sábado, 28 de janeiro de 2017

Olá, bem-vindos, meus lindos!

Olá, podem entrar e encontrar lugar na estante... Mas boa sorte com isso, está bem? De qualquer modo sejam bem-vindos.



Nota: As imagens saíram da página da Wook. Mas o livro do Churchill surge lá como esgotado.

Manuais escolares e misérias

Ontem percebi que há um manual de Português do 11.° ano que introduz o estudo de um capítulo do Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, com uma frase do senhor Pedro Chagas Freitas, retirada de um livro seu chamado Prometo [não me lembro do resto, mas não é importante]. 

Quase daí da cadeira. Isto está ao nível da heresia. A sério, senhores da editora?! De todo o material que há no mundo para falar de heróis, só vos ocorreu uma frase desse senhor para colocar num manual escolar?! Quando eu estudava, os livros estavam pejados de frases de clássicos para comentarmos ou então traziam excertos de críticas literárias com a mesma finalidade. Mas daí a ir buscar o Pedro Chagas Freitas para tentar explicar o que é um herói antes de apresentar aos discentes as façanhas de Simão Botelho na novela camiliana vai um passo de gigante. Já estou a imaginar que na unidade seguinte, quando o Carlos da Maia se enfiar na cama com a irmã, o momento de amor será introduzido por um excerto das Cinquenta Sombras de Grey, e os alunos imaginarão um Carlos dominador e uma Maria Eduarda muito virginal a entregar-se ao doido das coisas sado-maso. E assim, na loucura, quando estudarem Antero de Quental e Cesário Verde e os seus cenários muito escuros, muito locus horrendus, muito nocturnos, feios e abjectos por vezes, saltam de lá uns excertos do Crepúsculo e similares, com lobisomens a uivarem à lua, pedindo-se aos alunos o paralelismo entre o ambiente nocturno em que se movem o vampiro e o lobito adolescente apaixonados e o sujeito poético dos poemas "Nox" e "Cristalizações". Deus me valha.

Adenda: E não me venham com a história de que é uma forma de incentivar a leitura, através de paralelismos com materiais contemporâneos que continuo a ter a certeza de que há por aí bons autores portugueses que já falaram de heróis e que não são o Pedro Chagas Freitas com os seus livros cheios de modus vivendi para pessoas precisadas. A escola tem a obrigação de apresentar aos alunos o que de melhor se encontra para que depois eles, já fora do ensino, decidam se é esse o caminho que querem continuar a trilhar na busca do conhecimento ou se, por outro lado, preferem não ler nada ou ler o que não presta. O que depois fazem é com eles, mas a escola tem de lhes dar o que é inequivocamente melhor. E as editoras deviam colaborar com as escolas e não fazer manuais que deixam muito, mas muito a desejar. Isto já parece aquela altura em que para ensinar aos alunos o que era um regulamento, uma editora optou por colocar num manual escolar o regulamento do Big Brother

Medo.

O Roberto - parte 3

A noite passada foi noite de Roberto. Para quem não sabe o que raio é isso, vão ver as quixotadas do dia 13 deste mês, que eu agora não consigo deixar-vos aqui o link. Bom, mas para quem já conhece a história, saber que foi noite de Roberto é saber que foi uma noite muito "animada". 

Começou o fandango por volta das onze e quarenta e cinco. "Roberto, deixa-me falar! Roberto, eu estou a falar!!!", assim com uns decibéis que fariam inveja aos pregoeiros da Lotaria Clássica do Natal. Um berreiro desatinado e lá estava a maluca do Roberto a tentar que o tipo sossegasse do outro lado e a deixasse dizer o muito que lhe ia na alma. O problema é que cada vez que ela tem "muito a ir-lhe pela alma" quem se lixa sou eu. Desta vez o moço também ouviu e até teve sorte porque esta noite a sessão de Roberto foi em todo o seu esplendor. Pena tive eu de não ter em casa um balde de pipocas: tinha dado jeito às três da manhã quando a menina surtou.

