terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Os perigos de comer atum
Aqui em casa, comer atum é mais ou menos como tentar comer um bife de vaca muitíssimo mal passado dentro da jaula dos leões. Creio até que a segunda hipótese acarreta menos perigos...
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
A melhor das pragas!
Depois de escrever a última quixotada é que tive uma ideia tão boa que gritei «Eureka!» enquanto fervia água para o arroz.
Ora, eu, que estou sempre a imaginar novas pragas bíblicas a acrescentar às originais que se abateram sobre o Egipto quando o faraó não queria libertar o povo do Senhor, ainda não me tinha lembrado da melhor praga, aquela que levaria aqueles tipos a libertarem o povo escolhido, o que nem era lá muito escolhido e mais três dezenas de galinhas, todos os escravos, a desgraçada que faz a cama ao faraó e se esquece de sacudir as migalhas dos lençóis, o próprio rio Nilo, a esfinge, setecentas e oitenta e duas palmeiras aparentemente bem agarradas ao chão, todos os hieróglifos das paredes, as nuvens do céu, os gatinhos sagrados, a promotora da Meo de lá da zona, cinco burras leiteiras e o chefe pasteleiro responsável pelos muffins de mirtilo do faraó! A melhor praga era, indubitavelmente, enviar para lá... a namorada do Roberto!
Imaginem: está o faraó a relaxar num banho de leite de burra de maneiras a ficar com a pele de um bebé, enquando um criado lhe agita as águas com as próprias mãos de forma a parecer que está num jacuzzi. O faraó pensa que tem tudo controlado: não liberta o povo nem que Deus volte a mandar-lhe uma praga de gafanhotos! Assim como assim, foi ao oráculo e ficou a saber que muitos séculos mais tarde haverá chefs do mundo ocidental a servir gafanhotos em pratos gourmets aos seus comensais, por isso não há razão para se aborrecer com uns insectozinhos. Já que pensava nisso, a ver se lembrava o decorador lá do sítio de ir desenhar um perfil seu enojado diante de um prato de gafanhotos, de forma a deixar para a posteridade o que pensa dessas coisas gourmets com bichezas. Mas adiante: está o faraó nesta vida quando, subitamente, parece iniciar-se uma violenta trovoada. O agitador de águas pára; o faraó fica a meio de um gole do seu Bloody Mary, à escuta; o criado responsável por mungir a burra fica de tetinhas na mão e com a boca escancarada; a própria burra fica retesada ao ouvir aquele som troante. No cómodo do lado, a esposa do faraó pousa o seu livro da colecção «Arlequim» e fica à escuta. E eis que todos ouvem:
- Roberto, eu não sou uma das tuas p****! Eu estou a falar contigo, Roberto! Roberto, cala-te, eu estou a falar! Roberto! Roberto! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! (choro convulsivo) Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! (som de coisas a partirem-se) PÁRA, ROBERTO! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! (barulho de paredes a serem esmurradas)
O faraó, ainda meio mergulhado no seu banho de beleza, pergunta ao criado de mão no ar, pingando com leite o tapete tão lindo que fora presente de casamento da sogra:
- O que foi isto, Imopetico?
- Senhor faraó, julgo que é mais uma praga. Parece-me uma namorada ciumenta ao telemóvel.
- Mas aqui há cobertura de rede?
- Senhor faraó, - diz fazendo uma mesura e continuando a pingar o chão com leite de burra - o promotor da Egiptofone esteve cá na semana passada e instalou uma antena na ponta da pirâmide de Gizé. Agora temos sempre quatro traços de rede.
- E já pintaram um hieróglifo comigo a falar ao telemóvel? Quero que todos saibam que foi durante o meu reinado que se melhorou a rede dos telemóveis!
- Senhor faraó, parece-me que ouvi o vosso secretário Emojitep falar sobre isso mesmo. Creio que será feito logo que se terminem os hieróglifos para ilustrar os romances que a sua senhora anda a ler.
Já meio esquecidos do que os distraíra durante o relaxante banho, prosseguem a conversação e o faraó chama o secretário para dar algumas ordens. A burra volta a ser mungida, o leite torna a ser batido na banheira (será assim que um dia se inventará a manteiga, durante a crise do leite que levou o faraó Imunoteto a ter de banhar-se em natas), o tipo dos white noises continua a tentar recriar o som das nuvens para relaxar ainda mais o soberano quando...
- Roberto, Roberto! ROBERTO! OUVE-ME, C*******! ROBERTO! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
A porta da divisão abre-se com estrondo, entrando o responsável máximo pela segurança no palácio. Informa todos os presentes de que estão sob nova praga, que desta vez o Altíssimo atacou com todo o seu poder, enviando uma namorada descontrolada que tem coisas para resolver com um tipo chamado Roberto. Já tinham tentado tirar-lhe o telemóvel das mãos para travar a praga, mas ela tinha respondido com dentadas e pontapés. Naquele preciso momento, um dos soldados estava a ser tratado na enfermaria, onde seria suturado de modo a manter o uso do dedo indicador. Por isso, explicava o tipo da segurança da casa real, era preciso evacuar e não havia tempo para reunir o Conselho de Guerra: temia-se o agudizar da situação, pois o Roberto havia já desligado o telefone na cara da moça umas duas vezes.
