terça-feira, 9 de maio de 2017

Descontos, mas pouco

Se há coisa de que ninguém gosta é, certamente, de sentir-se enganado. Seja pelas nossas relações pessoais, pelos serviços a que aderimos ou mesmo pelas coisas que compramos e pelas lojas de que gostamos. 

Hoje sinto-me enganada pela Fnac. Ninguém me enganou com produto nenhum, mas há muitas formas de levar um cliente a sentir-se assim. Neste caso tem mesmo que ver com a promoção que têm em vigor. 

Recebi no email a informação de que decorrerá até dia 11 uma promoção que fará com que alguns milhares de livros tenham descontos no mínimo de vinte e no máximo de cinquenta porcento. Bom, pareceu-me muito promissor e fui espreitar a página. Há um separador para os livros a metade do preço e são sobretudo livros em inglês (para mim pouco interessantes). Depois fui correndo os vários separadores: Prémio Nobel, Clássicos, História e Política, Biografia e Memórias... Em algumas das áreas vi os livros disponíveis de uma ponta a outra. E o veredito? Não encontrei UM único volume com mais de vinte porcento de desconto. Nem um. Nada com trinta, nada com quarenta e com cinquenta apenas aquela meia dúzia em inglês. 

Perante isto, comecei a pesquisar nomes de autores. Imaginem: o Vargas Llosa tem uma obra tão vasta que, sabe-se lá, ali pelo meio algum dos livros podia estar com mais do que vinte porcento de desconto. Pois... Não estava. Nem um. Fiz o mesmo com o Gabo e tive semelhante resultado.

Obviamente não vou correr a página da Fnac de uma ponta à outra apenas para verificar se existe algum livro com um desconto maior do que o mínimo. O que vi chegou-me para perceber que embora a publicidade leve a pensar em diferentes tipos de desconto, o mais certo é cruzarem-se apenas com o mais baixo. Já na semana passada aconteceu algo semelhante no site da Bertrand. Mas ao menos aí ainda encontrei um ou outro livro com mais de vinte porcento de desconto. No da Fnac foi como vos descrevi e já desisti de encontrar unicórnios. Fiquei desapontada com a loja e, como disse inicialmente, senti-me um pouco enganada. Mas foi coisa de pouca dura: mais poupo para a Feira do Livro de Lisboa, que está quase aí.

Coisas que não entendo I

Pessoas que fumam, mas que agitam a mão diante do rosto para dissiparem o fumo. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A Menina Sugere Isto XXVII


Esta série começou em Abril no canal National Geographic. Passa semanalmente às quintas-feiras pelas 23 horas.

Pelo que percebi, outros génios serão protagonistas da série, mas por enquanto os episódios, que serão dez, ocupam-se concretamente de Einstein. Assistimos à sua juventude, às suas relações familiares, aos seus estudos, às suas descobertas, ao ambiente em que viveu, inclusivamente às perseguições nazis, enfim, a tudo. Não é um documentário, mas sim uma série baseada numa biografia sobre este cientista. Assim, acedemos a fases da vida de Einstein de que não se fala de costume. Tendemos, com os grandes génios, a olhar apenas para os momentos em que estes homens e mulheres fizeram as suas descobertas e ignoramos o caminho trilhado até aí. A família, o ambiente, os estudos, as relações pessoais também têm uma influência determinante no que lhes sucede.

É, pois, uma série muitíssimo interessante que revela pormenores que tendemos a não conhecer. Verificamos aliás que sobre estes génios, é mais aquilo que desconhecemos do que o pouco que sabemos. Conhecer outros momentos mais particulares e que usualmente não são aqueles que se divulgam ajuda a compreender a pessoa, tal como a vida de um escritor ajuda, em certa medida, a compreender a sua obra. Além disso, é uma série dinâmica, que não aborrece, com cenários e momentos muito bem pensados. Interessa também para conhecermos outros nomes importantes com quem Einstein privou e que, de alguma forma, foram ofuscados por ele e pelas suas descobertas. Vale muito a pena ver esta série e, por isso, a menina sugere isto.

domingo, 7 de maio de 2017

Erro reparado

Quando ainda estava na Licenciatura, os meus professores de Linguística falavam de uma gramática que seria publicada pela Gulbenkian e que viria a ser muito boa. Essa gramática transformou-se numa espécie de ser mítico já que esperámos tanto por ela que acreditávamos mesmo que nunca viesse a ver a luz do dia. 

