e serei possessivíssima (palavra que nem sei se existe) com as minhas coisas, desde as mais baratuchas até às mais caras e que ia e vou à loucura quando estragam alguma coisa minha. Santa paciência, houve coisas que o tempo não curou e esta foi uma delas. A meu ver, respeitarem as minhas coisas é quase como respeitarem-me a mim: quem mas destrói falta-me ao respeito. Viro um bicho!

Enfim, e voltando à crónica, parece-me que hoje é tudo demasiado descartável e que é bem possível que muitos miúdos que hoje têm um enorme número de brinquedos se arrisquem a, daqui a umas dezenas de anos, resgatar de casa dos pais vários caixotes com coisas partidas e irreconhecíveis. Mas também, e vendo tudo por outra perspectiva, talvez  isso também seja sinal de que se divertiram muito. Não é, com certeza, aos trinta anos que criamos memórias a partir dos nossos brinquedos...


Coisas que odeio XIV

E os nervos que dá ouvir-se uma música na rádio, gostar-se dela e não sabermos de quem é e o título que tem? Ando aqui feita tonta a esmiuçar os tops das rádios para ver se descubro o nome de uma canção que ouvi ontem e não vejo jeitos. Odeio isto!

domingo, 11 de março de 2012

Rica vida

Refastelada no sofá com uma bela fatia de bolo, um chá e um camadão de sono. Pelo menos no final do fim-de-semana posso dizer «rica vida»! Pena que amanhã já seja Segunda-Feira...

Fazer o mínimo

Tendo acabado agora de classificar os testes intermédios do 12.º ano, sinto uma vontade enorme de tomar comprimidos que me ponham a dormir durante duas semanas e que me façam, depois, acordar esquecidinha de todo da enorme javardice que acabei de ver.

Não é que os disparates sejam novidade: infelizmente já vi muitos e alguns até já me proporcionaram gargalhadas (nunca me esqueci da menina que, no ano passado, a propósito do «Sermão de Santo António aos Peixes» utilizou o termo "falatória" no lugar de "oratória"...), mas o que vi nestes testes deixou-me mesmo irritada. Entendo que nem sempre os alunos percebem o texto ou que nem sempre percebem as perguntas ou, até, que nem sempre se sintem inspirados a escrever textos fabulosos. Às vezes a coisa sai mais ao lado e isso até a mim me pode acontecer. O que me fascina é que naquilo que podemos dominar, nas áreas em que é impossível perder pontos, aquela gente consiga deixá-los escapar à grande e à francesa. Dou exemplos: estão rotos de saber que não marcar adequadamente os parágrafos (coisa que se aprende na escola primária) rouba pontos. Mas escrever um pouco mais para a direita da margem não é fixe, por isso parágrafos são coisa que não existe em boa parte dos testes. Estou cansada de avisar sobre isto. Ouvem-me? Claro que não. Outro exemplo: ganhei rugas de tanto que repeti que os nomes das orações eram para estar sabidos de uma ponta ou outra. Uma oração subordinada substantiva completiva é isso e não apenas «completiva». Acham que fui ouvida? Em alguns casos não. Mais um: estou azul-estrumpfe de avisar que os limites mínimo e máximo dos textos que o enunciado pede são para ser cumpridos. Se o teste pede que escrevam um texto com, no mínimo, duzentas e, no máximo, trezentas palavras, santa paciência, é para cumprir. O que me aconteceu foram textos muito promissores, mas que obtiveram uma pontuação paupérrima em boa parte pelo desconto de pontos referente ao desrespeito pelos limites impostos (geralmente por escreverem menos do que é suposto, raramente pelo contrário).

Mais: os alunos poupam a tinta das canetas como se amanhã fosse iniciar-se uma nova guerra mundial (cruzes canhoto!) e as esferográficas viessem a tornar-se preciosidades a estimar. As respostas são curtíssimas e, muitas vezes, desrespeitam o enunciado. Por exemplo: pede-se-lhes que relacionem dois versos de um poema, que encontrem aquilo que entre eles há em comum e o que é que eles fazem? Limitam-se a falar, numa singela linha, de um dos versos. O outro é ignorado e pronto.

