segunda-feira, 3 de julho de 2017

Incidente em Antares: o balanço

Nota inicial: Vou escrever está quixotada no telemóvel por isso perdoem-me as possíveis gralhas e o desalhinhamento do texto. Se não escrever isto já hoje, passo ao livro seguinte e acabo por esquecer-me de falar-vos deste.

Hoje terminei a leitura de Incidente em Antares, de Erico Veríssimo e posso dizer-vos que este é um livro EXTRAORDINÁRIO! Assim mesmo, em maiúsculas. É daqueles aos quais ficamos agarrados e que ficam também agarrados a nós. Estão a ver aqueles livros que só queremos acabar para conhecermos o fim, mas que nos deixam uma sensação de orfandade quando chegamos à última página? Este é um desses. 

Sem vos revelar tudo, deixem-me dizer-vos mais ou menos o que compõe este texto. Numa pequena cidade do sul do Brasil, chamada Antares, acontece na década de sessenta do século XX um "incidente" que altera a vida dos habitantes daquele lugar. Mas calma: desse incidente só se fala na segunda parte do romance. Antes disso, uma primeira parte apresenta-nos a história de Antares ao longo dos tempos. Ora, aquilo que acontece nessa pequena cidade é originado em boa parte pelo que acontece politicamente no Brasil, sensivelmente desde o século XIX até ao momento do incidente. Deste modo, o autor apresenta ao seu leitor um resumo da história política do Brasil. Todavia, ao lermos, percebemos bem que aquela primeira parte é um grande preâmbulos sem o qual não conseguiríamos perceber toda a dimensão do incidente que constituirá o núcleo da segunda parte. Ligadas à história política do Brasil estão as personagens que voltaremos a ver na segunda parte. Conhecemos os seus ascendentes, os seus vícios e virtudes, os seus talentos e os pontos fracos e tudo isso será fundamental para a compreensão da segunda parte. Somos apresentados a uma sociedade patriarcal e extremamente machista, onde vale tudo, mas mesmo tudo, para chegar-se onde se deseja. Em Antares há duas famílias inicialmente rivais que têm propriedades a perder de vista e que se tornam as mais importantes da cidade, ao ponto de nenhuma decisão ser tomada sem passar antes por elas. Falamos dos "coronéis" que nos habituámos a ver nas novelas da Globo: homens que mandam e desmandam, que decidem a seu bel-prazer e que se tornam perigosamente poderosos. Os Vacarianos e os Campolargo serão o eixo em torno do qual Antares vive. 

Depois desta primeira parte em que somos contextualizados tanto relativamente à cidade como ao país, passamos à segunda, à do incidente. 

Antares vai viver uma greve geral dos trabalhadores de três empresas que laboram na cidade. O objectivo são os aumentos salariais que já não acontecem há vários anos. Se tudo correr como está previsto e se as empresas não cederem, Antares parará, até porque muitos outros trabalhadores pararão também em solidariedade com os colegas das tais três empresas estrangeiras (pormenor que mostra já a crítica à exploração por parte de outros países aos trabalhadores de pequenas cidades do Brasil, onde a mão-de-obra era barata e garantia de sólidos lucros empresariais). Bom, não existindo acordo, a greve avança e até os coveiros, em consideração com os restantes camaradas, pousam as pás e não procedem a sepultamentos. Também eles, mesmo sendo funcionários da Prefeitura, querem seguir a onda de exigências e pretendem aumentos. Por coincidência, naquele primeiro dia de greve, vários habitantes da cidade morrem. Sete, para ser mais precisa. O problema maior acontece quando falece a matriarca da família Campolargo. Depois do cortejo fúnebre, quem acompanhou o féretro ao cemitério viu-se impossibilitado de lhe dar sepultura, não só por um enorme piquete de greve, mas também porque os coveiros se recusaram a fazê-lo. Assim, o corpo de D. Quita, a mulher mais rica da cidade, fica no caixão encostado à parede do cemitério à espera de que a greve passe. Junto a ela já estão outros seis defuntos, mas desses ainda não havia história, pois socialmente não eram ninguém ou quase ninguém. Depois de uma noite junto ao cemitério, os sete defuntos levantam-se dos féretros e descen ao centro da cidade para fazerem pressão sobre os vivos de modo a que dêem enterro digno aos mortos. Primeiro farão visitas privadas e cada um visitará aqueles que mais amou e as casas onde viveu, muitas vezes para descobrirem apenas que já foram esquecidos e trocador por outros. Verificarão que aos vivos interessam as jóias, a herança, a liberdade que tal morte gerou. Poucos dias após a morte, estes defuntos já nem eram lembrados. Mas far-se-ão recordar com grande pompa. 

