segunda-feira, 30 de abril de 2012

Orações coordenadas disjuntivas

Hoje tive um daqueles momentos em que, se não me seguro, morro a rir a meio de uma aula. Estava eu a explicar as orações coordenadas disjuntivas a alguns dos meus mais novos quando digo:

- São as orações que as mães utilizam quando dizem «ou comes ou levas!». Dão-nos duas alternativas e, claro, numa situação destas mais vale comer porque ninguém quer apanhar.

Responde-me uma aluna muito magrinha:

- Entre ter de comer e levar, prefiro levar.

Rio-me e digo-lhe:

- Bolas, preferes ficar com o rabo a arder só para não teres de comer?

Ela acena que sim, enquanto uma colega acrescenta, como quem tem uma grande ideia:

- Então, se ficar assim põe «Canesten»!

E eis que o mais espirituoso dos alunos entra em campo e corrige:

- Ai L., és mesmo burra: «Canesten» é para o pipi!

E pronto, foi isto. Não há nada como ver que as orações coordenadas disjuntivas alegram os alunos.

domingo, 29 de abril de 2012

A Noite do Oráculo


Comecei hoje este. Um tipo meio abrasado da cabeça começa a escrever um livro sobre um homem que muda drasticamente de vida após quase levar com a cabeça de uma gárgula de pedra, daquelas que enfeitam os edifícios, na tola. Percebe que não morreu por uma unha negra e que tal acontecimento se calhar é sinal de que devia ser feliz e que lhe está a ser dada uma nova oportunidade. Portanto, partindo de tal pensamento, dali segue para o aeroporto e compra um bilhete só de ida para longe da mulher. Eu se fosse a dita ficava pior do que um urso, mas ainda não sei se ela lhe vai deitar a unha ou não. Ora, note-se que isto é só a história que o narrador (que é, supostamente, escritor com livros publicados) está a escrever. Depois há a desenvolver-se, em paralelo, a história desse mesmo narrador que é, também, a personagem principal.

Vamos ver no que dá esta embrulhada.

Maria Filomena Mónica



Gosto muito de ouvir e ler as palavras da Maria Filomena Mónica. Gosto da sua maneira de pensar e da forma como em três ou quatro linhas esquematiza os nossos problemas e as suas origens. Percebo-a como gostaria de ser: cultíssima e sem papas na língua (já para não falar do meu desejo secreto de chegar à idade que tem hoje com o bom aspecto que lhe conhecemos). Há uns tempos ouvi-a falar da malfadada figura do Zé Povinho e só me faltou aplaudi-la de pé quando disse que era tristíssimo que nos sentíssemos representados por uma figura que «faz manguitos ao patrão quando vira as costas porque não têm coragem de os enfrentar de frente». Ouvi-la falar do nosso país é, enfim, um prazer, ainda que o retrato em que nos pinta não seja, de todo, o mais bonito.

A Maria Filomena Mónica e o António Barreto são duas figuras que, pelo modo como nos analisam, se tornam fascinantes e, assim, ouvi-las enriquece-nos. Podem ter, por vezes, ideias menos felizes, mas isso todos temos. Numa rápida pesquisa pela internet percebi que a investigadora do ICS não cai nas boas graças de algumas pessoas que a vêem como uma snob com a mania de que é britânica. Enfim, são opiniões. A mim parece-me uma mulher admirável que diz o que têm a dizer e que tem uma cultura invejável.