No ano passado, numa das duzentas idas à Feira do Livro, vi a bendita gramática já publicada (com dois volumes e ainda à espera do terceiro) e em livro do dia. Folheei-a e, de facto, é a melhor gramática em que já pus os olhos. Para quem quer saber tudo o que há para saber sobre a nossa língua, aquelas mais de duas mil páginas (e ainda falta sair o terceiro volume) são exaustivas. O sonho de qualquer apaixonado pelo Português! Alguns dos autores foram meus professores e conheço a qualidade que tinham e a vastidão dos seus conhecimentos linguísticos.

Estavam com um desconto catita, principalmente considerando que cada volume custa 35€. Mesmo assim não as trouxe porque havia outras coisas que queria comprar e a gramática gastar-me-ia boa parte do orçamento. Mas passei todo o ano a insultar-me por não a ter comprado e a acreditar que jamais voltaria a vê-la com tal desconto.

Enganava-me. Ontem fui à Gulbenkian para ver a exposição sobre a vida e obra de Almada Negreiros e, no fim, passei pela livraria. Lá estavam as boas das gramáticas a piscarem-me os seus olhinhos cheios de páginas. Perguntei no balcão que desconto fazem aos professores e dei pulinhos de alegria: quarenta porcento. Tive um desconto de 28€. Exactamente o mesmo que teria na Feira do Livro quando ambos os volumes foram livro do dia. Só precisei de mostrar o cartão do sindicato de professores e o desconto fez-se. Vim para casa e li uns capítulos. Já estou a aplicar nesta quixotada o que aprendi relativamente às regras para a escrita de valores numéricos em textos. Adoro!

Nota: Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais nerd do que eu?!




sábado, 6 de maio de 2017

As minhas vergonhas

Há coisas que me acontecem que me fazem pensar que só mesmo a mim (tantos "que"!). Aliás, tenho há vários anos a teoria de que alguém, numa realidade paralela, se deve fartar de rir de mim porque só isso explicará a quantidade de coincidências irónicas, de pequenos grandes desastres, de encontros e desencontros e de muitas outras coisas mais que me acontecem. 

Na sexta-feira passada tive mais um episódio desses a entrar para o livro das vergonhas da minha existência. Então imaginem a cena que vos vou contar. 

O meu prédio está a remodelar a canalização da água e os novos canos vão entrar nos diferentes apartamentos de formas várias, conforme sejam esquerdo, direito ou frente. No meu caso, o cano vai entrar pela despensa, que fica ao lado da cozinha e que partilha a parede com o patamar. Já sabia que na sexta-feira precisariam de ir a minha casa para fazerem os primeiros furos e tirarem medidas. Também já sabia que, além dos senhores que estão a fazer a obra, iria também o administrador do condomínio (o tipo com o ar mais antipático e com a mania de que sabe tudo que consigam imaginar. É conhecido como "O Senhor Engenheiro"). Bem, dois dias antes e ainda sem saber da visita, tinha arrumado a casa e limpado tudo. Estava apresentável para ser completamente conspurcada com as obras. 

Mas na quinta-feira à noite começou a chover. Eu tinha roupa estendida que estava seca e só tive tempo de correr para a janela para salvar as peças de uma molha. Ainda assim, molharam-se um pouco. Para não ficarem húmidas umas sobre as outras, espalhei as peças pela cozinha de modo a acabarem de secar durante a noite. 