Não vos conto mais porque este livro é ainda melhor se certos pormenores forem descobertos página a página. Mas o que me importa ainda dizer-vos é que este incidente despirá a cidade das suas vestes falsas, arrancar-lhe-á as máscaras e as vidas duplas, paralelas, reprováveis tornam-se públicas. No fundo, cada defunto mostrará um ou vários problemas que assolavam o Brasil da época. Recorde-se que era um país sob ditadura militar, no qual a liberdade era extremamente condicionada, onde as torturas existiam em nome de um suposto bem maior. Isto tudo na tal sociedade patriarcal onde a voz da mulher não se fazia ouvir e na qual a corrupção e a ilegalidade imperavam. Estes defuntos chocarão a cidade, não só pelo seu aspecto e cheiro pestilento, mas também porque, não tendo já nada a perder, dirão e farão na morte o que lhes foi impossível em vida. 

E o que resulta dessa intervenção tão macabra? Não vou contar-vos para não estragar a leitura. Mas imaginem uma sociedade com séculos de falcatruas, inde o fosso entre ricos e paupérrimos não é bem um fosso, mas mais um precipício... o que vos parece que vão  conseguir estes corpos em decomposição, ansiosos por descerem à terra? 

Infelizmente, este não é um livro muito fácil de conseguir. Comprei o meu há uns anos numa feira de objectos em segunda mão. Gostaria que as editoras olhassem mais para a obra de Erico Veríssimo, mas é difícil abdicar de publicar porcaria para editar um dos melhores autores brasileiros. Entretanto, a quem interessar, possivelmente encontrarão este romance nas bibliotecas ou em alfarrabistas. Vale muito a pena e é um livro que constantemente nos surpreende, levando-nos a pensar sobre o modo como uns podem ter duas vidas paralelas enquanto outros, tão mais desprotegidos, nem uma vida com dignidade podem ter. Enfim, este romance levanta tantas, mas tantas questões que só lendo. Espero que o encontrem e que se divirtam tanto a lê-lo como eu me diverti. 



O sopeiro pioneiro

O Senhor Gato adora sopa, já aqui o disse várias vezes. Mas pelos vistos é um visionário. Acabei de ver um anúncio de sopas para gatos da marca Purina. Segundo o anúncio, são mesmo sopas: com caldo e partes mais sólidas, acondicionada em saquetas como esta.


No entanto, ele continuará a comer da minha sopa, que o deixa já tão contente. Além de que me farto de rir a vê-lo debulhar o caldinho de feijão ou de curgete feito por mim. Mas tem graça: Senhor Gato, o sopeiro, é um pioneiro.  Até rimou! A Purina deve ter ouvido falar dele e resolveu fazer sopinhas para gaticos. Ou então há para aí muitos sopeiros como ele e um dia faz-se o almoço anual dos gatos amantes de sopa. Começará com um consomé fresquinho, passa à sopa de feijão e acaba com sopas de leite. E muitos bigodes molhados. 

domingo, 2 de julho de 2017

Fim de semana IKEA

Não disse nada desde sexta-feira porque, como disse na quixotada anterior, andei a “destralhar”. Foram muitos, muitos quilos de manuais, cadernos de actividades, livros de preparação para exames (daqueles tão bons que estão pejados de erros...), planificações e fichas feitas por mim a tomarem chá de sumiço para o ecoponto mais próximo. No fim, tive de desfazer as caixas dos livros que ainda se encontravam nas caixas originais, acartar um molho gigante de cartão para o ecoponto e arranhar-me toda no processo. 

Na sexta-feira à noite fomos ao IKEA para comprar duas estantes e uma cómoda. Uma das estantes era para o escritório e, por isso, igual às outras sete que já cá estão. Nada de muito diferente, portanto. Mas a outra estante foi para a varanda, para servir de alojamento aos ainda muitos manuais (sobretudo do Secundário) que sobraram. Eu já adorava a varanda, mas agora, com a estante e sem as malditas caixas com manuais, ainda a adoro mais. Apesar de ter dado uma trabalheira tão grande a arrumar, o resultado ficou bonito. Hoje, ao acordar, até as mãos me doíam e tinha os dedos inchados de tanto agarrar livros grandes e pesados para os esconder atrás de outros na estante. Ainda tenho trabalhinho para amanhã, mas pelo menos as viagens ao ecoponto estão quase todas feitas. Falta só uma para os cadernos de actividades e manuais “menos bons” do programa do Secundário que agora terminou. Ficaram só alguns manuais porque há sempre alguns textos que podem aproveitar-se, mesmo estando em vigor um programa novo. Mas por agora nem tenho de pensar nisso porque continuo a ser uma professora desempregada. Adiante.

