terça-feira, 15 de maio de 2012

Violência peluda

Hoje lia uma composição de um aluno do 3.º ciclo em que ele dizia que gostava de animais, que já tinha tido um cão e um canário que tinham morrido, e nhó nhó nhó nhó. Lá pensava eu que era mais uma composição igual às outras: umas linhas sobre um tema muito infantil com o objectivo de apresentar serviço sem ter com isso grande trabalho.

Contudo, as últimas duas linhas justificam a quixotada. O menino que passa o tempo a falar dos seus animais e do quanto gostava deles, sem que fosse viciado, conclui dizendo que «Para além disso não tive mais nada, apesar de não me importar de ter um coelho para lhe dar umas chapaditas.» Oi? Perdão? Chapaditas num coelho? Mas é suposto?

E eis como uma composição infantil se tornou numa pérola inesquecível, capaz de alegrar o meu dia.


sábado, 12 de maio de 2012

Despedidas

Já aqui disse que odeio o programa da SIC «Alta Definição», mas hoje ele é o ponto de partida para uma quixotada que me andava debaixo da língua já há algum tempo. Tenho neste momento a televisão ligada porque gosto de trabalhar com algum ruído de fundo e acabei por ouvir uma frase do Carlos do Carmo pronunciada nesse mesmo programa. Disse ele: «O que perdi de amigos nestes últimos anos é algo de assustador.».

Infelizmente tenho de dizer que partilho com o fadista esse mesmo problema. O que perdi de amigos desde há uns dez anos para cá chega a ser penoso. Na realidade, depois destes anos todos é-me mais fácil contar os que ficaram, que sempre vão sendo menos. A alguns perdoo a deserção porque a mereci, a outros nunca perdoarei porque fugiram na pior altura, porque foram reles, traidores e idiotas. Deixei ir todos: em alguns casos ainda me esforcei por alterar a situação, mas não obtive grandes resultados. Não fez mal: aprendi a viver com poucos amigos, embora bons, e acabei por compreender que eu sou a minha melhor amiga. Nunca me fugirei, nunca me trairei, nunca me darei um chuto no real rabo, até porque é anatomicamente impossível.

A última amiga que foi à vidinha dela foi minha colega de faculdade. Eu gostava muito dela e ela, pensava eu, gostava muito de mim. Rimo-nos que nem loucas juntas, inventámos personagens, escrevemos disparates, passámos horas em gelados e conversas. Um dia fui acusada de não acreditar nela, ou melhor, nas capacidades dela. Alguém o teria dito, alguém se achou no direito de o fazer e eu vi-me a receber gritos e acusações de uma pessoa em quem sempre acreditei. Recebi pedidos de desculpas. Sabia que poderia tentar perdoar, contudo conhecia-me o suficiente para saber que não seria capaz de esquecer. Enfim, fiz o esforço. Há algumas semanas parei para fazer o balanço da situação e resolvi desistir. Sim, digo-o aqui oficialmente, desisto. Não posso e não quero esperar para retomar fios que não fui eu que quebrei; não posso e não quero reatar laços com quem me tratou mal e me acusou dos males do mundo, tendo depois acolhido no quentinho do coração aquele que envenenou tudo. Não posso e não quero. Tentei, esforcei-me, procurei convencer-me de que era possível, mas afinal não é. Há hipocrisias que me enojam e para mim esse é o fim do caminho. E sobre isso são as minhas últimas palavras.

Amigos tenho poucos e sei por que é que assim é. Sei por que é que cada um foi à sua vida e, concorde ou discorde, aceito. Não sou maravilhosa, não sou pessoa de apaparicar ninguém, não sorrio a toda a gente, não tenho a simpatia como a minha maior qualidade; sou mordaz, sarcástica e irónica. Gosta de mim quem se esforça por me conhecer: quem não tenta odeia-me logo. Aprendi, porque teve de ser, a viver comigo própria, a gostar  de ir às compras sozinha, a apreciar o sol na esplanada enquanto, sozinha, folheio uma revista. Pode parecer incrível para alguns, mas adoro esses momentos. Gosto, também, de estar com amigos, com os que ficaram, com os que me fazem rir, com os que gostam de panquecas e gelados e massas cheias de queijo parmesão. Mas já não morro, como noutros tempos, se todos desaparecem durante uns tempos. Se alguma coisa boa retirei de dez anos de amigos que somem porque assim o querem é o facto de agora saber estar e gostar de estar sozinha. O silêncio já não me incomoda e eu sou a minha melhor amiga. Assim é que tem de ser.