No dia seguinte, levantei-me cedo para esperar pelo Senhor Engenheiro e pelos moços das obras. Tinha tudo arrumadinho e apresentável. Supostamente viriam depois das nove, mas meia hora antes bateram-me à porta. Bom, lá vai o Senhor Engenheiro com o empreiteiro até à despensa, falam sobre medidas e canos e afins. Pedem-me para irem à cozinha e eu digo que  podem, obviamente. Foram e lá conversaram mais. Depois veio o moço para fazer o furo e também ele precisou de ir à cozinha. 

Quando tudo sossegou, também lá fui para comer uma frutinha, já que ainda estava em jejum. Ao chegar lá, caiu-me a alma aos pés: espalhadas pelas costas das cadeiras, pelos puxadores do frigorífico e penduradas nas esquinas da mesa estavam as peças de roupa que quase se tinham encharcado na noite anterior. Tinha-me esquecido delas e toda a gente as viu pela cozinha fora, como se a máquina de lavar tivesse explodido e lançado pela divisão toda a roupa possível. 

O que eu ainda não vou disse é que se tratava apenas de roupa interior. Minha e do moço. Imaginem o que se pensou de mim enquanto se viram as minhas cuequinhas lavadas e penduradas no puxador do congelador. Ou nos encostos das cadeiras. Que vergonha, minha gente! Isto só a mim. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

A Menina Quer Isto LXXXVII

Gosto desta editora! Tem um bom catálogo e faz uns livros de aspecto simples, mas bonito. Talvez este venha comigo na Feira do Livro. E já falta tão pouco! 

Prendas de casamento - parte 2

E não é que voltei a encontrar as duas senhoras que, há uns dias, falavam de presentes de casamento? Foi novamente no autocarro, com a diferença de que ambos os casamentos a que iam decorreram no fim-de-semana passado. 

Não me chamem cusca, mas ficando sentada atrás ou à frente das senhoras, mesmo que vá a ler o meu livrinho, ouço a conversa toda. 

Bom, lembram-se de que uma das senhoras tinha o marido desempregado e queixava-se de que o casamento ficava muito caro porque não podia dar menos de duzentos e cinquenta euros para pagar o consumo dela, do marido e da filha? Note-se que esta filha já está emancipada e vive com o namorado, mas "coitadinha, temos de dar por ela. Pelo namorado é que não damos!"  Então, pelo que percebi, lá foi a senhora ao casamento com o envelope bem artilhado para dar pelos três. Ao dizer à filha que ia dar o envelope aos noivos e que dariam por ela, a moça terá respondido à mãe que já tinha dado. A mãe, espantada, disse-lhe: "Então, mas nós dávamos por ti!", ao que a filha terá replicado "Mas não davam pelo Felipe.". Ora "tomas". 

Ainda pensei que isso fosse a deixa para a senhora ganhar juízo e reduzir o conteúdo do envelope. Qual quê?! Disse à amiga: "Olhe, melhor para mim. Mas também já não ia estar a tirar o que tinha no envelope. Foi assim.". Quase a esganei e não era nada comigo!

Mas querem a melhor? Parece que o casamento a que a outra senhora foi foi fabuloso: muito bem organizado e servido. Porém, segundo a do envelope, o que lhe calhou em sorte foi uma porcaria, com as "rações" bem contadas  e porções pequeninas ao ponto de se ficar com fome. Contou que a sobremesa parecia a miniatura de uma fatia de bolo, que os doces do copo d'água eram poucos e preparados em doses muito pequenas. Que o casamento ainda tinha, pelo menos, uma centena de pessoas, mas que era tudo muito racionado. 

Pois. Mas o importante é "pagar-se o que se consome", não é? Ora aí está o significado de "levar um barrete". Provavelmente, pagou várias vezes o pouquito que comeu. É bem feita que é para aprender. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Tristes memórias

Quando uma pessoa pensa que já viu e ouviu de tudo, eis que surgem novas desgraças debaixo do sol. Nos últimos dias falou-se de baleias azuis e as nossas bocas abriram-se de espanto. Cada vez mais acho que as consultas de psicologia deviam ser obrigatórias para todos os cidadãos, nem que fosse apenas para controlo uma vez por ano. Talvez coisas destas se apanhassem mais cedo.