Quem também está muito contente com as novas arrumações e sobretudo com os novos móveis são os meus felinos. Conseguiram dormir enroladinhos mesmo ao lado do dono enquanto martelava a parte de trás da estante do escritório, mostrando uma surdez fabulosa durante o sono. Depois, com tudo montado e já nos sítios certos, perceberam que tinham acabado de ganhar novos “poleiros”. A Miss Gatica, que há pouco tempo tinha descoberto o prazer das alturas em cima dos móveis da cozinha, delira agora sobre a estante do escritório. Também gosta da cómoda, mas não é tão radical como a estante. O Senhor Gato também andou por lá e até já por lá se cruzaram os dois:


Mas a Dona Gatica vai mais longe e aproveita para coordenar a arrumação dos livros na estante nova. Leva a coisa tão a sério que o faz in loco. Sinto-me uma escrava com esta menina a mandar em mim:


Tem ou não um ar tirano? Pois, bem me parecia. Mas lá foi ajudando, dizendo o que é que ia para a esquerda, o que é que punha à direita e a coisa compôs-se. Mas ainda há muito por arrumar. Porém, ela agora está de folga ali em cima da mesa da varanda a apanhar um arzinho nocturno pela fresta da janela, que mais que isso não abro. Amanhã tornamos a pegar ao serviço.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pragas

Há quem tenha ratos em casa. Ou pulgas ou traças. Existem pessoas que,  em casa, têm problemas com mosquitos, pragas de formigas ou de familiares inóportunos. Os professores têm manuais escolares. Tantos, tantos, tantos manuais escolares com respectivas planificações anuais e aula a aula, cadernos de exercícios e fichas formativas, transcrições áudio e guiões de leitura, CD's com gravações disto e daquilo e CD-ROM's com amostras de materiais para as aulas, testes de avaliação e respectivos critérios, textos que já não couberam no manual, programas e metas curriculares, versões actualizadas de manuais antigos, grelhas de avaliação de tudo e mais alguma coisa, mini-gramáticas, posters com motivos alusivos aos conteúdos programáticos, roteiros pela Lisboa queirosiana, saramaguiana, pessoana, de Cesário Verde... Podia continuar pela tarde fora, mas acho que perceberam a ideia. 

Ontem enfrentei a praga e dei uma volta a estes materiais todos que por aqui andavam. Só de manuais desactualizados foram três sacos cheios. Com metas e com programas que não param quietos, não é difícil ficar com livros que já nem estão adequados ao que realmente devemos ensinar. E mesmo assim fiquei cá com uma carga jeitosa. Aaaai... o que hei eu de fazer? É a nossa sina e a nossa praga. Mas mesmo assim podia ser pior: podiam ser ratos. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Lei da Gatividade

Uma das estratégias do Senhor Gato para acordar-me passa por fazer de mim um trampolim. Anda pela casa a correr, depois salta-me em cima e o impulso que dá às patorras para saltar para cima de outra coisa parece carregar-me no botão dos palavrões. É que o que se ouve a seguir não é bonito. Vamos lá ver: o Senhor Gato é um gatarrão que ronda os seis quilinhos. Quando aterra em cima de mim parece pesar pelo menos vinte. Bom, a Teoria da Relatividade Geral acho que explica isto, embora o Einstein não tenha feito a experiência com gatos, o que está muito mal. Saber o peso dos bichanos na aterragem em cima das barrigas dos donos era importante e chocante, parece-me. 

Fico à espera da Lei da Gatividade, fruto de um mix entre a do Einstein e a que se aplica aos felinos, nomeadamente à minha bestinha que conseguiu mesmo arrancar-me da cama ao segundo pulo. E as asneiras? Hoje não bebo café com leite: é café com malaguetas!

Ps.: O Senhor Gato ontem comeu um pratinho de sopa. Hilariante!

A feia dos telhados de vidro atirou uma pedra

Numa voltinha pelo Facebook percebi que a taróloga com nome de abelha se pronunciou num qualquer programa de televisão sobre o peso de uma famosa (desconhecida para mim) que, ao fim de um mês de ter dado à luz, terá publicado no seu blogue uma foto do seu corpo. Para mim é um corpo normal, especialmente tendo em conta que teve um bebé há um mês. Para a taróloga a fotografia não devia ter sido publicada até porque não se entende como é que num mês a rapariga ainda se encontra naquele estado. Mais: acrescenta que até ela que engordou 21 quilos na gravidez já estava em melhor forma ao final de um mês. Deixa um conselho à moça: que procure um nutricionista e que faça ginástica pós-parto. Ah: e ainda discorda da publicação da foto precisamente por nela se apresentar naquele estado.