Sim, isso mesmo: surtou. Ora, depois de estar ali em conversações unilaterais com o seu Roberto quase à meia-noite e até já estarmos no dia de hoje, lá se calou. Não sei se saiu ou se simplesmente desligou o telefone, mas a verdade é que deixámos de ouvi-la cá em casa. Eu avisei o moço: prepara-te porque de madrugada há mais. E houve, de facto. Às duas e meia acordo estremunhada com o mesmo berreiro de antes: "Roberto, eu estou a falar! Roberto, eu estou a falar! Roberto!!!". Mas nem eu, já quase doutorada em "Roberto", podia prever o que se ia seguir. Bom, a menina tanto disse que estava a falar, tanto o mandou calar, tanto subiu os decibéis para fazer-se ouvir que, olhem, à falta de melhor descrição, só posso dizer-vos que "explodiu". Desatou a gritar histericamente, a bater em coisas ou contra as paredes, não percebemos bem, a chorar convulsivamente, como se lhe tivesse morrido a mãe. E nós ali, às escuras, de olhinhos abertos, a imaginar que com aqueles gritos ela iria com certeza transformar-se num Super-Super-Guerreiro (alguém se lembra do Dragon Ball?!). Eu gostava mesmo que vocês ouvissem, porque contado é muito difícil de acreditar. Aqueles nervos devem estar mais esburacados que os naperons que a minha mãe fazia nos idos de oitenta! Uma reacção assim a uma conversa telefónica é própria de alguém que já deixou a sanidade mental atrás e que se dirige a trote para a loucura. Aquilo que posso imaginar é que qualquer pessoa normal e com dois dedos de testa desligaria o telefone, mandaria o Roberto às urtigas, arranjaria outro bem melhor e pronto. Mas ela está definitivamente presa naquilo e, se dúvidas houvesse, o ataque de gritos agudos e descontrolados acompanhados da porrada no que lhe aparecia pela frente, prova bem que a criatura já entregou o juízo ao criador. 

Depois pus-me a pensar (e tive bastante tempo para isso, já que a madame nos deixou sem dormir até mais ou menos às quatro horas da manhã): para fazer aquela chinfrineira toda, provavelmente a moça mora sozinha. Assim sendo, será, com certeza, maior de idade. Ou seja: já não é uma adolescente de quinze anos para quem o namorado é tudo na vida e sem ele nada interessa. Mas esta criatura deve ser uma "maior de idade" que permaneceu menor de idade dentro da cabeça. Já nem falo da falta de respeito que revela para com as pessoas que vivem nos apartamentos em volta e que perdem horas de sono a aguentar uma discussão absolutamente infantil e idiota. Falo até mais do pouco amor próprio que esta alma tem para passar horas a tentar que o seu Roberto a escute (coisa que não me parece que ele queira fazer) e que se deixe chegar ao limite de tal maneira que precisa de deitar tudo para fora em forma de gritos e murros à esquerda e à direita. É doentio.

Mas, enfim, infelizmente não sei onde ela se encontra. Calculo que seja no prédio ao lado, mas não tenho a certeza e muito menos sei em que andar vive. Nem conheço a cara dela. Se soubesse onde mora, esta noite tinha-lhe enviado a polícia a casa para acabar com aquela palhaçada toda. De preferencia devia enviar-lhe os médicos do Júlio de Matos e três ou quatro coletes de forças (no estado em que ela está, duvido que um seja suficiente) e mordaças, mas pronto. Acho que mais do que mostrar-lhe que incomoda a vizinhança, estaria a fazer-lhe um favor. A ela e ao Roberto que, a julgar pela quantidade de "Roberto, eu estou a falar!", também já deve estar fartinho de a ouvir. E graças à menina e aos seus nervos mal domados, hoje moram cá em casa dois zombies, cada um mais ensonado do que o outro. Já bebi uma caneca de café e não sinto efeitos. Isto hoje promete.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O acordar dos felinos cá em casa

Esta é a minha tentativa para descrever o acordar dos felinos cá de casa. Na realidade, tudo acontece às cinco e pouco da manhã (são agora seis e dez, mas o filme, igual a tantos outros, teve início às cinco e vinte), com miados, resmungos e arranhadelas. Contudo, tenho quase a certeza de que se houvesse um tradutor para gatos, a coisa seria mais ou menos assim. Comecemos pela gatica:

Lady Gatinha: "Olá! Olá! Olá! Estou aqui! Olá! Olá! Estou muito contente porque estás aqui, dona. Aqueci-te as pernas devidamente? Ainda bem. Sou tão feliz. Tenho é um cocó a importunar-me a barriga... Ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai. Tenho de ir fazer, mas não quero sair de ao pé de ti porque estou tããããããão feliz por me teres deixado dormir contigo! Mas esta sensação na barriga torna-se chata... Ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai! Deixa-me só ir aí mais para junto da tua cara para me fazeres umas festinhas na cabeça. Gosto tanto de ti. Já te disse que gosto de ti? E que sou muito feliz? Já disse? Já?! Responde, mamã! Estás viva? Deixa-me ir para cima de ti para ver se estás bem..."

