domingo, 16 de outubro de 2016

Um verdadeiro ga(ro)to!

O Senhor Gato é uma criança. A sério: ele é como uma criança rabina que só está bem a imaginar o próximo disparate e a fazer por ver satisfeitas todas as suas vontades. E se ele tem vontades...

Na semana passada, aprendeu a abrir as gavetas de um módulo de seis que tenho junto da secretária. Assim, do nada, mais ou menos dois anos depois de arranjar o móvel, lá olhou para ele e percebeu que podia abrir as gavetas. Quando o fez a primeira vez, deu-se início a um ciclo que consistia em:

1. Gato abre gaveta e debruça-se para mexer no que está lá dentro.
2. Dona manda vir com ele, esperando não ter de levantar-se para ir lá.
3. Gato é gato e ignora a dona.
4. Dona levanta-se, tira o gato dali, fecha a gaveta e regressa ao sofá.
5. Gato afasta-se com ar de desprezo.
6. Gato regressa ao móvel, abre gaveta e debruça-se para mexer no seu conteúdo.
7. Dona manda vir com ele, esperando não ter de levantar-se para ir lá.
8. Gato afasta-se com ar de desprezo.
9. Gato regressa ao móvel, abre gaveta e debruça-se para mexer no seu conteúdo.
10. Dona manda vir com ele, esperando não ter de levantar-se para ir lá.
...

Perceberam a ideia?

Bom, este armário fica no escritório que é precisamente onde se encontra a comida do Senhor Gato e uma das divisões que estão sempre abertas para os felinos cá de casa. Na impossibilidade de tirar o móvel dali ou de fechar o escritório aos gatos, esperei que ele deixasse as gavetas em paz durante a noite. Deixou, é um facto. Até à noite passada.

Hoje, ao levantar-me, fui abrir o estore do escritório e percebi que havia uma gaveta aberta e três objectos no chão. Agora vejam a esperteza do bicho: de tudo o que ele podia ter tirado, tirou apenas três saquinhos com brinquedos para gato que estavam novos, que ainda não lhes tínhamos dado. Um dos saquinhos até foi aberto... Portanto, no fundo, ele só foi buscar o que era seu por direito. Podia era ter evitado roer o plástico das embalagens no processo, mas enfim... Agora os brinquedos por estrear mudaram de gaveta, que é por causa das coisas. Pergunto-me o que aparecerá no chão amanhã de manhã.


Nota: A imagem saiu daqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pottermore

(Agora que a constipação melhorou ninguém me cala.)

Ontem tinha um cérebro incapaz e, por isso, não consegui pegar no livro que estou a ler (sobre o qual falarei quando o terminar). Precisava de algo mais ligeiro e por isso peguei numa versão em português do Brasil dos textos publicados por J. K. Rowling na página  Pottermore. Neste site, como devem saber, a autora da saga Harry Potter conta pormenores acerca da enorme história que criou, conta-nos até aspectos muito interessantes sobre o seu processo de escrita. Por exemplo, num desses textos explica como se lembrou de fazer chegar os alunos a Hogwarts num comboio que parte da plataforma 9 e 3/4 de King’s Cross, do modo como precisou de fazer desaparecer alguns objectos da saga sob pena de eles acabarem por prejudicar a história (caso daquela ampulheta que Hermione usou em O Prisioneiro de Azkaban e que a fazia viajar até ao passado de modo a conseguir assistir a mais aulas). 

Ou seja: além dos sete livros da saga, ficou muito mais na cabeça de J. K. Rowling. Ficou tudo pensado, nada foi deixado ao acaso. Mas não coube tudo nos livros e, assim, textos breves são deixados em Pottermore e nós, os embevecidos da saga, vamos podendo viver mais um bocadinho nesse mundo de feitiçaria que decorre num meio que é tão nosso: o meio escolar. Tudo foi pensado ao pormenor e é impressionante como tudo faz sentido, como a autora foi tão racional a criar um mundo que é tão pouco real. Li quase todos os textos de um dos volumes ontem à noite e não pude deixar de pensar no quão difícil pode ser para a autora deixar de escrever sobre Harry Potter quando ela criou as personagens e um gigantesco e complexo mundo para elas. Como pode alguém desligar-se de uma obra quando tudo, mas mesmo tudo, nasceu da sua imaginação? Não sei se vos consigo explicar o que quero dizer, mas comparo-o, num nível muito menor, ao que nos acontece quando escrevemos uma tese. Durante o tempo da pesquisa, o tempo das leituras e da redacção, aquele mundo é nosso. Quando fazemos uma tese, convém sermos inovadores em alguma coisa e, portanto, aquele mundo é ainda mais nosso. Depois defendêmo-la e é difícil deixarmos de sentir aquele mundo como sendo pertença nossa. Ainda hoje, e já lá vão seis anos desde a defesa, eu sou uma leoa a defender o meu tema, o meu ponto de vista e se me falarem em clássicos da literatura eu levanto logo a orelha e tenho algo a dizer. Porquê? Porque aquele foi o mundo que eu criei, o mundo em que vivi.

