segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A anestesia

Há lá sensação mais estranha do que a de ter uma parte do corpo anestesiada?!

Hoje fiz uma (vou citar a factura) "extracção dentária complicada" e tenho uma compressa no sítio onde estava o dente e onde agora estão os pontos. Há pouco precisei de a trocar e não sabia quando estava a tocar na bochecha ou a mexer na dita compressa... Neste momento parece que uma parte da minha cara é feita de cortiça. Abençoado o inventor da anestesia!!!

sábado, 14 de janeiro de 2017

É preciso ser burro!

Nem sei se já falei disto ou não, mas se falei, perdoem-me a repetição: acreditem que é a indignação que provoca a redundância.

O semanário Expresso está, desde a semana passada, a publicar em seis volumes uma biografia de Estaline. Tal como já publicou a biografia do Hitler, uma história da Segunda Guerra Mundial, uma História da Cultura, uma biografia do Salazar, romances de Camilo Castelo Branco, Os Maias e uma continuação desse romance escrita por vários autores portugueses... É normal e costumeiro o Expresso oferecer livros aos seus leitores. Ajuda a vender o semanário e quem já tem o hábito de o comprar agradece o miminho. Portanto, não é a oferta da biografia de Estaline que me apoquenta: o que me enerva são as inúmeras vozes que se têm levantado para criticar a escolha do livro a oferecer. Dizem estes eternos descontentes que é uma forma de “endeusar” um tirano sanguinário. Que podiam oferecer biografias de outras pessoas que dessem bons exemplos aos jovens em vez de dar a conhecer a vida do responsável por muitas e muitas mortes. Que é uma vergonha oferecer-se a biografia do Estaline e não a do Salazar ou do Hitler, coisa que o Expresso já fez, mas que os ignorantes desconhecem. Que o Estaline não merece a atenção. Que assim nunca ninguém vai esquecer esta besta. Que assim o Expresso quer é limpar a imagem de Estaline. Que há outras coisas melhores. Que...

Enfim, um chorrilho de disparates que só me levam a dizer que é preciso ser burro. Mas BURRO todos os dias. De uma ignorância tal que faz com que a perna manca de uma mesa pareça um professor de Harvard distinguido com um Prémio Nobel pela maior das descobertas científicas. Uma burrice capaz de fazer um saco das compras vazio corar de vergonha! Então agora só se podem revelar as partes bonitas e fofinhas da História? Então agora temos de eliminar do conhecimento geral as biografias dos ditadores porque conhecê-las é o mesmo que divinizá-los?! Desculpem-me, mas esta gente que anda a malhar no Expresso pela escolha do biografado é tão, mas tão jumenta que estaria bem no "País dos Brinquedos", aquele lugar onde, no Pinóquio, todos se transformam em burros.

A História é feita de muitas coisas. Umas melhores e muitas piores que nos obrigaram, como diriam os espanhóis, a “sacar adelante”. O século XX, o século em que tudo aconteceu, está cheio de figuras importantes. Quando dizemos importantes não estamos a dizer que são anjos do Senhor ou demónios do piorio: estamos simplesmente a dizer que as suas acções, a influência que tiveram sobre os acontecimentos fizeram a História mudar. Para melhor, para pior... Depende. Conhecer a vida destas pessoas não as diviniza per se. Supostamente, todos temos um cérebro que nos permite distinguir o certo do errado, todos temos um espírito crítico que nos leva a julgar como acertadas ou não determinadas atitudes. Ler sobre alguém com peso histórico não me faz passar a adorá-lo e a colar posters com a sua carinha no meu quarto (imaginem-me a colar posters do Estaline na cabeceira da cama e a dar-lhe um beijinho todas as noites). Fará de mim, com certeza, uma pessoa mais informada, mais capaz de perceber o que aconteceu, mas não necessariamente uma admiradora do biografado. 

O branqueamento da História deixa-me louca! É preciso ser-se, repito, muito burro para achar que isso traz vantagens. É o mesmo que os jumentos que quiseram alterar o Huckleberry Finn ao substituir a palavra “niger” por “slave” tentaram fazer. Coitadinhas das crianças que vão ler um insulto odioso. Mutilemos o clássico: sempre é mais fácil do que explicar-lhes o contexto de aparecimento da obra (nem é para isso que os professores são pagos nem nada... E eu sou professora, sei o que estou a dizer.). BURROS é o que são. E pior: são-no muito assumidamente, já que não têm pudor em ir para as redes sociais apregoar as suas nada fundamentadas opiniões. Então a partir de agora fazemos o quê? Só lemos o que é bom e bonito? Vidinhas de santos? Ai que porra, com tantas religiões diferentes, como havemos de saber o que podemos ou não ler? Olha, o melhor é não ler nada que é para não ferir nada nem ninguém. Burros, burros, burros!