- AAAAAAAAAAAH! Roberto, não sou uma das tuas p****! Não me desligas o telefone na cara, c*******! ROBERTO! ROBERTO! AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
- Bom, afinal foram três, meu senhor. Por favor, temos de evacuar!
No átrio do palácio amontoam-se todos. Criados, membros da família real, a burra, os responsáveis pela segurança, o retratista real, todos se preparam para sair ordeiramente. Até que o faraó, choroso, incapaz de aguentar mais os gritos da namorada revoltada, dá a tão esperada ordem:
- Libertem os outros tipos! Estou farto de pragas! Gafanhotos? Levam-se! O Nilo feito sangue? Seja! O sol desaparecido por três dias? Bom para pôr o sono em ordem. Agora, malucas ao telemóvel é que não! Uma pessoa tem limites! Ei, sacerdote, chega aqui!
Caminhando de perfil, o sacerdote chega junto do soberano.
- Corre à igreja mais próxima e informa o responsável pelas pragas que me rendo. Dou-lhe tudo! Quer o povo, eu dou-lhe o povo. Mas pede-lhe para me deixar ir também e para só voltar a fechar o Mar Vermelho depois de nós passarmos! E diz ao Turbotep que vá cortar aquela antena da Egiptofone! Os canais de televisão ficam, que quando voltarmos quero ver o «Portugal Festeiro» na Feira da Chouriça Engelhada que vai lá o Tonikamon Carreira. Mas que nenhum telemóvel tenha sinal nos meus domínios!
- Sim, senhor faraó.
- Estão todos? Podemos partir? Têm a minha burra? Que foi, Ptolomickey?
- Nada, senhor. Apenas a alma possuída que grita ao telefone... Irritou-se tanto que arrancou o nariz à Esfinge.
- ARRANCOU O NARIZ À ESFINGE??? AI A FILHA DA P***! MUNDO, TUDO A ANDAR À MINHA FRENTE! E NADA DE PERFIS, HOJE É PARA ANDAR DE FRENTE E DEPRESSA!!!
E foi assim que se conseguiu a libertação dos hebreus, até ali vergados sob o peso da escravatura. Mas na longa caminhada até Canaã, não seguiu apenas o povo hebreu. Um hidratado faraó, seguido pela sua esposa (que levava sob o braço três livrinhos «Arlequim» para se entreter na viagem), uma burra leiteira e duas colegas, galinhas e toda uma comitiva desesperada, seguiam também o caminho. O que não sabiam é que à chegada seriam brindados com novas pragas porque o Altíssimo não tinha por lá camas para acomodar toda a gente. Ficou só a burra, as galinhas e os livrinhos da soberana, que fizeram as delícias de muita moçoila casadoura.
FIM
Nota da autora: Esta narrativa explica com exactidão histórica a razão pela qual a esfinge tem este aspecto.
A imagem saiu daqui.
Teme-se o dia do apocalipse Roberto!
Agora é que me lembrei que para a semana se celebra o Dia dos Namorados. Não, não estou esquecida de comprar um presente: cá em casa essa data puramente comercial não se festeja. Para nós, todos os dias são dias dos namorados. É frase enjoativa, mas é verdade. Agora o que me preocupa é outra coisa...
Vai que a namorada do Roberto não fica satisfeita com o presente ou mesmo que o belo do rapaz se esquece da data?! Já viram que noite vou ter?!? O Dia de São Valentim tem todas as possibilidades para correr mal ao casal mais disfuncional do prédio do lado! Duas pracetas devem estar desde já a tremer com a data que se aproxima. Temo que o stock de tampões para os ouvidos esgote nos próximos dias nas farmácias das redondezas. Bem, acho que assim sendo vou só ali ver qual é a que está de serviço agora para me abastecer com os ditos tampões e com três caixas de Victan e duas de Xanax. Ao que se chega!
Menos meio gato
Tenho dois gatos Bosques da Noruega, que são animais com o pêlo semi-longo, mas o de um não tem nada que ver com o pêlo do outro. O da gatica é lisinho, raramente faz nós e, quando faz, é porque ela andou a coçar-se demasiado. Já o dele... É o inferno! Este gato precisa de ser escovado todos os dias e mesmo assim cria nós monumentais no pêlo. No ano passado tive de tosquiá-lo todo. Este ano, quando vier o tempo quente, vai ser só a barriguita que é onde ele tem nós. No resto do corpo tenho controlado a coisa com o Furminator e o pente que normalmente se usa para as pulgas (aqui serve para desfazer nós). Mas a quixotada serve para mostrar-vos o abuso. Tenho passado diariamente o Furminator (pente para retirar o pêlo morto e solto) no bicho e todos os dias fico com a mão como fiquei hoje e como podem ver pela foto. É uma brutalidade! Se isto fosse linho egípcio já tinha conseguido fazer dois ou três pares de lençóis.
