sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Feliz e recheado Dia do Gato!

Por ironia do destino, hoje, que dizem ser o Dia do Gato, chegou a encomenda de comida para os felinos que por cá moram. A satisfação e a curiosidade são evidentes. Ainda bem: querem-se gatinhos felizes e faz-se por isso. Missão cumprida: despensa felina reabastecida (e com um pratinho de cerâmica de oferta)!


(Estão a cheirar os sacos errados. Devem querer saber o que o outro come...)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Se o olhar matasse...

...esta quixotada não existiria.

Hoje precisei de apanhar um autocarro.  Quando cheguei à paragem da Carris, verifiquei que estavam três pessoas sentadas no banco: uma idosa que conversava com outra de meia idade sobre doenças e uma terceira que assistia de forma coscuvilheira ao que as outras diziam, mas que teria sensivelmente a minha idade. Fiquei de pé junto a um dos suportes da paragem, mas de repente percebo que antes de mim tinha chegado uma senhora idosa apoiada numa bengala que aguardava de pé. Olhei com atenção para o banco para tentar perceber o que se passava e, sem compreender, disse à senhora que ela devia estar sentada. Ela olhou para mim com muita tristeza e disse que sabia disso "mas as pessoas...".

Achei inacreditável que neste mundo de bosta já ninguém veja os mais velhos, ninguém, muito convenientemente, enxergue uma bengala. Dirigi-me à moça que teria a minha idade e disse "Desculpe, mas esta senhora precisa de sentar-se."  Ela levantou-se e pediu desculpas, afirmou que não viu. A senhora lá se sentou, finalmente.

A moça que se levantara veio pôr-se de pé ao meu lado. Olhou para mim e eu sorri-lhe. Que fazer? Sou uma afável sem remédio. Mas de volta tive um olhar capaz de gelar o sangue a alguém que não se estivesse largamente a borrifar para uma pessoa tão parva. Aquele olhar dizia qualquer coisa do género "Sua vaca, fizeste-me ficar de pé!!!". Foi cena digna de ser filmada. Bem, pouco me interessa. A senhora ficou sentada e isso é que é importante. Com as raivinhas miúdas posso eu bem.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Pedido de desculpas e explicação merecida

Andei a reler algumas das minhas respostas aos vossos comentários aqui no blogue e deparei-me com umas quantas gralhas. Para mim, que odeio esse tipo de coisas, é importante pedir-vos desculpa e dar-vos a merecida explicação, se é que existe tal coisa para tamanha idiotice. Tenho sido tão rápida a publicar e responder aos vossos comentários porque o tenho feito a partir do telemóvel. E digamos que, ainda que seja um "telemóvel esperto", não é daqueles que tem um ecrã semelhante ao da sala de cinema IMAX, no Colombo. Depois, correr o texto escrito num comentário para cima e para baixo no telemóvel é uma tortura, pelo que na maioria das vezes tenho publicado as minhas respostas sem as reler. Não desculpa o terror da coisa, mas ficam a saber que eu dei pelas gralhas e que só não me irrito mais porque sei que são resultado da minha pouca vontade de estar sempre a ir ao computador fazer as coisas em condições e não do mau domínio da língua. Desculpem-me, sim? 

Peculiaridades de um leitor IV

Os vossos comentários a esta série de quixotadas a que pomposamente chamei «Peculiaridades de um leitor» têm-me feito pensar noutras particularidades de que falar. Ou seja, o vosso contributo, mesmo que nem dêem conta de que estão a dar-me ideias, é fundamental. Aquilo de que vou falar hoje nasce, precisamente, de um dos comentários que foi feito neste blogue, que desde já agradeço.

Todos nós temos as nossas manias para tudo na vida. Não apenas para a leitura e para os livros, mas para outros aspectos. Fazemos as coisas à nossa maneira, como nos dão prazer, mesmo que aos olhos dos outros soem a picuinhices. Para nós tem de ser assim e é importante manter esses hábitos. Quebrá-los pode até causar-nos alguma instabilidade. Mas, enfim, aquilo de que vos vou falar pode ser tanto uma mania quanto um método de leitura em que uns agem de uma maneira e outros de outra. Trata-se da leitura de uma obra que se divide em diferentes volumes.