Já quando o Mein Kampf saiu com a Sábado foi o mesmo fandango. Aqui d’El Rei que se está a publicar o programa político de um dos maiores criminosos da história! Ai que esta gente quer repetir  esta brincadeira! Mas será que têm a nossa inteligência em tão pouca consideração? Eu li uma parte do Mein Kampf e não tatuei a cruz suástica numa nalga. Pelo contrário: não só percebi que a mente daquela besta era para lá de retorcida ainda antes de fazer o que mais tarde veio a fazer como consegui passar a detestá-lo mais (afinal ainda era possível). Mas os burros do costume odiaram que o livro fosse publicado. 

A mim não me assustam as biografias dos ditadores, as histórias desta ou daquela guerra ou os livros com modos de pensar que causaram a morte a milhões de pessoas. O que me assusta é a ignorância e o gosto que muitos têm em enfiar a cabeça debaixo da areia. Esses, os pouco informados que só querem um mundo cor-de-rosa cheio de unicórnios a vomitar purpurinas e arco-íris de veludo, é que metem medo porque querem esconder o que de mais importante temos: o passado enquanto guião de tudo o que correu mal e de que vale a pena continuar a desviar-nos. Irra, que é preciso ser burro!


Nota: E já agora, esta edição é feita em parceria com a editora Alethêia e os livros são muito jeitosos. São gordinhos, o tipo de letra e o espaçamento permitem uma leitura cómoda. Só lamento que esta biografia deixe de fora a infância do biografado. Parece que o autor escreveu um outro volume dedicado a esses primeiros anos de Estaline e esta será muito mais a biografia política. Enfim, quem depois quiser conhecer mais sobre esta figura pouco simpática mas incontornável do século XX posteriormente pode procurar informação noutros livros ou fontes.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Roberto - parte 2

É meia-noite e um quarto. A saga "Roberto" teve uma fase mais calma, mas acendeu-se novamente. Por agora ouve-se um "Roberto, não te atrevas!" e um "Roberto, queres que eu te falte ao respeito?". Ah, e já me esquecia: "Roberto, estás-me mesmo a tirar do sério. Tu tiras-me do sério, c******!". O tom de voz está em crescendo.

Por aqui chego à conclusão de que se tivesse uma nota de cinco euros por cada vez que a-moça-que-podia-ser-um-gritador-azeiteiro-em-Hogwarts diz um palavrão ou o nome do Roberto, já podia estar a comprar a secção de literatura estrangeira da Fnac, uma Bimby e três quilos de cerejas do Fundão em época alta. Oportunidades perdidas, é o que é.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Roberto

O Roberto é uma personagem que entrou na minha vida esta semana e que já faz o meu coração bater mais depressa... De tantos nervos que me provoca.

Ora imaginem-se nesta situação: estão a dormir o vosso primeiro soninho, o melhor de todos, e acordam repentinamente com a voz de alguém que fala sonoramente ao telemóvel num apartamento que deverá ser do prédio ao lado, a avaliar pela direcção de onde chega o som. Levantam a cabeça da almofada ainda meio totós e sem perceberem que porra está a acontecer e quem são vocês e han? Han? Han? (que são as sábias perguntas que nos ocorrem quando somos violentamente arrancados dos braços de Morfeu). Ao erguerem a vossa cabeça, percebem algumas frases que estão a ser ditas em voz bem alta: "Não voltas as desligar-me a p*** do telemóvel na cara, Roberto!" (frase repetida cerca de sete vezes seguidas e sem os asteriscos). Continuam em modo "troll" sem perceber em que terra estão e se ainda estão a dormir. Mas com a continuação do berreiro acabam por despertar e por tentar perceber quem é que raio está a montar um arraial às quatro da manhã (sim, leram bem, eram quatro da manhã).