Eu: (algo imperceptível parecido com um gemido doloroso)

Vamos agora traduzir o acordar do Senhor Gato por volta das cinco da manhã de quase todas as noites:

Senhor Gato: "F***-se! Que horas são???? C*******!!! Como é que esta idiota ainda não se levantou para me encher o pratinho?! M**** de mania de que o dia só começa quando nasce o sol, cambada de filhos de um cão! (Elevando o tom dos resmungos e quase de dedo em riste) Bom, é assim que isto vai funcionar: ou levantas esse cu da cama e me vais pôr ração no pratinho JÁ ou eu parto esta M**** TODA!!!"

Eu: (Com voz muito ensonada) "Senhor Gato, tens lá comida. Ainda ontem à noite a pus." (resmungar imperceptível)

Senhor Gato: "Ok, tu é que as pediste." (Som muito evidente de unhas na cómoda, no roupeiro, na porta...)

Eu: (Quase caindo com a velocidade a que me levanto e acordadíssima) "Já estou a ir, bichinho!"

Senhor Gato: "Acho bem. Que fique bem claro quem manda nesta m**** desta casa, c******!"

E é isto a minha vida.

Fim.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Mea culpa, gatica!

Donos de gatos, sigam o conselho: mantenham as vossas sanitas fechadas. É um cuidado que temos tido sempre, mas hoje houve ali um momento em que o tampo ficou levantado e a minha gatica, curiosa até mais não, resolveu saltar sem parar para ver se estava tudo pronto para o salto. Resultado, caiu na sanita. Felizmente, foi com as patas de trás e não se lembrou de mergulhar de cabeça, embora fosse menina para isso. Como estava mesmo ao lado, tirei-a logo de lá, mas a pobrezinha assustou-se. Não está muito habituada a saltos falhados. O passo seguinte foi limpar-lhe o que se molhou com Dodots. Ela está agora a lavar-se loucamente e a lamuriar-se pela humilhação. Pobrezinha. Mea culpa, gatica.

Barulho, muito barulho

6 horas da manhã - Gatos miam desalmadamente e não se calam de maneira nenhuma. Tenho de levantar-me.

8 horas da manhã - Vizinhos de cima iniciam obras com berbequins e martelos. Moro ao pé de uma esquadra, mas parece que a polícia não ouve bem...

9:30 da manhã - Gatos calam-se, obra pára. É a Lei de Murphy, só pode.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

As lindas

Há um fenómeno que devia ser estudado por cientistas, sociólogos, psicólogos e quem mais vos ocorra. E qual é?, perguntam avidamente os quatro leitores e meio que visitam este blogue. Eu, fazendo verdadeiro serviço público, explico. 

