domingo, 26 de maio de 2013

Televisão

É só a mim que esta peregrina ideia de pôr gente mais ou menos famosa a arrumar-se pomposamente para dentro de uma piscina parece uma coisinha para lá de desinteressante? Mas o que me interessa a mim ver A ou B a mergulhar na piscina? Tanto quanto ver C ou D a atirar postas de pescada para o ar numa certa casa filmada do canal concorrente...

Na minha opinião, cada vez é mais difícil suportar a televisão. Os programas passam-nos um atestado de estupidez diário e muitos de nós permitimo-lo ao ligarmos a tv e ficarmos especados diante dela, engolindo a porcaria que nos vão dando. Mesmo os canais da cabo, muitos deles com potencial para serem melhorzitos, enchem-nos os dias com futilidades e com parvoíces de todo o tamanho. "Ah, não há mais nada.", é o argumento que vai fazendo com que muitos acabem a consumir programas como este da piscina ou como outros reality shows. O problema é que essa é a luz verde de que quem faz essas coisas precisa para continuar a fazê-las. Se não dá nada melhor, não vejo televisão e pronto. Felizmente ainda existe mais mundo para além dessa caixa outrora revolucionária.

As novas prendas dos Reis Magos

Considerando as crianças de hoje em dia e o modo como são encarados todos os pormenores da sua personalidade (uma criança irrequieta e, por vezes, mal educada é logo hiperactiva a precisar de medicação; uma criança distraída tem sem dúvida défice de atenção e deve ser medicada; uma criança que faz birras por excesso de mimo precisa imediatamente de consultas de psiquiatria e, por fim, um miúdo a quem custe perceber as contas de dividir necessita logo de um PEI [Plano Educativo Individual]).
 
Vai daí e lembrei-me de que se o Menino Jesus tivesse nascido hoje e se os três Reis Magos aparecessem com presentes, estes seriam:
 
1. Caixas de ritalina;
2. Um pack de cinco consultas mensais num pedopsiquiatra;
3. A elaboração de um PEI que acompanhe o Menino ao longo da escolaridade obrigatória.

Uma Parte do Todo


Comecei este. Sessenta páginas já foram. Estou a gostar. Depois conto como foi, mas ainda vai demorar que este menino é bastante gordinho...

Paraíso Inabitado: o balanço

Terminei hoje a leitura do livro Paraíso Inacabado, de Ana María Matute. O balanço que faço é muito positivo. É um livro muito bonito e fiquei curiosa para ler outros textos desta autora, uma vez que gostava de perceber se a sua escrita é sempre assim tão poética, tão admiravelmente bonita. A infância que ali é retratada nas personagens de Adri e de Gavi contrasta com o que era esperado, ou aceite, em meninos de classes económicas mais elevadas. Aquelas crianças eram verdadeiramente crianças: sonhadoras, curiosas, espertas, irreverentes e com uma capacidade de criar um mundo próprio muito única. Por outro lado, o que a sociedade esperava era outra coisa: crianças mais parecidas com adultos, sossegadas, quietas, sem espírito crítico, exemplares até ao aborrecimento.
 
Ao longo do livro entramos no mundo onírico de Adri e na amizade/amor que cria com um menino de origem russa que mora no seu prédio. Com ele partilha tudo o que não pode partilhar com mais ninguém. Vivem dias de verdadeira alegria, embora cada um tenha uma infância cheia de pormenores complicados para suportar. Porém, um com o outro são felizes, ainda que haja quem não veja aquela amizade infantil com bons olhos.
 
O leitor percebe, desde cedo, que alguma coisa grave estará para acontecer. No meio de tanta inocência, uma sombra atravessa todo o livro. Assistimos ao crescimento de Adri, às descobertas que faz e, acreditem, sofremos com ela. É que, embora nem todos tenhamos sido tão sonhadores como ela, há pequenos pontos que nos recordam a nossa própria infância e a nossa capacidade de inventar mundos a partir dos objectos quotidianos dos adultos. Por isso, porque há um pouco desta menina em cada um dos adultos que lê o livro, compreendemos dolorosamente a vida que lhe é dada viver, mas que ela contraria com o seu jeito infantil e sonhador.
 
