segunda-feira, 12 de abril de 2021

É começar a fazer a lista!


Amorzinhos, peguem nos vossos blocos e afiem os lápis: estamos em boa altura para começar a fazer as nossas listas, uma vez que a Feira do Livro de Lisboa 2021 já está marcada. 

Bom, sabemos que nos dias que correm os planos de hoje podem não ser os de amanhã. Tudo depende da bicheza que por aí anda a desgraçar a malta. Ainda assim, marquem nas vossas agendas, comecem a planear o vosso itinerário dentro da Feira, componham a vossa lista com ponderação (não), com contenção (nop), sem exageros (ahahah) e sem esquecer que ainda têm na prateleira três livros por ler (piadinha)... Na verdade, considerando que o apocalipse pode voltar e fechar-nos as livrarias outra vez (longe vá o agoiro), componham a vossa listinha e aproveitem a Feira. Mas até lá, como agosto ainda não é amanhã, podem sempre aproveitar as livrarias que, felizmente, já estão de porta aberta, e as compras online (amanhã, na Wook, vamos ter 50% de desconto na compra do segundo livro, mas, claro, não se esqueçam de ler as condições da campanha).

Para muitos os livros sempre foram fundamentais, porém os últimos meses mostraram-nos que o impensável afinal é possível e as livrarias foram encerradas. Mesmo os livros à venda nas grandes superfícies foram escondidos sob lonas como se fossem material radioativo capaz de contaminar tudo à sua volta. Foi muito triste perceber a pouca consideração que quem manda tem pelo livro. Já desconfiava dessa falta de consideração, mas não esperava vir a viver num país onde os livros se tapam com plásticos para não serem vendidos. Nestes tempos duros, os livros têm sido os melhores companheiros e uma janela para a vida que ficou suspensa e sem data prevista para voltar ao normal. Tristemente, não podemos dar nada por garantido e sabe-se lá o que ainda nos espera. Portanto, se pudermos, o melhor é termos uma pilha de livros sempre à nossa espera. Para lermos todos os dias um bocadinho, mas também para a eventualidade de as lonas voltarem e eliminarem a possibilidade de irmos presencialmente a algum lado comprar um livro. Além disso, livrarias, editoras, tradutores, revisores e muitos mais profissionais agradecem. Digam o que disserem, o livro não é um luxo: é uma necessidade. Quem disser o contrário é tolo e devia ser tapado com uma lona. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Arbitrariedades e pãezinhos

Hoje passei no supermercado e estava em dúvida relativamente ao jantar: grelhava hambúrgueres e punha-os no pão ou preparava uns wraps com peito de frango? Bom, sendo incapaz de decidir e querendo sair dali depressa, optei por trazer um saco com pães para hambúrgueres e um pacote de wraps. Chegada a casa, resolvi olhar para a conta do supermercado e constatei que o imposto dos dois produtos era diferente. Enquanto os pães tinham uma taxa de IVA de 6%, os wraps são taxados a 23%. Ambos servem para o mesmo fim, são feitos essencialmente com os mesmos ingredientes, mas um merece a taxa mínima (porque entra na categoria “pão”) e o outro a máxima (não imagino como classifiquem aquilo sequer). A única conclusão a que cheguei foi que os wraps são vistos por quem decide isto como um bem mais dispensável (leia-se “alimento de luxo”) do que os pães para hambúrgueres. 

Seria de esperar que depois desta descoberta, decidisse avançar com os requintados wraps para o jantar, brilhar cá em casa com este produto de luxo que prova quanto gosto de viver acima das minhas possibilidades, preparar um menu de degustação que fizesse brilhar o espalmadinho wrap. Mas não. Depois de imaginar a reunião em que as pessoas encarregadas de decidir estas coisas se sentam a fazer os montinhos dos bens/serviços com a taxa mínima, a intermédia e a máxima, discutindo (espero eu) com irrefutáveis argumentos, contra-argumentos e exemplos (fazendo bom uso de todas as estratégias da retórica) as razões que levam a que dois produtos muito semelhantes cobrem valores de IVA diferentes, foi-se-nos a vontade de fazer o que quer que fosse. Exaustos, jantámos uma malguinha de cereais cada um (leitinho e cereais com 6% de IVA, como Deus e o governo mandam).. 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Os Despojos do Dia - o balanço

Wook.pt - Os Despojos do Dia


Ontem fechei este livro e pensei que já não lia um livro tão bom há algum tempo. A seguir, fui à Wook encomendar outro do mesmo autor porque queria continuar. É tão bom encontrar livros assim, que nos abanam, nos deixam a ansiar por mais. E este, na sua simplicidade, é de uma beleza comovente. Além de que levanta algumas questões que sem dúvida ficam a flutuar dentro de nós. É isso o que se quer: livros que nos acrescentem alguma coisa, que nos façam pensar em coisas que até podem parecer óbvias, mas com as quais tendemos a não perder muito tempo.


O protagonista deste livro é Mr. Stevens, um mordomo britânico que trabalhou durante muitos anos para um aristocrata inglês, dono de uma daquelas propriedades enormes, onde decorrem festas e outros encontros entre gente importante. Porém, tudo o que sabemos sobre os tempos de «Sua Senhoria» chega-nos através de reminiscências de Mr. Stevens, o fiel mordomo. Na realidade, o presente da narrativa é um tempo posterior ao da morte deste aristocrata, e o mordomo, embora mantendo o seu trabalho na mesma casa, tem agora um novo patrão a quem servir: um americano de gestos e carácter bem diferentes. Depois de duas guerras mundiais, a realidade é outra e o tempo das casas e das famílias ao estilo de Downton Abbey passou. Mr. Stevens reconhece agora no seu trabalho erros impensáveis nos tempos áureos do serviço prestado a «Sua Senhoria». Mas as exigências são outras e é com saudade que recorda o espírito de missão com que enfrentou cada um dos dias enquanto mordomo de uma casa tão distinta como Darlington Hall.