Sempre que pensarem em arranjar um gato ou um cão com o pêlo compridito, lembrem-se desta imagem e pensem se arranjam tempo na vossa vida para se dedicarem a esta tarefa.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
A Menina Quer Isto LXXVIII
Hoje passámos pela Fnac e encontrámos a pérola das pérolas: um gira-discos para gatos! Na realidade, parece em tudo um gira-discos, mas a parte onde estaria o disco consiste em cartão para eles arranharem as unhas... Ficando a parecer DJ’s! É brilhante! O preço é que não é assim tão brilhante: a coisa ronda as três dezenas de euros, por isso, felinos, a mamã pede desculpa, mas ainda não é desta que vão ser cool ao ponto de parecerem DJ’s. Continuem a arranhar as unhas nos sofás que mesmo assim é mais barato (ou nos arranhadores que já têm, que são muitos).
E já que estou numa de pedir, a menina viu na Fnac o novo romance do Paul Auster. Quando vi o tamanho, tão longe daquele que costumavam ter os livros do autor, quase tive uma síncope. Mas a menina quer. O moço tem os livros todos do Paul Auster e, por agora, só nos falta mesmo este, embora eu desconheça onde raio poderá caber tal volume...
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Lendo e (re)lendo
Ontem acabei de ler o Brasil, País do Futuro, do Stefan Zweig (com aspectos interessantes, embora muito repetitivo) e, portanto, precisei de voltar às estantes para escolher a nova leitura. Ora, o que é que é melhor do que um livro? Dois livros, está claro. Portanto, das prateleiras trouxe uma nova leitura e uma releitura. Considerando que não sou pessoa dada a repetir livros, reler chega a ser estranho. Mas existem razões para isso e uma delas é que considero este romance uma obra-prima da literatura. Não, não é o Quixote, embora continue pacatamente a reler a monumental edição da Real Academia Espanhola. Falo-vos de outro livro, desta vez português. Os Maias é, talvez, o único livro que até hoje conseguiu tirar-me o sono. Ou será um dos poucos que o conseguiu. Regressar a ele é sempre agradável, já que além da acção principal que envolve a família Maia, passam-se muitas outras coisas em acções secundárias que nos ensinam muito sobre o país queirosiano, sobre a sua Lisboa. Finanças, tempos livres, jornalismo, literatura, há todo um mundo abordado por Eça de Queirós neste seu romance. Além da sua fina ironia ou mesmo do seu humor exibido à descarada, por exemplo, num Eusebiozinho vestido de anjo e sovado pelo protagonista...
Mas, como já disse, da prateleira vieram dois livros. O outro será lido nos intervalos de Os Maias. É, também, um clássico, de um autor que considero delicioso. Gostei de tudo o que li dele até hoje, mesmo tendo a ideia pré-concebida de que odiaria um dos seus maiores livros: A Ilha do Tesouro. Afinal acabei por adorá-lo, por lê-lo mais do que uma vez com os meus alunos e por procurar outros escritos seus. Já li alguns contos e hoje pretendo começar o famosíssimo O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos. A edição é a da Assírio & Alvim, aquela que tem os cortes do livro vermelhos (e que tem mais dois contos de Robert Louis Stevenson). Portanto imaginem os meus próximos tempos: entre um Carlos da Maia apaixonado e um tipo que tem duas personalidades dentro dele; entre um jovem que estuda para ser médico e um que é ao mesmo tempo um médico e um monstro. Imagino os meus sonhos nos próximos tempos. Vão ser bons de analisar, vão.
O acordo (gat)ortográfico
O meu gato, quando mia, faz um som semelhante a "Mcaw, mcaw", o que já de si é extraordinário. Costumo dizer que as suas raízes escocesas a isso o obrigam (só que ele não é escocês por costado nenhum). Já a gatica, fazia "Miau, miau", algo mais de acordo com aquilo que nos ensinam desde petizes relativamente ao som que os gatos fazem.
Ora, a pequena gatica deve andar a levar a história da queda das consoantes demasiado à letra e ultimamente parece um lobito, já que abandonou o "Miau, miau" para iniciar o "Au, au". Portanto, deu-se a queda da consoante e da vogal. Eu sempre achei que havia uma purista da língua dentro dela, mas ao ponto de se entregar desta maneira a alterações linguísticas é de mais.
Portanto, se agora eu me dedicar a cantar aquela infame canção que fala sobre um pau e um gato (que eu espero sempre que pegue no pau e desfaça a pessoa que lho atirou, deixando-a devidamente desfigurada e com mazelas várias por todo o corpo para que aprenda que não se atiram paus a gatos ou a quaisquer outros animais!), como a terminarei? Se for com o canónico e ortodoxo "miau", estarei a excluir os gatos linguistas e os que se julgam escoceses. O que fazer, então? Seguir a carneirada e manter a vulgar onomatopeia felina em Portugal, ou inovar mesmo à maluca e gritar "mcaw" ou "aaau"?! Problemas, problemas...
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
A vida no bolso
Hoje precisei de ir a uma consulta e na viagem de regresso (em transportes públicos) reparei nos telemóveis gigantes que algumas pessoas carregam. São smartphones, mas são enormes. Andam ali entre o tamanho de um telemóvel considerado jeitozinho e um tablet. Mas obviamente não pretendo dar-vos nenhuma novidade a este respeito, pois sois gente entendida nisto das novas tecnologias. A minha reflexão é mesmo outra.
