segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro


Diz-se que no dia 23 de Abril de 1616 terão morrido dois génios da literatura: Cervantes e Shakespeare. Se sobre o primeiro não restam grandes dúvidas, quanto ao segundo há quem diga que não morreu nesta data. Seja como for, o vigésimo terceiro dia do mês de Abril é dedicado aos livros e à leitura o que, diga-se, vai já sendo tema raro nas conversas deste mundo.

Eu cá vou fazendo a minha parte: todos os dias tento que os meu alunos, dos mais novos aos mais crescidos, olhem para os livros com bons olhos, que os queiram e os procurem. Na maior parte do tempo sinto-me como se chovesse em chão molhado, mas por vezes lá vejo uma ou outra atitude que me leva a crer que ainda há esperança. Custa-me muito que as pessoas não leiam e não percebam a importância desse acto. Muitos são os que teriam gostado de aprender a ler e que não o puderam fazer, mas acho que são ainda mais os que, tendo aprendido, ignoram essa competência por acreditarem que não tem qualquer serventia. Os livros lá vão ficando nas prateleiras, à espera de olhos que os queiram olhar, de dedos que os queiram folhear. São pacientes e fiéis: aguardam-nos durante séculos.

Nos livros está tudo. E se é certo que hoje muito do que se publica não merece a nossa atenção, também é verdade que não faltam livros de hoje e de outros tempos cheios de qualidade e que merecem leitores. Assim sendo deixo-vos um recado: a partir de amanhã estará aberta a 82.ª Edição da Feira do Livro de Lisboa e lá será possível encontrarem-se livros para todos os gostos, dos mais canónicos aos mais light. Ali estará um mundo de papel à nossa espera. Para mim é mesmo o melhor acontecimento da cidade de Lisboa, por isso irei logo que possível. Espero encontrar-vos por lá!

Entretanto, vão lendo. Eu continuo com o livro Terra do Pecado. E vocês, o que andam a ler?...

Praxes fora de época

Alguém me consegue explicar por que razão uma boa dúzia de universitários do primeiro ano estavam hoje, junto ao Centro Comercial Colombo, a ser praxados por uns cinco ou seis colegas trajados a rigor? É que ou eu estou muito desnorteada ou já estamos quase no final de Abril. E se a memória não me atraiçoa, as aulas costumam acabar no final de Maio, logo as praxes, nesta altura do campeonato, já não fazem muito sentido (como se alguma vez fizessem...). No início do ano, a coisa ainda se entende: funcionam como uma espécie de recepção totó aos novos alunos, mas no fim serve para quê? Para os supostos «veteranos» se divertirem mais um bocado? Só pode.

Na minha modesta opinião, o que esta gente tem é muito tempo livre. No meu tempo, em Abril, estudava-se.

domingo, 22 de abril de 2012

Já lá vão 10 000


É com todo o prazer que anuncio que o blogue «As Minhas Quixotadas», que é um menino com menos de seis mesinhos, chegou às dez mil visitas. Já agradeci várias vezes aos que por aqui passam quase diariamente para espreitar o que vai havendo de novo, mas faço-o hoje novamente.
 
 
Este blogue tem dias: dias em que estou demasiado cansada para escrever, dias em que tenho coisas alegres para contar, dias em que falo de livros (quase todos), dias em que reclamo com o universo, entre muitos outros. Mas o que este espacinho tem de melhor é mesmo o facto de haver sempre alguém que pára para ler o que escrevo. Mais: haver gente que lê e deixa a sua pegada com comentários sempre simpáticos e que me fazem ter mais vontade de vir aqui largar mais umas «quixotadas». Ora, assim sendo, fico muito agradecida por cada uma destas dez mil visitas catitas. Foi um gosto.

Maldito relógio

Tenho a impressão de que ao Domingo o relógio até avança mais depressa. Não tarda muito e já tenho de estar a trabalhar outra vez e a dar cabo desta voz que Deus me deu. Nossa, que biolência!