Enquanto dei aulas, fui a “descobridora” de dois casos de automutilação em adolescentes. Senti o coração cair-me aos pés, especialmente no segundo caso em que o miúdo, depois de conversar com ele um pouco em voz baixa numa sala cheia de gente, me contou tudo: as razões, o alívio que aquilo lhe causou... Tudo. A escola desvalorizou. Chegou a dizer que a história tinha sido “sobrevalorizada”, mesmo tendo de chamar o pai do aluno para contar-lhe o que se passava. Pois, mas eu vi os cortes e já nem eram todos recentes. 

Pode ser que esta tristeza da baleia azul sirva, pelo menos, para pôr as pessoas mais atentas, inclusivamente as pseudo-escolas que vêem grandes problemas num aluno que passa os intervalos a beijar na boca a namorada, mas que não encontram grande mal num menino com vida difícil que opta por aliviar a dor cortando sistematicamente a pele.

sábado, 29 de abril de 2017

Abram alas que eles querem passar!

Mais estes para as estantes (sabe Deus onde os vou enfiar...):

(Infelizmente, ficou a faltar-me o volume III, que terei de procurar para completar a colecção. A menina quer o terceiro volume! Já agora: não me apeteceu fotografar os meus livros, por isso esta imagem saiu daqui.)







(E estas capas saíram, como se vê, da página da Wook.)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Sugestões (horríveis) para o Dia da Mãe

Fico doente quando vejo as sugestões de presentes para o Dia da Mãe, principalmente no que se refere a livrarias. Fico enjoada, muito, muito enjoada. 

Já o conceito de «Literatura no Feminino», usado por algumas livrarias, deixa-me a pontos de arrancar cabelos! O que raio são livros para mulheres? E por que motivo livros com histórias de amor delico-doces (Sparks, Modignani, Steel e quejandos) são o que ocorre aconselhar às mães? Será que as têm por tão apoucadas que a leitura que se lhes associa é essa? Já para não falar quando no fundo da lista aparecem livros de culinária e semelhantes lavores...

Não sei que raio de ideia se faz das «mães» portuguesas, mas se calhar carimbá-las com a marca de dona de casa desesperada que lê sobre amores porque é uma romântica incorrigível é para lá de estúpida. A minha mãe, uma das mais vorazes leitoras que conheço, lê policiais (e consegue perceber quase desde o início quem é o assassino), lê clássicos (ingleses, russos, alemães, franceses... não é esquisita), lê romances históricos, lê biografias, lê livros de história. Mas a minha mãe, tal como eu, não lê Sparks, não lê Steel, nem Modignani e achou o bestseller A Rapariga no Comboio uma porcaria (eu li os primeiros três capítulos e concordei com ela: fraquinho, fraquinho). Por isso, as sugestões medíocres que tendem a fazer-se para oferecermos às nossas mães envergonham-me. Não porque a minha mãe seja um espécime estranho que deve ser estudado, pois haverá por aí muitas mulheres com um cérebro composto por dois hemisférios inteiros que lêem mais do que os romances cor-de-rosa de história formatada para ser sempre igual. Todavia, invariavelmente, ano após ano lá vêem as brilhantes sugestões para o Dia da Mãe. Para sugerir-se o que se sugere, mais vaia estar-se calado. 

Eu já nem aprecio muito isto do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia dos Avós, mas sobre isso falarei noutra altura. Agora, que estes dias sirvam para recordar-nos que ainda existem maneiras muito estereotipadas para olhar mulheres e homens parece-me bastante idiota. Acho que a esta altura, já estas distinções ridículas, estas maneiras de carimbar eternamente as mulheres (e os homens porque quando chega o Dia do Pai a coisa não é muito melhor) não deveriam existir, mas pelos vistos «mudam-se os tempos», contudo não se mudam as vontades.