O fenómeno de que falo e que designo livremente como "As lindas" acontece nas redes sociais, concretamente no Facebook, que é a única que tolero. Consiste no seguinte: uma mulher (porque geralmente isto é coisa de gajas) publica uma foto sua (não raramente uma selfie manhosa ao espelho) com uma legenda absolutamente oca, ou, em alternativa, com uma daquelas coisas do género "A sentir-se misteriosa...". Bom, publica esta pérola bastante necessária para que o mundo se mantenha nos seus eixos e espera. Espera o quê?, perguntam os três leitores e meio que visitam o "As Minhas Quixotadas" (é que um abandonou a leitura a meio). Espera os likes e os comentários. E é precisamente aqui que nascem as lindas. Ora vasculhem bem na vossa memória e vejam se não bateram já "ojólhos" nisto: gaja publica foto supostamente bonita ou sexy, coloca uma legenda que não quer dizer nada ou que pretende apenas (e mal, geralmente) justificar a publicação extemporânea de uma imagem puramente narcisista; depois seguem-se as reacções dos amigos, dos amigos dos amigos e é um fartote. Por feia que seja, por ridícula ou despropositada que seja a foto e por desprovida de lógica que seja a legenda, ergue-se imediatamente um coro de outras gajas que desatam a comentar "Linda!", ou "Miga, és linda", ou ainda a que mais me irrita, "Simplesmente linda". E puf!: tal como uma linda flor desabrocha de um dia para o outro na primavera, tal como o Pico faz surgir o Chocapic, assim nasce uma "linda". Pode ser feia que nem uma parede com mofo, pode estar mais despida que eu quando nasci e parecer mais rameira que linda, pode estar numa posição pouquíssimo natural e mais digna de preocupação médica do que de elogios, mas para várias almas cujos olhos vêem onde eu não enxergo, a criatura é "Simplesmente linda". É ou não é coisa que se estude?! Tanto merece ser estudada a autora da publicação que, obviamente, padece de extrema falta de atenção e encontra no Facebook forma de chamá-la para si; como merecem ser estudadas as meninas que aparecem logo a comentar de forma tão pouco original tais fotos. Se eu recebesse cinco euros por cada vez que assisto a isto, estaria provavelmente a escrever esta quixotada no Dubai, no mais caro hotel do sítio. 

Mas agora falando mais a sério. Esta procura de aprovação pelos outros, este desejo de ser apreciado por terceiros e este pedido de atenção que é tão pouco discreto parecem-me preocupantes. É mesmo como se algumas pessoas necessitassem deste combustível para se sentirem bem consigo próprias. E depois a necessidade que outros têm de correr a comentar o que não merece ser  comentado, pespegando ali um elogio que será igual a vários outros, que é o típico "falo para não estar calada" é coisa para me fazer confusão. O narcisismo que impera nas redes sociais e a corte de aduladores prontos a tecer elogios ocos à esquerda e à direita são de uma pobreza de conteúdo atroz. Era enrolar um jornal Expresso (apenas porque tem vários cadernos) e dar-lhes uma nalgada com ele, enquanto repetimos: tu, pára de te exibir que ninguém acredita nessa falta de naturalidade; e vocês, parem de ser carneiros que só conhecem uma frase! Irra! Até a Rosinha, a boneca que falava nos idos de noventa, conseguia dizer frases mais variadas do que a porcaria do "És simplesmente linda". 

E pronto. Era isto. Neste momento já só há três leitores. O meio seguidor (????) desistiu algures no primeiro parágrafo. Provavelmente, foi tirar umas selfies e dizer ao mundo que está "a sentir-se pensativo", na esperança de que alguém lhe pergunte porquê... É um lindo!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Anna Karénina - o balanço


Era um dos meus objectivos de leitura para 2017 et voilà: em Janeiro já está lido e arrumado na prateleira do moço (não vá ele dar pela falta de um dos seus russos). 

Sobre este romance de Tolstoi só posso dizer aquilo que digo sobre outros clássicos: é que é um monumento. O final é, talvez, dos mais conhecidos da história da literatura e eu quando comecei a ler o livro sabia muito bem como acabava. Não sabia era o caminho trilhado para se chegar a tal fim. Já vi adaptações cinematográficas deste romance (vi, inclusivamente, aquele em que a actriz é a que consta desta capa da edição da Relógio D’Água), mas como de costume o livro vai bem mais longe e é muitíssimo mais rico.

Tolstoi é brilhante nas descrições, sobretudo nas descrições de sentimentos que nós não conseguimos pura e simplesmente descrever. Ele consegue e nós ficamos a pensar que sim, que ele tem razão, que tal sentimento é exactamente o que ele consegue pôr em palavras e que nós nunca conseguiríamos explicar. Alia-se essa excelente capacidade à história que quer contar e está feita uma obra-prima da literatura.

Confesso que sempre julguei que estaria inequivocamente do lado da Anna Karénina, mas em muitos momentos do livro achei-a ruim até mais não. Tive pena do marido dela que até era tão permissivo relativamente aos «desvios» dela com o Vronsky. Porém, acabei por perceber que ali não podemos simplesmente estar do lado de um contra o outro porque o que está no livro é demasiado complexo para isso. Tolstoi é tão realista naquilo que conta que diante de nós estão personagens que podiam perfeitamente ser seres humanos de verdade, com todos os seus defeitos e virtudes. Portanto, nem Anna Karénina é completamente digna de piedade, nem o seu marido é merecedor da nossa pena. Ambos, como na vida real, fizeram más escolhas, seguiram caminhos que não deviam ter seguido. A história não se resume ao adultério de Anna, pois vai muito além disso. 