Tendo isto em consideração, faz-me alguma confusão que a maior parte dos seus livros não estejam disponíveis. Comprei dois dela na Feira do Livro na semana passada, mas não eram aqueles que mais queria. Os que gostava mesmo de ter aparecem em todo o lado como estando esgotados e nem em alfarrabistas consigo dar com eles! Por isso, hoje contentei-me com a entrevista que saiu no jornal I deste fim-de-semana e com partes do livro Passaporte, um dos que trouxe da Feira do Livro. Nele, Maria Filomena Mónica fala de algumas viagens que fez. Li o que escreveu sobre o islão ibérico, sobre Lisboa, sobre Oxford (onde estudou... que inveja!) e sobre uma Inglaterra apresentada do ponto de vista literário. Aqui, a autora olha para alguns pontos desse país que estão ligados a autores como Dickens, Emily Brontë, Thomas Hardy e Robert Louis Stevenson. O quinto ponto desse texto fala sobre um espaço que me parece bem próximo da minha ideia de paraíso na terra: um local meio mortiço a que alguém resolveu dar vida fazendo ali uma pequena «cidade de alfarrabistas». Segundo o que ela nos diz, ali encontra-se tudo: mesmo aquelas raridades bibliográficas que já não se vêem em nenhum outro lugar. Neste texto, encontramos um amor aos livros que me faz gostar ainda mais desta senhora. E como este é um sentimento que pede partilha, deixo-vos dois parágrafos que me fizeram sorrir por me terem lembrado de mim, dos meus gostos e insónias em vésperas de dias que me aqueciam o coração.

«Há tempos perguntaram-me se não gostaria de conhecer a Índia. Para espanto do interlocutor, a minha resposta foi negativa, uma atitude que deriva de eu saber que a cultura daquele continente é demasiado diferente da minha, carecendo de muitos anos de leitura antes que possa começar a compreendê-la. É por isso que, em vez de turismo, gosto de voltar aos sítios onde me sinto em casa. Nesta lista, Hay-on-Wye tem um lugar cimeiro. Aliás, em poucos locais fui tão feliz quanto aqui. O prazer que me assaltava quando em criança, antes de iniciar um ano lectivo, me deslocava a uma papelaria, a fim de adquirir lápis, borrachas e cadernos, ressuscita mal lá chego. Tal é a minha excitação que, na primeira noite, nunca consigo dormir.

[...]

Apesar de a maior parte das livrarias de Hay-on-Wye fecharem depois do horário normal, há que preencher as noites. Não é difícil: entre a elaboração da lista de obras a adquirir no dia seguinte e as canecas de cerveja bebidas no Old Black Lyon, o sono não tarda. Se, na primeira noite, se sentir tão frenético quanto eu, lembre-se que o sol se levanta todas as manhãs e que os livros nunca hão-de fugir de Hay-on-Wye.»

Maria Filomena Mónica, Passaporte, Alêtheia Editores, 2009.


sábado, 28 de abril de 2012

Sábados

Gostava tanto de ter um daqueles Sábados em que se acorda, faz-se alguma ronha na cama antes do momento de levantar e devorar um belo pequeno-almoço e em que, depois, se jibóia durante o resto do dia, com uma alegria enorme por ser esse um dia em que o trabalho fica de fora. Contudo, os meus Sábados são SEMPRE dias de preparar as aulas da semana seguinte, de corrigir trabalhos e testes e de preparar materiais para os alunos. Isto chateia um bocado, admito, porque enquanto todos se divertem e dedicam o tempo ao que não podem fazer durante a semana, eu estou fechada, enfocinhada no meio de livros escolares e a escolher os caminhos que os alunos vão trilhar durante a semana.

Aguardo ansiosamente as férias de Verão. Melhor: conto os dias para as férias de Verão como se a minha vida dependesse disso!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Voltas pela Feira IV

E pronto, a terceira voltinha já está e deu nisto:


Quando era pequenita recebia muita banda desenhada. Era a maior fã do Calvin & Hobbes (adoro, adoro, adoro) e também gostava muito de Asterix e Estrumpfes. Mas depois fui crescendo e fui parando de receber livros de quadradinhos. Normalmente também não os compro porque os acho muito caros (sim, sou daquelas que mede o preço pelo número de páginas. Processem-me.). Contudo, hoje lá resolvi comprar dois volumes de Níquel Náusea que são cartoons capazes de nos deixarem com dores nas bochechas de tanta graça que têm.