O novo patrão vai ausentar-se e propõe a Mr. Stevens que goze uns dias de férias. Para isso até lhe disponibiliza o seu Ford e compromete-se a custear os gastos com combustível. A princípio, Mr. Stevens não vê qualquer necessidade de abandonar a casa que é, no fundo, a sua vida, no entanto, a bem do futuro do serviço, resolve aceitar a proposta: usará a viagem para visitar uma antiga governanta de Darlington Hall que, ao que parece, se separou e deseja voltar a trabalhar na propriedade. Ainda que as receções sejam hoje poucas e a equipa de serviçais seja muito menor do que nos tempos de glória, talvez os erros de Mr. Stevens deixem de acontecer se conseguir aquela ajuda extra, que ainda por cima ele conhece tão bem. E assim parte em viagem pelas aldeias e vilas britânicas, vendo paisagens que nunca viu, conhecendo pessoas tão diferentes de si próprio, e aproveitando o tempo para refletir sobre o que foi a vida em Darlington Hall antes de «Sua Senhoria» cair em desgraça.


Se viram Downton Abbey, recordar-se-ão de Mr. Carson, o mordomo que nunca saía desse papel, que era o exemplo acabado da lealdade, que dedicava cada segundo da sua vida ao serviço da casa para que os seus senhores e a propriedade brilhassem e mantivessem a melhor reputação possível. Pois bem, Mr. Stevens é um desses mordomos à antiga, mas durante esta viagem, devido ao tempo que passará sozinho e afastado dos seus afazeres habituais, vai pensar e vai dar a conhecer as suas memórias e o modo como foi entendendo certos acontecimentos vividos em Darlington Hall. Aquilo a que o leitor assiste então é de uma profunda tristeza: a inocência deste homem e a sua devoção ao trabalho impediram-no de ler a real gravidade do que se passava à sua volta. A lealdade a uma pessoa impediu-o de compreender o enorme erro que «Sua Senhoria» estava a cometer. E pior: a devoção cega à profissão impediu-o de viver a sua própria vida, de cometer os próprios erros, de amar quando teve a oportunidade, de se despedir do pai quando o momento chegou... Mr. Stevens era o homem que estava sempre lá, que via e ouvia tudo - das reuniões entre figuras políticas importantes até aos desabafos do patrão -, mas que não entendeu nada. E, claro, quando lhe chega um lampejo do que perdeu, tem um momento de fraqueza. Porém, a dignidade que se exige a um bom mordomo não deixa que dure muito. Rapidamente reúne os cacos e torna a pensar em como poderá melhorar enquanto mordomo de um cavalheiro americano com usos, costumes e gracejos diferentes daquilo a que estava habituado.


O livro é fenomenal. A escrita é belíssima e o jogo entre o que o narrador inocentemente conta e o que o leitor interpreta, à luz de conhecimentos históricos que tem, mas também enquanto ser humano capaz de perceber o desajuste em muitas das atitudes deste mordomo, é feito de forma magistral. Estou ansiosa por ler outros livros de Kazuo Ishiguro,  Nobel de Literatura de 2017. Para já vem a caminho Um Artista do Mundo Flutuante, mas não vou descansar enquanto não os tiver a todos. Leiam este livro. Vão gostar muito.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Para o que estávamos guardados VI

 Um diálogo provável nos dias que correm*:


- Ena pá, fim de semana prolongado. Vai saber tão bem!

- Também acho. Já estava a fazer falta. O que vais fazer?

- Hum... Acho que vou passar os três dias no sofá. E tu?

- Ah, eu também. Quer dizer, tenho de limpar a casa, mas estarei maioritariamente no sofá. 

- Pois, claro. Limpar a casa e lavar a roupa. Mas depois sofá, sem dúvida. 

- Siiiiim, ver séries no sofá... 

- Sim! E ler! Ah, e tenho uma esfregona nova! Da Vileda, com aqueles baldes todos XPTO que escorrem automaticamente. Vou estreá-la durante o fim de semana. 

- ... 

- Pois...


* Baseado numa conversa real. Para que conste, amanhã experimento a esfregona nova. 

terça-feira, 30 de março de 2021

O Círculo - o balanço

Wook.pt - O Círculo


Imaginem o seguinte cenário: uma empresa tecnológica, fundadora de uma rede social que procura constantemente novas formas de se atualizar e de se fazer presente na vida dos seus seguidores; com um campus maravilhoso que de tal forma oferece tudo aos seus funcionários que, em bom rigor, eles nunca precisam de sair de lá para suprir qualquer necessidade; uma empresa que incentiva práticas continuadas de socialização e de transparência entre as pessoas; uma empresa que quer opiniões, que deseja ver as opiniões a circular e a influenciarem outros; que procura a partilha constante de informação e as interações entre usuários das ferramentas por ela disponibilizadas.

Imaginaram esse lugar onde tudo é novo e bonito? Onde se pode fazer carreira com um monitor em cada pulso e uma câmara ao pescoço. Onde os segredos não têm lugar porque vão contra a transparência que aquela rede social e seus satélites promovem. Onde a privacidade é tida como egoísmo, pois a informação deve correr livremente a fim de chegar aos curiosos e aos que não a teriam de outra forma. Um mundo que vos tira a possibilidade de sussurrar, de passear sem que tenham de partilhar a paisagem que veem, que para seguir os vossos passos enquanto influencers, limita fortemente a liberdade e a privacidade de todos os que convosco interagem, desejem eles a exposição ou não. Imaginem uma vida cheia de monitores, imaginem-se a ter de registar cada passo que dão, a não poderem ir dar um passeio para espairecer sem terem de partilhar com outros o que viram, cheiraram, ouviram, porque não o fazer seria errado, seria privar outros das sensações que nós tivemos e, portanto, seria egoísta.