Dei por mim a pensar que com aquilo as pessoas estão confortáveis para ver filmes ou séries, para editar fotografias, para ler livros (coisa que duvido que façam), para ler revistas e jornais sem terem de andar sempre a puxar as páginas para os lados, para cima e para baixo. Além disso, surpresa!!!, ainda podem telefonar, receber chamadas, fazê-las... Ou seja: podem tudo com aqueles telemóveis (eu também posso com o meu, mas o ecrã é mais pequenino, fartar-me-ia bastante mais depressa). Ora, a minha questão é: desde quando passámos tão desesperadamente a precisar/querer trazer toda uma vida dentro do bolso? São vídeos, são fotografias, são documentos vários, são os emails, as mensagens, as chamadas, os livros, as revistas, os jornais, as várias redes sociais... Quando foi que, de repente, sentimos a necessidade de abandonar de vez certa ideia de que determinadas coisas ficam em casa e outras podem, sim, seguir no nosso bolso? E em que medida é este constante carregar do que somos (e do que fingimos ser) no bolso benéfico para nós? Se estamos sempre ligados, como saberemos um dia viver em «modo off» novamente?
No emprego que deixei no final de Agosto, os emails eram uma constante. A grande maioria era escusada. Não continha qualquer tipo de informação relevante. Mas de vez em quando (com maior frequência do que nós gostaríamos), vinham emails importantes, que não raramente eram indicadores de problemas para nós, os funcionários. Os emails chegavam de manhã a manhã. Não, não me enganei no que disse: é que não havia um momento em que soubéssemos que eles não chegariam. Recebiamo-los de madrugada, à noite, durante a tarde, à hora de almoço, quando estávamos a enfiar-nos na cama... Ao fim de uns anos disto, de saber que um único email pode desencadear uma guerra, cada vez que ouvimos o som da chegada de uma nova mensagem, quase caímos para o lado com tanta tensão. Mas ao mesmo tempo não conseguimos não ir ver o que sucedeu, qual o motivo para mais um email. Anos disto matam-nos aos poucos, acreditem. De tal maneira que acabamos por fazer o que eu fiz: pegar na tralha, enviar a carta e vir para casa, mesmo sem ter outra coisa em vista.
Mas a que propósito vem isto e que relação tem com o que dizia no início? É que muitas vezes odiei o meu telemóvel e o meu tablet. O facto de os ter comigo e de me avisarem quando chegava um novo email acabava por fazer-me andar sempre a actualizá-lo, a ver se tinha chegado coisa nova. Eu e muitos dos meus colegas deixámos de saber desligar do trabalho, uma vez que podíamos ter notícias dele a qualquer hora do dia. Isto prejudica a saúde, coloca os níveis de ansiedade em alta, não é benéfico para nós (mas a entidade patronal queria lá saber se nós estávamos bem ou mal...). Odiei os malditos telefones em que podemos ver os emails porque eles, e a sua generalização pelos bolsos de todos, passaram a significar que estávamos sempre disponíveis. Por vezes, se não déssemos resposta a um email rapidamente, mesmo que viesse a um sábado à tarde, por exemplo, recebíamos uma chamada umas horas depois a perguntar se não tínhamos visto o email e por que motivo não lhe tínhamos dado resposta. Todos partiam do princípio de que estivéssemos onde estivéssemos, os telemóveis estariam connosco e os emails seriam abertos na hora. Deixámos de poder dizer «Não vi, não estou com o computador.», até porque todos sabiam que telemóveis tínhamos. Aliás, aquele sítio achava-se tão bom que até nos olharia de lado se tivéssemos telemóveis de trinta euros que dão apenas para fazer e receber chamadas e mensagens.
Aprendi que odeio trazer a vida no bolso. Odeio estar constantemente ligada. Têm sido meses a aprender a desligar-me desta pressão que foi o pão nosso de cada um dos meus dias durante vários anos. Até o hábito de ler antes de dormir eu consegui começar a perder devido ao facto de estar sempre ligada e à espera de notícias do trabalho. Sim, porque não era só recebê-las. Quando eram revoltantes, eu e outros colegas dávamos início a longas conversas pelo WhatsApp, a discutir e a gozar a mais recente invenção da instituição. Na altura não me apercebia, mas este prolongar dos assuntos que nos irritavam, mesmo que fosse em tom de gozo, também nos fazia mal. Continuávamos ligados, mesmo em horas em que já devíamos ter tirado a cabeça do trabalho.