Eu não vou comentar aquilo que a senhora com nome de abelha terá dito porque não merece nada disso. Dali não se espera nada. O pior é que nem pode culpar as cartas pelo que disse, mas enfim. Cada um é para o que nasce e quem nasce crocodilo nunca chega a jacaré. Gasta que está a minha conta de provérbios diários, avancemos.

Claro que no Facebook as pessoas começaram a comentar a situação e todas, ou praticamente todas, mandavam a taróloga ir dar uma volta. Fico feliz por ver que ainda existe sensatez na maior parte das cabeças, pois quase todas as pessoas que comentaram a notícia afirmaram que um mês depois do parto não é assim tão estranho que aquela mulher tenha a barriga assim. Mais: pelo que percebi teve duas gravidezes muito próximas, o que ajuda ainda mais a perceber que não esteja pronta para se enfiar num 36 e descer a avenida de top.

Mas no meio disto tudo surge uma alma que solta a seguinte ventosidade (e digo isto só para não parafrasear o Salvador Sobral): «Uma pessoa gorda nunca é bonita.». 

Eu até ia continuar a discorrer sobre o assunto, mas depois de copiar para aqui a frase pensei melhor e opto por não dizer nada. Como costumam dizer nas redes sociais, «eu ia comentar, mas pode ser doença». É que só mesmo alguém com graves danos cerebrais ou mesmo a ausência do órgão no interior do crânio pode dizer tamanha barbaridade para todo o mundo ler. Por isso vamos acreditar que aquela pessoa, bastante feia, por sinal, é doida. A não ser, então trata-se de uma criatura reles. Para sorte da moça da foto e azar da comentadora: a gordura com esforço e tempo vai-se embora, a fealdade e a tacanhez ficam para sempre.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Alergias

Quando vou a uma livraria, padeço de alergias. «Ah e tal, coitada: é do papel!», dirão vocês. É mais outro tipo de alergia e não vai lá com anti-histamínicos, nem daqueles que arrumam connosco e nos põem a dormir duas noites seguidas (ai o que eu gostava!). Pois hoje eu, mulher de listas, decidi-me a elencar tudo o que me causa alergias numa livraria. Note-se que os sintomas são vários: vão desde a comichão na pele, à irritação nos olhos, à irritação nervosa, às bufadelas de impaciência, ao revirar de olhos constante, aos ímpetos de vómito, à vontade de fazer um auto-de-fé a la Senhor Cura e Senhor Barbeiro (é ler o Quixote, meus senhores, é ler o Quixote), entre outros. 

Os agentes alergénios que repousam na minha lista são, então, os que se seguem:

- Pó (nada que um pano húmido não resolva);
- Desarrumação (com tempo e boa vontade a coisa faz-se);
- Preços muito altos (esta dói muito...);
- Livros em mau estado (era pendurar pelos cabelos o pessoal que folheia os livros com o mesmo jeito com que a professora da Primária do meu pai lhe puxava as orelhas!);
- Auto-ajuda (começa o prurido);
- Espiritualidades (piora-se-me o prurido);
- Romances cor-de-rosa (chegando a tosse alérgica);
- Qualquer coisa que se enquadre na categoria de «literatura light» (tosse, tosse, tosse, tosse);
- Best-sellers (e inicia-se o revirar de olhos em loop);
- «Literatura no feminino», seja lá o que isso for (primeira ânsia de vómito);
- Romances históricos daqueles em que mulheres do Renascimento e que, portanto, VIVEM no Renascimento remexem em baús... com naftalina... (bufadela mais espampanante do que a de um gato cuja cauda é pisada);
- Romances com códigos e coisas ocultas que pretendem revelar estrondosamente a história oculta e polémica de qualquer coisa (muitíssimas vezes sobre o Vaticano), mas que quando a coisa corre mal se escudam na lógica do «Então, então: é só ficção!» (inicia-se a toma de anti-histamínicos e, por via dos nervos, de Victan);
- Biografias e autobiografias de pessoas que se acham muito importantes e que antes dos quarenta anos consideram que o mundo já merece ler a história das suas origens humildes (hiperventilando muito, sentindo vergonha alheia e vontade de vomitar, tudo ao mesmo tempo);
- Livros escritos por famosos porque foram convidados para isso pelas editoras (vá-se lá entender...), mas que depois precisam de muuuuuuuuita ajuda para a redacção dos ditos porque sozinhos não vão lá. Já para não falar no conteúdo fraquinho, fraquinho... (estou um farrapo de tanta indisposição: CREDO!);
- Romances fechados em sacos de tule (ele é náuseas, ele é comichões, ele é revirar de olhos, ele é a vontade de fugir para longe, é de um tudo!);
...