Se conseguiram imaginar tudo isto, ficaram com uma pálida ideia do que é descrito neste romance. E se sentiram a mínima vontade de viver numa realidade assim, devem mesmo dedicar algum tempo às suas páginas. Se depois disso mantiverem esse desejo, sugiro-vos a lobotomia e a oferta do cérebro à ciência para estudos.

Não vou alongar-me muito sobre o livro porque, como já perceberam, sou dada a escrever em demasia e depois acabo por afugentar os leitores. Vou apenas dizer-vos que este livro vale pela realidade extrema que apresenta. Uma realidade em que, de repente, passa a parecer normal que o direito de voto fique vinculado à presença numa determinada rede social e em que uma câmara ao pescoço durante todo o dia faz sentido porque «as pessoas têm o direito de saber». E em que um chip no corpo faz todo o sentido se isso ajudar a diminuir a criminalidade, ainda que a contrapartida seja a perda total do que conhecemos como vida privada. 

É importante ter consciência de que as personagens não estão ali para criarmos laços com elas. Na verdade, a protagonista é até bastante ranhosa e não era alguém que eu gostasse de conhecer. Mas é a realidade tentacular de uma empresa tecnológica que oferece tudo, TUDO, o que os jovens funcionários podem desejar... a troco da sua disponibilidade constante, partilha de dados constante e lealdade constante a um projeto que leva o orweliano Big Brother a extremos nunca vistos aquilo que realmente interessa. 

Houve momentos em que achei algumas ideias e discursos meio descabidos ou fora de tom. Não pareciam fazer muito sentido em personagens com aquelas idades. Mas, superando isso e atentando simplesmente na escalada de voyerismo e de diluição das fronteiras pessoais, o livro lê-se bastante bem e coloca algumas questões interessantes, sobretudo para quem utiliza muito as redes sociais. Nos dias que correm, vale a pena pensar na exposição que queremos fazer da nossa vida e no que podemos ou não fazer para nos protegermos destas realidades virtuais que dizem ter nascido para fazer maravilhas por nós, mas que nos lembram de vez em quando que não há almoços grátis e que para tudo há um preço. 

Uma leitura interessante para o fim de semana prolongado que se aproxima.


PS.: Não ganho nada com as sugestões que aqui faço, por isso o que vos digo sobre os livros é aquilo que verdadeiramente penso sobre eles. Sempre foi assim, sempre será assim. Boas leituras.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Escondam as carteiras...

...pois a Wook está a fazer aquela promoção em que devolve cem por cento do que gastarmos. Mas leiam bem as letras pequenas, pois há algumas regras para a utilização do saldo acumulado com esta campanha. 


Agora vou só ali ver que livro dos 3612 que tenho no carrinho se vai pôr a caminho da minha casa. 

sábado, 27 de março de 2021

Ler nem sempre significa compreender

No passado dia 22 de março, o jornal El País publicou um artigo sobre os maus resultados das crianças espanholas no que à compreensão da leitura diz respeito. Ou seja: concluiu-se que os miúdos até leem, mas não compreendem o que leem. Este não é um problema exclusivamente espanhol, como bem sabemos. Por cá passa-se o mesmo e, se nada se fizer para inverter a situação, as consequências serão dramáticas. É que se para muitos os livros são coisa de outros tempos com a qual não vale a pena «perder» tempo, a necessidade da leitura e da compreensão do que se lê fará parte da vida futura dos miúdos que hoje leem um texto e não o compreendem. Pensem na quantidade de vezes em que ler e perceber o conteúdo lido foi fundamental para resolverem um problema. Desde o mais simples manual de instruções, passando pelas linhas de um contrato que temos de assinar (de preferência entendendo bem onde estamos a deixar a nossa assinatura), a leitura faz parte da nossa vida. E podem vir os computadores que vierem, as inovações de que ainda se vão lembrar para encher a nossa vida: da necessidade de ler e de compreender o que se lê ninguém se livra. Se puxei a importância da leitura para aspetos tão prosaicos quanto os das burocracias que, infelizmente, marcam a idade adulta, foi apenas porque, como disse, muitos imaginam que contornarão as dificuldades afastando simplesmente da sua existência o objeto de leitura por excelência: o livro. Podem fazê-lo, ainda que percam um mundo imenso que, cliché ou não, os empobrecerá muito. Contudo, as letras a exigirem ser compreendidas vão esconder-se e aparecer quando mais for preciso ter estaleca para se perceber o que nos querem dizer.

Como devem lembrar-se os mais antigos seguidores deste blogue, antes de decidir pôr um ponto final na minha carreira docente e enveredar por outros caminhos, fui professora de Português. Saí do ensino com a certeza de que o maior problema que as crianças e jovens portugueses enfrentam é o da dificuldade na compreensão e interpretação textual. E desengane-se quem, ingenuamente, acredita que isso só interfere na disciplina de Português. Esse é um problema transversal a toda a escolaridade. Quantos alunos não conseguem responder com correção a uma pergunta num teste de História, por exemplo, porque não compreenderam o que leram num documento ou, mais flagrante ainda, no enunciado da própria pergunta? Até em Matemática: quantos falham na tarefa proposta porque não perceberam o que era para fazer? Mesmo assim, mesmo sendo do conhecimento geral a existência desta dificuldade, a compreensão textual só está verdadeiramente presente nas aulas de Português. Nas outras disciplinas não existe ou é residual.