Nota: Já agora fica o recadinho aos senhores que engendram a formação de professores: para quando disciplinas de preparação e colocação de voz? Em vez de coisas sem jeito como Teoria do Currículo e Escola como Organização Educativa, que tal ensinar matérias que poupam a saúde vocal dos professores? Cheira-me que se não trato desta falha na minha formação, chego aos trinta anos completamente afónica. E olhem que eu até tenho uma voz potente...

Faltas de açucar

Percebemos que dar aulas é coisa extenuante quando no hipermercado compramos um pacote XL de M&M's para levar para a escola e devorar nos intervalos. Importa repor os níveis de açucar que as criancinhas nos sugam. Por isso, espero que em breve se comecem a vender pacotes de paciência em pastilhas, que preciso de ir repondo isso também.



Bom Domingo!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Saramaguices

É com algum embaraço que digo que deixei o Ensaio Sobre a Lucidez sem o terminar. Detesto deixar livros sem acabar de os ler, mas a verdade é que tenho o cérebro demasiado esgotado para aguentar mais duzentas páginas (era o que faltava) de uma metáfora política. Adoro Saramago, não descansei enquanto não comprei todos os seus livros e leio-os muito vagarosamente para aproveitar tudo o que têm para me dar. Contudo, a papa que me recheia a cabeça (sim, porque duvido que o meu lindo cérebro se mantenha no estado sólido que seria esperado) não estava a aguentar, após dias de trabalho intenso, páginas e páginas de um texto sobre votos em branco e um regime que quer saber por que razão a maioria não colocou cruz alguma no boletim de voto. Devo, ainda assim, dizer que há naquele livro frases fabulosas, semelhantes a muitas outras a que José Saramago nos habituou.

Ora, como não consigo estar sem ler um livro, deixei o Ensaio Sobre a Lucidez, mas iniciei logo outro... também de Saramago. Desta feita fui até ao seu primeiro romance, Terra do Pecado, de 1947. Nele, encontramos uma escrita muito canónica, sem as características que estamos habituados a encontrar  desde o romance Levantado do Chão (inclusive). Embora estejam lá algumas sementinhas do que veio a ser o grande Saramago da década de oitenta e noventa do século XX, percebe-se bem que aquilo era só o início do percurso. Fazendo contas de cabeça, por alturas da publicação de Terra do Pecado, Saramago teria vinte e cinco anos, pouco menos do que a idade que eu tenho agora e nota-se bem que aquele texto é o primeiro ensaio de alguém que quer escrever. Melhor: de alguém que lá leu este mundo e o outro (curiosamente, uma expressão que deu nome a um dos seus livros) e que agora quer passar para o outro lado e tornar-se escritor. Encontro ali frases feitas, ou seja, expressões a que os autores recorrem de vez em quando, principalmente quando a experiência ainda não é muita, e que não encontro nos livros de um Saramago mais tardio (aí o que vejo é um autor que põe os seus narradores a desconstruir tudo o que é provérbio e frase batida). Todavia, tem a sua graça ler aquele que foi o primeiro passo num mundo que depois dominou como um mestre.

Mas, minha gente, aquilo de que mais gostei até agora no primeiro romance de Saramago foi do «Aviso» escrito por ele e que antecede a narrativa. No fundo, o autor apresenta-se e só lamento não encontrar uma data nesse aviso, pois gostaria muito de saber quando foi produzido. A ter sido na mesma altura que o romance, então atrevo-me a dizer que ali sim, ali encontramos os primeiros traços do Saramago que todos conhecemos. Se, por outro lado, o texto é posterior (muito ou pouco) à escrita de Terra do Pecado, então o que ali está é mais um texto deliciosamente «saramaguiano» e que nos incute desde o início alguma simpatia para com aquele autor iniciante. Deixo-vos um pedacinho desse texto que serve para conhecermos um pouco melhor o nosso Nobel. Depois vou ler mais umas páginas.