Tive de parar a lista por aqui porque já não estava em condições para continuar, como puderam notar. Mas deixo-a em aberto para o caso de quererem continuá-la. Vou só ali respirar fundo e cair para o lado de tanta que é a alergia a certos livros.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Quando quem não tem cão também não sabe caçar com gato

Muitos andam desejosos de ver cair a Ministra da Administração Interna. Não sei é se antes dela não cairá com grande pompa no trambolhão o líder da oposição. É que o senhor já se agarra a tudo, mesmo a paredes de cristal, frágeis, lisinhas, que não têm como segurar quem quer que seja. Este senhor, que em tempos nos governou e quis ser o bom aluno do FMI e da Troika indo até além das medidas impostas por quem nos financiou, tem a memória estupidamente curta e esqueceu aqueles que efectivamente se suicidaram porque ficaram sem as casas, porque não tinham comida para pôr na mesa, que se viram com reformas ainda mais miseráveis do que antes num país onde tudo ficou mais caro. Quis tanto agarrar-se à ideia tão desconcertante de supostos suicídios em Pedrogão que se esqueceu de uma regra muito elementar: confirmar competentemente antes de tornar público. Ora, segundo o que tem sido veiculado pela comunicação social, essa informação que ele transmitiu não se confirma. O próprio senhor líder da oposição já veio fazer o mea culpa relativamente à boçalidade que disse. Não tem talento político, não tem credibilidade. Em suma: não tem cão e quando tenta caçar com o gato... Dá no que dá.

A Menina Sugere Isto XXXI

Não sei se também já notaram, mas o sol está mais agressivo este ano. Ainda nem estávamos no verão e já se sentia e muito o calor a queimar-nos a pele. E este ano, também com uma ajuda da Feira do Livro, que visitei quase sempre após a hora do almoço, apercebi-me de que o sol estava tão forte que, no final do dia, sentia os lábios escaldados. Nunca tal me aconteceu a não ser em idas à praia. Nunca tinha sentido isto só por andar na rua, mas não deixei o assunto passar em branco e, depois de alguns dias a perceber que o ardor nos lábios só começava depois de andar na rua ao sol, achei por bem passar pela farmácia e tratar de me prevenir para não voltar a acontecer.

Pedi batons solares e dei três marcas possíveis, por serem as minhas favoritas: La Roche Posay, Bioderma e Avéne. Acabei por trazer o batom solar com factor 50+ da La Roche Posay. Já é deles o meu creme hidratante (receitado pelo dermatologista), o óleo de banho e o champô. A experiência tem sido muito positiva, por isso, sendo o batom um tiro no escuro e entre três marcas possíveis, acabei por trazer este:

O meu único receio era o de ficar com os lábios brancos depois de o aplicar. Já tive vários batons solares que usei na praia ao longo dos anos e muitas experiências extravagantes que incluiam ficar com a boca toda branca e sentir o sabor do batom durante todo o dia. Após alguns dias a usar o da imagem posso assegurar-vos de que nada mais acontece além de um ligeiro brilho nos lábios. Nada de bocas brancas, o que é óptimo. Ando com ele na carteira e vou recolocando sempre que vou sair para o sol. Não voltei a sentir mais a sensação de pele queimada nos lábios, o que me leva a crer que está mesmo a cumprir a sua missão.

O preço é simpático: anda ali pelos 7.50€, sensivelmente. Além de que não me parece um artigo que se gaste facilmente. Por isso, sugiro-vo-lo. Não sei se são sensíveis ao sol como eu, criatura de pele branquinha e com uma pele danada, mas sejam ou não, prevenir é algo que todos devemos fazer. E convenhamos que passar um batom pelos lábios é coisa que não atrapalha assim tanto para que não o façamos. O Senhor Trump bem parece ter dúvidas, mas a verdade é que o sol está a mandar-nos os seus raiozinhos com toda a pompa possível e já nada os trava. É, por isso, importante dar uma ajudinha ao corpo. E enquanto essa ajuda só andar pela casa dos sete euros e uns retoques nos lábios de vez em quando estamos nós bem. Já sabem: se precisarem de um batom que não vos deixe a parecer que andaram a beijar uma lata de tinta branca, este é um bom investimento. 