Esta quixotada havia de nascer um dia. Parece que esperava apenas um gatilho que a disparasse e, enfim, cá está ela. Aos que ficaram digo que gosto muito deles e que serei, enquanto por cá andar, a melhor amiga que souber ser. Aos que foram que sejam felizes sem mim. Não lhes faço falta: sou facilmente substituível.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

«Que um fraco rei faz fraca a forte gente»

No manual de Português que uso com o 12.º ano há uma página onde foram transcritas as reacções de várias personalidades ao Prémio Nobel do nosso Saramago. A maioria são mensagens de alegria e contentamento pelo reconhecimento a um autor português. Contudo, há uma que destoa. O bom do D. Duarte terá dito que Saramago «É um autor de leitura difícil e pesada, que insulta abertamente os sentimentos cristãos. Duvido que os membros do júri tenham lido os seus livros. É como se tivéssemos ganho o campeonato de futebol. É bom mas não tem muito conteúdo.»

Haveria todo um mundo de coisas engraçadas a dizer sobre tais palavras supostamente proferidas pelo nosso eterno herdeiro da coroa. Todavia, consigo ser sucinta e suficientemente eficaz ao dizer que é maravilhoso ver que o mesmo país foi capaz de parir duas figuras tão diferentes: por um lado, o génio literário de que todos nos devemos orgulhar, independentemente dos preconceitos que sobre a sua obra existem. Por outro lado, o outro. Sim, isso apenas: o outro.

Notita muito venenosa da autora: Gostava de andar por cá em 2112 para ver de quem se falará e quem será recordado: se o bom do homem que tinha uma escrita pesada e difícil ou se o senhor que não o conseguia ler...

Bernardo Sassetti (1970 - 2012)

Estou chocada com o que aconteceu ao Bernardo Sassetti... Caramba, que morte prematura e tonta. Perdemos um enorme talento e só podemos lamentar que, mais uma vez, um jovem cheio de qualidades, capaz de criar magia com os dedos nas teclas do piano, tenha desaparecido e deixado em silêncio este nosso ruidoso mundo.


Voltas pela Feira VII

Na Quarta-Feira fui à feirinha para despedir-me dela (snif snif) e trouxe de lá mais dois livritos da senhora dona Maria Filomena Mónica, comprados nos alfarrabistas. Os Cantos e Confissões de Uma Liberal são, pois, os novos habitantes aqui do palácio. Sejam bem-vindos, fofinhos.



Nota: As fotografias foram retiradas da página da Wook.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os sinais da ignorância

Hoje ouvi, no autocarro, o discurso mais estúpido da minha vida. Um senhor ia indignadíssimo porque o condutor do autocarro que o trouxera até ali, onde àquela hora apanhava o transporte de volta para casa, praguejava porque, e citarei o génio, «o parvalhão do motorista parou em todos os sinais vermelhos que apanhou no caminho: não soube passar nem um!». Sim, minha gente, há pessoas assim, não são seres míticos, como os unicórnios. Mas o melhor é que o senhor queria que concordassem com ele e, por isso, lá ia desfiando o rosário das enormidades para a senhora que teve o azar de se sentar ao seu lado: «Já viu? Parou nos semáforos todos, nem tentou passar nenhum! Há gajos que deviam pagar à Carris para conduzirem os autocarros!». A desgraçada lá ia resmungando um apagado «pois», de vez em quando. Aposto que, na realidade, amaldiçoava a hora em que decidira sentar-se naquele lugar, mesmo ao lado do tipo suicida que queria ver o motorista a praticar contra-ordenações a cada semáforo novo.