Já discuti isto com outros professores e a conclusão a que todos chegamos é a de que os alunos acham que fazendo o mínimo chegam lá. Em vez de escreverem as duzentas palavras escrevem cem e quem corrige que as aproveite bem. Em vez de explicarem por palavras suas o sentido de um determinado verso, limitam-se a transcrever duas ou três palavras soltas ligadas por uns disparates quaisquer e esperam que o corrector largue ali a devida pontuação (de preferência positiva) por um esforço supostamente enorme. Errado: quem corrige acaba a dar zeros atrás de zeros porque nada do que se pede vai sendo respeitado. Nem limites nem regras de ortografia, nem coisas são simples como a marcação de parágrafos. Fazer o mínimo é, muitas vezes, o mesmo que não fazer nada, mas aos alunos custa perceber isso. É por isso que as negativas aparecem em grande quantidade, deixando-os abismados porque pensavam que o que tinham feito «chegava para passar». Não fazem o que se lhes pede: fazem o que acham que chega. Pela minha parte, que ando nesta cruzada com estes meninos desde Setembro, já se me vai cansando a voz. É que lembrar gente à beira do ensino superior de que é preciso assinalar os parágrafos é vergonhoso e, parece-me, já não me devia estar a acontecer. Com este cansaço que surge quando ninguém nos ouve lembrei-me muito do nosso Camões que, quase no final d'Os Lusíadas, diz:

«No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.»
                                 (Canto X, est. 145, vv. 1-4)

Como eu o compreendo...

sábado, 10 de março de 2012

Um novo motivo para rir

Minha gente, tenho de partilhar isto convosco: a minha vida é hoje muito mais feliz do que era há duas semanas! Aliás, posso até dizer que me rio muito mais do que há um mês! Não ganhei o Euromilhões, não fui regalada com um par de sapatos novos, nem com um caixote do tamanho de uma piscina olímpica cheio de clássicos da literatura universal (embora mantenha a esperança de que tal ainda venha a acontecer).

Não: o motivo da minha súbita boa disposição é tão simples e tão parvo quanto o pode ser o pássaro de estimação do vizinho da frente. Sim, leram bem: o que me anda a deixar tolinha e com dores nos cantos da boca de tanto sorrir é muito simplesmente o rosicoli dos vizinhos que moram do outro lado da estrada. Desde que estes se mudaram que vejo umas gaiolas junto da janela, mas nunca lhes tinha prestado grande atenção. Isto até ao dia em que perdi por lá o olhar durante mais uns instantes do que o normal e me apercebi de que o rosicoli vivia quase permanentemente em cima da gaiola e não dentro dela. Ou seja: o bichinho anda por ali, tem a comida e a água fora da gaiola e passa o dia a cirandar por cima dela, junto ao vidro da janela, a ver a rua e os carros que passam. É a coisa mais fofa deste mundo. Posso até dizer-vos que, enquanto escrevo isto, ele está refasteladíssimo por cima da sua suposta casa a dar umas valentes bicadas num paninho que a dona tem sobre uma prateleira.

Ai o que eu gostava de ter um passarito assim! Ai o que eu adorava que o meu Tubo José e os seus colegas fossem assim comportados e passassem o dia do lado de fora da gaiola sem o perigo de os ver voar em direcção ao sol. Mas vá, não me posso queixar muito já que tenho um periquito apaixonado pela variante da canção do anúncio do café Mukambo que criei só para ele. Aposto que não há mais nenhum assim no mundo...

Notita com penas: Qualquer dia o vizinho acusa-me de voyeurismo e tudo por causa de um rosicoli muito educado...

Hoje é Sábado!