De facto, é um livro que vale a pena. É viciante. Há frases de enorme beleza e, portanto, é um texto que vale pelo seu conteúdo e pela sua forma. Deixo-vos uma pequena passagem que considerei particularmente bonita. É um momento em que Adri tem de decidir se regressa a um lugar cheio de memórias felizes, utilizando uma chave que lhe foi dada para isso mesmo: para voltar e continuar, como puder, o sonho que ali viveu. Creio que falará directamente a todos os que já perderam alguém.
 
«Como há anos, guardando agora a chave na mão fechada, fui em busca do Unicórnio e dos fulgores cristalinos das aranhas. Não sabia se a devia utilizar. Histórias de chaves perigosas, cheias de mistério, embrulhavam-se na minha mente, lutavam entre o desejo e o medo. A imagem da chave suja de sangue, que a mulher do Barba Azul tentava limpar com areia, repetia-se sucessivamente. E a esperança de encontrar lá em cima qualquer coisa, nem que fosse um simples vestígio que roubasse a credibilidade à sua ausência, empurrava-me. Eu própria, sentada na cama, apertando a chave na mão, via-me minimizada, uma figura diminuta na grande solidão de um amor que não podia partilhar, que não sabia já onde pôr.»

Título: Paraíso Inabitado
Autora: Ana María Matute
Editora: Planeta
Ano: 2009
Páginas: 302

sábado, 25 de maio de 2013

As novas doenças mentais

Na capa do Expresso surge hoje uma pequena notícia que me arrepiou os cabelinhos todos: "Ciúme, gula e birra passam a ser doenças mentais". Isto porque passarão a figurar como distúrbios num manual muito importante da psiquiatria. Portanto, um miúdo que faça três birras por semana passará a ser um doente mental. E o mal que isto soa?

Portanto deduzo que a mítica e saudosa palmada no rabo será substituída por medicamentos que dopem o suficiente para nenhum miúdo se lembrar de uma birra no supermercado. Está certo... Se é assim que querem, cá estaremos para ver os resultados de tamanha imbecilidade. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A ervilha mirrada e a honestidade

Isto de ter andado em Letras torna a Feira do Livro no local de todos os encontros. Nos primeiros cinco minutos já tinha encontrado três pessoas que fizeram cursos em Letras na mesma altura que eu. Bom, o engraçado da história foi que a primeira pessoa que vi foi uma moça execrável, mais burra que a parede norte cá da habitação e infantil até à quinta casa. Na faculdade detestava-me a mim e a outra colega minha e, portanto, falava nas nossas costas, ria-se quando passávamos, incitava outros colegas a ignorarem-nos, enfim, merdas que universitárias não deviam já fazer, mas que ainda sucedem quando se trata de espantalhos com o cérebro do tamanho de uma ervilha mirrada.
 
A segunda pessoa que encontrei estava uns passinhos mais à frente. Foi minha colega, uma das primeiras que conheci, conversámos algumas vezes, mas nunca fomos amigas no verdadeiro sentido do termo. Quando nos encontramos trocamos umas palavras, mas só isso. Quando a vi hoje espantei-me porque não esperava vê-la a trabalhar numa editora. Conversámos um bocadinho e eu manifestei-lhe a minha surpresa por vê-la ali. Aí a conversa ficou muito mais gira. Ela respondeu:
 
- Sim, eu estou aqui porque estou nesta editora há mais ou menos um ano e meio. E a A. M. está ali mais abaixo.
 
Olhei para a zona para onde ela apontou e de onde eu vinha e respondi, muito calmamente:
 
- Pois, eu vi... Mas como na faculdade ela não me gramava a mim, eu também não a suporto a ela e ficamos assim.
 
A minha interlocutora olhou para mim durante uns segundos (acho que as mulheres já se vão desabituando destas honestidades, andamos sempre a fingir que nos adoramos umas às outras), assentiu, disse «É justo» e prosseguimos a conversa típica de quem já não se vê há muito tempo.
 
Moral da história: o bem que sabe chegar a certa altura e já não ter problemas nenhuns em apontar como monte de merda quem indiscutivelmente o é. O tempo de fingir que somos todas as melhores amigas, ainda que nos estejam a enfiar uma faca pelas costas dentro, acabou, ficou na adolescência e nos tempos da licenciatura. Depois disso, lamento, mas digo tudo, tudo, tudo. Já perdi muitos amigos a sério para ter de sentir-me na obrigação de apaparicar quem nunca me será nada para além de uma memória por quem sinto dó.