Uma coisa que as editoras portuguesas adoram fazer, já o disse neste blogue, é partir livros em volumes. Isso faz com que cheguemos a Espanha ou ao Reino Unido e encontremos livros de mil páginas e aqui não. Aqui divide-se em volumes e geralmente pagamos bastante bem por eles. Ora, é fácil perceber que partir um livro em diferentes tomos tem influência sobre a nossa leitura. Reparem: se eu transportar comigo todo o livro, por exemplo, quando vou para o trabalho (como eu fazia, lendo nos autocarros), provavelmente só o devolverei à prateleira quando o terminar. Porém, se o livro estiver dividido em volumes, posso chegar ao final do primeiro, arrumá-lo na prateleira e não pegar imediatamente no segundo. Fazer uma pausa, respirar entre a leitura dos tomos da mesma obra. Raramente o fazemos durante a leitura de um livro que só tem um volume e quando o fazemos é sinal de que não estamos a gostar lá muito.

Portanto, perante obras divididas em volumes há duas maneiras de agir: ler todos os livros de uma assentada ou ler um volume, depois outro livro que não tenha nada que ver, voltar ao segundo volume, depois tornar a ler outra coisa. Enfim, ou assumimos a leitura da obra como uma missão a cumprir e não permitimos que nenhuma outra se interponha no caminho até à página onde tudo termina, ou vamos lendo os volumes ao sabor da vontade, descansando das personagens e lendo sobre outras noutros livros ou mesmo lendo livros de outros géneros.

Aqui me confesso: sou do segundo tipo. A obra pode ter mil páginas que eu aguento e leio-a de seguida, mas se estiver dividida em volumes raramente pego no segundo logo a seguir ao primeiro. A psicologia deve explicar isto, porém eu não sei fazê-lo. É como se precisasse de respirar entre os volumes. É disparate? É. Esqueço-me de pormenores entre o primeiro e o segundo volume quando passa muito tempo entre a leitura de um e do outro? Sim. Chegam a passar-se anos até pegar no segundo volume? Sim. E se a obra tiver mais do que dois volumes? Nem vos conto... É uma vida até a acabar. Foi assim com O Manuscrito Encontrado em Saragoça, cujo segundo volume ainda me aguarda; foi assim com A Família Forsyte (faltam dois volumes); foi assim com Os Pilares da Terra (em que não pegarei mais porque aquilo é uma porcaria). Enfim, são peculiaridades de um leitor, as tais que fazem com que todos sejamos diferentes mesmo quando fazemos a mesma coisa. Reparem: ler tudo de seguida não significa que a leitura seja uma obsessão, nada disso. Proceder de um ou de outro modo tem que ver, apenas, com uma maneira particular de organizar as coisas na nossa cabeça. Ler tudo de seguida significa que toda a obra ficará arrumada no nosso cérebro de forma, talvez, mais consistente, sem grande perda de pormenores. Lemos tudo e só paramos mesmo no fim, ficando desde logo com todo o conhecimento sobre o texto e com a possibilidade de o criticar na totalidade, de falar dele sabendo exactamente o que dizer. Mais: podemos dizer com toda a razão que lemos a obra A ou a obra B inteira. Ao lermos os volumes como eu, perdem-se algumas coisas pelo caminho, até porque pelo meio se vão cruzar outras leituras. Os momentos da vida em que vou ler um ou outro tomo também vão ser diferentes e isso, como vos disse ontem no texto sobre Os Maias, também influencia a nossa relação com o texto.

O que mais uma vez importa é que não há uma maneira certa ou errada de ler uma obra dividida em volumes. Há aquilo que nos deixa confortáveis. Eu fico confortável dando um tempo entre as leituras, mesmo que isso signifique ter uma experiência que deixará de fora pormenores que, inevitavelmente, serão esquecidos. Na leitura é isso mesmo que interessa: conforto. Temos de estar bem. Ler num banco de pedra também não é o mesmo que ler na esplanada ou na cama. Ler no autocarro não é o mesmo que ler numa espreguiçadeira à beira da piscina. Todos estes factores influenciam a nossa leitura e o conforto não tem apenas que ver com o sítio onde o nosso rabiosque está pousado enquanto lemos. Tem que ver com muitas mais coisas e é fundamental para que continuemos sempre a ser leitores.