Acho que alguma coisa parecida acontece com uma obra da envergadura de Harry Potter. Por muito que tenha havido quem tentasse colocar-se em bicos de pés para imitar J. K. Rowling criando histórias de pequenos bruxos e bruxas desafiados para este ou aquele conflito, aquela saga é só uma. A autora, ainda que tenha tido as suas inspirações, criou tudo desde o início: quem protagoniza a obra; qual a sua história; onde decorrerá a acção; como descobrem que são feiticeiros; como descobrem que são convocados para frequentar a escola; como fazer para que a escola não seja vulnerável a ataques e a história não perca verosimilhança; como aproximar a realidade dos pequenos feiticeiros à dos estudantes da vida real para que a história seja mais próxima dos leitores... Podia passar o resto da noite a levantar dúvidas sobre a construção do livro. Os textos do site Pottermore são, parece-me, a prova de que um autor pode bem não conseguir desligar-se definitivamente dos mundos que cria. Assim, novos textos nascem e nós vamos vivendo mais um bocadinho a história de Harry Potter. Sim, porque os fãs já se contentam em saber mais sobre os fantasmas de Hogwarts ou sobre objectos mágicos. Não podendo ter mais aventuras, qualquer migalhinha nos embevece (ainda que o último livro, o da Criança Amaldiçoada ainda não me tenha convencido e esteja ali a ganhar pó). 

Por isso, meus caros quixoteiros, se não vivem sem ‘potterices’, vão a Pottermore e aluguem mais um bocadinho de tempo naquele mundo fantástico onde há maus muito maus, mas onde tudo é possível.

O Nobel de Bob Dylan

Embora ainda esteja constipada, arrastei-me até ao computador para falar sobre o tema do momento: o Nobel da Literatura entregue a Bob Dylan.

Assisti ao anúncio do prémio em directo e quando a senhora anunciou, ainda em sueco, o vencedor e a razão da escolha, pareceu-me perceber o nome do cantor, mas como não fazia sentido, esperei pelo anúncio em inglês. Afinal tinha ouvido bem.

Depois da estranheza inicial, pensei no assunto e não é fácil falar sobre as conclusões a que cheguei porque, de facto, o tema é complexo. Muito mais do que parece inicialmente.

O primeiro disparate que ouvi foi o daqueles que diziam que o Nobel da Literatura não podia ir para um cantor. Ora, o prémio foi para as letras que escreveu e não para a sua voz ou performance em concertos. Foi a palavra escrita nas suas letras, foi a poesia que produziu e depois musicou que lhe garantiu esta distinção. Além dessa poesia, o facto de ter sido muito engajada também a destaca e isso nós sabemos que é muito importante para o Comité Nobel.

Portanto, não me choca o facto de ser um cantor a receber o prémio por poder não escrever literatura. Dizer isso é ignorância. Lembrem-se que a nossa literatura começa, precisamente, com canções medievais (a lírica galaico-portuguesa) e que esta é tão importante que voltou a fazer parte dos currículos escolares. Mas se isto não for suficiente, lembrem-se de Homero e das suas epopeias. Há lá textos mais basilares na nossa cultura e que nasceram precisamente para serem cantados? A oralidade de um texto não lhe retira qualidade, apenas lhe dá outra dimensão.

O que me preocupa são, no fundo, duas coisas: o precedente que foi aberto e o que fica de fora. Relativamente ao precedente, preocupa-me esta mudança de rumo que aconteceu agora e que já tinha sucedido em 2015 (prémio que, a meu ver, foi muito mais chocante do que este). Se até aqui todos sabíamos mais ou menos o que esperar do Comité Nobel, a partir de agora é o desconhecimento total. Pode sair dali qualquer coisa, seja ela com sentido ou não. E digo isto porque se as letras de Bob Dylan podem ser consideradas poesia e, consequentemente, literatura, dificilmente posso aceitar prosa jornalística como literatura e, portanto, merecedora do Prémio Nobel da Literatura. Mas foi isso mesmo o que venceu no ano passado. Além deste aspecto, preocupam-me todos os autores que estão na lista, alguns já muito velhinhos, com uma obra literária imensa e que merece ser premiada e que vêem agora uma mudança num jogo que parecia ter as regras traçadas há muito tempo. Posso até não dizer que Bob Dylan não escreve literatura, mas daí a trocar autores como Kundera, Rushdie, Roth ou outros por ele é coisa que não me faz sentido. Parece-me injusto para os outros. Ele pode ganhar Grammys, os outros tinham o Nobel e já nem isso é deles. Além disso, acho que é um sinal terrível que se dá: o Nobel da Literatura premeia livros. Agora vão fazer-se livros a correr com as letras das canções de Dylan. Já existia um, penso que editado pela Relógio D’Água, e o resto eram as suas canções, cujos poemas se conheciam ouvindo-se a sua música. 