A culpa não será dos telefones nem dos tablets. É nossa, é desta sociedade em que estar ligado é tão importante que nem ousamos outra coisa. Ter smartphones para depois só enviar sms’s seria estranho. Queremos explorar aquilo, mexer nas aplicações, estar sempre informado e actualizado. Nada de grave existirá em saber as últimas notícias do mundo mal elas saem. Mas já existe algo de grave quando estamos a jantar com a nossa família depois de um dia de trabalho e o telefone informa-nos que temos de dar resposta imediata a uma questão de um encarregado de educação que pergunta por que motivo o filho teve «Satisfaz» no teste se estudou o suficiente para ter um «Muito Bom». Mesmo que só leiamos o email depois do jantar, que resto de noite teremos nós? E se não o lermos pode vir de lá o temido telefonema e ainda é pior... É uma prisão e cada vez acho mais que é das facetas mais negras da evolução tecnológica. A influência que isto de andar constantemente com a vida no bolso está a ter sobre nós é terrível. Estamos a alienar-nos da realidade. Vemos mais o mundo através da câmera fotográfica do que com os nossos olhos. Preocupamo-nos tanto com as notícias que chegam por email do que com o que um amigo nos diz cara a cara. Enfim, vivemos a vida que temos no bolso e não a que existe à nossa volta. E para isso, para que se viva em todo o seu esplendor, os ecrãs que outrora se queriam pequenos, querem-se hoje grandes. A mim, que vivi o lado mau disto (mais vezes do que aquelas que gostaria de relembrar), isto preocupa-me. Agora que me livrei daquela pressão, tento todos os dias descolar-me mais um bocadinho desta ditadura do telefone e do iPad. Os livros voltaram em força à mesinha de cabeceira, não para apenas uma página por noite, mas para ler umas dez ou vinte antes de dormir. Procuro retomar hábitos antigos que eram muito mais saudáveis antes destes malditos ecrãs me invadirem a vida. Ainda não o consegui totalmente, mas vou caminhando para lá.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
A nova praga
Os leitores com melhor memória lembrar-se-ão das quixotadas com propostas para novas pragas bíblicas do Egipto (não tenho nada contra o país, coitadito, é só mesmo porque falando em pragas, vem-nos logo à cabeça o episódio da Bíblia que pôs aquela gente toda num virote). Podem encontrar algumas aqui, aqui e aqui. Ora bem, tenho mais uma: migalhas.
Imaginem o seguinte: o faraó recebe o pequeno almoço na cama. Chegam-lhe lá os criados com os muffins acabadinhos de sairem do forno, biscoitinhos vários, um pão com queijo e uma meia de leite e ele, mesmo à patrão, deixa-se ficar deitadinho a debulhar aquilo tudo. No fim levanta-se, banha-se e vai à vida dele que consiste em ser abanado com folhas de palmeira e posar de lado para os hieróglifos. Bom, e o que sucede? Sucede que vai a criadita fazer-lhe a cama, esticando muito bem os lençóis de linho egípcio. Não se apercebe das migalhas e por isso, nessa noite, o faraó tem uma noite do caraças. Imaginem um quarto escuro, um tipo com barbicha e contorno nos olhos que, mirando o tecto, grita subitamente: «NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!». É que a sua morena e nobre pele está deitada em meia dúzia de migalhas que sobraram do repasto matinal. Ele bem se contorce, ele sacode braços e pernas a ver se se livra daquilo, mas não dá. Há sempre uma migalhita marota a aborrecê-lo. Por fim desiste, vai dormir para a chaise longue, pensando que pela manhã haverá de chicotear a moça que faz a cama e que, pelo sim pelo não, passará a optar por papas para o desjejum.
Pronto. É isto. É que eu, que adoro comer em todos os lados menos na mesa, tenho um problema grave com migalhas. Eu bem desenvolvi um meio de as apanhar todas enquanto como, mas no outro dia falhou redondamente e acabei toda eu coberta delas e a precisar de mudar os lençóis. Raça das migalhas, metem-se em todo o lado. São uma praga dos infernos! Fica a ideia.
Esquisitóide
Confesso que me sinto cada vez mais esquisita por ser a única pessoa que conheço que começou a ler A Amiga Genial, de Elena Ferrante, e que largou o livro a meio. Confesso que não consegui achar piadinha nenhuma àquilo, não achei brilhante como todos dizem que é, considerei até um pouco aborrecido. Mas vá, como sou mesmo a única a dizer isto, a ver se no futuro volto a dar uma oportunidade ao livro. Pode ser que descubra qualquer coisa maravilhosa que da primeira vez não consegui encontrar.
Peculiaridades de um leitor II
Leitor que é leitor e que quer ter livros seus e não ler apenas livros emprestados por amigos ou pela biblioteca passa a vida inteira a juntá-los pelas estantes fora, de forma mais ou menos desorganizada e desorientada. Mais ou menos disse eu. Porque, por vezes e ainda que não pareça, existe uma lógica naquilo que vamos comprando. Um livro sugere outros; uma revista levanta questões sobre um tema e corremos a arranjar material sobre ele; um jornal apresenta uma crítica que nos deixa de orelha em pé. Enfim, há várias formas de descobrir novos títulos para acrescentar aos que já temos. E o que se segue é, frequentemente, bastante estranho...
Hoje acordei muito cedo e mudei-me da cama para o escritório. Ao olhar para as estantes, bati o olhinho num romance de Salman Rushdie que me ofereceram no ano passado. Continuei a percorrer as prateleiras com os olhos e, elém desse Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, vi Os Filhos da Meia Noite, encontrei Shalimar, o Palhaço, o Grimus, O Chão Que Ela Pisa, vi também Luka e o Fogo da Vida, Harum e o Mar de Histórias, encontrei o Oriente, Ocidente e ainda os romances Fúria, O Último Suspiro do Mouro e A Feiticeira de Florença. Nada mau para quem começou a comprar estes livros quando, há uns dois ou três anos, leu no Kindle as memórias do autor, livro intitulado Joseph Anton.