Até agora sei pouco sobre a personagem que desconhece o que seja falar baixo e que também não deve saber o que é um relógio e, muito menos, deve saber ver as horas. Só sei que deve morar no prédio do lado, já que o som vem de baixo e da zona da cabeceira da minha cama (já viram a minha sorte?!) e, tendo em consideração que no meu prédio o apartamento de baixo é habitado por uma octogenária que tem um relógio de pêndulo, parece-me pouco provavel que ela grite com um Roberto às quatro da madrugada. Sei também que a menina que grita não gosta que o Roberto lhe desligue a chamada enquanto ela grita; que gosta de afirmar que ela não é uma das p***s do Roberto; que a relação está tremida ou fica tremida pelo menos três vezes por semana; que uma das frases favoritas da fofinha é "cala a boca, Roberto!" e pouco mais. Sei que da primeira vez estive sem voltar a adormecer das quatro às sete e tudo porque o Roberto se portou mal. Hoje estava eu no quarto a ler pacatamente a Anna Karenina e eis que subitamente o vulcão menina-histérica-mas-extremamente-apaixonada-pelo-Roberto entra em erupção e a saga recomeça. Excertos como "partir a cara", "não sou uma das tuas p***s" e "responde à minha pergunta, Roberto!" começam a subir pelas paredes. Aparentemente, a menina deve também estar a ensinar o Roberto a fazer um refogado, a julgar pela quantidade de vezes que me chega aqui o som "alho", mas agora que penso nisso acho que pode ser outra coisa. O que sei é que o Roberto está há mais de meia hora a ouvir a tipa aos gritos ao telefone e eu, que não sou o Roberto, tenho de ouvi-los também. O Senhor Gato e a Lady Gatinha estão em choque e de vez em quando levantam as cabeças com um total aspecto de quem já não tem fé nenhuma na humanidade. Tento explicar-lhes que o problema está só nos Robertos desta vida, mas eles já não acreditam. 

A julgar pela conversa da menina-que-julga-que-toda-a-localidade-quer-saber-quem-são-as-p***s-do-Roberto, este menino é um fresco! E eu gostava de lhe dizer umas coisas. Gostava de lhe dizer para pegar na menina e ir fazer o amor para longe daqui. Não só pouparia a sua paciência como os meus tímpanos e horas de sossego. Ou então que corra com ela de uma vez, que ninguém merece tanto grito. E se é um porco, ela que o mande às urtigas e vá gritar para outra freguesia que isto não é vida para ninguém!

Sempre pensei que, a ter um Roberto na minha vida, seria um gato chamado Roberto Anísio. Afinal sai-me este jeitoso. De facto, é melhor nunca criar expectativas sobre nada. 

Nota: Levei uns vinte minutos a escrever a quixotada pelo que o Roberto já está a ser desancado há quase uma hora... E continua! Façamos uma corrente de oração pelo Roberto (e por mim). 

Inícios [nada] fantásticos

Há muitas maneiras de começar um ano. Eu cá gosto de começá-lo em grande! E que melhor forma de fazer isso do que recebendo quase toda a discografia do Cohen ao mesmo tempo que estouro com um dente molar e passo a precisar com urgência de um dentista (sendo que o consultório onde costumava ir fechou)??? Assim de repente não consigo imaginar melhor forma de inaugurar o ano novo. 

Portanto, amanhã de manhã preciso de descobrir uma alma caridosa que me arranque o fdp*** do dente que está a levar-me à loucura. Até lá comerei papas. Papas, papas e papas. Porra de sorte!

SUGESTÃO MUITO A PROPÓSITO: Por causa disto de dentes que precisam de ser arrancados lembrei-me de sugerir-vos a leitura do conto “Um Dia Destes”, do Gabriel García Márquez. É muito bom e passa-se no consultório de um dentista muito corajoso. Leiam que é muito bom.

Presente de Natal fora de época

O meu moço tem azar todos os anos e há sempre um presente para mim que não chega a tempo. No ano passado foi o Quixote da Real Academia Espanhola que só chegou a meio de Janeiro. Como geralmente ele me oferece sempre mais outras coisas, acaba por não se chatear assim tanto e eu acabo a receber mais um presente quando as festividades já acabaram. Devo dizer que hoje me soube muito bem receber uma caixa com “The Complete Studio Albums Collection” do Leonard Cohen. Assim, na pequena caixinha estavam todos os cd’s editados por ele desde 1967 até 2004. Ficam a faltar-me apenas os seus três últimos álbuns para ter a discografia completa.