A sensação que tenho é que o Comité Nobel quer ser polémico. Mas parece que só quer sê-lo com a literatura. No ano passado fez a monstruosidade de atribuir o prémio a uma jornalista que escreve não literatura. Este ano deixa uma série de autores notáveis de lado para atribuir o prémio a um cantautor. Será que se o Roth pegar numa guitarra e cantar os seus romances passa a ter direito ao Nobel? E o Rushdie, que teve uma fatwa sobre ele durante tantos anos e que durante tanto tempo e que por isso mesmo esteve tão envolvido em causas como a liberdade religiosa, merecerá o Nobel se pegar no xilofone e recitar Os Versículos Satânicos em Fá Mi Ré? Estou a ser exagerada, claro, mas é para mostrar que é normal que haja uma enormíssima sensação de injustiça por parte dos escritores. É como se o Nobel da Medicina fosse entregue a um santo pela cura milagrosa de qualquer coisa. É inesperado e parece que deixa de parte quem de facto dedicou conscientemente uma vida inteira à literatura. O Bob Dylan escreveu, é verdade, muitas canções que são composições poéticas. Cantou, gravou discos, fez concertos. Mas será que ele pensava nele próprio como um autor de literatura? 

A parte boa disto é que levou as pessoas a pensarem no que é literatura. Onde está a literatura? O que dá características literárias a um texto? É só nos livros que encontramos literatura? Está visto que não. Há poesia em muitos lugares e aí vai existir literatura. Bob Dylan escreveu poemas que musicou e, por isso, pode considerar-se que escreveu literatura. Mas se eu fosse escritora estaria neste momento muito chateada com esta decisão. Muitos autores, eternos inscritos na lista dos possíveis vencedores, devem sentir agora que a sua vez nunca chegará porque agora o Comité Nobel pretende mudar as regras do jogo, pretende chocar e voltar ao que era habitual não acontecerá tão cedo. Ainda bem que o nosso Saramago o ganhou noutros tempos, pois se fosse agora talvez o prémio não lhe chegasse.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Siso

E a um mês e cinco dias de fazer trinta e um anos um dos meus dentes do siso conseguiu, finalmente, nascer. Não me serve para nada, mas posso dizer que o tenho.

E também tenho uma dor na gengiva rompida que é bem espectacular.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A Menina Sugere Isto XXIII


Adoro a National Geographic, principalmente as suas edições especiais. As de História (como a da capa acima) e de Ciência são as minhas favoritas. É verdade que não são revistas baratas, mas são de uma qualidade enorme e valem cada cêntimo que se paga. No caso das edições especiais de Ciência, os leigos na matéria, como eu, ficam a conhecer a biografia dos seus protagonistas (Galileu, Einstein, Curie, Newton...) e algumas das suas descobertas sem ficarem confusos na segunda linha de texto. No caso das edições especiais de História, tenho lido textos muito esclarecedores sobre temas como os Descobrimentos, Roma Imperial ou, agora, as Guerras Mundiais. Nesta edição não se opta, como de costume, pela primeira ou pela segunda: fala-se das duas grandes guerras, das suas causas, dos seus efeitos, do antes, do durante e do depois. Fala-se de política e de sociedade, das mudanças ocorridas em cada uma dessas áreas, da estrondosa evolução que aconteceu durante o século XX... Enfim, é um número cheio, como se quer, de informação interessante e importante sobre dois acontecimentos que marcaram a Humanidade e que permanecem como uma sombra na nossa História e no nosso futuro, já que temos sempre medo que que esta se repita. Por tudo o que foi  dito, a menina sugere isto.

A Menina Sugere Isto XXII

Não vou mostrar-vos nada que não conheçam já. Vou apenas mostrar-vos uma coisa a que demorei a render-me, mas à qual me rendi que nem uma maluca: as Eco Garrafas da Tupperware.


Comecei por ver toda a gente a comprar uma garrafa destas e pensei “Pronto, mais uma moda...”. Ao fim de uns tempos, apanhei um quiosque da marca no Continente e comprei uma garrafa, mas com a tampa de rosca. Gostei da garrafa, odiei a tampa porque me molhava sempre a beber água. No início do Verão, para usar em malas mais pequenas, comprei uma garrafa mais pequena com tampa de bocal reduzido e aí rendi-me. Acabei por comprar mais três garrafas e por eliminar a água engarrafada cá de casa. As garrafas são fáceis de lavar e, para mim que bebo muita água e que gosto de ter uma garrafa em cada divisão, esta solução é a ideal. As garrafas não são muito caras, mas mesmo que possam parecer caras, o retorno do investimento é rápido só pela água engarrafada que se deixa de comprar. Para mim vale a pena e, a quem ainda não se rendeu, a menina sugere isto.

Nota: A imagem saiu daqui.

Concorrência

Eu gostava de conseguir compreender os taxistas, mas não consigo. Mais ainda quando boa parte do que dizem parece saído de uma emissão da Casa dos Segredos: não querem violência, mas...