Ora, nessas memórias, que ganham o título através do nome falso adoptado por Salman Rushdie quando teve de viver na clandestinidade de forma a tentar escapar da absurda ameaça de morte que pairava sobre ele devido à fatwa lançada em forma de punição pela publicação de um dos seus livros, percebemos que o romance Versículos Satânicos foi o gatilho que levou a que a sua vida ficasse totalmente virada de pernas para o ar. O livro foi considerado blasfemo e ofensivo para com o Profeta Maomé e, por isso, o líder do Irão lançou sobre o autor uma fatwa para que ele fosse assassinado. Durante anos, mais do que seria imaginável, Salman Rushdie viveu escondido, mudando de casa para casa, sem poder viver uma vida normal, com medo do que lhe pudesse suceder e aos seus. Supreendentemente, escreveu bastante neste tempo. Quando li as suas memórias, fiquei tão entusiasmada com a sua vida e com a capacidade de escrever mesmo na adversidade, de ter grandes ideias mesmo quando confinado a quatro paredes, de não sucumbir à pressão e, sobretudo, de ter escrito uma obra capaz de enfurecer assim alguém, ao ponto de mobilizar outros para a causa «eliminar Salman Rushdie da face da terra», que desatei a comprar os livros dele que me faltavam (na altura só tinha mesmo o famoso Os Filhos da Meia Noite).
E agora chegamos à tal peculiaridade de um leitor que, neste caso, sou eu. Se voltarem à lista de livros do Salman Rushdie que tenho, e que não é propriamente pequena, deparar-se-ão com uma importante e estranha lacuna. Eu gostava de vo-la explicar, gostava muito, mas acho-a tão desmesuradamente ridícula que não há nada que possa justificá-la. A falta do livro mais importante, mais destacado, mais falado de um autor é qualquer coisa de bastante idiota. Mas acontece cá em casa. Enfim, peculiaridades...
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Ode à pizza
Eu estou aqui a segurar-me para não fazer já aqui uma ode à pizza Veggie Lovers, da Pizza Hut. Estou mesmo mesmo mesmo a ver se não desço tão baixo que acabe a dedicar uns versos ao círculo mais apetitoso do mundo. Estou assim a modos que a tentar não parar para vos explicar com argumentos e respectivos exemplos os motivos pelos quais esta pizza, não tendo carne, é, ainda assim, a melhor da ementa do Pizza Hut. Estou a tentar, mas não está fácil...
Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira.
Ok, acho que já está. Não vou fazer uma ode à pizza, mas vou dizer a quem nunca a provou que a Veggie Lovers é assim mais ou menos como ir ali ao paraíso e voltar. Boa que até dói! Provem e digam se eu não tenho razão.
Peculiaridades de um leitor I
Ando há uns dias a «mastigar» esta quixotada, mas depois acabo por escrever sempre outra coisa e outra e outra e, olhem, escapa-se-me sempre o tema. Mas hoje vai e ao pensar a fundo nisto, acabei por concluir que é coisa para mais do que um texto. Isto porque aquilo que «mastigava» era apenas um fenómeno que ocorre no mundo dos livros. Contudo, pensando em fenómenos destes e, por extensão, em peculiaridades dos leitores, verifico que não têm fim. Vai daí e olhem, nasce mais um conjunto de quixotadas devidamente numeradas e pomposamente chamadas (que cacofonia vai para aqui. Leiam em silêncio, sim?) de «Peculiaridades de um leitor». Atenção que este «leitor» não sou necessariamente eu. Somos todos nós, seres de carne e osso com manias no que à leitura diz respeito, mas também personagens que nos livros têm as suas próprias manias enquanto seres leitores.
Esclarecidos que estamos, vamos a isto. Segue-se a primeira peculiaridade.
Há uns anitos apercebi-me de que estava à venda uma edição do Quixote com um pomposo desconto. Não que me interessasse muito, uma vez que já a tinha. O que me chamou a atenção foi o facto de, dos dois volumes que compunham a edição, só o segundo estar à venda. O primeiro estava esgotado. Perante o meu espanto para com a situação (já que não via grande utilidade no desconto do segundo volume se o primeiro, o que continha o início da história, não estava disponível), o livreiro veio em meu auxílio e explicou-me a razão que justifica tantos «volumes dois» e nenhum dos volumes anteriores. Faz todo o sentido: quando sai uma edição, composta por mais do que um volume (saiam eles em simultâneo ou não), as pessoas optam geralmente por comprar apenas o primeiro volume para ver se gostam. O que parece, a julgar pela quantidade de segundos e de terceiros volumes que andam alegremente por aí, é que muitos não regressam para adquirir os volumes seguintes. Ou porque o primeiro não lhes agradou, ou porque nunca chegaram a lê-lo, ou porque a disponibilidade financeira não o permitiu, ou porque se esqueceram... Enfim, há muitas explicações para o fenómeno. A verdade é que raramente somos obrigados a comprar os diferentes volumes de uma só vez. A maioria dos livros de que me lembro que são compostos por múltiplos tomos é posta à venda em separado, o que permite que isto aconteça.
