Hoje passeava-me pelos blogues do costume e por mais alguns em que vou tropeçando alegremente e a determinada altura começou a surgir-me uma questão que não sei se também atormenta os quixoteiros que param aqui nesta esquina da blogosfera. A minha pergunta é a seguinte: como é que estas meninas que passam a vida a cuidar da imagem têm tempo/paciência (e ia acrescentar dinheiro, mas é preferível não o fazer) para passar a vida em salões de cabeleireiro, massagistas (está bem, essas aguentam-se facilmente...), manicures, pedicures e o diabo a sete? Não o pergunto por mal, nem para escarnecer de actividades que por vezes me parecem excessivas, mas sim porque para mim passar quatro horas no cabeleireiro a arranjar as madeixas é uma tortura. Aliás, no que toca a manicures, pedicures, depilações e afins, procuro tratar de tudo em casa, por minha conta, que sempre sai mais baratito (e ao mesmo tempo posso ir ouvindo como ruído de fundo os desenhos animados que a RTP2 passa todos os dias).
Fui pensando nisso e do tempo e da paciência comecei a entrar pelo caminho dos resultados. Sim, acredito que as pessoas que cuidam assim tão afincadamente da imagem tenham muito melhor aspecto do que eu, cujo grande luxo são as madeixas no cabeleireiro. Contudo, não será demasiado? Não andarão as pessoas a perder demasiado tempo a montar uma imagem que, no final de contas, se desmonta em peças e tem como resultado uma pessoa completamente diferente? Não andaremos a fugir em demasia daquilo que somos? Não digo, obviamente, que deixemos de nos cuidar e que comecemos a parecer meninas das cavernas, mas pelo que vou vendo na blogosfera, parece-me que isto da aparência exterior está muito sobrevalorizado. Perigosamente sobrevalorizado, aliás. São as roupas da moda (moda essa que está sempre a mudar e que nos vai obrigando a puxar da carteira mais vezes do que gostaríamos), são os tratamentos estéticos milagrosos, são as unhas de gel e as cores quentes e frias, são as mil e uma coisas que se podem fazer com o cabelo, são as aplicações disto e daquilo ali e além, são tantas coisas a pedir manutenção que às tantas parecemos carros a precisar de inspecções periódicas e de quem dê uma mãozinha para afinar isto tudo.
Enfim, como em tudo na vida, quem gosta e pode faz e quem detesta e não pode fica quieto. Tudo isto só é possível porque cada vez mais o ser humano quer atingir uma espécie de perfeição (pelo menos externa) e, portanto, as pessoas submetem-se ao que tem de ser para lá chegarem. A mim parece-me tudo demasiado exagerado, tanto do ponto de vista do tempo que se gasta nestas tarefas e que tanta falta faz para outras que julgo mais produtivas (mas, lá está, cada um gere o seu tempo e cada um sabe de si), quanto dos recursos gastos a montar uma mulher fantástica que na realidade é um amontoado de peças da indústria estética. E com isto a simplicidade perde-se e ganha terreno, muitas vezes, a futilidade e o que não interessa para nada.
Com isto lembrei-me de uma história que faz parte de O Principezinho em que um comerciante lhe tenta vender umas pílulas e em que a simplicidade se perde (embora aqui seja com o objectivo de economizar tempo). Deixo-a aqui.
« - Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas aperfeiçoadas que acalmam a sede. Toma-se uma por semana e deixa-se de sentir qualquer necessidade de beber.
- Por que é que vendes isso? disse o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o mercador. Os peritos fizeram as contas. Poupam cinquenta e três minutos por semana.
- E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
- Faz-se aquilo que se quer...
"Eu, disse para si mesmo o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia muito lentamente para uma fonte..."»
Saint- Exupery, Antoine (1996). O Principezinho. Lisboa: Relógio D'Água.