«O autor é um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralharia mecânica nas oficinas dos ditos Hospitais. Tem poucos livros em casa porque o ordenado é pequeno, mas leu na biblioteca municipal das Galveias, tempos atrás, tudo quanto a sua compreensão logrou alcançar. Ainda estava solteiro quando um caridoso colega da repartição, segundo-oficial, de apelido Figueiredo, lhe emprestou trezentos escudos para comprar os livrinhos da colecção «Cadernos» da Editorial Inquérito. A sua primeira estante foi uma prateleira interior do guarda-louça familiar. Neste ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com um título a que nunca se há-de acostumar. Como no tempo em que viveu na aldeia já tinha plantado umas quantas árvores, pouco mais lhe resta para fazer na vida. Supõe-se que escreveu este livro porque numa antiga conversa entre amigos, daquelas que têm os adolescentes, falandos uns com os outros do que gostariam de ser quando fossem grandes, disse que queria ser escritor. Em mais novo o seu sonho era ser maquinista de caminho-de-ferro, e se não fosse por causa da miopia e da diminuta fortaleza física, imaginando que não perderia a coragem entretanto, teria ido para aviador militar. Acabou em manga-de-alpaca do último grau da escala hierárquica, e tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha, ao lado da prensa das cópias. [...]»

Termina o texto dizendo que a julgar pelo que sucedeu a este livro (a que não foi dada muita atenção, na época) «o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva». Ele sabia lá...


Notita: A fotografia da capa do livro saiu da página da WOOK.

Cansaço auditivo

Hoje dei por mim a perceber que falo tanto (e tão alto) durante a semana que chego a sexta-feira para lá de farta de me ouvir. Será normal?...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vida difícil

Hoje de manhã, ao acordar, ouvi a chuva a cair. E se neste momento estão a pensar que esta será uma quixotada poética sobre o som da chuva e o cheiro da terra humedecida pelo dom da água que os céus nos concedem finalmente, fujam já daqui que não será nada disso. Ora, continuando, acordo cedinho, ouço a chuva e penso «&%#-$€, está a chover! Logo hoje que tenho de andar bastante!». Vou vestir-me e tal, ponho uma camisinha branca sob a camisola quentinha para dar um ar muito profissional e vejo-me na hora de escolher os sapatinhos. «Ai diabo, está a chover e eu mandei fora as botas rasteiras para a chuva...», pensa esta cabecinha ainda mal acordada e já perto da hora de sair de casa para ir trabalhar. Vou até às prateleiras com as muitas caixas de sapatos e concluo que, estando a chover e tendo aquela roupa vestida, ou levo sapatos e molho os pés, ou levo as botas mais altas que tenho, mas que são quentinhas e não deixam entrar água.

Ó decisão maldita que não te apartaste de mim enquanto me não viste na rua montada nuns dez centimetros ligeiramente compensados à frente. Ao chegar ao meio da rua, amaldiçoava já as botas, os pés, a muy odiada calçada portuguesa e o mundo de uma forma geral. Tenho a impressão de que ao chegar à escola a raiva já tinha chegado a pontos inéditos: se me passasse diante das vistas um unicórnio rosa a distribuir amor e a espalhar pó de fadas pelos transeuntes, ainda assim provavelmente eu excomungaria o mundo e as botas, a calçada molhada e as muitas horas que ainda teria pela frente em cima delas. Enfim... À tarde, já meio conformada com a estupidez, sou informada de que me devo dirigir ao edifício tal para fazer isto e aquilo antes da aula seguinte. Lá arrasto eu os meus pés sofridos por paralelos mais desalinhados do que as nossas contas públicas. Lanço três ou quatro pragas contra a sorte maldita que fez com que no dia em que escolhera aquelas torres para calçar, toda a gente tivesse de achar que eu devia caminhar para a outra ponta do universo. Suspiros e mais suspiros, um ou outro palavrão engolido porque uma professora não pode dizer essas coisas e lá chego ao final do dia. O chão ainda molhado, a calçada ainda a existir para ser palmilhada (e dinamitada, sugiro eu) e os meus pés armados em Zés Povinhos a fazerem-me manguitos. Chego a casa e descalço as botas: parecem estar coladas aos meus pés. Paro, olho para as prateleiras com as caixas de sapatos e pergunto-me como raio consegue uma pessoa que tem mais de meia centena de pares de sapatos não ter NEM UM PAR DE BOTAS RASTEIRAS BOAS PARA A CHUVA! Ó sorte macaca... Depois de um dia a galopar sobre dois objectos de tortura esteticamente muito interessantes, acabo eu armada em Zé Povinho, figura odiosa, é preciso que se diga, a fazer manguitos a mim própria e à minha supina falta de jeito para tomar decisões matinais.