Não consigo compreender um grupo profissional que parece lidar muito mal com a concorrência e que, perante o facto de que esta veio para ficar, responde com exigências ao Governo que, segundo o Expresso Diário, passam pelo aumento da bandeirada no Natal e no Ano Novo. Até compreendo que queiram as mesmas regras para a Uber e a Cabify, mas quem é que no seu perfeito juízo, perante estas novas empresas, acha que deve exigir o aumento dos preços no Natal e no Ano Novo????

Pelo que percebi, o Governo já está a preparar uma série de regras que as outras empresas terão de cumprir, no sentido de regulamentar isto e para que não exista uma carga de trabalhos para os taxistas e apenas benefícios para os outros. Ainda assim, os taxistas não estão de acordo. Acabei de ver na televisão um momento mais complicado da manifestação em que os taxistas encontraram um motorista da Uber numa estação de serviço. O que se seguiu parecia, novamente, a Casa dos Segredos, tantas foram as asneiras e os insultos que se ouviram. Neste momento já foi feita uma detenção por vandalização de um carro da Uber.

Nunca usei a Uber, mas já usei taxis algumas vezes e em boa parte delas fui mal servida. Numa das vezes fui insultada porque o percurso era pequeno de mais. Acontece que eu não sabia a extensão do percurso porque desconhecia a zona. O taxista (e tenho muita pena de não ter ficado com o nome dele) discutiu comigo, insultou-me e acabou a perguntar-me se eu gostava que brincassem assim com o meu trabalho. Note-se que ele recebeu mais de cinco euros em dez minutos de trabalho e eu não ganhava muito mais do que isso por hora. Teria mais situações para partilhar, assim como outros também as devem ter. Felizmente, também já me cruzei com bons profissionais, com viaturas limpas e que não deram a volta da Lisboa para levar-me onde eu queria ir.

Nunca usei a Uber, mas tenciono usá-la, precisamente pelas más experiências que já tive com os taxis. E porque não compreendo que todos os sectores tenham concorrência e que este tenha tanta resistência a esta concorrência. A Uber faz, pelo que sei, um serviço de tipo diferente, oferecendo outras comodidades ao utilizador (o facto de podermos chamar um carro da Uber sem termos dinheiro na carteira é óptimo, já que com os taxis temos de ter dinheiro e de preferência trocadinho porque eles parecem nunca ter trocos). Dirige-se a um público em especial. Todas as pessoas que conheço que já utilizaram os seus serviços saíram satisfeitas e mesmo quando o percurso não foi do agrado do utilizador, o dinheiro pago a mais foi-lhe devolvido. Não tenho até agora ouvido relatos de alguém ser insultado por um motorista da Uber porque o percurso é curto...

Enfim, o ideal era que convivessem todos em harmonia, mas parece-me difícil que tal suceda. Que se imponham regras que equilibrem as exigências a uns e a outros julgo fazer sentido. Mas não compreendo esta fúria contra empresas que, segundo os taxistas, fazem concorrência desleal para logo a seguir proporem o aumento da bandeirada por alturas festivas. Claro que se me pedirem mais dinheiro para andar de taxi no Natal, vou optar por quem me pede o mesmo que no resto do ano. Mas serei só eu a ver o disparatado disto? E agora vamos ver como isto acaba. Novamente: todos os sectores têm concorrência e têm de aprender a viver com ela. O dos transportes públicos ligeiros não será excepção.

sábado, 8 de outubro de 2016

Repugnância

Estive a ver a primeira parte da reportagem da TVI sobre crianças tiradas a pais portugueses no Reino Unido e estou ENOJADA. Não consigo compreender como pode um país europeu passar desta maneira por cima do que são os mais básicos direitos humanos. Tirar os filhos a uma mãe apenas porque houve uma denúncia e sem fazer qualquer tipo de averiguação ultrapassa os limites de qualquer compreensão. Colocá-los para adopção pouquíssimo tempo depois é absolutamente cruel. Os testemunhos que ouvimos nesta reportagem são um murro no estômago, daqueles que deixam tudo em volta a doer. Perder o direito a viver com os filhos porque acham que pode a haver dano para aquela criança no futuro é ridículo! Mas é mais grave ainda se considerarmos que existem agências privadas de adopção que depois distribuem estes menores por famílias que já procuravam crianças com esta ou aquela característica. Pelo que percebi, basta uma criança dizer que a mãe lhe deu um estalo para ela e os irmãos serem retirados de casa. Consegui-los de volta é uma batalha que ninguém merece e que pode chegar a nem dar resultado. Mas há mais: basta uma criança dizer que a mãe lhe bateu, como disse, para ela e os irmãos que existam serem levados... e separados. Portanto, de uma vez, um menor sai da casa dos pais para famílias de acolhimento (que, diga-se, ganham bom dinheiro por cada criança acolhida) e nem com os irmãos pode conviver. É tão revoltante que nem há palavras.