Obrigada ao moço por acertar sempre nos presentes que me fazem feliz. Gostei mesmo muito. Gostei ainda mais porque, tendo chegado depois da loucura natalícia, vou poder dedicar-lhe mais atenção e ouvir as minhas músicas preferidas de Leonard Cohen vezes e vezes sem conta, sem a maldita publicidade que se intromete nas playlists do YouTube.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Meias: o problema

Expliquem-me este fenómeno: dobro a roupa e sobram-me sempre meias sem par. SEMPRE! Pergunto-me se devo ter a esperança de voltar a reunir estes pares desavindos ou se devo chorar já o desaparecimento de quatro meias que inutilizarão igual número de pares. Malditas meias que dão cabo do juízo a uma pessoa!

Ah, e já que estou a falar de meias, deixem-me desabafar sobre algo que me enerva solenemente: por que raio as meias masculinas parecem todas iguais??? Dobrar aquilo é o horror. Quase preciso de uma lupa para descobrir as diferenças mínimas entre as peúgas de modo a conseguir emparelhá-las com o par correcto. Que desespero!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Um clássico é sempre um clássico

Tenho andado a ler o romance Anna Karenina, de Lev Tólstoi, e só me ocorre o do costume: um clássico é sempre um clássico. A frase é estúpida todos os dias, mas reflecte mais ou menos o meu estado boquiaberto perante a perfeição da escrita e da história narrada. Este tipo de mestria encontra-se (quase) sempre nos clássicos e é por isso que se torna tão seguro escolher estes livros antes de outros. Primeiro porque é nossa obrigação conhecer o que de melhor já foi feito e que, hoje em dia, faz parte da nossa identidade (seja nacional, seja europeia...). Em segundo lugar, devemos ler os clássicos porque se eles receberam esse rótulo foi porque tiveram a capacidade de sobreviver à passagem do tempo e ao escrutínio dos inúmeros leitores que já lhes percorreram as páginas.

Num mundo onde há todos os dias mais uns milhões de páginas para ler, é fácil deixar alguma coisa para trás. No entanto, é importante que não deixemos para trás o que de melhor já se fez. O que é tão bom que se conhece já ainda antes de ser lido. A propósito disto, ontem lia um artigo sobre o clássico Alice no País das Maravilhas e o autor dizia algo como que a sua leitura já não acontece muito porque todos já sabem o que por lá se passa. Até percebo uma parte da ideia, já que a ideia base de cada clássico é conhecida por todos (muitos podem não ter lido o Quixote, mas sabem que há um tipo que anda para aí a lutar contra moinhos porque se julga cavaleiro andante: é algo que é do domínio comum). Mas julgar que já não vale a pena ler porque já se conhecem vários elementos do enredo vai além do que me parece ignorância. É, sobretudo, redutor daquilo que é um livro. Um livro, e concretamente um clássico, não é apenas a sua acção central. É também as acções secundárias, as suas personagens, os ambientes que descreve, o modo como os descreve, a perfeição da escrita e das imagens criadas, os valores que veicula... Um clássico é sempre um clássico e pronto. É o que de melhor podemos ler. Com a Anna Karenina tenho recordado muito isto e, portanto, aconselho a todos a sua leitura. É Tólstoi e ele não nos falha.


Actriz Sophie Marceau, protagonista numa das adaptações cinematográficas que se fez de Anna Karenina.
A imagem saiu daqui.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Paradoxalmente

Na crónica de Miguel Sousa Tavares publicada no semanário Expresso da semana passada, o autor falava das redes sociais e de como elas e as falsas notícias que propagam à velocidade da luz estão a alterar o nosso conhecimento, o modo como (não) nos informamos.