Perguntamo-nos há muito tempo por que motivo estão os alunos sem conseguir desenvolver esta competência tão fundamental ao longo da escolaridade, mas também fora dela. Levantam-se muitas hipóteses, e também um dos professores citados no artigo do El País avançou a sua teoria:

«El profesor de Lengua y Literatura de Secundaria y Bachillerato Juan Santiago Mellado nos habla claro: “Los niños y los adolescentes tienen tan mala comprensión lectora porque cada vez nos resulta más innecesaria en nuestra vida cotidiana. En realidad nos basta con dejar en visto libros, artículos, mensajes de texto o hilos de Twitter, para pasar a otra cosa. Pararse a comprender un texto es un ejercicio de estilo muy siglo XX, como escuchar un disco completo o ir al cine. Experiencias ya para académicos o snobs. Hoy en día nos han convertido en unos yonquis del impacto. No es raro que vaya consolidándose una neolengua plagada de oxímoron: hechos alternativos, posverdad, fake news, feminismo liberal, crecimiento negativo, inmigración ilegal”.» Ou seja: a leitura, a compreensão da leitura são tidas como peças empoeiradas num museu que não interessa visitar. Porém, outro professor citado no artigo diz-nos que «“El tiempo libre de los más jóvenes es muy limitado entre las clases de chino, los entrenamientos, ir a pintura o piano, pero entre todas esas actividades la lectura debe estar presente. La lectura debe estar presente en nuestras casas como un hábito recurrente, al igual que comer frutas y verdura, estar en contacto con la naturaleza o visitar a la familia y amigos”, concluye el profesor José Luis Merino.». Também isto é verdade: as crianças e jovens têm centenas de atividade que os chamam. Atividades atrativas, que implicam movimento e grande dispêndio de energia. Onde ficam os livros e a leitura numa competição com todas as solicitações que são feitas a estes miúdos ao longo do dia? E mesmo que até sejam jovens motivados e com gosto pela leitura, que tempo lhe poderão dedicar se todo o seu horário está preenchido (muitas vezes até mais do que o nosso, adultos que trabalhamos)?


A realidade que tomou conta dos nossos dias no último ano pode até ter dado mais tempo às crianças para a leitura e para o desenvolvimento da compreensão da leitura. Porém, os dois anos letivos atribulados que lhes calhou viver também as prejudicaram no desenvolvimento dessas atividades a nível escolar. Ao mesmo tempo, as crianças que estiveram com aulas em casa enquanto os pais «teletrabalhavam» estiveram a navegar à vista, muitas delas por conta própria porque os pais ou não podiam ou não conseguiam ajudá-las. E assim, quando os horários se esvaziaram de atividades extracurriculares e a leitura podia ter ocupado algum tempo, o meio envolvente não o permitiu verdadeiramente. Sobretudo não o permitiu a todos. Como disse o professor José Luis Merino, a leitura devia ser um hábito recorrente nos nossos lares, tão importante como outros que vemos como imprescindíveis. Não somos tão inocentes que não saibamos que muitos, mesmo muitos adultos não leem, não compram livros e, como tal, não podem ou não conseguem depois pôr os filhos a ler. Muita da aprendizagem que fazemos ocorre por exemplo. No caso da leitura (e sobretudo quando tantos ecrãs lutam pela nossa atenção), esses modelos são fundamentais. Quando não existem, o trabalho necessário para a criação de leitores e, principalmente, de leitores capazes de compreender o que leem, aumenta bastante.


Deixei o ensino, mas não deixei de ser professora e este tema preocupa-me. É muito difícil fazer nascer um leitor e sobretudo é muito difícil fazer nascer um bom leitor. Exige tempo que muitas vezes os programas escolares não permitem que exista; exige trabalho continuado e empenho dos docentes, dos alunos e dos pais. Encontrar uma sintonia entre estas três partes é mais difícil do que possa parecer. Motivar para a leitura é fundamental, não é um luxo. Infelizmente, muitas vezes a leitura transforma-se apenas em mais um trabalho escolar, o que lhe tira toda a graça e mata qualquer vontade que possa existir. Sem leitura não se desenvolve a compreensão do conteúdo lido, não se formam leitores funcionais. O problema é grave, é enorme e aumenta a cada dia que passa. Não é um problema exclusivamente espanhol: é de todos, e urge resolvê-lo. Não o fazer terá consequências gravíssimas para todos.

quarta-feira, 24 de março de 2021

A Menina Quer Isto CXXIII

Já não vinha para aqui pedinchar desde julho de 2019. Nem sei como me aguentei! Aposto que a minha família passou a ter maiores dificuldades para decidir o que me oferecer. Pois bem, fofinhos, eis que as listas se abrem novamente. Rufem os tambores! Trrrr trrrr trrrr trrrr! (Não sei bem se isto foi um rufar de tambores ou um telefone antigo, daqueles com a rodinha e tudo. Bom, valeu a intenção.)

Ora bem, e que quer a menina? Adivinhem lá? Só não digo que ofereço alguma coisa a quem adivinhar porque provavelmente ia mesmo ter de abrir os cordões à bolsa. Pois, é verdade: livros. São quatro, ainda por cima.


Wook.pt - O Árabe do Futuro 1Wook.pt - O Árabe do Futuro 2

Wook.pt - O Árabe do Futuro 3Wook.pt - O Árabe do Futuro 4

Nota: Como se vê, as imagens das capas saíram da página da Wook.


Hoje andava em busca de uma informação e topei com estes livros. São quatro volumes de uma novela gráfica de cariz autobiográfico em que o autor, Riad Sattouf, de origem franco-síria, junta as memórias da sua própria infância com a história do mundo árabe. E assim mostra como era crescer no regime de Kadafi, como foi depois a vida na Síria, os conflitos dentro da própria família, o peso da religião nas dinâmicas familiares, o ensino na escola de uma pequena aldeia árabe, os costumes mais ou menos conhecidos de uma cultura que está tão distante da nossa... Claro que acredito que este seja apenas um ponto de vista e que esteja muito marcado pelas vivências únicas do autor que, como bem entendemos, terão sido diferentes das de muitas outras pessoas. Ainda assim, creio que deve ser uma leitura interessante se não perdermos de vista a ideia de que estes não são livros de História. São, sim, livros ficcionais onde há elementos históricos que são interpretados e contados depois de passarem pelo filtro da inocência da infância.

A ideia terá nascido no início da sangrenta guerra civil que devastou a Síria (2011) e o livro que inaugurou a tetralogia venceu o prémio de Melhor Álbum do Ano no prestigiado Festival de BD de Angoulême 2015. As traduções sucederam-se e os exemplares foram vendidos aos milhares.