Fica, desta forma, a faltar-me uma voltinha à feira para comprar um livro de que vou precisar para a escola e que será livro do dia em breve. Ainda assim, vamos lá ver se resisto a voltar lá apenas mais uma vez. É que ficaram lá uns Asterixezitos a cinco euros e umas Isabeis Allendes também a esse preço, que me aquecem muito muito este meu pobre coração. Ai o que eu gosto da Feira do Livro, senhores!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

S. Pedro e os livros

Decididamente o S. Pedro achou giro mandar-nos um Inverno sem chuva e uma Primavera sem sol. Até tenho pena dos senhores da Feira do Livro de Lisboa: é que parece que isto vai continuar assim por mais uma série de dias... Até o santo é contra os livros, que é que se pode fazer?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Voltas pela Feira III

Hoje na Feira do Livro descobri uma série de acessórios para livros (sim, tal coisa existe) de que só mesmo uma viciada como eu gostaria. Trouxe de lá esta pecinha em plástico que serve para manter os livros abertos na página que queremos. Já tinha ouvido falar disto, mas nunca havia visto à venda. Pois cá está e parece que resulta. Veremos se passamos a ser bons amigos.

25 de Abril


O que seria de nós sem este dia? Hoje não vivemos completamente felizes e contentes, mas viveríamos certamente muito pior se este dia não tivesse acontecido.

Não vivi o 25 de Abril: faço parte da geração que aprendeu na escola em que consistiu a chamada «Revolução dos Cravos». Todavia, sempre que penso nesta data nunca consigo evitar uma ideia que me parece lindíssima: só mesmo num país de poetas se poderia fazer um golpe militar sem tiros, mas com flores. O nosso país foi, no dia 25 de Abril de 1974, um poema vivo que importa recordar e amar.

Voltas na Feira II

Ora e até agora a colheita na Feira do Livro vai sendo assim:


Não me parece mal tendo em conta que abriu ontem. Brevemente farei a terceira voltinha. Só espero que seja com menos chuva porque hoje foi terrível...

Em Abril águas mil...

É incrível como todos os anos acontece o mesmo: no dia em que planeei ir à Feira do Livro e passar a tarde por lá a virar aquilo tudo, pumba, sai-me chuva. Mas é que acontece toooodos os anos! Só para que se veja, no ano passado, num dos dias em que fui, andei por lá de chapéu de chuva e noutro dia em que fui sozinha houve uma tempestade de tal violência em Lisboa que tive de voltar de taxi para casa. Ao chegar à minha zona deparei-me com inundações, pilhas de gelo com metade da minha altura e prédios cujas claraboias haviam desabado.

Diz-se que «boda molhada é boda abençoada». Quanto à Feira do Livro custa-me um pouco a acreditar que assim seja, até porque as vendas reflectem, certamente, este tempo fabuloso. Ora, eu até nem faço parte do coro de vozes que pragueja muito contra a antecipação da Feira para o mês de Abril. Sempre apreciei a mudança, até porque aqueles dias de Junho em que a roupa já se cola a pele devido ao calor tornavam a subida do Parque Eduardo VII um suplício. Agora, também já me parece um exagero que TODOS os anos andemos no mesmo: chuva, chuva, chuva e toda a gente a berrar que não se vende porque chove. Minha gente, antecipem a Feira que eu acho muito bem, mas se calhar Abril não é, mesmo, uma boa ideia. Maio é bem bonito. Que tal?

terça-feira, 24 de abril de 2012

Na FLUL

Fui pela segunda vez convidada para ir falar a um seminário de formação de professores. Já tinha ido em 2010 e voltei a ir hoje. Também eu, em tempos de mestrado, frequentei aqueles seminários e, por isso, nunca me imaginei a ter neles o papel de convidada que vai falar do seu trabalho e daquilo que sabe aos futuros professores (alguns mais velhos do que eu). Mas a verdade é que das duas vezes em que o fiz fiquei muito satisfeita por perceber que já tenho qualquer coisa para partilhar e que, de algum modo, contribuo para a formação dos meus colegas. E mais: o facto de o poder fazer na casa que me formou e que me deu as ferramentas necessárias para hoje conseguir dar aulas nas escolas e, ainda, partilhar conhecimentos com os alunos do Mestrado em Ensino deixa-me duplamente satisfeita. A Faculdade de Letras de Lisboa (com quem tanto me irritei) deu-me muito e a palestra de hoje foi a minha modesta forma de lhe agradecer.