Oração

Querida entidade superior a mim,

Dá-me saúde e paciência para aturar a burocracia em torno do mundo escolar e acelera um nadinha o calendário para que o dia 20 de Junho (dia a seguir aos exames nacionais) chegue depressa, antes que eu me desintegre em cansaço e desnutrição por falta de tempo para comer.

Amén!

Raça da memória

Durante o dia, sem o computador ao lado, ocorrem-me mil e quinhentos temas para uma quixotada. Contudo, no final do dia depois de chegar a casa pareço uma parolita cançada a olhar para o ecrã e a esforçar-me por me lembrar dos temas em que pensara quando ainda estava quase fresca como uma alface.

A minha memória, que até costuma funcionar muito bem, tem dificuldades em sobreviver a esta vida maluca que tenho experimentado. Portanto é esperarem mais um bocadinho que lá para o final do 3.º período hei-de aparecer-vos aqui a perguntar de quem é este blogue tão giro, tal vai ser a chacina de neurónios e da minha capacidade de memória.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bonitinho

E o bonito que está o nosso Google hoje? Até dá gosto ver relembrado um dos nossos grandes autores, e precisamente aquele que um dia ditou com tanta propriedade «As Causas das Decadências dos Povos Peninsulares». E como tinha (tem) razão!...


(Pelo 170.º aniversário de Antero de Quental)

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Menina Quer Isto XI

Personagens quixotescas? Claro que a menina quer isto! Feira do Livro, estou à tua espera!!!

Nova leitura

Estive a fazer contas e já li doze livros este ano. Por acabar deixei dois: um porque me parecia fraquinho e baseado em informação pouco credível e outro porque era de contos e, no que aos contos diz respeito, não gosto de os ler de seguida. Leio um agora, outro depois...

Ora ontem foi dia de dar início a mais um livrinho e o feliz contemplado a sair da prateleira e a arejar durante uns dias foi o Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago. Até agora estou a gostar, embora não seja nenhum Memorial do Convento ou um Todos os Nomes. Devo, contudo, dizer que a escrita deste senhor é tão fabulosa quanto inesperada. Ora vejam lá esta frase que me deixou a rir à gargalhada e descubram a palavra «intrusa»: «Na verdade, acrescentou, estamos aqui como náufragos no meio do oceano, sem vela nem bússola, sem mastro nem remo e sem gasoil no depósito [...]». Maravilhoso!


Nota: A minha capa ainda é das antigas, cor de ovo. Gostava mais: acho estas muito berrantes. As outras eram mais misteriosas...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Reivindicação

Estou a pontos de iniciar um movimento que garanta aos professores canetas, papel e tinteiros de graça. A sério: apetece-me chorar a cada vez que o tinteiro começa a gemer que está a chegar ao fim. É que se uma caneta ainda vai sendo barata, o tinteiro não o é lá muito e, convenhamos, que são tão pequenos que duram pouquíssimo. Resultado: a carteira escancara-se vezes a mais para o meu gosto de modo a trazer para casa mais um reles potinho de tinta que durará o tempo de um «ai!».