Dos exemplos que pude ver na internet, o texto é marcado pelo humor e o facto de realidades tão complexas serem vistas e interpretadas por uma criança gera leituras curiosas. Desengane-se quem acha que o humor apouca o texto. Gil Vicente seguia a máxima “ridendo castigat mores” e a verdade é que todos prestámos muita atenção ao que ele tinha para nos dizer sobre a sociedade portuguesa do seu tempo. Parece-me, pelo que pude ver, que aqui acontece o mesmo. Talvez "castigar" não seja exatamente o objetivo de Riad Sattouf, mas sim divulgar o seu ponto de vista sobre o que lhe calhou viver e conhecer do mundo árabe.

Gosto muito de novelas gráficas assim como gostava de banda desenhada desde pequenina. Aqueles pequenos quadradinhos com os seus balões permitem dizer tanto. Neste caso, junta-se o formato que me é tão querido com uma outra característica que adoro encontrar na literatura: a autobiografia. E para a receita ser perfeita, ainda temos a visão infantil, que tantas vezes consegue ser bem mais crua do que a visão já mais mastigada de um adulto. Portanto, para mim, junta-se aqui o útil ao agradável. O resultado já se sabe: é que a menina quer isto.


 

terça-feira, 23 de março de 2021

Vícios Novos

Como vocês sabem, eu tenho dois amores (como o outro): livros e gatos. Ou seja: vou bem lançada para me transformar na velha doida da praceta. Mas adiante. 

Se no que aos gatos diz respeito o número está parado em dois (apenas porque alguém não me permite mais com o péssimo argumento de que Madame Pochita vale por dois gatos), no que respeita aos livros o número cresce de mês a mês. Porém, nos últimos seis meses descobri uma nova tara que, no fundo, vai ao encontro da dos livros já que envolve leitura: assinaturas digitais de periódicos. Na verdade, jornais e revistas já compro há muito tempo. Adooooro alguns especiais da National Geographic, compro quase todos os números do Courrier Internacional que saem ao longo do ano. Mas recentemente descobri o conforto de receber tudo de forma digital, sem roubar com revistas o espaço onde posso enfiar mais uns livritos.

Começou com a New Yorker. Ofereciam um saco bem giro e a revista é fantástica. Depois essa assinatura chegou ao fim e o preço ia ficar astronómico. Cancelei-a e assinei o Expresso. Depois o El País. E o Público. E o The New York Times (boooom). E tenciono em breve assinar o Courrier Internacional porque os números antigos pululam por aqui e tenho pena de me livrar deles. Assim fico com acesso aos números antigos sem encher mais a casa. Além disso, a assinatura sai mais barata do que a compra de cada número em papel.

E perguntam vocês: jovem, como raio lês isso tudo? Pois, olhem, vou lendo. O Expresso ao sábado. O El País vou lendo, sem deixar passar o suplemento Babelia e a Revista Semanal, ao domingo. No Público leio as notícias que me interessam (sem me cortarem os artigos a meio) e o que no Ipsílon vai saindo sobre livros e viagens. No The New York Times gosto dos artigos que vão saindo sobre livros, gosto das críticas, das listas de best-sellers, e adoro o podcast. Da New Yorker acho que nem preciso de falar. A revista é um espanto do início ao fim e aborda temas muito interessantes que vão da política à literatura, passando por questões sociais atuais. O Courrier Internacional é um amor antigo que permite ler sobre assuntos que jamais me passariam pela cabeça. Das eleições na Índia às lutas tecnológicas, das conquistas da ciência à ascensão da extrema-direita, das tiranias na Arábia Saudita às tentaculares redes sociais, das fragilidades nas fronteiras aos direitos das mulheres em diferentes países: os temas são muitos e variados. O editorial é sempre apetitoso e esclarecedor. É, de facto, uma revista que vale a pena.

Portanto é isto. Além dos livros, que continuo a ler em papel e no Kindle, agora tenho os periódicos que me caem no tablet diaria ou semanalmente. O valor em assinaturas não é tão alto quanto possam pensar. Assino quando, de facto, é um jornal ou revista que me interessa, mas aproveito as promoções. Há sempre promoções a decorrer. Por exemplo: o The New York Times custa-me $1 a cada quatro semanas durante o próximo ano. Muito pouco, já que em euros gastarei uns treze durante um ano. Com o Expresso, depois de ter aproveitado outras promoções, renovei a assinatura com a promoção de aniversário do jornal: 48 edições por 48 euros. Portanto, um euro por semana durante praticamente um ano. Bons negócios.

No fim de contas, há algo que importa ter em conta: todos gostamos de ler notícias e todos gostamos de estar informados (hoje talvez mais do que nunca), mas somos poucos os que compramos ou assinamos periódicos, permitindo a sobrevivência do jornalismo. Do bom jornalismo, sobretudo. Nunca fez tanta falta a informação rigorosa, mas também nunca gastámos tão pouco em jornais. Existem, inclusivamente, almas que trocam diariamente pelo WhatsApp pdf’s com os jornais diários na sua versão integral. E acham perfeitamente normal e salutar fazê-lo. Não é e era bom que essas criaturas o percebessem. Os jornalistas lidam diariamente com dificuldades imensas. Redações quase vazias, quebras na publicidade, críticas tantas vezes injustas que atribuem a estes profissionais as culpas pelos males do mundo, pressões várias... contudo, vão continuando a fazer sair para as bancas as notícias que nos ajudam a pensar, a conhecer, querer saber mais. Se pagamos por tantas coisas, talvez algumas tão pouco necessárias, porque não pagamos pelas notícias que lemos? Todos gostamos de receber o nosso salário no final do mês. Pois pasmem-se: os jornalistas também.