A Menina Quer Isto LXXXI

Sempre que a menina vai a uma livraria, desgraça-se. Não financeiramente, que os tempos de desemprego não o permitem, mas em formato de lista que vai ganhando tamanho, temendo-se o dia em que ganhe também consistência de livro(s)... Bom, no fim de semana lá passámos por uma e acrescentei uns itens ao que agora quero ler. Mais ainda: tenho andado a ver no RTP Player os programas de «Os Livros» (passa ao fim-de-semana na RTP3) que ainda não tinha visto. Resultado: pumba, já quero mais uns quantos. Isto assim não é vida, senhores! Isto é borgiano! Só Borges explicaria esta capacidade imensa para puxar um livro atrás de outro e de outro até se viver num labirinto de volumes que, longe de nos asfixiarem, funcionam como ar puro nas nossas vidas. Como  se de uma janela para fora de tudo se tratasse.

Enfim, agora a menina quer isto:






Ou me sai o Euromilhões depressa ou não sei o que será de mim!

Nota: As imagens saíram, como se vê, da página da Wook.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Os Maias - o balanço

Fazer um balanço de uma obra que se releu é algo diferente, porém realizável. É como aquele dito que afirma que não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio. De facto, a experiência de releitura é mesmo essa: a nossa vida mudou de uma leitura para a outra, a idade trouxe maior maturidade (espera-se), vimos mais coisas, experimentámos mais emoções... Portanto, é impossível que a obra lida (parcialmente) aos quinze anos, (totalmente) aos vinte e cinco e relida aos trinta e um não seja sempre diferente.

Os Maias é aquele romance que nunca nos desilude e no qual encontramos sempre um pormenor novo ao qual prestar atenção. No arrebatamento da adolescência, estamos com Carlos Eduardo e com Maria Eduarda na ideia da fuga romântica para Itália; mas com a idade, pende-nos o coração para o pobre Afonso da Maia, cuja vida dedicada àquele neto não seria digna de tamanha ingratidão. Olham-se as coisas de modo diferente, claro. Mas reler Os Maias é, simultaneamente, como fazer uma visita a um lugar que conhecemos bem e que, por isso mesmo, temos como acolhedor. Não é livro que cause aborrecimento por ser lido pela segunda ou pela terceira vez. É, de facto, romance capaz de deixar memória de muitos acontecimentos, mas de esconder nas sombras do esquecimento pequenas graçolas, ditos inspirados do narrador, imagens descritas com aparente candura, mas com infinita ironia. Recuperá-las é uma experiência quase tão boa como conhecê-las pela primeira vez. Se quando pegamos em Os Maias para a leitura inaugural, importa-nos sobretudo como acabará aquela família a quem «sempre foram fatais as paredes do Ramalhete», para onde se mudam logo no princípio da obra, nas releituras que se seguirão, o olhar espalha-se e as finanças e o jornalismo portugueses, as soirées, os saraus literários, as corridas de cavalos e, enfim, os aspectos próprios de um Portugal romântico ganham nova importância.

Lamento muito que a maior parte dos nossos alunos chegue hoje ao décimo primeiro ano incapaz de ler este romance. Mas compreendo que assim seja, pois já antes isso sucedia. Os Maias é um romance maravilhoso, mas os quinze anos mostram-se curtos para chegar mais longe do que à ideia de que é a história de um tipo que dorme (para não dizer pior) com a irmã. E portanto perde-se muito do que Eça ali escreveu. Fica, gravada em alguns, a ideia de que o livro é «uma seca» e a vontade de nunca mais ouvir falar dele. É pena. E, ou muito me engano, ou isto será cada vez mais grave, ao ponto de a maioria dos alunos não ler nada do que se lhes pede no secundário e ponto final. Dos testemunhos que vou ouvindo, é para isso que vamos caminhando.

Calculo que todos os sete leitores deste blogue já tenham lido Os Maias. Mas aquilo que vos convido agora a fazer é a reler a obra. A procurar nos seus cantinhos o que a torna particularmente especial, a procurar os detalhes que fazem com que não seja só mesmo a paixão de Carlos e Maria Eduarda a fazer história, releiam com gozo, sem obrigação, com calma e saboreiem deliciadamente este bom pedaço de prosa que um dos melhores nos legou. Apreciem o adjectivo geometricamente colocado, o advérbio expressivo capaz de mudar toda uma imagem, o recurso estilístico que, no meio do restante texto, consegue revelar-nos o ridículo de uma situação aparentemente séria. E reparem, como desta vez resolvi reparar, nos inúmeros indícios que o narrador nos deixa de que tudo correrá mal. São tantos que é impossível não os ver, sejam eles bordados numa tapeçaria ou estejam em flores que morrem numa jarra. Enfim, releiam este nosso romance e notem vocês também que o tempo vos mudou a forma de ver as coisas e de ler os livros. É uma experiência e tanto.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Segunda-feira horribilis