Uma das mães tentou falar com as entidades portuguesas competentes no Reino Unido. A resposta que recebeu foi a de que as autoridades portuguesas não podem imiscuir-se em assuntos do foro particular. Um representante português falou no âmbito da reportagem e diz que se trata de um país com soberania, blá blá blá... E portanto as assistentes sociais podem simplesmente ir, de um momento para o outro, a uma casa, retirar de lá os menores porque um menino tem uma nódoa negra, por exemplo, e daí a pouco tempo tê-los como disponíveis para adopção sem que ninguém possa fazer nada. E mesmo sendo cidadãos portugueses. É asqueroso. Nem consigo acreditar.

Amanhã passa a segunda parte da reportagem. Nem sei se quero ver. Não tenho filhos e, portanto, acho que só consigo ter uma pálida imagem da crueldade que aqui está. Posso apenas como filha imaginar o que seria, na infância, ser arrancada aos meus pais sem razão aparente e acabar adoptada por outra família sem que essa fosse a vontade da minha mãe e do meu pai. E no meio disso tudo ninguém me ouvir, ninguém me defender, ninguém perceber o que eu quero. 

O Reino Unido, apesar do Brexit, fica na Europa e não no cu do mundo. É um país para onde muitos portugueses emigram todos os anos. Não digo que não existam situações em que a retirada dos menores faça sentido, mas não acredito em processos em que ao fim de poucos meses a criança já está para adopção, mais ainda quando aqui pelo meio existem agências privadas a trabalhar. Eu não tenciono emigrar, mas se precisasse de o fazer, neste momento estaria a cortar o Reino Unido da minha lista de hipóteses (o que, dadas as relações que têm com estrangeiros, os deixaria extremamente felizes).

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quixotadas curtas VII

Já há muito tempo que não lanço umas quixotadas curtas. Ora vamos lá recuperar o tempo perdido.

1. Portanto, a ver se eu entendi. Os taxistas odeiam a Uber. Acham que é concorrência desleal porque, entre outras coisas, eles têm de ter formação e a Uber (pelo menos até agora) não. E então qual é a notícia de hoje? Os taxistas propõem ao Governo subirem a bandeirada no Natal, Ano Novo e meses de Julho e de Agosto. Portanto, quando eu tenho competição feroz o que é que faço? Distancio-me subindo os preços. Isto recorda-me uma expressão: “Entregar o ouro ao bandido.” 

2. O Nobel da Literatura devia, pelo menos à semelhança de outros anos, ter sido anunciado ontem. Não foi. O comité que toma estas decisões já se pronunciou, dizendo que não há divergência nenhuma, que o que se passa é que as reuniões para a tomada de decisão começaram com atraso, blá blá, blá. À boca pequena fala-se do facto de o júri não estar bem de acordo com as ideias da nova secretária permanente, Sara Danius. Recorde-se que no ano passado, já ela assumira este cargo, quem venceu o Nobel foi Svetlana Alexievich, com livros de tipo muito diferente dos escritos pelos anteriores vencedores do prémio. Como é dito pelo Observador, “é uma jornalista ucraniana que escreve não ficção, o que muitos consideram como não sendo literatura”. De facto, na altura aquela escolha pareceu-me estranha. Nobel da Literatura devia premiar literatura e nem tudo o que se escreve o é. Pode ser muito bom na mesma, mas as características do texto literário não estão em tudo o que se escreve. Aparentemente, o anúncio do prémio foi adiado para dia 13 deste mês. Acho tudo um pouco estranho, mas gostaria que este tempo a mais servisse para que se fizesse uma escolha com sentido, ao contrário de algumas muito discutíveis feitas nos últimos anos. E que se respeite a nomenclatura “literatura”, para não acabarmos daqui a uns anos a ver o Nobel a ser entregue ao folheto da Pizza Hut ou ao Correio da Manhã.

3. Nas últimas semanas tem-se falado muito dos transportes públicos na capital. Aleluia! A degradação que o sistema de transportes públicos tem vivido nos últimos anos em Lisboa é indescritível e só quem tem de os utilizar sabe os nervos que apanha diariamente. Agora ando menos de transportes, mas ainda os utilizo e é o desespero. Durante anos utilizei diariamente dois autocarros diferentes de manhãzinha e ao final do dia e acho que perdi anos de vida. Fiz várias queixas à Carris e tinham sempre resposta na ponta da língua para justificar atrasos de quarenta a cinquenta minutos em autocarros que deviam passar de quinze em quinze (ou menos, dependendo da hora do dia). Tinha de sair de casa com grande antecedência porque basta falhar um autocarro (coisa que jamais deveria acontecer) para tudo se atrasar meia hora ou mais. Autocarros cheios e pouca frequência dos mesmos, já para não falar das carreiras que foram eliminadas e que fazem falta. A própria frequência com que passa o metropolitano de Lisboa é assustadora. Enquanto estive em Madrid invejei muito a rede de transportes deles. Mesmo em frente ao hotel onde ficámos estava uma paragem de autocarro que ligava aquela zona a outras como Atocha, Passeio del Prado e ainda outros lugares importantes da capital vizinha. A frequência com que este autocarro passava era maravilhosa. Mas acho bem que se fale neste tema porque estamos há muitos anos a aguentar e a pagar por um serviço que funciona francamente mal, principalmente porque não estamos a falar do Burkina Faso, mas de uma capital europeia e mais ainda carregada de turistas.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Devaneios ensonados

É feriado. Dia de ficar a fazer ronha na cama. São oito e meia da manhã. A vizinha de baixo já ligou a televisão aos berros nas consultas das tarólogas da SIC. Pergunto-me que mal fiz a Deus para merecer tamanho castigo. Temo ter sido muito má na vida passada. Se calhar fui cartomante e agora estou a ser castigada. 

