segunda-feira, 5 de março de 2012

Grande verdade


Grande verdade em mais um magnífico cartoon de Alberto Montt, que esteve de férias, mas que já voltou a desenhar estas pérolas.

Notinha: Conheço tanta cabeça vazia...

Coisa mais estranha

Ontem assisti a uma reportagem num noticiário que me deixou arrepiadíssima. Parece que agora existem uns bonecos que pretendem assemelhar-se a bebés verdadeiros e cujos rostos são esculpidos de acordo com o gosto de quem os vai adquirir. O próprio material de que são feitos pretende ser o mais próximo possível daquilo que seria o corpo de um bebé. Mas o pior é o público a quem isto se dirige: consiste em mulheres adultas que queiram, julgo eu, reviver as alegrias de ter um bebé a sério.

A reportagem apresentou a dona de uma dessas bonecas e a coisa ficou ainda mais esquisita, já que a senhora andava com a boneca ao colo e olhava para ela embevecidíssima, dizendo que tinha um gosto pela boneca que nem sabia explicar! Não sei se aquela senhora encaixava no que vou dizer, mas fiz uma pequena pesquisa na internet e percebi que há até quem passeie estes bonecos pela rua, dentro de carrinhos como os que usam os bebés de carne e osso. Mas mais: um boneco daqueles pode chegar a custar quinhentos euros, na medida que é todo esculpido ao gosto da cliente. Tem lógica: se os filhos nos podem calhar feios, Deus nos livre de que um boneco de quinhentos euros seja menos do que lindíssimo!

Na reportagem apareceu, também, o psicólogo clínico Eduardo Sá, que eu geralmente acho demasiado benevolente com tudo. Todavia, até ele achou a coisa um bocado esquisita e chegou a afirmar que quando estes bonecos surgem para colmatar processos de luto, então a coisa entra mesmo no domínio do mórbido.

Há uns tempos tinha visto uma reportagem parecida num canal por cabo. Nessa altura, falou-se de homens que em vez de arranjarem companheiras de carne e osso, compravam, por quantias exorbitantes, bonecas que procuravam imitar o corpo feminino. Eram feitas num material que pretendia parecer pele, o cabelo era humano e as proporções eram as de uma mulher comum. O que esses homens faziam era o que as mulheres que compram os «reborn babies» fazem: dar-lhes um nome e tratá-los como se de seres humanos se tratassem. Lembro-me de algumas imagens da reportagem em que um homem sentava a sua boneca no banco do pendura e passeava com ela de automóvel. Chegavam a um parque e ele sentava-se ao lado dela num banco, apreciando a paisagem.

Enfim, que vivemos numa sociedade onde a solidão é o prato que mais se serve, ninguém dúvida. Contudo, esta substituição de relações humanas por relações artificiais não me parece nada saudável. Uma coisa é ser-se criança e brincar às bonecas, recriar o mundo através da vida da Barbie e amigas. Outra coisa é ser-se adulto e tratar objectos inanimados como se de seres humanos se tratassem. Todos nós temos objectos que adoramos, que protegemos, que guardamos com carinho. Daí a andarmos aos beijos a eles e a levá-los a passear vai um passo de gigante! Os próprios anúncios a estes bonecos (encontrei vários na internet) são assustadores, pois prometem um «bebé quase real». Perdão? Aquela parte a que chamam «quase» é suficiente para se fazer a diferença entre um ser humano e um boneco. Por muito que tentem que o boneco tenha uma superfície macia, aquilo nunca será pele. Por muito que recriem as manchinhas na pele que os recém-nascidos apresentam, aquilo jamais será um bebé. E por muito que as respectivas donas os vistam e dispam, mudem fraldas, passeiem ou perfumem, nunca receberão qualquer tipo de apreço ou reconhecimento porque aquilo não passa de um boneco. É, aliás, tão boneco quanto aqueles com que todas brincámos em crianças. A diferença é que nós estávamos na idade em que ainda podíamos achar que aquele pedaço de plástico era mesmo um bebé.

As encomendas

Hoje o senhor carteiro tocou mesmo duas vezes para me trazer duas encomendas. O total são três livrinhos novos. Embora um deles seja um manual escolar, tendo em conta o que faço da vida, também é uma chegada apreciada.