Ora, o fenómeno está explicado. Agora vem a parte que irrita os outros leitores: cruzam-se com um livro espectacular, maravilhoso, mesmo a pedir para ser levado para casa. Resolvem ceder à tentação, mas apercebem-se de que o menino é um segundo volume. Pensamento seguinte: onde está o primeiro??? Falam com o livreiro e ouvem [em lágrimas] que está esgotado. [Soltam um grito lancinante que nasce bem lá no fundo das vossas entranhas, mas que não se aguenta quando se trata de livros]. Agradecem ao funcionário e, geralmente, optam por um dos seguintes caminhos: ou compram o segundo volume e seja o que Deus quiser; ou pousam o segundo volume e seguem com a vida. Já tomei a segunda opção muitas vezes. Por acaso na última vez em que me aconteceu, fiz o contrário. Foi com As Mil e Uma Noites, da Quetzal. Encontrei num alfarrabista os volumes dois e três em excelente estado e por um bom preço. Não consegui deixá-los lá, até porque considerava que seria fácil encontrar o primeiro. Pois, só que o primeiro estava esgotadíssimo em todo o lado. Até em grupos de procura de livros no Facebook tentei consegui-lo. Tentei tudo: OLX, Custo Justo, livrarias grandes e pequenas... Sempre esgotado. Valeu-me um amigo que, curiosamente, também tinha a colecção incompleta em casa (tinha, precisamente, os dois primeiros volumes) e que mo deu [Filho, estou-lhe eternamente grata. Não se esqueça de guardar a sobrecapa do dito, que ainda se me enregela o pobrezinho!]. Lá ficou a colecção completa e feliz.
Agora, para terminar que parece que não há quixotada que não me saia um testamento, fica o apelo aos senhores das editoras: eu sei que o primeiro volume não pode ser feito às toneladas porque vocês ainda não sabem se vai vender ou não, mas dava para depois fazer mais uns quantos? É que isto é como os sapatos de números mais pequenos: são sempre os primeiros a ir embora e depois a pessoa tem de ficar com o desgosto de nunca poder comprar o sapatinho mais bonito, mas apenas a pantufa horrorosa que ninguém quis. Quando virem que a coisa vende, façam lá mais umas centenas de exemplares do primeiro volume. Eu sei que este pedido não tem jeito nenhum do ponto de vista económico, mas que querem? É o desespero de uma leitora a falar mais alto.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
A Menina Quer Isto LXXVII
É incrível ainda conseguir encontrar clássicos que não moram nestas estantes. De vez em quando olho para elas e penso que já cá estão todos. Até me esqueço que o mundo dos clássicos é vasto, ainda que consista nos produto de uma escolha feita pelos leitores ao longo do tempo. Bem, este que a menina quer e pensava que tinha (mas que estava a confundir com o A Invenção de Morel), é um clássico da ficção científica, escrito por um dos maiores desse género. A menina quer isto, portanto:
O lápis azul que agora é preto
Teria eu uns catorze anos quando um colega de escola me emprestou um livro que consistia na autobiografia de um adolescente qualquer (não me perguntem o que fez o autor de especial para escrever uma biografia na adolescência porque não me lembro). Termos como «punheteiro» apareciam a torto e a direito, além de outros de que já nem me recordo. Li o livro e estou viva.
Muito antes disso, li, por vontade própria, o livro Os Filhos da Droga, onde além de descrições sexuais, são muitas as descrições violentas relacionadas com consumo de drogas, mortes por overdose e outros problemas, também eles vividos na adolescência de alguém. Li-o talvez com uns doze anos e ainda ando por cá.
Como estes exemplos, existirão outros. Se puxasse mais pela memória, talvez lá chegasse. Mas já me passaram pelas mãos tantos livros que é impossível lembrar-me de todos. Lembro-me de, novinha, ter lido um policial que tinha, em determinado momento, um conteúdo sexual também muito explícito. Uma vez mais, sobrevivi.
Mas isto tudo a propósito de quê? No sábado passado foi notícia no Expresso a enorme indignação dos encarregados de educação do oitavo ano do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, devido à obra escolhida para ser lida no âmbito da disciplina de Português. O livro em causa é o romance O nosso reino, de Valter Hugo Mãe. O problema dos pais? Algumas páginas com uma linguagem vulgar. O semanário cita alguns exemplos que reproduzirei aqui: «E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma porca que fode com todos os homens e que mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.»; «maricas não é ter medo, isso é medricas, maricas é meter coisas no cu». Antes de avançar, deixem-me dizer-vos que este livro «retrata o dia a dia de uma criança de oito anos numa época marcada pelo final do Estado Novo, pela repressão sexual e religiosa e pelas mudanças da Revolução dos Cravos». A leitura deste livro foi decidida pelo Departamento de Português da escola citada e os professores consideram que a ideia era abordar com os alunos questões de língua, memória, narração e “prepará-los” para autores como Gil Vicente e José Saramago, em anos posteriores». Os pais não estão pelos ajustes, mesmo sabendo que a obra está (ou estava...) nas listas do Plano Nacional de Leitura e que, portanto, a escolha dos professores não saiu de um sonho louco, mas sim de um documento oficial que ajuda a orientar professores e alunos relativamente às leituras a fazer em cada nível de escolaridade.
Contudo, meus caros, o melhor ainda está para vir. Os pais ficaram muito indignados, duas mães dizem que «Os miúdos de 13 anos ainda não têm maturidade para compreender esta linguagem». Dizem que as palavras presentes no livro são «inqualificáveis», «violentas» e «inapropriadas para alunos de 13 e 14 anos». Vai daí e como a escola tomou a admirável decisão de manter a leitura do livro no oitavo ano (eis a diferença entre a escola pública e muitos colégios privados: estes últimos provavelmente ajoelhar-se-iam perante os pais e demitiriam os responsáveis pela escolha da obra), os encarregados de educação tomaram também as suas decisões: «umas proibiram os filhos de ler a obra; outras recorreram à técnica do “lápis azul”. “Eu, na minha liberdade de mãe, estou a fazer como a censura. Risquei as partes polémicas a preto.”».