Já abriu


E abriu! Podemos descansar todos que já cá temos a Feira do Livro de Lisboa outra vez. Claro que hoje, quando saí da escola, dei lá um pulinho. Já lá fui em outros primeiros dias e fiquei mais impressionada do que desta vez. Nos pavilhões dos grandes grupos editoriais nem se chega a perceber em que difere o desconto da feira do que já é feito nas livrarias e hipermercados ao longo do ano. Dez porcento a menos no preço de capa também eu consigo noutros sítios sem precisar de ir à Feira, mas enfim. Claro que não podem pôr todos os livros ao preço da uva mijona, mas há obras já publicadas há tantos anos e que de edição para edição têm tido, na Feira, sempre um preço alto de mais para aquilo que estamos efectivamente dispostos a pagar. Que se cobrem bem no que é relativamente recente, ainda percebo, mas que exagerem no que já está manifestamente envelhecido, é abuso.
 
Onde notei mais os descontos foi nas pequenas editoras. Aí sim encontramos pechinchas que valem a pena. Por exemplo, só não me desgracei na Cavalo de Ferro porque o multibanco não estava a funcionar. Mas amanhã voltarei (e com companhia), por isso tratarei do assunto nessa altura.
 
Visitem a Feira, passeiem, comprem o que puderem e leiam. Leiam muito!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Lembrete

Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.
Esta semana começa a Feira do Livro.

E é isto que gostava de recordar.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Do primeiro amor

Um dos meus alunos é tão giro que tem, praticamente, toda a escola apaixonada por ele. Mas ele gosta só de uma menina, que eu bem sei e ele não mo esconde. O problema é que o desgraçado não tem sossego nos intervalos porque tem umas seis ou sete malucas a correr desalmadamente atrás dele e a gritar-lhe sonoramente aos ouvidos. A ideia delas é mais ou menos algo como "Se eu o ensurdecer e enlouquecer, talvez ele repare em mim". Não tem resultado.

Entretanto, a menina de quem ele gosta mesmo e que desconfio que também o adora vai andando por ali muito discretamente. Tanto que quase nem se dá por ela. Vai mantendo a histeria feminina das outras debaixo de olho, bem como as corridas de fuga em desespero que ele dá à frente das fãs, mas sempre muito graciosamente. Quase nem se dá por ela.

Mas ele apercebe-se, que não é parvo nenhum. E esta tarde resolveu dar-lhe um beijo. Melhor: resolveu roubar-lhe um. No meio do campo de futebol dirigiu-se a ela e, numa fracção de segundo, chegou a boca dele à dela, para desespero do resto das outras apaixonadas. E depois? Depois a menina de quem ele gosta virou a cara para escapar ao beijo (é assim mesmo, faz-te de difícil, pá) e, ao fazê-lo, mordeu a língua (a dela, felizmente). Resultado: a tentativa de roubar um primeiro beijinho levou a menina em lágrimas para junto de uma das auxiliares, perguntando se a língua estava bem porque a tinha mordido muito.

Ele lá deve ter ido para casa todo pimpão e tenho para mim que esta noite lhe vai parecer longa como tudo e que o amanhã nunca mais chega.

sábado, 18 de maio de 2013

Para ti, por hoje

Para ti, por hoje

Num dia como o de hoje, falar em orgulho é pouco. Dizer que te admiro também. Desejar-te um caminho cheio de sucessos também não me chega. Num dia como o que agora acaba é que vejo que as palavras são verdadeiramente poucas para certas coisas que acontecem e que se sentem cá dentro, bem cá dentro, tão cá dentro que chega a doer. Descobri hoje e contigo que as palavras são poucas para tudo: puxam-se para tapar a cabeça e destapam-nos os pés. Neste caso fiquei de coração destapado à procura das palavras mais certas para dizer-te tudo o que importava. E nada.
 