Os dois romances são o resultado da promoção de 29 de Fevereiro da Wook. E com isso ajudei a abater os pedidos de um par de «A Menina Quer Isto».

domingo, 4 de março de 2012

Compras de Domingo no alfarrabista

Hoje trouxe estes para casa. Já li e já tinha O Monte dos Vendavais, mas a edição era tão má que vou mesmo mandá-la fora (e acreditem que para eu fazer isso a um livro é porque a edição é, efectivamente, para lá de péssima). Andava, também, com vontade de conhecer a escrita do senhor Fernando Campos e este livro, que estava a bom preço, veio a calhar. O outro é uma biografia de Cervantes. Não conheço o autor, por isso vamos lá ver o que sai dali...


O tempo

Hoje passeava-me pelos blogues do costume e por mais alguns em que vou tropeçando alegremente e a determinada altura começou a surgir-me uma questão que não sei se também atormenta os quixoteiros que param aqui nesta esquina da blogosfera. A minha pergunta é a seguinte: como é que estas meninas que passam a vida a cuidar da imagem têm tempo/paciência (e ia acrescentar dinheiro, mas é preferível não o fazer) para passar a vida em salões de cabeleireiro, massagistas (está bem, essas aguentam-se facilmente...), manicures, pedicures e o diabo a sete? Não o pergunto por mal, nem para escarnecer de actividades que por vezes me parecem excessivas, mas sim porque para mim passar quatro horas no cabeleireiro a arranjar as madeixas é uma tortura. Aliás, no que toca a manicures, pedicures, depilações e afins, procuro tratar de tudo em casa, por minha conta, que sempre sai mais baratito (e ao mesmo tempo posso ir ouvindo como ruído de fundo os desenhos animados que a RTP2 passa todos os dias).

Fui pensando nisso e do tempo e da paciência comecei a entrar pelo caminho dos resultados. Sim, acredito que as pessoas que cuidam assim tão afincadamente da imagem tenham muito melhor aspecto do que eu, cujo grande luxo são as madeixas no cabeleireiro. Contudo, não será demasiado? Não andarão as pessoas a perder demasiado tempo a montar uma imagem que, no final de contas, se desmonta em peças e tem como resultado uma pessoa completamente diferente? Não andaremos a fugir em demasia daquilo que somos? Não digo, obviamente, que deixemos de nos cuidar e que comecemos a parecer meninas das cavernas, mas pelo que vou vendo na blogosfera, parece-me que isto da aparência exterior está muito sobrevalorizado. Perigosamente sobrevalorizado, aliás. São as roupas da moda (moda essa que está sempre a mudar e que nos vai obrigando a puxar da carteira mais vezes do que gostaríamos), são os tratamentos estéticos milagrosos, são as unhas de gel e as cores quentes e frias, são as mil e uma coisas que se podem fazer com o cabelo, são as aplicações disto e daquilo ali e além, são tantas coisas a pedir manutenção que às tantas parecemos carros a precisar de inspecções periódicas e de quem dê uma mãozinha para afinar isto tudo.

Enfim, como em tudo na vida, quem gosta e pode faz e quem detesta e não pode fica quieto. Tudo isto só é possível porque cada vez mais o ser humano quer atingir uma espécie de perfeição (pelo menos externa) e, portanto, as pessoas submetem-se ao que tem de ser para lá chegarem. A mim parece-me tudo demasiado exagerado, tanto do ponto de vista do tempo que se gasta nestas tarefas e que tanta falta faz para outras que julgo mais produtivas (mas, lá está, cada um gere o seu tempo e cada um sabe de si), quanto dos recursos gastos a montar uma mulher fantástica que na realidade é um amontoado de peças da indústria estética. E com isto a simplicidade perde-se e ganha terreno, muitas vezes, a futilidade e o que não interessa para nada.

Com isto lembrei-me de uma história que faz parte de O Principezinho em que um comerciante lhe tenta vender umas pílulas e em que a simplicidade se perde (embora aqui seja com o objectivo de economizar tempo). Deixo-a aqui.

« - Bom dia, disse o principezinho.
  - Bom dia, disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas aperfeiçoadas que acalmam a sede. Toma-se uma por semana e deixa-se de sentir qualquer necessidade de beber.
  - Por que é que vendes isso? disse o principezinho.
  - É uma grande economia de tempo, disse o mercador. Os peritos fizeram as contas. Poupam cinquenta e três minutos por semana.
  - E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
  - Faz-se aquilo que se quer...
"Eu, disse para si mesmo o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia muito lentamente para uma fonte..."»