Portanto é isto: livros, gatos e jornais/revistas. Daqui a uns quarenta anos, por favor, venham cá a casa ver se estou bem. Se eu não abrir a porta, é porque já fui devorada pelos gatos ou porque fiquei subterrada debaixo de uma pilha de livros que me caiu em cima. As probabilidades de que tal aconteça parecem-me altíssimas.

domingo, 21 de março de 2021

Está aí alguém?...

Bom, isto é que foi um longo espreguiçar!

Há algumas semanas e com poucos dias de diferença, duas amigas enviaram-me mensagens a perguntar-me pelo blogue e dizendo que tinham saudades de o ler. E aquilo, além de me deixar contente por ver que alguém sentia a falta das patetices que por aqui se largaram durante muito tempo, ficou a moer-me no fundinho da cabeça. Até que percebi porquê: eu também tinha saudades disto.

Já sei já sei... Os blogues já não fazem muito sentido em tempos de Facebook, Instagram, TikTok, Twitter e afins. São “tão” inícios dos anos dois mil... Sim sim. Esperem que já me apanham a fotografar tudo o que vejo para o Instagram ou a perder-me no lodo do Facebook, ou ainda a tentar dizer tudo o que tenho a dizer em duas dúzias de caracteres no Twitter. E nem me façam falar dos vídeos no TikTok (mas sobre esse espero falar-vos depois).

Ora bem, o mais natural é que, à exceção daquelas duas amigas que me escreveram a lamentar o fim do blogue, os restantes leitores tenham desertado para outras paragens. E com razão, pois fiz aquilo que tanto critiquei em tempos: abandonar a chafarica sem dar cavaco. Não se faz. Em jeito de desculpa, digo-vos que andava com uma falta de inspiração terrível e para não dizer nada que preste, vale mais estar em silêncio.

Agora, mais crescida e mais serena, gostava de, aos poucos, dar nova vida a esta modesta casinha cor-de-rosa (há coisas que não mudam). Assim, se quiserem voltar, muito vos agradecerei. Façam um aceno para eu saber que estão por cá. Tive saudades vossas, a verdade é essa.

Vamos a isso?

domingo, 5 de abril de 2020

Para o que estávamos guardados V

Estou há vinte dias em teletrabalho e, portanto, em isolamento. Há dias em que, confesso, me apetece esconder-me debaixo da cama e ficar por lá. Felizmente, há outros em que até me abstraio da realidade e entro de tal forma no livro que estou a rever que o tempo chega a passar depressa.

Entretanto, quase vinte dias depois, voltei a ver embalagens de álcool à venda e por um preço normal. Acho que se tivesse visto um unicórnio vestido de cabedal e plumas não teria ficado tão espantada. Fora isso, acho que o que me chocou mesmo a sério foi o facto de ter pago quase cinco euros por uma couve-flor que nem era assim tão grande. Ou eu tenho muito azar, ou os estabelecimentos onde vou às compras têm sempre pouca oferta de frutas e vegetais e o que têm está caríssimo. No resto das coisas nem noto grande diferença nos preços. 

Noto, sim, que tenho jogado mais no tablet e que tenho optado por livros divertidos. Para seriedade já chega o que estamos a viver. A ideia é mesmo desligar e ocupar a cabeça com... Nada. Acho que é fácil cair na tentação de seguir as notícias quase ao minuto, mas não é boa ideia. Estamos, cada um de nós, a cumprir a nossa parte e isso já é imenso. Parecendo que não - porque, afinal, só nós mandam estar em casa -, estamos aterrados e cada dia que passa é mais um que vivemos com o coração na mão e a perguntar-nos quando chegará o dia em que saíremos sem medo para a vida de todos os dias.

Medo do vírus, por nós é pelos que amamos; pelo que Portugal ainda tem pela frente; uma dor sem descrição possível pelo que sabemos de outros países, alguns tão próximos, tão nossos conhecidos; o pânico de que a economia nos leve o trabalho e nos devolva à situação que julgávamos ter deixado para trás. Enfim... Temos tanto em que pensar que se torna importante escapar um bocadinho a isto tudo. Por isso, leiam livros que vos levem para histórias completamente diferentes daquelas a que assistimos actualmente, vejam filmes que vos ocupem a mente, ouçam boa música e batam o pezinho ao som dela. Cantarolem, aproveitem as idas à janela para verem as estrelas que, ironicamente, voltaram ao nosso céu. Façam bolos e bolachas: é relaxante e comê-los sabe bem. Teremos tempo para dietas depois disto tudo (e quando uma couve-flor não custar cinco euros...). Aproveitem para fazer algo que quisessem fazer há muito tempo, mas que nunca tivessem começado. O que quiserem. Mas tentem, como eu tento, pensar noutras coisas e fugir ao medo. Havemos de superar isto e precisamos de chegar sãos a esse dia. Oxalá, ele chegue depressa. 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Para o que estávamos guardados IV

Estou com aquele autarca italiano que se questiona sobre os eventuais problemas de próstata que possam justificar tantos passeios caninos. Neste momento, acho que até algumas fêmeas podem estar com a próstata aumentada... Há por aí canídeos que já devem verter uma lagriminha cada vez que vêem os donos pegar na trela para novo passeio. Alguns vão ficar com as patas bastante musculadas, mais ou menos uns popeyes caninos. Se isto não acaba, não sei. Somos bem capazes de vir a assistir a casos de exaustão canina por excesso de voltas ao quarteirão.

Outra coisa de que gosto muito, além dos súbitos problemas de próstata de cães e cadelas europeus, é das operações para perguntar aos condutores aonde vão. Faz-me sempre lembrar a Capuchinho Vermelho. O Lobo Mau parou-a, perguntou-lhe para onde ia e ela, tontinha que dói, contou tudo: «Ah e tal, vou levar uma marmita à minha avozinha que está de cama, coitadinha.» Bom, todos sabemos como isto acabou.