Nem sei como ainda me espanto. Já devia estar suficientemente calejada em disparates similares de gente que não conhece a máxima, que gosto de seguir, e que adverte «Se não tens nada de bom para dizer, cala-te.». O silêncio é uma virtude e cada vez me convenço mais de que essa é uma grande verdade esquecida...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O saber não ocupa lugar

«Repita-se que aprender e pensar é trabalhoso mas interessante, e que estas duas actividades propiciam incomensuráveis alegrias ao ser humano.»

Maria Lúcia Lepecki, "A vida íntima das palavras",
Revista Super Interessante, n.º 99, Julho de 2006.


Fui, em 2006/2007, aluna da Prof.ª Dr.ª Maria Lúcia Lepecki na disciplina de Teoria da Literatura I e posso dizer que a reconheço nestas palavras que, por essa mesma altura, publicou. Ela era, e uso este tempo verbal porque, infelizmente, já não se encontra entre nós, uma apaixonada pela aprendizagem e pelo pensamento. Mais: ela irradiava esse gosto e nós, sentados diante dela, éramos inevitavelmente envolvidos neste gosto. Não foi com esta professora que aprendi a esmiuçar a sério um texto literário, mas ela ajudou a consolidar esse conhecimento. Era da velha escola que parava para olhar para todas as palavras que o escritor desenhara no papel e que na sua junção via um sentido. Foi num teste dela que li o primeiro excerto de Saramago depois da tentativa falhada de, aos doze ou treze anos, tentar ler o Memorial do Convento. Foi por causa desse teste, coroado com um dezoito numa cadeira tida como dificílima, que comecei a comprar a obra do nosso Nobel.
A professora Maria Lúcia Lepecki faleceu há relativamente pouco tempo e levou consigo um mundo de conhecimentos que não posso sequer tentar imaginar. Mas se consigo levou muito, a verdade é que também é enorme o legado que nos deixou. Ao ler esta frase, com que topei num dos manuais escolares em uso no próximo ano lectivo, senti muita pena por ter passado tão depressa o tempo em que partilhou connosco o seu saber, mas fiquei, também, satisfeita por ler duas linhas cheias de um significado que não poucas vezes se esquece. Olho para alguns alunos e percebo que não retiram qualquer prazer do processo de aprendizagem e que, pior, não percebem para que é que têm de aprender.

Contava-me, no ano passado, um colega que um aluno lhe perguntara porque tinha de aprender Latim se não queria ser professor dessa disciplina. Ficámos chocados: alunos como este ainda não perceberam que "o saber não ocupa lugar" e que nos enriquece, tenha ou não posteriores aplicações. No caso do Latim até existe aplicação (por exemplo, ajuda a compreender a gramática da nossa língua), mas ainda que não tivesse, não deveriam os miúdos ficar satisfeitos por conhecerem algo que muitos não conhecem?

Creio que boa parte dos problemas de insucesso escolar se devem, precisamente, a esta mentalidade desmotivada dos alunos que só querem aprender o que lhes dá jeito e gozo de forma imediata e que não se divertem a apreender novos conhecimentos. Dizia-me um professor no primeiro ano da faculdade que "sabemos de cor aquilo de que gostamos, aquilo que fica no coração" e que a palavra "cor", que tão frequentemente utilizamos, nasce da palavra latina para "coração". Nem tudo o que aprendemos fica no coração, é certo. Não guardo grande amor às equações e às expressões numéricas, mas aprendi-as. Esforcei-me e ainda que hoje não as saiba resolver, pelo menos posso dizer que em tempos as aprendi. Alguns conhecimentos foram uma tortura: eu, como todos, não fui talhada para todas as áreas, embora gostasse de o ser. Ainda assim, mantive o gosto pela aprendizagem e sei que me torno muito mais rica a cada novo livro, a cada novo artigo que leio. É um processo trabalhoso, como disse a professora Maria Lúcia Lepecki, mas gratificante. Sei coisas que talvez nunca utilizarei, mas e depois? Sei-as e é o que importa. 