Saint- Exupery, Antoine (1996). O Principezinho. Lisboa: Relógio D'Água.



 

sábado, 3 de março de 2012

Vai uma voltinha?

Li agora uma notícia da revista Visão que dá conta de uma montanha russa prestes a ser inaugurada no Reino Unido que, no momento dos testes de segurança, desfez os manequins utilizados. Pelo que é dito, arrancou-lhes membros e deixou-os feitos numa miséria. Pediu-se, depois, a uns corajosos pilotos para que testassem a infra-estrutura. Estes, no final, deram o seu testemunho sobre uma viagem angustiante, com várias tangentes e a parecer «que iam colidir com as estruturas».

Bem, eu sei que a ideia é a de que uma montanha russa seja vertiginosa, que provoque descargas de adrenalina e que deixe as pessoas meio enlouquecidas, mas não sabia que era suposto arrancar braços e pernas! A mim não me dava jeito nenhum ficar sem cabeça a meio de um looping, nem lamber os carris a meio da voltinha. Só me pergunto é como raio os pilotos aceitaram o pedido para testarem a boa da diversão, depois de os manequins de TESTE terem voltado como se tivessem tido um encontro com meia dúzia de rottweillers em fúria. Vá-se lá entender...

Crises

Ontem soube de um problema pelo qual uma aluna está a passar e fiquei de queixo caído. No fundo, boa parte das dificuldades são financeiras e devem-se à situação que estamos a viver em Portugal. O problema maior é que se partiu de uma vida demasiado privilegiada, com tudo aquilo que possam imaginar, com acesso a tudo o que o dinheiro pode comprar, para uma situação em que já vai faltando o mais básico.

Enfim, tudo isto é chocante porque convivemos com estes miúdos e não sabemos (não temos como) o que se passa na vida deles quando saem da escola. E por muito que já sejam crescidos e que possam tentar ajudar arranjando um trabalho em part-time, da revolta já não se livram. E é aqui que alguns miúdos e miúdas se perdem se não forem agarrados como aquela, felizmente, está a ser. Aquilo que ela, que sempre teve muito mais do que aquilo que eu poderei imaginar vir um dia a ter, está a passar é um fruto do tempo e não é, como bem se sabe, a única a sofrer pelos cortes salariais, encerramentos de empresas, dívidas que se amontoam e dinheiro que de súbito deixa de entrar.

Todavia, não vivemos só uma época de desgraça financeira. Atravessamos, também, uma profunda crise de valores que se comprova pelo modo como um dos membros da família da referida aluna conseguiu aumentar o problema, ao arranjar outra mulher, desligando-se do resto da família. Assim, aqueles miúdos acrescentam às dificuldades financeiras a visão do desmoronamento de uma relação que ainda os ia amparando. Como é óbvio, estão revoltadíssimos e precisam de apoio. Mas de onde ele mais devia vir, é de onde chegam os maiores problemas.

A Troika, o Passos Coelho, a senhora Angela Merkel podem tentar arrumar-nos a casa do ponto de vista das contas, mas cabe-nos a nós arrumá-la do ponto de vista dos valores. A um problema que já é gigante, não se deve somar outro igualmente grande e que empata bastante a resolução do primeiro. Por muito que se imponham medidas de austeridade, elas nunca poderão levar-nos a evitar atitudes que demonstram a profunda crise de valores em que estamos mergulhados. E enquanto os adultos andam nisto, dão o pior dos exemplos aos mais novos, que crescem vendo que tudo é possível e natural. Se quem os devia educar pode, no meio de um problema já demasiado grave, arranjar mais problemas e mostrar que se pode tudo, então a lição que eles tirarão será a pior e depois não haverá escola nenhuma que consiga repor os valores que pelo caminho se perderam. Já alguém o disse e eu concordo: vivemos duas grandes crises, a económica e a dos valores. Estamos a tentar que uma se resolva, mas e a outra?

sexta-feira, 2 de março de 2012

A espátula

Estão a ver aquelas espátulas que usamos para virar ovos e hamburgueres e coisas afins? Pois bem, amanhã para me arrancarem da cama terão de usar isso e duas dúzias de baldes de água porque me parece que de outra forma não sairei de lá. Este corpinho santo tem uma canseira tão grande em cima que acho que ela até cartão do cidadão deve ter para atestar a sua existência!