Mais quatro





Sou pessoa para lamentar a proximidade de uma loja que, entre outras coisas, vende livros em segunda mão a preços fofos. O que faço à minha vida, senhores? Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

E eis que chega outro...


Comecei a fazer um curso livre sobre imagens da Europa na literatura do século XX. Começamos com Zweig e acabamos com Mário de Carvalho e com este romance. Pelo meio passamos por Calvino e por Le Clézio. O tema do curso é muito interessante e o cérebro já precisava destes miminhos porque uma das coisas que mais me entristecia enquanto professora de horário (mais que) completo era a impossibilidade de fazer fosse o que fosse porque se numa semana talvez pudesse ir, bastava haver uma crise qualquer para marcar-se uma reunião e todos os planos irem ao ar. Como o tempo livre agora permite estas coisas, além de poder ler, também posso ir ouvir falar quem sabe e passar eu ao lugar de aluna.

Penso que de Mário Cláudio só li o conto «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho» e o livro Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. Será a primeira vez que lerei um romance seu. E eis que assim se alargam horizontes literários...

domingo, 23 de abril de 2017

Manual de sobrevivência para quem vive com gatos

Depois destes anos a conviver com dois gatos absolutamente loucos, resolvi partilhar com o mundo um breve, porém estupidamente útil, manual de sobrevivência para humanos que convivem com estes felinos. No fundo, são algumas regras que devem ser seguidas de modo a que não passemos a vida mordidos, arranhados ou, quem sabe, assassinados por gatinhos numa das esquinas da nossa casa. Se tem gatos, esta quixotada é para si. Aproveite-a que é de graça e inclua-a na sua vida: ela pode prolongá-la. Muito.

Ora bem, vamos então às regras que, se devidamente observadas, tornarão a convivência entre humano e gato numa coisa mais ou menos pacífica (dependemos sempre do humor deles). Grafarei doravante o nome do animal em causa com letra maiúscula, pois refiro-me aos gatos em geral e também porque tenho um medo tremendo de lhes faltar ao respeito e acabar chacinada.

1.ª Regra - Ter sempre plena consciência de que quem manda é o Gato. Nós limitamo-nos a viver em casa dele e a desempenhar o papel de escravos das divindades felinas.

2.ª Regra - Quando o Gato quer, o Gato tem. Seja comida, festinhas ou brincadeira: não há cá «Agora não posso, Tareco.». O não cumprimento desta regra pode causar dores excruciantes.

3.ª Regra - Mudar os lençóis da cama com o Gato no quarto pode ser giro, mas também extremamente perigoso. Para evitar males maiores, utilize umas luvas próprias para a falcoaria ou um fato de apicultor. Nunca, repito, NUNCA opte por deixar sua majestade fora do quarto ou ao abrir a porta pode ter uma surpresa.

4.ª Regra - Evite vestir ou transportar coisas que tenham penduricalhos, sob pena de ganhar um penduricalho novo que tem dentes aguçados e unhas capazes de tornarem as dores de parto em algo para rir. Cerifique-se de que não «deixa pontas soltas». Se não o fizer, não se queixe, pois o Gato terá o direito de exercer o seu poder (que é imenso).

5.ª Regra - Não tente mexer em atum sem utilizar a frase «Eu já dou!», seguida do efectivo acto de dar um prato bem composto com esse peixe delicioso. A observância desta regra pode evitar um ataque do Gato e já sabe que ele ganha sempre. A propósito: o ataque por privação de atum é o pior.

6.ª Regra - Abanar o pratinho da ração não é dar ração. Nunca pense que pode enganar o Gato. Ele tudo sabe e tudo vê. Quando menos esperar, tê-lo-á a roer-lhe os pés ou a afiar as unhas na sua perna esquerda.

