sexta-feira, 8 de junho de 2012

Novidade

Ontem, graças a uma catita promoção da FNAC, trouxe este senhor para casa:


É tão gordo e não cabe em lado nenhum. Ai...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

12 000


E eis que já por cá foram feitas doze mil visitinhas. A gerência agradece. Voltem sempre que são muito bem-vindos. 

Na companhia do ornitorrinco


Eis como uma professora torna a invenção do enunciado de um teste numa actividade risível: deixa como banda sonora o filme que a SIC está a transmitir. Nada mais, nada menos do que o filme dos desenhos animados Phineas & Ferb. Estou, portanto, a pensar em complementos oblíquos, mas a ouvir os feitos gloriosos de um ornitorrinco de vida dupla que ora é simplesmente parvo, ora é agente secreto. Na última vez que olhei para a televisão, o pobre bicho estava a fazer xixi no sofá, embaraçando os donos perante o cientista mau. Brilhante!

Fogos-fátuos

Estou quase emocionada: vou fazer agora o enunciado do último teste do ano lectivo. Aleluia! Infelizmente ainda é capaz de me calhar ter de fazer os exames finais de alguns alunos numa das escolas, mas como esse trabalho ainda não é certo, começo já a atirar os meus foguetes. Isto cheira-me a fogo-fátuo, mas enfim... É que estou mesmo fartinha, pá!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sardinhas e neguinhas

O arraial a bombar aqui ao lado de casa, com sardinhas para dar e vender (principalmente vender) e a parva a fazer a maratona de correcções do final do período. Deus me dê saúde e paciência, senão não chego lá...

Ray Bradbury

Morreu o senhor que inventou uma história em que os livros ardiam. Eram objectos malditos numa sociedade de poucas liberdades e, por isso, o papel era condenado ao fogo. As personagens lutaram contra o esquecimento das grandes histórias e, na impossibilidade de manterem consigo os livros que o regime censurava, decoraram as palavras que eles continham e repetiam-nas vezes e vezes sem conta, para que nunca desaparecessem realmente. Com Ray Bradbury, autor de livros de ficção científica, passou a ser do conhecimento geral a temperatura a que arde o papel. Não gosto de tal tipo de literatura, mas gosto da ideia subjacente a este livro, o Fahrenheit 451, de 1953.

Morre o autor, mas fica a ideia: os livros hão-de resistir porque haverá sempre quem olhe por eles e os deseje mais do que os odeiam os outros, os que não percebem nada.

Outra raça estranha

Há outra raça que me enerva e, coincidência das coincidências, também anda de autocarros. Refiro-me aos idiotas que quando vêem pela janela um amigo ou uma amiga, um vizinho ou uma vizinha desatam a bater no vidro até o desgraçado que vai do lado de fora olhar ou o motorista mandar um berro. Geralmente estes tristes de entre os tristes, quando conseguem que a vítima os olhe, limitam-se a acenar um adeus. Não percebo por que razão alguém se dá a tanto trabalho e se propõe a incomodar tanta gente só para acenar um reles adeus a uma pessoa que, talvez, até veja todos os dias. Palavra de honra... Não percebem que no fim de um dia de trabalho, ouvir pancadas num vidro pela razão mais infantil do mundo causa nervos até à mais zen das pessoas? Ah raça do caraças, era extingui-la já!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pelo caminho dos tijolos amarelos

A reportagem que a TVI acabou de passar sobre o futuro sem futuro da minha geração deixou-me de coração apertado. Nenhuma mãe devia ter de despedir-se no aeroporto de uma filha que tudo fez para ser bem sucedida na vida. Nenhum pai devia ter de despedir-se de uma filha que parte para a outra ponta do mundo à procura de qualquer coisa que pode ser nada, pois vai sem garantias de que alguma coisa boa aconteça. E isso, parece-me, é bem o sintoma do desespero: quando se parte para Macau sem se saber no que isso dará, é porque de tudo o que não se sabe sobra pelo menos a certeza de uma coisa: de Portugal não sairá, não poderá sair, nada de melhor.

A minha geração não terá empregos para a vida e, para muita gente, nem empregos haverá. Estudámos que nos fartámos e recebemos isto. Gabo todos os que conseguiram partir em busca de melhor, como outrora talvez os avós tenham feito. Mas lamento muito, mesmo muito, todos os que partem de coração destroçado, deixando no cais de embarque uma família de braços caídos, sem saber como conviver com a dor de uma ausência forçada e forçosamente estúpida.