domingo, 6 de maio de 2012

Gargantas

Andava toda satisfeita porque desde a varicela do ano passado, julgo eu, que não adoecia. Já me achava a super-mulher, mas lixei-me, «com o perdão da real palavra», como diria o nosso Saramago. Ontem lá me começou a vir uma dor de garganta chata e a noite, embora sem outros sintomas, foi aborrecidazinha. Não tenho febre e no corpo só moleza, nenhuma dor. Ainda assim, este Domingo de sol foi passado a jiboiar na cama, acompanhada por duas fofas almofadas e o Bilhete de Identidade, da Maria Filomena Mónica (que levou um belo avanço). A esta hora e uma carrada de «Strepsils» depois, ainda sinto qualquer coisa na garganta, mas parece-me que não vai desembocar em nada de mais chato. O pior é que para trabalhar preciso de ter uma garganta impecável e cheira-me que tal não vai suceder. Pergunto-me como raio serão as aulas de amanhã e não consigo imaginar...

Voltas pela Feira VI

Não, desta vez não fui eu quem se passeou pela Feira do Livro. O meu moço, muito simpaticamente e a quem, desde já, agradeço, ofereceu-se para ir lá comprar-me um livro de que vou precisar em breve e que estava como livro do dia hoje. Claro que fazer uma viagem só por um livro era um desperdício (cof cof) e por isso pedi-lhe para trazer-me mais dois... E assim o António Barreto e o Orhan Pamuk vieram morar cá para casa, salvo seja.


sábado, 5 de maio de 2012

O "selinho" inspirado


Pois que a caríssima colega de bloguices Miss Pipeta resolveu ofertar ao blogue «As Minhas Quixotadas» um "selinho" que o rotula como inspirador. Fico muito satisfeita com a distinção, até porque sei que nos últimos tempos este estaminé tem andado muito mortiço. O trabalho é muito e o cansaço às vezes turva-me as ideias ao ponto de me deixar incapaz de juntar um par de frases num texto catita. Ainda assim, sei que há quem venha cá (como a Miss Pipeta) à procura das últimas quixotadas. A esses agradeço e desculpo-me pelas poucas novidades que têm recebido: mais um mesinho e a coisa melhora.

Ora, o "selinho" traz com ele algumas obrigações. Nada que não se possa fazer, tendo em conta que alguém se lembrou deste humilde blogue para o distinguir com um pequeno presentinho. É uma espécie de agradecimento e de retribuição, que é coisa que fica sempre bem. Assim sendo, cabe-me:

- Escolher cinco blogues com menos de duzentos seguidores para atribuir este "selinho";
- Mostrar o meu agradecimento a quem me atribuiu o "selinho" fazendo uma ligação para o seu blogue (feito!);
- Colocar o "selo" no blogue, a lista de blogues a quem escolho atribui-lo e deixar um comentário nessas páginas para que saibam do que se passa;
- Partilhar cinco factos aleatórios sobre mim que ainda não sejam do conhecimento geral (esta será difícil, parece-me...).

Deixo, portanto, a lista de blogues a quem atribuo o "selinho" porque me inspiram e me encantam:


E os cinco factos aleatórios extremamente interessantes sobre a minha pessoa são:

- Adoro o cheiro das favas à portuguesa, mas nunca experimentei tal prato porque me assusta;
- Bebo chá verde como se o mundo fosse acabar amanhã;
- Sou incapaz de ver o «Eduardo Mãos de Tesoura» sem desatar num pranto;
- O meu ursinho de infância chama-se Crustáceo Júnior e ainda o tenho;
- Já ganhei um prémio no programa «A Tarde é Sua» da Senhora Dona Fátima Lopes (acho que adorarão este facto...).

Mousse de chocolate

Matava por uma mousse de chocolate. A sério: tornava-me numa besta sanguinária se soubesse que teria, de forma imediata, direito a uma tacinha com a preciosa sobremesa. Portanto, minha gente, se estão em posse de mousse de chocolate, escondam-se, fujam, devorem-na depressa ou acabarão por sentir o peso da minha gula e da minha inveja!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Horários loucos e crianças fartas

Lembro-me de que quando andava na escola, na primária e depois também, terminava as aulas e vinha para casa. Lanchava uma sandes e uma caneca de leite com chocolate e a seguir ia fazer os trabalhos de casa. Cumpridas tais tarefas, o resto do dia era meu. Podia brincar ou ler até à hora de jantar e, mesmo depois deste, ainda podia ver alguma televisão até à hora de ir dormir.