Tenho ganas diárias de partir aquela televisão a pontapés.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Dia do Animal

Diz-se que há amores que não se explicam. Eu acho que nenhum amor se explica, mais ainda quando é entre humanos e animais. Passei a minha vida quase toda sem saber o que isto era, mas a sonhar com o que poderia ser. Felizmente chegou a altura de ter uns peludos de quatro patas na minha vida e, acreditem, não há dia nenhum em que não me sinta grata por tê-los. Mesmo que me acordem, que me destruam a casa, que façam disparates em cima de disparates, adoro-os e só penso que quero mimá-los todos os dias enquanto os tiver comigo (e oxalá seja por muitos anos).

Os animais dão-nos tanto, tanto, tanto que se só dependesse de mim teria muitos mais. Mas, infelizmente, ainda não fui brindada com o Euromilhões e não vivo numa quinta gigante. No dia em que estas duas condições se cumprirem, aquilo que farei será uma espécie de santuário onde gatos e cães serão reis. Comidinha, água, cuidados médicos e muito amor não faltariam se tal acontecesse. Enfim, dar-lhes-ia tudo o que merecem e merecem muito.

Diariamente sou “brindada” no Facebook com denúncias de maldades feitas a gatos e cães que, infelizmente, não tiveram a sorte de encontrar um dono que os ame. Ontem soube de uma maldade feita a uma gatinha que me deixou agoniada, de lágrimas nos olhos e com um profundo ódio pelas bestas que fazem tais coisas a seres que não conseguem defender-se. Já aqui o disse várias vezes que essa gente merecia que um raio lhe caísse em cima no momento em que provocam deliberadamente dor nos animais. Como o raio divino não cai, as leis dos homens deviam actuar, mas nem isso. E continuamos a ver o “animal racional” a agir muito mais irracionalmente do que os gatos e cães deste mundo. É muito triste e não vejo luz alguma no final deste túnel. São leis de papel e de lá não saem.

O Dia do Animal devia acontecer todos os dias. Cá em casa são todos os dias deles. Ainda antes de eu comer, já eles têm os pratinhos cheios. Antes de eu tomar banho, já a areia deles foi limpa. Todos, como eu, deviam ter a consciência de que eles só nos têm a nós, só dependem de nós. Se eu tiver preguiça de me levantar para o alimentar, é ele que passará fome. Se eu não gosto de uma casa de banho suja, por que hei-de proporcionar-lhe uma areia que nunca é limpa? Se não gosto de água choca, por que motivo haverei de mudar a água deles só de vez em quando? Por isso  e muito mais, hoje devemos todos pensar na forma como podemos melhorar a vida dos nosso bichos e de outros. Devemos pensar no que eles nos dão, que é muito. 

E já agora, o Senhor Gato diz um ensonado “olá”:


domingo, 2 de outubro de 2016

Cotonetes


Sabem o que é isto? Uma caixa cheia de brinquedos para gatos. É oficial: podem gastar todo o dinheiro do mundo em brinquedos para gatos que, no fim de contas, eles acabarão por brincar com qualquer coisa que não tenha sido comprada a pensar neles. E ao comprarmos um brinquedo especificamente para eles, corremos o sério risco de que eles só queiram... A caixa.

Dêem um cotonete a um gato e verão felicidade durante horas seguidas.

Nota: A imagem saiu daqui.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Harry Potter: já cá canta, mas...

Já tenho há uns dias o novo livro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. Ao contrário do que aconteceu com os outros sete volumes da saga, este livro manteve-se dentro do saco no exacto sítio onde o pousei quando o trouxe para casa (até que o tirei para a foto). Estou, por agora, com pouca curiosidade para lê-lo, o que talvez não seja assim tão estranho.


Li o primeiro volume da colecção ainda antes de entrarmos no novo milénio, ainda antes de se tornar, também em Portugal, num enorme fenómeno. Li-o e tenho-o ainda na edição mais antiga:


Claro que o que aconteceu a seguir foi um fenómeno que só os outros fãs de Harry Potter conseguem compreender: uma corrida para comprar os próximos livros disponíveis, que naquela altura ainda eram poucos, pois a autora ainda estava a escrever a saga. A febre foi tanta que, tendo a FNAC apenas um volume disponível de A Câmara dos Segredos, comprei o que tinha, embora exibisse uma valente dobra na capa. Que se lixassem as mariquices com os livros: eu queria era saber como continuavam as aventuras de miúdos feiticeiros numa escola muito mais fixe do que a minha. E assim lá fui andando de livro em livro até chegar ao último. J. K. Rowling disse que não voltaria a escrever sobre Harry Potter e dedicou-se aos policiais e, por isso, perdi a esperança de voltar a ler sobre aquelas personagens que nos acompanharam durante tantos e tantos anos.