No Verão não estou

Corro o risco de me tornar repetitiva, mas reitero a ideia de que os autocarros são fontes preciosíssimas de histórias memoráveis. Mesmo. Hoje trago mais uma que me deixa a pensar que se calhar a crise não é tão grande quanto se pinta ou então que não chegou aos jovens. Talvez os pais deles tratem a crise por tu e durmam com ela na cama, mas os filhos não se metem nesses assados, com certeza.

Ora, ia no autocarro um rapaz com um ar jovem, mas que pelos vistos seria recém-licenciado, a julgar pela conversa. Encontrou-o uma amiga. Cumprimentaram-se e ela questiona:

- Vais para onde?

- Vou para o estágio.

- Estás a estagiar onde?

- Numa empresa ali ao pé da escola.

- Ai eu também quero ver se vou estagiar. - desabafa a moça. Ele responde:

- O que eu queria mêmo [leia-se, tal como na outra quixotada, "mesmo": o erro é comum, parece-me...], mêmo, mêmo era trabalho...

- Ya, eu também... - diz ela, acrescentando de seguida, - Mas no Verão não!

Ele, brilhantemente, responde:

- Ya, eu também só quero [leia-se "para a"] segunda quinzena de Agosto.

A moça pergunta:

- O teu estágio vai durar até lá, é?

Ele satisfaz-lhe a curiosidade a ela e a mim, que ia de orelha espetada:

- Não: já tenho bilhetes pós festivais [leia-se "para os festivais"].

Portanto é isto: esta gente quer muito trabalhar, só não pode é ser no Verão porque isso é uma crueldade, especialmente quando existem Zambujeiras do Mar e Paredes de Coura. Pergunto-me:

a) Como viverão os tipos que os sustentam?

b) Quem terá pago os bilhetes?

c) Em que árvore acharão eles que nasce o dinheiro? Será na jabuticabeira? É que parece-me que por cá não há disso. Eu pelo menos nunca vi nenhuma...

d) Saberão eles que no Verão é mais fácil os jovens arranjarem trabalhitos em restaurantes, lojas e afins, bons para juntar uns trocos?

e) Saberão eles que vivemos em crise e que a atitude do "ah e tal, mas no Verão não" é para lá de estúpida?

Enfim, tanto para perguntar e nenhuma resposta. É que eles saíram na paragem antes da minha e eu não os pude acompanhar porque, tolice minha, tinha de ir trabalhar...

Os livros

Os Livros

Acontece chamar-lhes irmãos,
tê-los ao colo,
afagá-los com as mãos,
abri-los de par em par,
ver o Pinóquio a rir
e o D. Quixote a sonhar.
E a Alice do outro lado
do espelho a inventar
um mundo de assombros
que dá gosto visitar.
Apetece chamar-lhes irmãos
e deixar brilhar os olhos
nas páginas das suas mãos.

José Jorge Letria, Pela Casa Fora, 1997.

domingo, 3 de junho de 2012

Alfarrabistinhas

Uma voltinha pela feira et voilá....


O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, Eurídice, de José Lins do Rego e Música ao Longe, de Érico Veríssimo, usadinhos, vieram morar cá para casa.

Partos difíceis

Adoro o Memorial do Convento. Tentei lê-lo mais ou menos aos doze anos, numa edição que a minha irmã tinha cá em casa. Cheguei ali ao quarto capítulo e acabei por desistir porque, realmente, não tinha ainda idade para alcançar tudo o que para ali ia e era, convenhamos, muita coisa. No Memorial há tantos pormenores a que dar atenção e exige-se um conhecimento do mundo e das coisas que aos doze anos não se tem. Voltei a tentar já na faculdade, por volta dos dezanove, e li-o de um fôlego. O Memorial do Convento foi uma descoberta encantadora e o início da minha paixão pela obra do José Saramago.

No ano passado tive de ensinar o Memorial pela primeira vez e digo: a tarefa é hercúlea. Os alunos embirram com aquilo, não têm os conhecimentos históricos mínimos para perceber o que por ali se passa e estão, em boa parte, habituados a papa mastigada, coisa que com aquele livro não sucede. Isso aliado à minha inexperiência fez com que no ano passado as coisas não tivessem corrido da melhor maneira. Ainda assim, a maioria dos alunos leu efectivamente o livro  e compreendeu-o nos seus aspectos mais importantes. Os que se recusaram a participar numa actividade chata (palavras deles) como era a leitura do Memorial tiveram o final de ano merecido.