Nota: Antes que pensem que a marca La Roche Posay me paga para isto, afirmo-vos já que nem sonham que eu existo e que lhes compro os produtos. O que acontece é que tenho vindo a ficar cada vez mais agradada com a marca e com o bem que faz à pele. Especialmente à minha, que é picuinhas como tudo. E como quando gosto, gosto muito, acho que só me fica bem partilhá-lo convosco. De resto, lá saberão se aceitam as minhas sugestões ou não. Até podem mandar outras, que eu também aceito.

domingo, 25 de junho de 2017

Boçalidades

Ao que parece, mais uns génios, desta vez em Benavente, resolveram fazer a festa à conta de um animal. Segundo o que está a sair na comunicação social, a proeza consistiu em pegar fogo aos cornos de um touro. Não sei se é tradição habitual ou se deu na cabeça de alguém fazer isso este ano, mas a verdade é que tem de existir anualmente pelo menos uma prova de que há seres humanos completamente acéfalos. 

Não consigo imaginar que tipo de gozo se pode tirar de um feito destes. Imagino os trolls a falarem uns com os outros "Ó Zé, vai lá buscar o touro do teu tio para lhe chegarmos fogo aos cornos porque é muita fixe!". E lá partem para o espectáculo, achando-se possivelmente muito machos por fazerem isto a um animal grande e forte como um touro. 

Há muita gente que acha que quem defende os animais enlouquece facilmente e perde a noção do que diz porque o ser humano tem de estar sempre acima dos animais. Pois. Mas depois vemos coisas destas e, desculpem-me, mas neste caso não me importam nada os humanos que pegaram fogo aos cornos de um touro apenas por diversão. Importa-me o animal que sofreu sem razão nenhuma e sem poder defender-se. Lamento imenso que não tenha corrido aquela porcaria de gente à cornada. 

Bem sei que uns não devem pagar pelos outros, mas em coisas assim não consigo ter meia medida. Benavente pode até ser muito bonito, ter lugares espectaculares para visitar que eu, enquanto quem fez isto não for punido (incendiar-lhes o rabo era capaz de ser giro), não tenciono pôr os meus pés nesse lugar e gastar um cêntimo que seja na região. Infelizmente, nestas coisas paga o justo pelo pecador. 

Rotações

Eu a tentar desesperadamente adormecer pareço várias coisas. Vou desde um tradicional pião ao extraordinariamente estúpido spinner. Lá pelas três da manhã estou transformada no Taz, o diabo da Tasmânia. 

Cada vez odeio mais as noites. 

sábado, 24 de junho de 2017

Água

Há uma coisa que sempre me causou estranheza: as pessoas que dizem que não gostam de água. Não consigo compreender como é possível não se gostar de uma coisa que não tem sabor, odor (espera-se), que constitui uma grande percentagem do nosso corpo e que, além disso, temos de consumir em quantidades significativas para estarmos bem. Ainda percebo menos as pessoas que estando cheias de sede vão beber uma imperial ou um refrigerante. Posso beber uma Coca-Cola se tiver calor, mas se estiver com sede a coisa só se resolve com água. 

Conheço casos de pessoas que mal bebem água. Dizem que não gostam e acho que o corpo vai sobrevivendo com a que retira das sopas, das frutas e de outros alimentos que, obviamente, contenham água. Conheço pessoas que se obrigam a beber água porque não sentem vontade de consumi-la, mas são aconselhadas pelos médicos a aumentar a quantidade de água ingerida. 

Para mim que, desde pequena, sou uma sedenta, isto é coisa que causa espécie. Tenho uma garrafa de água em cada divisão da casa e estou constantemente a beber uns golinhos. Considero impensável sair de casa sem uma garrafa de água: já me conheço e sei que vou precisar provavelmente até nos primeiros cinco minutos após ter saído. Posso até beber outra coisa à refeição, mas há grandes probabilidades de à minha frente existir também um copo de água. Não existe bebida de que goste mais, mesmo adorando chás (sem açúcar) e sumos naturais. Quem quiser ver-me louca, possuída, armada em diva alucinada ponha-me a passar sede. Não aguento: fico histérica e em verdadeiro sofrimento. Já quando era mais nova, miudinha ainda, saía com a minha mãe e quando chegava a casa atirava-me à torneira como se não houvesse nada mais precioso na vida além da água que bebia. A minha mãe avisava-me sempre para beber menos água e mais devagar, que ainda me ia sentir mal. Nunca senti. O que sempre tive foi essa necessidade de beber água mal regressava a casa. Acho que depois de uns anos disto a minha mãe percebeu a ideia e até já me perguntava antes de eu sair se levava uma garrafa de água comigo. Caso me esquecesse era o inferno. E note-se que era assim em qualquer estação do ano. 