Nota: E depois de ser descolada da cama, espera-me um Sábado cheio de trabalhinho. Ai vida, vida...

Um bom exemplo

Hoje ouvi a melhor história da semana, do mês e provavelmente do ano. Uma pessoa que conheço bem comprou um telemóvel que não tinha acentos agudos nas vogais "a" e "o". Insatisfeita, e em vez de se conformar, foi à loja e reclamou com a funcionária, dizendo que tinha comprado um telemóvel que a obrigava a dar erros ortográficos. A empregada olhava para a cliente como se estivesse perante o alienígena mais estranho da galáxia e lá lhe disse que os Blackberry também não têm acentos, ao que a dona do "telemóvel burro" respondeu que não lhe interessava porque não tinha nenhum Blackberry. Resultado da situação? A cliente insatisfeita trocou o aparelho que a obrigava a dar erros por um de outra marca que lhe permite a escrita irrepreensível pela qual é sobejamente conhecida (acreditem, é mesmo).

Adendazita que fica aqui a matar: O meu telemóvel também não permite pôr acentos agudos nessas letras e subitamente sinto-me muito burra...

A Menina Sugere Isto II

Hoje sugiro um livro de um Prémio Nobel da Literatura: Mário Vargas Llosa. Quando era mais nova, vi uma edição oferecida por uma revista na montra de uma papelaria e o título do livro interessou-me. A Tia Júlia e o Escrevedor tem hoje uma capa muito mais bonita e uma edição mais cuidada (regalias que o Nobel confere) e é um livro que enlouquece.

Marito gostava de ser escritor, mas apenas lhe cabia um modesto trabalho na rádio Pan-Americana onde devia recortar as notícias interessantes que saíam nos jornais, dar-lhes um ar pomposo para que fossem lidas como se fossem da autoria daquela estação. Nos tempos livres, Marito gostava de ir até à Rádio Central, que funcionava na mesma rua e que pertencia ao mesmo dono, ainda que tivesse umas instalações muito pobres e proporcionasse uma programação muito diferente daquela em que trabalhava. Ligavam pouco às notícias e davam primazia à música peruana. Contudo, o prato forte dessa estação eram mesmo as peças radiofónicas, compradas ao quilo sem qualquer critério e sem serem lidas antes da aquisição. O dono da rádio confiava aos seus santinhos o milagre de cada peça compensar com audiências o dinheiro gasto. Por vezes, no transporte, perdiam-se capítulos inteiros e como ninguém se dava ao trabalho de ler aqueles setenta quilos de papel antes de se iniciar a transmissão, muitas vezes tinham de remendar os seus buracos à última hora.

No dia em que Marito vê a tia Júlia, por quem se apaixona, ouve falar de Pedro Camacho, famosíssimo e conceituadíssimo autor de peças radiofónicas e contratado pela estação onde trabalha. A partir daí, o que acontece no livro é que um capítulo será dedicado às peças de Pedro Camacho e o seguinte à vida de Marito, e assim sucessivamente até ao final da obra. Com o avançar da leitura, vamo-nos apercebendo de que alguma coisa se passa com Pedro Camacho, pois as personagens das suas novelas radiofónicas começam a misturar-se, a ressuscitar, a contradizer-se... E para saberem por que razão isso acontece, leiam o livro.


Deixo-vos o início do texto, retirado da edição que tenho em casa e não desta cuja capa aqui deixo. Espero que vos aguce a curiosidade.

«Nesse tempo remoto, eu era muito jovem e vivia com os meus avós numa quinta de paredes brancas da Rua Ocharán, em Miraflores. Estudava em San Marcos, Direito, creio, resignado a mais tarde ganhar a vida com uma profissão liberal, ainda que, no fundo, tivesse gostado mais de chegar a ser um escritor. Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas, horário elástico: director de informação da Rádio Pan-Americana. Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual. Havia noticiários de hora a hora, de um minuto cada, excepto os do meio-dia e das nove, que eram de quinze, mas nós preparávamos vários ao mesmo tempo, de modo que eu andava muito na rua, a tomar cafezinhos na Colmena, às vezes ia às aulas, ou então estava nos escritórios da Rádio Central, mais animados do que os do meu trabalho.»