O Universo odeia-me: é oficial! Um breve passeio pela blogosfera mostra-me que o pessoal começa os Sábados com pequenos-almoços de sonho (o meu foi um singelo iogurte grego), a planear passeios e actividades fantásticas (já eu passarei boa parte do dia a corrigir testes, preparar aulas e inventar enunciados para as avaliações finais do período). Ah, mas antes disso, importa mudar os lençóis da cama, dar uma banhoca às gaiolas dos periquitos e fazer algumas limpezas bastante aborrecidas.

Portanto, minha gente, eu gostava muito de vir aqui deixar-vos o meu júbilo pela chegada de Sábado, pelas muitas horas de um sol radioso que estão mesmo aí, mas não me parece. Aliás, cheira-me que enquanto não chegarem as férias de Verão, não saberei o que são dias de passeios maravilhosos sob um espampanante céu azul.

Bom Sábado, minha gente!


sexta-feira, 9 de março de 2012

Os livros na moda...

Ontem vi num dos noticiários as imagens de um dos primeiros desfiles deste ano da Moda Lisboa e não pude evitar um sorriso ao constatar que o pano de fundo eram estantes cheias de livros aparentemente bastante antigos. Ou seja: o início da passarela era junto a prateleiras carregadinhas de volumes castanhos que pareciam antiquíssimos e, portanto, tornava-se difícil o olhar não fugir para lá.

Sorri porque interpretei esse facto não como uma consequência inevitável pela escolha do local onde se realiza o evento (hoje em dia consegue-se tudo e tapar estantes, ainda que altas, não custa nada), mas sim como o encarar daqueles volumes como constituindo um cenário interessante para um desfile de roupa. Portanto, de alguma forma, os livros antigos e as suas prateleiras enriquecem o desfile e formam uma imagem interessante num espectáculo que tem como cerne as roupas e os cabidezinhos com pernas que as envergam.

É irónico que um desfile de moda utilize como cenário um dos objectos que menos estão na moda. Falo de cor, mas era capaz de apostar que boa parte das pessoas que assistiram ao espectáculo não devem abrir um livro há uns valentes anos. E digo-o não porque tenha alguma coisa contra os apaixonados pela moda, mas tão somente porque os hábitos de leitura neste país andam pelas ruas da amargura, havendo por isso boas probabilidades de, naquele mesmo sítio, encontrarmos muita gente que foge da leitura como eu fujo do peixe cozido com grelos.

Mas, enfim, como nisto da moda, basta um para os rebanhos seguirem atrás, pode ser que algum dos muitos gurus que hoje apregoam o que está in e o que está out se lembre de indicar os livros como um dos acessórios obrigatórios para o próximo Outono/Inverno. Tenho a certeza de que aí o número de pessoas com um livro debaixo do braço aumentaria exponencialmente...

Adenda venenosa da autora: Duvido é que o livro alguma vez abandonasse o sovaco, onde cumpriria honrosamente o seu papel enquanto acessório de moda, para chegar, sequer, a ser aberto (quanto mais lido)...

A Menina Sugere Isto III

Hoje a menina sugere um livro que parte de uma coisa tão banal quanto um nariz para criar uma história que é, também, uma reflexão sobre o modo como nos vemos e como nos vêem. Um, Ninguém e Cem Mil, de Luigi Pirandello, foi um livro que me arrancou umas valentes gargalhadas e que conseguiu deixar-me a pensar sobre algumas questões interessantes que, uma vez por outra, acabam por assomar à nossa cabeça.