Depois, por outro lado, e em total contraste com os casais formados por Anna e outro homem, existe Lévin e Kitty. Este último par vive um amor tão verdadeiro que acaba por tornar ainda mais disforme as relações da protagonista. E as mudanças vividas por Anna, a sua asfixiante falta de paz, tornam-se mais visíveis porque simultaneamente Kitty alcança, precisamente, um invejável estado de tranquilidade. Mesmo Dolly e Oblonsky, no meio das traições dele e da falta de dinheiro, conseguem ir mantendo uma relação mais ou menos constante, talvez porque ali existam outros valores (ainda que o irmão de Anna seja um verdadeiro tonto). Anna e Vronsky é que são uma dupla que se assemelha a um balão que vai enchendo até estar de bom tamanho. No entanto, continua-se a soprá-lo e sabemos que inevitavelmente rebentará, ainda assim é impossível parar de soprar.

Ler um clássico nunca é perda de tempo e Anna Karénina é mais um dos exemplos que sustentam esta ideia. É um livro viciante, muito difícil de largar, mesmo que saibamos que fim terá a protagonista e mesmo que estejamos atentos a todos os sinais que o narrador nos vai entregando aqui e ali. Tolstoi é, como disse, um excelente criador de situações que tinham tudo para ser reais em lugares que, se não o são, pelo menos são verosimilhantes. Anna Karénina é, repito, mais do que um livro: é um monumento.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXVI

A Relógio D’Água tem uma colecção de livros de viagens. E eu adoooooro livros de viagens. No Natal recebi o Homenagem a Barcelona, de Colm Tóibín. Mas há mais uns quantos que gostava de ter. Por isso, a menina quer isto (e quer o Euromilhões para poder comprar tudo o quer e uma casa maior).






E já que estamos numa de pedinchar, a Livros do Brasil está a fazer renascer a antiga colecção Miniatura. Saíram já três títulos e eu gostava bastante de ter este, da Rosa Montero. Ai, por que não é Natal já amanhã????


Mudar ou morrer?

Ontem fomos ao supermercado ao lado de casa e vi lá uma senhora idosa da minha zona que já não via há muitos, muitos anos. Ao olhar para ela e reconhecê-la, mais velha ainda do que me recordava, e consciente de que já não a via há mais de uma dezena de anos, pensei com os meus botões «Esta senhora ainda é viva!». Sim, ao nível do óbvio eu sou fenomenal, mas adiante.

Ora, isto levou-me a pensar numa coisa estranha: quando passamos muito tempo sem ver alguém jovem (ou mais ou menos jovem) da nossa zona e depois encontramos essa pessoa, dizemos para nós mesmos «Afinal ainda mora aqui!». Porém, quando se trata de uma pessoa mais velha que passámos muitos anos sem ver, o espanto é mesmo por ela ainda estar viva, porque a julgávamos morta. Só isso justificaria o facto de a não vermos. Dei por mim a pensar nisto e a concluir que envelhecer é uma porra. Se nos descuidamos muito, as pessoas pensam que morremos e «limpam-nos» das suas bases de dados com muita facilidade. Um idoso, por esta ordem de ideias e nas nossas cabeças, nunca pode mudar-se: só morre. É estranho perceber como pensamos. E pensamos de forma muito estranha.

sábado, 21 de janeiro de 2017

«Nunca digas nunca!»

No outro dia recebi no email uma coisa qualquer da revista Visão que falava sobre a leitura e sobre algumas estratégias para conseguir ler melhor e ter, no fundo, uma experiência de leitura mais proveitosa.

Uma das estratégias referidas passava pela audição de «white noises», coisa que eu nem sabia o que seria. Vinha até, no texto, o exemplo de alguém aparentemente importante e CEO de uma empresa qualquer que jurava a pés juntos que ouvir estes sons tinha sido a única solução para conseguir ler as coisas que os pais lhe punham à frente na tentativa de conseguir formar ali um leitor. O texto continha links para dois exemplos de «white noises» e, por isso, fui lá espreitar e matar um pouco da minha ignorância.