Já no ano passado um colega meu de Matemática, ouvindo os meus queixumes sobre a resistência e os preconceitos de alguns miúdos relativamente ao Memorial do Convento, perguntou-me por que raio não arranjava eu aquilo em audiobook para lhes facilitar a vida. Assim conheceriam a obra e não teriam de fazer o esforço que tanto os apoquentava e que era, no fundo, ler. Virei gato assanhado. Como? Perdão? Audiobook? Então o único homem que ganhou um Nobel para a língua portuguesa escreve um monumento daqueles, aplaudido nos cinco cantos da nossa bolinha azul, e eu vou minorizar-lhes as supostas dores com um audiobook?! Mas é que nem morta!

Este ano os meninos são ainda mais preguiçosos: nas aulas percebem tudo, mas em casa não lêem o que têm a ler e limitam-se a ficar à espera de que eu, depois, explique tudo tão bem explicadinho que a coisa se faça sem o esforço da leitura integral. Asneira. No teste pus-lhes questões de verificação de leitura (coisa que eles sabiam que eu ia fazer) e foi bonito observar a quantidade de gente que despachou o livro numa semana apenas por medo do teste. Também foi engraçado perceber que muitos apenas sugaram livros de resumos que, invariavelmente, deixam de fora os pormenores. Ora foi precisamente sobre os pormenores que incidiram as questões. Alguns até suavam.

Novamente conversando com o mesmo professor de Matemática recebo como conselho a ideia de pôr os miúdos a ouvir aquilo em audiobook porque assim conhecem a obra enquanto, quem sabe, estudam Matemática. Dizia-me ele que já no ano anterior se tinha perguntado por que razão não fazia eu isso, sabendo que eles no final do ano têm tanto que estudar para outras disciplinas. No fundo, eu estava a dificultar-lhes a vida ao obrigá-los, mesmo no final do ano, a lerem um texto enorme e denso quando as suas atenções devem estar voltadas para aquilo que os vai levar ao ensino superior: os exames. Abespinhei-me novamente. Como? Então e o exame de Português não conta? Então e o Memorial do Convento não é conteúdo passível de sair em exame? Então e esta gente não tem já idade para aguentar isto e muito mais? Os que leram chegaram lá, correcto? Então aos outros também não cai bracinho nenhum por lerem uma das melhores obras que a língua portuguesa já deu à luz! Respondi-lhe que não fazia papa a ninguém e que se o Saramago tinha ESCRITO o texto e não DITADO o seu conteúdo para um gravador, então eles teriam de LER primeiramente e, só depois, se lhes apetecesse, ouvi-lo. Até porque, aqui entre nós, dada a densidade do texto do Memorial, aquilo em audiobook deve ser mil vezes mais difícil de compreender do que no canónico papel.

Bom, mas este texto chama-se «parto difícil» por uma razão de que ainda não falei. Sim, tudo isto foi o preâmbulo. O Memorial tem, nas últimas semanas, proporcionado partos difíceis na medida em que a preparação de uma aula sobre tal obra leva o triplo do tempo que me demora a preparar uma sobre, por exemplo, Os Lusíadas. São tantos os pormenores, são tantos os excertos, são tantos os símbolos que é preciso não deixar escapar nada. São, por isso, horas a folhear o livro e a escolher os parágrafos onde vamos iniciar e terminar a leitura. São horas e imaginar que perguntas se podem fazer sobre tal aspecto. São tempos infinitos até montar um puzzle que no fim se pareça com uma aula que faça sentido naquelas cabeças. Faltam-me duas aulas para terminar o Memorial e estou esgotada. Amo a obra, mas fico extenuada por tentar passar esse amor a algumas gentes surdas (muito semelhantes àquelas para quem o Camões dizia estar farto de cantar). O acolhimento dos miúdos, passado o susto inicial, até tem sido bom, embora eu saiba que muitos ainda não leram o livro. Já lhes disse que nisso sou como Pilatos: lavo as minhas mãos. Já ando a mandar ler desde o Natal: se a quinze dias do Exame Nacional ainda não leram uma das obras que pode ser alvo que questionário, problema o deles, que o meu exame foi feito em 2003 e já não volto a fazer outro.