7.ª Regra - Aprenda o mais rapidamente possível que o seu conceito de «prato com comida» não é o mesmo que o do Gato e ele é que sabe. Se tem um buraco no meio e muita comida à volta, encare isso como sendo um prato vazio que tem obrigatoriamente de ser enchido. Recorde a regra anterior: abanar o recipiente não chega. O Gato é um ser superior e ele sabe como dar cabo de si sem deixar vestígios.

8.ª Regra - Se vir o Gato de barriga para cima, não ceda à tentação de meter a mão naquele pêlo fofinho. Provavelmente, tratar-se-á de uma armadinha urdida pelo Gato: mostrar a sua zona mais fofa com todo o descaramento, sabendo que o dono não resistirá a fazer umas festas. O que se seguirá envolve lágrimas e gritos de dor, já que o Gato enrolar-se-á sobre si próprio, tornando a sua mão refém das suas múltiplas unhas e dentes.

9.ª Regra - Aprenda a manipular o Gato. Atenção que «manipular» tem aqui o sentido de mexer. Recorde a regra anterior e lembre-se que embora o todo seja perfeito, há partes do Gato em que não se deve tocar, pois não é suficientemente bom para o deus felino e porque pode gerar a ira dele. Acredite: preferirá cuspir bolas de pêlo em vez de sentir a ira do Gato.

10.ª Regra - Se o Gato tiver de tomar comprimidos, converta-se a uma religião, se não tiver, e comece por rezar. Talvez até por fazer uma promessa à divindade da sua devoção. Dar um comprimido ao Gato pode ser tão perigoso como colocar a mão numa hélice em funcionamento. Assim, recorrer à Fé pode ser mesmo a sua única solução.

11.ª Regra - Cortar as unhas ao Gato, dar-lhe banho e penteá-lo podem ser as últimas tarefas que fará na vida. Certifique-se de que tem um testamento válido antes de realizar qualquer uma destas actividades. Se o Gato lhe permitir alguma delas sem luta, verifique com atenção se se trata mesmo de um gato. Pode ser um gerbo e nunca ter notado.

12.ª Regra - Saiba que o Gato é um ser superior. Se ele se deitar sobre a roupa escura que vai vestir nesse dia e que deixou disponível em cima da cama enquanto foi tomar banho, aguente e não chore. Pense que assim todos saberão que tem um deus peludo em casa e admirá-lo-ão pela bravura com que enfrenta o desconhecido (e o terror) diário. Um rolo autocolante pode, em todo o caso, auxiliar bastante. Evite apenas que o Gato veja que se descarta assim do pêlo que ele, tão atenciosamente, quis colocar na sua roupa com o fim único de melhorá-la.

13.ª Regra - Se o Gato dormir consigo, adopte uma postura passiva e nada territorial relativamente ao espaço ocupado por cada um. Embora o Gato consiga ficar muito compacto ao enrolar-se de modo a reservar todo o calor, se lhe for possível ocupar 3/4 da cama e deixá-lo destapado, ele fá-lo-á só porque pode. Aguente resignadamente, pois o Gato é o dono de tudo o que possui, mesmo que lhe tenha sido oferecido pela sua mãe. A cama é dele, o colchão é dele, o cobertor é dele, você é dele. O caminho da resignação é o menos doloroso. O outro envolve arranhões e dentadas, por isso dói mais.

14.ª Regra - O Gato, ao contrário do cão, desconhece o advérbio de negação. Aliás, o Gato, quando ouve a palavra «Não!», padece de surdez temporária. Por isso, nem se esforce: deixe-o partir tudo. Uma decoração minimalista está sempre na moda e o Gato é que sabe. Alguma vez viu um gato fora de moda? Ora aí está.

15.ª Regra - Se vir o Gato em posição de ataque, barrique-se e ligue para um dos seus contactos de emergência: pode estar em perigo de vida. Se ele estiver em posição de ataque e o rabinho abanar de um lado para o outro, saiba que será imediatamente atacado sem qualquer misericórdia. Nesse momento, já não estando a tempo de fugir, limite-se a encomendar a sua alma ao criador, pois o Gato fá-lo-á em fanicos.