Quando um médico me pergunta se bebo água com frequência quase estouro a rir. Mais frequência é difícil. Quanto à quantidade, não sei ao certo quanto bebo, mas num dia normal devo beber sem dificuldade uns dois litros. Isso adicionado à água que ingiro através da alimentação acho que faz de mim uma pessoa hidratada. Mas, lá está, bebo sem dificuldade. Adoro água, considero-a a melhor bebida do mundo, a que mais me satisfaz e nunca, mas nunca precisei de obrigar-me a bebê-la. 

Mas há quem não goste e há quem não sinta tanta vontade de consumi-la quanto eu. Se andar por aí alguém que seja assim, mesmo sem sede, que faça o esforço de ir engolindo uns golinhos. Passámos alguns dias de calor extremo e o corpo perde muitos líquidos nessas alturas. Precisamos sempre de água, mas mais ainda agora, durante o verão, em que a transpiração aumenta e é necessário recuperar o que se perde. Bebam água, façam esse esforço até passar a ser um hábito. Ponham-lhe uma saqueta de chá ou uma rodela de limão de vez em quando para variar o sabor, se preferirem, mas bebam. A vossa pele, os vossos rins, o vosso cérebro, enfim, todo o vosso corpo vai agradecer.

Nota: Mas vejam lá se também não bebem um garrafão de cinco litros de água por dia, que o que é em excesso também faz muito mal. 

«Ana Paula» - o balanço


Ana Paula é o primeiro romance que compõe este conjunto de três livros publicados pela Guimarães Editora. Cada volume contém dois romances e todos eles têm por espaço a Lisboa do século XX durante a ascenção e declínio do período salazarista. Como o próprio nome dos volumes indica, Crónica da Vida Lisboeta, estes romances acabam por funcionar como crónicas dos costumes e não só de uma cidade que se perdeu no tempo. Assim, o enredo aborda questões próprias da época que saem reforçadas pelo cenário de uma cidade profundamente marcada pelas desigualdades sociais, onde enquanto a burguesia desfilava pelo Chiado e enchia as casas de chá, as varinas andavam de canastra à cabeça olhando para todos os lados para ver se a polícia não vinha lá. Ao mesmo tempo que passavam belíssimos automóveis, em alguns espaços andavam galinhas pelas ruas. Enfim, uma cidade cheia de contrastes, irremediavelmente marcada por códigos de conduta que, em boa parte, a religião ditava e que iam travando a vida de muitos, sobretudo a das mulheres, sempre consideradas menos importantes, mais fracas, obrigatoriamente submissas.

Ana Paula foi dos melhores e mais cativantes romances escritos em português que já li. Já para não falar do brilhante domínio da língua que marca a escrita do autor, Joaquim Paço D’Arcos, e que é coisa de que se sente uma certa saudade, o enredo é tocante, mas é tal e qual o que esperamos da época histórica retratada. A protagonista, que dá nome ao romance, cresce na Graça no início do século XX. Provém de uma família abastada cujo título já vem de longe e se deve a uma propriedade no norte do país. É a filha mais velha de um casal no qual a mulher é absolutamente submissa, sem opiniões, sem voz, que tudo aceita tacitamente e que casa quando já ninguém o esperava e apenas porque os seus bens ajudarão a situação económica do futuro marido, prejudicado ainda pela lei que retira aos morgados a totalidade da herança paterna. Não é mais do que uma transação comercial, mas sente-se feliz por casar porque, afinal, era isso o que qualquer moça desejava. O pai de Ana Paula, o Conde da Balsa, é um tipo de causas, desde que lhe dêem jeito. Luta pelas partes que crê poderem trazer-lhe vantagens, até que percebe que mais vale manter-se à margem dessas lutas antes que lhe saia o tiro pela culatra. Filha destes dois, Ana Paula cresce, ainda assim, saudável e feliz com as temporadas que passa na propriedade junto ao Tua. É livre, curiosa e até um pouco pespineta. É, portanto, uma criança absolutamente normal. No entanto, o pai considera que deve ser domada e, assim, levá-la-á para um colégio religioso na Galiza, onde será educada por freiras, tendo sempre em vista o temor a Deus. É assim que Ana Paula perde todo o viço e encanto da infância, trocando-os pelos limites impostos pelo divino. Sairá do colégio aos dezasseis anos completamente diferente. Aprendeu aquilo que uma menina precisava de saber. Também aprendeu o que era o pecado e que Deus não gosta de pecadores. Aprendeu a rezar. Foi, enfim, domada pela religião. Foi toda a educação que teve.