Hoje hibernava com gosto

Hoje começo a dar a Mensagem ao 12.º ano e apetece-me hibernar já. No ano passado tinha uma turma genial e foi o cabo das tormentas para lhes meter aquela história do texto épico-lírico na cabeça. Este ano vai ser ainda pior porque eles nem a mitificação do herói n'Os Lusíadas perceberam. E não foi por falta de insistência: vimos fichas e textos e episódios e o diabo a sete. Foi por várias razões, a começar pelo facto de eles acharem logo de início que tudo é difícil e que não vão perceber nada. O resultado é que não percebem mesmo e, se alguns até se esforçam para mudar isso, outros baixam logo os braços em atitude de desistência. São, quase de um modo geral, incapazes de tentar pensar pelas suas cabeças, mesmo estando fartos de ver textos parecidos que permitem interpretações semelhantes à que se lhes pede agora. Não entendem a língua que falam e mesmo assim acham por bem não ler nada, porque ler é «seca». Não sei onde isto vai dar, mas não me parece que dê em nada de bom.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Escritores brasileiros

Durante os anos de Licenciatura tive algumas cadeiras ligadas à cultura e à literatura brasileiras, o que me permitiu ficar com umas luzinhas sobre a história literária e alguns aspectos culturais de um país tão ligado ao nosso. Já antes de ter essas aulas havia lido obras de autores brasileiros, principalmente de Jorge Amado e tinha gostado. Apreciava, principalmente, o constante humor que passeava pelas linhas das páginas, a criação de personagens e de situações caricatas que não diminuíam a qualidade do texto (há quem julgue que só o que é sério é bom), mas que só o enriqueciam.

Um dos meus livros favoritos é um dos mais conhecidos livros brasileiros: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, cuja escrita é perfeita e os temas abordados muitíssimo actuais, ainda que a acção do romance que passe pouco depois do início do século XX. É um texto que se lê sem qualquer dificuldade e que nos deixa sempre a impressão de que é preciso pensar sobre o que o livro nos está a dizer. É uma história que, realmente, deixa marca e não se deixa esquecer.

Gosto muito, também, de Machado de Assis e acho mesmo que é um dos maiores escritores de língua portuguesa (para não dizer universal) de todos os tempo. Tanto o Memórias Póstumas de Brás Cubas, que estudei na faculdade, como o Dom Casmurro, que li depois, me parecem duas pérolas literárias que todos devíamos ter a obrigação de ler. O primeiro é narrado por um homem morto que vai contando a sua vida. O segundo é o responsável por uma das grandes questões da literatura: terá Capitú traído Bentinho? Este é o nome da personagem principal, apaixonado desde criança por uma vizinha a quem chama de Capitú. Casam, são felizes, têm um filho, mas a dada altura ele mete na cabeça que o filho é parecídissimo com o seu  melhor amigo e rapidamente conclui que foi traído pela mulher. Consumido pelo ódio, despacha a esposa e o filho para longe e fica sozinho, surdo para tudo o que lhe dizem, como bom casmurro que é (e a justificar o título da obra). No fim o leitor fica com a dúvida: ela foi ou não infiel? Rios de tinta já correram sobre o tema, mas nunca se saberá se a boa da Capitú andou na «sacanagem» com o amigo do marido. Eu cá acho que não, mas com aquela história as coisas passam-se assim: cada leitor formula a sua opinião sabendo que nunca esclarecerá a questão.

Já disse que adoro o humor com que os brasileiros aquecem as suas histórias. No outro dia ri-me ao ler um conto também de Machado de Assis em que durante a noite, numa igreja, os santos abandonam os altares e se põem à conversa uns com os outros fazendo uma enorme galhofa ao recordarem os devotos que os visitaram durante o dia e as promessas que fizeram. Nessa altura pensei que os autores do outro lado do Atlântico têm uma tara com santos que fazem o que lhes dá na gana, já que o Jorge Amado tem um romance fabuloso em que uma santa, transportada num andor, a dada altura arregaça a saia para libertar os movimentos e desaparece a correr dali para fora. O título deste livro é O Sumiço da Santa e relata a busca pela imagem que resolveu sumir no mundo. Deste autor sou, ainda, grande fã dos romances Tieta do Agreste e Dona Flor e os Seus Dois Maridos. Ali à minha espera para ser lido está o Farda, Fardão, Camisola de Dormir que me parece um belíssimo bombom.