16.ª Regra - Se gosta de uma cama limpinha, de um chão imaculado, de um sofá sem cocós, limpe cuidadosa e diariamente a caixa de areia do Gato. Se não o fizer, estará implicitamente a conferir-lhe o direito de se aliviar na sua camisola favorita, na sua almofada, nos seus ténis ou na sua cara se o apanhar a dormir. Se não limpar a caixa de areia, evite dormir de boca aberta.

17.ª Regra - Não assuste o Gato. Além das pontas aguçadas, existem outras armas letais escondidas no Gato. Saiba que na parte traseira da entidade felina existem umas glândulas que expelem um pivete nauseabundo quando, por exemplo, o Gato é vítima de um susto. Se não quer ir trabalhar fedendo a bacalhau podre (o cheiro não sai facilmente), evite os sustos. Lembre-se de que ninguém acreditará quando disser «A culpa é do Gato.», pois todos sabem que ele é um ser superior e muito asseado.

18.ª Regra - Se não queria o sofá arranhado, não comprasse um. É do conhecimento geral que os sofás são arqui-inimigos do Gato e séculos de História têm mostrado batalhas infindas em que o Gato domina o sofá com o poder das suas unhas. Se o seu Gato descobriu o sofá, em vez de o trancar fora da sala, agradeça aos céus ele não ter descoberto as suas costas.

19.ª Regra - Certifique-se sempre de que o seu relógio não está a fazer reflexos na parede. Caso isso aconteça, tire o relógio ou ampute já a mão. Mais tarde ou mais cedo o Gato arrancar-lha-á.

20.ª Regra - Respeite o espaço do Gato. Se ele está a dormir, deixe-o dormir. Se ele está na caixa de areia, deixe-o estar. Faça-lhe festas quando ele pedir e apenas nos sítios certos. Brinque com ele e proporcione-lhe exercício que o deixe cansado, mas não prestes a cair para o lado. Dê-lhe água fresca todos os dias e comida, porque caso não tenha notado, ele não tem mãos para ir servir-se sozinho. E já que você mora em casa dele, então que sirva para alguma coisa e que trate daquela divindade peluda.

Cumpra escrupulosamente estas regras e ambos viverão em paz. Ou talvez não porque com o Gato nunca se sabe.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Prendas de casamento

Estive num autocarro onde duas senhoras com idades a rondar os sessenta anos conversavam sobre como a vida estava difícil. Uma delas, pelo que percebi, tinha inclusivamente o marido desempregado e queixava-se de que este mês estava a ser muito difícil porque apareceram despesas extraordinárias que a obrigaram a mexer nas poupanças que fizeram quando o marido ainda trabalhava. 

Ora, ambas as senhoras afirmaram que, ainda por cima, teriam dois casamentos este mês e que, embora não fossem gastar em roupa porque tinham de outros casamentos, precisariam de dar a prenda (dinheiro) aos noivos. A senhora que parecia passar mais dificuldades começou a dizer que não sabia quanto havia de dar, mas que menos de setenta ou oitenta euros por pessoa não podia ser, já que os noivos deveriam pagar em torno disso por cada convidado e se dessem menos, imagine-se o despautério, acabariam os noivos por estarem a pagar para os convidados irem ao casamento! Isto, para a senhora, não podia ser de modo algum e, portanto, chegou à conclusão de que menos de duzentos e cinquenta euros não poderia dar (por ela, pelo marido e pela filha, já emancipada e a viver com o namorado...). Terminou esta conversa dizendo que duzentos e cinquenta euros é muito dinheiro e que nesta altura da vida lhe fazem muita falta. 