Um dia, enquanto tomava chá com a irmã e uma prima numa casa de chá do Chiado, conhece Jorge, um oficial conhecido em Lisboa por feitos de guerra importantes. Era admirado por todos pela coragem e pela bravura. Mas também era sobejamente conhecido por ser um estroina, um bon vivant que gostava de gastar o que tinha e o que não tinha. Gastou em três meses a herança que o pai lhe deixou e que foi criada ao longo de uma vida inteira de trabalho. Conhecia de olhos fechados o caminho para o Casino do Estoril. Contudo, obviamente, Ana Paula só sabia da primeira parte: que Jorge era um herói a quem o país devia muito. Casou e rapidamente travou conhecimento com a segunda. Não gostou, mas aguentou.

Esta última frase poderia sintetizar o livro: não gostou, mas aguentou. Ana Paula poderia ter sido diferente, não tivesse sido a sua educação como foi, no sentido de lhe impor limites que eram os esperados na sociedade lisboeta da época. Talvez se tivesse continuado a crescer livremente... Mas não sabemos. O que o romance nos conta são as provações de Ana Paula que, a determinada altura, se verá a braços com a possibilidade de cortar as amarras, libertando-se de um casamento que a humilha, que não lhe traz já qualquer felicidade, que a apequena todos os dias. Assistimos à luta interior de Ana Paula, luta essa muito condicionada pelo temor a Deus e pela sociedade que não aceita mulheres que, ainda que sofrendo, abandonem os seus maridos. Assistimos a um diálogo entre três pessoas, sendo uma delas a prima de Ana Paula, no qual percebemos bem o pensamento da época: «mulher que se separe do marido jamais entrará na minha casa», que é o mesmo que dizer que será excluída da sociedade pela própria sociedade. 

O final é o único que poderia ser, ainda que gostássemos de ver outro. Mas este é um romance que não permite que nos esqueçamos de que estamos da primeira metade do século XX, ali pelo ano de 1936. À luz do século XXI, não aceitamos as escolhas da protagonista, mas ela não é do nosso tempo e isso diz tudo. Perante uma sociedade que manda aguentar, quem tem força para remar contra a corrente? Quando Deus serve para condicionar os actos dos seres humanos, sobretudo os das mulheres, como conseguir a força para quebrar esse medo e seguir o caminho desejado? Quando se acredita mesmo que os pecados desta vida se pagam na outra, quem se atreve a escolher a felicidade em vez do que é moralmente certo? Quando a sociedade espera das mulheres espírito de sacrifício e quando é isso o que ouvem nos sermões e nos confessionários, como agir de modo contrário?

Por tudo isto, aconselho-vos a lerem este romance, do qual não vos desvendarei mais nada. Joaquim Paço D’Arcos não é o mais conhecido escritor português, mas merece ser lido. Tem mais livros além dos romances que compõem esta Crónica da Vida Lisboeta. Estes volumes da Babel são um pouco caros. Só os comprei na Feira do Livro porque me fizeram um desconto de 40% no penúltimo dia do evento. Pelos três paguei à volta de quarenta euros. Mas se puderem, requisitem-nos ou aproveitem as promoções que sempre vão aparecendo para irem comprando um de cada vez. Terão um enorme prazer a ler este maravilhoso uso da língua portuguesa aliado a uma história tocante e muito bem contada.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A Menina Quer Isto XC


Na Feira do Livro enamorei-me deste menino. Todavia, por ter sido editado no mês passado, o preço ainda é proibitivo, pelo que terei de esperar por outra altura. No entanto, parece-me um ensaio muito interessante, com um tema excelente para quem adora livros, livrarias e afins. São mais de trezentas páginas sobre o papel das livrarias ao longo dos tempos, desde pontos de encontro até locais de tertúlia e de reunião de resistentes políticos. Ainda que hoje as livrarias passem por uma fase muito negra, a verdade é uma parte da nossa História passou por elas e, tanto ou mais, pelos livreiros que por elas deram a cara. É, com certeza, um livro a não perder, mas num mês já mais distante dos recentíssimos desatinos da Feira do Livro...

Excesso de mimo felino

Fui acordada pelo mau humor nocturno do Senhor Gato perto das cinco da manhã. Já sei que esse mau humor tende a piorar enquanto eu ficar no quarto e por isso saí da cama e fui para o sofá do escritório para continuar a dormir. O problema é que entretanto despertei e até às oito horas não consegui dormir. Resolvi tentar o sofá da sala, com a porta fechada e os felinos do lado de fora. Mas eis que anos de mimo se manifestaram e fui impedida de dormir por uma hora seguida de intensos miados em coro. Só se calaram quando eu desisti e voltei ao escritório para ser lambiscada, roçada, ronronada e sei lá mais o quê. Escritório esse onde, aliás, agora dormem os dois a sono solto. Eu permaneço acordada.

Tenho dois gatos absolutamente mimados que não suportam que me separe deles por uma parede e uma porta. Mea culpa: fui eu que os mimei.