Já ouvi vozes contra a presença do Memorial do Convento no Programa de Português do 12.º ano. Evocam razões como o grau de dificuldade, a pouca ligação aos restantes textos lidos no resto do ano (este argumento só pode vir de gente muito ignorante porque se há coisa que o Memorial tem é intertextualidade com fartura, não só com Os Lusíadas, mas também com a Mensagem, e a própria temática da opressão é, em alguns pontos, comum à do Felizmente Há Luar!), entre outras preciosidades. Eu acho que o Memorial do Convento está muito bem onde está e nós, professores e alunos, é que temos de saber lidar com ele. É um trabalho hercúleo, é verdade, mas no final de contas bem gostoso e perfeito para concluir um ano muito cansativo.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Chegaram!


Chegaram estes! Yeeeeeeey! E agora arrumo-os onde? Não tenho mais espaço. Ai ai ai...

Lições

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Criança e por isso passei a tarde numa festa para os mais pequenos. Havia várias actividades e paparocas boas (só provei um pedacinho de pizza e era boa). Mas aquilo que me faz vir aqui «quixotar-me» não é a festa, nem as guloseimas. Venho, sim, contar-vos a atitude de uma aluna minha que em determinada altura se sentou ao meu lado. Sobre uma mesa havia uns novelos de tecido de diferentes cores e as professoras com talento para isso (não eu) estavam a fazer pequenos objectos descorativos com aqueles materiais. Ora, aquela aluna senta-se comigo e ensina-me um tipo de entrançado que eu não conhecia e que me deixou fascinada a aprender com ela. Ela lá me ia explicando, enquanto com muita destreza mexia as várias partes do tecido. Propus-lhe que fizesse daquilo uma pulseira, acrescentando-lhe uma missanga. Ajudei-a a fazê-la passar pelo tecido e disse-lhe que agora se fechasse bem com um nó, ficaria com uma bela pulseira. Pus o tecido entrançado em volta do pulso dela, mas ela não quis.

- Ponha no seu.

Pus e ela terminou o trabalho. Quando a ia tirar para lha dar, dando-lhe os parabéns pelo belo trabalho, ela diz-me:

- É para si: fique com ela.

Aceitei. Não porque me veja a usá-la muitas vezes, não porque seja um acessório de fazer inveja, mas porque foi um presente feito com carinho para mim, por uma aluna que me tem mimado muito. Fizemos a  pulseira em conjunto: eu dando uma ideia, ela dando outra, mas aquele trabalho é dela e ela, uma miúda de doze ou treze anos, deu-ma a mim sem hesitação alguma. Vim para casa trazendo-a no pulso e acho que ainda a voltarei a usar. No Dia Mundial da Criança a criança é que me deu um presente a mim.


Vanessa

Cada vez mais assino por baixo a frase da Alice Vieira que diz que os autocarros são fontes de histórias. E é cada uma melhor do que a outra.

Ora, hoje ia um rapagão ao telemóvel e, muito sinceramente, a conversa dele não era mais do que ruído de fundo, de tão entretidazinha que ia a ler o meu livro. Contudo, talvez pelo tom de voz ligeiramente alterado, acabei por prestar atenção às suas últimas frases. Foram mais ou menos assim:

- Então fica assim. Mas olha: se tu não estiveres no Campo Grande às cinco horas, podes mêmo [leia-se «mesmo»], mêmo, mêmo, mêmo, mêmo ter a a certeza de que acabou tudo, Vanessa. 'Tô-te a avisar, Vanessa. Vê lá...

Fiquei preocupada com a pobre Vanessa, coitadinha. No fundo, a sua vida amorosa dependia, naquele momento, de uma série de factores externos tais como: os horários dos transportes de Lisboa, o trânsito das artérias que levam a uma zona tão central quanto o Campo Grande, enfim, avistava-se um problema. Ainda perdi três ou quatro minutos de vida a pensar na desgraçada da Vanessa, lutadora por um amor tão pontual e picuinhas com as horas que faz da exatidão horária o ponteiro que decide, para o bem e para o mal, o final de uma relação. Mas depois voltei ao meu livro e deixei-me disso ao recordar um provérbio latino que aprendi no meu primeiro semestre de Latim e que dizia «Asinus asinum fricat», que é o mesmo que «Burro esfrega burro». Ou seja: se o tipo, já bem longe da adolescência, é manifestamete parvo (a julgar pela conversa), a tipa também não o é menos ao não o mandar logo para aquela parte: estão, pois, bem um para o outro.