Para o efeito refere as constantes notícias que vieram a público sobre Hillary Clinton por alturas da campanha eleitoral. Boa parte delas eram falsas, mas foram suficientes para minar a opinião de muitos “consumidores” de redes sociais que, por azar, também eram eleitores. A partir disso, Miguel Sousa Tavares reflecte sobre como tão facilmente comemos as mentiras propagadas pelas redes sociais, transformando-as em verdades simplesmente porque lá estão. Nós vamos acabando por habituar-nos a devorar as notícias que, por exemplo, nos aparecem no mural do Facebook e raras vezes vamos verificar se são verdadeiras ou não. Refere ainda o autor da crónica que paradoxalmente, até os meios de comunicação como as televisões acabam por servir-se do que aparece no Facebook para gerar notícias, servindo-se para isso da expressão “viral” como forma de justificar o surgimento de tal notícia nos seus blocos informativos. O paradoxo está, refere Sousa Tavares, precisamente no facto de serem as redes sociais e as muitas notícias (falsas e verdadeiras) que veiculam as responsáveis pela cada vez mais significativa quebra nas vendas de jornais, por exemplo. Muitas pessoas que querem informar-se não vêem os noticiários nem compram jornais: consultam o Facebook. Pelo meio acabam por engolir o verdadeiro e o falso, o bom e o mau. Quem quer outro tipo de informação recorre a outras fontes, vai mais além do imediato que nos chega pelas redes sociais. Mas estes últimos, infelizmente, são poucos e vão sendo cada vez menos.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e também nunca tivemos de ter tanto cuidado com ela. Não só pela quantidade de informação incorrecta que por aí circula, mas ainda pela falsa sensação de conhecimento que tantas notícias, textos expositivos ou outros provocam. Disse-se em tempos que um dia os professores deixariam de fazer falta, já que o conhecimento estaria acessível a todos e a mediação de um docente deixaria de ser necessária. Afinal verifica-se que, embora o conhecimento esteja por aí, é preciso que exista alguém capaz de ensinar a separar o trigo do joio (muitas vezes sem grande sucesso, tão grande é a devoção pelo que é mau e a pouca vontade crítica para questionar o que nos chega com enorme facilidade), e, por isso, os professores continuam a assumir o seu lugar nas salas de aula. No entanto, para muitos que já abandonaram os bancos da escola ou que não fizeram a aprendizagem que deviam ter feito enquanto por lá andaram, tudo o que vem à rede é peixe e se na internet diz que fulano fez isto é porque fez e assim podemos espalhar a informação pelos nossos conhecidos. Se no Facebook me aparece um link para uma notícia de uma página qualquer sobre o que sicrano fez, posso sempre partilhá-lo com os meus amigos. Seja verdade ou não. Posso desatar a comentar qualquer coisa que nem sequer é bem assim. Posso nem me dar ao trabalho de verificar se a fonte é fidedigna ou se é mais um distribuidor de petas. Enfim, posso fazer o que quiser com a informação que me chega e isso é francamente perigoso.

Há uns anos li um artigo na New Yorker que mostrava um dos lados ocultos da internet e que sempre gostei de partilhar com os meus alunos. Nesse artigo pediam-nos que imaginássemos uma situação: separadas por uma cortina estão duas pessoas. Uma vem do século XIX e faz várias perguntas à que está do outro lado da cortina. Pergunta sobre Música, sobre Literatura, sobre História, sobre Ciência... E a tudo o outro responde. O homem do século XIX, que só sabe que do outro lado está alguém do século XXI, fica estupefacto com as respostas correctas e a acreditar que neste nosso século somos todos uns génios. O que ele não pode imaginar é que do outro lado da cortina está alguém com um telemóvel com acesso à internet, onde buscava imediatamente a resposta a qualquer pergunta que lhe fosse feita. A questão que nos era colocada era: quem sabe mais? O homem do século XIX ou o do século XXI? O artigo atirava uma resposta: quem provavelmente saberá mais é o homem do século XIX porque o seu conhecimento foi solidamente adquirido e consolidado através do ensino, das leituras que fez, das peças a que assistiu, das viagens que fez... Já o do homem do século XXI é um falso conhecimento: ele descobre as respostas automaticamente recorrendo ao telemóvel e a ferramentas com as quais estamos hoje familiarizados. Mas perguntemos-lhe na próxima semana o que aprendeu hoje nos sites que consultou e provavelmente ouvi-lo-emos gaguejar. Isto porque hoje temos a informação na palma da mão, mas isso não significa que ela nos fique na memória para uso futuro. Estamos expostos a tanto conhecimento que acabamos por não reter quase nada. Já no século XIX, fruto também do tipo de ensino praticado, a memória era fundamental e o conhecimento não estava em todas as esquinas, pelo que acabava por ser mais escasso, mas também por ficar mais tempo connosco. Paradoxal, não? Quanto mais podemos saber, menos sabemos de facto. Recorda-me a “síndrome das fotocópias”, de que falou Umberto Eco: muitos estudantes tiram fotocópias e depois não as lêem. Sentem que já estão preparados para o teste porque já têm as fotocópias, mas depois adiam e adiam a sua leitura.