Confesso que os links me levaram a sons que me irritavam mais do que me relaxariam e do que me ajudariam a concentrar. Mas percebi a ideia: «white noises» são sons naturais como o da água a correr, o som da chuva a bater no chão, o som do vento... Enfim, sons relaxantes que não nos obriguem a pensar em nada. Há quem os use para ler, quem os use para adormecer, quem os use para meditar. Eu achei aquilo muito parvo e comentei com o meu moço o que pensava sobre o assunto (ele também não sabia o que eram os tais «white noises»).

Mas depois andei pelo YouTube a ver que outros sons existiam, percebi que até existiam «white noises» para gatos stressados, para os gatos adormecerem, entre outros. Até que descobri uns que consistiam no som da chuva. Fiquei intrigada. Resolvi ler ao som daquilo e, juro-vos, mordi a língua: a concentração dedicada à leitura com aquele som de fundo é totalmente diferente da concentração com música, com a televisão ligada ou mesmo sem qualquer ruído. É como se não conseguisse tirar os olhos do livros porque não vale a pena: estão tão bem a ler, tão confortáveis com a chuva (mesmo que não esteja a chover realmente) que não vale a pena olhar para qualquer outro lugar. Nem vos sei explicar a sensação. Todavia, para mim, que sou uma leitura muito lenta e muito, muito distraída, uma ajuda destas é divinal. Posso dizer-vos que em dois dias despachei dois livros (Capitães da Areia, de Jorge Amado, e Amor de Perdição, do nosso Camilo) sempre com este som a ajudar.

Portanto, meus caros, ficou-me a lição: nunca digas nunca. Gozei com os «white noises» quando percebi o que eram e agora até acho que deviam ser utilizados nas escolas para aumentar a concentração e diminuir o stress. É viver e aprender, viver e aprender...

Nota: Deixo-vos o meu «white noise» favorito. Pode ser que resulte convosco também. Se não, podem sempre gozar com ele.


A Menina Quer Isto LXXV

Meu Deus, estas revistas ainda hão-de dar cabo de mim.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O melhor aquecedor

Diz que esta madrugada esteve um frio do caraças, mas eu, que durmo de calções, tive um calor tremendo. Quereis o truque, pessoas? Ora aí vai, deixem-me só entrar no modo publicitário...

Ora bem: de maneira a não terdes frio nas longas noites invernais que se avizinham, deveis ter à mão (ou melhor, sobre as pernas) um bom e gordinho gato. São peludinhos e quando bem encaixados sobre as nossas pernas adormecidas emanam um grau de calor extremamente relaxante. Mais: tendem a mudar de posição durante a noite e a aquecer pés, costas, barriga... Enfim, é todo um aquecedor amigo do ambiente. 

No verão não deve ser guardado na arrecadação, pois tende a cheirar mal. Deve-se deixá-lo andar dentro de casa, utilizar todos os serviços e utensílios disponíveis, fornecer-lhe toda a paparoca de que necessitar de forma a manter-se em boas condições de uso para os meses mais frios. É uma fonte de calor que trabalha melhor quando afagada várias vezes por dia, portanto não devem descurar essa parte de modo a assegurar-se o seu bom funcionamento. 

Garanto-vos: não há melhor do que um felino a aquecer as pernocas nas noites frias de inverno. É coisinha para exigir muita manutenção, mas vale bem a pena porque é espectacular. No meu caso, é uma felina, que cumpre bastante bem a sua função. Tenho um outro felino em funcionamento, mas padece de mau feitio e prefere aquecer-se exclusivamente a si próprio. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Menina Quer Isto LXXIV

A menina está à rasca de um dente, não está à rasca dos olhos, pelo que entrar numa livraria continua a ser perigoso. Mas vá, a minha situação de desempregada permite-me (obriga-me a) um controlo absolutamente inédito. No entanto, alguns livros ficaram debaixo de olho para dias mais abonados. E eles haverão de chegar...

Então, a menina quer isto:









Coisinha pouca, como vêem. O Natal já passou, não foi? Bolas...