Ora, nos dias que correm, todos podemos levar a marmita à avozinha (chama-se assistência a familiares incapacitados ou coisa parecida). E imagino que cada condutor mandado parar responda (com a prancha de surf a espreitar na bagageira enquanto tenta passar a Ponte 25 de Abril) «Vou ali levar o farnel à minha avozinha que tem noventa anos. Agora deixe-me lá seguir que levo aqui feijoada para ela e não vá a coisa azedar-se-me.» O senhor guarda lá faz continência e manda seguir. 

Não consigo imaginar alguém ingénuo o suficiente para responder ao polícia que lhe pergunte que destino leva qualquer coisa como «Olhe, está um sol do caraças, a Primavera começou, eu quero apanhar já uma corzinha e toda a gente sabe que as praias da Fonte da Telha são fantásticas. Deixe lá passar, vá lá.»

Considerando que, dentro da estupidez de quem sai quando pode ficar em casa, ninguém é tão burro que responda algo assim a um agente da autoridade, não deixa também de ser engraçado o facto de a intervenção das autoridades neste momento ser meramente pedagógica. Portanto, mandam-me parar, eu paro, o senhor guarda pergunta para onde vou e eu digo que vou ali ao pão. Posso ir, posso não ir... Ele não me vai seguir, portanto... Mas pode dar-me conselhos: ah e tal, higienize as mãos, mantenha a distância social, não beba água gelada depois de comer pão quente... Tudo conselhos úteis, claro.

Para terminar, só um pormenor: quem conseguiu atravessar a ponte para levar o leitão à avozinha que mora em Albufeira com vista para o mar deve estar chateado que nem um peru. É que depois de tantos dias de sol, hoje chove. Chama-se karma.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Para o que estávamos guardados III

Estou há dez dias em casa. Há dez dias que não vou à editora, que não me sento na minha cadeira e que não vejo os meus colegas, o que é uma treta. Há dez dias que não me maquilho, o que até sabe bem. A minha roupa de trabalho passa por calças confortáveis e sweatshirts, o que também é agradável. Boa parte do meu dia é passado na varanda (fechada, pois de outra forma hoje já teria morrido de frio), onde a luz é melhor para ler. De vez em quando vou ao escritório para usar o computador. Aí acabo por ter de lutar com patas peludas que teimam em passar sobre o teclado sempre que estou a fazer alguma coisa. Ou que passam e param teimosamente diante do ecrã, num claro exercício de narcisismo felino. Também tenho de me esquivar à monomania da Cão: a sua decrépita bola de ténis.

De vez em quando levanto-me a correr porque o apocalipse chegou na forma de um gato que atira coisas ao chão ou de uma gata que suja o hall com uma bola de pêlo. Ir buscar o balde e a esfregona é, posso dizer, o ponto alto do meu dia.

Os meus pés já não sabem o que são umas botas e temo que se recusem a voltar a entrar numas. Os chinelos com raposinhas são agora os seus melhores amigos e não sei como é que isto vai acabar. O meu cabelo, que está a ganhar proporções alarmantes, anda preso com um pauzinho. Julgo que, quando puder sair de casa, o primeiro sítio aonde irei será ao cabeleireiro. Até ia a correr, mas tenho medo de tropeçar no cabelo ou de torcer um pé com os chinelos das raposinhas.

Entretanto, no tempo que me sobra, várias questões assolam a minha desocupada cabeça. Uma delas é: será que as mulheres que estão em isolamento social em casa estão a usar sutiã? Bem sabemos que quando estamos por casa é artigo que dispensamos frequentemente. Mas se isto dura muito... Só nos faltava acabarmos este inferno todas descaídas! 

terça-feira, 24 de março de 2020

Para o que estávamos guardados II

Hoje, enquanto fazia o passeio matinal com a Cão, notei o enorme silêncio daquela praceta onde, normalmente, se ouvem os sons da pastelaria (encerrada ainda antes de o Governo o ter decretado), alguns carros que passam, pessoas que se cumprimentam, que conversam, enfim, o som da vida de todos os dias. Durante aqueles dez minutos não ouvi praticamente nada que não fosse o som dos meus passos e isso nesta cidade é, diga-se, bizarro. Além disso, vi em várias janelas desenhos infantis de arco-íris. Uns em janelas de andares mais altos, outros mais perto do chão, todos teriam, na verdade, a mensagem em que queremos mesmo acreditar: «Vai correr tudo bem.»

De repente, no meio do silêncio e de desenhos infantis, é inevitável pensar que antes de tudo correr bem, corre mal. E foi precisamente por isso que não ouvi nada, não senti o aroma dos bolos ainda quentinhos, do café acabado de tirar, das pessoas que conversam sobre futebol: porque subitamente correu tudo mal e, para não correr pior, estamos a fazer a nossa parte e a contribuir com o nosso próprio silêncio, fechando-nos em casa. No fim espera-se o arco-íris, mas por agora não se sabe muito bem quando ou como chegaremos ao dia em que ele aparecerá.

O inimigo é silencioso, oportunista, e faz-nos desconfiar. Outro vizinho passeava o cão à mesma hora, regressámos ao prédio ao mesmo tempo e parecia que fazíamos uma dança bem ensaiada e coordenada, mantendo sempre uma distância que nunca diminuiu. Os pobres animais bem queriam aproximar-se, mas os seus humanos não podiam. Eu subi pelas escadas e o vizinho foi de elevador.

A Cão dormiu durante boa parte do dia, os gatos fizeram o mesmo e eu trabalhei. De vez em quando os olhos saltavam do papel para a janela, olhavam lá para fora e procuravam indícios de normalidade ou, mais provavelmente, do seu contrário. E encontravam. Os estacionamentos cheios porque as pessoas estavam em casa; mais janelas abertas e mais roupa nos estendais; menos carros a circular; menos gente a passar; mais crianças à janela com os pais em horas que seriam, em dias comuns, passadas na escola. Voltaram os olhos ao trabalho e assim passou o tempo até ao noticiário e aos números do dia. O arrepio diário quando chegaram as novidades, quando assisti às imagens dos que ainda não perceberam a gravidade do problema e querem continuar a passear aos magotes. O murro no estômago quando saltamos da realidade nacional e passamos para Espanha e para Itália. A dor de cerrar os punhos com toda a força e o desejo enorme de que nunca sejamos nós. De que o arco-íris, que tarda tanto, chegue depressa.