Podia escolher a que queria brincar, que brinquedos usaria, que desenhos animados veria. A minha missão ficara cumprida na escola, o meu dia de «trabalho» havia chegado ao fim. O resto do dia era meu. Nunca tive actividades extracurriculares, nunca quis fazer nenhum desporto (sou alérgica a tal coisa) e portanto tinha tempo para tudo.

Escrevo isto porque hoje percebo que esse modo de vida tão infantil tem os dias contados, isto para não dizer já que morreu mesmo. Os miúdos têm, para além da escola, três, quatro ou até cinco actividades diferentes que chegam ao cúmulo de lhes ocupar os fins-de-semana. Ouço os meus alunos mais novos falarem no que costumam fazer e fico louca ao pensar que o seu número de horas de actividade não é muito diferente do meu. É uma insanidade que terá, sabe Deus, que resultados nestes miúdos. Não deixo de ficar de boca aberta quando fico a saber que o único momento de descanso que uma aluna de dez anos tem durante uma semana inteira acontece ao Domingo à tarde. Será isto normal? Far-lhe-á bem? Haverá algum sentido em estarmos constantemente a colocar os miúdos em contextos de aprendizagem (seja no Inglês, que muitos frequentam como actividade extracurricular, seja no piano, seja no ténis) e não lhes dar nenhum momento de sossego além das obrigatórias oito horas de sono diárias?

Esta ânsia em manter os miúdos ocupados durante vinte e quatro horas é fruto da vida maluca que vamos levando: os pais têm um dia preenchido e não têm forma de tirar os filhos da escola a meio da tarde, quando terminam as aulas. Resultado: vêem-se obrigados a ocupar o tempo dos miúdos de modo a poderem cumprir aquilo que têm a cumprir nos seus próprios empregos. Mas note-se que isto não explica o facto de alguns pais arranjarem actividades extracurriculares para ocupar os Sábados e os Domingos dos filhos...

Não defendo isto. Aliás, como já perceberam, é coisa que me custa a compreender. Os miúdos, que tantas vezes são tratados como bebés, não podem ter horários próprios de adultos. Os miúdos não deviam poder responder que não vão poder escrever um texto porque vão ter piano e natação no mesmo dia. Os miúdos também aprendem quando brincam e, mesmo que a sua vontade seja estar de papo para o ar no sofá, também devem poder escolher o que vão fazer a seguir. Protegem-se tanto as crianças, passa-se-lhes tanto a mão por cima e, afinal, neste ponto ninguém toca. Mais violenta do que a carga horária na escola, que é obrigatória, é a carga horária de uma escola paralela para meninos e meninas futuramente muito prendados que os pais, no fim de contas, só escolhem porque querem.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Manuais ao quilo

Nas últimas três ou quatro semanas recebi aproximadamente dezassete caixas com os novos manuais escolares para o próximo ano lectivo. Já faço uma ideia daqueles que vou adoptar, mas as editoras enviam sempre mais e mais e mais (curiosamente, aqueles que mais quero ver são os que nunca mais chegam...). Ora, não sei se vocês sabem, mas um manual nunca é só um manual. Cada vez que recebo na escola ou em casa uma caixa nova vêm de lá uns bons cinco quilos em papel, divididos pelo manual propriamente dito e pela parafernália que o acompanha: caderno de actividades, caderno do professor, guiões de leitura, caderno de planificações, um cd e um cd-rom. Em alguns casos até vem um dossiê A4. Resultado: não há prateleiras que cheguem nem que resistam a tanto peso. Nem há capacidade para analisar isto tudo. Vejo manuais fantásticos, muito bem pensados e feitos. Apetece voltar a estudar só para poder folhear e utilizar aquelas páginas deliciosas com alguns textos que me são desconhecidos. Mas assim, com tanta oferta, acabo por não conseguir olhar para todos eles com a atenção que merecem, o que lamento.

