quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Quem Disser O Contrário É Porque Tem Razão - o balanço


Terminei hoje a leitura deste livro de Mário de Carvalho. Demorei mais porque só o lia nos transportes e, por longo que seja o caminho, as interrupções também são muitas e a coisa demora mais a despachar. Mas, finalmente, hoje cheguei ao fim e acho que, apesar de me ter aborrecido um bocadinho em algumas páginas (ainda que o autor fale dos temas seleccionados sempre com alguma piada), acabei por aprender bastante com este livro.

No fundo, o que aqui temos é um livro que fala sobre a literatura, sobre o que evitar quando se escrevem textos literários, sobre categorias da narrativa e bons exemplos, sobre pontuação, estilo, trabalho sobre o texto e, claro, maus exemplos. É, como está na capa, um guia sobre a escrita de ficção, uma espécie de manual para futuros escritores com conselhos que podem ser úteis. Contudo, também me pareceu que por vezes o autor assumia um tom demasiado paternalista que faz o leitor deste lado (eventual aspirante a escritor) sentir que está a ser entendido como se fosse um bocadinho apoucado. Mas, pensando mais um pouco, lêem-se tantas coisas tão mal escritas, que são de tal forma lixo que até consigo perceber que o autor deseje, pela sua experiência enquanto escritor e, sobretudo, leitor, mostrar os caminhos que devem ser evitados a todo o custo (como as frases feitas, por exemplo). Ora, passando um bocadinho por cima daqueles momentos em que parece que o "aspirante a autor" é um tonto, importa salientar a pertinência do título: é que Mário de Carvalho deixa a possibilidade de que outras teorias também estejam correctas. Ou seja: o livro apresentará os seus conselhos, a sua visão da literatura, mas tudo isto é subjectivo. O que serve para uns não serve para outros e se alguns conselhos fazem sentido para mim, essas mesmas sugestões podem não estar de acordo com os desejos literários de outros. Acima de tudo, estamos a lidar com alguma coisa que não é científica, que não resulta de uma lógica igual para todos. Falamos, fala-nos o autor, de literatura, matéria volúvel e querida de forma diferente por leitores/escritores distintos. Por isso, mesmo quando não concordei com o autor (e fi-lo apenas enquanto leitora, já que de escritora nada tenho), percebi as suas palavras e o seu ponto de vista. Rejubilei - e esse será um dos melhores aspectos do livro - com os exemplos que vai citando e que são sempre de autores já falecidos, para não ferir susceptibilidades (bem chegam as duas ou três farpas que lança aos autores de supostos romances históricos que resultam de uma pesquisa paupérrima e pejada de deficiências).

No fim de contas, aprende-se com este livro. São-nos apresentados conceitos que desconhecemos (alguns conhecia dos tempos de faculdade, mas eu passei anos e anos de vida em Letras...) e que ajudam a fazer luz sobre o que lemos. Percebemos qual é o trabalho de escrita que se encontra por trás dos seus livros. Ficamos mais cientes da sua metodologia e do modo como as leituras que fez e faz o moldam também enquanto autor. Fica, sobretudo, o conselho valioso de que para escrever importa olhar para o mundo, para as coisas à nossa volta e ver o que mais ninguém viu. É a novidade, é o pormenor nunca representado na escrita por nunca ninguém ter reparado nele que faz a literatura. A boa literatura, pelo menos. Só por isso vale a pena ler este livro de Mário de Carvalho. Mas atenção que se o latim não for o vosso forte, algumas expressões passar-vos-ão ao lado. Felizmente não são assim tantas.

1 comentário:

  1. Por acaso cruzei-me com esse livro numa prateleira visual, e chamou-me à atenção. Ainda não decidi se vou mandá-lo, também virtualmente, para a pilha =P
    ***

    ResponderEliminar