Ou seja: a internet e, concretamente, as redes sociais condicionam o nosso conhecimento e, em consequência, as nossas opiniões, o que é manifestamente perigoso (especialmente quando alguém se quer aproveitar disso, como parece que aconteceu nos Estados Unidos com a Hillary Clinton). Vimos o resultado disso nas eleições norte-americanas e temo que cada vez mais o vejamos. O melhor dos mundos seria aquele em que as pessoas não se ficassem pela internet e consagrassem tempo a buscar informação em jornais e revistas de qualidade, bem como nos livros que sempre cá estiveram, estão e estarão para nos ensinar e ajudar a pensar. Mas a cultura do imediato leva a que cada vez mais se ignore o prazer da procura pela informação apenas porque é muito mais rápido ir ao Facebook e ler alguma coisa sobre determinado assunto, colocar um “like”, partilhar a página e pronto. Nunca o mundo nos deu tanto e, paradoxalmente, nunca nos apoucámos tanto como nos dias que correm.

Novos nas estantes

Ano novo, livros novos. Para as estantes vão estes fofinhos:










Abençoadas promoções.

Nota: Todas as imagens saíram da página da Wook.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Não é estúpido: é tradição

Vivemos num país onde matar touros na arena não faz mal... é tradição. Vivemos num país onde colocar um gato vivo dentro de um pote de barro no cimo de um poste ao qual se pega fogo não é estúpido... é tradição. Vivemos num país onde, num certo lugar, o Dia de Reis é o dia em que se dão cigarros às crianças para fumarem, mas não é criminoso... é tradição.

Infelizmente, estas e outras quejandas tradições dizem muito sobre nós. Infelizmente, também, não dizem nada, mas nada de bom.

Crescer é difícil

Há algumas semanas falei com a mãe de um adolescente de dezasseis anos que me disse que em conversa com o filho, e depois de pedir-lhe que crescesse (devido às características da adolescência que a estavam a enlouquecer), o rapaz respondeu-lhe “Mãe, mas é tão difícil crescer!”.

Eu tentei explicar à senhora que é difícil, sim, mais ainda nos tempos em que vivemos, tempos em que os querem proteger de tudo até muito tarde, para depois, e de repente, lhes exigirem que sejam maduros. São tempos em que um adolescente tem, normalmente, os pais por perto a facultarem-lhe tudo o que podem, muitas vezes até de mais; em que são levados à escola, depois levados a casa até acabarem a escolaridade... Mas, no fim, os pais querem que os miúdos sejam independentes e desenrascados. Foi isto que tentei explicar à mãe e ela concordou comigo: de facto, hoje não é fácil crescer.

Ser adolescente é difícil. É muito complicado encontrar o equilíbrio entre o que os pais desejam e aquilo que os amigos e os pares querem que o adolescente seja. Muitas vezes, desejam-se coisas completamente opostas e por isso muitos adolescentes vivem uma angústia enorme por não conseguirem agradar completamente os pais (que exigem cada vez melhores notas, até porque cada vez proporcionam melhores meios para chegar a elas; que exigem um comportamento exemplar) e por não conseguirem ser exactamente o que os amigos esperam deles. Há um conflito que, numa idade em que tudo é confuso e doloroso, provoca não raras vezes a sensação de que é impossível existir sem estar a desiludir alguém.

E como se isto não fosse já complicado, os adolescentes ainda assistem a fenómenos que passam por um aumento inexplicável e inaceitável da violência entre eles. Noutros tempos, os problemas por namorados ou namoradas podiam passar por uma bofetada com o/a rival. Agora são murros e pontapés na cabeça dados por mais do que um agressor, enquanto alguém filma e faz desaguar o vídeo nas redes sociais, perpetuando ad eternum a agressão. Aquilo a que todos assistimos quando estas imagens chegam aos canais de televisão e voltamos todos a conversar sobre o mesmo é assustador: é a perda de qualquer respeito pela vida do próximo e é o desejo muito animal e narcisista de mostrar superioridade pela violência. Pelo meio está o pontapeado e o esmurrado a tentar defender-se como pode, provavelmente consciente também de que mais tarde verá o vídeo da sua agressão ser enviado entre amigos, comentado, classificado com “likes”, parodiado... Às nódoas negras somam-se as feridas emocionais que isto provoca em qualquer ser humano, mas que serão sempre maiores em alguém que está naquele limbo esquisito entre a infância e a idade adulta.