Tenho de reconhecer aqui o trabalho das equipas editoriais que se esfalfam para produzirem bons materiais (que sejam, ao mesmo tempo, vendáveis, porque isto é, acima de tudo, um negócio enorme). Quem trabalha com estas coisas diariamente percebe que há muito esforço na sua produção e os professores sabem bem que um bom manual lhes facilita imenso a vida, ao passo que um mau manual é uma cruz que se carrega durante alguns anos. Ainda assim não consigo deixar de me perguntar se será necessário tanto papel, tanta coisa, tantos cadernos, se não chegaria o livro e o caderno de exercícios. Quantos professores utilizarão, efectivamente, o caderno de planificações, que em alguns casos passa da centena de páginas? Gosto de receber manuais novos e percebo que haja um empenho enorme por parte das editoras no negócio que eles constituem, mas a determinada altura pergunto-me se não é um exagero. Receber dezassete manuais respeitantes a apenas dois níveis de ensino parece-me uma loucura. Desses só posso escolher um por nível, por isso sobram muitos preteridos. Enfim, faz parte do negócio e as editoras sabem disso. A mim resta-me arrumar na prateleira (sabe Deus qual, que já não há nenhuma livre) os que não escolherei e consultá-los sempre que necessário. Fora isso, só posso continuar à espera daqueles que efectivamente me vão fazendo mais falta e que tardam que se farta. É típico.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

De diplomas e úteros

Palavra de honra que ainda mando alguém para aquelas partes se volto a ter um diálogo deste tipo:

- Então P., erraste esta questão do trabalho de casa. Tu sabes isto.

- Pois sei, professora, mas a minha mãe disse para eu fazer desta maneira.

- Pois, P., mas está errado.

Eu não devo saber, mas, a seguir à expulsão da placenta no momento do parto, deve ser expelido pelo canal vaginal um diploma que abrange as Humanidades (todas as línguas conhecidas), as Ciências (todas, até as desconhecidas), os Lavores (deve sair um manual de bordados e de rendas de bilros) e ainda, como bónus, o Livro de Pantagruel porque mãe que é mãe cozinha que é uma maravilha. É que a julgar pelos disparates que vou ouvindo, as mães é que sabem tudo e as professoras só vão às reuniões lançar as notas (que já só falta serem as mães a dar). O problema surge quando os miúdos erram porque «a mãe disse que era assim» e nós acabamos a ter de dizer aos alunos que as mães se enganaram e que, afinal, é de outra maneira.

Para concluir, se isto de parir diplomas, livros de culinária e afins se verificar, deixo aqui o meu pedido específico à reitoria que funcionar no meu útero: não quero ter nenhum pónei e o diploma não precisa de vir na caixa de metal porque isso faz demasiado volume e não convém...

Voltas pela Feira V

Ora, ontem foi dia de voltar à Feira do Livro de Lisboa. Desta vez fui com uma amiga que ia inaugurar-se nas andanças feirescas deste ano. Como sou uma fraca que não consegue estar naquele espaço sem trazer umas coisinhas para casa, aqui fica o fruto de um 1.º de Maio numa feira que abarrotava pelas costuras.


Ainda bem que lá fui porque assim encontrei o Bilhete de Identidade, da senhora dona Maria Filomena Mónica, que julgava não vir a ver tão cedo. Além disso, como se pode ver ao lado do livro da toupeira em cima de quem alguém se descuidou (um presente que comprei para os meus futuros filhos: adoro o livro!), trouxe também uma daquelas lampadazinhas que ajudam a iluminar as páginas dos livros. É uma picuinhice, je sais, mas no que toca a livros sou picuinhíssima, até enjoa.

Nota: Mais picuinhas que eu só mesmo o senhor que na Relógio d'Água pediu um outro exemplar de um volume qualquer que o funcionário da editora lhe estendia porque aquele estava «amarelado» e ele espirra quando toca em livros que não estejam branquinhos...