Agora saiu este livro e tenho o receio de que não esteja à altura. O que lhe precedeu foi tão bom, tão perfeito que agora temo o que daí venha. Também o facto de estar habituada a ler Harry Potter em texto narrativo faz-me agora desconfiar de uma continuação em texto dramático (que é, aliás, o guião da peça que efectivamente se fez com as personagens que tão bem conhecemos). Por outro lado, também tenho secretamente aquele desejo de prolongar a possibilidade de ler o livro. Ler um livro pela primeira vez é um luxo que, claro, só acontece uma vez com cada livro. Quando a história é boa, até há a vontade de andar para trás no tempo só para a lermos pela primeira vez novamente. Por isso, vou esperar que a vontade venha. Por agora ando ali às voltas com A Tia Tula, de Miguel de Unamuno, e com outro de que vos falarei depois e que é booooooooom. Mas depois...

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Aventuras num autocarro da Carris

Hoje precisei de apanhar um autocarro e senti-me de volta à aldeia da minha mãe, onde a carreira passa ao início do dia e só volta a levar as pessoas a casa à noite. Isto porque cheguei à paragem (estou a falar de Lisboa, meus caros, a capital do país) e faltavam uns fofos trinta e oito minutos para o autocarro passar. Note-se que nos horários da Carris, supostamente, ele devia passar de dezanove em dezanove minutos. Já mandei tantas reclamações à empresa que até fico enjoada de pensar em mandar mais uma. Estou bem farta de sentir que em Portugal o serviço de transportes públicos é absolutamente asqueroso. Se formos à capital do país vizinho podemos ver o que andamos a perder. Em Portugal gastam-se anos de vida com os transportes públicos! Em tempos julguei que a Carris até funcionava bem... Pois, em tempos. Foi até começar a acabar com certos autocarros e a espaçar cada vez mais a frequência dos mesmos, fora as vezes em que pelo meio dos horários falha um ou outro e os tempos de espera disparam para o dobro ou o triplo. Os passes e os bilhetes, esses, continuam ao mesmo preço. Portanto, paga-se o mesmo por uma coisa cuja qualidade só decresce.

Mas além da miséria que se passa com os transportes públicos (e que dava direito a uma série de quixotadas), ainda temos o comportamento dos seu utilizadores, que é frequentemente pavoroso. Medonho mesmo! Portanto, cheguei à paragem, esperei mais de quarenta minutos pelo autocarro, vi muita gente chegar e partir noutros autocarros que não o meu e quando este finalmente chegou, duas ou três pessoas passam-me à frente e entram, como se tivessem chegado primeiro. Outra vez: já reclamei tanto que já nem me apetece mais. Se querem ser uns merdas, sejam uns merdas. Os meus pais deram-me educação, mas parece que houve outros que devem ter andado a coçar a micose em vez de ensinar algum civismo aos filhos.

Não contente com isto tudo, ainda sou brindada com uma cena digna de um Óscar. Portanto, o autocarro chega com atraso, certo? Estamos em Lisboa, apanhamos todos os sinais vermelhos que há para apanhar e, assim, avançamos vagarosamente rumo a um destino que já me parece utópico. Como isto ainda era pouco, em determinado momento entra no autocarro uma senhora ainda jovem que devia ter um problema numa perna. Um rapaz que ia sentado com a sua esposa naqueles lugares reservados que todos conhecemos levanta-se para ajudar a senhora a entrar e a sentar-se. Ajuda-a e vai conduzi-la aos lugares reservados. Faz sentido, certo? Ela estava visivelmente mal e, portanto, faz mesmo sentido que se sente ali. Pacientemente, o motorista mantém-se parado na paragem à espera que a senhora, ajudada pelo rapaz, se sente e não caia com nenhum solavanco do autocarro. Mas o que resolve a santa mulher? Resolve que quer antes sentar-se no lugar sozinho imediatamente atrás do motorista. Exactamente: aquele que fica sobre uma roda e que portanto tem um degrau enorme. O rapaz bem lhe deu a mão, bem tentou fazer força no braço para que ela conseguisse subir para onde queria, mas ela mal conseguia levantar a perna. Houve um momento em que ainda pensei que o moço fosse fazer um degrauzinho com as mãos para ela se enfiar lá para cima. Felizmente, o motorista, que assistia àquilo com um misto de incredulidade e incompreensão, depois de ter o autocarro parado há alguns minutos, diz:

- Mas por que é que não se senta num lugar mais baixo???? 

Lá se fez luz naquela cabeça e o rapaz conduziu, então, a senhora até aos reservados. Ajuda-a a sentar-se e torna ele próprio a sentar-se ao lado da esposa. Parecia tudo acabado, mas mal as nalgas dele tocam no lugar, a senhora com o problema na perna vira-se para ele e diz:

- Quero ir para aí porque não gosto de ir de costas.