Nota: Todas as imagens saíram da página da Wook.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A reportagem e os manuais escolares

Tenho andado a morder-me toda para não comentar a reportagem que passou ontem e no Domingo na TVI sobre os manuais escolares. Mordo-me porque não quero perder tempo a pensar no que vi para não me chatear. É que aquilo chateou-me a sério e é mais uma coisa a levar-me a pensar que, de facto, ser professor em Portugal não vale mesmo nada a pena.

A reportagem abordou o tema dos manuais escolares pegando no seu preço, no enorme encargo que representam para as famílias, na promoção dos manuais... Enfim, pegou em vários aspectos, se bem que o que mais me chocou foi quando basicamente se insinuou que os manuais eram caros por culpa dos professores. Não só porque a quantidade de materiais que as editoras produzem para auxiliar os docentes nas suas aulas podem encarecer os livros, mas também porque as ofertas de exemplares que anualmente as editoras fazem aos docentes também lhe aumentam o preço. Foi ainda dado a entender que os encontros promovidos pelas editoras em Abril e Maio, geralmente em hotéis, com o objectivo de apresentar os projectos aos docentes também encarecem os manuais. Ou seja, e pensando de forma linear: a culpa de os livros escolares serem caros é nossa, professores. Mais: somos nós que escolhemos o manual a adoptar, por isso por que não escolhemos os mais baratos? Melhor ainda: por que não deixamos os alunos usarem manuais sem metas nas nossas salas de aula, poupando assim uns trocos aos pais? Todas estas questões foram levantadas e algumas ofenderam-me mesmo e espero que tenham ofendido outros docentes.

Vamos lá ver: eu sou a primeira a dizer que os manuais escolares são vergonhosamente caros. Num ensino que, de acordo com a Constituição, se quer tendencialmente gratuito, pagar duzentos ou trezentos euros todos os anos e por filho é absolutamente impensável. Acho, sinceramente, que algo devia ser feito para que um manual escolar não custasse quase (ou mais de) três dezenas de euros. Mas a responsabilidade pelos preços dos manuais não pode ser atribuída aos professores, por muito que apeteça culpá-los pelos materiais que as editoras criam para eles; por muito que se diga que são uns trogloditas por não aceitarem livros anteriores às metas (e assim o reaproveitamento entre irmãos, por exemplo); por muito que apeteça criticar os encontros em hotéis fantásticos onde equipas que se matam a trabalhar e a percorrer o continente e ilhas apresentam os frutos do seu trabalho para que depois os professores os escolham ou não. Por muito que apeteça, a culpa não é nossa. Não sei de quem é, mas não é nossa. 

Em primeiro lugar, senti uma enorme revolta quando a autora da reportagem abordou a questão dos muitos materiais feitos apenas para os docentes e de como aqueles podem encarecer o produto final adquirido pelos encarregados de educação. Como muito bem alguém respondeu, a profissão docente é trabalhosa e aqueles materiais vão ajudar os professores a não passarem o seu tempo livre a preparar materiais completamente novos e de raiz. Estas pessoas que fazem estas perguntas de profundo senso comum têm ideia de quanto tempo, por exemplo, demora a preparar o enunciado de um teste? E de quantas vezes temos de fazer mais do que um enunciado por turma porque há alunos com dislexia, com necessidades educativas especiais que têm adequações no processo de avaliação? Têm noção de que, muitas vezes, somos docentes de várias turmas de diferentes níveis (como eu fui sempre nos últimos anos, chegando a ter uma turma de cada nível desde o quinto até ao nono ano) e de que os materiais criados para uma turma são-no exclusivamente para ela e não servem para outra? Têm noção de que corrigir testes, fazer grelhas de avaliação, corrigir trabalhos, planificar aulas já toma muito do nosso tempo livre (não estou a falar de horas de trabalho: estou a falar de tempo livre, quando devíamos estar com as nossas famílias e a descansar um pouco)? Claro que não têm. Apenas falam de forma populista: para que recebem os professores tantas fichas, tantos materiais se depois alguém, que não eles, tem de pagar a factura? Sim, os livros são caros, mas não vão por aí.

Depois, por muito obscuro que pareça o negócio dos manuais escolares, de certeza que não vão ser os professores a torná-lo mais claro nem a regulamentá-lo. A quem ache estranho os professores receberem amostras dos manuais eu pergunto: compraram o vosso vestido de noiva sem o experimentarem? Não? E só o usam um dia! Um professor trabalha com o manual escolar adoptado durante (se tudo correr bem) seis anos. Se não o virmos antes com atenção, como podemos fazer uma escolha consciente? Acho que sobre isto nem vale a pena dizer mais nada.