O que eu vou dizer pode ir contra o que muitos pensam sobre presentes de casamento, mas é a minha opinião desde sempre e, por isso, a que tenho  aplicado ao longo do tempo (independentemente do que pensem de mim). Quando me convidam para um casamento, deduzo que seja por quererem ver-me lá. Muitas vezes vamos a festas a que nem apetece muito ir, porém vamos porque gostamos das pessoas que nos convidam. Ora, todos temos certamente outras coisas em que preferiríamos gastar o dinheiro: belas almoçaradas, viagens, roupas de que gostamos... Ou podemos, simplesmente, querer poupar o nosso dinheiro. 

Se um casal nos convida para um casamento e tem por intuito que cada um pague o seu lugar, isso pode levar a que acabemos a pagar umas centenas de euros, pois nós só pagamos, não vamos com os noivos aos restaurantes e quintas para escolher o que é mais barato. Portanto, é o sistema "eu-gosto-de-ti-e-quero-que-vás-ao-meu-casamento-mas-paga-o-que-o-restaurante-pede-e-não-bufes". Não concordo com isto e, portanto, não dou mais do que aquilo que quero e posso dar no momento, sendo que nunca chega sequer perto da centena de euros. Às vezes nem a metade. 

A meu ver e como disse, se me convidam é porque me querem ver lá e não é à espera de que lhes pague a festa e muito menos os devaneios que possam levá-los a optar por almoços de cem euros por pessoa. Porque se assim for, então prefiro pegar no dinheiro, no grupo das pessoas que me são mais próximas, e ir almoçar ou jantar onde mais quisermos. Não concordo que os convidados tenham implicitamente de pagar o que consomem. São convidados e os valores não são lá muito razoáveis. Principalmente quando se trata de uma família de três ou quatro pessoas. Os ordenados não são assim tão altos para que tenhamos vontade de entregar metade (ou mais) do salário de um mês aos noivos que nos convidaram para o seu casamento. Por isso, não dou mesmo aquilo que outros costumam oferecer, fazendo tantas vezes sacrifícios inaceitáveis. Prefiro nem ir do que fazer isso. Há muitos projectos que fazemos para o nosso dinheiro e por vezes até os vamos adiando, adiando porque não queremos gastá-lo. Ora, parece-me
injusto que não façamos aquilo que gostaríamos de fazer para depois pagar o nosso lugar quando fomos convidados para estar lá. 

Podem até dizer-me "Ah e tal, mas nas festas de aniversário acontece o mesmo."  Pois, mas geralmente um jantar de aniversário não chega nem ultrapassa os oitenta euros por pessoa, como a maior parte dos casamentos. Se der na cabeça dos noivos de fazerem a festa num local que peça duzentos euros por pessoa (baseando-se na ideia de que os convidados pagam) tenho de pagar e calar? Não. Prefiro pegar nos duzentos euros e fazer outra coisa com eles, então. Algo comigo ou com os que me são mais próximos. 

Bem sei que a minha opinião vai contra o que é costume, mas não me importa. O dinheiro custa a ganhar e pagar as festas de outros não me parece forma de gastá-lo. Dar alguma coisa, tudo bem. Pagar integralmente o que consumo numa festa para a qual fui convidada e sobre a qual não tive voto na matéria é coisa com a qual não concordo. E muita gente também não aprecia por aí além este sistema, mas não vai contra ele porque parece mal dar menos do que aquilo que os noivos vão pagar. Não me levem a mal, mas se não há dinheiro para casar, não casem. Não acho bem é que o façam a contar que os convidados paguem a boda. Então as pessoas andam a evitar tantas despesas para depois acabarem a entregar centenas de euros para pagar um almoço em que nem a ementa puderam escolher? Parece-me que essa forma de pensar implica contar com o ovo naquela parte da galinha. Tantas vezes que já me perguntaram quando casaria e me disseram que o que os convidados dão paga o casamento e ainda sobra dinheiro! Como não concordo com isso, não caso, a menos que tenha dinheiro para pagar tudo e que os convidados não se sintam obrigados a pagar o que consomem. 

Portanto, não há casamento no horizonte.