Eu quero acreditar que estes querubins do oitavo ano nunca viram um filme com conteúdos pouco adequados à sua idade, sejam eles pela violência das imagens ou do vocabulário. Ou que não jogam, por exemplo, GTA. Eu quero acreditar que estamos a falar de meninos sem acesso à internet ou com um bloqueio parental ao nível de um Pentágono. Eu quero acreditar que estes adolescentes do oitavo ano têm uma caixa de areia em casa onde todos os dias enfiam a cabeça para não sonharem com o que de menos cor-de-rosa existe no mundo. Eu quero acreditar, mas não acredito. E quando leio que alguém, que nem sequer é professor, leu o livro antes do filho só para poder riscar a preto tudo o que o menino ou a menina não deve ler, arrepio-me toda.
Vamos ver: a pensar assim, esta pessoa vai ter de riscar também o Auto da Barca do Inferno e a Ilha dos Amores n’Os Lusíadas. Ora, essa última acção era precisamente uma das que o Estado Novo praticava e que impediu muita gente de ler, nas escolas algumas das passagens mais interessantes e importantes da nossa epopeia. Acredito que um pai ou uma mãe apanhados desprevenidos de repente com um livro com este tipo de vocabulário apanhe um susto. Mas depois deve pensar no assunto e perceber que se TODO um departamento de professores escolhe tal obra e que se ainda por cima esse título está nas listas que legitimam a escolha, então é porque saberão o que estão a fazer. Quem não ensina não sabe (embora toda a gente se julgue um professor em potência, o que é uma enorme prepotência e uma ainda maior estupidez), mas há muitas maneiras de abordar uma obra. Obviamente, a questão da linguagem tem de ser discutida, mas de um ponto de vista didáctico. Talvez seja bom começar por perceber por que motivo falará a personagem daquela maneira. Quais as suas características que justificam aquelas palavras e as ideias que veiculam? O que pretendeu o autor mostrar com este aspecto da linguagem, relacionando-a com todo o conteúdo da obra? Mas não: é muito mais fácil proibir a leitura ou, melhor ainda, permitir que o filho leia o livro, embora retalhado pelos cortes feitos a tinta preta.
Não sei em que mundo os pais vivem. Mas o mundo que eu conheço enquanto professora (e sempre do ensino privado, ainda por cima), mostra-me que os alunos do oitavo ano conhecem este vocabulário e algum ainda pior. Mostra-me que dominam a internet como mestres e que, tendo tempo para isso, vêem nela o que devem e o que não devem. Mostra-me que, muitas vezes, falam com os professores e contam que foram com os pais ver este ou aquele filme que não é, de todo, para a sua idade. Não indo mais longe: tive muitos alunos que foram ao cinema ver o filme Deadpool, que era para maiores de dezasseis. Ora eles eram alunos do sétimo ano, estando por isso muito, mas muito longe da idade necessária para ver o filme. Quem os levou ao cinema? Os pais. Eu vi o filme, sei o que por lá se diz e faz. Mas claro que os alunos do oitavo ano do Liceu Pedro Nunes não vêem este tipo de coisas.
Em resposta à polémica, o escritor Valer Hugo Mãe diz, com alguma graça, que não se lembra de o seu livro ser «assim tão escabroso e tão explícito» e que não lhe ocorre «ter usado uma perversão tão grande que represente a morte do Pai Natal».
Mais do que a linguagem, que é perfeitamente tratável na sala de aula e que não representa todo o livro, sendo apenas um dos elementos que o constitui, choca-me a reacção das famílias e, mais ainda, este retalhar da obra literária para que o adolescente a possa ler sem as partes que a mãe considera chocantes. Porém, onde pode parar a caneta preta? Se a escolha dos professores pode ser posta em causa pelos pais, quem põe limites ao que uma mãe censura ou não? Que leitura, que obra sobra depois de a caneta preta actuar? Onde está a confiança na escola e na capacidade de os docentes encontrarem uma forma de abordar o texto sem dar todo o ênfase do mundo à questão da linguagem? Não conseguiram estes pais exactamente aquilo que não queriam: dar todo o destaque às palavras menos bonitas e às ideias que elas constroem? Não terão sido os encarregados de educação com esta desproporcionada indignação os responsáveis pela redução de uma obra literária a duas páginas (segundo o Expresso) em que as palavras descrevem ou relatam algo que existe, mas que não costumamos mencionar assim? Eu acho que aqui se aplica bem aquela frase que diz «O que eu temo eu crio.» e, mesmo sem querer, estes pais conseguiram que, provavelmente os meninos agora só queiram mesmo saber o que diz nestas páginas do livro. Que ignorem o resto. Mas mais ainda, gostava de saber se o aluno cujo livro deve estar riscado a preto, não correu já a pedir o livro de um colega emprestado no intervalo para poder ler, avidamente, aquilo que tanta polémica gerou e que a mãe, tão candidamente, riscou.
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