Alguém se junta a mim neste movimento?...


domingo, 15 de abril de 2012

De coração apertado

Passei sete anos no ensino superior. Entre uma licenciatura pré-Bolonha e um mestrado profissionalizante, os meus pais deixaram rios de dinheiro da universidade que frequentei. Materiais, alimentação, transportes e propinas eram as razões que nos faziam passar a vida de carteira aberta. Felizmente nunca se colocou a hipótese de ter de desistir por falta de dinheiro, mas sei que em alguns meses a coisa não foi fácil. Cheguei ao fim do segundo ciclo de estudos e despedi-me do ensino superior. Os meus pais respiraram de alívio e eu também: estava cansada de estudar e eles de pagar.

Hoje ao ver a reportagem que a SIC transmitiu, intitulada «Abandono Silencioso» e que versava sobre os jovens que desistem dos estudos universitários por falta de dinheiro, confirmei aquilo que já sabia: fui uma grande sortuda. Pude, durante sete anos, fazer aquilo que queria e ganhar as competências necessárias para agora ver o retorno do meu esforço... e do deles. Sabia que não era nada fácil despender tanto dinheiro para os meus estudos todas as semanas, todos os meses, todos os anos, mas os meus pais, a quem agradeço de coração, fizeram-no até ao fim. E, note-se, cá em casa nunca se soube o que era ter uma bolsa de estudo.

Vi na reportagem da SIC alguns alunos que conheci de vista enquando frequentava a Faculdade de Letras de Lisboa e fiquei de coração apertado por perceber que aqueles alunos tinham tanta vontade e tão poucas condições para alcançar o sonho. Já sabia que isto acontecia pois enquanto estudava deparei-me mais do que uma vez com a pobreza de alguns alunos e sempre fiquei fisicamente maldisposta por ver que tantos faziam omeletes sem ovos, que ninguém os ajudava, que passavam mal todos os dias e que passavam fome. Fome, minha gente. Fome a sério. Ninguém devia passar fome, nenhum estudante devia ter de escolher entre as fotocópias de que precisa e o almoço que o vai manter de pé. Mas isto acontece sem que os serviços sociais façam alguma coisa, sem que as famílias se possam espremer mais para descobrir dinheiro onde ele não existe, sem que olhemos com olhos de ver para isto que se passa à nossa volta... E acontece no mesmo sítio onde existem alunos que se arrastam durante anos, que gastam este mundo e o outro em cerveja e que se limitam a passear os livros que raramente chegam a abrir.

Ao ver a reportagem dei por mim a pensar, por exemplo, no dinheiro que o Governo foi investindo em meninos que não queriam estudar nem trabalhar e que frequentavam os Cursos de Educação e Formação nas escolas secundárias precisamente porque ali engonhavam mais uns anos e o Estado Português pagava. Óptimo. Enquanto isso, universitários que efectivamente queriam estudar e dedicar-se a um curso que um dia lhes desse (?) alguma coisa viviam sem um tostão no bolso, sem ajudas, e a acumular dívidas às universidades. As bolsas são risíveis, as propinas só aumentam, os livros não ficam mais baratos e, para cúmulo, a restauração viu o I.V.A. aumentado em dez porcento desde o início do ano.

Isto entristece-me. Sempre tive consciência de que era muito difícil ter um filho no ensino superior, mas estamos a chegar a um ponto em que parece ser impossível. Claro que as famílias também têm de ter alguma consciência da realidade e, nos casos em que isso é possível, evitar vôos que só podem acabar em queda (refiro-me aos casos de alunos com uma família muito numerosa e com meios económicos escassos e que, mesmo assim, resolvem tornar-se alunos deslocados, aumentando consideravelmente a factura mensal para os estudos). Mas mesmo assim, creio que estes estudantes merecem consideração e respeito. Todos sabemos encher a boca para criticar os alunos que nada fazem e que não querem saber dos estudos. Pois estes são o oposto e parece-me que vão sendo muito ignorados. Oxalá a reportagem acorde quem parece estar adormecido, embora me custe a acreditar verdadeiramente nisso...