Apareceu, como todos já devem ter visto, mais um vídeo com agressões entre adolescentes. Desta vez foi filmado em Almada. No resto, é em tudo igual ao que já vimos: murros, pontapés e uma câmera que filma tudo para a posteridade. Os adultos assistem boquiabertos, os pais de filhos adolescentes tremem com o que vêem e rezam para que nunca tal lhes bata à porta, os que foram adolescentes há pouco tempo sabem que isto acontece e já nem estranham muito. Quase todos esperam castigos pesados, sabendo secretamente que neste país de brandos costumes eles nunca chegam. 

É importante prestar atenção ao que se passa com os nossos adolescentes. Crescer nunca foi fácil, mas sempre foi tido como inevitável. Agora, o crescimento é constantemente adiado (é-se adolescente até mais tarde) e pelo caminho espera-se que o jovem assuma uma série de papéis que entram em conflito com muita frequência. Como disse, conjugar redes sociais, amores, amigos e família (com as expectativas desta gente toda e as possibilidades que hoje em dia têm) é extenuante. Mas nada, absolutamente NADA, justifica a violência selvagem, absurda e vergonhosa a que assistimos nestes vídeos. É preciso educar esta gente, facultar-lhes terapia, pô-los a pensar no que é um ser humano e o respeito que ele merece. É preciso punir exemplarmente quem faz estas coisas (bem como quem as filma) e sarar as feridas a quem as sofre. Crescer é difícil, mas não deve ser impossível.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Quando tudo falta ou o poder de um livro

«No campo de concentração de Bergen-Belsen, os prisioneiros circulavam entre si um exemplar d’A Montanha Mágica de Thomas Mann. Um rapaz lembrava-se do período que lhe era permitido ter o livro nas mãos como “um dos pontos altos do dia, quando alguém mo passava. Ia para um canto para estar em paz e, depois, tinha uma hora para o ler”. Outra vítima polaca muito jovem, recordando os dias de medo e desalento, teve a dizer o seguinte: “O livro era o meu melhor amigo, nunca me traía, reconfortava-me quando eu desesperava, dizia-me que eu não estava sozinho.”»

Alberto Manguel in A Biblioteca à Noite, Tinta da China (p. 208)

Quando tudo falta, quando tudo falha, quando o mundo parece expulsar-nos de cima dos seus ombros, ainda sobram os livros para nos reconfortar. Ao ler hoje este excerto não pude deixar de ter pena de todos os que hoje sabem e podem ler, mas que escolhem não o fazer. Têm milhares de livros por perto, uma possibilidade imensa de aceder a novos textos, contudo dizem com gáudio que ler é “uma seca” e passam uma existência inteira sem lerem um único livro. As vítimas do campo de concentração referidas no excerto mostram um reconhecimento imenso pelo livro que, nem que fosse por uma hora, os levava para mais longe do inferno vivido. Provavelmente, dariam tudo para que esse reconforto permitido pela leitura durasse mais do que sessenta minutos; provavelmente adorariam ter acesso a outros livros e, sobretudo, provavelmente dariam tudo para estarem no sossego do lar com aquele ou outro livro. Não lhes foi possível nada disso. Mas no meio da maior das adversidades, reconheceram que o tempo passado com A Montanha Mágica era um curto tempo de paz em plena guerra. É este o poder dos livros e preocupa-me que sejam tantos os que hoje escolhem não ler, passando uma vida inteira sem sonhar o seja esta sensação de paz mesmo quando tudo arde; esta amizade e confiança transmitidas por um volume de papel passado de mão em mão por tempo limitado durante dias de verdadeiro terror. 


Nota: A imagem saiu daqui.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Livros que quero ler em 2017

Ora, nem seria ano novo se não começássemos já a falar de livros.

Andando por esta internet, deparei-me com esta sugestão de reflexão e decidi pensar um bocadinho no assunto:


Diga-se que não é coisa fácil de se fazer quando nas prateleiras há centenas e centenas de livros para serem lidos. Aquela experiência de saber sempre que livro iria ler a seguir, de sentir (quando se aproximava o fim da leitura do momento) que de seguida apeteceria conhecer o livro A ou B desapareceu conforme as estantes se foram enchendo e enchendo de novos livros. O meu ritmo de leitura não acompanha o ritmo de chegada de novos volumes e isso acabou por fazer-me perder esta capacidade, que quase parecia um instinto, de saber que livro se seguiria. 