Hoje não me sinto bem. Devo ter comido qualquer coisa que não me caiu como devia e sinto-me enjoada e com dores de estômago. Tinha coisas para fazer hoje, mas parece que me passou uma carroça com uma parelha de burros por cima. Estou desde ontem à noite com quase nada no estômago. Não saí do sofá o dia todo. 

Mas como sou criatura de grande sorte, além de haver uma namorada ciumenta no prédio do lado e uma vizinha mouca que grita muito no andar de baixo, agora os vizinhos de cima estão a remodelar a casa de banho e, portanto, estou desde as oito da manhã a ouvi-los arrancarem pomposamente os azulejos e o chão com todo o barulho que isso implica. Portanto, sinto-me mal desde a madrugada, deixei de conseguir dormir às sete e pouco, deixei de fazer o que tinha a fazer porque me sentia mal e muito dorida, para acabar por ficar no sofá a tapar os ouvidos. Os gatos passaram de tal forma a tarde a desesperar comigo que, depois das cinco, quando os obreiros pararam a jornada de hoje, a gatica desabou na cadeira do escritório e adormeceu, finalmente, aconchegada amorosamente pelo Senhor Gato. Ele, como bom machinho que é, aproveitou logo o silêncio para cair num sono tão invejável que até ressona e consigo ouvi-lo do sofá onde continuo deitada. 

Foi, portanto, uma segunda-feira ainda mais asquerosa do que já são por natureza todas as segundas-feiras. Eu mereço...


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sem assunto

E o preço a que está a curgete, han? Não tarda teremos de voltar a «embatatar» as sopas novamente. Não há direito. 

A imagem saiu daqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXX


Ontem li, em dois textos diferentes, rasgados elogios a este novo livro de Mário Cláudio. Ainda só está em pré-venda, pelo que o correcto seria «A menina quererá isto», mas fica a ideia. Entretanto dei um pulo à página da Wook e vi a sinopse do livro, que podem consultar aqui.

Considerando que a vida de Camões é um mistério, que são mais os buracos que encontramos na sua biografia do que os factos inequivocamente provados, é sempre possível imaginar-lhe novos rumos, ou melhor, outros rumos além daqueles que preenchem as narrativas sobre a sua vida. Camões é hoje mito nacional e a imagem do poeta de pena e espada que consegue salvar a sua obra-prima de um naufrágio é muito renascentista, mas também muito romântica. Camões tornou-se o patriótico por excelência, mesmo tendo passado uma epopeia inteira a apontar aspectos a melhorar em Portugal e nos portugueses. Muito ainda se pode escrever sobre ele, pois uma vida envolta em mistério (nem se sabe quando e onde nasceu) deixa muito, mas muito espaço à imaginação. No ano passado, julgo, a Maria João Lopo de Carvalho escreveu um romance sobre as mulheres da vida de Camões. Bom, não li e por isso não comento, mas tendo a preferir o estilo do Mário Cláudio. Contudo, não é isso que me importa. O que interessa é que aqui está mais um livro que procura inventar outros desfechos para o nosso, acho eu, maior poeta de sempre (vá, pessoanos, atirem-me com tomates!). Mas sobre Camões, o texto que ainda hoje consegue, a meu ver, evocar aquilo que foi a sua vida e a memória que haveria de ficar é o poema de Jorge de Sena intitulado «Camões dirige-se aos seus contemporâneos». Creio que é brilhante, mostra a enormidade do homem que nos deu uma epopeia e que viveu e morreu na miséria, nada apreciado pelos outros autores do seu tempo. Mesmo sendo sobejamente conhecido, deixo-vos aqui o poema que é, como tudo o que saiu da cabeça de Jorge de Sena, absolutamente certeiro e maravilhoso. É por poemas assim que adoro literatura, que adoro livros, que adoro o muito que se pode fazer com as palavras. 


Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos, 
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável 
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos, 
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O oráculo

Se um dia destes precisarem de saber com um alto grau de certeza se vai chover ou não nesse dia, perguntem-me que eu respondo e acerto. O método é simples: se eu tiver roupa estendida ou se for estender roupa, choverá com certeza; se não tiver roupa a secar, estará um sol de fazer inveja a qualquer mês de Agosto. A sério, não falha. Estou até a ponderar oferecer os meus serviços ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Nem preciso de muito material para trabalhar: bastam umas cuecas e um parzinho de meias na corda e puf!, a chuva aparece. Era ou não uma boa contratação?

Muito melhor que as dores nos ossos e articulações de algumas senhoras que acreditam ter um meteorologista em cada joanete, a minha roupa a secar é quase um Oráculo de Delfos! Ainda vou fazer disto vida, meninos, tomem nota: ainda me faço grande à conta da roupa molhada!

A Menina Quer Isto LXXIX


É um curto romance publicado pela Colibri, no qual Cervantes, já no leito de morte, é visitado por Dom Quixote e ambos conversam. Sendo que Dom Quixote viveu dentro dos sonhos de Cervantes e que depois o próprio Cervantes viveu dentro da sua personagem quando esta ganhou asas e fama, passando a voar sozinha, não é difícil perceber de onde virá o título. Mais: quando Cervantes morre, em Abril de 1616, já ele dera a morte à sua personagem na segunda parte da obra, publicada no ano anterior. Porém, as personagens não perdem a vida. Ganham-na enquanto restarem no papel e na memória e é por isso que nesta ficção, o autor moribundo pode discutir vários temas que lhe foram queridos com a sua mais querida criação.

O livro tem um prefácio escrito por Mário de Carvalho e parece-me desejoso de pular aqui para a estante dedicada aos Quixotes. Portanto, a menina quer isto. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Jogos para gatos

Sim, isto existe, é só procurarem no YouTube. E o Senhor Gato está fã. Estão a ver aqueles pais que entretêm os filhos com os tablets? Pronto, eu tenho o gato a passar pelo mesmo.


Duas mãos direitas no cabelo

Quando me cruzo com aqueles tutoriais em que uma menina nos ensina a fazermos penteados a nós mesmas, fazendo tranças e trancinhas sem precisar de espelhos e sem que um único cabelo fique fora do sítio, não consigo deixar de pensar que nasci com duas mãos esquerdas. Bem, considerando que sou canhota, talvez tenha nascido com duas mãos direitas. É que eu consigo fazer asneira até com um reles e canónico rabo de cavalo. O que faria eu de cabeça para baixo a bazer uma trança desde a nuca e sem poder ver o que faço e depois enrolar o cabelo que sobra de maneira a ficar com uma espécie de botão dos segredos todo fancy no cimo do cocuruto? Provavelmente acabaria a precisar do INEM para me desenredar do meio desta farta melena loura. E quando desatam a enfiar ganchinhos para prenderem aquilo tudo sem verem onde os põem??? Eu mal me entendo com os ganchos em frente do espelho, quanto mais assim, à maluca sem ver o que faço! Ainda me cegava com aquilo, que sou menina para isso.

Sim, decididamente ou tenho duas mãos direitas ou pés em vez de mãos porque esta falta de jeito tem de ter uma explicação, assim, estúpida a este ponto.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sobre o peso das mochilas e não só

Nos últimos tempos tem-se falado mais sobre o peso das mochilas dos alunos e, a meu ver, é bom que se fale disto e que se procurem medidas que tornem menor o peso carregado diariamente por crianças e jovens. Enquanto professora, agora sem leccionar, mas já com alguns anos de ensino em cima, vi mochilas que mais pareciam baús. Eram coisas extraordinárias de grandes e pesadas que mostravam ser. Vi alunos gemerem na horas de pôr a carga às costas. Note-se que os alunos de que falo tinham cacifos e mesmo assim carregavam este peso porque precisavam dos livros também em casa. Mais: enquanto professora ainda percebia mais o ridículo do peso carregado pelos alunos, já que eu também o carregava, ainda que apenas para uma disciplina (mas referente a diferentes níveis de ensino). Se eu, só com os livros de Português dos vários anos já andava sempre a puxar um malão, como andariam os alunos que chegavam a carregar sete ou oito manuais, mais os cadernos, os estojos, os lanches e o que mais fosse? Por isso, seja dividindo os manuais em volumes, seja reduzindo a gramagem do papel, seja de que maneira for, o peso tem de ser reduzido. Não faz qualquer sentido que a escola se preocupe tanto com tantas coisas e deixe de lado este elemento fulcral referente à saúde dos nossos estudantes. E, claro, as editoras também desempenham aqui um papel importantíssimo.