Além de tudo o que foi o dia de hoje, fiz esta gigantesca descoberta: as palavras que nunca me faltaram são afinal poucas para ti e para tudo o que ainda tenho para te dizer. Sim, estou orgulhosa; sim, estou feliz por ti; sim, gosto de ver-te chegar onde querias estar; sim, admiro-te muito. Mas há mais, há muito mais que não consigo dizer nem com a ajuda de um dicionário, nem com um prontuário, nem com toda a pontuação do mundo. Num dia como o de hoje só posso esperar que o silêncio cubra aquilo que as palavras não dizem e que chegue mais longe do que a meia dúzia de coisas que acabo por, toscamente, exclamar.
 
E por isso espero que o meu silêncio e as minhas palavras te mostrem, hoje e em qualquer dia, que aqui estive, estou e estarei para mais caminhadas como a que agora vai terminando. Longas, extenuantes, difíceis, assustadoras ou mais suaves, agradáveis e simples. Estou cá para todas desde que sejam contigo. Com palavras ou sem elas, aqui estou; aqui estamos.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Orgulho

Admito que dá um gozo enorme saber que um aluno meu recebeu uma menção honrosa e um prémio num concurso de escrita no qual participou com a minha ajuda. É um orgulho gigantesco! Até que enfim uma boa notícia.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Promissor

Este número do JL é muito promissor. A capa dá vontade de sair a correr para ir comprar o jornal e lê-lo de uma assentada. Além do destaque para um pensador como Eduardo Lourenço, fica a promessa de um folhetim (à moda antiga) e de novidades sobre a Feira do Livro (que é o que todos queremos). Tenha eu tempo de o ir comprar e cá virá parar. Para abrir o apetite, fica a capa:

sábado, 11 de maio de 2013

Sai um chazinho calmante

Estou de castigo a corrigir testes e já vi pérolas indescritíveis, mas resolvi partilhar esta em particular convosco.

Num teste do quinto ano coloquei a pergunta "A quem interessam as indicações cénicas iniciais?". Fora o facto de poucos terem percebido que convinham aos atores que representassem a peça e ao encenador, uma menina, tendo o enunciado à vista enquanto fazia o teste, começou a sua resposta assim: "As indicações cénicas enterreçam...".

Se há coisa que me enerva é verificar que os alunos deixam passar as oportunidades que lhes dão. Errar numa palavra que não está escrita à sua frente, com a idade deles, até se compreende (embora com um nó na garganta); errar em praticamente todas as sílabas de uma palavra que estava escrita em letra Cambria de tamanho 12 no enunciado já é coisa para arrancar cabelos. 

A propósito, segundo um aluno meu, quem escreve peças de teatro é um "dramaturco". Deve ser um turco que faz grandes dramas. Sai um chá calmante de tamanho XXL...

Paraíso Inabitado

Estou a gostar muito, muito deste livro da Ana Maria Matute. Paraíso Inabitado narra as memórias da infância mágica de uma menina chamada Adriana. Incompreendida, anã em terra de gigantes (o nome que atribui aos adultos), é constantemente comparada com a irmã mais velha, a certinha Cristina. Adriana gosta de se esconder, de olhar os pormenores, de inventar mundos, de ouvir e de criar histórias, gosta do silêncio e é de poucas palavra. Por isso é, aos olhos da mãe e da maioria dos outros adultos, uma menina "má". Felizmente há alguém que a sabe escutar e que percebe que sob aquela diferença toda está uma menina espertíssima e muito especial.

Nunca tinha lido nada desta autora, mas estou a gostar bastante desta história tão acolhedora e tão bem escrita. Experimentamos ver o mundo pelos olhos desta criança que se esgueira pela casa para espreitar sombras e para ouvir as palavras dos outros não por maldade, mas por curiosidade. Adriana vê um mundo muito diferente daquele que todos nós vemos. Encontra fantasia no muito que vê e, já que ninguém lhe explica nada, ela própria busca as explicações de que precisa para continuar. Vê unicórnios nas suas escapadelas nocturnas pela casa e vê uma infinidade de possibilidades num castigo no quarto escuro. De repente a menina punida sente-se uma exploradora, criadora de novos mundos que vai inventando e sentindo. Muito como ela é a tia Eduarda, irmã da mãe, e a única que a entende. Estou ansiosa para ver o que vai acontecer com esta criança e com a sua infância tão (perdoem-me o pleonasmo) infantil e tão diferente de muitas das infâncias de hoje, tão parcas em sonhos e imaginação, tão ricas em jogos de computador e futilidades.


Bravo!

Belíssima capa! Adoro!