Sobre as apresentações em hotéis... Meus caros, são locais geralmente de fácil acesso, com salas de conferências onde existem muitos lugares disponíveis e materiais audiovisuais que facilitam as apresentações. Se há café e bolinhos não me interessa nada porque nunca os provo. Se me dão blocos de notas e esferográficas, ainda bem, pois gosto de tirar algumas notas a respeito do que ouço. Eu preferir, até preferia que viessem apresentar os projectos cá a casa, mas dá-me a ideia de que isso é que iria encarecer os livrinhos.

Relativamente à acusação de que muitos professores não deixam utilizar livros anteriores às Metas Curriculares impedindo, assim, a reutilização de manuais escolares entre irmãos, por exemplo, j’accuse, como diria o Zola: eu não deixo. Porquê? Porque se há disciplinas em que as Metas alteraram poucas coisas e os manuais até estão parecidos, no caso do Português há textos inteiros que desapareceram para dar lugar a outros, há matérias gramaticais que desapareceram de um nível para só entrarem no nível seguinte, há abordagens que passaram a fazer-se e que antes quase não se faziam. Com uma rápida vista de olhos ao manual pode parecer tudo igual, mas não é. Lidar com livros diferentes em turmas com trinta alunos serve para enlouquecer alunos e professores. O docente pede para abrirem numa página, uns abrem e encontram o texto pedido, os outros abrem e encontram outro texto. "E agora, professora?”, “Olha, Maria, senta-se ao lado da Joana e o Pedro vai para ao pé da Laura que por sua vez vai pôr o livro na diagonal de maneira a que o João e a Inês também consigam acompanhar.”. Isto parece-vos normal? Parece-vos boa prática pedagógica? Imaginem ao vivo e a cores a loucura que é.

Por fim, quanto à dúvida que a reportagem lançou sobre o facto de os professores não escolherem os livros mais baratos, deixem-me dizer-vos umas coisinhas. A própria reportagem concluiu que eles custam sempre o preço máximo, logo não há cá livrinhos mais baratos. Além disso, e isto é importante, quando recebo amostras, muitas delas nem trazem o preço marcado. Dizem apenas “Oferta ao professor. Amostra não comercializável.”, portanto eu não faço ideia de quanto custa o livro quando estou a analisá-lo e a decidir se é com aquele que quero trabalhar ou não. Escolho de acordo com o grafismo, a estrutura e o nível de exigência. Não vou a correr pesquisar o preço. Deduzo que serão muito caros a julgar pela aparência, pela quantidade de materiais que os acompanham (e que dão trabalho a muita gente) e pelo facto de serem sempre caros (já o eram quando eu ainda estudava). Mas não escolho com base no preço. Assim como também não escolho por me oferecerem uma caneta ou um bloco, por me darem um livro de leitura que vai ser estudado na sala de aula e que faz parte do programa. Se assim fosse, só escolhia uma editora e não era isso que fazia quando estava no activo. Novamente: escolhia com base na qualidade e com aquilo que me parecia essencial num manual. Nunca nenhuma oferta me fez alterar a escolha. Não posso falar por todos os docentes, mas duvido que a maioria se venda por canetas e blocos de notas.

Os livros são caros, sim. Talvez fossem mais baratos se se cortasse nas corzinhas, nas imagens, nos recursos audiovisuais tão queridos dos alunos e dos pais hoje em dia (eu, enquanto professora, detestava-os, imagine-se), enfim, se se cortassem os extras todos. Percebo isso tudo. Só não percebo que tantas vezes na mesma reportagem se tente virar o problema para o lado do costume, mesmo quando desta vez não é nada connosco. Senti-me acossada, como se cometesse um crime ao querer o melhor no meu trabalho, como se fosse um verdadeiro troll por querer evitar perdas de tempo durante as aulas que inevitavelmente acontecem quando dentro da mesma turma há diferentes versões de um livro. Senti que mais uma vez a culpa era dos mesmos e que para nós, professores, já só há uma saída para não sermos vistos como “criminosos”: arrepiar caminho, procurar outro futuro.