E lá se levanta o moço, ajuda a senhora a levantar-se, depois a sentar-se e vai ele mesmo sentar-se em frente à esposa. Finalmente o autocarro avança.

Há uma frase que digo muito e que é “Bondade a mais é burrice”. Cada vez que me confronto com coisas do género ou piores ainda é só dessa frase que me recordo. Se ninguém a ajudasse, estaríamos numa sociedade horrível. A senhora foi ajudada até à exaustão pelo rapaz e pelo motorista. Nunca disse “obrigada”, não tentou sequer agradecer e quando pediu para se sentar no lugar do rapaz fê-lo com rispidez. Está bem que eram lugares reservados, mas não havia mais ninguém de pé a precisar deles e acho que ficou bem claro que em caso de necessidade aquele casal cederia, com todo o gosto, o lugar. Mas julgo que nem mesmo o facto de serem lugares reservados dão direito àquela senhora, que já tinha parado um autocarro devido ao seu capricho de escolher sentar-se no lugar mais inacessível para ela, de falar assim com ninguém. Os lugares são reservados, mas que eu saiba não há nenhum asterisco que diga “E devem satisfazer-se os gostos relativamente a viajar de frente ou de costas.”. Não há asterisco, mas há uma coisa chamada “abuso” e outras que designamos por falta de educação e falta de civismo. Nos transportes públicos (mas também no trânsito em geral) isso abunda, começando pela empresa que desrespeita sistematicamente os seus horários e acabando no cidadão que não sabe que não andamos cá todos só para servi-lo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Quando a realidade supera a ficção

Estou a ver o noticiário da SIC e antes do intervalo passou uma notícia que parece ter saído directamente de um romance, de tal forma é complexa e supreendente. E passa-se em Portugal. Ora vejam:

Um homem foi ao médico e, após alguns exames descobre que sofre de infertilidade crónica. O problema maior do que não poder ter filhos no futuro: é que já tem uma filha de dezasseis anos. Todavia, recordem-se, o médico informou o homem de que o seu problema não é de agora. Naquilo que eu imagino ser um pesadelo, o homem sujeita-se e à sua filha a testes de ADN que determinam que há noventa e nove porcento de hipóteses de ele não ser o pai da menina.

Não consigo sequer imaginar o que aquele homem está a sentir, mas talvez esse sentimento ajude a explicar o que se seguiu: estando já separado há algum tempo da mãe da criança, exige em tribunal à ex-mulher a devolução do valor da pensão de alimentos já paga; exige, pelo que compreendi, uma indemnização e que o seu apelido seja retirado do nome da rapariga que, note-se, até agora foi sua filha. Como à luz da nossa lei essa coisa monstruosa do “filho de pai incógnito” não é permitida, agora cabe à justiça investigar de forma a descobrir quem é, de facto, o progenitor da adolescente em causa.

Ora... Que dizer disto? Acho que estou de boca aberta desde que ouvi a notícia. Por um lado, não imagino o que possa este homem estar a sentir. Francamente, lemos tantos livros e tantas histórias com coisas parecidas e que nos soam tão distantes do que é verdade que nem por isso estamos preparados para quando a realidade se aproxima da ficção. Mas depois não pude deixar de pensar no que é, aos dezasseis anos, descobrir-se que o nosso pai não é mesmo o nosso pai; que a nossa mãe (caso soubesse que aquele não era mesmo o pai da sua filha, o que não sei se sucedia ou não) pode ter criado uma mentira de todo o tamanho; que aquele que conhecemos por pai está tão magoado que até o nome dele quer retirar a quem, convenhamos, é a última pessoa a ter responsabilidade nesta história. Acho que todos nos lembramos do que é ter dezasseis anos. Agora imaginem o que é ter essa idade e passar inesperadamente pela surreal história que relatei. A rapariga descobriu que o pai que sempre conheceu não é o verdadeiro pai biológico; pode ou não (pois, como disse, não sei o que aconteceu para que esta história decorresse assim) chegar à conclusão que a mãe tem muito para contar-lhe; pode vir a perder o nome que tem há dezasseis anos e ainda vai ter de passar pela experiência de uma investigação para se apurar quem é, então, o seu verdadeiro pai biológico (e ganhar um novo apelido). Além de tudo e como se fosse pouco, ainda assiste a notícias sobre isto na televisão e caso os que com ela convivem fiquem a saber da situação, ainda terá de conviver com as perguntas, os comentários e os olhares (não sejamos hipócritas: somos todos muito modernos, mas ainda adoramos uma boa cusquice). Não consigo imaginar pior. 

Espero que esta menina consiga ultrapassar isto da melhor forma. E que aquele pai que o foi, mas que já não é (e que, alegadamente, não quer mesmo sê-lo, já que nem o seu apelido quer que a rapariga mantenha) consiga também superar a dor de um engano, mais a raiva, a frustração e a tristeza que tudo isto deve trazer. Espero que esta história surreal tenha o final de quase todas as novelas e acabe bem.