Contudo, apesar da farta escolha, há alguns livros que estão cá por casa e que gostaria mesmo de ler em 2017. Convinha ler um bocadinho mais depressa do que leio para conseguir dar despacho a isto tudo (já que não são volumes fininhos), mas vamos ver como vai correr a coisa. Então, em 2017 quero ler:







Assim de repente lembro-me destes. Claro que pelo meio gostaria de ler outros de menor fôlego, coisa mais para entreter do que os monumentos que aqui estão. Mas esses serão escolha do momento numa das minhas viagens às estantes. A ordem de leitura será uma qualquer, que nisto dos livros é a vontade que manda e não um calendário pré-programado. Por enquanto, entro em 2017 com duas leituras que vêm já de 2016. Uma delas é uma leitura que leva quase um ano e que, na verdade, é uma releitura. Leva quase um ano porque é um livro enorme (a vários níveis) e porque é uma edição crítica, pelo que as notas de rodapé são imensas e desaceleram a velocidade da leitura da novela propriamente dita. Falo-vos da maravilhosa e pesada edição do Quijote publicada pela Real Academia Espanhola para celebrar os quatrocentos anos da obra-prima de Cervantes. Já cheguei à segunda parte, pelo que espero terminar ainda antes do final deste ano. Note-se que esta edição está em espanhol do início do século XVII, o que faz deste um desafio ainda maior.


Pendurada, também, vem a leitura de A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel. O livro é MARAVILHOSO para viciados em livros. É mesmo muito bom e fala-nos sobre vários aspectos relacionados com bibliotecas, públicas e privadas; sobre as taras que cada um de nós tem com os seus livros e a sua organização; sobre o modo como a nossa biblioteca pessoal, por maior ou menor que seja, conta muito do que nós somos ao mundo.


Fora isso, vêm penduradas revistas e mais revistas que não consegui ler em 2016. Caramba, mesmo desempregada as vinte e quatro horas do dia não chegam para tudo! E a porra do iPad rouba demasiado tempo. Ainda por cima, nos últimos meses, tenho-me viciado em séries e os livros vão ficando parados. Mas este ano será um novo ano e espero conseguir dedicar tempo a tudo. 

E vocês, o que pretendem ler em 2017?

Quixotemos, então!

Andei desaparecida do blogue para me dedicar às festas e gordices da época. E agora, que o primeiro dia do ano está a terminar, já posso vir aqui quixotar-me toda enquanto degusto uma água das pedras para a ajudar a digerir tanto disparate calórico.

O Natal foi muito bom e o Pai Natal foi o querido de sempre. Alguns livros vieram juntar-se a uma biblioteca cada vez mais composta (haja anos de vida para estes livros todos!). Foi o caso destes lindinhos:




Também me trouxe um vale para gastar em mais livros, várias coisas com gatos da Loja do Gato Preto (francamente, adoro essa loja! Comprava tudo!), uma estadia num sítio porreiro e relaxante, um dvd do Timon & Pumba (eheh), uns produtos com cheirinho bom e mais umas coisitas. Foi querido o senhor das barbas brancas.

A passagem de ano também correu bem. Foi muito divertida e tranquila. O almoço do primeiro dia do ano foi em família e com um belo bife da Portugália. Nham!

Portanto, têm sido bons dias. Para 2017 não pedi doze desejos. Pedi um ou dois que são os básicos para as nossas vidas: saúde e amor. No fundo, é do que mais precisamos, até para depois podermos combater tudo o que nos apareça pela frente. Espero que em 2017 chegue também um novo emprego que me faça feliz, que para trabalhos horrendos e patrões odiosos já me chegaram os últimos anos. Gostaria de deixar isso enterrado em 2016 e seguir em frente.

Já vo-lo desejei, mas reitero os votos de que todos os apreciadores das quixotadas desta humilde casa tenham um excelente ano. Será um gosto viver mais trezentos e sessenta e cinco dias convosco, partilhando de forma mais ou menos regular as coisas que acontecem, os livros que vou lendo, os disparates de que me lembro e tudo o que tenha lugar nesta espécie de diário partilhado. Quixotemos, então!