Voltas na Feira I

E já está: a primeira ida à Feira do Livro já aconteceu. É verdade que só visitei metade porque em determinado momento o cansaço venceu a vontade de folhear uns livritos novos. Contudo, consegui dar início ao campeonato «Vamos-lá-ver-quantos-livros-novos-arranjas-este-ano-e-onde-raio-os-vais-arrumar». Por cinco módicos euritos trouxe para casa um volume do senhor Balzac que não tem espaço em prateleira nenhuma, mas que eu prometo fazer feliz, amar e respeitar, na saúde e nos ataques de traças. Amén.


Nota: Imagem retirada da página da WOOK.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro


Diz-se que no dia 23 de Abril de 1616 terão morrido dois génios da literatura: Cervantes e Shakespeare. Se sobre o primeiro não restam grandes dúvidas, quanto ao segundo há quem diga que não morreu nesta data. Seja como for, o vigésimo terceiro dia do mês de Abril é dedicado aos livros e à leitura o que, diga-se, vai já sendo tema raro nas conversas deste mundo.

Eu cá vou fazendo a minha parte: todos os dias tento que os meu alunos, dos mais novos aos mais crescidos, olhem para os livros com bons olhos, que os queiram e os procurem. Na maior parte do tempo sinto-me como se chovesse em chão molhado, mas por vezes lá vejo uma ou outra atitude que me leva a crer que ainda há esperança. Custa-me muito que as pessoas não leiam e não percebam a importância desse acto. Muitos são os que teriam gostado de aprender a ler e que não o puderam fazer, mas acho que são ainda mais os que, tendo aprendido, ignoram essa competência por acreditarem que não tem qualquer serventia. Os livros lá vão ficando nas prateleiras, à espera de olhos que os queiram olhar, de dedos que os queiram folhear. São pacientes e fiéis: aguardam-nos durante séculos.

Nos livros está tudo. E se é certo que hoje muito do que se publica não merece a nossa atenção, também é verdade que não faltam livros de hoje e de outros tempos cheios de qualidade e que merecem leitores. Assim sendo deixo-vos um recado: a partir de amanhã estará aberta a 82.ª Edição da Feira do Livro de Lisboa e lá será possível encontrarem-se livros para todos os gostos, dos mais canónicos aos mais light. Ali estará um mundo de papel à nossa espera. Para mim é mesmo o melhor acontecimento da cidade de Lisboa, por isso irei logo que possível. Espero encontrar-vos por lá!

Entretanto, vão lendo. Eu continuo com o livro Terra do Pecado. E vocês, o que andam a ler?...

Praxes fora de época

Alguém me consegue explicar por que razão uma boa dúzia de universitários do primeiro ano estavam hoje, junto ao Centro Comercial Colombo, a ser praxados por uns cinco ou seis colegas trajados a rigor? É que ou eu estou muito desnorteada ou já estamos quase no final de Abril. E se a memória não me atraiçoa, as aulas costumam acabar no final de Maio, logo as praxes, nesta altura do campeonato, já não fazem muito sentido (como se alguma vez fizessem...). No início do ano, a coisa ainda se entende: funcionam como uma espécie de recepção totó aos novos alunos, mas no fim serve para quê? Para os supostos «veteranos» se divertirem mais um bocado? Só pode.

Na minha modesta opinião, o que esta gente tem é muito tempo livre. No meu tempo, em Abril, estudava-se.

domingo, 22 de abril de 2012

Já lá vão 10 000


É com todo o prazer que anuncio que o blogue «As Minhas Quixotadas», que é um menino com menos de seis mesinhos, chegou às dez mil visitas. Já agradeci várias vezes aos que por aqui passam quase diariamente para espreitar o que vai havendo de novo, mas faço-o hoje novamente.
 
 
Este blogue tem dias: dias em que estou demasiado cansada para escrever, dias em que tenho coisas alegres para contar, dias em que falo de livros (quase todos), dias em que reclamo com o universo, entre muitos outros. Mas o que este espacinho tem de melhor é mesmo o facto de haver sempre alguém que pára para ler o que escrevo. Mais: haver gente que lê e deixa a sua pegada com comentários sempre simpáticos e que me fazem ter mais vontade de vir aqui largar mais umas «quixotadas». Ora, assim sendo, fico muito agradecida por cada uma destas dez mil visitas catitas. Foi um gosto.