E se falo de literatura brasileira, não posso deixar de falar no Monteiro Lobato que criou aquela ternura que é O Sítio do Picapau Amarelo e que todos temos como uma das memórias televisivas da nossa infância. Gosto bastante dos textos desta colecção, mas ainda gosto mais da adaptação que fez do D. Quixote de la Mancha, a que chamou O Dom Quixote das Crianças. Foi, felizmente, um autor preocupado com a chegada dos clássicos às mãos dos mais novos e que, ao trabalhar numa editora, se mexeu para que isso acontecesse, não só com o texto de Cervantes, mas também com outros.

Enfim, são muitos os autores e as autoras (recordemos a escritora Clarice Lispector que verá a sua obra completa brevemente publicada em Portugal) que compõem a história da literatura brasileira. Se para uns a literatura desse país começou a partir do achamento do Brasil em 1500, para outros só começou depois de 1822, quando D. Pedro declarou a independência nas margens do Ipiranga. Seja como for, com mais ou com menos anos de história literária, parece-me que quanto ao Brasil não é o tempo que importa, mas o que fizeram com ele. E nisso o resultado é inegável: em termos literários foram fantásticos e produziram textos que só por pura ignorância podem ficar por ler.

7000

Neste momento, o blogue «As Minhas Quixotadas» já foi visitado 6999 vezes em quase quatro meses. Quem fará a visita número 7000? Tan tan tan taaaaan...

Nota: O próximo que chegar, que se manifeste!

Ciúmes

Hoje comecei a dar aulas numa nova turma e, sem saber, este facto agastou os alunos que já tenho há mais tempo. É que estes, que até então eram os únicos que tinha naquela escola, ficaram com ciúmes por terem de me dividir com a nova turma. Portanto, antes da minha primeira aula aos novos alunos, passei por um banho de «olhe que nós somos mais fofos, professora», «olhe que quando tiver rebuçados para dar, são para nós, professora», «nós somos mais fixes, professora», «não pode gostar mais deles do que de nós, professora», da parte dos alunos que já tinha. Isto acompanhado de uma perseguição que engrossou depois da aula à nova turma. Quando esta terminou, vi que tinha à porta as meninas da turma antiga mortinhas por saberem «quais eram os mais fofos: elas ou os novos miúdos?».

Bom, a ciumeira era tanta que me acompanharam até ao portão da escola e, quando eu disse que parecia que ia chover, fizeram uma espécie de telhado com as mãos de modo a taparem-me a cabeça (não sou lá muito alta, não...). Eu disse-lhes que andavam com falta de mimo e o resultado foi um abraço de grupo (juro!). Finalmente, uns vinte minutos depois, lá consegui sair da escola (parecia que tinha atravessado um campo de batalha, de tão difícil que tinha sido o percurso) e tive de as obrigar a ficarem lá dentro, senão acho que vinham comigo para casa.

Já assisti a muitos ataques de ciúmes, mas assim e por causa de uma professora que conhecem há dois meses foi a primeira vez. Não sei se morra de riso, se me preocupe ou se me sinta muitíssimo lisonjeada. Talvez as três coisas sejam adequadas...

Coisas que odeio XIII

Ah, a calçada portuguesa... A calçada portuguesa, tão lindinha e tradicional. Que bonita! Só é pena ser irregular e escorregadia, esburacada e perigosa. Não sei quem a inventou, mas sei que foi um excelente negócio para as pedreiras e que é um elemento da nossa cultura muitíssimo apreciado por quem nos visita, e tal... Agora, santa paciência, que lógica tem um chão que é muito bonito mas que, depois de chover (e mesmo quando está sequinho) se torna tão escorregadio como o gelo? E qual o sentido de andarmos sobre um pavimento que raramente é direito e que nos deixa os pés feitos numa papa, andemos nós de saltos altos ou de ténis? E por que raio os buracos que a falta de algumas pedras causam nunca são tapados e lá vão ficando, lindos e airosos, prontinhos a fazerem-nos ir de trombinhas ao chão?

Enfim, é uma daquelas coisas de que me custa falar mal por ser, efectivamente, bonita e um traço português que fomos deixando um pouco por todo o mundo. Ainda assim, não consigo evitar um certo ódio pela calçada portuguesa, principalmente quando ando a patinar em cima dela, a agarrar-me aos prédios para não me destrambelhar para o meio do chão. Para breve falarei dos paralelos, o meu outro inimigo, que degraçaram o metatarso do meu pé direito durante uma visita a Guimarães (cidade, a meu ver, campeã no uso desse flagelo de granito).