A personagem principal chama-se Vitangelo Moscarda (mas a mulher chama-o carinhosamente de "Gengè") e tem vinte e oito anos quando descobre, com a ajuda da esposa, que o seu nariz está ligeiramente torto, pendendo para o lado direito. Uma descoberta rotineira, pensará o leitor que a dada altura da sua vida terá também, com certeza, constatado alguma assimetria no próprio corpo. Contudo, Gengè não consegue ver a realidade com esta ligeireza e o facto de ter o nariz meio torto leva-o a um tal estado de obsessão que os seus comportamentos se tornam estranhos. Aliás, a partir daquele momento em que, olhando o espelho, percebe que o nariz pende um pouco para o lado direito, entra num caminho que não o levará a bom porto (pensa o leitor, que eu não vou contar como acaba). Aos poucos dedicar-se-á a uma reflexão que acompanha a sua própria história e que tem como centro aquilo que somos para os outros. Ou seja: Gengè começa a pensar que talvez aquele seu defeito físico já tivesse sido notado pelos outros sem que ele soubesse. E daí a chegar à conclusão de que aquilo que nós achamos que somos não é o que somos na realidade nem aquilo que os outros vêem, vai um pulinho. A dada altura, e em consequência de toda esta obsessão maluca que não o deixa parar de pensar no defeito que sempre ostentou sem disso se aperceber, conclui que não somos apenas um, mas vários: seremos tantos quantas as imagens que de nós tiverem os outros e nós mesmos.

É, portanto, uma boa leitura. Diverti-me imenso a ler este livro que, com uma ironia enorme, nos deixa a pensar sobre o desconhecimento que temos daquilo que somos e das imagens que projectamos; sobre a insegurança que podemos sentir quando disso temos consciência e sobre o quanto uma obsessão tão simples pode levar-nos a um estado de consciência tal que chega a roçar o absurdo. No fundo, o perceber de um pequeno defeito expõe linhas de reflexão que a todos já nos passaram pela ideia, embora nós, ao contrário do pobre Gengè, não tenhamos perdido anos de vida a pensar nelas. Terminamos o livro com o pensamento de que nem é assim tão mau ter o nível de insconsciência que frequentemente temos sobre aquilo que projectamos para os outros, já que de contrário poderíamos ser levados a muitíssimas inseguranças, como sucede com a personagem.

Este foi o último livro publicado por Luigi Pirandello, Nobel da Literatura em 1934, e, citando o texto da contracapa da edição da Cavalo de Ferro, «é considerado pela crítica como um dos pontos mais altos de toda a sua obra, onde o autor resume e aprofunda todo o seu universo, que marcou de forma original a literatura do século XX». Deixo-vos, como de costume, os seus primeiros parágrafos para tentar aguçar-vos o apetite:

« - Que estás a fazer? - perguntou-me minha mulher, ao ver que me demorava inusitadamente diante do espelho.
  - Nada - respondi-lhe -, estou a olhar para o meu nariz, para dentro desta narina. Quando carrego sinto uma dorzinha.
Minha mulher sorriu e disse:
  - Julgava que estavas a ver para que lado te pende.
Voltei-me, como um cão a quem tivessem pisado a cauda:
  - Pende? A mim? O nariz?
E minha mulher, placidamente:
  - Claro que sim, querido. Olha bem para ele: pende-te para a direita.

Tinha vinte e oito anos e até então sempre considerara o meu nariz, se não propriamente bonito, pelo menos muito decente, tal como todas as outras partes da minha pessoa. Pelo que me fora fácil admitir e alimentar a ideia que habitualmente admitem e alimentam todos os que não tiveram a infelicidade de lhes calhar em sorte um corpo disforme: que só um tolo se envaidece das suas funções. Por isso, a descoberta súbita e inesperada daquele defeito irritou-me como um castigo imerecido.»


Pirandello, Luigi (2007). Um, Ninguém e Cem Mil. Lisboa: Cavalo de Ferro Editores.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ervas daninhas


Isto uma pessoa passa um dia sem largar uma quixotada e parece que o blogue fica cheio de ervas daninhas. Que coisa desagradável, credo!