Pronto, a minha opinião está dada. E à senhora que ontem no Facebook, comentando uma notícia de um jornal sobre este mesmo assunto, dizia para os professores meterem os livros «nos c*****», apesar de já lhe ter dado a resposta de que precisava, a minha mensagem é de profundo lamento por ser tão, mas tão burra que até no peso das mochilas conseguiu envolver os professores. Quando lhe perguntei que culpa tinham os professores de que as disciplinas fossem muitas e os livros pesados, respondeu-me com um arrazoado qualquer sobre o filho com défice de atenção e tentou afirmar que a carapuça me servira. Nova resposta à altura, claro, e a profunda convicção de que se um dia voltarem os autos-de-fé ao Terreiro do Paço (ou melhor, à Praça do Comércio), os primeiros a arder serão os docentes. Eu não sei porquê, ainda não percebi, mas somos sempre os culpados de tudo o que não é bom. Agora vou só ali tentar perceber como posso enfiar os «livros nos c*****» e em que medida isso vai aliviar as costas do filho da senhora-pouco-inteligente.

Peculiaridades de um leitor III

No mundo há dois tipos de leitor: os que fazem o culto do livro e os que o vêem como um objecto que se usa e que enquanto é usado é para ser vivido e não adorado. A coisa ilustra-se mais ou menos assim: os primeiros são os que têm capas para pôr o livro que andam a ler, que marcam a página com marcadores, que o guardam muito bem para que, Deus nos livre!, alguma coisa lhe aconteça e o deixe definitiva e tragicamente marcado; os segundos são os que fazem «orelhas de cão» (nome dado às dobras feitas no canto superior para marcar a página em que vamos) nas páginas, os que não têm problemas em sublinhar, tomar notas, que enfiam o livro que andam a ler dentro de sacos e malas cheias de tralha, sem capas, sem nada.

Durante muito tempo achei que este segundo modo de agir com os livros é próprio de quem não os adora. Agora já acho que não é bem assim. Há muitas maneiras de gostar de um objecto. Há quem prefira viver quase da contemplação do mesmo e há quem, pelo contrário, queira experienciá-lo, vivê-lo. Para uns as marcas na capa ou nas páginas são motivo para uma apoplexia, para os outros são marcas de guerra que mostram que aquele volume não viveu apenas trancado na biblioteca: saiu, apanhou ar e exibe gloriosamente as suas cicatrizes. Podemos censurar uns ou outros? Acho que não. A relação com os livros é muitíssimo pessoal. Creio até que não haverá duas relações iguais porque, cá está, essa relação constitui uma das peculiaridades de cada pessoa enquanto leitor. E mesmo o mais cuidadoso dos leitores, como eu, tem um ou outro volume na biblioteca que foi manuseado mais vezes, lido com mais paixão e que exibe algumas marcas dessas leituras. Muitas vezes, mesmo esse leitor cuidadoso exibe esse volume com orgulho, mostrando que se ele está assim é porque foi o seu fiel companheiro de uma determinada viagem, ou porque esteve consigo muitas vezes ao longo da vida... E também os que fazem «orelhas de cão» nos livros podem ter um ou outro volume que estimem com particular cuidado, ou porque foi oferecido por alguém especial, ou porque é antigo, ou porque foi muito caro, ou porque é uma edição rara... 

Enfim, há dois tipos de leitores, mas acredito que todos nós conseguimos ser um bocadinho de um e bocadinho do outro, dependendo do livro em questão e das circunstâncias em que nos encontramos. Eu pendo mais para os extremamente cuidadosos. Quero os livros imaculados. Mas depois também não deixo de achar uma certa graça quando a lombada começa a ficar quebrada em virtude de ter aberto o livro tantas e tantas vezes. Essas marcas provam que ele me passou verdadeiramente pelas mãos, que «foi» e que não se limitou a «estar». E isto leva-me a crer que nós, os leitores, somos uns seres muitíssimo complexos e que a relação entre as pessoas e os seus livros é muito maior do que aquilo que num primeiro momento poderíamos julgar.