Engole-se em seco e engole-se o almoço. Mais horas de trabalho com espreitadelas rápidas às notícias mais recentes. Cada vez menos espreitadelas porque, a certa altura, é preciso não ceder à tristeza. Convém não esquecer que as fronteiras são as minhas paredes e só isso é suficiente para cansar a alma. Acaba o dia de trabalho, come-se qualquer coisa e chega mais um noticiário. Só os primeiros quinze minutos. Depois um livro, uma revista, um jogo, o branco do tecto, qualquer coisa. O dia acaba e o próximo será igual. Falta-me fazer este risco no calendário, mas nem me preocupo: tenho tempo e não me vou esquecer dos dias em que ficar em casa foi a solução possível.

Amanhã o dia será assim também. Ainda não veremos o arco-íris, parece-me que ele se fará esperar. Amanhã serão apenas mais umas horas em casa, fazendo sem companhia o que normalmente faço rodeada de gente. Será um dia com outras notícias, o mesmo arrepio na espinha, o costumeiro murro no estômago, o medo e a saudade daqueles que não posso ir ver. Será mais um dia para ir à janela e ver a vida diferente dos que só a querem igual ao que sempre foi, mesmo que não fosse perfeita. «Éramos felizes e não sabíamos», dizia-me alguém num destes dias. Nunca a frase me pareceu tão certa.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Para o que estávamos guardados I

Realmente... Não passava por aqui por falta de tempo, de vontade, de inspiração... Parecia-me que já tinha dito tudo, feito todas as piadas e que já não tinha nada para vos dar. Bom, provavelmente continuo a não ter. Contudo, agora poupo o tempo das viagens para o trabalho já que estou a trabalhar a partir de casa há uma semana. Ou seja: há oito dias que não saio a não ser para ir à mercearia, à farmácia e para passear a Cão. Resultado: agora tenho mais um bocadinho para vir aqui delirar. 

Sim, porque isto está é para uma pessoa ensandecer. Acordo meia hora antes de me sentar diante das provas que tenho para rever, trato dos animais e faço questão de vestir uma roupinha que não o pijama. Ao menos isso! Tomo o pequeno-almoço já a trabalhar, faço uma pausita de meia hora para almoçar e sigo as leituras pela tarde fora. Aí pelo meio, ouço o noticiário, reviro os olhos cento e oitenta vezes e atiro a bola de ténis para a Cão ir buscar cerca de novecentas e trinta e oito. Ela agora aprendeu a tocar-me na perna quando me faço de esquecida por isso não há como escapar à bola babada. Entre as seis e as sete da tarde arrumo as minhas coisinhas (leia-se: deixo-as fora do alcance dos dentes caninos) e dou o dia de trabalho por terminado. Tudo somado e foram oito horinhas. Mas sem colegas, sem piadas, sem gargalhadas, sem pausas para café, sem tudo aquilo a que nos habituámos e que faz parte da nossa rotina.

Se ainda desse aulas, estaria neste momento a arrancar cabelos. Imagino a pilha de nervos que professores, pais e alunos devem estar a sentir sem saberem o que vai acontecer até ao final do ano e com as candidaturas ao superior (já para não falar dos Exames Nacionais que são a dor de cabeça mor). Imagino os professores a terem de imaginar aulas à distância que efectivamente ensinem alguma coisa, pensadas e concretizadas de um dia para o outro sem qualquer período experimental. E também os imagino super elegantes da cintura para cima, mas com as calças do pijama da cintura para baixo. Essa parte é hilariante, na verdade.

Certo é que por ora é esta a nossa realidade. Resguardar-nos e proteger aqueles de quem tanto gostamos e que são, cruelmente, os mais vulneráveis, os mais atacados por este vírus bizarro que veio transformar a nossa existência num mau filme de Hollywood. No fundo, temos de aprender a viver como gatos, tal como tanto temos visto por essas redes sociais fora. Lavar as mãos, comer, dormir, mexer um bocadinho e, ao contrário deles, trabalhar em casa para lhes continuar a pagar a ração. E o nosso papel higiénico.


(Na dúvida, o Simon’s Cat ensina a viver estes dias insanos de isolamento.)



(Lady Gatica tenta substituir os meus colegas de trabalho. Mas larga mais pêlo do que eles.)



(Mas por vezes tenta sobrepor-se ao próprio trabalho. 
A ração que o meu trabalho lhe paga não lhe deve fazer falta, parece-me...)




(E depois de um dia de trabalho, vou para a cozinha espairecer e fazer coisas que NUNCA faço: doces. 
Eis umas bolachas de coco e aveia feitas hoje. Eu estava a fazer dieta, sabiam?)



(Na porta do frigorífico tenho um calendário onde vou riscando os dias de isolamento. 
Ainda não risquei o de domingo e o de hoje, mas amanhã trato disso. Sou capaz de ter tempo que chegue.)



(A foto é péssima, mas a ideia é dizer-vos que a realidade é tão má, tão estranha, tão inimaginável 
que precisei de recorrer à literatura infanto-juvenil para descansar as ideias. 
Até agora está a ser uma excelente leitura. Quando a Feira do Livro decorrer,
 lá para o final de Agosto, corram e comprem-no!)

Por hoje é isto. Talvez amanhã haja mais. Não me comprometo porque, ainda que os dias agora pareçam todos iguais, a verdade é que são mais diferentes do que nunca. Até lá, cuidem de vocês e dos que vos são queridos. Como agora vamos dizendo, à laia de mantra, vai correr tudo bem. Vamos  todos ficar bem.