Enfim, os dias só têm tido vinte e quatro horas (o que é uma vergonha) e, portanto, o pobre «As Minhas Quixotadas» hoje esteve sem ser afagado pela sua dona. Perdoem-me os fiéis seguidores que hoje comeram textos requentados, mas eu sou só uma e os alunos são muitos. Resultado: ganham sempre. Amanhã espero já ter mais um bocadinho de tempo para vir aqui atirar as postas de pescada do costume.

Por agora durmam bem e sonhem com palmiers cobertos!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Já cá faltava...

Frase dita por um professor sobre o alargamento da escolaridade obrigatória para os doze anos e sobre a falta de preparação das escolas para receberem mais alunos (no Magazine de Educação divulgado pela Porto Editora este mês): «O equipamento informático que existe na escola é reduzido e avaria com frequência ou não está disponível. Também para os alunos não existe material informático que permita a sua utilização mais frequente, o que torna as aulas mais livrescas, expositivas e aborrecidas.» [o sublinhado é meu]

Tradução da coisa: o que é digital é bom, os livros são aborrecidos e os alunos não gostam. Beijinhos e portem-se bem.

Adenda da autora: É em boa parte por só se apreciarem as imagens, as bonecadas e os malditos powerpoints que o ensino está a nojeira que está e que os alunos fogem dos livros como eu fujo da massada de bacalhau!

Trendy, fashion e chic

No outro dia, ao receber a encomenda da Wook, verifiquei que me ofereciam um exemplar da revista Happy, que é assim muito virada para a moda e para as coisas que supostamente enchem as cabeças dos seres do sexo feminino. Ora, agora estava aqui sem nada para fazer e resolvi folheá-la. O que fui eu fazer!?! Mais valia ter bordado um paninho para o enxoval! É que agora descobri que sou burra e extremamente desactualizada. Atrevo-me mesmo a dizer que os meus conhecimentos sobre moda ficaram algures na época da Batalha do Salado!

Estava, portanto, a folhear a revista quando me deparo com um pequeno texto sobre uma senhora chamada Alexa Chung (que não sei quem seja), acompanhado de uma foto com a vestimenta da senhora (pavorosa, parece-me, mas eu não percebo nada disto). Ora, o texto dizia o seguinte:

«Nascida a 5 de Novembro de 1983 em Inglaterra, Alexa é apresentadora de televisão, modelo, colaboradora da Vogue UK e a verdadeira it girl. O seu estilo super trendy conjuga os must have de cada estação com peças mais básicas, masculinas e vestidos românticos. Tudo isto resulta num look effortless chic. Podemos vê-la frequentemente com vestidos curtos com padrões ou apontamentos femininos, conjugados com sapatos de salto alto, e denim shorts combinados com tshirts estampadas e sabrinas. A sua imagem de marca é também o cabelo desalinhado e elegante.» [os negritos são meus]

Alguém percebeu em que língua está este texto? É que as expressões que coloquei a negrito não aparecem, na revista,  nem entre aspas, nem em itálico. Deduzo, portanto, que já façam parte da língua portuguesa, apesar de apostar que se for ao dicionário não as vou encontrar por lá. E se algumas até consigo perceber o que significam, as outras são-me completamente desconhecidas, embora eu tenha ficado com a impressão de que se espera que os leitores saibam do que se tratam todas aquelas coisas. Pois bem, eu não sei e não percebi nada e também não sei explicar se o que li estava em português ou em inglês porque me pareceu qualquer coisa híbrida meio assustadora. Resumindo e concluindo: não consegui perceber se a senhora Alexa Chung é uma esteta ou não, mas a julgar pela fotografia (que neste acaso a imagem vale mesmo mais do que mil palavras) parece-me bem que anda longe disso. Enfim, ou sou eu que sou muito ignorante ou então isto é demasiado moderno para o meu Português do século XXI e ainda sem influências do Acordo Ortográfico.

Nota: Sempre aprendi que as palavras de outra língua que incluíssemos nos nossos textos deviam surgir em itálico ou, com jeitinho, entre aspas. Terei sido só eu a ir a essa aula?...